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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

3º DOMINGO TEMPO COMUM-B

3º DOMINGO TEMPO COMUM

ANO B
21 de janeiro

Evangelho - Mc 1,14-20

·         Hoje Jesus está dizendo a você: Vem comigo e eu lhe ensinarei a pescar gente!
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“SEGUI-ME E EU FAREI DE VÓS PESCADORES DE HOMENS.” Olivia Coutinho

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 21 de Janeiro de 2018

Evangelho de Mc1,14-20

Deus não somente nos deu a vida, como quis também, fazer parte da nossa vida, caminhar conosco, se tornar um de nós!
Não fomos criados para sermos meros viventes, fomos criados para relacionar com Deus, e esta relação amorosa se faz por meio de Jesus! Jesus é o único mediador entre o céu e a terra, estar com Ele, é estar com Deus!
No nosso encontro pessoal com Jesus, descortinam-se  novos horizontes,  ampliando a nossa visão, nos fazendo enxergar além do que os olhos  humanos alcançam!
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, narra os primeiros passos de Jesus na vida pública, quando Ele começa a desenvolver o projeto de Deus, que tem como prioridade a vida humana. O que  aconteceu num momento conflituoso, logo após a prisão de João Batista, o que não intimidou Jesus, pelo o contrário, o encorajou ainda mais.
A prisão de João Batista, ao mesmo tempo em que marcou um tempo de grandes turbulências, marcou também, o início de um tempo novo, quando as promessas de Deus começam a se cumprirem com a chegada do Messias! “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e credes no evangelho!”
 Quando Jesus disse: “O reino de Deus está próximo”  Ele fala de si mesmo, pois a sua pessoa, é a própria presença do Reino próxima daquele povo e hoje de nós!
Graças ao testemunho de João Batista, Jesus não entrou na história como um desconhecido, antes Dele se manifestar como o Filho de Deus, o povo já sabia que Ele era o enviado de Deus: o Messias! 
“Eis aí o Cordeiro de Deus...” A partir desta apresentação de João Batista, inicia-se um tempo de graça, a palavra de Deus começa a ganhar vida nas ações vivificantes de Jesus! 
Se quisesse, Jesus poderia realizar as obras do Pai sozinho, mas Ele quis contar com um pequeno grupo de pessoas, que participando diretamente do seu dia a dia, presenciando os seus feitos, poderiam mais tarde, dar testemunho Dele no mundo!
Para formar esta pequena comunidade, que mais tarde seria chamada de Comunidade dos Apóstolos, (enviados), Jesus não foi atrás de pessoas letradas, seus primeiros escolhidos, saíram das margens do mar da Galileia. O seu olhar, pairou sobre os pescadores, homens simples, porém corajosos, trabalhadores, acostumados com os desafios de buscar o sustento de cada dia, nas profundezas do mar, de mares, muitas vezes revoltos!
Mediante ao chamado de Jesus, estes pescadores, não hesitaram em deixar tudo para segui-lo! De pescadores de peixes, eles  passaram  a serem  pescadores de gente, dispostos a lançar as suas redes nas profundezas do mar humano.
Foi graças ao testemunho desta primeira comunidade, fundada por Jesus, que a mensagem do evangelho, chegou até nós e continua chegando a muitos corações, de geração em geração!
Hoje, somos nós, os convocados a dar continuidade a missão de Jesus  aqui na terra, a sermos instrumentos de paz em meios aos conflitos!
É urgente a necessidade de homens e mulheres corajosos, pessoas dispostas a lançar suas redes em águas mais profundas!
É apontando Jesus ao outro, é abrindo caminho, construindo ponte entre irmãos, que daremos testemunho de Jesus, sendo sal e luz do mundo, como Ele mesmo afirma que o somos em: Mt5,13-14.
Mais importante do que ser Cristão, é ser discípulo de Jesus, pois o discípulo não só crê em Jesus, como também se torna íntimo Dele, seu aprendiz! A convivência com Jesus, transforma a vida do discípulo,  o inquieta, o faz ter pressa de levar ao outro, o que aprendeu do Mestre, é a partir daí, que ele passa a ser missionário (a) um anunciador da Boa Nova do Reino!
O reino de Deus está próximo de nós! Para fazermos parte deste Reino, isto é, fazermos parte da vida de Jesus, só nos é exigida uma condição: a conversão do coração! Sem uma mudança radical de vida, não tem como fazer parte do Reino de Deus, que é fundamentado no amor. Quem não ama, se exclui do Reino...
Deus quer salvar a humanidade convocando cada um de nós para uma missão, Ele quer contar com a nossa disposição, com o nosso serviço na construção de um mundo melhor! Ser indiferente ao seu chamado, é ignorar o seu projeto de vida nova para todos. 
Abracemos a nossa missão, sem temer os ventos contrários, pois a nossa sustentação está em Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A liturgia do 3º domingo do tempo comum propõe-nos a continuação da reflexão iniciada no passado domingo. Recorda, uma vez mais, que Deus ama cada homem e cada mulher e chama-o à vida plena e verdadeira. A resposta do homem ao chamamento de Deus passa por um caminho de conversão pessoal e de identificação com Jesus.
A primeira leitura diz-nos – através da história do envio do profeta Jonas a pregar a conversão aos habitantes de Nínive – que Deus ama todos os homens e a todos chama à salvação. A disponibilidade dos ninivitas em escutar os apelos de Deus e em percorrer um caminho imediato de conversão constitui um modelo de resposta adequada ao chamamento de Deus.
No Evangelho aparece o convite que Jesus faz a todos os homens para se tornarem seus discípulos e para integrarem a sua comunidade. Marcos avisa, contudo, que a entrada para a comunidade do Reino pressupõe um caminho de “conversão” e de adesão a Jesus e ao Evangelho.
A segunda leitura convida o cristão a ter consciência de que “o tempo é breve” – isto é, que as realidades e valores deste mundo são passageiros e não devem ser absolutizados. Deus convida cada cristão, em marcha pela história, a viver de olhos postos no mundo futuro – quer dizer, a dar prioridade aos valores eternos, a converter-se aos valores do “Reino”.
1ª leitura: Jonas 3,1-5.10 – AMBIENTE
O “livro de Jonas” foi, muito provavelmente, escrito na segunda metade do séc. V a.C. (talvez entre 440 e 410 a.C.).
É uma história bonita e edificante, mas não é real. Trata-se de um texto que poderíamos classificar no gênero “ficção didática”. Dito de outra forma: o livro de Jonas não é uma coleção de oráculos proféticos proferidos por um homem chamado Jonas, nem sequer um relato de caráter histórico; mas é uma obra de ficção, escrita com a finalidade de ensinar e educar.
Estamos numa época em que a política de Esdras e Neemias favorecia o nacionalismo, e o fechamento do Povo de Deus aos outros povos. Por um lado, sublinhava-se o fato de Judá ser o Povo Eleito de Deus, o povo preferido de Deus, um povo diferente de todos os outros; por outro, considerava-se que todos os outros povos eram inimigos de Deus, odiados por Deus, que deviam ser inapelavelmente condenados e destruídos por Deus.
Reagindo contra a ideologia dominante, o autor do “livro de Jonas” apresenta Jahwéh como um Deus universal, cuja bondade e misericórdia se estendem a todos os povos, sem exceção. A escolha de Nínive como a cidade destinatária da ação salvadora de Deus não é casual: Nínive, capital do império assírio a partir de Senaquerib, tinha ficado na consciência dos habitantes de Judá como símbolo do imperialismo e da mais cruel agressividade contra o Povo de Deus (cf. Is. 10,5-15; Sof. 2,13-15).
É, precisamente, esta cidade que Jahwéh quer salvar. Por isso, chama Jonas e convida-o a ir a Nínive pregar a conversão. No entanto Jonas, como os outros seus contemporâneos, não está interessado em que Jahwéh perdoe aos opressores do Povo de Deus e recusa-se a cumprir o mandato divino. Em lugar de se dirigir para Nínive, no Oriente, toma o barco para Társis, no Ocidente. Na sequência de uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe. Mais tarde, o peixe vai depositá-lo em terra firme. Jonas é, de novo, chamado por Deus para a missão em Nínive.
MENSAGEM
O nosso texto começa com Jonas a receber o segundo mandato de Jahwéh para ir a Nínive. Jonas aceita, desta vez, a missão, vai a Nínive e anuncia aos ninivitas a destruição da sua cidade. Contra todas as expectativas, os ninivitas escutam-no, fazem penitência e manifestam a sua vontade de conversão. Finalmente, Deus desiste do castigo.
A primeira lição da “parábola” é a da universalidade do amor de Deus. Deus ama todos os homens, sem exceção, e sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia. Mais: Deus ama mesmo os maus, os injustos e opressores e até a esses oferece a possibilidade de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva.
A segunda lição da nossa “parábola” brota da resposta dada pelos ninivitas ao desafio de Deus. Ao descrever a forma imediata e radical como os ninivitas “acreditaram em Deus” e se converteram “do seu mau caminho” (ao contrário do que, tantas vezes, acontecia com o próprio Povo de Deus), o autor sugere, com alguma ironia, que esses pagãos, considerados como maus, prepotentes, injustos e opressores são capazes de estar mais atentos aos desafios de Deus do que o próprio Povo eleito.
Desta forma, o autor desta história denuncia uma certa visão nacionalista, particularista, exclusivista, xenófoba, que estava em moda na sua época entre os seus contemporâneos. Desafia o seu Povo a aceitar que Jahwéh seja um Deus misericordioso, que oferece o seu amor e a sua salvação a todos os homens, até aos maus. Desafia, ainda, os habitantes de Judá a assumirem a mesma lógica de Deus – lógica de bondade, de misericórdia, de perdão, de amor sem limites – e a não verem nos outros homens inimigos que merecem ser destruídos, mas irmãos que é preciso amar.
ATUALIZAÇÃO
• A catequese apresentada pelo “livro de Jonas” convida-nos, antes de mais, a apreciar a profundidade da misericórdia e da bondade de Deus. Deus ama todos os homens e mulheres, sem exceção e de forma incondicional. Deus ama até os maus e os opressores. Esta lógica exclui, naturalmente, a eliminação do pecador: Deus não quer a morte de nenhum dos seus filhos; o que quer é que eles se convertam e percorram, com Ele, o caminho que conduz à vida plena, à felicidade sem fim. É este Deus, tornado frágil pelo amor, que somos chamados a descobrir, a aceitar e a amar.
• No entanto todos nós temos, por vezes, alguma dificuldade em aceitar esta lógica de Deus. Em certas circunstâncias, preferíamos um Deus mais duro e exigente, que se impusesse decisivamente aos maus, que frustrasse os seus projetos de violência e de injustiça, que castigasse aqueles que não cumprem as regras, que não desse hipóteses àqueles que destroem o nosso bem-estar e a nossa segurança… A Palavra de Deus que hoje nos é servida apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que nos convida a amar todos os irmãos, mesmo os maus. Deus deve converter-se à nossa lógica, ou seremos nós que devemos converter-nos à lógica de Deus?
• A disponibilidade dos ninivitas para escutar o chamamento de Deus e para percorrer o caminho da conversão constitui um modelo de resposta adequada ao Deus que chama. É essa mesma prontidão de resposta que Deus pede a cada homem ou a cada mulher.
• O nosso texto sugere também que aqueles que consideramos “maus” estão, às vezes, mais disponíveis para acolher os desafios de Deus e para escutar o seu chamamento, do que os “bons”. Os “bons” estão, tantas vezes, aferrados aos seus esquemas de vida, aos seus preconceitos, às suas certezas, que não escutam as propostas de Deus… Para Deus, o que é decisivo não é o passado de cada homem ou mulher, mas a capacidade de cada um em deixar-se interpelar e questionar por ele.
• Há também neste texto uma severa denúncia do racismo, da exclusão, da marginalização, da xenofobia. A Palavra de Deus alerta-nos para a necessidade de ver em cada homem que caminha ao nosso lado um irmão, independentemente da sua raça, da cor da sua pele, da sua cultura, ou até da sua bondade ou maldade. Como vemos e como acolhemos os nossos irmãos imigrantes que a vida trouxe até nós e que colaboram conosco na construção do mundo: como inimigos, culpados por todos os males do universo, ou como irmãos por quem somos responsáveis e que Deus nos convida a acolher e a amar?
2ª leitura: 1 Coríntios 7,29-31 – AMBIENTE
As duas cartas aos Coríntios – e particularmente a primeira – refletem a realidade de uma comunidade jovem, viva e entusiasta, mas com os seus problemas e dificuldades próprios… As suas luzes e sombras resultam, em parte, de ser uma comunidade que provém do mundo grego – isto é, de um mundo animado e estruturado por dinamismos muito próprios, com uma grande vitalidade, mas ao mesmo tempo com valores e dinâmicas que tornam difícil a transplantação dos valores evangélicos para um mundo animado por princípios muito diferentes daqueles que estão na origem da mensagem cristã. Na comunidade cristã de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em se inserir num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Um dos sectores onde se nota particularmente o choque entre a fé cristã e a cultura helênica é nas questões de ética sexual. Neste âmbito, a cultura coríntia balouçava entre dois extremos: por um lado, um grande laxismo (como era normal numa cidade marítima, onde chegavam marinheiros de todo o mundo e onde reinava Afrodite, a deusa grega do amor); por outro lado, um desprezo absoluto pela sexualidade (típico de certas tendências filosóficas influenciadas pela filosofia platônica, que consideravam a matéria um mal e que faziam do não casar um ideal absoluto).
O desejo de Paulo é o de apresentar um caminho equilibrado, face a estes exageros: condenação sem apelo de todas as formas de desordem sexual, defesa do valor do casamento, elogio do celibato (cf. 1Cor. 7).
