2º DOMINGO DO TEMPO COMUM- Ano B
14 de
janeiro
Evangelho - Jo 1,35-42
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João Batista, como
profeta iluminado, sabia que Jesus era o cordeiro de Deus, era a vítima que
seria imolada, a oferenda dirigida ao Pai pelo perdão dos nossos pecados. Continuar lendo
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"O QUE ESTAIS
PROCURANDO?” – Olivia Coutinho
2º DOMINGO DO TEMPO
COMUM
Dia 14 de Janeiro
de 2018
Evangelho de
Jo1,35-42
Saber que Jesus é o
Filho de Deus, não acrescenta nada na nossa vida, isso, até o seu adversário
sabe! O que vai fazer a diferença mesmo na nossa vida, é saber quem é o Filho
de Deus! Teoricamente, não vamos conhecer Jesus, saber quem é Ele, só
vamos conhecê-lo de fato, através da nossa experiência
pessoal com Ele.
Quem se torna
íntimo de Jesus, encontra sentido para a sua vida, motivação para dar
continuidade a sua missão aqui na terra.
O evangelho que a
liturgia de hoje nos convida a refletir, chama a nossa atenção sobre a
importância de nos tornarmos íntimos de Jesus!
O texto nos fala
que dois discípulos de João Batista, passaram a seguir Jesus, depois que João o
apontou como o Cordeiro de Deus!
No relato,
desenha-se o momento em que João começava a sair de cena, para a entrada de
Jesus na história!
Tudo acontece num
pequeno espaço de tempo, que João estava com esses seus dois discípulos,
vê Jesus passando, e paira o seu olhar sobre Ele! Maravilhado, João busca
dentro de si, algo que definisse Jesus: “Eis o cordeiro de Deus!” João se
referiu a Jesus, como Cordeiro, porque como um cordeiro, que era sacrificado
pelos os pecados do povo, Jesus também, seria sacrificado pelos os pecados da
humanidade, tomaria para si o lugar do cordeiro.
Ao perceber os dois
discípulos de João, caminhando atrás de si, Jesus volta-se para eles e
pergunta: “O que estais procurando? Eles responderam com outra pergunta:
“Rabi (Mestre) onde moras”? ”Jesus não diz onde mora, mas faz a eles um
convite: “Vinde ver!”
A expressão:
"Vinde ver," não significa que Jesus estivesse convidando-os a
conhecer um local físico, afinal, Jesus era itinerante, não tinha onde morar,
Ele mesmo afirmara: “O filho do homem não tem onde recostar a cabeça.” Mt8,20.
“Vinde ver” dentro
daquele contexto, significava fazer a experiência com Ele, é como se Jesus
dissesse a aqueles dois discípulos: Venha, fique comigo e verás onde moro, quem
eu sou, o que faço. Foi o que eles fizeram, seguiram Jesus, conheceram o
seu cotidiano, e neste convívio direto com Ele, descobriram quem era o Filho de
Deus! A partir daquela experiência, esses dois discípulos, passaram
a dar testemunho de Jesus, provocando em muitas pessoas, o desejo de
fazer a mesma experiência que eles fizeram.
O testemunho destes
primeiros seguidores de Jesus levou muitos ao encontro Dele! É graças ao
testemunho deles, e dos demais discípulos, que conviveram diretamente com
Jesus, que agora, nós, discípulos de hoje, eu, você, estamos aqui, juntos,
caminhando na mesma direção, buscando um só objetivo: encontrar a felicidade
plena, felicidade plena, que só encontramos em Jesus!
"Encontramos o
Messias”, este foi o anúncio jubiloso dos dois discípulos de João Batista, que
passaram a seguir Jesus, a serem discípulos Dele!
Quem experimenta
uma vida nova em Jesus, não consegue guardar esta experiência só para si, a sua
alegria é tão grande que não cabe dentro de si, daí, a necessidade
de partilha-la com o outro, no desejo de que o outro possa também, viver esta
alegria!
É na convivência
com Jesus que vamos nos tornando mais humanos, e quanto mais humanos,
mais divinizados somos!
Tão importante,
quanto conhecer Jesus, é permanecer com Ele, é viver como Ele, é fazer o que
Ele fazia...
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Neste domingo vamos refletir o chamado que
Deus nos faz. É muito fácil confundir vozes que vem de nós mesmos, de nossos
desejos e vontades, com a voz que vem de Deus. Discernir a voz divina é dom
especial conferido a quem é chamado a guiar o povo, a ser pastor e sacerdote no
meio do povo, como é o caso de Eli.
No evangelho, dois discípulos de João
Batista vêem Jesus passando, e João o apresenta como Cordeiro de Deus, um
título que indica Jesus como Messias, o enviado de Deus.
Diante do chamado divino existe sempre a
possibilidade da aceitar ou recusar. A cena do chamado de Samuel na 1ª
leitura, da alegria extravasada pelo salmista e da disposição de conviver com
Jesus em sua casa (Evangelho), são exemplos de respostas positivas ao chamado
divino.
O colocar-se nos caminhos divinos sempre
acontece com um despertar, bem expresso na vocação de Samuel que dormia e foi
despertado para viver à disposição do Senhor. O mesmo despertar acontece com os
dois primeiros discípulos de Jesus, feito por João Batista ao apresentar Jesus
como “Cordeiro de Deus”
A Palavra de João Batista desperta o
primeiro passo da fé, apresentando Jesus. O segundo passo consiste em responder
a pergunta de Jesus - a primeira frase de Jesus no Evangelho de João: “o que
estais procurando?”
A reposta é o início de um novo modo de
viver a partir da convivência com Jesus, escolhendo-o como Mestre de vida.
Mas, o chamado divino não acontece somente
pela voz; este acontece também pelo ver. É o que ouvimos no Evangelho. Dois
discípulos de João Batista vêem Jesus passando, e João o apresenta como
Cordeiro de Deus, um título que indica Jesus como Messias, o enviado de Deus.
Hoje, Jesus continua passando na vida da
gente de muitos modos, como ele mesmo nos ensinou num de seus ensinamentos: “eu
estava com fome e me destes de comer, com sede e me destes de beber…”
CURIA DIOCESANA JALES
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A morada de Deus
Iniciamos um novo ano litúrgico com a festa
do Batismo de Jesus, que celebramos no domingo passado.
De acordo com o evangelista Marcos (Mc.
1,7-11), esta festa é a inauguração secreta do tempo messiânico, porque só
Jesus o sabe por enquanto.
Novamente a Igreja nos convida a percorrer e
participar da vida de Jesus. E nos oferece a sua Palavra, para ser acolhida,
vivida e celebrada comunitariamente.
Neste ano, quem nos vai introduzir, cada
domingo, no mistério da Boa Nova de Jesus, é o evangelho de Marcos.
Iniciamos este novo ano litúrgico com João
Batista apontando aos seus discípulos Jesus de Nazaré como o Cordeiro de Deus,
porque como ele mesmo diz: "Eu vi e deu testemunho que ele é o Eleito de
Deus" (Jo 1,34). O precursor cumpre sua missão e convida aos seus
discípulos a seguir Aquele para quem ele tinha preparado o caminho.
Podemos nos perguntar por que João chama
Jesus de Cordeiro de Deus?
Para os judeus, escutar essas palavras
ativam sua memória do Primeiro (Antigo) Testamento. A libertação da escravidão,
a saída de Egito é marcada pelo sangue do cordeiro, seu sangue sela a aliança
de Deus com seu povo.
Assim sendo, João Batista apresenta Jesus
como o novo Cordeiro de Deus, o Ungido, aquele através do qual Deus realizará
uma nova e eterna aliança com a humanidade (Jr. 32,40-41).
É por isso que os discípulos de João não
duvidam em seguir Jesus, a vida e as palavras do Batista os orientam a Jesus,
colocam-nos no seu caminho.
Lembremos que pessoas nos têm ajudado a
colocar-nos no caminho de Jesus. E nossa vida leva outros a conhecerem Jesus?
Os discípulos caminham atrás Jesus. De
repente, Ele rompe o silêncio de seus seguidores, voltando-se pergunta-lhes:
"O que é que vocês estão procurando?".
Dessa maneira, leva-os a questionar-se
interiormente por que o estão seguindo. Iniciaram esse caminho, conduzidos
pelas palavras de João Batista, agora têm que responder por si próprios, o
seguimento de Jesus pede uma adesão livre e responsável de cada um, cada uma.
Jesus se apresenta já como mestre de
liberdade, ele quer que seus amigos e amigas sejam homens e mulheres livres.
Ao responder a sua pergunta com outra:
"Rabi, (Mestre) onde moras?", os discípulos estão manifestando a
Jesus seu desejo de conhecê-lo, de saber dele, de entrar na sua vida, na sua
intimidade. Deixam claro que querem segui-lo, e o seguimento é estar com o
Mestre.
E Jesus os acolhe, abre-lhes as portas da
sua vida, convidando novamente à liberdade a colocar-se em ação: "Venham,
e vocês verão." Não faz um discurso, não dita normas, mostra-lhes sua
morada. Cabe-nos perguntar qual é essa morada, já que ele mesmo diz que
não tem morada alguma! (Mt. 8,20)!
João evangelista nos dá uma dica sobre a
residência de Jesus: "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós"
(Jo 1,14), colocou sua tenda no meio de nós.
Para Marcelo Barros, quando o quarto
evangelho diz: "A Palavra de Deus se fez Carne", podemos compreender
que todo o universo, com a imensidade da sua "comunidade da vida",
não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação
humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida pela
encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo.
Por isso, a comunhão com a natureza é
fundamental no caminho da intimidade com Deus. Dela podemos aprender atitudes
fundamentais para viver segundo o projeto de Deus, as palavras e parábolas de
Jesus estão cheias desses ensinamentos!
Não podemos esquecer que a morada, na qual
Jesus convida seus discípulos/as de todos os tempos a entrar e morar, o
universo do qual somos parte, sofre e geme.
É necessário que, em primeiro lugar,
escutemos seus gemidos, sejamos sensíveis a eles para depois cada um/a, do
lugar onde se encontra, colabore com o desenvolvimento sustentável de nosso
planeta, morada de Deus e de suas criaturas.
