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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM- Ano B

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM- Ano B

14  de janeiro
               

Evangelho - Jo 1,35-42


·     João Batista, como profeta iluminado, sabia que Jesus era o cordeiro de Deus, era a vítima que seria imolada, a oferenda dirigida ao Pai pelo perdão dos nossos pecados. Continuar lendo



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"O QUE ESTAIS PROCURANDO?” – Olivia Coutinho

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 14 de Janeiro de 2018

Evangelho de Jo1,35-42

Saber que Jesus é o Filho de Deus, não acrescenta nada na nossa vida, isso, até o seu adversário sabe! O que vai fazer a diferença mesmo na nossa vida, é saber quem é o Filho de Deus!  Teoricamente, não vamos conhecer Jesus, saber  quem é Ele, só vamos conhecê-lo de fato,  através da nossa  experiência  pessoal com Ele.
Quem se torna íntimo de Jesus, encontra sentido para a sua vida, motivação para dar continuidade a sua missão aqui na terra.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, chama a nossa atenção sobre a importância de nos tornarmos íntimos de Jesus! 
O texto nos fala que dois discípulos de João Batista, passaram a seguir Jesus, depois que João o apontou como o Cordeiro de Deus!
No relato, desenha-se o momento em que João começava a sair de cena, para a entrada de Jesus na história!
Tudo acontece num pequeno espaço de tempo, que João estava  com esses seus dois discípulos, vê Jesus passando, e paira o seu olhar sobre Ele! Maravilhado, João busca dentro de si, algo que definisse Jesus: “Eis o cordeiro de Deus!” João se referiu a Jesus, como Cordeiro, porque como um cordeiro, que era sacrificado pelos os pecados do povo, Jesus também, seria sacrificado pelos os pecados da humanidade, tomaria para si o lugar do cordeiro.
Ao perceber os dois discípulos de João, caminhando atrás de si, Jesus  volta-se para eles e pergunta:  “O que estais procurando? Eles responderam com outra pergunta: “Rabi (Mestre) onde moras”? ”Jesus não diz onde mora, mas faz a eles um convite: “Vinde ver!”
A expressão: "Vinde ver," não significa que Jesus estivesse convidando-os  a conhecer um local físico, afinal, Jesus era itinerante, não tinha onde morar, Ele mesmo afirmara: “O filho do homem não tem onde recostar a cabeça.” Mt8,20.
“Vinde ver” dentro daquele contexto, significava fazer a experiência com Ele, é como se Jesus dissesse a aqueles dois discípulos: Venha, fique comigo e verás onde moro, quem eu  sou, o que faço. Foi o que eles fizeram, seguiram Jesus, conheceram o seu cotidiano, e neste convívio direto com Ele, descobriram quem era o Filho de Deus! A partir daquela  experiência, esses dois discípulos,  passaram a  dar testemunho de Jesus, provocando em muitas pessoas, o desejo de fazer  a mesma experiência que eles fizeram.
O testemunho destes primeiros seguidores de Jesus levou muitos ao encontro Dele! É graças ao testemunho deles, e dos demais discípulos, que conviveram diretamente com Jesus, que agora, nós, discípulos de hoje, eu, você, estamos aqui, juntos, caminhando na mesma direção, buscando um só objetivo: encontrar a felicidade plena, felicidade plena, que só encontramos em Jesus!
"Encontramos o Messias”, este foi o anúncio jubiloso dos dois discípulos de João Batista, que passaram a seguir Jesus, a serem discípulos Dele!
Quem experimenta uma vida nova em Jesus, não consegue guardar esta experiência só para si, a sua  alegria é tão grande que não cabe dentro de si, daí, a  necessidade de partilha-la com o outro, no desejo de que o outro possa também, viver esta alegria! 
É na convivência com  Jesus que vamos nos tornando mais humanos, e quanto mais humanos, mais divinizados somos!  
Tão importante, quanto conhecer Jesus, é permanecer com Ele, é viver como Ele, é fazer o que Ele fazia...


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Neste domingo vamos refletir o chamado que Deus nos faz. É muito fácil confundir vozes que vem de nós mesmos, de nossos desejos e vontades, com a voz que vem de Deus. Discernir a voz divina é dom especial conferido a quem é chamado a guiar o povo, a ser pastor e sacerdote no meio do povo, como é o caso de Eli.
No evangelho, dois discípulos de João Batista vêem Jesus passando, e João o apresenta como Cordeiro de Deus, um título que indica Jesus como Messias, o enviado de Deus.
Diante do chamado divino existe sempre a possibilidade da aceitar ou recusar. A cena do chamado de Samuel na 1ª leitura, da alegria extravasada pelo salmista e da disposição de conviver com Jesus em sua casa (Evangelho), são exemplos de respostas positivas ao chamado divino.
O colocar-se nos caminhos divinos sempre acontece com um despertar, bem expresso na vocação de Samuel que dormia e foi despertado para viver à disposição do Senhor. O mesmo despertar acontece com os dois primeiros discípulos de Jesus, feito por João Batista ao apresentar Jesus como “Cordeiro de Deus”
A Palavra de João Batista desperta o primeiro passo da fé, apresentando Jesus. O segundo passo consiste em responder a pergunta de Jesus - a primeira frase de Jesus no Evangelho de João: “o que estais procurando?”
A reposta é o início de um novo modo de viver a partir da convivência com Jesus, escolhendo-o como Mestre de vida.
Mas, o chamado divino não acontece somente pela voz; este acontece também pelo ver. É o que ouvimos no Evangelho. Dois discípulos de João Batista vêem Jesus passando, e João o apresenta como Cordeiro de Deus, um título que indica Jesus como Messias, o enviado de Deus.
Hoje, Jesus continua passando na vida da gente de muitos modos, como ele mesmo nos ensinou num de seus ensinamentos: “eu estava com fome e me destes de comer, com sede e me destes de beber…”

CURIA DIOCESANA   JALES

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A morada de Deus
Iniciamos um novo ano litúrgico com a festa do Batismo de Jesus, que celebramos no domingo passado.
De acordo com o evangelista Marcos (Mc. 1,7-11), esta festa é a inauguração secreta do tempo messiânico, porque só Jesus o sabe por enquanto.
Novamente a Igreja nos convida a percorrer e participar da vida de Jesus. E nos oferece a sua Palavra, para ser acolhida, vivida e celebrada comunitariamente.
Neste ano, quem nos vai introduzir, cada domingo, no mistério da Boa Nova de Jesus, é o evangelho de Marcos.
Iniciamos este novo ano litúrgico com João Batista apontando aos seus discípulos Jesus de Nazaré como o Cordeiro de Deus, porque como ele mesmo diz: "Eu vi e deu testemunho que ele é o Eleito de Deus" (Jo 1,34). O precursor cumpre sua missão e convida aos seus discípulos a seguir Aquele para quem ele tinha preparado o caminho.
Podemos nos perguntar por que João chama Jesus de Cordeiro de Deus?
Para os judeus, escutar essas palavras ativam sua memória do Primeiro (Antigo) Testamento. A libertação da escravidão, a saída de Egito é marcada pelo sangue do cordeiro, seu sangue sela a aliança de Deus com seu povo.
Assim sendo, João Batista apresenta Jesus como o novo Cordeiro de Deus, o Ungido, aquele através do qual Deus realizará uma nova e eterna aliança com a humanidade (Jr. 32,40-41).
É por isso que os discípulos de João não duvidam em seguir Jesus, a vida e as palavras do Batista os orientam a Jesus, colocam-nos no seu caminho.
Lembremos que pessoas nos têm ajudado a colocar-nos no caminho de Jesus. E nossa vida leva outros a conhecerem Jesus?
Os discípulos caminham atrás Jesus. De repente, Ele rompe o silêncio de seus seguidores, voltando-se pergunta-lhes: "O que é que vocês estão procurando?".
Dessa maneira, leva-os a questionar-se interiormente por que o estão seguindo. Iniciaram esse caminho, conduzidos pelas palavras de João Batista, agora têm que responder por si próprios, o seguimento de Jesus pede uma adesão livre e responsável de cada um, cada uma.
Jesus se apresenta já como mestre de liberdade, ele quer que seus amigos e amigas sejam homens e mulheres livres.
Ao responder a sua pergunta com outra: "Rabi, (Mestre) onde moras?", os discípulos estão manifestando a Jesus seu desejo de conhecê-lo, de saber dele, de entrar na sua vida, na sua intimidade. Deixam claro que querem segui-lo, e o seguimento é estar com o Mestre.
E Jesus os acolhe, abre-lhes as portas da sua vida, convidando novamente à liberdade a colocar-se em ação: "Venham, e vocês verão." Não faz um discurso, não dita normas, mostra-lhes sua morada. Cabe-nos perguntar qual é essa morada,  já que ele mesmo diz que não tem morada alguma! (Mt. 8,20)!
João evangelista nos dá uma dica sobre a residência de Jesus: "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14), colocou sua tenda no meio de nós.
Para Marcelo Barros, quando o quarto evangelho diz: "A Palavra de Deus se fez Carne", podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua "comunidade da vida", não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo.
Por isso, a comunhão com a natureza é fundamental no caminho da intimidade com Deus. Dela podemos aprender atitudes fundamentais para viver segundo o projeto de Deus, as palavras e parábolas de Jesus estão cheias desses ensinamentos!
Não podemos esquecer que a morada, na qual Jesus convida seus discípulos/as de todos os tempos a entrar e morar, o universo do qual somos parte, sofre e geme.
É necessário que, em primeiro lugar, escutemos seus gemidos, sejamos sensíveis a eles para depois cada um/a, do lugar onde se encontra, colabore com o desenvolvimento sustentável de nosso planeta, morada de Deus e de suas criaturas.
O seguimento de Jesus que se inicia nesta experiência de encontro com Ele, leva a marca do compromisso no cuidado e respeito com todo o criado. Hoje todo o universo está crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, "os povos crucificados").
Ser seguidores/as de Jesus, viver sua ressurreição é trabalhar para que toda a criação goze da sua Vida em abundância, desta forma louvaremos ao Criador.
Oração com as culturas indígenas
"Ó grande Espírito, o teu sopro infunde vida
ao mundo inteiro e a cada ser do universo.
Tua voz se ouve no vento que assobia,
o teu cheiro nas flores e no capim molhado.
Precisamos de tua beleza e teu encanto,
dá a todos os seres que te buscam, sabedoria,
dá-nos olhos capazes de te perceber
no menor dos seres e a cada passo do dia.
Faze-nos te descobrir no calor de um dia fatigante
e no trabalho cotidiano que fazemos,
dá-nos tua capacidade de visão
para que possamos entender melhor o que vivemos.
Faze-nos estar em tua presença com mãos limpas,
olhos atentos para que, quando a vida adormecer,
como o poente, nosso ser mais intimo de ti se aproxime,
e sem temor, o nosso ser se funda ao teu ser (oração de um chefe indígena dos EUA)


