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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS-B


Sagrada Família de Jesus



31 de Dezembro de 2017

Cor: Branco

Evangelho - Lc 2,22-40


Hoje, a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. A liturgia nos convida a pensar na nossa vida familiar.  A pensar em como vai a nossa família hoje, diante de tantas ameaças, tantos inimigos, tanta catequese do mal que inverte os valores deixados por Jesus Cristo a respeito da união de dois corpos que os transforma em um só corpo e uma só carne.  Continuar lendo.



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“ELE SERÁ UM SINAL DE CONTRADIÇÃO” Olivia Coutinho


FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA!

Dia 31 de Dezembro de  2017

Evangelho de Lc 2,22-40
       
O evangelho que a liturgia de hoje coloca diante de nós,  nos convida a contemplarmos a Sagrada Família, um modelo para todas as famílias! É uma forma que a igreja encontrou, de chamar a nossa atenção, sobre a importância da família, valor, tão desprezado nestes tempos “modernos.”.
Sagrada Família; família de Nazaré, é constituída por Jesus, Maria e José! Foi nesta família, que o Menino Deus cresceu, brincando, chorando e se alegrando, como um de nós!
Quarenta dias após o seu nascimento, Jesus é levado ao templo pelos os seus pais, a fim de cumprir um ritual judaico, isto é, todo primogênito do sexo masculino, deveria ser consagrado ao Senhor.
Maria e José, num gesto de entrega a Deus, apresentam Jesus no templo, o preciosíssimo tesouro que eles sabiam não lhes pertencer! Com este gesto, os pais de Jesus, nos dão um grande exemplo de responsabilidade para com o que é de Deus, conscientizando-nos, que a vida dos nossos filhos não nos  pertence, somos apenas depositários destes tesouros pertencentes a Deus.
O rito da purificação da mãe e a apresentação  do menino Jesus, nos ajuda a entender, que  Deus, ao se encarnar, viveu a nossa realidade, se submeteu a lei, foi pobre,  marginalizado,  injustiçado e provavelmente teve problemas na família como qualquer um de nós. Basta lembrarmos, do início da sua vida pública, quando seus familiares tentaram impedi-lo de cumprir a sua missão, alegando que Ele estava louco. Mc 3,20-21
O texto que nos é apresentado, é rico em detalhes, mostra-nos, que na apresentação do menino Jesus no templo,  fica evidenciado a identidade do Salvador e através de um conjunto de elementos proféticos, é revelado o caminho que Ele pautaria.
Em si tratando da apresentação do próprio Filho de Deus, este ritual adquire um significado muito profundo, estreitamente ligado ao mistério da encarnação. Foi um rito de grande profundidade, diferente dos outros, em que os pais apresentavam seus filhos a Deus, no rito de Jesus, é Deus quem apresenta o seu Filho aos homens, pela boca do profeta  Simeão, juntamente com a profetiza Ana..
O velho Simeão esperava pela libertação de Israel, ele já havia  recebido a promessa de Deus, de que ele não partiria desta vida, sem antes ter visto o Messias. Guiado pela a inspiração divina, Simeão  vai ao templo, exatamente no momento  em que Maria e José levam Jesus para  cumprir as prescrições legais, suas palavras proféticas, sobre o futuro do menino,  constituem o centro do relato. 
Já prestes do fim de sua existência terrena, Simeão toma o menino Jesus em seus braços, definindo-o como: A salvação que chegou  para  todos os povos. Salvação, que chegou na fragilidade de um menino, que estava  começando a vida, e que mais tarde, daria esta vida, para o resgate da humanidade corrompida pelo pecado.
Os olhos de Simeão, viram longe, viram  naquele  menino, ainda totalmente dependente do humano, a salvação do próprio humano.
Na cena, Maria permanece silenciosa, certamente ela ainda não havia entendido tudo a respeito da trajetória do seu filho, mas  acolhe  as profecias de Simeão sobre o seu  futuro, aceitando em silencio os desígnios de Deus.
Após ter tido a felicidade de ter o Messias em seus braços, Simeão sente que já podia partir deste mundo, afinal, seus olhos já haviam  visto o que ele tanto esperava:  a “libertação do povo de Israel".
Contemplando o Messias em seus braços, Simeão pensou somente no bem do povo, ele  sabia, que ele mesmo, não iria  usufruir da alegria de ver Jesus  caminhando aqui  neste chão.
 Contemplemos  a figura de Simeão, um  homem que não olhava  para o passado, que via longe, que sonhava grande, mesmo na fragilidade de sua idade avançada.
Simeão e Ana representam o povo  fiel, o povo persistente, que não perde a esperança, porque confia nas realizações  das promessas de Deus, podemos intitulá-los, como profetas da esperança!
Assim como Simeão, sejamos  também persistentes  em nossas  esperas, sem nunca desistirmos  dos nossos sonhos, pois, se temos Deus conosco, tudo nos será possível!
A família é uma instituição sagrada, é algo sonhado por Deus, que quis vir até a nós, através de uma família.
Que esta instituição sagrada, não terminem por fata de amor.” Pois é na  família, que Deus perpetua a sua criação! Não deixemos que esta sementeira de amor, se dilua, por falta do diálogo e do perdão.