Provavelmente, os coríntios tinham consultado Paulo acerca do melhor caminho a seguir – o do matrimônio ou o do celibato. Paulo responde à questão no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios (de onde é retirado o texto da nossa segunda leitura). Paulo considera que não tem, a este propósito, “nenhum preceito do Senhor”; no entanto, o seu parecer é que quem não está comprometido com o casamento deve continuar assim e quem está comprometido não deve “romper o vínculo” (1Cor. 7,25-28).
MENSAGEM
Na perspectiva de Paulo, os cristãos não devem esquecer que “o tempo é breve”, quando tiverem que fazer as suas opções – nomeadamente, quando tiverem que fazer a sua escolha entre o casamento ou o celibato. Em concreto, o que é que isto significa?
O cristão vive mergulhado nas realidades terrenas, mas não vive para elas. Ele sabe que as realidades terrenas são passageiras e efêmeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Para o cristão, o que é fundamental e deve ser posto em primeiro lugar, são as realidades eternas… E o cristão, embora estimando e amando as realidades deste mundo, pode renunciar a elas em vista de um bem maior. O mais importante, para um cristão, deve ser sempre o amor a Cristo e a adesão ao Reino. Tudo o resto (mesmo que seja muito importante) deve subjugar-se a isto.
Na sua catequese aos coríntios, o apóstolo aplica estes princípios à questão do casamento/celibato. Para ele, o casamento é uma realidade importante (ele considera que tanto o casamento como  o celibato são dons de Deus – cf. 1Cor. 7,7); mas não deixa de ser uma realidade terrena e efêmera, que não deve, por isso, ser absolutizada. Paulo nunca diz que o casamento seja uma realidade má ou um caminho a evitar; mas é evidente, nas suas palavras, uma certa predileção pelo celibato… Na sua perspectiva, o celibato leva vantagem enquanto caminho que aponta para as realidades eternas: anuncia a vida nova de ressuscitados que nos espera, ao mesmo tempo que facilita um serviço mais eficaz a Deus e aos irmãos (cf. 1Cor. 7,32-38).
Na verdade, as palavras de Paulo fazem sentido em todos os tempos e lugares; mas elas tornam-se mais lógicas se tivermos em conta o ambiente escatológico que se respirava nas primeiras comunidades. Para os crentes a quem a Primeira Carta aos Coríntios se destinava, a segunda e definitiva vinda de Jesus estava iminente; era preciso, portanto, relativizar as realidades transitórias e efêmeras, entre as quais se contava o casamento.
ATUALIZAÇÃO
• A todo o instante somos colocados diante de realidades diversas e contrastantes e temos de fazer as nossas escolhas. A mentalidade dominante, a moda, o politicamente correto, os nossos preconceitos e interesses egoístas interferem frequentemente com as nossas opções e impõem-nos valores que nem sempre são geradores de liberdade, de paz, de vida verdadeira. Mais grave, ainda: muitas vezes, endeusamos determinados valores efêmeros e passageiros, que nos fazem perder de vista os valores autênticos, verdadeiros, definitivos. O nosso texto sugere um princípio a ter em conta, a propósito desta questão: os valores deste mundo, por mais importantes e interessantes que sejam, não devem ser absolutizados. Não se trata de desprezar as coisas boas que o mundo coloca à nossa disposição; mas trata-se de não colocar nelas, de forma incondicional, a nossa esperança, a nossa segurança, o objetivo da nossa vida.
• Na verdade, o cristão deve viver com a consciência de que “o tempo é breve”. Ele sabe que a sua vida não encontra sentido pleno e absoluto nesta terra e que a sua passagem por este mundo é uma peregrinação ao encontro dessa vida verdadeira e definitiva que só se encontra na comunhão plena com Deus. Para chegar a atingir esse objetivo último, o cristão deve converter-se a Cristo e segui-l’O no caminho do amor, da entrega, do serviço aos irmãos. Tudo aquilo que deixa um espaço maior para essa adesão a Cristo e ao seu caminho, deve ser valorizado e potenciado. É aí que deve ser colocada a nossa aposta.
Evangelho: Marcos 1,14-20 – AMBIENTE
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina em Mc. 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
O texto que nos é hoje proposto aparece, exatamente, no princípio desta caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Neste texto, Marcos apresenta aos seus leitores os primeiros passos da acção do Messias libertador.
O lugar geográfico em que o texto nos situa é a Galileia – uma região em permanente contacto com os pagãos e, por isso, considerada pelas autoridades religiosas de Jerusalém uma terra de onde “não podia vir nada de bom”. Terra insignificante e sem especial relevo na história religiosa do Povo de Deus, a “Galileia dos gentios” parecia condenada a continuar uma região esquecida, marginalizada, por onde nunca passariam os caminhos de Deus e a proposta libertadora do Messias.
MENSAGEM
O nosso texto divide-se em duas partes. Na primeira, Marcos apresenta uma espécie de resumo da pregação inicial de Jesus (cf. Mc. 1,14-15); na segunda, o nosso evangelista apresenta os primeiros passos da comunidade dos discípulos – a comunidade do Reino (cf. Mc. 1,16-20).
No breve resumo da pregação inicial de Jesus, Marcos coloca na boca de Jesus as seguintes palavras: “cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc. 1,15).
Na expressão “cumpriu-se o tempo”, a palavra grega utilizada por Marcos e que traduzimos por “tempo” (“kairós”) refere-se a um tempo bem distinto do tempo material (“chronos”), que é o tempo medido pelos relógios. Poderia traduzir-se como “de acordo com o projeto de salvação que Deus tem para o mundo, chegou a altura determinada por Deus para o cumprimento das suas promessas”.
Que “tempo” é esse que “se aproximou” dos homens e que está para começar? É o “tempo” do “Reino de Deus”. A expressão – tão frequente no Evangelho segundo Marcos – leva-nos a um dos grandes sonhos do Povo de Deus…
A catequese de Israel (como aliás acontecia com a reflexão teológica de outros povos do Crescente fértil) referia-se, com frequência, a Jahwéh como a um rei que, sentado no seu trono, governa o seu Povo. Mesmo quando Israel passou a ter reis terrenos, esses eram considerados apenas como homens escolhidos e ungidos por Jahwéh para governar o Povo, em lugar do verdadeiro rei que era Deus. O exemplo mais típico de um rei/servo de Jahwéh, que governa Israel em nome de Jahwéh, submetendo-se em tudo à vontade de Deus, foi David. A saudade deste rei ideal e do tempo ideal de paz e de felicidade em que Jahwéh reinava (através de David) sobre o seu povo, vai marcar toda a história futura de Israel. Nas épocas de crise e de frustração nacional, quando reis medíocres conduziam a nação por caminhos de morte e de desgraça, o Povo sonhava com o regresso aos tempos gloriosos de David. Os profetas, por sua vez, vão alimentar a esperança do Povo anunciando a chegada de um tempo, no futuro, em que Jahwéh vai voltar a reinar sobre Israel e vai restabelecer a situação ideal da época de David. Essa missão, na perspectiva profética, será confiada a um “ungido” que Deus vai enviar ao seu Povo. Esse “ungido” (em hebraico “messias”, em grego “cristo”) estabelecerá, então, um tempo de paz, de justiça, de abundância, de felicidade sem fim – isto é, o tempo do “reinado de Deus”.
O “Reino de Deus” é, portanto, uma noção que resume a esperança de Israel num mundo novo, de paz e de abundância, preparado por Deus para o seu Povo. Esta esperança está bem viva no coração de Israel na época em que Jesus aparece a dizer: “o tempo completou-se e o Reino de Deus aproximou-se”. Certas afirmações de Jesus, transmitidas pelos Evangelhos sinópticos, mostram que Ele tinha consciência de estar pessoalmente ligado ao Reino e de que a chegada do Reino dependia da sua ação.
Jesus começa, precisamente, a construção desse “Reino” pedindo aos seus conterrâneos a conversão (“metanoia”) e o acolhimento da Boa Nova (“evangelho”).
“Converter-se” significa transformar a mentalidade e os comportamentos, assumir uma nova atitude de base, reformular os valores que orientam a própria vida. É reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem e ocupe sempre o primeiro lugar. Na perspectiva de Jesus, não é possível que esse mundo novo de amor e de paz se torne uma realidade, sem que o homem renuncie ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência e passe a escutar de novo Deus e as suas propostas.
“Acreditar” não é apenas aceitar um conjunto de verdades intelectuais; mas é, sobretudo, aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração, fazer dela o guia da própria vida. “Acreditar” é escutar essa “Boa Notícia” de salvação e de libertação (“evangelho”) que Jesus propõe e fazer dela o centro à volta do qual se constrói toda a existência.
“Conversão” e “adesão ao projeto de Jesus” são duas faces de uma mesma moeda: a construção de um homem novo, com uma nova mentalidade, com novos valores, com uma postura vital inteiramente nova. Vai ser isso que Jesus vai propor em cada palavra que pronuncia: que nasça um homem novo, capaz de amar o próximo (Mt. 22,39), mesmo aquele que é adversário ou inimigo (Lc. 10,29-37); que nasça um homem novo, que não vive para o egoísmo, para a riqueza, para os bens materiais, mas sim para a partilha (Mc. 6,32-44); que nasça um homem novo, que não viva para ter poder e dominar, mas sim para o serviço e para a entrega da vida (Mc. 9,35). Então, sim, teremos um mundo novo – o “Reino de Deus”.
Depois de dizer qual a proposta inicial de Jesus, Marcos apresenta-nos os primeiros discípulos. Pedro e André, Tiago e João são – na versão de Marcos – os primeiros a responder positivamente ao desafio do Reino, apresentado por Jesus. Isso significa que eles estão dispostos a “converter-se” (isto é, a mudar os seus esquemas de vida, de forma a que Deus passe a estar sempre em primeiro lugar) e a “acreditar na Boa Nova” (isto é, a aderir a Jesus, a escutar a sua proposta de libertação, a acolhê-la no coração e a transformá-la em vida).
A apresentação feita por Marcos do chamamento dos primeiros discípulos não parece ser uma descrição fotográfica de acontecimentos concretos, mas antes a definição de um modelo de toda a vocação cristã. Nesta catequese sobre a vocação, Marcos sugere que:
1º O chamamento a entrar na comunidade do Reino é sempre uma iniciativa de Jesus dirigida a homens concretos, “normais” (com um nome, com uma história de vida, com uma profissão, possivelmente com uma família).
2º Esse chamamento é sempre categórico, exigente e radical (Jesus não “prepara” previamente esse chamamento, não explica nada, não dá garantias nenhumas e nem sequer se volta para ver se os chamados responderam ou não ao seu desafio).
3º Esse chamamento não é para frequentar as aulas de um mestre qualquer, a fim de aprender e depois repetir uma doutrina qualquer; mas é um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer com Ele uma experiência de vida, para aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive no amor a Deus e aos irmãos.
4º Esse chamamento exige uma resposta imediata, total e incondicional, que deve levar a subalternizar tudo o resto para seguir Jesus e para integrar a comunidade do Reino (Pedro, André, Tiago e João não exigem garantias, não pedem tempo para pensar, para medir os prós e os contras, para pôr em ordem os negócios, para se despedir do pai ou dos amigos, mas limitam-se a “deixar tudo” e a seguir Jesus).
O Evangelho deste domingo apresenta, portanto, o convite que Jesus faz a todos os homens no sentido de integrarem a comunidade do Reino; e apresenta também um modelo para a forma como os chamados devem escutar e acolher esse chamamento.
ATUALIZAÇÃO
• Quando contemplamos a realidade que nos rodeia, notamos a existência de sombras que desfeiam o mundo e criam, tantas vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na vida dos homens. Esse quadro não é, no entanto, uma realidade irremediável a que estamos para sempre condenados. Nos projetos de Deus, está um mundo diferente – um mundo de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava o “Reino de Deus”. É esse projeto que Jesus nos apresenta e ao qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, um mundo onde Deus esteja presente e que se edifique de acordo com os projetos e os critérios de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura?
• Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. Temos de modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros para que se torne possível o nascimento de uma realidade diferente. Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de comodismo e de voltar a escutar Deus e as suas propostas, para que aconteça, na nossa vida e à nossa volta, uma transformação radical – uma transformação no sentido do amor, da justiça e da paz. O que é que temos de “converter” – quer em termos pessoais, quer em termos institucionais – para que se manifeste, realmente, esse Reino de Deus tão esperado?
• De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige também o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Estou disposto acolher o chamamento de Jesus e a percorrer o caminho do “discípulo”?
• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem exceção. Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo.
• O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está decisivamente implantada na nossa história. Não tem fronteiras materiais e definidas; mas está a acontecer e a concretizar-se através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que acontecem à nossa volta (muitas vezes, até fora das fronteiras institucionais da “Igreja”) e que são um sinal visível do amor de Deus nas nossas vidas. Não é uma realidade que construímos de uma vez, mas é uma realidade sempre em construção, sempre a fazer-se, até à sua realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo e o pecado desaparecerem para sempre. Em cada dia que passa, temos de renovar o compromisso com o “Reino” e empenharmo-nos na sua edificação.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho



Desprendimento para seguir o senhor
I. O Evangelho da missa de hoje narra a chamada que Cristo dirigiu a quatro dos seus discípulos: Pedro, André, Tiago e João 1. Os quatro eram pescadores e encontravam-se entregues ao trabalho, lançando as redes ou consertando-as, quando Jesus passou e os chamou.
Estes Apóstolos já conheciam o Senhor2 e tinham-se sentido profundamente atraídos pela sua pessoa e pela sua doutrina. A chamada que recebem agora é a definitiva: Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens.
Estes homens deixaram tudo imediatamente e seguiram o Mestre. Noutra passagem, o Evangelho relata com palavras parecidas a vocação de Mateus: relictis omnibus, deixando todas as coisas, levantando-se, o seguiu. E os demais Apóstolos, cada um nas circunstâncias peculiares em que Jesus os encontrou, devem ter feito o mesmo.
Para seguirmos o Senhor, é preciso que tenhamos a alma livre de todo o apegamento; em primeiro lugar, do amor próprio, da preocupação excessiva pela saúde, pelo futuro..., pelas riquezas e bens materiais. Porque, quando o coração se enche dos bens da terra, já não resta lugar para Deus.
A alguns, o Senhor pede uma renúncia absoluta, para dispor deles mais plenamente, tal como fez com os Apóstolos, com o jovem rico3, com tantos e tantos ao longo dos séculos, que encontraram nEle o seu tesouro e a sua riqueza. E a todo aquele que pretenda segui-lo, exige um desprendimento efetivo de si mesmo e daquilo que tem e usa.
Se esse desprendimento for real, manifestar-se-á em muitos momentos da vida diária, porque, como o mundo criado é bom, o coração tende a apegar-se de forma desordenada às criaturas e às coisas. Por isso o cristão necessita de uma vigilância contínua, de um exame freqüente, para que os bens criados não o impeçam de unir-se a Deus, antes sejam um meio de amá-lo e servi-lo. “Cuidem todos, portanto, de dirigir retamente os seus afetos – adverte o Concílio Vaticano II – para que, por causa das coisas deste mundo e do apego às riquezas, não encontrem um obstáculo que os afaste, contra o espírito de pobreza evangélica, da busca da caridade perfeita, segundo a admoestação do Apóstolo: Os que usam deste mundo não se detenham nele, porque os atrativos deste mundo passam (cf. 1Cor. 7,31)” (4).
Estas palavras de São Paulo aos cristãos de Corinto, apresentadas na segunda Leitura da Missa, são um convite para que ponhamos o nosso coração todo inteiro no eterno: em Deus.
II. O DESPRENDIMENTO CRISTÃO não é desprezo pelos bens materiais, desde que sejam adquiridos e utilizados de acordo com a vontade de Deus, mas é tornar realidade na própria vida aquele conselho do Senhor: Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo5.
Um coração tíbio e dividido, inclinado a compaginar o amor a Deus com o amor aos bens, às comodidades e ao aburguesamento, bem cedo desalojará Cristo do seu coração e se achará prisioneiro desses bens, que para ele se converterão em males. Não devemos esquecer que todos trazemos dentro de nós, como conseqüência do pecado original, a tendência para uma vida mais fácil, para o supérfluo, para as ânsias de domínio, para a preocupação com o futuro.
Esta tendência da natureza humana agrava-se com a corrida desenfreada pela posse e utilização dos meios materiais, como se fossem a coisa mais importante da vida, uma corrida que vemos estender-se cada vez mais na sociedade em que vivemos. Nota-se por toda a parte uma inclinação clara não já para o legítimo conforto, mas para o luxo, para não abrir mão de nada que dê prazer. É uma pressão violenta que se observa por toda a parte e que não devemos esquecer se queremos realmente manter-nos livres desses liames para seguir o Senhor e ser exemplos vivos de temperança, no meio de uma sociedade que devemos conduzir para Deus.
A abundância e a fruição dos bens materiais nunca darão felicidade ao mundo; o coração só encontrará a plenitude para a qual foi criado no seu Deus e Senhor. Quando não se atua com a fortaleza necessária para viver interiormente desprendido, “o coração fica triste e insatisfeito; penetra por caminhos de um eterno descontentamento e acaba escravizado já aqui na terra, convertendo-se em vítima desses mesmos bens que talvez tenha conseguido à custa de esforços e renúncias sem número” (6).
A pobreza e o desprendimento cristãos não têm nada a ver com a sujidade e o desleixo, com o desalinho ou a falta de educação. Jesus apresentou-se sempre bem vestido. A sua túnica, certamente confeccionada pela sua Mãe, foi objeto de sorteio no Calvário porque era inconsútil, tecida de alto a baixo (7); era uma veste orlada8. Observamos também como, na casa de Simão, o Senhor reparou que se tinham omitido com Ele as regras usuais da boa educação e fez ver ao anfitrião que não lhe tinha oferecido água para lavar os pés, nem o tinha cumprimentado com o ósculo da paz nem ungido a sua cabeça com óleo... (9).
A pobreza do cristão que deve santificar-se no meio do mundo está ligada ao trabalho de que vive e com o qual sustenta a sua família; no estudante, a um estudo sério e ao bom aproveitamento do tempo, com a clara consciência de que contraiu uma dívida para com a sociedade e para com os seus, e de que deve preparar-se com competência para ser útil; na mãe de família, ao cuidado do lar, da roupa, dos móveis para que durem, à poupança prudente, que levará a evitar caprichos pessoais, ao exame da qualidade do que compra, o que suporá em muitos casos ir de loja em loja para comparar preços...
E, quanto aos filhos, como agradecem depois de terem sido criados com essa austeridade que entra pelos olhos e que não necessita de muitas explicações quando vêem que é vivida pelos pais! E isto ainda que se trate de uma família de posição econômica desafogada. Os pais deixam aos filhos uma grande herança quando lhes fazem ver com o seu exemplo que o trabalho é o melhor capital e o mais sólido, quando lhes mostram o valor das coisas e os ensinam a gastar tendo em conta a situação de aperto em que muitos se encontram na terra.
III. O DESPRENDIMENTO EFETIVO dos bens exige sacrifício. Um desprendimento que não custe é pouco real. O estilo de vida cristã implica uma mudança radical de atitude em face dos bens terrenos, os quais não hão de ser procurados e utilizados como se fossem um fim, mas como meio para servir a Deus, à família, à sociedade.
O fim que um cristão tem em vista não é possuir cada vez mais, mas amar mais e mais a Cristo através do seu trabalho, da sua família e também através dos bens materiais. A generosa preocupação pelas necessidades alheias que os primeiros cristãos viviam (10), e que são Paulo ensinou também a viver aos fiéis das comunidades que ia fundando, será sempre um exemplo de vigência permanente; um cristão nunca poderá contemplar com indiferença as necessidades espirituais ou materiais dos outros e deve contribuir generosamente para solucionar essas necessidades. E há de ser consciente de que então não só se remedeiam as necessidades dos santos (dos outros irmãos na fé), mas também se contribui muito para a glória do Senhor (11).
A generosidade na esmola a pessoas necessitadas ou a obras boas sempre foi uma manifestação – embora não a única – de desprendimento real dos bens e de espírito de pobreza evangélica. Não somente esmola do supérfluo, mas aquela que se compõe principalmente de sacrifícios pessoais, de um passar necessidade em algum campo. Esta oferenda, feita com o sacrifício daquilo que talvez nos parecesse necessário, é muito grata a Deus. A esmola brota de um coração misericordioso, e “é mais útil para quem a dá do que para aquele que a recebe. Porque quem a dá tira um proveito espiritual, ao passo que quem a recebe tira somente um proveito material” (12).
Tal como aos Apóstolos, o Senhor convidou-nos a segui-lo – cada um nas suas condições peculiares –, e, para respondermos a essa chamada, devemos estar atentos e ver se também nós deixamos todas as coisas, ainda que tenhamos que servir-nos delas. Vejamos se somos generosos com o que temos e usamos, se estamos desapegados do tempo, da saúde, se os nossos amigos nos conhecem como pessoas que vivem sobriamente, se somos magnânimos na esmola, se evitamos gastos que no fundo são um capricho, vaidade, aburguesamento, se cuidamos daquilo que usamos: livros, instrumentos de trabalho, roupa.
Jesus passa também ao nosso lado. Não deixemos que, por causa de meia dúzia de bagatelas – são Paulo chama-as lixo13 –, estejamos adiando indefinidamente uma união mais profunda com Ele.
Francisco Fernández-Carvajal