O seguimento de Jesus que se inicia nesta
experiência de encontro com Ele, leva a marca do compromisso no cuidado e
respeito com todo o criado. Hoje todo o universo está crucificado com Cristo
(não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, "os povos
crucificados").
Ser seguidores/as de Jesus, viver sua
ressurreição é trabalhar para que toda a criação goze da sua Vida em
abundância, desta forma louvaremos ao Criador.
Oração com as culturas
indígenas
"Ó grande Espírito, o teu sopro infunde
vida
ao mundo inteiro e a cada ser do universo.
Tua voz se ouve no vento que assobia,
o teu cheiro nas flores e no capim molhado.
Precisamos de tua beleza e teu encanto,
dá a todos os seres que te buscam,
sabedoria,
dá-nos olhos capazes de te perceber
no menor dos seres e a cada passo do dia.
Faze-nos te descobrir no calor de um dia
fatigante
e no trabalho cotidiano que fazemos,
dá-nos tua capacidade de visão
para que possamos entender melhor o que
vivemos.
Faze-nos estar em tua presença com mãos
limpas,
olhos atentos para que, quando a vida
adormecer,
como o poente, nosso ser mais intimo de ti
se aproxime,
e sem temor, o nosso ser se funda ao teu ser
(oração de um chefe indígena dos EUA)
INSTITUTI HUMANITAS UNISANTOS
Após as santas festas do tempo do Natal do
Senhor, estamos iniciando o tempo Comum. Terminada ontem a primeira semana
deste tempo “verde”, entramos hoje no segundo domingo chamado comum: comum do
dia-a-dia, da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente
na sua Igreja na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e
eficácia aos sacramentos.
A Escritura que escutamos nesta Missa
falou-nos de um Deus que chama, que entra na nossa vida e nos dirige o seu
apelo. Foi assim com Samuel que, novinho, sequer sabia reconhecer a voz do
Senhor; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do
Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois,
André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens
tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e vereis! Somente se tiverdes a coragem
de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Não é
impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo
nome, que o Senhor nos chame e nos queira parceiros seus no caminho da vida? E,
no entanto, é assim! Também nós somos conhecidos pelo nome, nossos passos,
nosso coração, nossa vida são conhecidos pelo Senhor... E ele nos chama com
amor. A nós, que estamos procurando a felicidade e a realização na vida, o
Senhor também dirige a pergunta: “O que estais procurando?” Vinde, fiquemos com
o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura, aquilo que faz a
vida valer a pena.
Mas, esse “estar com o Senhor”, esse
“permanecer com ele”, que é o início da própria vida eterna já neste mundo, não
pode se dar sem que realmente sejamos de Cristo, com todo o nosso ser, corpo e
alma. Aqui aparece com toda clareza a urgência e atualidade da advertência de
São Paulo, feita aos coríntios e a nós. Corinto era uma cidade particularmente
devassa do Império Romano. E, como hoje, os cristãos eram tentados a
“corintiar”, a entrarem na onda, achando tudo normal, moderno e compatível com
a fé. O Apóstolo, em nome de Cristo, desmascara essa ilusão, tão comum entre os
cristãos de hoje. Ouçamo-lo! É incômodo, é chato, mas é a Palavra de Deus, que
nos ilumina, liberta e nos salva... Ouçamo-la! “O corpo não é para a
imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo!” Eis cristão: teu
corpo pertence ao teu Senhor Jesus Cristo que nele habita pela potência do seu
Espírito Santo desde o dia do teu Batismo: “Porventura ignorais que vossos
corpos são membros de Cristo? Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do
Espírito Santo, que habita em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto,
ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso
corpo!” Compreende, cristão! Tu pertences a Cristo, tu és sagrado porque no
Batismo foste consagrado pelo Espírito de Cristo que habita em ti! Teu corpo
foi lavado pela água, símbolo do Santo Espírito, foi ungido pelo óleo batismal,
sinal da graça de Cristo, foi untado pelo santo Crisma, sinal da força e da
energia do Espírito de Cristo; teu corpo foi alimentado com o Corpo do
Senhor... Teu corpo é sagrado, cristão, teu corpo é santo, teu corpo pertence
ao Senhor! “Portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então,
glorificai a Deus em vosso corpo!” Solteiro ou casado, todos nós temos o dever
sagrado, o dever de amor de fugir da imoralidade! À medida que o paganismo
avança, perde-se o sentido cristão do corpo e da sexualidade! Tem-se a idéia
que o corpo é para o prazer, para a satisfação da libido; pensa-se que o corpo
é uma coisa, um objeto de prazer, que a bel prazer pode ser usado... Isso
pensam os pagãos, isso vivem os pagãos. Nós sabemos que não é assim: “O corpo é
para o Senhor e o Senhor é para o corpo...” para este corpo, que será
ressuscitado para a glória de Cristo!
Eis, caríssimos em Cristo, os pecados de
hoje: a impureza (ou seja a busca do prazer solitário e de atos e pensamentos
sensuais que aguçam propositalmente o erotismo), a fornicação (isto é, o ato
sexual antes do casamento com pessoas do mesmo ou do outro sexo) o adultério
(ou seja, a relação fora do casamento). Nunca deveremos esquecer qual a verdade
do Evangelho: o ato sexual somente é santo, responsável, bendito e plenamente
agradável a Deus no casamento. Fora dele, é sempre um pecado – e esta regra não
conhece nenhuma exceção! E mais: a vida sexual do casal deve ser santa. Como
diz a Palavra do Senhor: “O matrimônio seja honrado por todos, e o leito
conjugal, sem mancha; porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros” (Hb.
13,4).
O modo que os cristãos têm de vivenciar a
sexualidade não pode ser o modo dos pagãos. Eles seguem seus caprichos, suas
paixões... Nós, mesmo frágeis, mesmo com nossos instintos e tendências muitas
vezes desordenadas, por amor do Cristo que nos amou, temos o dever de lutar
para colocar nossa sexualidade debaixo do senhorio de Cristo! Esse senhorio é
mistério de cruz, mas também de ressurreição. Nós, que somos um só corpo com o
Senhor pelo batismo e a eucaristia, nós que pelo Espírito Santo nos tornamos
uma só coisa com o Senhor, de corpo e alma, não podemos pensar e viver nossa
sexualidade como os pagãos! Então, jovem solteiro, jovem solteira, tua vida
sexual, teu namoro, devem ser vividos à luz do Senhor Jesus! Casados cristãos,
vossa vida conjugal não deve ser como a dos pagãos, sujeita e ditada
simplesmente pela libido... Vossa sexualidade deve ser vivida na luz do Senhor!
Homossexual cristão, vive tua tendência de modo cristão, lutando para seres
casto, recorrendo à oração, completando corajosamente na carne da tua vida e da
tua luta, aquilo que falta à paixão do Cristo. Procura viver dignamente,
procura acompanhamento espiritual e coloca em Cristo a tua esperança e a tua
alegria. Solteiro cristão, vive tua sexualidade na castidade e na continência
por amor a Cristo! Padre, religioso, religiosa, tem coragem e generosidade para
viveres o que prometeste a Cristo diante de toda a Igreja reunida no dia da tua
profissão religiosa ou da tua ordenação sacerdotal! O Senhor nos pedirá contas,
a todos nós! Ninguém está acima da Palavra, ninguém está acima do juízo do
Cristo Jesus!
Talvez, alguns de vocês pensem como os
judeus pensaram ao término do Discurso sobre o Pão da Vida: “Essa palavra é
dura! Quem pode escutá-la?” (Jo. 6,60). Pois bem, a nós, com doçura e também
com firmeza o Senhor diz: “Isto vos escandaliza? Quereis também vós ir embora?”
(Jo. 6,61.67). Não é fácil, irmãos! Não somos melhores nem mais fortes que
ninguém... Sentimos em nós pensamentos, afetos e desejos contraditórios... Mas,
sabemos que Cristo nos chamou, nos amou e por nós entregou a vida. Então, que
digamos como Pedro: “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós
cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo. 6,69).
É isto, dizer na vida como Samuel disse:
“Eis-me aqui”; é isto atender ao convite do Senhor: “Vinde e vereis”; é isto,
finalmente, “ir ver onde ele mora e permanecer com ele”. Que ele nos dê
também a nós a sua graça!
dom Henrique Soares da Costa
A liturgia do 2º domingo do tempo comum
propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para acolher os desafios de
Deus e para seguir Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos a história
do chamamento de Samuel. O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é
sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo
nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade
para escutar a voz e os desafios de Deus.
O Evangelho descreve o encontro de Jesus com
os seus primeiros discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a
comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz
de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível
para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de
Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de
testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos.
Na segunda leitura, Paulo convida os
cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes
fez. No crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida
nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos
onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que
certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do
cristão.
1ª leitura: 1Sam.
3,3b-10.19 - AMBIENTE
O livro de Samuel refere-se a uma das épocas
mais marcantes da história do Povo de Deus. Os acontecimentos narrados abrangem
um arco de tempo que vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de
David (972 a.C.) e dão-nos uma visão global do caminho feito pelo Povo de Deus
desde que eram um conjunto de tribos autônomas e sem grande ligação entre si,
até ao tempo da união à volta da realeza davídica.
Os primeiros capítulos do Livro de Samuel
situam-nos ainda na fase pré-monárquica. É uma época paradoxal e cheia de
ambigüidades… Por um lado, observa-se um processo crescente de sedentarização,
de consolidação e de unificação das tribos no território de Canaã, a partir de
determinados elementos unificadores, como sejam os “juízes”, os pactos de
defesa diante dos inimigos comuns, as federações de tribos vizinhas e os
santuários que periodicamente acolhem a Arca da Aliança e assentam as bases da
fé monoteísta; por outro lado, observa-se também a precariedade das coligações
defensivas diante dos ataques inimigos, a escassa consciência unitária, o
descrédito de alguns “juízes” (nomeadamente dos filhos de Eli e, mais tarde,
dos filhos de Samuel)… As instituições tribais revelam-se manifestamente
insuficientes para responder às novas exigências, nomeadamente à pressão
militar exercida pelos filisteus. O modelo monárquico dos povos vizinhos começa
a seduzir as tribos do Povo de Deus e a parecer a solução ideal para responder
adequadamente aos desafios da história.