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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“Vieram apressados os pastores, encontraram Maria com José,
e o Menino deitado no presépio” (Lc. 2,16).
Como os pastores, é assim que também nós encontramos o Menino nascido para nós, o filho que nos foi dado: deitadinho no presépio, com Maria e José. Neste domingo dentro da oitava do santo Natal, a Igreja contempla o mistério da Sagrada Família de Nazaré. Mistério, sim! Vejamos senão: o Filho eterno, ao assumir nossa condição humana, encarnou-se e nasceu, viveu e cresceu no seio de uma família humana. Para a fé cristã, este fato reveste-se de uma significação enorme: ao assumir a família, ao entrar nela e nela humanizar-se, aprendendo a ser gente, o nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, santificou a família humana. Já no princípio, quando Deus, na sua sabedoria infinita, viu não ser bom que o homem estivesse só e deu-lhe a mulher por companheira, determinando que os dois fossem uma só carne, desde então, a família é sagrada. Isso mesmo: Deus pensou no ser humano nascendo e sendo formado no seio de uma família. E compreendamos bem família: um homem e uma mulher gerando e educando filhos no amor! Uma família, do ponto de vista de Deus, é isso; nem mais nem menos! Pois bem: a família, sonhada e instituída por Deus, foi definitivamente abençoada e levada à plena sacralidade pelo Filho eterno quando, fazendo-se homem, santificou e consagrou a vida familiar.
Eis por que, para os cristãos, a família é sagrada: nasce do sacramento do Matrimônio, no qual o marido e a esposa recebem a graça de viverem como sinal da aliança de amor entre o Cristo-Esposo e a Igreja-Esposa. Nascida do matrimônio, a família vai crescendo pela fecundidade do amor humano, consagrado nas águas do Batismo de cada novo membro que nasce; e vai alimentando-se não somente da comida e da bebida da mesa de cada dia, mas, sobretudo, do pão e do vinho, Corpo e Sangue do Senhor, dado e recebido na Eucaristia. Estejamos atentos a este fato importantíssimo! A família não é uma realidade simplesmente humana, sociológica! A família é sagrada: querida por Deus, amada por Deus, criada por Deus, sustentada por Deus! Quem destrói a família peca gravemente contra Deus! E mais ainda: a família como Deus a pensou, repitamos para que não haja dúvida, é composta nuclearmente por um esposo, uma esposa e os filhos! Os cristãos não poderão nunca pensar em outros modelos de convivência como sendo uma família nos moldes desejados por Deus!  
Esta família, se é cristã, é a primeira imagem da Igreja, é a primeira comunidade de cristãos. Pensemos bem na sublimidade de tal mistério: o pai, a mãe e os filhos, todos batizados em Cristo Jesus, são uma pequena Igreja, a Igreja doméstica! A esta comunidade familiar, São Paulo dirige, na liturgia de hoje, palavras comoventes, conselhos e exortações insuperáveis. Pensando na nossa família, escutemos: “Vós sois amados de Deus, sois seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo reine em vossos corações. E sede agradecidos! Que a palavra de Cristo habite em vós! Tudo que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais. Pais, não intimideis vossos filhos, para que eles não desanimem”. Vede, irmãos, o que é uma família cristã: uma pequena comunidade de irmãos no Senhor, um pequeno sinal do Reino de Deus, uma outra família de Nazaré! A família cristã é o primeiro lugar de evangelização, de experiência de amor ao Senhor e aos outros, é o primeiro lugar de oração comunitária e de santificação. A família é santa, a família é sagrada, o lar é um santuário!
Mas, hoje, o mundo tem como propósito sério, sistemático, persistente, inteligente e eficaz destruir a família. Os meios de comunicação invadiram nossas casas, com idéias, imagens e palavras eivadas de paganismo e anti-cristianismo. Querem nos fazer acreditar que a família é algo meramente humano, que pode ser definido a nosso bel prazer! Querem que se chame família a uma união civil de pessoas do mesmo sexo, querem que se aceite como normal o divórcio, o adultério, a convivência sem o sacramento do matrimônio. Desejam que os cristãos achem normal a existência de ex-maridos, ex-esposas, ex-noras, ex-sogras, ex-genros, ex-sogros... Ex, ex, ex... Ex-cristão, é o que o mundo de hoje é! Ex-família é o que esses ajuntamentos de desajuntados são!
Os cristãos devemos respeitar os que pensam diferente de nós. É normal: o mundo não conhece o Evangelho, não conhece a Deus nem a luz do seu Cristo. Tantos e tantos vivem à luz de sua própria escuridão e enxergam a vida com sua própria cegueira. Mas, nós, nós somos cristãos! Nós vimos a Luz que brilhou em Belém, nós vimos o Menino com José e sua Mãe, nós conhecemos o plano de Deus para o amor humano e para a família!
Lutemos por nossas famílias! Jovens, preparai-vos com responsabilidade para uma vida de família! Que a família não nasça das gravidezes precoces, das relações pecaminosas fora do casamento! Que a família não seja enfraquecida pelo materialismo que enche a casa de bens e a esvazia de amor, de convivência e de diálogo. Que os pais não deleguem a estranhos a educação humana e religiosa de seus filhos! Pais cristãos, que vossos filhos aprendam convosco a rezar e a viver! Estejamos bem conscientes: não há esperança para o mundo quando se destrói a família; não há futuro para a Igreja se perde a noção da sacralidade de nossos lares! É na família que se aprende a rezar, a amar, a dialogar, perdoar e conviver. É com o leite materno e o abraço paterno que devemos aprender a santa fé católica que o Senhor nos concedeu.
Voltemos nosso olhar e nosso coração para a família de Nazaré: pobrezinha, sujeita a conflitos e crises, feita de lágrimas e alegrias, de convivência e esperanças. Família de Nazaré, tão igual a nossa, tão diferente da nossa!
Santo carpinteiro José, velai pelos esposos: que sejam fortes e suaves, que sejam responsáveis e fiéis, que sejam piedosos e cheios de doçura paterna, que sejam presentes ao lar e à educação de seus filhos. Santíssima Virgem Maria, olhai para as mães: que sejam defensoras da vida, que nunca percam de vista a dignidade imensa da maternidade! Que nem o trabalho nem o sucesso profissional as façam perder de vista a prioridade e santidade de sua vocação materna e a necessidade de aquecer o lar e os filhos com seu amor e sua presença. Senhor Jesus, Menino nascido para ser nossa paz, velai pelos filhos, velai pelas crianças e não permitais que a vida humana seja assassinada pelo aborto e pelas experiências sacrílegas com embriões humanos! Que os filhos cresçam como tu cresceste: no calor de um pai e de uma mãe, no aconchego de um lar, na piedade da oração familiar e da simplicidade das lutas de cada dia! E que possamos louvar-te eternamente, um dia, com José e Maria de Nazaré.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia deste domingo propõe-nos a família de Jesus como exemplo e modelo das nossas comunidades familiares… Como a família de Jesus – diz-nos a liturgia deste dia – as nossas famílias devem viver numa atenção constante aos desafios de Deus e às necessidades dos irmãos.
O Evangelho põe-nos diante da Sagrada Família de Nazaré apresentando Jesus no Templo de Jerusalém. A cena mostra uma família que escuta a Palavra de Deus, que procura concretizá-la na vida e que consagra a Deus a vida dos seus membros. Nas figuras de Ana e Simeão, Lucas propõe-nos também o exemplo de dois anciãos de olhos postos no futuro, capazes de perceber os sinais de Deus e de testemunhar a presença libertadora de Deus no meio dos homens.
A segunda leitura sublinha a dimensão do amor que deve brotar dos gestos dos que vivem “em Cristo” e aceitaram ser “Homem Novo”. Esse amor deve atingir, de forma muito especial, todos os que conosco partilham o espaço familiar e deve traduzir-se em determinadas atitudes de compreensão, de bondade, de respeito, de partilha, de serviço.
A primeira leitura apresenta, de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais… É uma forma de concretizar esse amor de que fala a segunda leitura.
1ª leitura: Sir. 3,3-7.14-17a - AMBIENTE
O Livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objectivo deixar aos candidatos a “sábios” um conjunto de indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C.…