Ainda no contexto do início de um novo Tempo Litúrgico, a Liturgia deste dia apresenta a evidência pedagógica de apelar a um novo modo de viver.
Canto:
Evangelho de Marcos 1,14-20: Sem conversão e mudança de vida torna-se difícil perceber a presença do Reino de Deus.
O Evangelho que acabamos de ouvir descreve o início da vida pública de Jesus. Chamamos de vida pública porque Jesus, com as atitudes descritas no Evangelho dá início à sua pregação. Durante 30 anos, Jesus morou em Nazaré, onde exercia a profissão de carpinteiro.
Nazaré é considerada, por isso, um tempo de preparação, no silêncio e na oração, para a missão que deveria realizar aqui na terra: pregar o Reino de Deus, anunciando a Boa Nova, convidando todos os homens e mulheres a se converterem ao projeto divino.
Passados os 30 anos de Nazaré, Jesus mudou de cidade e foi morar na cidade de Cafarnaum, perto do mar da Galiléia. Foi ali, numa cidade repleta de estrangeiros, em meio a pessoas que não seguiam a religião judaica, que ele começou sua pregação.
Este gesto de Jesus, esta escolha de Jesus, já é, em si mesma, uma mensagem, um jeito de dizer que veio para todos os povos e não somente para o povo judeu.
O outro gesto muito expressivo é Jesus que passa convidando alguns pescadores para segui-lo. Como ia caminhando, convida os pescadores a se tornarem caminheiros, como ele próprio é caminheiro e anunciador da Boa Nova, o Evangelho.
O anunciador da mensagem divina é sempre caminheiro, como também foi caminheiro o profeta Jonas, que ouvimos na 1ª leitura, enviado por Deus para caminhar no meio de estrangeiros para anunciar e convocar a conversão, caso contrário, a cidade seria destruída.
A vocação dos primeiros discípulos está ligada à preparação dos discípulos para atuarem na obra evangelizadora que estava sendo iniciada por ele. Jesus convida os discípulos para que o ajudassem a pregar a Boa Nova da Salvação.
Convidou gente simples, para que fizessem o caminho com ele, aprendessem dele o Evangelho, se tornassem seus discípulos e, depois, fossem eles mesmos os anunciadores da Boa Nova em todo mundo.
Uma mensagem clara que ninguém nasce evangelizador, mas se forma evangelizador através do discipulado, do caminho feito com Jesus, no seguimento de Jesus.
Aqui entendemos o início do canto do salmista: “mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada”.


Cúria Diocesana JALES


Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galiléia, pregando a Boa Notícia de Deus: «O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia».
Ao passar pela beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e seu irmão André; estavam jogando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: «Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens».
Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.
Caminhando mais um pouco, Jesus viu Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes. Jesus logo os chamou. E eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partiram, seguindo Jesus.
O Reino de Deus está aqui
Os cristãos do mundo inteiro se reúnem cada domingo deste ano para ler e partilhar uma passagem do Evangelho de Marcos. É assim como vamos conhecendo melhor as atitudes de Jesus, seus ensinamentos, sua grande sensibilidade pelos excluídos e excluídas que o leva a entregar sua vida em defesa daqueles e daquelas que são oprimidos pela realidade sociocultural e religiosa que os rodeia. 
O evangelho deste domingo nos apresenta Jesus como um itinerante. Depois de estar no deserto, Ele volta para Galileia e esta característica marcará a vida de Jesus e seus seguidores/as.
O motivo de estar sempre a caminho é sua paixão por comunicar a Boa Notícia de Deus: “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo”. 
Marcos define assim o conteúdo do ensinamento de Jesus como “Boa Nova” e é preciso estar com ele para viver e descobrir o “Reino de Deus que está próximo”.
Suas palavras causam impacto nos judeus que as escutavam. Não continuava Israel dominado pelos romanos? Não seguiam os camponeses oprimidos? Não continuava o mundo cheio de corrupção e injustiça?
Mas Jesus afirma com convicção que Deus já está aqui, atuando silenciosamente no meio do povo, e assim seu reinado vai se expandindo pelas regiões de Galileia.
Jesus partilha, comunica sua própria experiência de um Deus vivo, presente e atuante, por isso, apesar da dureza da realidade, ousa proclamar sua fé e convidar a crer nesta Boa Notícia.
Os contemporâneos de Jesus, assim como nós agora, poderiam perguntar-se: Como pode dizer que o Reino de Deus já está presente? Onde pode ser visto e experimentado? 
Em mais de uma oportunidade, os evangelhos nos mostram que estas perguntas foram feitas a Jesus. E Ele respondeu de forma ainda mais desconcertante para a mentalidade da época.
O Reino de Deus não vem de forma espetacular, nem tem que se escutar os céus buscando sinais especiais e não entra em cálculos nem prognósticos.
É necessário aprender a captar sua presença e ação de outra maneira, porque o Reino de Deus já está entre nós!
As pessoas simples e pobres são os primeiros em acolher a Boa Notícia de um Deus que os ama e não os esqueceu. Ao contrário, sua preocupação é libertar seus/suas filhos/as de tudo quanto os/as desumaniza e os/as faz sofrer.
Por isso os evangelhos narram de diferentes formas a infatigável vida itinerante de Jesus, que, movido pela compaixão, cura os doentes, consola os abatidos, liberta os oprimidos social ou religiosamente, manifestando, assim, a bondade de Deus.
Unido a esta proclamação da chegada do Reino de Deus, Jesus exorta seus ouvintes a converter-se e acreditar na Boa Notícia.
A nova presença de Deus pede uma mudança profunda. Para participar do Reino de Deus é preciso deixar-se transformar pela sua dinâmica de amor que leva a modificar a forma de pensar e agir.
A palavra conversão, metanoein, significa mudar a forma de pensar e agir, ou seja, não viver de acordo com os critérios do “império” reinante, mas assumir um estilo de vida que irradie o reinado de Deus.
O que implica viver relações de cuidado e respeito com todo o criado, exercitar a capacidade de diálogo e crescimento junto com o diferente, promover a justiça e a reconciliação e fazer os pequenos estarem sempre em primeiro lugar.
A chegada do Reino pede uma mudança pessoal e comunitária, o povo tem que tomar outro rumo para alcançar a Vida para todos/as.
E esta tarefa não pode ser exclusiva de uma pessoa. Por isso Jesus, desde o início, rodeia-se de amigos/as e colaboradores/as. Ele sabe que é necessário criar um movimento de homens e mulheres, do próprio povo, que ajudem os outros a tomar consciência da proximidade salvadora de Deus.
A segunda parte do evangelho de hoje nos narra o chamado de Jesus aos seus primeiros amigos: «Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens».
Chama a atenção que o convite é austero. A proposta consiste em segui-lo em sua vida itinerante pelos caminhos de Galileia e Judeia, partilharem sua experiência de Deus, aprenderem a reconhecer Sua ação e acolhê-la e guiados por Ele participarem na tarefa de anunciar a todos a vinda do Reino.
Os primeiros homens e mulheres que acolheram o chamado de Jesus, fazendo-se seus discípulos/as e seguidores/as formaram um grupo plural do qual se iniciará o movimento que deu origem ao cristianismo.
Neste grupo inicial, podemos incluir Paulo de Tarso, hoje celebramos a memória de seu martírio. Embora não tenha convivido com Jesus, sua vida e missão abriram as portas da fé cristã ao diálogo com culturas e religiões diferentes.
A fé cristã transmitida deste grupo inicial de homens e mulheres apaixonados/as como seu Mestre pela proposta do Reino de Deus, de geração em geração chegou a nós hoje, para ser acolhida, vivida e comunicada.
Por isso, para quem está lendo estas palavras, é dirigido o convite de acolher as mais importantes: "O Reino de Deus já chegou, convertam-se e acreditem na Boa Notícia".