Samuel aparece nesse tempo caótico. Pertence
à tribo de Efraim – quer dizer, a uma tribo instalada no centro do país, na
montanha de Efraim (onde, aliás, Samuel exerce o seu ministério). O Livro de
Samuel apresenta-o como um “juiz” (narra-se o seu nascimento maravilhoso nos
mesmos moldes que o nascimento de Sansão – 1Sm. 1; cf. Jz. 13); mas logo se diz
que ele foi educado no templo de Silo, onde estava depositada a Arca da Aliança
(1 Sm. 2,18-21) – o que significa que exercia igualmente funções litúrgicas.
Mais tarde irá ser chamado, num período de desolação, a conduzir o Povo no
combate contra os filisteus.
Samuel é uma figura complexa e
multifacetada, simultaneamente juiz, sacerdote e chefe dos exércitos. De algum
modo, faz a ponte entre uma época de confusão e de escassa consciência
unitária, para uma época onde começa a estruturar-se uma organização mais centralizada.
O texto que nos é proposto como primeira
leitura apresenta a vocação de Samuel. A cena situa-nos no santuário de Silo,
onde estava a Arca da Aliança. Samuel, consagrado a Deus por sua mãe, era
servidor do santuário.
Para o nosso autor, o chamamento de Samuel
marca o início do movimento profético… Antes, “o Senhor falava raras vezes e as
visões não eram frequentes” (1Sm. 3,1); depois, “o Senhor continuou a
manifestar-Se em Silo. Era ali que o Senhor aparecia a Samuel, revelando-lhe a
sua Palavra” (1Sam. 3,21).
O quadro da vocação de Samuel não nos
apresenta, com certeza, uma reportagem jornalística de fatos; apresenta-nos,
sim, uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem, redigida de
acordo com o esquema típico dos relatos de vocação.
MENSAGEM
A primeira nota que é preciso sublinhar na
história da vocação de Samuel é que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus
(“o Senhor chamou Samuel” – v. 4a). É Deus que, seguindo critérios que nos
escapam absolutamente mas que para Ele fazem sentido, escolhe, chama,
interpela, desafia o homem. A indicação de que “Samuel ainda não conhecia o
Senhor porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a Palavra do Senhor”
(v. 7) sugere claramente que o chamamento de Samuel parte só de Deus e é uma
iniciativa exclusiva de Deus, à qual Samuel é, num primeiro momento, totalmente
alheio.
Uma segunda nota é sugerida pelo
enquadramento temporal do chamamento: Deus dirige-Se a Samuel enquanto este
estava deitado, presumivelmente, durante a noite. É o momento do silêncio, da
tranquilidade e da calma, quando a algazarra, o barulho e a confusão se
calaram. A nota sugere que a voz de Deus se torna mais facilmente perceptível
ao vocacionado no silêncio, quando o coração e a mente do homem abandonaram a
preocupação com os problemas do dia a dia e estão mais livres e disponíveis
para escutar os apelos e os desafios de Deus.
Uma terceira nota diz respeito à forma como
se processa a resposta de Samuel ao chamamento de Deus.
Antes de mais, o autor do texto sublinha a
dificuldade de Samuel em reconhecer a voz do Senhor. Jahwéh chamou Samuel por
quatro vezes e só na última vez o jovem conseguiu identificar a voz de Deus. O
fato sublinha a dificuldade que qualquer chamado tem no sentido de identificar
a voz de Deus, no meio da multiplicidade de vozes e de apelos que todos os dias
atraem a sua atenção e seduzem os seus sentidos.
Depois, sobressai o papel de Eli na
descoberta vocacional do jovem Samuel. É Eli que compreende “que era o Senhor
quem chamava o menino” e que ensina Samuel a abrir o coração ao chamamento de
Jahwéh (“se fores chamado outra vez, responde: «fala, Senhor; o teu servo
escuta»” – v. 9). O pormenor sugere que, tantas vezes, os irmãos que nos
rodeiam têm um papel decisivo na percepção da vontade de Deus a nosso respeito
e na nossa sensibilização para os apelos e para os desafios que Deus nos
apresenta.
Finalmente, o autor põe em relevo a
disponibilidade de Samuel para ouvir e para acolher a voz de Deus: “fala,
Senhor; o teu servo escuta” (v. 10). No mundo bíblico, “escutar” não significa
apenas ouvir com os ouvidos; mas significa, sobretudo, acolher no coração e
transformar aquilo que se ouviu em compromisso de vida. O que Samuel está aqui
a dizer a Deus é que está disposto a acolher os seus apelos e desafios e a
comprometer-Se com eles. O que Samuel está a dizer a Jahwéh é que aceita
embarcar no desafio profético e ser um sinal vivo de Deus, voz “humana” de
Deus, na vida e na história do seu Povo.
ATUALIZAÇÃO
• A vocação é sempre uma iniciativa,
misteriosa e gratuita, de Deus. Antes de mais, o profeta deve ter plena
consciência de que na origem da sua vocação está Deus e que a sua missão só se
entende e só se realiza em referência a Deus. Um profeta não se torna profeta
para realizar sonhos pessoais, ou porque entende ter as “qualidades
profissionais” requeridas para o cargo e faz uma opção profissional pela
profecia… O profeta torna-se profeta porque um dia escutou Deus a chamá-lo pelo
nome e a confiar-lhe uma missão. Todos nós, chamados por Deus a uma missão no
mundo, não podemos esquecer isto: a nossa missão vem de Deus e tem de se
desenvolver em referência a Deus; não nos anunciamos a nós próprios, mas
anunciamos e testemunhamos Deus e os seus projetos no meio dos nossos irmãos.
• O “quadro” da vocação de Samuel situa-nos
num quadro temporal próprio: de noite, quando já terminaram as tarefas do dia e
quando o santuário de Silo está envolvido na tranquilidade, na calma e no
silêncio… Provavelmente, o catequista autor deste texto não escolheu este
enquadramento por acaso. Ele quis sugerir que é mais fácil detectar a presença
de Deus e ouvir a sua voz nesse ambiente favorável de silêncio que favorece a
escuta. Quando corremos de um lado para o outro, afadigados em mil e uma
atividades, preocupados em realizar com eficiência as tarefas que nos foram
confiadas, dificilmente temos espaço e disponibilidade para ouvir a voz de Deus
e para detectar esses sinais discretos através dos quais Ele nos indica os seus
caminhos. O profeta necessita de tempo e de espaço para rezar, para falar com
Deus, para interrogar o seu coração sobre o sentido do que está a fazer, para
ouvir esse Deus que fala nas “pequenas coisas” a que nem sempre damos
importância.
• São muitas as “vozes” que ouvimos todos os
dias, vendendo propostas de vida e de felicidade. Muitas vezes, essas “vozes”
confundem-nos, alienam-nos e conduzem-nos por caminhos onde a felicidade não
está. Como identificar a voz de Deus no meio das vozes que dia a dia escutamos
e que nos sugerem uma colorida multiplicidade de caminhos e de propostas?
Samuel não identificou a voz de Deus sozinho, mas recorreu à ajuda do sacerdote
Heli… Na verdade, aqueles que partilham conosco a mesma fé e que percorrem o
mesmo caminho podem ajudar-nos a identificar a voz de Deus. A nossa comunidade
cristã, a nossa comunidade religiosa, desafia-nos, interpela-nos,
questiona-nos, ajuda-nos a purificar as nossas opções e a perceber os caminhos
que Deus nos propõe.
• Depois de identificar essa “voz”
misteriosa que se lhe dirigia, Samuel respondeu: “fala, Senhor; o teu servo
escuta”. É a expressão de uma total disponibilidade, abertura e entrega face
aos desafios e aos apelos de Deus. É evidente que, na figura de Samuel, o
catequista bíblico propõe a atitude paradigmática que devem assumir todos aqueles
a quem Deus chama. Como é que me situo face aos apelos e aos desafios de Deus?
Com uma obstinada recusa, com um “sim” reticente, ou com total disponibilidade
e entrega?
2ª leitura: 1Cor.
6,13c-15a.17-20 - AMBIENTE
No decurso da sua segunda viagem missionária,
Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por
lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At. 18,2-4, Paulo começou a
trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado,
usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo
(2Cor. 1,19; At. 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do
Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da
sinagoga.
Corinto, cidade nova e próspera, era a capital
da Província romana da Acaia e a sede do procônsul romano. Servida por dois
portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas:
população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do
desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de
prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca
de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa
de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu
a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de
origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Cor. 11,26-29; 8,7;
10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At. 18,8;
1Cor. 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era viva e
fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto:
moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf.
1Cor. 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se
introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Cor.
1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e
vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. No centro da
cidade, o templo de Afrodite, a deusa grega do amor, atraía os peregrinos e
favorecia os desregramentos e a libertinagem sexual. Os cristãos, naturalmente,
viviam envolvidos por este mundo e acabavam por transportar para a comunidade
alguns dos vícios da cultura ambiente. Na comunidade de Corinto, vemos as
dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma
cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com
a pureza da mensagem evangélica.
Em 1Cor. 6,12 aparece uma frase -
possivelmente do próprio Paulo - que servia a alguns cristãos de Corinto para
justificar os seus excessos: «Tudo me é permitido»… Paulo explica que “«tudo me
é permitido», mas nem tudo é conveniente; «tudo me é permitido», mas eu não me
farei escravo de nada”. Na sequência, Paulo recorda aos crentes da comunidade
as exigências da sua adesão a Cristo.
MENSAGEM
A questão fundamental, para Paulo, é esta:
pelo Batismo, o cristão torna-se membro de Cristo e forma com ele um único
corpo. A partir desse momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do
cristão devem ser os de Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio
Cristo. No “corpo” do cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de
Cristo.