INSTITUTI HUMANITAS UNISANTOS


Após as santas festas do tempo do Natal do Senhor, estamos iniciando o tempo Comum. Terminada ontem a primeira semana deste tempo “verde”, entramos hoje no segundo domingo chamado comum: comum do dia-a-dia, da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente na sua Igreja na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e eficácia aos sacramentos. 
A Escritura que escutamos nesta Missa falou-nos de um Deus que chama, que entra na nossa vida e nos dirige o seu apelo. Foi assim com Samuel que, novinho, sequer sabia reconhecer a voz do Senhor; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois, André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e vereis! Somente se tiverdes a coragem de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Não é impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo nome, que o Senhor nos chame e nos queira parceiros seus no caminho da vida? E, no entanto, é assim! Também nós somos conhecidos pelo nome, nossos passos, nosso coração, nossa vida são conhecidos pelo Senhor... E ele nos chama com amor. A nós, que estamos procurando a felicidade e a realização na vida, o Senhor também dirige a pergunta: “O que estais procurando?” Vinde, fiquemos com o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura, aquilo que faz a vida valer a pena.
Mas, esse “estar com o Senhor”, esse “permanecer com ele”, que é o início da própria vida eterna já neste mundo, não pode se dar sem que realmente sejamos de Cristo, com todo o nosso ser, corpo e alma. Aqui aparece com toda clareza a urgência e atualidade da advertência de São Paulo, feita aos coríntios e a nós. Corinto era uma cidade particularmente devassa do Império Romano. E, como hoje, os cristãos eram tentados a “corintiar”, a entrarem na onda, achando tudo normal, moderno e compatível com a fé. O Apóstolo, em nome de Cristo, desmascara essa ilusão, tão comum entre os cristãos de hoje. Ouçamo-lo! É incômodo, é chato, mas é a Palavra de Deus, que nos ilumina, liberta e nos salva... Ouçamo-la! “O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo!” Eis cristão: teu corpo pertence ao teu Senhor Jesus Cristo que nele habita pela potência do seu Espírito Santo desde o dia do teu Batismo: “Porventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo? Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo!” Compreende, cristão! Tu pertences a Cristo, tu és sagrado porque no Batismo foste consagrado pelo Espírito de Cristo que habita em ti! Teu corpo foi lavado pela água, símbolo do Santo Espírito, foi ungido pelo óleo batismal, sinal da graça de Cristo, foi untado pelo santo Crisma, sinal da força e da energia do Espírito de Cristo; teu corpo foi alimentado com o Corpo do Senhor... Teu corpo é sagrado, cristão, teu corpo é santo, teu corpo pertence ao Senhor! “Portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo!” Solteiro ou casado, todos nós temos o dever sagrado, o dever de amor de fugir da imoralidade! À medida que o paganismo avança, perde-se o sentido cristão do corpo e da sexualidade! Tem-se a idéia que o corpo é para o prazer, para a satisfação da libido; pensa-se que o corpo é uma coisa, um objeto de prazer, que a bel prazer pode ser usado... Isso pensam os pagãos, isso vivem os pagãos. Nós sabemos que não é assim: “O corpo é para o Senhor e o Senhor é para o corpo...” para este corpo, que será ressuscitado para a glória de Cristo!
Eis, caríssimos em Cristo, os pecados de hoje: a impureza (ou seja a busca do prazer solitário e de atos e pensamentos sensuais que aguçam propositalmente o erotismo), a fornicação (isto é, o ato sexual antes do casamento com pessoas do mesmo ou do outro sexo) o adultério (ou seja, a relação fora do casamento). Nunca deveremos esquecer qual a verdade do Evangelho: o ato sexual somente é santo, responsável, bendito e plenamente agradável a Deus no casamento. Fora dele, é sempre um pecado – e esta regra não conhece nenhuma exceção! E mais: a vida sexual do casal deve ser santa. Como diz a Palavra do Senhor: “O matrimônio seja honrado por todos, e o leito conjugal, sem mancha; porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros” (Hb. 13,4).
O modo que os cristãos têm de vivenciar a sexualidade não pode ser o modo dos pagãos. Eles seguem seus caprichos, suas paixões... Nós, mesmo frágeis, mesmo com nossos instintos e tendências muitas vezes desordenadas, por amor do Cristo que nos amou, temos o dever de lutar para colocar nossa sexualidade debaixo do senhorio de Cristo! Esse senhorio é mistério de cruz, mas também de ressurreição. Nós, que somos um só corpo com o Senhor pelo batismo e a eucaristia, nós que pelo Espírito Santo nos tornamos uma só coisa com o Senhor, de corpo e alma, não podemos pensar e viver nossa sexualidade como os pagãos! Então, jovem solteiro, jovem solteira, tua vida sexual, teu namoro, devem ser vividos à luz do Senhor Jesus! Casados cristãos, vossa vida conjugal não deve ser como a dos pagãos, sujeita e ditada simplesmente pela libido... Vossa sexualidade deve ser vivida na luz do Senhor! Homossexual cristão, vive tua tendência de modo cristão, lutando para seres casto, recorrendo à oração, completando corajosamente na carne da tua vida e da tua luta, aquilo que falta à paixão do Cristo. Procura viver dignamente, procura acompanhamento espiritual e coloca em Cristo a tua esperança e a tua alegria. Solteiro cristão, vive tua sexualidade na castidade e na continência por amor a Cristo! Padre, religioso, religiosa, tem coragem e generosidade para viveres o que prometeste a Cristo diante de toda a Igreja reunida no dia da tua profissão religiosa ou da tua ordenação sacerdotal! O Senhor nos pedirá contas, a todos nós! Ninguém está acima da Palavra, ninguém está acima do juízo do Cristo Jesus! 
Talvez, alguns de vocês pensem como os judeus pensaram ao término do Discurso sobre o Pão da Vida: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo. 6,60). Pois bem, a nós, com doçura e também com firmeza o Senhor diz: “Isto vos escandaliza? Quereis também vós ir embora?” (Jo. 6,61.67). Não é fácil, irmãos! Não somos melhores nem mais fortes que ninguém... Sentimos em nós pensamentos, afetos e desejos contraditórios... Mas, sabemos que Cristo nos chamou, nos amou e por nós entregou a vida. Então, que digamos como Pedro: “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo. 6,69). 
É isto, dizer na vida como Samuel disse: “Eis-me aqui”; é isto atender ao convite do Senhor: “Vinde e vereis”; é isto, finalmente, “ir ver onde ele mora e permanecer com ele”.  Que ele nos dê também a nós a sua graça!
dom Henrique Soares da Costa