Referências
PAGOLA, José Antonio. Jesús. Aproximación histórica.
EQUIPE DE REFLEXÃO BÍBLICA. Reconstruir relações num mundo ferido. Uma leitura de Marcos em pespectiva de relações novas. CRB/2008
INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS








O Reino de Deus está aí:  convertei-vos
Encerrado o tempo natalino, os evangelhos da liturgia dominical apresentam em lectio continua o início da pregação de Jesus segundo o evangelista do ano, no caso, Marcos. Assim, ouvimos hoje a proclamação da chegada do reino de Deus e da conversão que deve acompanhar essa boa notícia. Isso não deixa de suscitar algumas perguntas. Por que “conversão” ao receber uma boa notícia?
De fato, na 1ª leitura e no evangelho de hoje, a pregação da conversão ressoa em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Na 1ª leitura, de Jonas, trata-se de pregação ameaçadora, dirigida à “grande cidade” Nínive, capital da Assíria. Diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando sua misericórdia universal, poupa a cidade.
O Evangelho de Marcos, por outro lado, resume a pregação inicial de Jesus, não na capital do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, mas na periferia da Palestina. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “O tempo está cumprido”. Chega de castigo: o “reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida aos pobres da Galileia. O “Filho”, que no batismo recebeu toda a afeição do Pai e foi ungido com o Espírito profético e messiânico, leva a boa-nova aos pobres, partilhando a opressão e demonstrando a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos. 
Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão pela fé na boa-nova. Enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos e a história continua como antes, no Novo Testamento vemos que a proclamação da boa-nova exige fé e participação ativa no reino cuja presença é anunciada.
Como no domingo passado, a 2ª leitura tem um tema independente, tomado das “questões particulares” da primeira carta aos Coríntios, a visão de Paulo a respeito dos diversos estados de vida.
1ª leitura (Jn 3,1-5.10)
A 1ª leitura de hoje narra, no estilo profético-sapiencial, a conversão de Nínive segundo o livro de Jonas. Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do império dos gentios (a Assíria). E acontece o que um judeu piedoso não poderia imaginar: a cidade se converte em consequência da pregação do profeta fujão. Deus chama à conversão, e quem aceita o chamado é salvo.
O salmo responsorial (Sl. 25[24],4ab-5ab.6-7bc.8-9) sublinha a importância da conversão: Deus guia ao bom caminho os pecadores.
Evangelho (Mc. 1,14-20)
Devidamente introduzido pela aclamação, o evangelho narra o início da pregação de Jesus como anúncio da chegada do reino de Deus e exortação à correspondente conversão. O Evangelho de Marcos é o evangelho da “irrupção do reino de Deus”. Como Jonas, na 1ª leitura, Jesus aparece como profeta apocalíptico, mas, em vez de uma catástrofe, anuncia a boa-nova da chegada do reino e pede conversão e fé. E isso com a “autoridade” do reino que se revela na expulsão de demônios e outros sinais (Mc. 1,22.27). Ele é o “Filho de Deus” (1,1; 9,7; 15,39; cf. 1,11).
Mas por que essa mensagem exige conversão? A mensagem de Jonas logrou êxito e produziu penitência à base do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão à base da fé na boa-nova. Observe-se que conversão não é a mesma coisa que penitência. Certas Bíblias traduzem, erroneamente, Mc. 1,15 como “fazei penitência” em vez de “convertei-vos”. Penitência tem a ver com pena, castigo. Conversão é dar nova virada à vida. O grego metanoia sugere uma mudança de mentalidade. Por trás disso está o hebraico shuv, “voltar” (a Deus), não por causa do medo, mas por causa da confiança no dom de Deus, o “reino de Deus”, que é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o pai-nosso: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade”. Onde reinam o amor e a justiça, conforme a vontade de Deus, acontece o reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com essa vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente esse reino em sua própria pessoa. Ele é o reino de Deus que se torna presente. Todo o Evangelho de Marcos desenvolve essa verdade.
No início, o significado de Jesus e de sua pregação está envolto no mistério, mas, aos poucos, há de revelar-se para quem acreditar na boa-nova, sobretudo quando esta se tornar cruz e ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir do castigo anunciado, em Mc 1 a proclamação da boa-nova exige fé e participação ativa no reino que a partir de agora abre espaço. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do reino que ele traz presente. Essa adesão ativa é exemplificada no chamamento dos primeiros seguidores. Imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Marcos narra a vocação dos primeiros discípulos, vocação que os transforma, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. Eles são uma espécie de parábola viva: sua profissão é símbolo da realidade do reino à qual eles estão sendo convidados. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco...
2ª leitura (1Cor. 7,29-31)
Em 1Cor. 7, Paulo responde a perguntas com relação ao casamento. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade (cf. comentário do domingo passado), revelam um tom de “reserva escatológica”; ou seja: tudo isso não é o mais importante para quem vive na expectativa da parúsia. Porque “o tempo é breve” (7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, em certo sentido, indiferentes. Paulo se estende a respeito do matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e a respeito do celibato (expressando seus próprios conselhos). O estado de vida é realidade provisória, que perde sua importância diante do definitivo que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Na continuação do texto, Paulo mostra o valor de seu celibato como plena disponibilidade para as coisas de Cristo – uma espécie de antecipação da parúsia (7,32).
Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade nova, e esta é que importa. Assim, Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas essa dialética deve ser formulada novamente em cada geração e em cada pessoa. Nossa maneira de articulá-la não precisa ser, necessariamente, a mesma de Paulo, que pensa na vinda próxima do Cristo glorioso. Podemos repartir com ele um sadio “relativismo escatológico” (Quid hoc ad aeternitatem?), porém, a maneira de relativizar o provisório pode ser diferente da sua. Relativizar significa “tornar relativo”, “pôr em relação”. O cuidado de viver bem o casamento ou qualquer outra realidade humana – o trabalho, o bem-estar etc. – deve ser posto em relação com o reino de Deus e sua justiça.
Dicas para reflexão
O evangelho contém os temas do anúncio do reino, da conversão e do seguimento. Como o tema da conversão será aprofundado na Quaresma, podemos orientar a reflexão para o tema do seguimento dos discípulos, pensando também no lema da Conferência de Aparecida: “discípulos-missionários”.
Muitos jovens entre os que demonstram sensibilidade aos problemas dos seus semelhantes encontram-se diante de um dilema: continuar dentro do projeto de sua família ou dispor-se a um serviço mais amplo, lá onde a solidariedade o exige. Foi um dilema semelhante que Jesus fez surgir para seus primeiros discípulos (evangelho). Ele andava anunciando o reinado do Pai celeste, enquanto eles estavam trabalhando na empresa de pesca do pai terrestre. Jesus os convidou a deixar o barco e o pai e a tornar-se pescadores de gente. O reino de Deus precisa de colaboradores que abandonem tudo, para que cativem a massa humana que necessita do carinho de Deus.
Esse carinho de Deus é aceito na conversão e na fé: conversão para sair de uma atitude não sincronizada com seu amor e fé como confiança no cumprimento de sua promessa. Deus quer proporcionar ao mundo seu carinho, sua graça. Não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva. Jesus convida à conversão porque o reino de Deus chegou (Mc. 1,14-15). Para ajudar, chama pescadores de gente. Tiramos daí três considerações:
• Deus espera a conversão de todos, para que possam participar de seu reino de amor, justiça e paz.
• Para proclamar a chegada do seu reinado e suscitar a conversão, o coração novo, capaz de acolhê-lo, Deus precisa de colaboradores que façam de sua missão a sua vida, até mesmo à custa de outras ocupações (honestas em si).
• Mas, além dos que largam seus afazeres no mundo, também os outros – todos – são chamados a participar ativamente na construção desse reino, exercendo o amor e a justiça em toda e qualquer atividade humana.
É este o programa da Igreja, chamada a continuar a missão de Jesus: o anúncio da vontade de Deus e de sua oferta de graça ao mundo; a vocação, formação e envio de pes-soas que se dediquem ao anúncio; e a orientação de todos para a participação no reino de Deus, vivendo na justiça e no amor.



O tempo se completou
Marcos descreve assim o começo da atividade pública de Jesus: “Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho”.
Terminara o tempo das preparações.  O povo, durante séculos, foi sendo acompanhado pelos profetas, por líderes do povo, por homens carismáticos.   Páginas admiráveis do Testamento Antigo nos falam de pessoas que foram profundamente tocadas  em seu interior pelos profetas. “Os ninivitas acreditaram em Deus; aceitaram  fazer jejum e vestiram sacos, desde o superior ao inferior. Vendo Deus suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se  e suspendeu o mal que tinha ameaço fazer-lhes, e não o fez”. Os que mudam e conduta tocam as fibras da bondade de Deus.
O coração de Deus, as atenções do Altíssimo se voltaram sempre para suas criaturas querendo-as voltadas para seu amor.  Conversão significa realizar uma reorientação da vida. Procurar um outro horizonte, diferente dos interesses pequenos e mesquinhos  que suplica o ego.  Dinheiro, poder, prestígio, força passam a não ser as coisas mais importantes da vida. Significa ver a vida com os olhos de Deus, transformar o interior para que o exterior seja sacramento de bondade.
Segundo Marcos a atividade pública de Jesus começa  depois da prisão do Batista.  Ele havia preparado os caminhos do Senhor.  Como hoje ainda o Senhor irrompe na vida de muitos  depois que familiares, pessoas boas, missionários andaram trabalhando seu coração.  A conversão é obra de Deus em corações abertos à sua ação, em  pessoas que foram levadas ao olhar de Deus por preparadores dos caminhos do  Senhor, por servos inúteis  que fizeram o que tinham que fazer e desapareceram como o Batista.
Trata-se de mudar de vida, de inverter as  coisas.  Francisco de Assis falava do doce que se tornou amargo e do amargo que veio a ser transformar em doce. Mas não basta.  Não seremos apenas “atletas”  espirituais, gente orgulhosa de seus feitos ascéticos.  Será preciso ainda crer no evangelho, na boa nova que se chama Jesus, nas palavras do sermão da montanha, na força que se esconde na semente  pequena,  na colherinha de fermento e numa pitada e sal. Será preciso aqui e ali e sempre ir dando a vida pelos irmãos, acolher as diferenças, perdoar os que nos cospem no rosto,  viver na força, no dinamismo do Evangelho, dinamismo de morte e vida, de cruz e ressurreição.  Crer no Evangelho é deixar que essa força tome conta de nossa vida, das comunidades de vida consagrada, das paróquias.  Uma comunidade que abandona o empenho da conversão está fadada a desaparecer.  Ela se torna uma mera  agência de coisas sagradas e não   parábola do reino.
E Jesus chama colaboradores para sua missão. Os pescadores daqueles cantos serão pescadores de gente. O tempo se completou e agora Jesus conta com Simão e André, Tiago e João e todos os seus discípulos de todos os tempos.
frei Almir Ribeiro Guimarães