A época de Jesus Ben Sira é uma época conturbada para o Povo de Deus. Os selêucidas dominavam a Palestina e procuravam impor aos judeus, com agressividade, a cultura helênica. Muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade”. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Neste contexto, Jesus Ben Sira – um “sábio” tradicional – escreve para preservar as raízes do seu Povo. No seu livro, apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para a felicidade.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta uma série de indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais.
A palavra que preside a este conjunto de conselhos do “sábio” Ben Sira é a palavra “honrar” (repete-se 5 vezes, nestes poucos versículos). O que é que significa, exatamente, “honrar os pais”?
A expressão leva-nos ao Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe” – Ex. 20,12). Aí, o verbo utilizado é o verbo “kabad”, que costuma traduzir-se como “dar glória”, “dar peso”, “dar importância”. Assim, “honrar os pais” é dar-lhes o devido valor e reconhecer a sua importância; é que eles são os instrumentos de Deus, fonte de vida.
Ora, reconhecer que os pais são os instrumentos através dos quais Deus concede a vida deve conduzir os filhos à gratidão; e a gratidão não é apenas uma declaração de intenções, mas um sentimento que implica certas atitudes práticas. Jesus Ben Sira aponta algumas: “honrar os pais” significa ampará-los na velhice e não os desprezar nem abandonar; significa assisti-los materialmente – sem inventar qualquer desculpa – quando já não podem trabalhar (cf. Mc. 7,10-11); significa não fazer nada que os desgoste; significa escutá-los, ter em conta as suas orientações e conselhos; significa ser indulgente para com as limitações que a idade ou a doença trazem…
Dado o contexto da época em que Ben Sira escreve, é natural que, por detrás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com o manter bem vivos os valores tradicionais, esses valores que os mais antigos preservam cuidadosamente e que os mais novos, às vezes, negligenciam.
Como recompensa desta atitude de “honrar os pais”, Jesus Ben Sira promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Sentimo-nos gratos aos nossos pais porque eles aceitaram ser, em nosso favor, instrumentos do Deus criador? Lembramo-nos de lhes demonstrar a nossa gratidão?
• Apesar da sensibilidade moderna aos direitos humanos e à dignidade das pessoas, a nossa civilização cria, com frequência, situações de abandono, de marginalização, de solidão, cujas vítimas são, muitas vezes, aqueles que já não têm uma vida considerada produtiva, ou aqueles a quem a idade ou a doença trouxeram limitações. Que motivos justificam o desprezo, o abandono, o “virar as costas” àqueles a quem devemos “honrar”?
• É verdade que a vida de hoje é muito exigente a nível profissional e que nem sempre é possível a um filho estar presente ao lado de um pai que precisa de cuidados ou de acompanhamento especializado. No entanto, a situação é muito menos compreensível se o afastamento de um pai do convívio familiar (e o seu internamento num lar) resulta do egoísmo do filho, que não está para “aturar o velho ou a velha”… Sem julgarmos nem condenarmos ninguém, que sentido é que faz “desfazermo-nos” daqueles que foram, para nós, instrumentos do Deus criador e fonte de vida?
• O capital de maturidade e de sabedoria de vida que os mais idosos possuem é considerado por nós uma riqueza ou um desafio ridículo à nossa modernidade e às nossas certezas?
• Face à invasão contínua de valores estranhos que, tantas vezes, põem em causa a nossa identidade cultural e religiosa (quando não a nossa humanidade), o que significam os valores que recebemos dos nossos pais? Avaliamos com maturidade a perenidade desses valores, ou estamos dispostos a renegá-los ao primeiro aceno dos “valores da moda”?
2ª leitura: Col. 3,12-21 - AMBIENTE
A Igreja de Colossos, destinatária desta carta, foi fundada por Epafras, um amigo de Paulo, pelos anos 56/57. Tanto quanto sabemos, Paulo nunca visitou a comunidade…
Hoje, não é claro para todos que Paulo tenha escrito esta carta (o vocabulário utilizado e o estilo do autor estão longe das cartas indiscutivelmente paulinas; também a teologia apresenta elementos novos, nunca usados nas outras cartas atribuídas a Paulo); por isso, é um tanto ou quanto difícil definirmos o ambiente em que este texto apareceu…
Para os defensores da autoria paulina, contudo, a carta foi escrita quando Paulo estava prisioneiro, possivelmente em Roma (anos 61/63). Epafras teria visitado o apóstolo na prisão e deixado notícias alarmantes: os colossenses corriam o risco de se afastar da verdade do Evangelho, por causa das doutrinas ensinadas por certos doutores de Colossos. Essas doutrinas misturavam práticas legalistas (o que parece indicar tendências judaizantes) com especulações acerca do culto dos anjos e do seu papel na salvação; exigiam um ascetismo rígido e o cumprimento de certos ritos de iniciação, destinados a comunicar aos crentes um conhecimento mais adequado dos mistérios ocultos e levá-los, através dos vários graus de iniciação, à vivência de uma vida religiosa mais autêntica.
Sem refutar essas doutrinas de modo directo, o autor da carta afirma a absoluta suficiência de Cristo e assinala o seu lugar proeminente na criação e na redenção dos homens.
O texto que nos é hoje proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de constatar a supremacia de Cristo na criação e na redenção (1ª parte), o autor avisa os colossenses de que a união com Cristo traz consequências a nível de vivência prática (2ª parte): implica a renúncia ao “homem velho” do egoísmo e do pecado e o “revestir-se do Homem Novo”.
MENSAGEM
O que é que significa, concretamente, “revestir-se do Homem Novo”?
Para o autor da carta, viver como “Homem Novo” é cultivar um conjunto de virtudes que resultam da união do cristão com Cristo: misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência. Lugar especial ocupa o perdão das ofensas, a exemplo de Cristo que sempre manifestou uma grande capacidade de perdão. Estas virtudes, que devem ornar a vida do cristão, são exigências e manifestações da caridade, que é a fonte de onde brotam todas as virtudes do cristão.
Catálogos de exigências como este apareciam também nos discursos éticos dos gregos… O que é novo aqui é a fundamentação: tais exigências resultam da íntima relação do cristão com Cristo; viver “em Cristo” implica viver, como Ele, no amor total, no serviço, na disponibilidade, no dom da vida.
Uma vez apresentado o ideal da vida cristã nas suas linhas gerais, o autor da carta aplica o que acabou de dizer ao âmbito mais concreto da vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos (a referência à submissão das esposas deve ser entendida na perspectiva da linguagem e da prática da época); aos maridos, convida a amar as esposas, evitando o domínio tirânico sobre elas; aos filhos, recomenda a obediência aos pais; aos pais, com intuição pedagógica, pede que não sejam excessivamente severos para com os filhos, pois isso pode impedir o normal desenvolvimento das suas capacidades… Para uns e para outros, é essa “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às relações entre os membros de uma família.
É desta forma que, no espaço familiar, se manifesta o Homem Novo, o homem transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• Viver “em Cristo” implica fazer do amor a nossa referência fundamental e deixar que ele se manifeste em gestos concretos de bondade, de perdão, de doação, de compreensão, de respeito pelo outro, de partilha, de serviço… É este o quadro em que se desenvolvem as nossas relações com aqueles que nos rodeiam?
• A nossa primeira responsabilidade vai, evidentemente, para aqueles que connosco partilham, de forma mais chegada, a vida do dia a dia (a nossa família). Esse amor, que deve revestir-nos sempre, traduz-se numa atenção contínua àquele que está ao nosso lado, às suas necessidades e preocupações, às suas alegrias e tristezas? Traduz-se em gestos sentidos e partilhados de carinho e de ternura? Traduz-se num respeito absoluto pela liberdade e pelo espaço do outro, por um deixar o outro crescer sem o sufocar? Traduz-se na vontade de servir o outro, sem nos servirmos dele?
• As mulheres não gostam de ouvir Paulo pedir-lhes a submissão aos maridos… No entanto, não devem ser demasiado severas com o autor desta carta: ele é um homem do seu tempo, que usa a linguagem do seu tempo e que coloca as coisas nos termos à volta dos quais se organizavam as comunidades familiares da época… Não podemos exigir ao autor desta carta (que escreve há quase dois mil anos) a mesma linguagem e a mesma sensibilidade que temos hoje, a propósito destas questões. Apesar de tudo, convém recordar que o autor da Carta aos Colossenses não se esquece de pedir aos maridos que amem as suas mulheres e que não as tratem com aspereza: sugere, desta forma, que a mulher tem, em relação ao marido, igual dignidade.