A liturgia do 2º domingo do tempo comum propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.
O Evangelho descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos.
Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do cristão.
1ª leitura: 1Sam. 3,3b-10.19 - AMBIENTE
O livro de Samuel refere-se a uma das épocas mais marcantes da história do Povo de Deus. Os acontecimentos narrados abrangem um arco de tempo que vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de David (972 a.C.) e dão-nos uma visão global do caminho feito pelo Povo de Deus desde que eram um conjunto de tribos autônomas e sem grande ligação entre si, até ao tempo da união à volta da realeza davídica.
Os primeiros capítulos do Livro de Samuel situam-nos ainda na fase pré-monárquica. É uma época paradoxal e cheia de ambigüidades… Por um lado, observa-se um processo crescente de sedentarização, de consolidação e de unificação das tribos no território de Canaã, a partir de determinados elementos unificadores, como sejam os “juízes”, os pactos de defesa diante dos inimigos comuns, as federações de tribos vizinhas e os santuários que periodicamente acolhem a Arca da Aliança e assentam as bases da fé monoteísta; por outro lado, observa-se também a precariedade das coligações defensivas diante dos ataques inimigos, a escassa consciência unitária, o descrédito de alguns “juízes” (nomeadamente dos filhos de Eli e, mais tarde, dos filhos de Samuel)… As instituições tribais revelam-se manifestamente insuficientes para responder às novas exigências, nomeadamente à pressão militar exercida pelos filisteus. O modelo monárquico dos povos vizinhos começa a seduzir as tribos do Povo de Deus e a parecer a solução ideal para responder adequadamente aos desafios da história.
Samuel aparece nesse tempo caótico. Pertence à tribo de Efraim – quer dizer, a uma tribo instalada no centro do país, na montanha de Efraim (onde, aliás, Samuel exerce o seu ministério). O Livro de Samuel apresenta-o como um “juiz” (narra-se o seu nascimento maravilhoso nos mesmos moldes que o nascimento de Sansão – 1Sm. 1; cf. Jz. 13); mas logo se diz que ele foi educado no templo de Silo, onde estava depositada a Arca da Aliança (1 Sm. 2,18-21) – o que significa que exercia igualmente funções litúrgicas. Mais tarde irá ser chamado, num período de desolação, a conduzir o Povo no combate contra os filisteus.
Samuel é uma figura complexa e multifacetada, simultaneamente juiz, sacerdote e chefe dos exércitos. De algum modo, faz a ponte entre uma época de confusão e de escassa consciência unitária, para uma época onde começa a estruturar-se uma organização mais centralizada.
O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta a vocação de Samuel. A cena situa-nos no santuário de Silo, onde estava a Arca da Aliança. Samuel, consagrado a Deus por sua mãe, era servidor do santuário.
Para o nosso autor, o chamamento de Samuel marca o início do movimento profético… Antes, “o Senhor falava raras vezes e as visões não eram frequentes” (1Sm. 3,1); depois, “o Senhor continuou a manifestar-Se em Silo. Era ali que o Senhor aparecia a Samuel, revelando-lhe a sua Palavra” (1Sam. 3,21).
O quadro da vocação de Samuel não nos apresenta, com certeza, uma reportagem jornalística de fatos; apresenta-nos, sim, uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem, redigida de acordo com o esquema típico dos relatos de vocação.
 MENSAGEM
A primeira nota que é preciso sublinhar na história da vocação de Samuel é que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus (“o Senhor chamou Samuel” – v. 4a). É Deus que, seguindo critérios que nos escapam absolutamente mas que para Ele fazem sentido, escolhe, chama, interpela, desafia o homem. A indicação de que “Samuel ainda não conhecia o Senhor porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a Palavra do Senhor” (v. 7) sugere claramente que o chamamento de Samuel parte só de Deus e é uma iniciativa exclusiva de Deus, à qual Samuel é, num primeiro momento, totalmente alheio.
Uma segunda nota é sugerida pelo enquadramento temporal do chamamento: Deus dirige-Se a Samuel enquanto este estava deitado, presumivelmente, durante a noite. É o momento do silêncio, da tranquilidade e da calma, quando a algazarra, o barulho e a confusão se calaram. A nota sugere que a voz de Deus se torna mais facilmente perceptível ao vocacionado no silêncio, quando o coração e a mente do homem abandonaram a preocupação com os problemas do dia a dia e estão mais livres e disponíveis para escutar os apelos e os desafios de Deus.
Uma terceira nota diz respeito à forma como se processa a resposta de Samuel ao chamamento de Deus.
Antes de mais, o autor do texto sublinha a dificuldade de Samuel em reconhecer a voz do Senhor. Jahwéh chamou Samuel por quatro vezes e só na última vez o jovem conseguiu identificar a voz de Deus. O fato sublinha a dificuldade que qualquer chamado tem no sentido de identificar a voz de Deus, no meio da multiplicidade de vozes e de apelos que todos os dias atraem a sua atenção e seduzem os seus sentidos.
Depois, sobressai o papel de Eli na descoberta vocacional do jovem Samuel. É Eli que compreende “que era o Senhor quem chamava o menino” e que ensina Samuel a abrir o coração ao chamamento de Jahwéh (“se fores chamado outra vez, responde: «fala, Senhor; o teu servo escuta»” – v. 9). O pormenor sugere que, tantas vezes, os irmãos que nos rodeiam têm um papel decisivo na percepção da vontade de Deus a nosso respeito e na nossa sensibilização para os apelos e para os desafios que Deus nos apresenta.
Finalmente, o autor põe em relevo a disponibilidade de Samuel para ouvir e para acolher a voz de Deus: “fala, Senhor; o teu servo escuta” (v. 10). No mundo bíblico, “escutar” não significa apenas ouvir com os ouvidos; mas significa, sobretudo, acolher no coração e transformar aquilo que se ouviu em compromisso de vida. O que Samuel está aqui a dizer a Deus é que está disposto a acolher os seus apelos e desafios e a comprometer-Se com eles. O que Samuel está a dizer a Jahwéh é que aceita embarcar no desafio profético e ser um sinal vivo de Deus, voz “humana” de Deus, na vida e na história do seu Povo.
ATUALIZAÇÃO
• A vocação é sempre uma iniciativa, misteriosa e gratuita, de Deus. Antes de mais, o profeta deve ter plena consciência de que na origem da sua vocação está Deus e que a sua missão só se entende e só se realiza em referência a Deus. Um profeta não se torna profeta para realizar sonhos pessoais, ou porque entende ter as “qualidades profissionais” requeridas para o cargo e faz uma opção profissional pela profecia… O profeta torna-se profeta porque um dia escutou Deus a chamá-lo pelo nome e a confiar-lhe uma missão. Todos nós, chamados por Deus a uma missão no mundo, não podemos esquecer isto: a nossa missão vem de Deus e tem de se desenvolver em referência a Deus; não nos anunciamos a nós próprios, mas anunciamos e testemunhamos Deus e os seus projetos no meio dos nossos irmãos.
• O “quadro” da vocação de Samuel situa-nos num quadro temporal próprio: de noite, quando já terminaram as tarefas do dia e quando o santuário de Silo está envolvido na tranquilidade, na calma e no silêncio… Provavelmente, o catequista autor deste texto não escolheu este enquadramento por acaso. Ele quis sugerir que é mais fácil detectar a presença de Deus e ouvir a sua voz nesse ambiente favorável de silêncio que favorece a escuta. Quando corremos de um lado para o outro, afadigados em mil e uma atividades, preocupados em realizar com eficiência as tarefas que nos foram confiadas, dificilmente temos espaço e disponibilidade para ouvir a voz de Deus e para detectar esses sinais discretos através dos quais Ele nos indica os seus caminhos. O profeta necessita de tempo e de espaço para rezar, para falar com Deus, para interrogar o seu coração sobre o sentido do que está a fazer, para ouvir esse Deus que fala nas “pequenas coisas” a que nem sempre damos importância.
• São muitas as “vozes” que ouvimos todos os dias, vendendo propostas de vida e de felicidade. Muitas vezes, essas “vozes” confundem-nos, alienam-nos e conduzem-nos por caminhos onde a felicidade não está. Como identificar a voz de Deus no meio das vozes que dia a dia escutamos e que nos sugerem uma colorida multiplicidade de caminhos e de propostas? Samuel não identificou a voz de Deus sozinho, mas recorreu à ajuda do sacerdote Heli… Na verdade, aqueles que partilham conosco a mesma fé e que percorrem o mesmo caminho podem ajudar-nos a identificar a voz de Deus. A nossa comunidade cristã, a nossa comunidade religiosa, desafia-nos, interpela-nos, questiona-nos, ajuda-nos a purificar as nossas opções e a perceber os caminhos que Deus nos propõe.
• Depois de identificar essa “voz” misteriosa que se lhe dirigia, Samuel respondeu: “fala, Senhor; o teu servo escuta”. É a expressão de uma total disponibilidade, abertura e entrega face aos desafios e aos apelos de Deus. É evidente que, na figura de Samuel, o catequista bíblico propõe a atitude paradigmática que devem assumir todos aqueles a quem Deus chama. Como é que me situo face aos apelos e aos desafios de Deus? Com uma obstinada recusa, com um “sim” reticente, ou com total disponibilidade e entrega?
2ª leitura: 1Cor. 6,13c-15a.17-20 - AMBIENTE
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At. 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2Cor. 1,19; At. 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga.
Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da Acaia e a sede do procônsul romano. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Cor. 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At. 18,8; 1Cor. 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Cor. 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Cor. 1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. No centro da cidade, o templo de Afrodite, a deusa grega do amor, atraía os peregrinos e favorecia os desregramentos e a libertinagem sexual. Os cristãos, naturalmente, viviam envolvidos por este mundo e acabavam por transportar para a comunidade alguns dos vícios da cultura ambiente. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Em 1Cor. 6,12 aparece uma frase - possivelmente do próprio Paulo - que servia a alguns cristãos de Corinto para justificar os seus excessos: «Tudo me é permitido»… Paulo explica que “«tudo me é permitido», mas nem tudo é conveniente; «tudo me é permitido», mas eu não me farei escravo de nada”. Na sequência, Paulo recorda aos crentes da comunidade as exigências da sua adesão a Cristo.
MENSAGEM
A questão fundamental, para Paulo, é esta: pelo Batismo, o cristão torna-se membro de Cristo e forma com ele um único corpo. A partir desse momento, os pensamentos, as palavras, as atitudes do cristão devem ser os de Cristo e devem testemunhar, diante do mundo, o próprio Cristo. No “corpo” do cristão manifesta-se, portanto, a realidade do “corpo” de Cristo.
Por outro lado, o cristão torna-se também Templo do Espírito. Para os judeus, o “templo” de Jerusalém era o lugar onde Deus residia no mundo e se manifestava ao seu Povo… Dizer que os cristãos são “Templo do Espírito” significa que eles são agora o lugar onde reside e se manifesta a vida de Deus. No Batismo, o cristão recebe o Espírito de Deus; e é esse Espírito que vai, a partir desse instante, conduzi-lo pelos caminhos da vida, inspirar os seus pensamentos, condicionar as suas ações e comportamentos.
Aqui estão os elementos fundamentais da antropologia cristã… O “corpo” é o lugar onde se manifesta historicamente a realidade dessa vida nova que inunda o crente, após a sua adesão a Cristo. O “corpo” não é algo desprezível, baixo, miserável, condenado – na linha do que pensavam algumas correntes filosóficas bem representadas na cidade de Corinto; mas é algo que tem uma suprema dignidade, pois é nele que se manifesta para o mundo a realidade da vida de Deus. No “corpo” do cristão que vive em comunhão com Cristo manifesta-se – através das palavras e das ações do crente – essa vida nova que Deus quer propor ao mundo e oferecer aos homens.
Daqui, Paulo tira as devidas consequências e aplica-as à situação concreta dos crentes de Corinto, às vezes tentados por comportamentos pouco edificantes, particularmente no âmbito da vivência da sexualidade… Se os cristãos são membros de Cristo e se vivem em comunhão com Cristo, os comportamentos desregrados no domínio da sexualidade não fazem qualquer sentido; se os cristãos são “Templo do Espírito” e os seus corpos são o lugar onde se manifesta a vida nova de Deus, certas atitudes e hábitos desordenados não são dignos dos crentes.
No “corpo” dos cristãos deve manifestar-se a vida de Deus. Ora, tudo aquilo que é expressão de egoísmo, de procura desenfreada dos próprios interesses, de realização descontrolada dos próprios caprichos, de comportamentos que usam e instrumentalizam o outro, está em absoluta contradição com essa vida nova de Deus que é relação, que é intercâmbio, que é entrega mútua, que é compromisso, que é amor verdadeiro. Os crentes são livres; mas a liberdade cristã tem como limite o próprio Cristo: nada do que contradiz os valores e o projeto de Jesus pode ser aceite pelo cristão. Aliás, os crentes devem ter consciência de que o radicalismo da liberdade acaba freqüentemente na escravidão.
O nosso texto termina com um convite singular: “glorificai a Deus no vosso corpo” (vers. 20). É através de comportamentos e atitudes onde se manifesta a realidade da vida nova de Jesus que os crentes podem “prestar culto” a Deus. O “culto” a Deus não passa pela prática de um conjunto de ritos externos, mais ou menos pomposos, mais ou menos solenes, mas por um compromisso de vida que afeta a pessoa inteira e que diz respeito à relação do crente com os outros irmãos ou irmãs e consigo próprio. É preciso que em todas as circunstâncias – inclusive no campo da vivência da sexualidade – a vida do crente seja entrega, serviço, doação, respeito, amor verdadeiro. É esse o culto que Deus exige.
ATUALIZAÇÃO
• A questão essencial que Paulo nos coloca é a seguinte: Deus chama-nos a acolher a vida nova que Ele nos oferece e a dar testemunho dela em cada instante da nossa existência. A Palavra de Deus que nos é proposta convida-nos, antes de mais, a tomar consciência desse chamamento e a aceitar “embarcar” nessa viagem que Deus nos propõe e que nos conduz ao encontro da verdadeira liberdade e da verdadeira realização.
• Acolher o chamamento de Deus significa assumir, em todos os momentos e circunstâncias, comportamentos coerentes com a nossa opção por Cristo e pelo Evangelho. Nada do que é egoísmo, exploração do outro, abuso dos direitos e dignidade do outro, procura desordenada do bem próprio à custa do outro, pode fazer parte da vida do cristão. O cristão é alguém que se comprometeu a ser um sinal vivo de Deus e a testemunhar diante do mundo – com palavras e com gestos – essa vida de amor, de serviço, de doação, de entrega que Deus, em Jesus, nos propôs. Membro do “corpo” de Cristo, o cristão é “corpo” no qual se manifesta a proposta do próprio Cristo para os homens e mulheres do nosso tempo. Isto obriga-nos a nós, os crentes, a comportamentos coerentes com o nosso compromisso batismal.
• A propósito, Paulo coloca o problema da vivência da sexualidade… Essa importante dimensão da nossa realização como pessoas não pode concretizar-se em ações egoístas, que nos escravizam a nós e que instrumentalizam os outros; mas tem de concretizar-se num quadro de amor verdadeiro, de relação, de entrega mútua, de compromisso, de respeito absoluto pelo outro e pela sua dignidade. Neste campo surgem, com alguma frequência, denúncias de comportamentos e atitudes, dentro e fora da Igreja, que afetam e magoam vítimas inocentes do egoísmo dos homens. Esses fatos, se têm de ser enquadrados no contexto da fragilidade que marca a nossa humanidade, demonstram também a necessidade de uma contínua conversão a Cristo e aos seus valores. Para o cristão, tudo o que signifique explorar os irmãos ou desrespeitar a sua dignidade e integridade é um comportamento proibido.
• É importante, para os crentes, ter consciência de que liberdade não é um valor absoluto. A liberdade cristã não pode traduzir-se em comportamentos e opções que subvertam os valores do Evangelho e que neguem a nossa opção fundamental por Cristo. Uma certa mentalidade atual considera que só nos realizaremos plenamente se pudermos fazer tudo o que nos apetecer… Contudo, o cristão tem de ter consciência de que “nem tudo lhe convém”. Aliás, certas opções contrárias aos valores do Evangelho não conduzem à liberdade, mas à dependência e à escravidão.
• Qual é o verdadeiro “culto” que Deus pede? Como é que traduzimos, em gestos concretos, a nossa adesão a Deus? Paulo sugere que o verdadeiro culto, o culto que Deus espera, é uma vida coerente com os compromissos que assumimos com Ele, traduzida em gestos concretos de amor, de entrega, de doação, de respeito pelo outro e pela sua dignidade.
AMBIENTE
A perícope que nos é proposta integra a secção introdutória do quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento cênico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os atores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista, o profeta/precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens.
O nosso texto apresenta-nos os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de João e é por indicação de João que seguem Jesus. Trata-se de um quadro de vocação que difere substancialmente dos relatos de chamamento dos primeiros discípulos apresentados pelos sinópticos (cf. Mt. 4,18-22; Mc. 1,16-20; Lc. 5,1-11). Mais do que uma reportagem realista de acontecimentos concretos, o autor do Quarto Evangelho apresenta aqui um modelo de chamamento e de seguimento de Jesus.
MENSAGEM
Num primeiro momento, o quadro situa-nos junto do rio Jordão (vs. 35-37). Os três primeiros personagens em cena são João e dois dos seus discípulos – isto é, dois homens que tinham escutado o anúncio de João e recebido o seu batismo, símbolo da ruptura com a “vida velha” e de adesão ao Messias esperado. Estes dois discípulos de João são, portanto, homens que, devido ao testemunho de João, já aderiram a esse Messias que está para chegar e que esperam ansiosamente a sua entrada em cena.
Entretanto, apareceu Jesus. João viu Jesus “que passava” e indicou-O aos seus dois discípulos, dizendo: “eis o cordeiro de Deus” (v. 36). João é uma figura estática, cuja missão é meramente circunstancial e consiste apenas em preparar os homens para acolher o Messias libertador; quando esse Messias “passa”, a missão de João termina e começa uma nova realidade. João está plenamente consciente disso… Não procura prolongar o seu protagonismo ou conservar no seu círculo restrito esses discípulos que durante algum tempo o escutaram e que beberam a sua mensagem. Ele sabe que a sua missão não é congregar à sua volta um grupo de adeptos, mas preparar o coração dos homens para acolher Jesus e a sua proposta libertadora. Por isso, na ocasião certa, indica Jesus aos seus discípulos e convida-os a segui-l’O.
A expressão “eis o cordeiro de Deus”, usada por João para apresentar Jesus, fará, provavelmente, referência ao “cordeiro pascal”, símbolo da libertação oferecida por Deus ao seu Povo, prisioneiro no Egito (cf. Ex. 12,3-14. 21-28). Esta expressão define Jesus como o enviado de Deus, que vem inaugurar a nova Páscoa e realizar a libertação definitiva dos homens. A missão de Jesus consiste, portanto, em eliminar as cadeias do egoísmo e do pecado que prendem os homens à escravidão e que os impedem de chegar à vida plena.
Depois da declaração de João, os discípulos reconhecem em Jesus esse Messias com uma proposta de vida verdadeira e seguem-n’O. “Seguir Jesus” é uma expressão técnica que o autor do Quarto Evangelho aplica, com frequência, aos discípulos (cf. Jo 1,43; 8,12; 10,4; 12,26; 13,36; 21,19). Significa caminhar atrás de Jesus, percorrer o mesmo caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, adotar os mesmos objetivos de Jesus e colaborar com Ele na missão. A reação dos discípulos é imediata. Não há aqui lugar para dúvidas, para desculpas, para considerações que protelem a decisão, para pedidos de explicação, para procura de garantias… Eles, simplesmente, “seguem” Jesus.
Num segundo momento, o quadro apresenta-nos um diálogo entre Jesus e os dois discípulos (vs. 38-39). A pergunta inicial de Jesus (“que procurais?”) sugere que é importante, para os discípulos, terem consciência do objetivo que perseguem, do que esperam de Jesus, daquilo que Jesus lhes pode oferecer. O autor do Quarto Evangelho insinua aqui, talvez, que há quem segue Jesus por motivos errados, procurando n’Ele a realização de objetivos pessoais que estão muito longe da oferta que Jesus veio fazer.
Os discípulos respondem com uma pergunta (“rabbi, onde moras?”). Nela, está implícita a sua vontade de aderir totalmente a Jesus, de aprender com Ele, de habitar com Ele, de estabelecer comunhão de vida com Ele. Ao chamar-Lhe “rabbi”, indicam que estão dispostos a seguir as suas instruções, a aprender com Ele um modo de vida; a referência à “morada” de Jesus indica que eles estão dispostos a ficar perto de Jesus, a partilhar a sua vida, a viver sob a sua influência. É uma afirmação respeitosa de adesão incondicional a Jesus e ao seu seguimento.
Jesus convida-os: “vinde ver”. O convite de Jesus significa que Ele aceita a pretensão dos discípulos e os convida a segui-l’O, a aprender com Ele, a partilhar a sua vida. Os discípulos devem “ir” e “ver”, pois a identificação com Jesus não é algo a que se chega por simples informação, mas algo que se alcança apenas por experiência pessoal de comunhão e de encontro com Ele.
Os discípulos aceitam o convite e fazem a experiência da partilha da vida com Jesus. Essa experiência direta convence-os a ficar com Jesus (“ficaram com Ele nesse dia”). Nasce, assim, a comunidade do Messias, a comunidade da nova aliança. É a comunidade daqueles que encontram Jesus que passa, procuram n’Ele a verdadeira vida e a verdadeira liberdade, identificam-se com Ele, aceitam segui-l’O no seu caminho de amor e de entrega, estão dispostos a uma vida de total comunhão com Ele.
Num terceiro momento (vs. 40-41), os discípulos tornam-se testemunhas. É o último passo deste “caminho vocacional”: quem encontra Jesus e experimenta a comunhão com Ele, não pode deixar de se tornar testemunha da sua mensagem e da sua proposta libertadora. Trata-se de uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e se torna anúncio libertador para os irmãos. O encontro com Jesus, se é verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica missionária.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo diz-nos, antes de mais, o que é ser cristão… A identidade cristã não está na simples pertença jurídica a uma instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados sacramentos, nem na militância em certos movimentos eclesiais, nem na observância de certas regras de comportamento dito “cristão”… O cristão é, simplesmente, aquele que acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.
• O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver n’Ele o Messias libertador com uma proposta de vida verdadeira e eterna, aceitar tornar-se seu discípulo, segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da doação da vida, aceitar o desafio de entrar na sua casa e de viver em comunhão com Ele.
• O nosso texto sugere também que essa adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem hesitações. Os dois primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam ganhar, se a aventura tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o abandono de um mestre para seguir outro representava uma promoção ou uma despromoção, se o que deixavam para trás era importante ou não era importante; simplesmente “seguiram Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações supérfluas, sem “seguros de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro se a aventura não desse certo. A aventura da vocação é sempre um salto, decidido e sereno, para os braços de Deus.
• A história da vocação de André e do outro discípulo (despertos por João Batista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que passa e aponta-nos o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem conosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para O seguir. É na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta.
• O encontro com Jesus nunca é um caminho fechado, pessoal e sem consequências comunitárias… Mas é um caminho que tem de me levar ao encontro dos irmãos e que deve tornar-se, em qualquer tempo e em qualquer circunstância, anúncio e testemunho. Quem experimenta a vida e a liberdade que Cristo oferece, não pode calar essa descoberta; mas deve sentir a necessidade de a partilhar com os outros, a fim de que também eles possam encontrar o verdadeiro sentido para a sua existência. “Encontramos o Messias” deve ser o anúncio jubiloso de quem fez uma verdadeira experiência de vida nova e verdadeira e anseia por levar os irmãos a uma descoberta semelhante.
• João Batista nunca procurou apontar os holofotes para a sua própria pessoa e criar um grupo de adeptos ou seguidores que satisfizessem a sua vaidade ou a sua ânsia de protagonismo… A sua preocupação foi apenas preparar o coração dos seus concidadãos para acolher Jesus. Depois, retirou-se discretamente para a sombra, deixando que os projetos de Deus seguissem o seu curso. Ele ensina-nos a nunca nos tornarmos protagonistas ou a atrair sobre nós as atenções; ele ensina-nos a sermos testemunhas de Jesus, não de nós próprios.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho



Pureza e vida cristã
I. Passadas já as festas do Natal, em que consideramos principalmente os mistérios da vida oculta do Senhor, vamos contemplar neste tempo, seguindo a liturgia, os anos da sua vida pública.
Desde o começo da sua missão, vemos Jesus que procura os seus discípulos e os chama ao seu serviço, tal como fez Javé em épocas anteriores. É o que nos mostra a primeira Leitura da Missa de hoje, ao narrar a vocação de Samuel1, bem como o Evangelho, ao relatar como Jesus se faz encontrar por aqueles três primeiros discípulos que seriam mais tarde o fundamento da sua Igreja (2): Pedro, João e Tiago.
Seguir o Senhor, tanto naquela época como hoje, significa entregar-lhe o coração, o mais íntimo, o mais profundo do nosso ser, a nossa própria vida. Entende-se, pois, que para corresponder ao chamamento de Jesus, seja necessário guardar a santa pureza e purificar o coração. É São Paulo quem no-lo diz na segunda Leitura (3):Fugi da fornicação... Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que habita em vós, que o recebestes de Deus e que, portanto, não vos pertenceis? Fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo. Jamais ninguém como a Igreja ensinou a dignidade do corpo. “A pureza é glória do corpo humano perante Deus. É a glória de Deus no corpo humano” (4).
A castidade, fora ou dentro da vida matrimonial, segundo o estado e a peculiar vocação recebida por cada um, é absolutamente necessária para se poder seguir a Cristo e exige, juntamente com a graça divina, uma grande luta e esforço pessoais. As feridas do pecado original (na inteligência, na vontade, nas paixões e nos afetos), que não desaparecem com o Batismo, introduziram um princípio de desordem na nossa natureza: a alma, de maneiras muito diversas, tende a rebelar-se contra Deus, e o corpo resiste a submeter-se à alma; e os pecados pessoais revolvem o fundo ruim que o pecado original deixou em nós e aumentam as feridas que causou na alma.
A santa pureza, parte da virtude da temperança, inclina-nos a moderar prontamente e com alegria o uso da faculdade geradora, segundo os ditames da razão ajudada pela fé (5). O seu contrário é a luxúria, que destrói a dignidade do homem, enfraquece a vontade na busca do bem e dificulta que a inteligência possa conhecer e amar a Deus, bem como as coisas humanas. A impureza acarreta freqüentemente uma forte carga de egoísmo e arrasta a pessoa para atitudes próximas da violência e da crueldade. Se não se lhe põe remédio, faz perder o sentido do divino e do transcendente: cega para aquilo que é realmente importante.
Os atos de renúncia (“não olhar”, “não fazer”, “não imaginar”, “não desejar”), ainda que sejam imprescindíveis, não são tudo na guarda da castidade; a essência desta virtude é o amor: delicadeza e ternura com Deus, respeito pelas pessoas, que devem ser encaradas como filhos de Deus. A castidade “mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida” (6).
É, portanto, um requisito indispensável para amar. Ainda que não seja nem a primeira nem a mais importante das virtudes, e ainda que a vida cristã não possa reduzir-se a ela, no entanto, sem castidade não há caridade, e esta é a primeira virtude e a que dá a sua perfeição e o fundamento às demais (7).
Os primeiros cristãos, a quem São Paulo diz que devem glorificar a Deus no seu corpo, estavam rodeados de um clima corrompido, e muitos deles provinham desse ambiente. Não vos iludais, diz-lhes o apóstolo. Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros... possuirão o reino de Deus. E alguns de vós éreis isso... (8) O Apóstolo indica-lhes que devem viver uma virtude que era pouco apreciada e até desprezada naquela época e naquela cultura. Cada um deles devia ser um exemplo vivo da fé em Cristo que traziam no coração e da riqueza espiritual que possuíam. O mesmo devemos nós fazer.
II. Devemos ter a firme convicção de que é sempre possível viver a santa pureza, ainda que a pressão do ambiente seja muito forte, desde que se empreguem os meios que Deus nos dá para vencer e se evitem as ocasiões de perigo.
O primeiro passo para isso é adquirir idéias muito claras sobre a matéria, encará-la com finura e sentido sobrenatural, e depois tratar do tema com clareza e sem ambigüidades na conversa com quem orienta a nossa alma, para assim completarmos ou retificarmos as idéias pouco exatas que possamos ter. Às vezes, certos assim chamados escrúpulos resultam de não se ter falado completamente a fundo deles, e resolvem-se quando os fatos objetivos são referidos com toda a clareza na direção espiritual e na confissão.
Deve-se ainda unir à pureza do corpo a pureza da alma, orientando os afetos de tal modo que Deus ocupe a todo o momento o centro da alma. Por isso, é preciso que a luta por viver esta virtude e por crescer nela se estenda também a todas as matérias que possam indiretamente facilitá-la ou dificultá-la: a mortificação da vista, do comodismo, da imaginação, da memória.
Outra condição para a eficácia desta luta é a humildade. Tem humilde consciência da sua fraqueza todo aquele que foge decididamente das ocasiões perigosas, que admite contrita e sinceramente os seus descuidos reais, que pede a ajuda necessária, que reconhece com agradecimento o valor do seu corpo e da sua alma.
Às vezes, de acordo com a época ou as circunstâncias, pode ser necessário lutar mais intensamente num ou noutro campo relacionado com esta virtude: no da sensibilidade, que, sem a devida mortificação, pode estar mais viva por não se terem evitado causas voluntárias mais ou menos remotas; no das leituras, que podem mergulhar a alma num clima de sensualidade, mesmo que não sejam claramente impuras; no da guarda da vista...
Outro campo relacionado com a pureza é o dos sentidos internos (imaginação, memória), que, ainda que não se detenham em pensamentos diretamente contrários ao nono mandamento, são freqüentemente ocasião de tentação e denotam muito pouca generosidade com Deus.
E por último aguarda do coração, que está feito para amar, e que por isso deve estar preenchido por um amor limpo de acordo com a vocação de cada um, um amor em que Deus deve ocupar sempre o primeiro lugar. Não podemos andar com o coração na mão, como quem oferece uma mercadoria (9).
III. Para seguirmos o Senhor com um coração limpo, é necessário que pratiquemos um conjunto de virtudes humanas e sobrenaturais, apoiados sempre na graça, que nunca nos há de faltar se a pedimos com humildade e se desenvolvemos todos os esforços ao nosso alcance.
Entre as virtudes humanas que ajudam a viver a santa pureza, conta-se em primeiro lugar alaboriosidade, o trabalho constante e intenso; muitas vezes, os problemas de pureza são uma questão de ociosidade ou de preguiça. Também são necessárias avalentia e a fortaleza, para fugirmos da tentação, para não cairmos na ingenuidade de pensar que isto ou aquilo não nos faz mal nem invocarmos falsos pretextos de idade ou de experiência. E deve-se procurar a sinceridade plena, contando toda a verdade com clareza, e estando prevenidos contra o “demônio mudo” (10), que tende a enganar-nos tirando importância ao pecado ou à tentação, ou aumentando-a para fazer-nos cair nessa outra tentação que é a “vergonha de falar”. A sinceridade é completamente necessária para vencer, pois sem ela a alma fica privada de uma ajuda imprescindível.
Nenhum meio humano seria suficiente se não recorrêssemos ao trato íntimo com o Senhor na oração e na Sagrada Eucaristia. Nelas encontramos sempre a ajuda necessária, as forças que vêm em socorro da nossa fraqueza pessoal, o amor que nos cumula o coração, criado para o que é eterno, e portanto sempre insatisfeito com tudo o que há neste mundo. E o sacramento da Penitência purifica-nos a consciência, concede-nos as graças específicas do sacramento para vencermos naquilo em que fomos vencidos, seja em matéria grave ou leve.
Se quisermos entender o amor a Jesus Cristo tal como os Apóstolos, os primeiros cristãos e os santos de todos os tempos o entenderam, é necessário que vivamos a virtude da santa pureza. Caso contrário, ficaremos grudados à terra e não compreenderemos nada.
Recorremos a santa Maria, Mater Pulchrae Dilectionis (11), Mãe do Amor Formoso, porque Ela gera na alma do cristão uma ternura filial que lhe permite crescer nesta virtude. E Ela nos concederá esta virtude própria das almas rijas, se lha pedirmos com amor e confiança.
Francisco Fernández-Carvajal