Por outro lado, o cristão torna-se também
Templo do Espírito. Para os judeus, o “templo” de Jerusalém era o lugar onde
Deus residia no mundo e se manifestava ao seu Povo… Dizer que os cristãos são
“Templo do Espírito” significa que eles são agora o lugar onde reside e se
manifesta a vida de Deus. No Batismo, o cristão recebe o Espírito de Deus; e é
esse Espírito que vai, a partir desse instante, conduzi-lo pelos caminhos da
vida, inspirar os seus pensamentos, condicionar as suas ações e comportamentos.
Aqui estão os elementos fundamentais da
antropologia cristã… O “corpo” é o lugar onde se manifesta historicamente a
realidade dessa vida nova que inunda o crente, após a sua adesão a Cristo. O
“corpo” não é algo desprezível, baixo, miserável, condenado – na linha do que
pensavam algumas correntes filosóficas bem representadas na cidade de Corinto;
mas é algo que tem uma suprema dignidade, pois é nele que se manifesta para o
mundo a realidade da vida de Deus. No “corpo” do cristão que vive em comunhão
com Cristo manifesta-se – através das palavras e das ações do crente – essa
vida nova que Deus quer propor ao mundo e oferecer aos homens.
Daqui, Paulo tira as devidas consequências e
aplica-as à situação concreta dos crentes de Corinto, às vezes tentados por
comportamentos pouco edificantes, particularmente no âmbito da vivência da
sexualidade… Se os cristãos são membros de Cristo e se vivem em comunhão com
Cristo, os comportamentos desregrados no domínio da sexualidade não fazem
qualquer sentido; se os cristãos são “Templo do Espírito” e os seus corpos são
o lugar onde se manifesta a vida nova de Deus, certas atitudes e hábitos
desordenados não são dignos dos crentes.
No “corpo” dos cristãos deve manifestar-se a
vida de Deus. Ora, tudo aquilo que é expressão de egoísmo, de procura desenfreada
dos próprios interesses, de realização descontrolada dos próprios caprichos, de
comportamentos que usam e instrumentalizam o outro, está em absoluta
contradição com essa vida nova de Deus que é relação, que é intercâmbio, que é
entrega mútua, que é compromisso, que é amor verdadeiro. Os crentes são livres;
mas a liberdade cristã tem como limite o próprio Cristo: nada do que contradiz
os valores e o projeto de Jesus pode ser aceite pelo cristão. Aliás, os crentes
devem ter consciência de que o radicalismo da liberdade acaba freqüentemente na
escravidão.
O nosso texto termina com um convite
singular: “glorificai a Deus no vosso corpo” (vers. 20). É através de
comportamentos e atitudes onde se manifesta a realidade da vida nova de Jesus
que os crentes podem “prestar culto” a Deus. O “culto” a Deus não passa pela
prática de um conjunto de ritos externos, mais ou menos pomposos, mais ou menos
solenes, mas por um compromisso de vida que afeta a pessoa inteira e que diz
respeito à relação do crente com os outros irmãos ou irmãs e consigo próprio. É
preciso que em todas as circunstâncias – inclusive no campo da vivência da
sexualidade – a vida do crente seja entrega, serviço, doação, respeito, amor
verdadeiro. É esse o culto que Deus exige.
ATUALIZAÇÃO
• A questão essencial que Paulo nos coloca é
a seguinte: Deus chama-nos a acolher a vida nova que Ele nos oferece e a dar
testemunho dela em cada instante da nossa existência. A Palavra de Deus que nos
é proposta convida-nos, antes de mais, a tomar consciência desse chamamento e a
aceitar “embarcar” nessa viagem que Deus nos propõe e que nos conduz ao
encontro da verdadeira liberdade e da verdadeira realização.
• Acolher o chamamento de Deus significa
assumir, em todos os momentos e circunstâncias, comportamentos coerentes com a
nossa opção por Cristo e pelo Evangelho. Nada do que é egoísmo, exploração do
outro, abuso dos direitos e dignidade do outro, procura desordenada do bem
próprio à custa do outro, pode fazer parte da vida do cristão. O cristão é
alguém que se comprometeu a ser um sinal vivo de Deus e a testemunhar diante do
mundo – com palavras e com gestos – essa vida de amor, de serviço, de doação,
de entrega que Deus, em Jesus, nos propôs. Membro do “corpo” de Cristo, o
cristão é “corpo” no qual se manifesta a proposta do próprio Cristo para os
homens e mulheres do nosso tempo. Isto obriga-nos a nós, os crentes, a
comportamentos coerentes com o nosso compromisso batismal.
• A propósito, Paulo coloca o problema da
vivência da sexualidade… Essa importante dimensão da nossa realização como
pessoas não pode concretizar-se em ações egoístas, que nos escravizam a nós e
que instrumentalizam os outros; mas tem de concretizar-se num quadro de amor
verdadeiro, de relação, de entrega mútua, de compromisso, de respeito absoluto
pelo outro e pela sua dignidade. Neste campo surgem, com alguma frequência,
denúncias de comportamentos e atitudes, dentro e fora da Igreja, que afetam e
magoam vítimas inocentes do egoísmo dos homens. Esses fatos, se têm de ser
enquadrados no contexto da fragilidade que marca a nossa humanidade, demonstram
também a necessidade de uma contínua conversão a Cristo e aos seus valores.
Para o cristão, tudo o que signifique explorar os irmãos ou desrespeitar a sua
dignidade e integridade é um comportamento proibido.
• É importante, para os crentes, ter consciência
de que liberdade não é um valor absoluto. A liberdade cristã não pode
traduzir-se em comportamentos e opções que subvertam os valores do Evangelho e
que neguem a nossa opção fundamental por Cristo. Uma certa mentalidade atual
considera que só nos realizaremos plenamente se pudermos fazer tudo o que nos
apetecer… Contudo, o cristão tem de ter consciência de que “nem tudo lhe
convém”. Aliás, certas opções contrárias aos valores do Evangelho não conduzem
à liberdade, mas à dependência e à escravidão.
• Qual é o verdadeiro “culto” que Deus pede?
Como é que traduzimos, em gestos concretos, a nossa adesão a Deus? Paulo sugere
que o verdadeiro culto, o culto que Deus espera, é uma vida coerente com os
compromissos que assumimos com Ele, traduzida em gestos concretos de amor, de
entrega, de doação, de respeito pelo outro e pela sua dignidade.
AMBIENTE
A perícope que nos é proposta integra a
secção introdutória do quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com
consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento
cênico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar
Jesus. Um a um, os atores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações
carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta
destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que
possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem
Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista, o profeta/precursor do
Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu
testemunho aparece no início e no fim da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele
vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens.
O nosso texto apresenta-nos os primeiros
três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão
Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de João e é por
indicação de João que seguem Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere
substancialmente dos relatos de chamamento dos primeiros discípulos
apresentados pelos sinópticos (cf. Mt. 4,18-22; Mc. 1,16-20; Lc. 5,1-11). Mais
do que uma reportagem realista de acontecimentos concretos, o autor do Quarto
Evangelho apresenta aqui um modelo de chamamento e de seguimento de Jesus.
MENSAGEM
Num primeiro momento, o quadro situa-nos
junto do rio Jordão (vs. 35-37). Os três primeiros personagens em cena são João
e dois dos seus discípulos – isto é, dois homens que tinham escutado o anúncio
de João e recebido o seu batismo, símbolo da ruptura com a “vida velha” e de
adesão ao Messias esperado. Estes dois discípulos de João são, portanto, homens
que, devido ao testemunho de João, já aderiram a esse Messias que está para
chegar e que esperam ansiosamente a sua entrada em cena.
Entretanto, apareceu Jesus. João viu Jesus
“que passava” e indicou-O aos seus dois discípulos, dizendo: “eis o cordeiro de
Deus” (v. 36). João é uma figura estática, cuja missão é meramente
circunstancial e consiste apenas em preparar os homens para acolher o Messias
libertador; quando esse Messias “passa”, a missão de João termina e começa uma
nova realidade. João está plenamente consciente disso… Não procura prolongar o
seu protagonismo ou conservar no seu círculo restrito esses discípulos que
durante algum tempo o escutaram e que beberam a sua mensagem. Ele sabe que a
sua missão não é congregar à sua volta um grupo de adeptos, mas preparar o
coração dos homens para acolher Jesus e a sua proposta libertadora. Por isso,
na ocasião certa, indica Jesus aos seus discípulos e convida-os a segui-l’O.
A expressão “eis o cordeiro de Deus”, usada
por João para apresentar Jesus, fará, provavelmente, referência ao “cordeiro
pascal”, símbolo da libertação oferecida por Deus ao seu Povo, prisioneiro no
Egito (cf. Ex. 12,3-14. 21-28). Esta expressão define Jesus como o enviado de
Deus, que vem inaugurar a nova Páscoa e realizar a libertação definitiva dos
homens. A missão de Jesus consiste, portanto, em eliminar as cadeias do egoísmo
e do pecado que prendem os homens à escravidão e que os impedem de chegar à
vida plena.
Depois da declaração de João, os discípulos
reconhecem em Jesus esse Messias com uma proposta de vida verdadeira e seguem-n’O.
“Seguir Jesus” é uma expressão técnica que o autor do Quarto Evangelho aplica,
com frequência, aos discípulos (cf. Jo 1,43; 8,12; 10,4; 12,26; 13,36; 21,19).
Significa caminhar atrás de Jesus, percorrer o mesmo caminho de amor e de
entrega que Ele percorreu, adotar os mesmos objetivos de Jesus e colaborar com
Ele na missão. A reação dos discípulos é imediata. Não há aqui lugar para
dúvidas, para desculpas, para considerações que protelem a decisão, para
pedidos de explicação, para procura de garantias… Eles, simplesmente, “seguem”
Jesus.
Num segundo momento, o quadro apresenta-nos
um diálogo entre Jesus e os dois discípulos (vs. 38-39). A pergunta inicial de
Jesus (“que procurais?”) sugere que é importante, para os discípulos, terem
consciência do objetivo que perseguem, do que esperam de Jesus, daquilo que
Jesus lhes pode oferecer. O autor do Quarto Evangelho insinua aqui, talvez, que
há quem segue Jesus por motivos errados, procurando n’Ele a realização de
objetivos pessoais que estão muito longe da oferta que Jesus veio fazer.