O Reino de Deus está aí: convertei-vos
Conversão é uma mensagem freqüente na Bíblia. Mas ela não tem sempre o mesmo conteúdo. Na 1ª leitura e no evangelho de hoje encontramos a mensagem da conversão em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Em Jn. 3 (1ª leitura), trata-se de uma pregação ameaçadora, dirigida à maior cidade que o autor conhecia, Nínive, capital da Assíria; diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando à “capital do mundo” sua misericórdia universal, poupa a cidade.
No N.T., trata-se da pregação inaugural de Jesus, não no centro do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, Jerusalém, mas num canto perdido, meio pagão, da Palestina: os arredores do lago de Genesaré, na Galiléia. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “Está cumprido o tempo”: chega de castigo (cf. Is. 40,2), cumpriu-se o tempo das profecias, das promessas: o “Reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida não aos cidadãos da capital do império, mas aos pobres da Galiléia. Realizando as profecias de Is. (40,1-2.9; 42,1;61,1-2), o Filho que recebe toda a afeição do Pai, ungido com seu Espírito profético e messiânico (cf. Mc. 1,11, batismo de Jesus), leva a Boa-Nova aos pobres, assumindo sua opressão e demonstrando assim a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos.
Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão na base da fé na boa-nova (evangelho).
A gente deve voltar a Deus, não por causa do medo de perder o bem-estar, mas levado por uma profunda confiança nos bens que ainda não conhece e que se tornam próximos em seu Enviado, resumidos no termo “Reino de Deus”. Este é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o Pai-nosso: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade”. A pregação da proximidade do Reino, por Jesus, significa: lá onde reina o amor, que é a vontade de Deus para com seus filhos e filhas, acontece o Reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com esta vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente em sua própria pessoa esse Reino. Ele é o Reino de Deus que se torna presente. Todo o evangelho de Mc desenvolve esta verdade fundamental, que, nesta primeira mensagem do Cristo, está envolta no mistério de sua personalidade e palavra, mas, aos poucos, revelará seu significado para quem acreditar na Boa-Nova, sobretudo quando esta se tomar Cruz e Ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos, sem que o povo se envolva com estes, em Mc 1 vemos que a proclamação da Boa-Nova exige fé e participação ativa no Reino, cuja presença é anunciada. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do Reino que ele traz presente. Essa adesão ativa, no evangelho de Mc, é exemplificada por diversas perícopes dedicadas ao seguimento. Aderir ao Cristo é seguí-lo. Por isso, imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Mc narra a vocação dos primeiros discípulos. Vocação esta que é uma transformação, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco…
A 2ª leitura é tomada da secção das “questões particulares” da 1 Coríntios. Ao fim de toda uma exposição sobre o matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e o celibato (oferecendo seus próprios conselhos), Paulo esboça uma visão global referente aos estados de vida. O estado de vida é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim, Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa (4).
(4) Nossa maneira de articular não precisa ser, necessariamente, a da “santa indiferença”que Paulo demonstra, tendo em vista a vinda próxima do Cristo glorioso. Certo, repartiremos com ele um sadio “relativismo escatológico” (Quid hoc ad aeternitatem?”), porém, a maneira de relativizar o provisório pode ser diferente da sua. Relativizar significa “tornar relativo”, “pôr em relação”. Também o cuidado de viver bem o casamento, como qualquer outra realidade humana, como sejam o trabalho, o bem-estar etc., é uma maneira de relativizar, se este “vivem bem”significa: conforme a vontade de Deus, procurando em primeiro lugar seu Reino e sua justiça.
Johan Konings "Liturgia dominical"

Pregação de Jesus
* 14-15: são as primeiras palavras de Jesus: elas apresentam a chave para interpretar toda a sua atividade. Cumprimento: em Jesus, Deus se entrega totalmente. Não é mais tempo de esperar. É hora de agir. O Reino é o amor de Deus que provoca a transformação radical da situação injusta que domina os homens. Está próximo: o Reino é dinâmico e está sempre crescendo. Conversão: a ação de Jesus exige mudança radical da orientação de vida. Acreditar na Boa Notícia: é aceitar o que Jesus realiza e empenhar-se com ele.
* 16-20: o chamado dos primeiros discípulos é um convite aberto a todos os que ouvem as palavras de Jesus. Simão e André deixam a profissão; Tiago e João deixam a família… Seguir a Jesus implica deixar as seguranças que possam impedir o compromisso com uma ação transformadora.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral



Inícios em Cafarnaum
João Batista, o mensageiro de Jesus, foi preso, pois mexeu com os interesses e privilégios dos poderosos. O que irá acontecer com Jesus? Aos poucos o Evangelho mostrará que Jesus não se deixa amedrontar por ninguém, vencendo tudo aquilo que gera a morte para o povo.
Depois disso, Jesus vai para a Galiléia, lugar onde se encontram as pessoas pobres que vivem à margem da sociedade, gente considerada sem valor e impura, pelos poderosos. É no meio dessa gente e a partir dela que Jesus inicia seus ensinamentos, anunciando o Reino de Deus e pedindo que se convertam e creiam no Evangelho.
Jesus escolhe pessoas simples e as chama a partir da realidade do dia a dia. Simão e André são trabalhadores que ganhavam a vida pescando. E Jesus convida-os para serem pescadores de homens. Mas o que significa pescar homens? Afinal, homens não vivem no mar!
O mar é um mistério para todos e, embora os pescadores vivessem nele, tinham medo do desconhecido. A expressão pescar homens significa tirar o homem do medo, do escuro, da insegurança, e os discípulos escolhidos se animaram com a idéia. Ser pescador de homens, portanto, é anunciar o Reino de Deus que Jesus veio ensinar.
O povo, naquela época, vivia um período de reinado opressor e sofrido, que lhes tirava as esperanças de uma vida melhor, portanto, a proposta era levá-los para um encontro pessoal com o projeto de Deus.
Jesus também chama Tiago e João, que a partir daquele momento ouvem o chamado e se tornam discípulos dando uma resposta imediata. Deixam seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partem seguindo a Jesus.
Converter-se é sinônimo de aceitar a prática de vida que Jesus mostra. O Reino de Deus precisa de discípulos que se convertam e se comprometam em anunciar a vontade e o Amor de Deus ao mundo. E, o inicio da Boa Nova trazida por Jesus, se tornará realidade mediante o compromisso das pessoas e das comunidades que dizem sim ao Mestre.
Jesus escolhe as pessoas e as chama a partir da realidade do dia a dia. Não importa se o que fazem é honesto ou desonesto, certo ou errado. O apelo é igual para todos, e a resposta precisa ser imediata: “seguir a Jesus.”

Pequeninos do Senhor



O reino de Deus está aí: convertei-vos
1ª leitura (Jn. 3,1-5.10) A pregação de conversão de Jonas
No livro de Jonas é mostrado que Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do império dos gentios. Deus oferece como graça o chamado à conversão; quem o aceita é salvo. * 3,1-5 cf. Mt. 12,41; Lc. 11,32 * 3,10 cf. Gn. 6,6; Jr. 26,3; 18,7-8.
2ª leitura (1Cor. 7,29-31) O “esquema” deste mundo passa
Em 1Cor. 7 Paulo responde a perguntas com relação ao casamento. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade, revelam um tom de “reserva escatológica”; ou seja: tudo isso não é o mais importante, para quem vive na expectativa da parusia. Porque “o tempo é breve” (7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, num certo sentido, indiferentes: são um “esquema” (literalmente, conforme o grego) que passa. Paulo continua, depois, mostrando o valor de seu celibato como plena disponibilidade para as coisas de Cristo – uma espécie de antecipação da Parusia (7,32).
* 7,29 cf. Rm. 13,11; 2Cor. 6,2.8-10 * 7,31 cf. 1Jo 2,16-17.
 Evangelho (Mc. 1,14-20) O Reino de Deus está aí: convertei-vos
Marcos é o evangelho da “irrupção do Reino de Deus”. Jesus aparece como profeta apocalíptico, anunciando a boa-nova da chegada do Reino e pedindo conversão e fé. Mas ele não apenas anuncia. Ele tem também a “autoridade” (Mc 1,22.27) do Reino, o que se mostra na expulsão de demônios e outros sinais. Ele é o “Filho de Deus” (1,1; 9,7; 15,39; cf. 1,11). Contudo, nem mesmo os discípulos o reconheceram como tal. Somente depois da Ressurreição, entenderiam isso e fariam de Jesus mesmo o conteúdo da “boa-nova” que iam pregar. Para nós, agora, graças ao testemunho deles, fica claro que a atuação de Jesus foi a inauguração do Reino que ele anunciava. Nele, em sua pregação, confirmada por sinais, o Reino tornou-se presente. Por isso, exige conversão e fé (1,15), bem como seguimento incondicional dos que são chamados (1,16-20).
* 1,14-15 cf. Mt. 4,12-17; Lc. 4,14-15; Mc. 6,17-18; Dn. 7,22; Gl. 4,4 * 1,16-20 cf. Mt. 4,18-22; Lc. 5,1-11.

Conversão é uma mensagem frequente na Bíblia. Mas ela não tem sempre o mesmo conteúdo. Na 1ª leitura e no evangelho de hoje encontramos a mensagem da conversão em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Em Jn3 (1ª leitura), trata-se de uma pregação ameaçadora, dirigida à maior cidade que o autor conhecia, Nínive, capital da Assíria; diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando à “capital do mundo” sua misericórdia universal, poupa a cidade.
No N.T., trata-se da pregação inaugural de Jesus, não no centro do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, Jerusalém, mas num canto perdido, meio pagão, da Palestina: os arredores do lago de Genesaré, na Galileia. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “Está cumprido o tempo”: chega de castigo (cf. Is 40,2), cumpriu-se o tempo das profecias, das promessas: o “Reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida não aos cidadãos da capital do império, mas aos pobres da Galileia. Realizando as profecias de Is (40,1-2.9; 42,1; 61,1-2), o Filho que recebe toda a afeição do Pai, ungido com seu Espírito profético e messiânico (cf. Mc 1,11), leva a Boa-Nova aos pobres, assumindo sua opressão e demonstrando assim a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos.
 Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão na base da fé na boa-nova (evangelho).

A gente deve voltar a Deus, não por causa do medo de perder o bem-estar, mas levado por uma profunda confiança nos bens que ainda não conhece e que se tornam próximos em seu Enviado, resumidos no termo “Reino de Deus”. Este é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o Pai-Nosso: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade”. A pregação da proximidade do Reino, por Jesus, significa: lá onde reina o amor, que é a vontade de Deus para com seus filhos e filhas, acontece o Reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com esta vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente em sua própria pessoa esse Reino. Ele é o Reino de Deus que se torna presente. Todo o evangelho de Mc desenvolve esta verdade fundamental, que, nesta primeira mensagem do Cristo, está envolta no mistério de sua personalidade e palavra, mas, aos poucos, revelará seu significado para quem acreditar na Boa-Nova, sobretudo quando esta se tornar Cruz e Ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos, sem que o povo se envolva com estes, em Mc 1 vemos que a proclamação da Boa-Nova exige fé e participação ativa no Reino cuja presença é anunciada. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do Reino que ele traz presente. Essa adesão ativa, no evangelho de Mc, é exemplificada por diversas perícopes dedicadas ao seguimento. Aderir ao Cristo é segui-lo. Por isso, imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Mc narra a vocação dos primeiros discípulos. Vocação esta que é uma transformação, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco...
 A 2ª leitura é tomada da secção das “questões particulares” da 1Cor. Ao fim de toda uma exposição sobre o matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e o celibato (oferecendo seus próprios conselhos), Paulo esboça uma visão global referente aos estados de vida. O estado de vida é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim, Paulo Evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa.