Vocação: busca e convite
No Brasil, a festa do Batismo do Senhor, encerramento do tempo natalino, substitui o primeiro domingo do tempo comum, de modo que este começa com o segundo domingo. A espinha dorsal da liturgia da Palavra nos domingos do tempo comum é a leitura contínua do Evangelho do ano (no caso, Marcos), e os textos evangélicos são ilustrados, na 1ª leitura, por episódios do Antigo Testamento. A 2ª leitura não se integra nesse sistema e recebe sua temática, de modo independente, da leitura semicontínua das cartas do Novo Testamento (hoje, a questão da fornicação em Corinto).
A leitura evangélica está em continuidade com a do Batismo do Senhor. Narra a vocação dos primeiros discípulos de Jesus. Ora, como o Evangelho do ano, Marcos, é mais breve que os outros, a liturgia de hoje abre espaço para o Evangelho de João (normalmente lido só na Quaresma e no tempo pascal). De acordo com o Quarto Evangelho, João Batista encaminha dois de seus discípulos para Jesus, apontando-o como o Cordeiro de Deus. E, quando vão em busca de Jesus, este lhes responde com o misterioso: “Vinde e vede”. A liturgia combina com esse texto a vocação de Samuel, na 1ª leitura. As duas vocações, porém, são diferentes. No caso de Samuel, trata-se da vocação específica do profeta; no episódio dos discípulos de Jesus, trata-se da vocação de discípulos para integrar a comunidade dos seguidores. São chamados, antes de tudo, a “vir” até Jesus para “ver” e a “permanecer/morar” com ele. Daí se inicia um processo de “vocação em cadeia”. Os que foram encaminhados pelo Batista até Jesus chamam outros (“André... foi encontrar seu irmão...”). Dentro dessa dinâmica global da vocação cristã se situam as vocações específicas, como a de Simão, que, ao aderir a Cristo, é transformado em pedra de arrimo da comunidade cristã.
1ª leitura (1Sm. 3,3b-10.19)
Desde seu nascimento, o profeta Samuel fora dedicado ao serviço de Deus no santuário de Silo, em agradecimento pelo favor que Deus demonstrara a Ana, sua mãe estéril (cf. 1Sm. 1,21-28). Mas o serviço no santuário não esgotou sua missão. Antes que Samuel fosse capaz de o entender, Deus o chamou para a missão de profeta. A vocação de Deus, porém, não é coisa evidente. Descobre-se pouco a pouco. Três vezes Samuel ouve a voz, pensando ser a voz do sacerdote Eli. Este faz Samuel entender que é a voz do Senhor; então, quando ouve novamente o chamado, ele responde: “Fala, teu servo escuta”. Escutar é a primeira tarefa do porta-voz de Deus.
Evangelho (Jo 1,35-42)
Como dissemos, o evangelho é tomado de João, no episódio do testemunho do Batista: a vocação dos primeiros discípulos. João Batista encaminha seus discípulos para se tornarem discípulos de Jesus (o tema volta em Jo. 3,22-30). A busca desses discípulos corresponde a um convite de Jesus para que eles venham ver e para que permaneçam com ele (Jo 1,35-39). E a partir daí segue uma reação em cadeia (1,41.45). 
Temos aqui a apresentação tipicamente joanina da busca do Salvador. Nos outros Evangelhos, Jesus se apresenta anunciando a irrupção do reino de Deus. Em João, ele é a resposta de Deus à busca do ser humano, assim como o Antigo Testamento diz que a Sabedoria se deixa encontrar pelos que a buscam (cf. Sb 6,14). Devemos buscar o encontro com Deus no momento oportuno, enquanto se deixa encontrar (Is 55,6). “Vinde ver...” é a resposta misteriosa de Jesus à busca dos discípulos que o Batista encaminhou para ele, apontando-o como o “Cordeiro de Deus”. Descobrimos, portanto, atrás da cena narrada no evangelho (Jo 1,35-39), toda uma meditação sobre o encontro com Deus em Jesus Cristo, revelação de Deus que supera a Sabedoria do Antigo Testamento.
Pelo testemunho do Batista, os que buscavam o Deus da salvação o vislumbraram no Cordeiro de Deus, o Homem das Dores. Querem saber onde é sua morada (o leitor já sabe que sua morada é no Pai; cf. Jo 14,1-6). Jesus convida a “vir e ver”. “Vir” significa o passo da fé (cf. 6,35.37.44.45.65; também 3,20-21 etc.). “Ver” é termo polivalente, que, no seu sentido mais tipicamente joanino, significa a visão da fé (cf. sobretudo Jo 9).
Finalmente, os discípulos “permanecem/demoram-se” com ele (“permanecer” ou “morar” expressa, muitas vezes, a união vital permanente com Jesus; cf. Jo 15,1ss). Os que foram à procura do mistério do Salvador e Revelador acabaram sendo convidados e iniciados por ele. Um encontro como este transborda. Leva a contagiar os outros que estão na mesma busca. André, um dos dois que encontraram o procurado, vai chamar seu irmão Simão para partilhar sua descoberta (v. 41: “Encontramos!”). Simão se deixa conduzir até o Senhor, que logo transforma seu nome em Cefas (rocha, “Pedro”), dando-lhe nova identidade. Na continuação do episódio (1,45), encontramos mais uma semelhante “reação em cadeia”. Como o Batista apresentou seus discípulos a Jesus, em seguida os discípulos procuraram outros candidatos. Esses traços da narrativa podem aludir à Igreja das origens, consciente de que o “movimento de Jesus” teve suas origens no “movimento do Batista” e de que, nas gerações futuras, os fiéis já não seriam chamados por Jesus mesmo, mas por seus irmãos na fé.
2ª leitura (1Cor. 6,13c-15a.17-20)
Como foi dito na introdução, a temática da 2ª leitura não é estabelecida em função das duas outras leituras. Paulo trata da mentalidade da comunidade de Corinto, influenciada por certo libertinismo. Liberdade, sim, libertinagem, não, é o teor de sua reação. “Tudo é permitido”, dizem certos cristãos de Corinto, e Paulo responde: “Mas nem tudo faz bem” (6,12). Quem se torna escravo de uma criatura comete idolatria: assim, quem se vicia nos prazeres do corpo. O ser humano não é feito para o corpo, mas o corpo para o ser humano, e este para Deus: seu corpo é habitação, templo de Deus, e serve para glorificá-lo. 
A oposição de Paulo à libertinagem sexual não se deve ao desprezo do corpo, mas à estima que ele lhe dedica. O corpo não fica alheio ao enlevo do espírito, antes o sustenta e dele participa; por isso, qualquer ligação vulgar avilta a pessoa toda. O ser humano todo, também o corpo, é habitáculo do Espírito Santo. A pessoa deve ser governada para este fim do ser humano integral, membro de Cristo, e não subordinada às finalidades particulares do corpo. Absolutizar os prazeres corporais é idolatria, e essa é uma mensagem que precisa ser destacada no contexto de nossa “civilização”.
Dicas para reflexão
Segundo o Evangelho de João, foi dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras?”, respondem. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar com ele os empolga tanto, que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte Filipe (o outro dos dois) chama Natanael a integrar o grupo. A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira vez o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.
“Vocação” é um diálogo entre Deus e a gente – geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar. Que vocação? Para que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral, a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus e da qual Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã realiza-se no casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus, e não algum projeto concebido em função de nossos próprios interesses.
O convite de Deus pode ser muito discreto. Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja disposição positiva. Importa estarmos atentos. Os discípulos estavam à procura. Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa disponibilidade na oração: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo escuta”. Sem a oração, a vocação não tem vez.
Finalmente, para que a vocação seja “cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, essencial para distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos por meio dos quais ele fala.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj



“Não deixava cair por terra nenhuma palavra…”
A primeira leitura e o evangelho deste domingo nos falam do tema da vocação, do seguimento de Deus e de Jesus. O Batista aponta  Jesus como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e Samuel é convidado a ouvir atentamente a palavra do Senhor. No final da primeira leitura lemos: “Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. Ele não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”.
Vamos vivendo nossa vida. Somos seres de perguntas e interrogações. Somos pessoas desejosas de comunhão e de comunicação. Não fomos feitos para viver no isolamento pobre e infértil de nós mesmos.  E bem lá no fundo de nosso coração  temos sempre o desejo de poder ouvir a vontade de Deus a nosso respeito.  Queremos, sinceramente, desobstruir nosso interior de tal sorte que possamos ser fecundados pela palavra daquele que vem nos colocar de pé e criar possibilidades insuspeitadas para o nosso amanhã e o amanhã do mundo.
Temos nossos projetos de felicidades.  Procuramos isso e aquilo. E a Palavra nos diz que a felicidade será conseguida na medida em que tivermos um coração simples e pobre, despojado e singelo. Ouvimos dizer que os últimos serão os primeiros e os primeiros serão últimos. Vamos nos formando e transformando pela audição da palavra. Nós, cristãos,  estamos cercados e envolvidos por ela: na celebração dos sacramentos, na eucaristia, na Liturgia das Horas e em tantos momentos.  Vamos nos confrontando com a palavra e deixando que ela cave fundo dentro de nós.
Quando falamos em  Palavra, com p maiúsculo, pensamos na proximidade do próprio Deus, para além da materialidade  dos textos da Escritura e muito pela força de sua Presença.  Os homens e mulheres de fé caminham na  Presença de um Deus que penetra o coração, que vê, que perscruta.  E quando  Deus caminha conosco termina nossa solidão.
Ao longo de nossa vida temos uma preocupação fundamental:  escutar o que Deus quer a respeito de nós ao longo do tempo da vida… Nada mais importante do que ter um coração em estado de vigília, capaz de discernir no meio das brumas e névoas da vida.
Samuel não deixava cair por terra nenhuma palavra.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Vocação: busca e convite
Nos três anos do ciclo litúrgico, o domingo depois do Batismo do Senhor tem como evangelho um trecho do testemunho de João Batista diante de seus discípulos e a vocação dos mesmos por Jesus (próprio de Jo; não está nos evangelhos sinóticos). Hoje lemos encaminhamento de dois discípulos do Batista junto a Jesus, que, respondendo à busca deles, os convida a “vir e ver” e a ficar na sua companhia. É a apresentação, tipicamente joanina, da procura do Salvador (nos outros evangelhos, Jesus se apresenta como irrupção Reino). Jesus é a resposta de Deus à busca do homem, assim como o A.T. fala da busca da Sabedoria, que se deixa encontrar pelos que a buscam (cf. Sb. 6,14); busca de que devemos procurar enquanto se deixa encontrar (Is. 55,6).
Descobrimos, pois, atrás da cena de Jo 1,35-39 (evangelho), toda uma meditação sobre o encontro com Deus em Jesus Cristo, que, mais do que a Sabedoria do A.T., é seu revelador. “Vinde ver…” é a resposta misteriosa de Jesus à busca dos discípulos que o Batista encaminhou para ele, apontando-o como o “Cordeiro de Deus” (cf. ano A).
Pelo testemunho do Batista, os que buscavam o Deus da salvação o vislumbraram no Cordeiro de Deus, o Homem das Dores. Querem saber onde é sua morada (o leitor já sabe que sua morada é no Pai; cf. Jo 14,lss). Jesus convida o homem que busca a “vir e ver”. “Vir’ significa o passo da fé (cf. 6,35.37.44.45.65; também 3,20-21 etc.). “Ver” é um termo polivalente, que, no seu sentido mais tipicamente joanino, significa a visão da fé (cf. sobretudo Jo 9). Finalmente, os discípulos “permanecem/se demoram” com ele (“permanecer” ou “morar” expressa, muitas vezes, a união vital permanente com Jesus; cf. Jo 15,1ss). Os que foram à procura do mistério do Salvador e Revelador acabaram sendo convidados e iniciados por ele.
Um encontro como este ultrapassa a pessoa que encontra. Leva-a a contagiar os outros que estão na mesma busca. André, um dos dois que encontraram o procurado vai chamar seu irmão Simão, para partilhar sua descoberta (v. 41: “Encontramos!”). Este se deixa conduzir até o Senhor, que, de início, transforma seu nome em Cefas (rocha, “Pedro”), dando-lhe uma nova identidade. Na continuação do episódio (1,45), encontramos mais uma semelhante “reação em cadeia”. Como o Batista introduziu seus discípulos a Jesus, em seguida os discípulos procuraram outros candidatos (3).
A liturgia combinou com este misterioso texto a vocação de Samuel (1ª leitura). O encontro com Deus não é uma coisa evidente. Três vezes Samuel ouve a voz, mas só pela orientação do sacerdote é capaz de reconhecer o sentido. Uma vez entendendo a voz, acolhe-a com plena disponibilidade, deixando-se ensinar para ser porta-voz de Deus, profeta.
As duas vocações apresentadas não são bem do mesmo tipo. No caso de Samuel, trata-se da vocação específica do profeta; no episódio dos discípulos de Jesus parece que se trata da vocação à comunidade dos seguidores; os primeiros chamados parecem representar a vocação de todos os fiéis. Eles não recebem logo uma missão específica, mas são chamados, antes de tudo, a “vir” até Jesus para “ver”, e a “permanecer/morar” com ele. Por um testemunho que vem de fora (de João Batista, de outros que já foram chamados etc.), o homem é encaminhado na busca do Salvador; a esta busca corresponde o convite de Deus em Jesus Cristo (“vem ver…”), provocando entrega e adesão (“permaneceram com ele”), que logo transforma o adepto em missionário (“foi encontrar seu irmão…”). Dentro desta dinâmica global da vocação cristã se situam as vocações específicas, como a de Simão, que, ao aderir a Cristo, é transformado em pedra fundamental da comunidade cristã.
A 2ª leitura trata de uma das questões particulares abordadas em 1Cor. 5-12: a fornicação. A oposição de Paulo à libertinagem sexual não se deve ao desprezo do corpo, mas à estima que ele lhe dedica. Pois ele sabe que o corpo não é alheio às alturas do espírito, mas antes, as sustenta e delas participa; por isso, qualquer ligação vulgar avilta o homem todo. O homem todo, inclusive o corpo, é habitáculo do Espírito Santo. O homem deve ser governado para este fim do homem integral, membro de Cristo, e não o homem subordinado às finalidades particulares do corpo. Absolutizar os prazeres corporais é idolatria – mensagem que precisa ser destacada no contexto de nossa “civilização”…
(3) Estes traços da narração podem aludir à Igreja das origens, consciente de que o “movimento de Jesus” teve suas origens no “movimento do Batista” e de que, nas gerações futuras, os fiéis não mais seriam chamados por Jesus mesmo, mas por seus irmãos na fé.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"