Os discípulos respondem com uma pergunta
(“rabbi, onde moras?”). Nela, está implícita a sua vontade de aderir totalmente
a Jesus, de aprender com Ele, de habitar com Ele, de estabelecer comunhão de
vida com Ele. Ao chamar-Lhe “rabbi”, indicam que estão dispostos a seguir as
suas instruções, a aprender com Ele um modo de vida; a referência à “morada” de
Jesus indica que eles estão dispostos a ficar perto de Jesus, a partilhar a sua
vida, a viver sob a sua influência. É uma afirmação respeitosa de adesão
incondicional a Jesus e ao seu seguimento.
Jesus convida-os: “vinde ver”. O convite de
Jesus significa que Ele aceita a pretensão dos discípulos e os convida a
segui-l’O, a aprender com Ele, a partilhar a sua vida. Os discípulos devem “ir”
e “ver”, pois a identificação com Jesus não é algo a que se chega por simples
informação, mas algo que se alcança apenas por experiência pessoal de comunhão
e de encontro com Ele.
Os discípulos aceitam o convite e fazem a
experiência da partilha da vida com Jesus. Essa experiência direta convence-os
a ficar com Jesus (“ficaram com Ele nesse dia”). Nasce, assim, a comunidade do
Messias, a comunidade da nova aliança. É a comunidade daqueles que encontram
Jesus que passa, procuram n’Ele a verdadeira vida e a verdadeira liberdade,
identificam-se com Ele, aceitam segui-l’O no seu caminho de amor e de entrega,
estão dispostos a uma vida de total comunhão com Ele.
Num terceiro momento (vs. 40-41), os
discípulos tornam-se testemunhas. É o último passo deste “caminho vocacional”:
quem encontra Jesus e experimenta a comunhão com Ele, não pode deixar de se
tornar testemunha da sua mensagem e da sua proposta libertadora. Trata-se de
uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e
se torna anúncio libertador para os irmãos. O encontro com Jesus, se é
verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica missionária.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo diz-nos, antes
de mais, o que é ser cristão… A identidade cristã não está na simples pertença
jurídica a uma instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados
sacramentos, nem na militância em certos movimentos eclesiais, nem na
observância de certas regras de comportamento dito “cristão”… O cristão é,
simplesmente, aquele que acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.
• O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver
n’Ele o Messias libertador com uma proposta de vida verdadeira e eterna,
aceitar tornar-se seu discípulo, segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da
doação da vida, aceitar o desafio de entrar na sua casa e de viver em comunhão
com Ele.
• O nosso texto sugere também que essa
adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem hesitações. Os dois
primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam ganhar, se a aventura
tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o abandono de um mestre
para seguir outro representava uma promoção ou uma despromoção, se o que
deixavam para trás era importante ou não era importante; simplesmente “seguiram
Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações supérfluas, sem “seguros
de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro se a aventura não desse
certo. A aventura da vocação é sempre um salto, decidido e sereno, para os
braços de Deus.
• A história da vocação de André e do outro
discípulo (despertos por João Batista para a presença do Messias) mostra,
ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria
descoberta de Jesus. A comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que
passa e aponta-nos o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas
vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações,
da partilha que eles fazem conosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer
Jesus e para O seguir. É na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas
vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta.
• O encontro com Jesus nunca é um caminho
fechado, pessoal e sem consequências comunitárias… Mas é um caminho que tem de
me levar ao encontro dos irmãos e que deve tornar-se, em qualquer tempo e em
qualquer circunstância, anúncio e testemunho. Quem experimenta a vida e a
liberdade que Cristo oferece, não pode calar essa descoberta; mas deve sentir a
necessidade de a partilhar com os outros, a fim de que também eles possam
encontrar o verdadeiro sentido para a sua existência. “Encontramos o Messias”
deve ser o anúncio jubiloso de quem fez uma verdadeira experiência de vida nova
e verdadeira e anseia por levar os irmãos a uma descoberta semelhante.
• João Batista nunca procurou apontar os
holofotes para a sua própria pessoa e criar um grupo de adeptos ou seguidores
que satisfizessem a sua vaidade ou a sua ânsia de protagonismo… A sua
preocupação foi apenas preparar o coração dos seus concidadãos para acolher
Jesus. Depois, retirou-se discretamente para a sombra, deixando que os projetos
de Deus seguissem o seu curso. Ele ensina-nos a nunca nos tornarmos
protagonistas ou a atrair sobre nós as atenções; ele ensina-nos a sermos testemunhas
de Jesus, não de nós próprios.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José
Ornelas Carvalho
Pureza e vida cristã
I. Passadas já as festas do Natal, em que
consideramos principalmente os mistérios da vida oculta do Senhor, vamos
contemplar neste tempo, seguindo a liturgia, os anos da sua vida pública.
Desde o começo da sua missão, vemos Jesus
que procura os seus discípulos e os chama ao seu serviço, tal como fez Javé em
épocas anteriores. É o que nos mostra a primeira Leitura da Missa de hoje, ao narrar
a vocação de Samuel1, bem como o Evangelho, ao relatar como Jesus se faz
encontrar por aqueles três primeiros discípulos que seriam mais tarde o
fundamento da sua Igreja (2): Pedro, João e Tiago.
Seguir o Senhor, tanto naquela época como
hoje, significa entregar-lhe o coração, o mais íntimo, o mais profundo do nosso
ser, a nossa própria vida. Entende-se, pois, que para corresponder ao
chamamento de Jesus, seja necessário guardar a santa pureza e purificar o
coração. É São Paulo quem no-lo diz na segunda Leitura (3):Fugi da
fornicação... Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que
habita em vós, que o recebestes de Deus e que, portanto, não vos pertenceis?
Fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo. Jamais
ninguém como a Igreja ensinou a dignidade do corpo. “A pureza é glória do corpo
humano perante Deus. É a glória de Deus no corpo humano” (4).
A castidade, fora ou dentro da vida
matrimonial, segundo o estado e a peculiar vocação recebida por cada um, é
absolutamente necessária para se poder seguir a Cristo e exige, juntamente com
a graça divina, uma grande luta e esforço pessoais. As feridas do pecado
original (na inteligência, na vontade, nas paixões e nos afetos), que não
desaparecem com o Batismo, introduziram um princípio de desordem na nossa
natureza: a alma, de maneiras muito diversas, tende a rebelar-se contra Deus, e
o corpo resiste a submeter-se à alma; e os pecados pessoais revolvem o fundo
ruim que o pecado original deixou em nós e aumentam as feridas que causou na
alma.
A santa pureza, parte da virtude da
temperança, inclina-nos a moderar prontamente e com alegria o uso da faculdade
geradora, segundo os ditames da razão ajudada pela fé (5). O seu contrário é a
luxúria, que destrói a dignidade do homem, enfraquece a vontade na busca do bem
e dificulta que a inteligência possa conhecer e amar a Deus, bem como as coisas
humanas. A impureza acarreta freqüentemente uma forte carga de egoísmo e
arrasta a pessoa para atitudes próximas da violência e da crueldade. Se não se
lhe põe remédio, faz perder o sentido do divino e do transcendente: cega para
aquilo que é realmente importante.
Os atos de renúncia (“não olhar”, “não
fazer”, “não imaginar”, “não desejar”), ainda que sejam imprescindíveis, não são
tudo na guarda da castidade; a essência desta virtude é o amor: delicadeza e
ternura com Deus, respeito pelas pessoas, que devem ser encaradas como filhos
de Deus. A castidade “mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida”
(6).
É, portanto, um requisito indispensável para
amar. Ainda que não seja nem a primeira nem a mais importante das virtudes, e
ainda que a vida cristã não possa reduzir-se a ela, no entanto, sem castidade
não há caridade, e esta é a primeira virtude e a que dá a sua perfeição e o
fundamento às demais (7).
Os primeiros cristãos, a quem São Paulo diz
que devem glorificar a Deus no seu corpo, estavam rodeados de um clima
corrompido, e muitos deles provinham desse ambiente. Não vos iludais, diz-lhes
o apóstolo. Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros... possuirão o
reino de Deus. E alguns de vós éreis isso... (8) O Apóstolo indica-lhes que
devem viver uma virtude que era pouco apreciada e até desprezada naquela época
e naquela cultura. Cada um deles devia ser um exemplo vivo da fé em Cristo que
traziam no coração e da riqueza espiritual que possuíam. O mesmo devemos nós
fazer.
II. Devemos ter a firme convicção de que é
sempre possível viver a santa pureza, ainda que a pressão do ambiente seja
muito forte, desde que se empreguem os meios que Deus nos dá para vencer e se
evitem as ocasiões de perigo.
O primeiro passo para isso é adquirir idéias
muito claras sobre a matéria, encará-la com finura e sentido sobrenatural, e
depois tratar do tema com clareza e sem ambigüidades na conversa com quem
orienta a nossa alma, para assim completarmos ou retificarmos as idéias pouco
exatas que possamos ter. Às vezes, certos assim chamados escrúpulos resultam de
não se ter falado completamente a fundo deles, e resolvem-se quando os fatos
objetivos são referidos com toda a clareza na direção espiritual e na
confissão.
Deve-se ainda unir à pureza do corpo a
pureza da alma, orientando os afetos de tal modo que Deus ocupe a todo o
momento o centro da alma. Por isso, é preciso que a luta por viver esta virtude
e por crescer nela se estenda também a todas as matérias que possam
indiretamente facilitá-la ou dificultá-la: a mortificação da vista, do
comodismo, da imaginação, da memória.
Outra condição para a eficácia desta luta é
a humildade. Tem humilde consciência da sua fraqueza todo aquele que foge
decididamente das ocasiões perigosas, que admite contrita e sinceramente os
seus descuidos reais, que pede a ajuda necessária, que reconhece com
agradecimento o valor do seu corpo e da sua alma.