Evangelho: Lucas 2,22-40 - AMBIENTE
O interesse fundamental dos primeiros cristãos não se centrou na infância de Jesus, mas na sua mensagem e proposta; por isso, conservaram especialmente as recordações sobre a vida pública e a paixão do Senhor.
Só num estádio posterior houve uma certa curiosidade acerca dos primeiros anos da vida de Jesus. Coligiram-se, então, escassas informações históricas sobre a infância de Jesus e amassou-se esse material com reflexões e com a catequese que a comunidade fazia acerca de Jesus. O chamado “Evangelho da Infância” (de que faz parte o texto que nos é hoje proposto) assenta nessa base; parte de algumas indicações históricas e desenvolve uma reflexão teológica para explicar quem é Jesus. Nesta secção do Evangelho, Lucas está muito mais interessado em dizer quem é Jesus, do que em fazer uma reportagem histórica sobre a sua infância.
Lucas propõe-nos, hoje, o quadro da apresentação de Jesus no Templo. Segundo a Lei de Moisés, todos os primogênitos (tanto dos homens como dos animais) pertenciam a Jahwéh e deviam ser oferecidos a Jahwéh (cf. Ex. 13,1-2.11-16). O costume de oferecer aos deuses os primogênitos é um costume cananeu que, no entanto, Israel transformou no que dizia respeito aos primogênitos dos homens… Estes não deviam ser oferecidos em sacrifício, mas resgatados por um animal, imolado ao Senhor.
De acordo com Lv. 12,2-8, quarenta dias após o nascimento de uma criança, esta devia ser apresentada no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação. Nessa cerimônia, devia ser oferecido um cordeiro de um ano (para as famílias mais abastadas) ou então duas pombas ou duas rolas (para as famílias de menores recursos). É neste contexto que o Evangelho de hoje nos situa.
MENSAGEM
A cena da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém apresenta uma catequese bem amadurecida e bem refletida, que procura dizer quem é Jesus e qual a sua missão no mundo.
Antes de mais, o autor sublinha repetidamente a fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (vers. 22.23.24), como se quisesse deixar claro que Jesus, desde o início da sua caminhada entre os homens, viveu na escrupulosa fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai. A missão de Jesus no mundo passa por aí – pelo cumprimento rigoroso da vontade e do projeto do Pai.
No Templo, duas personagens acolhem Jesus: Simeão e Ana. Eles representam esse Israel fiel que espera ansiosamente a sua libertação e a restauração do reinado de Deus sobre o seu Povo.
De Simeão diz-se que era um homem “justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel” (vers. 25). As palavras e os gestos de Simeão são particularmente sugestivos… Simeão toma Jesus nos braços e apresenta-O ao mundo, definindo-O como “a salvação” que Deus que oferecer “a todos os povos”, “luz para se revelar às nações e glória de Israel” (vs. 28-32). Jesus é, assim, reconhecido pelo Israel fiel como esse Messias libertador e salvador, a quem Deus enviou – não só ao seu povo, mas a todos os povos da terra. Aqui desponta um tema muito querido a Lucas: o da universalidade da salvação de Deus… Deus não tem já um Povo eleito, mas a sua salvação é para todos os povos, independentemente da sua raça, da sua cultura, das suas fronteiras, dos seus esquemas religiosos. As palavras que Simeão dirige a Maria (“este menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; e uma espada trespassará a tua alma” – v. 34-35) aludem, provavelmente, à divisão que a proposta de Jesus provocará em Israel e ao resultado dessa divisão – o drama da cruz.
Ana é também uma figura do Israel pobre e sofredor (“viúva”), que se manteve fiel a Jahwéh (não se voltou a casar, após a morte do marido – v. 37), que espera a salvação de Deus. Depois de reconhecer em Jesus a salvação anunciada por Deus, ela “falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (v. 38). A palavra utilizada por Lucas para falar de libertação é a palavra grega “lustrosis” (“resgate”), utilizada no Êxodo para falar da libertação da escravidão do Egito (cf. Ex. 13,13-15; 34,20; Nm. 18,15-16). Jesus é, assim, apresentado por Lucas como o Messias libertador, que vai conduzir o seu Povo do domínio da escravidão para o domínio da liberdade.
A apresentação no Templo de um primogênito celebrava precisamente a libertação do Egito e a passagem da escravidão para a liberdade (cf. Ex. 13, 11-16).
O texto termina com uma referência ao resto da infância de Jesus e ao crescimento do menino em “sabedoria” e “graça”. Trata-se de atributos que lhe vêm do Pai e que atestam, portanto, a sua divindade (v. 40).
Em conclusão: Jesus é o Deus que vem ao encontro dos homens com uma missão que lhe foi confiada pelo Pai. O objetivo de Jesus é cumprir integralmente o projeto do Pai… E esse projeto passa por levar os homens da escravidão para a liberdade e em apresentar a proposta de salvação de Deus a todos os povos da terra, mesmo àqueles que não pertencem tradicionalmente à comunidade do Povo de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Neste episódio do “Evangelho da Infância”, Lucas apresenta-nos uma família – a Sagrada Família – que vive atenta aos apelos de Deus e que se empenha em cumprir cuidadosamente os preceitos do Senhor. Por quatro vezes (vs. 22.23.24.27), Lucas refere, a propósito da família de Jesus, o cumprimento da Lei de Moisés, da Lei do Senhor ou da Palavra do Senhor – o que sugere a importância que a Palavra de Deus assume na vida da família de Nazaré. Trata-se, na perspectiva de Lucas, de uma família que escuta a Palavra de Deus e que constrói a sua existência ao ritmo da Palavra de Deus e dos desafios de Deus. Maria e José perceberam provavelmente que uma família que escuta a Palavra de Deus e que procura responder aos desafios postos por essa Palavra é uma família feliz, que encontra na Palavra indicações seguras acerca do caminho que deve percorrer e que se constrói sobre a rocha firme dos valores eternos. Que importância é que a Palavra de Deus assume na vida das nossas famílias? Procuramos que cada membro das nossas famílias cresça numa progressiva sensibilidade à Palavra de Deus e aos desafios de Deus? Encontramos tempo para reunir a família à volta da Palavra de Deus e para partilhar, em família, a Palavra de Deus?
• Segundo a Lei judaica, todo o primogênito devia ser consagrado e dedicado ao Senhor. Também Jesus é apresentado no Templo e consagrado ao Senhor. Nas nossas famílias cristãs há normalmente uma legítima preocupação com o proporcionar a cada criança condições ótimas de vida, de educação, de acesso à instrução e aos cuidados essenciais… Haverá sempre uma preocupação semelhante no que diz respeito à formação para a fé e em proporcionar aos filhos uma verdadeira educação para a vida cristã e para os valores de Jesus Cristo? Os pais cristãos preocupam-se sempre em proporcionar aos seus filhos um exemplo de coerência com os compromissos assumidos no dia do Batismo? Preocupam-se em ser os primeiros catequistas dos próprios filhos, transmitindo-lhes os valores do Evangelho? Preocupam-se em acompanhar e em potenciar a formação e a caminhada catequética dos próprios filhos, em inseri-los numa comunidade de fé, em integrá-los na família de Jesus, em consagrá-los ao serviço de Deus?
• Simeão e Ana, os dois anciãos que acolhem Jesus no Templo de Jerusalém, não são pessoas desiludidas da vida, que vivem voltadas para o passado sonhando com um tempo ideal que já não volta; mas são pessoas voltadas para o futuro, atentas ao Deus libertador que vem ao seu encontro, que sabem ler os sinais de Deus naquele menino que chega e que testemunham diante dos seus conterrâneos a presença salvadora e redentora de Deus no meio do seu Povo. Os anciãos – quer pela sua maturidade, sabedoria e equilíbrio, quer pelo tempo de que normalmente dispõem – podem ser testemunhas privilegiadas dos valores de Deus, intérpretes dos sinais de Deus, profetas credíveis que obrigam o mundo a confrontar-se com os desafios de Deus. É preciso que não vivam voltados para o passado, refugiados numa realidade que aliena, transformados em “estátuas de sal”, mas que vivam de olhos postos no futuro, de espírito aberto e livre, pondo a sua sabedoria e experiência ao serviço da comunidade humana e cristã, ensinando os mais jovens a distinguir entre o que é eterno e importante e o que é passageiro e acessório.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho




A Igreja preocupa-se de modo especial com a família. Ela é o espaço privilegiado onde se desenvolve o maravilhoso dom da vida de cada ser humano. O Documento de Aparecida lembra que “a família é sujeito e objeto de evangelização, centro evangelizador de comunhão e participação”. Para isso, “deve encontrar caminhos de renovação interna e de comunhão com a Igreja e o mundo” (DAp 568s). O papa Francisco convocou recentemente um sínodo sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização. De fato, são muitos os desafios que enfrenta a família na atualidade. Nela repercutem as influências positivas e negativas das rápidas mudanças pelas quais passa o mundo. Há valores importantes que precisam ser preservados e aprofundados em cada nova geração. Os textos bíblicos escolhidos para esta celebração da Sagrada Família refletem sobre esses valores que autenticam o verdadeiro relacionamento entre os diversos membros que formam a família, ampliando-se para a comunidade. O texto do Eclesiástico dirige-se especialmente aos filhos, a fim de que saibam honrar e servir os seus pais, em obediência à lei de Deus. Assim, atrairão sobre si bênçãos divinas (1ª leitura). A carta aos Colossenses ressalta os sentimentos de que devem revestir-se os cristãos, como a compaixão, a bondade, a humildade, a mansidão e a paciência. Assim, a paz de Cristo reinará na vida da família-comunidade, pois todos os membros formam um só corpo (2ª leitura). Ao contemplar a família de Nazaré (evangelho), constatamos que Deus realiza o seu plano de amor por meio do assentimento de fé dos pais, como Maria e José. A família é sagrada na medida em que seus membros se amam, pois, onde há amor, Deus aí está.
1ª leitura (Ec. 3,3-7.14-17a)
Honrar pai e mãe
O livro do Eclesiástico (ou Sirácida) foi escrito originalmente em hebraico em torno do ano 200 a.C. por um senhor chamado de Jesus filho de Sirac. O original não chegou até nós. O que temos é a tradução em grego feita pelo neto do autor, por volta do ano 130 a.C. É um livro que busca preservar a tradição religiosa do povo judeu, cuja identidade está ameaçada pelo domínio grego. Um dos temas mais caros desse livro é a sabedoria aplicada ao cotidiano. O texto da liturgia de hoje ressalta a Sabedoria que se expressa no relacionamento dos filhos com os seus pais. Constitui um comentário do quarto mandamento do Decálogo. É bom verificar todo o conjunto do texto: 3,1-18. A honra aos pais refere-se tanto ao respeito à autoridade como ao sustento em suas necessidades. O desprezo desse mandamento corresponde à ofensa a Deus.
Apesar da cultura patriarcalista em que o autor está inserido, percebe-se (pelo menos neste texto) igualdade de tratamento para pai e mãe, assim como se constata também na formulação do quarto mandamento. Esse mandamento, como afirma a carta aos Efésios, é “o primeiro que vem acompanhado de uma promessa: para que sejas feliz e tenhas vida longa sobre a terra” (Ef 6,2-3). Essa promessa, no texto do Eclesiástico, é desdobrada em várias bênçãos divinas ao filho ou à filha que honra e respeita o seu pai e a sua mãe: alcança o perdão dos pecados; é como quem ajunta um tesouro; será respeitado pelos seus próprios filhos; quando rezar, será atendido; terá uma vida longa; dará alegria à sua mãe; a compaixão para com o pai não será esquecida e, em lugar dos pecados, serão aumentados os méritos; no dia da aflição, será lembrado por Deus…
2ª leitura (Cl. 3,12-21)
Santos e amados de Deus
Este texto da carta aos Colossenses, atribuída a Paulo, orienta a comunidade cristã no que se refere ao relacionamento na família. A cultura grega predominava em toda a região da Ásia Menor, onde se situava a cidade de Colossas. A casa, normalmente, era constituída por esposa e marido, pais e filhos, escravos e patrões. É esse o modelo de casa que tem presente o autor.
Ao ler o conjunto do texto (3,5-17), percebe-se o motivo pelo qual os membros da casa devem ser instruídos. Há comportamentos condenáveis, como a “imoralidade sexual, impureza, paixão, maus desejos, especialmente a ganância, que é uma idolatria” (3,5). E mais: há desordens provocadas por “ira, furor, malvadeza, ultrajes e palavras indecentes” (3,8) e também há mentiras (3,9) e discriminação de pessoas, “entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, estrangeiro ou bárbaro, escravo e livre” (3,11).
Esse modo de pensar e de agir, é claro, ameaça a vida familiar também dos cristãos. São comportamentos que contrariam o que deveria ser o modo de viver dos seguidores e seguidoras de Jesus, “eleitos de Deus, santos e amados”. Então, qual é a maneira coerente de viver desses “eleitos de Deus”? O texto (3,12-17) é tão claro, que prescinde de explicação. Constitui um caminho privilegiado para a felicidade das famílias no tempo atual.
No que se refere à “submissão” da mulher ao marido (3,18), deve-se levar em conta o sistema familiar dominante na época, em que o poder de decisão se concentrava na figura do pai/patrão. O autor é filho da sua época. À luz dos ensinamentos de Jesus, porém, foi restabelecida a igualdade entre mulher e homem, entre esposa e marido. Todos os seres humanos, cada qual com suas originalidades e especificidades de funções, possuem a mesma e imprescindível dignidade. Isto é agradável ao Senhor, que nos criou à sua imagem e semelhança.
Evangelho (Lc. 2,22-40)
A família de Nazaré
O texto de Lucas faz parte do conhecido “evangelho da infância” de Jesus (Lc. 1-2). Os personagens citados nesse evangelho da infância são retratados como escolhidos de Deus, por meio dos quais ele realiza o seu plano de amor e de salvação universal. A própria etimologia dos nomes, na língua hebraica, revela traços do rosto divino: Gabriel (Deus é forte), Zacarias (Deus se lembra), Isabel (Deus é plenitude), João (Deus é favorável), Maria (amada de Deus), José (Deus acrescente), Ana (misericórdia), Simeão (Deus ouviu) e Jesus (Deus salva).
O texto deste domingo apresenta alguns desses personagens, Maria e José, Simeão e Ana, como fiéis seguidores da tradição religiosa de Israel. Cumprindo o que está escrito na Lei, Maria e José levam o menino Jesus ao templo para ser apresentado diante do Senhor e para oferecer sacrifícios (Lv 12,2-8). Se a mãe “não dispuser de recursos suficientes para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos” (Lv. 12,8).
Lucas, em seu evangelho, faz questão de ressaltar que Deus se revela na história humana não por meio do poder, do dinheiro ou do prestígio social. É por intermédio dos simples e pequeninos que ele se dá a conhecer, e conta com eles para realizar o seu plano no mundo. Maria e José não faziam parte dos personagens importantes. Faziam parte dos “pobres de Javé”, isto é, punham sua total confiança em Deus e esperavam a vinda do Salvador; eram abertos à vontade de Deus e dispostos a assumir a missão que ele lhes indicava.
Também Simeão e Ana são apresentados por Lucas como pessoas afinadas com o plano de Deus. Não estão aí por acaso: representam o povo de Israel, que se manteve fiel na certeza da vinda do Salvador, conforme a promessa feita por meio dos profetas. O texto diz que Simeão “era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel”; Ana era profetisa e “servia a Deus dia e noite com jejuns e orações”. São pessoas conduzidas pelo Espírito Santo que sabem discernir e acolher os sinais de Deus na história humana. Por isso, ambos se alegram, louvam a Deus e anunciam suas maravilhas.
Jesus, portanto, cresceu sob o cuidado de Maria e José, na simplicidade de um lar comum, participando de sua comunidade de fé e respeitando a tradição religiosa de seu povo. Conheceu a Deus com base no testemunho de seus pais e foi tomando consciência de sua identidade e de sua missão salvadora. “O menino foi crescendo, ficando forte e cheio de sabedoria. A graça de Deus estava com ele” (Lc. 2,40). A sagrada família de Nazaré inspira as famílias cristãs de nossos dias: quando Deus é levado a sério e seu amor é vivido entre todos os que estão na casa, essa família torna-se portadora da bênção divina, “sujeito e objeto de evangelização, centro evangelizador de comunhão e participação”. É uma família “sagrada”.
Pistas para reflexão
- A família é bênção de Deus que precisa ser cultivada. Nas entrelinhas dos textos do Eclesiástico e da carta aos Colossenses, podemos captar o alerta diante do que pode ameaçar a vida familiar. É necessário cultivar os valores que a tradição de fé nos deixou como herança. São valores que atraem a bênção divina, como o comportamento de honra e de respeito dos filhos para com os pais, bem como os sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência e perdão mútuo. A família de Nazaré inspira a família de hoje a ser “sagrada”, tendo em vista a plena realização de cada um dos seus membros e a sua missão evangelizadora no mundo, como esclarece o Documento de Aparecida: 
O casal santificado pelo sacramento do matrimônio é um testemunho da presença pascal do Senhor. A família cristã cultiva o espírito de amor e serviço. Quatro relações fundamentais da pessoa encontram seu pleno desenvolvimento na vida da família: paternidade, filiação, irmandade, nupcialidade. Essas mesmas relações compõem a vida da Igreja: experiência de Deus como Pai, experiência de Cristo como irmão, experiências de filhos em, com e pelo Filho, experiência de Cristo como esposo da Igreja. A vida em família reproduz essas quatro experiências fundamentais e as compartilha em miniatura: são quatro facetas do amor humano (DAp 583).
Outras reflexões sobre a família no Documento de Aparecida, números 567 a 616.
Celso Loraschi