Pescadores de gente
Muitos jovens dentre aqueles que demonstram sensibilidade aos problemas dos seus semelhantes encontram-se diante de um dilema: continuar dentro do projeto de sua família ou dispor-se a um serviço mais amplo, lá onde a solidariedade o exige…
 Foi um dilema semelhante que Jesus causou para seus primeiros discípulos (evangelho). Jesus estava anunciando o reinado do Pai celeste, enquanto eles estavam trabalhando na empresa de pesca do pai terrestre. Jesus os convidou a deixarem o barco e o pai e a se tornarem pescadores de gente. O reino de Deus precisa de colaboradores que abandonem tudo, para catarem a massa humana que necessita o carinho de Deus.
 Deus quer proporcionar ao mundo seu carinho, sua graça. Não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Provocar tal conversão na maior cidade do mundo de então, em Nínive, tal foi a missão que Deus confiou ao “profeta a contragosto”, Jonas (1ª leitura). Também Jesus convida à conversão, porque o Reino de Deus chegou (Mc 1,14-15). Para ajudar, chama pescadores de gente. Tiramos daí três considerações:
– Deus espera a conversão de todos, para que possam participar de seu reino de amor, de justiça e de paz.
– Para proclamar e a chegada do seu reinado e suscitar a conversão, o coração novo, capaz de acolhê-lo, Deus precisa de colaboradores, que façam de sua missão a sua vida, inclusive às custas de outras ocupações (honestas em si).
– Mas além dos que largam seus afazeres no mundo, também os outros – todos – são chamados a participar ativamente na construção desse Reino, exercendo o amor e a justiça em toda e qualquer a atividade humana.
É este o programa da Igreja, chamada a continuar a missão de Jesus: o anúncio da vontade de Deus e de sua oferta de graça ao mundo; a vocação, formação e envio de pessoas que se dediquem ao anúncio; e a orientação de todos a participarem do Reino de Deus, vivendo na justiça e no amor.
Jesus usou a experiência dos pescadores como base para elevá-los a outro nível de “pescaria”. A Igreja pode seguir o mesmo modelo: partir da experiência humana, profissional, social, cultural, para orientar as pessoas à grande pescaria. Sem essa base humana, os anunciadores parecem cair de paraquedas no mundo ao qual eles são enviados, parecem extraterráqueos. Mas se aproveitam a experiência de vida que têm, “conhecendo o mar do mundo”, poderão recolher gente para Deus.
Para Paulo, ser apóstolo é fazer da própria vida um anúncio do Evangelho: “Ai de mim se eu não evangelizar” (1Cor 9,16). Ele não faz apostolado, oito horas por dia, fim de semana livre, férias e décimo terceiro… Ele é apóstolo, “apóstolo 24 horas”. Faz até coisas que não precisaria fazer: ganhar seu pão com o próprio trabalho manual, dispensar a companhia de uma mulher etc. Faz tudo de graça, para não provocar a suspeita de proveito próprio. Porque sua maior recompensa é a felicidade de anunciar o Evangelho gratuitamente. O Evangelho é sua vida.
Johan Konings



Nestes inícios do tempo comum, a liturgia apresenta-nos também os inícios do Evangelho segundo Marcos. Hoje Jesus aparece inaugurando seu ministério público. Suas palavras são consoladoras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!” Eis! A esperança de Israel até que enfim iria realizar-se: o Messias, o Salvador esperado estava chegando para instaurar o Reino! Com Jesus, com sua Pessoa, seus gestos e sua pregação, o Reinado de Deus, a proximidade do Santo de Israel, seria realmente tocada pelo povo de Deus. É isso o Reino de Deus: em Jesus, Deus fez-se próximo, Deus veio acolher, consolar, indicar o caminho, salvar! Em Jesus, o Filho amado, Deus veio revelar sua paternidade, debruçando-se sobre o aflito, o pobre, o pecador. Chegou o Reino: Deus veio consolar o seu povo!
Mas, há algo surpreendente nesse alegre anúncio de Jesus: logo após afirmar que o Reino chegou, o Senhor intima o povo: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Por que Jesus dá esta ordem? Os israelitas não estavam esperando o Reino? Por que precisam se converter?
O Reino que Jesus veio trazer não é de encomenda, não é sob medida, como gostaríamos. O Senhor não vem nos trazer um Deus à nossa medida, à medida do mundo, um deus moderninho para consumo das nossas necessidades, interesses e expectativas. No mundo do fácil, do prático e do descartável, gostaríamos de um deusinho assim... Jesus nos grita: “Convertei-vos! Crede no Evangelho!” O Reino somente será Boa-Notícia para quem abrir-se à surpresa inquietante do Deus que Jesus anuncia. Acolher a novidade, a Boa-notícia, o Evangelho, acolher esse Deus que chega, exige que saiamos de nós mesmos, como os ninivitas que, escutando o apelo de Jonas, converteram-se! Mais tarde, Jesus irá criticar duramente o seu povo: “Os habitantes de Nínive se levantarão no Julgamento, juntamente com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas aqui está algo mais do que Jonas!” (Mt. 12,41). Como é atual a Palavra deste domingo! Cheios de nós, adormecidos e satisfeitos com nossos pensamentos, com nossa lógica cômoda e pagã, jamais poderemos acolher o Reino em nós e experimentar sua alegria e sua paz! Não esqueçamos, caros em Cristo: a primeira palavra do Senhor no Evangelho é “convertei-vos!” Não é possível domar Jesus, não é possível um cristianismo sob medida! Não é por acaso que o Evangelho de hoje começa falando da prisão de João Batista, aquele santo profeta que preparou a vinda do Reino. O Reino sofre violência; violência do mundo, violência do nosso coração envelhecido pelo pecado, da nossa razão tanta vez fechada para a luz do Cristo. Por isso mesmo, logo após apresentar o apelo de Jesus, são Marcos nos fala da vocação dos quatro primeiros discípulos. Certamente, esse chamado deve ser compreendido de modo muito particular como referindo-se à vocação sacerdotal, que faz dos chamados “pescadores de homens”. Mas, esse chamamento indica também a vocação de todo cristão: seguir Jesus no caminho da vida. Nesse sentido, a lição é clara: seguir Jesus exige deixar tudo, deixar-se e colocar a vida em relação com o Senhor! Somente assim poderemos acolher o Reino!
Nunca esqueçamos: diante da urgência de estar com Jesus, de viver unido a ele, de acolher sua pessoa, tudo o mais é relativo! Daí a advertência de São Paulo na segunda leitura de hoje: “O tempo está abreviado. Então que, doravante os que têm mulher vivam como se não tivessem, os que choram, como se não chorassem e os que estão alegres, como se não estivessem; os que fazem compras como se não possuíssem; e os que usam do mundo, como se dele não estivessem gozando. Pois passa a figura deste mundo”. Aqui, não se trata de desvalorizar o mundo e o que de belo e de bom há nele. Trata-se, sim, de colocar as coisas na sua real perspectiva, na perspectiva do Infinito de Deus e da urgência do Reino. O mundo atual, com sua cultura pagã, deseja que esqueçamos os verdadeiros valores, que absolutizemos aquelas coisas que são relativas, que deixemos de lado aquilo que realmente importa. E o que importa? Escutai, caríssimos: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo mais vos será acrescentado!” (Mt. 6,33). Somos chamados a abrir nossa existência, abrir nosso coração, nossa vida, nossos valores para o Cristo que nos traz o Reino do Pai do Céu! Mas somente poderemos acolhê-lo de fato se nos colocarmos diante dele com um coração de pobre, com a consciência de que precisamos realmente do Senhor, que, sozinhos, não nos realizaremos, não seremos felizes, não alcançaremos a verdadeira vida!
É triste perceber hoje quantos cristãos se sentem tão à vontade nessa sociedade consumista, secularizada, pagã e satisfeita consigo própria. Esses, infelizmente, jamais experimentarão a doçura do Reino, que somente poderá ser compreendido por quem chorou, quem teve fome e sede de justiça (isto é de amizade com Deus), quem foi puro, que foi perseguido... É por isso que tantas vezes ouviremos, nos domingos deste ano, o Senhor afirmar que somente poderá compreender e acolher o Reino quem tiver um coração de pobre.
Convertamo-nos! Levemos a sério que o modo de pensar e sentir de Deus não são o nosso! Tenhamos a coragem de nos deixar por Cristo. São Jerônimo, comentando a atitude dos quatro primeiros discípulos chamados pelo Senhor, afirma: “A verdadeira fé não conhece hesitação: imediatamente ouve, imediatamente crê, imediatamente segue...” Seja assim a nossa fé no Senhor, seja assim nossa adesão ao nosso Salvador! Então, seremos felizes de verdade, porque perceberemos que o que Cristo nos trouxe é uma Boa Notícia, a melhor de todas: Deus nos ama, caminha conosco e, no seu bendito Filho, nos convida à amizade íntima com ele, nesta vida e por toda eternidade!
dom Henrique Soares da Costa




3º DOMINGO TEMPO COMUM

ANO B
21 de janeiro

Evangelho - Mc 1,14-20

·         Hoje Jesus está dizendo a você: Vem comigo e eu lhe ensinarei a pescar gente!
·     Continuar lendo

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“SEGUI-ME E EU FAREI DE VÓS PESCADORES DE HOMENS.” Olivia Coutinho