Às vezes, de acordo com a época ou as
circunstâncias, pode ser necessário lutar mais intensamente num ou noutro campo
relacionado com esta virtude: no da sensibilidade, que, sem a devida
mortificação, pode estar mais viva por não se terem evitado causas voluntárias
mais ou menos remotas; no das leituras, que podem mergulhar a alma num clima de
sensualidade, mesmo que não sejam claramente impuras; no da guarda da vista...
Outro campo relacionado com a pureza é o dos
sentidos internos (imaginação, memória), que, ainda que não se detenham em
pensamentos diretamente contrários ao nono mandamento, são freqüentemente
ocasião de tentação e denotam muito pouca generosidade com Deus.
E por último aguarda do coração, que está
feito para amar, e que por isso deve estar preenchido por um amor limpo de
acordo com a vocação de cada um, um amor em que Deus deve ocupar sempre o
primeiro lugar. Não podemos andar com o coração na mão, como quem oferece uma
mercadoria (9).
III. Para seguirmos o Senhor com um coração
limpo, é necessário que pratiquemos um conjunto de virtudes humanas e
sobrenaturais, apoiados sempre na graça, que nunca nos há de faltar se a
pedimos com humildade e se desenvolvemos todos os esforços ao nosso alcance.
Entre as virtudes humanas que ajudam a viver
a santa pureza, conta-se em primeiro lugar alaboriosidade, o trabalho constante
e intenso; muitas vezes, os problemas de pureza são uma questão de ociosidade
ou de preguiça. Também são necessárias avalentia e a fortaleza, para fugirmos
da tentação, para não cairmos na ingenuidade de pensar que isto ou aquilo não
nos faz mal nem invocarmos falsos pretextos de idade ou de experiência. E
deve-se procurar a sinceridade plena, contando toda a verdade com clareza, e
estando prevenidos contra o “demônio mudo” (10), que tende a enganar-nos
tirando importância ao pecado ou à tentação, ou aumentando-a para fazer-nos
cair nessa outra tentação que é a “vergonha de falar”. A sinceridade é
completamente necessária para vencer, pois sem ela a alma fica privada de uma
ajuda imprescindível.
Nenhum meio humano seria suficiente se não
recorrêssemos ao trato íntimo com o Senhor na oração e na Sagrada Eucaristia.
Nelas encontramos sempre a ajuda necessária, as forças que vêm em socorro da
nossa fraqueza pessoal, o amor que nos cumula o coração, criado para o que é
eterno, e portanto sempre insatisfeito com tudo o que há neste mundo. E o
sacramento da Penitência purifica-nos a consciência, concede-nos as graças
específicas do sacramento para vencermos naquilo em que fomos vencidos, seja em
matéria grave ou leve.
Se quisermos entender o amor a Jesus Cristo
tal como os Apóstolos, os primeiros cristãos e os santos de todos os tempos o
entenderam, é necessário que vivamos a virtude da santa pureza. Caso contrário,
ficaremos grudados à terra e não compreenderemos nada.
Recorremos a santa Maria, Mater
Pulchrae Dilectionis (11), Mãe do Amor Formoso, porque Ela gera na
alma do cristão uma ternura filial que lhe permite crescer nesta virtude. E Ela
nos concederá esta virtude própria das almas rijas, se lha pedirmos com amor e
confiança.
Francisco Fernández-Carvajal
Vocação: busca e
convite
No Brasil, a festa do Batismo do Senhor,
encerramento do tempo natalino, substitui o primeiro domingo do tempo comum, de
modo que este começa com o segundo domingo. A espinha dorsal da liturgia da
Palavra nos domingos do tempo comum é a leitura contínua do Evangelho do ano
(no caso, Marcos), e os textos evangélicos são ilustrados, na 1ª leitura, por
episódios do Antigo Testamento. A 2ª leitura não se integra nesse sistema e
recebe sua temática, de modo independente, da leitura semicontínua das cartas
do Novo Testamento (hoje, a questão da fornicação em Corinto).
A leitura evangélica está em continuidade
com a do Batismo do Senhor. Narra a vocação dos primeiros discípulos de Jesus.
Ora, como o Evangelho do ano, Marcos, é mais breve que os outros, a liturgia de
hoje abre espaço para o Evangelho de João (normalmente lido só na Quaresma e no
tempo pascal). De acordo com o Quarto Evangelho, João Batista encaminha dois de
seus discípulos para Jesus, apontando-o como o Cordeiro de Deus. E, quando vão
em busca de Jesus, este lhes responde com o misterioso: “Vinde e vede”. A
liturgia combina com esse texto a vocação de Samuel, na 1ª leitura. As duas
vocações, porém, são diferentes. No caso de Samuel, trata-se da vocação
específica do profeta; no episódio dos discípulos de Jesus, trata-se da vocação
de discípulos para integrar a comunidade dos seguidores. São chamados, antes de
tudo, a “vir” até Jesus para “ver” e a “permanecer/morar” com ele. Daí se
inicia um processo de “vocação em cadeia”. Os que foram encaminhados pelo
Batista até Jesus chamam outros (“André... foi encontrar seu irmão...”). Dentro
dessa dinâmica global da vocação cristã se situam as vocações específicas, como
a de Simão, que, ao aderir a Cristo, é transformado em pedra de arrimo da
comunidade cristã.
1ª leitura (1Sm.
3,3b-10.19)
Desde seu nascimento, o profeta Samuel fora
dedicado ao serviço de Deus no santuário de Silo, em agradecimento pelo favor
que Deus demonstrara a Ana, sua mãe estéril (cf. 1Sm. 1,21-28). Mas o serviço
no santuário não esgotou sua missão. Antes que Samuel fosse capaz de o
entender, Deus o chamou para a missão de profeta. A vocação de Deus, porém, não
é coisa evidente. Descobre-se pouco a pouco. Três vezes Samuel ouve a voz,
pensando ser a voz do sacerdote Eli. Este faz Samuel entender que é a voz do
Senhor; então, quando ouve novamente o chamado, ele responde: “Fala, teu servo
escuta”. Escutar é a primeira tarefa do porta-voz de Deus.
Evangelho (Jo 1,35-42)
Como dissemos, o evangelho é tomado de João,
no episódio do testemunho do Batista: a vocação dos primeiros discípulos. João
Batista encaminha seus discípulos para se tornarem discípulos de Jesus (o tema
volta em Jo. 3,22-30). A busca desses discípulos corresponde a um convite de
Jesus para que eles venham ver e para que permaneçam com ele (Jo 1,35-39). E a
partir daí segue uma reação em cadeia (1,41.45).
Temos aqui a apresentação tipicamente
joanina da busca do Salvador. Nos outros Evangelhos, Jesus se apresenta
anunciando a irrupção do reino de Deus. Em João, ele é a resposta de Deus à
busca do ser humano, assim como o Antigo Testamento diz que a Sabedoria se
deixa encontrar pelos que a buscam (cf. Sb 6,14). Devemos buscar o encontro com
Deus no momento oportuno, enquanto se deixa encontrar (Is 55,6). “Vinde ver...”
é a resposta misteriosa de Jesus à busca dos discípulos que o Batista
encaminhou para ele, apontando-o como o “Cordeiro de Deus”. Descobrimos,
portanto, atrás da cena narrada no evangelho (Jo 1,35-39), toda uma meditação
sobre o encontro com Deus em Jesus Cristo, revelação de Deus que supera a
Sabedoria do Antigo Testamento.
Pelo testemunho do Batista, os que buscavam
o Deus da salvação o vislumbraram no Cordeiro de Deus, o Homem das Dores.
Querem saber onde é sua morada (o leitor já sabe que sua morada é no Pai; cf.
Jo 14,1-6). Jesus convida a “vir e ver”. “Vir” significa o passo da fé (cf.
6,35.37.44.45.65; também 3,20-21 etc.). “Ver” é termo polivalente, que, no seu
sentido mais tipicamente joanino, significa a visão da fé (cf. sobretudo Jo 9).
Finalmente, os discípulos
“permanecem/demoram-se” com ele (“permanecer” ou “morar” expressa, muitas
vezes, a união vital permanente com Jesus; cf. Jo 15,1ss). Os que foram à
procura do mistério do Salvador e Revelador acabaram sendo convidados e
iniciados por ele. Um encontro como este transborda. Leva a contagiar os
outros que estão na mesma busca. André, um dos dois que encontraram o
procurado, vai chamar seu irmão Simão para partilhar sua descoberta (v. 41:
“Encontramos!”). Simão se deixa conduzir até o Senhor, que logo transforma seu
nome em Cefas (rocha, “Pedro”), dando-lhe nova identidade. Na continuação do
episódio (1,45), encontramos mais uma semelhante “reação em cadeia”. Como o
Batista apresentou seus discípulos a Jesus, em seguida os discípulos procuraram
outros candidatos. Esses traços da narrativa podem aludir à Igreja das origens,
consciente de que o “movimento de Jesus” teve suas origens no “movimento do
Batista” e de que, nas gerações futuras, os fiéis já não seriam chamados por
Jesus mesmo, mas por seus irmãos na fé.
2ª leitura (1Cor.
6,13c-15a.17-20)
Como foi dito na introdução, a temática da
2ª leitura não é estabelecida em função das duas outras leituras. Paulo trata
da mentalidade da comunidade de Corinto, influenciada por certo libertinismo.
Liberdade, sim, libertinagem, não, é o teor de sua reação. “Tudo é permitido”,
dizem certos cristãos de Corinto, e Paulo responde: “Mas nem tudo faz bem”
(6,12). Quem se torna escravo de uma criatura comete idolatria: assim, quem se
vicia nos prazeres do corpo. O ser humano não é feito para o corpo, mas o corpo
para o ser humano, e este para Deus: seu corpo é habitação, templo de Deus, e
serve para glorificá-lo.
A oposição de Paulo à libertinagem sexual
não se deve ao desprezo do corpo, mas à estima que ele lhe dedica. O corpo não
fica alheio ao enlevo do espírito, antes o sustenta e dele participa; por isso,
qualquer ligação vulgar avilta a pessoa toda. O ser humano todo, também o
corpo, é habitáculo do Espírito Santo. A pessoa deve ser governada para este
fim do ser humano integral, membro de Cristo, e não subordinada às finalidades
particulares do corpo. Absolutizar os prazeres corporais é idolatria, e essa é uma
mensagem que precisa ser destacada no contexto de nossa “civilização”.