“Vossos filhos não são os vossos filhos”
O evangelho lembra a frase de Kahlil Gibran, em O Profeta: “Vossos filhos não são os vossos filhos”. Quando os pais apresentam o sacrifício de resgate do primogênito, este, na realidade, não é resgatado: Deus o guarda para si! As palavras de Simeão revelam que ele é o enviado de Deus, e Maria aprende a difícil missão de ser mãe de um “sinal de contradição”.
Vivemos num mundo cheio de contradições. Há jovens que são “luzes” expondo ao claro essas contradições. Muitas vezes, seus pais não os entendem, ficam preocupados, frustrados até. Em tais momentos lembrem-se do que aconteceu com Jesus: Deus o guardou para si. Os filhos que Deus dá não são propriedade dos pais. Os pais são como a escora que sustenta a árvore nova para que ela “cresça e se fortaleça” (cf. Lc. 2,40); depois, devem tornar-se supérfluos. A mãe não guarda o filho em si, mas o dá à luz!
Maria e José apresentam seu filho a Deus. Esse gesto nos ajuda a compreender o sentido do batismo das crianças: são entregues a Deus para participar da missão profética da Igreja, que o Concílio Vaticano II caracterizou como “Luz das Nações” (evangelho, Lc. 2,32; cf. Is. 42,6; 49,6).
Como compreender então a família? Muitos pais consideram sua família “modelo”na medida em que for fechada e auto-suficiente. Mas o ideal da família cristã é ser evangelizadora. Essa missão poderá provocar separações dolorosas, ou até atitudes aparentemente incompreensíveis – como eram as palavras de Simeão (Lc. 2,23). Mas a unidade da família está naquele que a todos envia: o Pai celeste.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"