As testemunhas apontam o Salvador
35-51: João descreve os sete dias da nova criação. No primeiro dia, João Batista afirma: «No meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem.» Nos dias seguintes vemos como João Batista, João, André, Simão, Filipe e Natanael descobrem a Jesus. É sempre uma testemunha que aponta Jesus para outra. O último dia será o casamento em Caná, onde Jesus manifestará a sua glória.
«O que vocês estão procurando?» São estas as primeiras palavras de Jesus neste evangelho. Essa pergunta, ele a faz a todos os homens. Nós queremos saber quem é Jesus, e ele nos pergunta sobre o que buscamos na vida.
Os homens que encontraram Jesus começaram a conviver com ele. E no decorrer do tempo vão descobrindo que ele é o Mestre, o Messias, o Filho de Deus. O mesmo acontece conosco: enquanto caminhamos com Cristo, vamos progredindo no conhecimento a respeito dele.
João Batista era apenas testemunha de Jesus, a quem tudo se deve dirigir. João sabia disso; por isso convida seus próprios discípulos para que se dirijam a Jesus. E os dois primeiros vão buscar outros. É desse mesmo modo que nós encontramos a Jesus: porque outra pessoa nos falou dele ou nos comprometeu numa tarefa apostólica.
Jesus sempre reconhece aqueles que o Pai coloca em seu caminho. Ele reconhece Natanael debaixo da figueira e também Simão, escolhido para ser a primeira Pedra da Igreja.
Vereis o céu aberto: No sonho de Jacó, os anjos subiam e desciam por uma escada que ligava a terra ao céu (leia Gn. 28,10-22). Doravante é Jesus, o Filho do Homem, a nova ligação entre Deus e os homens.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral



Testemunho de João
Naquele tempo, João estava de novo com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o cordeiro de Deus!” Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.
Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?” Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde.
André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavra de João e seguiram Jesus. Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo). Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).
Desenvolvimento do Evangelho
O Evangelho que inicia o tempo comum deste ano “B” fala da vocação que se revela através de João Batista, de que Jesus é o “Cordeiro de Deus”, o libertador.
O testemunho de João Batista desperta a vocação dos dois primeiros discípulos que tomam a iniciativa de seguir a Jesus sem esperar que Ele os chame e, a partir desse momento, descobrem que n’Ele está a resposta de todos os seus anseios.
O Batista, por causa de seu testemunho, encaminha os discípulos que, pela coragem da opção que fizeram, dão pleno sentido a suas vidas e passam a ser testemunho para os outros também.
Eles não estão interessados em teorias sobre Jesus, ao contrário, querem criar laços de intimidade com Ele, a partir do encontro e do seguimento, fazendo experiência com Cristo, e por isso perguntam: “Mestre, onde moras?” E na resposta de Jesus é possível perceber o que é ser seu discípulo. Ele não dá resposta pronta, convida para a ação, para a experiência: “Venham ver!”, que significa dar um passo na fé.
‘Venham’ é a indicação de que Jesus convida para conhecê-Lo, era Ele quem chamava; e ‘ver’ supõe concentrar a atenção na Sua pessoa, nos Seus valores e nas Suas ações, deixando-se moldar por Ele. E eles foram, viram e permaneceram com Jesus. Permanecer/morar no Senhor é um sentido de comunhão plena, união vital e permanente com Jesus.
O evangelho afirma que a experiência com Jesus valeu a pena: “Eram mais ou menos quatro horas da tarde” que significa, simbolicamente, o momento gostoso para o encontro ou, a hora para as opções acertadas.
Um discípulo de Jesus não guarda apenas para si a Boa Nova, assim como João Batista a transmitiu aos seus discípulos, também André parte para levá-la adiante. Encontra primeiro seu irmão, o que dá a entender que teria encontrado, em seguida, outras pessoas. A partir do testemunho deles o grupo de colaboradores de Jesus vai crescendo.
Ao encontrar-se com Pedro, Jesus lhe dá uma nova identidade, chamando-o de Céfas, que significa Pedra, e ele ao aderir a Cristo é transformado em pedra fundamental da comunidade cristã.


Pequeninos do Senhor




Vinde e vede!
O modo como se dava o discipulado de Jesus era muito distinto daquele dos rabinos. Na tradição rabínica, o discípulo escolhia seu mestre e por este era instruído na arte de interpretar as Escrituras. Esta atividade de caráter intelectual desenvolvia-se numa escola onde o mestre distinguia-se pela excelência do saber e o discípulo, pelo desejo de conhecer.
O método adotado por Jesus consistia na transmissão de um modo de ser, mais do que uma ciência. Os discípulos não estavam confinados numa escola, mas se colocavam no seguimento do Mestre e aprendiam, ouvindo suas palavras e presenciando o que ele fazia em favor do povo. Este aprendizado existencial ia transformando a vida do discípulo, num processo paulatino de assimilação de tudo que o Mestre realizava.
O discipulado, neste caso, consistia num duplo movimento. "Vinde" indicava que o discipulado se dava pela iniciativa de Jesus que convocava para o seu seguimento. Era ele quem chamava. Cabia ao discípulo aceitar o convite. "Vede" supunha concentrar a atenção na pessoa de Jesus para captar os valores que regiam sua ação e deixar-se moldar por eles.
Os primeiros discípulos aceitaram o convite de Jesus, ficaram fascinados por ele, e saíram para partilhar com os irmãos a experiência deste encontro transformador. Quem quiser se fazer discípulo do Senhor deverá trilhar o mesmo caminho.
padre Jaldemir Vitório





1ª leitura (1Sm 3,3b-10.19) - Vocação de Samuel
Samuel, desde seu nascimento, em agradecimento pelo favor de Deus a sua mãe estéril, foi dedicado ao serviço de Deus, no templo de Silo (cf. 1Sm 1,21-28). Mas este serviço não esgotou sua missão. Antes que ele fosse capaz de o entender, Deus o chamou para a missão de profeta. “Fala, teu servo escuta”, responde Samuel. Escutar é a primeira tarefa do porta-voz de Deus.
* Cf. Ex. 25,22; Is. 6.
2ª leitura (1Cor. 6,13c-15a.17-20) - Nosso corpo é santo: pertence ao Senhor
Liberdade sim, libertinagem não. “Tudo é permitido”, dizem certos cristãos de Corinto, e Paulo responde: “Mas nem tudo faz bem” (6,12). Quem se torna escravo de uma criatura comete idolatria. Assim, quem se vicia nos prazeres do corpo. O homem não é feito para o corpo, mas o corpo para o homem, e este, para Deus: seu corpo é habitação, templo de Deus, e serve para glorificá-lo.
* 6,13 cf. 1Ts. 4,3-5; 1Cor. 10,31 * 6,14, 1Cor. 3,23 * 6,20a cf. 1Cor. 7,23; Rm. 3,24; 6,15 * 6,20b cf. Fl. 1,20.
Evangelho (Jo 1,35-42) - Vocação dos primeiros discípulos
João Batista encaminha seus discípulos para se tornarem discípulos de Jesus (cf. Jo 3,22-30). À procura desses corresponde um convite de Jesus, para que eles venham ver e permaneçam com ele. E a partir daí segue uma reação em cadeia (1,41.45).
* Cf. Mt. 4,18-22; Mc. 1,16-22; Lc. 5,1-11 * 1,35-36, cf. Jo 1,6-8; 1Pd. 1,19; Is. 53,7
Escutar Deus e seguir Jesus
Depois da festa do Batismo do Senhor, que no Brasil substitui o 1º domingo do tempo comum, a liturgia dominical continua logo com o 2º. Mesmo sem querer, essa continuação é muito adequada: Jesus, logo depois de ser batizando por João Batista e tentado no deserto, chamou os primeiros discípulos. Segundo Jo, do qual se extrai o evangelho de hoje, foi dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras”, respondem. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar com ele tanto os empolga que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte, Filipe (o outro dos dois?) chama Natanael a integrar o grupo.
A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira vez, o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.
“Vocação” e um diálogo entre Deus e a gente – geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar. Que vocação? Para que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral, a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus, e da qual o Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã se realiza no casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus e não algum projeto concebido em função de nossos interesses próprios, às vezes contrários aos de Deus.
O convite de Deus pode ser muito discreto. Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja disposição positiva. Importa estar atento. Os discípulos estavam à procura. Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa disponibilidade na oração: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo escuta”. Sem a oração, a vocação não tem vez.
Finalmente, para que a vocação seja “cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, para saber distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos através dos quais ele fala.
padre Johan Konings



Jesus chama à comunhão com Ele no seguimento
Deus fala ao ser humano e sua voz pode ser ouvida e reconhecida. Deus chama Samuel; Jesus, os seus discípulos. A voz que fala em nós precisa ser discernida, para que a voz de Deus não se confunda com outras tantas vozes que falam em nosso interior. Do ser humano é requerida abertura do coração para deixar Deus falar e para escutar a sua voz. Confiado por sua mãe ao sacerdote Eli, Samuel cresceu no Templo do Senhor. Eli ensinou Samuel a reconhecer a voz do Senhor e a se dispor generosamente a escutá-lo. Para isso, é preciso fazer calar toda fantasia e barulho interno. Sob a orientação de Eli, Samuel pôde se abrir à graça da presença de Deus: “Fala que teu servo escuta!”. Diante de sua disposição, abre-se para ele um verdadeiro caminho de serviço a Deus. No evangelho, é Jesus quem chama e convida à comunhão com ele no seu seguimento: “vinde e vede”. João Batista não era um asceta itinerante; ele continuava em Bethabara, do outro lado do Jordão, lugar em que ministrava um batismo provisório para a conversão, tendo em vista a vinda do Messias (cf. Jo 1,28). Somente o evangelho de João informa ao leitor de que discípulos de João Batista se tornaram discípulos de Jesus. Nisso também se mostra que a missão do Batista estava orientada para o Messias. Uma das características do quarto evangelho é a corrente de testemunhas que, no trecho de hoje, tem sua origem no testemunho de João Batista sobre Jesus. João aponta para Jesus nomeando-o com um título soteriológico: “cordeiro de Deus”. Com isso, deixa livre os seus discípulos para irem atrás de Jesus. Os dois discípulos, um dos quais o leitor não conhece o nome, aceitam o convite de Jesus, de conhecerem não um lugar, mas a relação que une o Pai e o Filho. Tendo aceitado o convite, eles decidem “permanecer” com o Senhor, isto é, viver em comunhão com o Senhor. A nomeação de André, irmão de Simão Pedro, prepara o encontro deste com Jesus, encontro que mudará profundamente a orientação da sua vida. Foi André quem apresentou seu irmão a Jesus. O outro discípulo, no entanto, como dissemos, permanece anônimo, sugerindo que o leitor se identifique com ele e deseje, como ele, conhecer e viver com Jesus. A vida cristã se exprime nesse desejo contínuo de “permanecer” com Jesus.

Carlos Alberto Contieri,sj

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