Dicas para reflexão
Segundo o Evangelho de João, foi dentre os
discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio
Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira
o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro,
Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras?”,
respondem. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar
com ele os empolga tanto, que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão
Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte Filipe (o outro dos
dois) chama Natanael a integrar o grupo. A 1ª leitura aproxima disso o que
ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo
de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na
terceira vez o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então
respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.
“Vocação” é um diálogo entre Deus e a gente
– geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si
mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar. Que vocação? Para
que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para
padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral,
a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus e
da qual Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã realiza-se no
casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o
caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus, e não algum projeto
concebido em função de nossos próprios interesses.
O convite de Deus pode ser muito discreto.
Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um
inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja
disposição positiva. Importa estarmos atentos. Os discípulos estavam à procura.
Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A
disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa
vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa
disponibilidade na oração: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo
escuta”. Sem a oração, a vocação não tem vez.
Finalmente, para que a vocação seja
“cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com
dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura
instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é
realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento,
essencial para distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos por meio dos quais
ele fala.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
“Não
deixava cair por terra nenhuma palavra…”
A primeira leitura e o
evangelho deste domingo nos falam do tema da vocação, do seguimento de Deus e
de Jesus. O Batista aponta Jesus como cordeiro de Deus que tira o pecado
do mundo e Samuel é convidado a ouvir atentamente a palavra do Senhor. No final
da primeira leitura lemos: “Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. Ele não
deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”.
Vamos vivendo nossa
vida. Somos seres de perguntas e interrogações. Somos pessoas desejosas de
comunhão e de comunicação. Não fomos feitos para viver no isolamento pobre e
infértil de nós mesmos. E bem lá no fundo de nosso coração temos
sempre o desejo de poder ouvir a vontade de Deus a nosso respeito. Queremos,
sinceramente, desobstruir nosso interior de tal sorte que possamos ser
fecundados pela palavra daquele que vem nos colocar de pé e criar
possibilidades insuspeitadas para o nosso amanhã e o amanhã do mundo.
Temos nossos projetos
de felicidades. Procuramos isso e aquilo. E a Palavra nos diz que a
felicidade será conseguida na medida em que tivermos um coração simples e
pobre, despojado e singelo. Ouvimos dizer que os últimos serão os
primeiros e os primeiros serão últimos. Vamos nos formando e transformando pela
audição da palavra. Nós, cristãos, estamos cercados e envolvidos por
ela: na celebração dos sacramentos, na eucaristia, na Liturgia das Horas e em
tantos momentos. Vamos nos confrontando com a palavra e deixando que ela
cave fundo dentro de nós.
Quando falamos em
Palavra, com p maiúsculo, pensamos na proximidade do próprio Deus, para além da
materialidade dos textos da Escritura e muito pela força de sua
Presença. Os homens e mulheres de fé caminham na Presença de um
Deus que penetra o coração, que vê, que perscruta. E quando Deus
caminha conosco termina nossa solidão.
Ao longo de nossa vida
temos uma preocupação fundamental: escutar o que Deus quer a respeito de
nós ao longo do tempo da vida… Nada mais importante do que ter um coração em
estado de vigília, capaz de discernir no meio das brumas e névoas da vida.
Samuel não deixava cair
por terra nenhuma palavra.
frei Almir Ribeiro Guimarães
Vocação: busca e
convite
Nos três anos do ciclo litúrgico, o domingo
depois do Batismo do Senhor tem como evangelho um trecho do testemunho de João
Batista diante de seus discípulos e a vocação dos mesmos por Jesus (próprio de
Jo; não está nos evangelhos sinóticos). Hoje lemos encaminhamento de dois
discípulos do Batista junto a Jesus, que, respondendo à busca deles, os convida
a “vir e ver” e a ficar na sua companhia. É a apresentação, tipicamente
joanina, da procura do Salvador (nos outros evangelhos, Jesus se apresenta como
irrupção Reino). Jesus é a resposta de Deus à busca do homem, assim como o A.T.
fala da busca da Sabedoria, que se deixa encontrar pelos que a buscam (cf. Sb.
6,14); busca de que devemos procurar enquanto se deixa encontrar (Is. 55,6).
Descobrimos, pois, atrás da cena de Jo
1,35-39 (evangelho), toda uma meditação sobre o encontro com Deus em Jesus
Cristo, que, mais do que a Sabedoria do A.T., é seu revelador. “Vinde ver…” é a
resposta misteriosa de Jesus à busca dos discípulos que o Batista encaminhou
para ele, apontando-o como o “Cordeiro de Deus” (cf. ano A).
Pelo testemunho do Batista, os que buscavam
o Deus da salvação o vislumbraram no Cordeiro de Deus, o Homem das Dores.
Querem saber onde é sua morada (o leitor já sabe que sua morada é no Pai; cf.
Jo 14,lss). Jesus convida o homem que busca a “vir e ver”. “Vir’ significa o
passo da fé (cf. 6,35.37.44.45.65; também 3,20-21 etc.). “Ver” é um termo
polivalente, que, no seu sentido mais tipicamente joanino, significa a visão da
fé (cf. sobretudo Jo 9). Finalmente, os discípulos “permanecem/se demoram” com
ele (“permanecer” ou “morar” expressa, muitas vezes, a união vital permanente
com Jesus; cf. Jo 15,1ss). Os que foram à procura do mistério do Salvador e
Revelador acabaram sendo convidados e iniciados por ele.
Um encontro como este ultrapassa a pessoa
que encontra. Leva-a a contagiar os outros que estão na mesma busca. André, um
dos dois que encontraram o procurado vai chamar seu irmão Simão, para partilhar
sua descoberta (v. 41: “Encontramos!”). Este se deixa conduzir até o Senhor,
que, de início, transforma seu nome em Cefas (rocha, “Pedro”), dando-lhe uma
nova identidade. Na continuação do episódio (1,45), encontramos mais uma
semelhante “reação em cadeia”. Como o Batista introduziu seus discípulos a
Jesus, em seguida os discípulos procuraram outros candidatos (3).
A liturgia combinou com este misterioso
texto a vocação de Samuel (1ª leitura). O encontro com Deus não é uma coisa
evidente. Três vezes Samuel ouve a voz, mas só pela orientação do sacerdote é
capaz de reconhecer o sentido. Uma vez entendendo a voz, acolhe-a com plena
disponibilidade, deixando-se ensinar para ser porta-voz de Deus, profeta.
As duas vocações apresentadas não são bem do
mesmo tipo. No caso de Samuel, trata-se da vocação específica do profeta; no
episódio dos discípulos de Jesus parece que se trata da vocação à comunidade
dos seguidores; os primeiros chamados parecem representar a vocação de todos os
fiéis. Eles não recebem logo uma missão específica, mas são chamados, antes de
tudo, a “vir” até Jesus para “ver”, e a “permanecer/morar” com ele. Por um
testemunho que vem de fora (de João Batista, de outros que já foram chamados
etc.), o homem é encaminhado na busca do Salvador; a esta busca corresponde o
convite de Deus em Jesus Cristo (“vem ver…”), provocando entrega e adesão
(“permaneceram com ele”), que logo transforma o adepto em missionário (“foi
encontrar seu irmão…”). Dentro desta dinâmica global da vocação cristã se
situam as vocações específicas, como a de Simão, que, ao aderir a Cristo, é
transformado em pedra fundamental da comunidade cristã.
A 2ª leitura trata de uma das questões
particulares abordadas em 1Cor. 5-12: a fornicação. A oposição de Paulo à
libertinagem sexual não se deve ao desprezo do corpo, mas à estima que ele lhe
dedica. Pois ele sabe que o corpo não é alheio às alturas do espírito, mas
antes, as sustenta e delas participa; por isso, qualquer ligação vulgar avilta
o homem todo. O homem todo, inclusive o corpo, é habitáculo do Espírito Santo.
O homem deve ser governado para este fim do homem integral, membro de Cristo, e
não o homem subordinado às finalidades particulares do corpo. Absolutizar os
prazeres corporais é idolatria – mensagem que precisa ser destacada no contexto
de nossa “civilização”…
(3) Estes traços da narração podem aludir à
Igreja das origens, consciente de que o “movimento de Jesus” teve suas origens
no “movimento do Batista” e de que, nas gerações futuras, os fiéis não mais
seriam chamados por Jesus mesmo, mas por seus irmãos na fé.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"
As testemunhas apontam
o Salvador
35-51: João descreve os sete dias da nova
criação. No primeiro dia, João Batista afirma: «No meio de vocês existe alguém
que vocês não conhecem.» Nos dias seguintes vemos como João Batista, João,
André, Simão, Filipe e Natanael descobrem a Jesus. É sempre uma testemunha que
aponta Jesus para outra. O último dia será o casamento em Caná, onde Jesus
manifestará a sua glória.
«O que vocês estão procurando?» São estas as
primeiras palavras de Jesus neste evangelho. Essa pergunta, ele a faz a todos
os homens. Nós queremos saber quem é Jesus, e ele nos pergunta sobre o que
buscamos na vida.
Os homens que encontraram Jesus começaram a
conviver com ele. E no decorrer do tempo vão descobrindo que ele é o Mestre, o
Messias, o Filho de Deus. O mesmo acontece conosco: enquanto caminhamos com
Cristo, vamos progredindo no conhecimento a respeito dele.
João Batista era apenas testemunha de Jesus,
a quem tudo se deve dirigir. João sabia disso; por isso convida seus próprios
discípulos para que se dirijam a Jesus. E os dois primeiros vão buscar outros.
É desse mesmo modo que nós encontramos a Jesus: porque outra pessoa nos falou
dele ou nos comprometeu numa tarefa apostólica.
Jesus sempre reconhece aqueles que o Pai
coloca em seu caminho. Ele reconhece Natanael debaixo da figueira e também
Simão, escolhido para ser a primeira Pedra da Igreja.
Vereis o céu aberto: No sonho de Jacó, os
anjos subiam e desciam por uma escada que ligava a terra ao céu (leia Gn.