Luz das nações
A cena da apresentação do menino Jesus no templo e o rito de purificação de Maria são ricos em detalhes que evidenciam a identidade do Salvador. Revestem-se de um conjunto de elementos proféticos, pelos quais a existência de Jesus se pautará.
Ele foi apresentado como pobre. Seus pais ofereceram um casal de rolinhas ou dois pombinhos, como era previsto para as família mais pobres Aliás, toda a vida de Jesus transcorrerá na pobreza.
Com o rito de oferta, o Messias tornava-se uma pessoa consagrada ao Pai. Esta será uma marca característica de sua existência. Não se pertencerá a si mesmo; todo seu ser estará posto nas mãos do Pai, por cuja vontade se deixará guiar.
O velho Simeão definiu a missão do Messias Jesus: ser luz para iluminar as nações e manifestar a glória de Israel para todos os povos. Por meio de Jesus, a humanidade poderia caminhar segura, sem tropeçar no pecado e na injustiça, e, assim, chegar ao Pai.
Por outro lado, o Messias Jesus estava destinado a ser sinal de contradição. Quem tivesse a coragem de acolhê-lo, seria libertado de seus pecados. Mas para quem se recusasse aderir a ele, seria motivo de queda. Portanto, Jesus seria escândalo para uns, e ressurreição para outros.
Esta cena evangélica retrata, assim, o que Jesus encontraria pela frente.
padre Jaldemir Vitório


Maria e José creram no Senhor
No trecho do livro do Gênesis que lemos hoje, aparece, pela primeira vez na Escritura, a palavra "fé" (cf. v. 6). É como se a descendência numerosa prometida a Abraão nascesse da fé em Deus. De fato, é crendo que se vê realizar o que Deus promete. É pela fé de Abraão que Israel existe como povo de Deus. Abraão será, por isso, conhecido como o pai dos que têm fé.
Maria e José creram no Senhor. Por isso, abriram mão de seus projetos pessoais para aderirem ao desígnio salvífico de Deus. Souberam viver, em cada etapa da vida, o desafio de compreender e acolher o mistério de Deus presente na vida de Jesus, que eles educaram e viram crescer. Lucas, neste e noutros relatos, parece não ter nenhuma preocupação com a exatidão histórica e cultural. Originalmente, os costumes da apresentação e purificação da mãe são distintos; Lucas parece confundi-los. A prescrição para a purificação da mulher que deu à luz encontra-se em Lv. 12,1ss. Lucas modifica Lv. 12,6 - não é só a mulher que deve ser purificada, mas "eles" (cf. Lc. 2,22). A prescrição quanto à consagração ou apresentação do primogênito ao Senhor encontra-se em Ex. 13,1.11-12. O nosso relato se baseia em 1Sm. 1,22-28. O Filho primogênito tinha que ser resgatado ao completar um mês do seu nascimento, mediante o pagamento de um ciclo de prata a um membro de uma família sacerdotal (Nm. 3,47-48; 18,5-16). Lucas omite toda a menção do resgate do primogênito e transforma a cerimônia numa simples apresentação do menino no Templo de Jerusalém. Seja como for, e sem nos atermos a todas as possibilidades de interpretação, parece-nos que a intenção do evangelista é fazer com que o Antigo Testamento, representado por Simeão e Ana, testemunhe a realização da promessa de Deus em Jesus (cf. Lc. 2,29-32). O Antigo Testamento chega à sua plenitude; inaugura-se uma nova etapa na história da salvação. A cada noite, com os olhos fixos no Senhor, a Igreja canta o nunc dimitis para proclamar o dom da salvação oferecida por Deus a toda humanidade. Jesus Cristo é a luz que ilumina todos os povos (cf. Jo 8,12).
Carlos Alberto Contieri,sj


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