28,10-22). Doravante é Jesus, o Filho do Homem, a nova ligação entre Deus e os
homens.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral
Testemunho de João
Naquele tempo, João estava de novo com dois
de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o cordeiro de Deus!”
Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.
Voltando-se para eles e vendo que o estavam
seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que
quer dizer: Mestre), onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver
onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da
tarde.
André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois
que ouviram as palavra de João e seguiram Jesus. Ele foi encontrar primeiro seu
irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo).
Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és
Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).
Desenvolvimento do Evangelho
O Evangelho que inicia o tempo comum deste
ano “B” fala da vocação que se revela através de João Batista, de que Jesus é o
“Cordeiro de Deus”, o libertador.
O testemunho de João Batista desperta a
vocação dos dois primeiros discípulos que tomam a iniciativa de seguir a Jesus
sem esperar que Ele os chame e, a partir desse momento, descobrem que n’Ele está
a resposta de todos os seus anseios.
O Batista, por causa de seu testemunho,
encaminha os discípulos que, pela coragem da opção que fizeram, dão pleno
sentido a suas vidas e passam a ser testemunho para os outros também.
Eles não estão interessados em teorias sobre
Jesus, ao contrário, querem criar laços de intimidade com Ele, a partir do
encontro e do seguimento, fazendo experiência com Cristo, e por isso perguntam:
“Mestre, onde moras?” E na resposta de Jesus é possível perceber o que é ser
seu discípulo. Ele não dá resposta pronta, convida para a ação, para a
experiência: “Venham ver!”, que significa dar um passo na fé.
‘Venham’ é a indicação de que Jesus convida
para conhecê-Lo, era Ele quem chamava; e ‘ver’ supõe concentrar a atenção na
Sua pessoa, nos Seus valores e nas Suas ações, deixando-se moldar por Ele. E
eles foram, viram e permaneceram com Jesus. Permanecer/morar no Senhor é um
sentido de comunhão plena, união vital e permanente com Jesus.
O evangelho afirma que a experiência com
Jesus valeu a pena: “Eram mais ou menos quatro horas da tarde” que significa,
simbolicamente, o momento gostoso para o encontro ou, a hora para as opções
acertadas.
Um discípulo de Jesus não guarda apenas para
si a Boa Nova, assim como João Batista a transmitiu aos seus discípulos, também
André parte para levá-la adiante. Encontra primeiro seu irmão, o que dá a
entender que teria encontrado, em seguida, outras pessoas. A partir do
testemunho deles o grupo de colaboradores de Jesus vai crescendo.
Ao encontrar-se com Pedro, Jesus lhe dá uma
nova identidade, chamando-o de Céfas, que significa Pedra, e ele ao aderir a
Cristo é transformado em pedra fundamental da comunidade cristã.
Pequeninos do Senhor
Vinde e vede!
O modo como se dava o discipulado de Jesus
era muito distinto daquele dos rabinos. Na tradição rabínica, o discípulo
escolhia seu mestre e por este era instruído na arte de interpretar as
Escrituras. Esta atividade de caráter intelectual desenvolvia-se numa escola
onde o mestre distinguia-se pela excelência do saber e o discípulo, pelo desejo
de conhecer.
O método adotado por Jesus consistia na
transmissão de um modo de ser, mais do que uma ciência. Os discípulos não
estavam confinados numa escola, mas se colocavam no seguimento do Mestre e
aprendiam, ouvindo suas palavras e presenciando o que ele fazia em favor do
povo. Este aprendizado existencial ia transformando a vida do discípulo, num
processo paulatino de assimilação de tudo que o Mestre realizava.
O discipulado, neste caso, consistia num
duplo movimento. "Vinde" indicava que o discipulado se dava pela
iniciativa de Jesus que convocava para o seu seguimento. Era ele quem chamava.
Cabia ao discípulo aceitar o convite. "Vede" supunha concentrar a
atenção na pessoa de Jesus para captar os valores que regiam sua ação e
deixar-se moldar por eles.
Os primeiros discípulos aceitaram o convite
de Jesus, ficaram fascinados por ele, e saíram para partilhar com os irmãos a
experiência deste encontro transformador. Quem quiser se fazer discípulo do
Senhor deverá trilhar o mesmo caminho.
padre Jaldemir Vitório
1ª leitura (1Sm 3,3b-10.19) - Vocação de
Samuel
Samuel, desde seu nascimento, em
agradecimento pelo favor de Deus a sua mãe estéril, foi dedicado ao serviço de
Deus, no templo de Silo (cf. 1Sm 1,21-28). Mas este serviço não esgotou sua
missão. Antes que ele fosse capaz de o entender, Deus o chamou para a missão de
profeta. “Fala, teu servo escuta”, responde Samuel. Escutar é a primeira tarefa
do porta-voz de Deus.
* Cf. Ex. 25,22; Is. 6.
2ª leitura (1Cor. 6,13c-15a.17-20) - Nosso
corpo é santo: pertence ao Senhor
Liberdade sim, libertinagem não. “Tudo é
permitido”, dizem certos cristãos de Corinto, e Paulo responde: “Mas nem tudo
faz bem” (6,12). Quem se torna escravo de uma criatura comete idolatria. Assim,
quem se vicia nos prazeres do corpo. O homem não é feito para o corpo, mas o
corpo para o homem, e este, para Deus: seu corpo é habitação, templo de Deus, e
serve para glorificá-lo.
*
6,13 cf. 1Ts. 4,3-5; 1Cor. 10,31 * 6,14, 1Cor. 3,23 * 6,20a cf. 1Cor. 7,23; Rm.
3,24; 6,15 * 6,20b cf. Fl. 1,20.
Evangelho (Jo 1,35-42) - Vocação dos
primeiros discípulos
João Batista encaminha seus discípulos para
se tornarem discípulos de Jesus (cf. Jo 3,22-30). À procura desses corresponde
um convite de Jesus, para que eles venham ver e permaneçam com ele. E a partir
daí segue uma reação em cadeia (1,41.45).
* Cf. Mt. 4,18-22; Mc. 1,16-22; Lc. 5,1-11 *
1,35-36, cf. Jo 1,6-8; 1Pd. 1,19; Is. 53,7
Escutar Deus e seguir
Jesus
Depois da festa do Batismo do Senhor, que no
Brasil substitui o 1º domingo do tempo comum, a liturgia dominical continua
logo com o 2º. Mesmo sem querer, essa continuação é muito adequada: Jesus, logo
depois de ser batizando por João Batista e tentado no deserto, chamou os
primeiros discípulos. Segundo Jo, do qual se extrai o evangelho de hoje, foi
dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus.
O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o
Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando
seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre,
onde moras”, respondem. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e
poder ficar com ele tanto os empolga que um dos dois, André, logo vai chamar
seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte, Filipe
(o outro dos dois?) chama Natanael a integrar o grupo.
A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu,
mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo.
Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira
vez, o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu:
“Fala, Senhor, teu servo escuta”.
“Vocação” e um diálogo entre Deus e a gente
– geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si
mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar. Que vocação? Para
que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para
padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral,
a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus, e
da qual o Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã se realiza no
casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o
caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus e não algum projeto
concebido em função de nossos interesses próprios, às vezes contrários aos de
Deus.
O convite de Deus pode ser muito discreto.
Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um
inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja
disposição positiva. Importa estar atento. Os discípulos estavam à procura.
Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A
disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa
vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa
disponibilidade na oração: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo
escuta”. Sem a oração, a vocação não tem vez.
Finalmente, para que a vocação seja
“cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com
dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura
instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é
realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, para
saber distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos através dos quais ele fala.
padre Johan Konings
Jesus
chama à comunhão com Ele no seguimento
Deus fala ao ser humano
e sua voz pode ser ouvida e reconhecida. Deus chama Samuel; Jesus, os seus
discípulos. A voz que fala em nós precisa ser discernida, para que a voz de
Deus não se confunda com outras tantas vozes que falam em nosso interior. Do ser
humano é requerida abertura do coração para deixar Deus falar e para escutar a
sua voz. Confiado por sua mãe ao sacerdote Eli, Samuel cresceu no Templo do
Senhor. Eli ensinou Samuel a reconhecer a voz do Senhor e a se dispor
generosamente a escutá-lo. Para isso, é preciso fazer calar toda fantasia e
barulho interno. Sob a orientação de Eli, Samuel pôde se abrir à graça da
presença de Deus: “Fala que teu servo escuta!”. Diante de sua disposição,
abre-se para ele um verdadeiro caminho de serviço a Deus. No evangelho, é Jesus
quem chama e convida à comunhão com ele no seu seguimento: “vinde e vede”. João
Batista não era um asceta itinerante; ele continuava em Bethabara, do outro
lado do Jordão, lugar em que ministrava um batismo provisório para a conversão,
tendo em vista a vinda do Messias (cf. Jo 1,28). Somente o evangelho de João
informa ao leitor de que discípulos de João Batista se tornaram discípulos de
Jesus. Nisso também se mostra que a missão do Batista estava orientada para o
Messias. Uma das características do quarto evangelho é a corrente de
testemunhas que, no trecho de hoje, tem sua origem no testemunho de João
Batista sobre Jesus. João aponta para Jesus nomeando-o com um título
soteriológico: “cordeiro de Deus”. Com isso, deixa livre os seus discípulos
para irem atrás de Jesus. Os dois discípulos, um dos quais o leitor não conhece
o nome, aceitam o convite de Jesus, de conhecerem não um lugar, mas a relação
que une o Pai e o Filho. Tendo aceitado o convite, eles decidem “permanecer”
com o Senhor, isto é, viver em comunhão com o Senhor. A nomeação de André,
irmão de Simão Pedro, prepara o encontro deste com Jesus, encontro que mudará
profundamente a orientação da sua vida. Foi André quem apresentou seu irmão a
Jesus. O outro discípulo, no entanto, como dissemos, permanece anônimo,
sugerindo que o leitor se identifique com ele e deseje, como ele, conhecer e
viver com Jesus. A vida cristã se exprime nesse desejo contínuo de “permanecer”
com Jesus.
Carlos Alberto Contieri,sj
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