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 21 de Janeiro de 2018

Evangelho de Mc1,14-20

Deus não somente nos deu a vida, como quis também, fazer parte da nossa vida, caminhar conosco, se tornar um de nós!
Não fomos criados para sermos meros viventes, fomos criados para relacionar com Deus, e esta relação amorosa se faz por meio de Jesus! Jesus é o único mediador entre o céu e a terra, estar com Ele, é estar com Deus!
No nosso encontro pessoal com Jesus, descortinam-se  novos horizontes,  ampliando a nossa visão, nos fazendo enxergar além do que os olhos  humanos alcançam!
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, narra os primeiros passos de Jesus na vida pública, quando Ele começa a desenvolver o projeto de Deus, que tem como prioridade a vida humana. O que  aconteceu num momento conflituoso, logo após a prisão de João Batista, o que não intimidou Jesus, pelo o contrário, o encorajou ainda mais.
A prisão de João Batista, ao mesmo tempo em que marcou um tempo de grandes turbulências, marcou também, o início de um tempo novo, quando as promessas de Deus começam a se cumprirem com a chegada do Messias! “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e credes no evangelho!”
 Quando Jesus disse: “O reino de Deus está próximo”  Ele fala de si mesmo, pois a sua pessoa, é a própria presença do Reino próxima daquele povo e hoje de nós!
Graças ao testemunho de João Batista, Jesus não entrou na história como um desconhecido, antes Dele se manifestar como o Filho de Deus, o povo já sabia que Ele era o enviado de Deus: o Messias! 
“Eis aí o Cordeiro de Deus...” A partir desta apresentação de João Batista, inicia-se um tempo de graça, a palavra de Deus começa a ganhar vida nas ações vivificantes de Jesus! 
Se quisesse, Jesus poderia realizar as obras do Pai sozinho, mas Ele quis contar com um pequeno grupo de pessoas, que participando diretamente do seu dia a dia, presenciando os seus feitos, poderiam mais tarde, dar testemunho Dele no mundo!
Para formar esta pequena comunidade, que mais tarde seria chamada de Comunidade dos Apóstolos, (enviados), Jesus não foi atrás de pessoas letradas, seus primeiros escolhidos, saíram das margens do mar da Galileia. O seu olhar, pairou sobre os pescadores, homens simples, porém corajosos, trabalhadores, acostumados com os desafios de buscar o sustento de cada dia, nas profundezas do mar, de mares, muitas vezes revoltos!
Mediante ao chamado de Jesus, estes pescadores, não hesitaram em deixar tudo para segui-lo! De pescadores de peixes, eles  passaram  a serem  pescadores de gente, dispostos a lançar as suas redes nas profundezas do mar humano.
Foi graças ao testemunho desta primeira comunidade, fundada por Jesus, que a mensagem do evangelho, chegou até nós e continua chegando a muitos corações, de geração em geração!
Hoje, somos nós, os convocados a dar continuidade a missão de Jesus  aqui na terra, a sermos instrumentos de paz em meios aos conflitos!
É urgente a necessidade de homens e mulheres corajosos, pessoas dispostas a lançar suas redes em águas mais profundas!
É apontando Jesus ao outro, é abrindo caminho, construindo ponte entre irmãos, que daremos testemunho de Jesus, sendo sal e luz do mundo, como Ele mesmo afirma que o somos em: Mt5,13-14.
Mais importante do que ser Cristão, é ser discípulo de Jesus, pois o discípulo não só crê em Jesus, como também se torna íntimo Dele, seu aprendiz! A convivência com Jesus, transforma a vida do discípulo,  o inquieta, o faz ter pressa de levar ao outro, o que aprendeu do Mestre, é a partir daí, que ele passa a ser missionário (a) um anunciador da Boa Nova do Reino!
O reino de Deus está próximo de nós! Para fazermos parte deste Reino, isto é, fazermos parte da vida de Jesus, só nos é exigida uma condição: a conversão do coração! Sem uma mudança radical de vida, não tem como fazer parte do Reino de Deus, que é fundamentado no amor. Quem não ama, se exclui do Reino...
Deus quer salvar a humanidade convocando cada um de nós para uma missão, Ele quer contar com a nossa disposição, com o nosso serviço na construção de um mundo melhor! Ser indiferente ao seu chamado, é ignorar o seu projeto de vida nova para todos. 
Abracemos a nossa missão, sem temer os ventos contrários, pois a nossa sustentação está em Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A liturgia do 3º domingo do tempo comum propõe-nos a continuação da reflexão iniciada no passado domingo. Recorda, uma vez mais, que Deus ama cada homem e cada mulher e chama-o à vida plena e verdadeira. A resposta do homem ao chamamento de Deus passa por um caminho de conversão pessoal e de identificação com Jesus.
A primeira leitura diz-nos – através da história do envio do profeta Jonas a pregar a conversão aos habitantes de Nínive – que Deus ama todos os homens e a todos chama à salvação. A disponibilidade dos ninivitas em escutar os apelos de Deus e em percorrer um caminho imediato de conversão constitui um modelo de resposta adequada ao chamamento de Deus.
No Evangelho aparece o convite que Jesus faz a todos os homens para se tornarem seus discípulos e para integrarem a sua comunidade. Marcos avisa, contudo, que a entrada para a comunidade do Reino pressupõe um caminho de “conversão” e de adesão a Jesus e ao Evangelho.
A segunda leitura convida o cristão a ter consciência de que “o tempo é breve” – isto é, que as realidades e valores deste mundo são passageiros e não devem ser absolutizados. Deus convida cada cristão, em marcha pela história, a viver de olhos postos no mundo futuro – quer dizer, a dar prioridade aos valores eternos, a converter-se aos valores do “Reino”.
1ª leitura: Jonas 3,1-5.10 – AMBIENTE
O “livro de Jonas” foi, muito provavelmente, escrito na segunda metade do séc. V a.C. (talvez entre 440 e 410 a.C.).
É uma história bonita e edificante, mas não é real. Trata-se de um texto que poderíamos classificar no gênero “ficção didática”. Dito de outra forma: o livro de Jonas não é uma coleção de oráculos proféticos proferidos por um homem chamado Jonas, nem sequer um relato de caráter histórico; mas é uma obra de ficção, escrita com a finalidade de ensinar e educar.
Estamos numa época em que a política de Esdras e Neemias favorecia o nacionalismo, e o fechamento do Povo de Deus aos outros povos. Por um lado, sublinhava-se o fato de Judá ser o Povo Eleito de Deus, o povo preferido de Deus, um povo diferente de todos os outros; por outro, considerava-se que todos os outros povos eram inimigos de Deus, odiados por Deus, que deviam ser inapelavelmente condenados e destruídos por Deus.
Reagindo contra a ideologia dominante, o autor do “livro de Jonas” apresenta Jahwéh como um Deus universal, cuja bondade e misericórdia se estendem a todos os povos, sem exceção. A escolha de Nínive como a cidade destinatária da ação salvadora de Deus não é casual: Nínive, capital do império assírio a partir de Senaquerib, tinha ficado na consciência dos habitantes de Judá como símbolo do imperialismo e da mais cruel agressividade contra o Povo de Deus (cf. Is. 10,5-15; Sof. 2,13-15).
É, precisamente, esta cidade que Jahwéh quer salvar. Por isso, chama Jonas e convida-o a ir a Nínive pregar a conversão. No entanto Jonas, como os outros seus contemporâneos, não está interessado em que Jahwéh perdoe aos opressores do Povo de Deus e recusa-se a cumprir o mandato divino. Em lugar de se dirigir para Nínive, no Oriente, toma o barco para Társis, no Ocidente. Na sequência de uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe. Mais tarde, o peixe vai depositá-lo em terra firme. Jonas é, de novo, chamado por Deus para a missão em Nínive.
MENSAGEM
O nosso texto começa com Jonas a receber o segundo mandato de Jahwéh para ir a Nínive. Jonas aceita, desta vez, a missão, vai a Nínive e anuncia aos ninivitas a destruição da sua cidade. Contra todas as expectativas, os ninivitas escutam-no, fazem penitência e manifestam a sua vontade de conversão. Finalmente, Deus desiste do castigo.
A primeira lição da “parábola” é a da universalidade do amor de Deus. Deus ama todos os homens, sem exceção, e sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia. Mais: Deus ama mesmo os maus, os injustos e opressores e até a esses oferece a possibilidade de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva.
A segunda lição da nossa “parábola” brota da resposta dada pelos ninivitas ao desafio de Deus. Ao descrever a forma imediata e radical como os ninivitas “acreditaram em Deus” e se converteram “do seu mau caminho” (ao contrário do que, tantas vezes, acontecia com o próprio Povo de Deus), o autor sugere, com alguma ironia, que esses pagãos, considerados como maus, prepotentes, injustos e opressores são capazes de estar mais atentos aos desafios de Deus do que o próprio Povo eleito.
Desta forma, o autor desta história denuncia uma certa visão nacionalista, particularista, exclusivista, xenófoba, que estava em moda na sua época entre os seus contemporâneos. Desafia o seu Povo a aceitar que Jahwéh seja um Deus misericordioso, que oferece o seu amor e a sua salvação a todos os homens, até aos maus. Desafia, ainda, os habitantes de Judá a assumirem a mesma lógica de Deus – lógica de bondade, de misericórdia, de perdão, de amor sem limites – e a não verem nos outros homens inimigos que merecem ser destruídos, mas irmãos que é preciso amar.
ATUALIZAÇÃO
• A catequese apresentada pelo “livro de Jonas” convida-nos, antes de mais, a apreciar a profundidade da misericórdia e da bondade de Deus. Deus ama todos os homens e mulheres, sem exceção e de forma incondicional. Deus ama até os maus e os opressores. Esta lógica exclui, naturalmente, a eliminação do pecador: Deus não quer a morte de nenhum dos seus filhos; o que quer é que eles se convertam e percorram, com Ele, o caminho que conduz à vida plena, à felicidade sem fim. É este Deus, tornado frágil pelo amor, que somos chamados a descobrir, a aceitar e a amar.
• No entanto todos nós temos, por vezes, alguma dificuldade em aceitar esta lógica de Deus. Em certas circunstâncias, preferíamos um Deus mais duro e exigente, que se impusesse decisivamente aos maus, que frustrasse os seus projetos de violência e de injustiça, que castigasse aqueles que não cumprem as regras, que não desse hipóteses àqueles que destroem o nosso bem-estar e a nossa segurança… A Palavra de Deus que hoje nos é servida apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que nos convida a amar todos os irmãos, mesmo os maus. Deus deve converter-se à nossa lógica, ou seremos nós que devemos converter-nos à lógica de Deus?
• A disponibilidade dos ninivitas para escutar o chamamento de Deus e para percorrer o caminho da conversão constitui um modelo de resposta adequada ao Deus que chama. É essa mesma prontidão de resposta que Deus pede a cada homem ou a cada mulher.
• O nosso texto sugere também que aqueles que consideramos “maus” estão, às vezes, mais disponíveis para acolher os desafios de Deus e para escutar o seu chamamento, do que os “bons”. Os “bons” estão, tantas vezes, aferrados aos seus esquemas de vida, aos seus preconceitos, às suas certezas, que não escutam as propostas de Deus… Para Deus, o que é decisivo não é o passado de cada homem ou mulher, mas a capacidade de cada um em deixar-se interpelar e questionar por ele.
• Há também neste texto uma severa denúncia do racismo, da exclusão, da marginalização, da xenofobia. A Palavra de Deus alerta-nos para a necessidade de ver em cada homem que caminha ao nosso lado um irmão, independentemente da sua raça, da cor da sua pele, da sua cultura, ou até da sua bondade ou maldade. Como vemos e como acolhemos os nossos irmãos imigrantes que a vida trouxe até nós e que colaboram conosco na construção do mundo: como inimigos, culpados por todos os males do universo, ou como irmãos por quem somos responsáveis e que Deus nos convida a acolher e a amar?
2ª leitura: 1 Coríntios 7,29-31 – AMBIENTE
As duas cartas aos Coríntios – e particularmente a primeira – refletem a realidade de uma comunidade jovem, viva e entusiasta, mas com os seus problemas e dificuldades próprios… As suas luzes e sombras resultam, em parte, de ser uma comunidade que provém do mundo grego – isto é, de um mundo animado e estruturado por dinamismos muito próprios, com uma grande vitalidade, mas ao mesmo tempo com valores e dinâmicas que tornam difícil a transplantação dos valores evangélicos para um mundo animado por princípios muito diferentes daqueles que estão na origem da mensagem cristã. Na comunidade cristã de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em se inserir num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Um dos sectores onde se nota particularmente o choque entre a fé cristã e a cultura helênica é nas questões de ética sexual. Neste âmbito, a cultura coríntia balouçava entre dois extremos: por um lado, um grande laxismo (como era normal numa cidade marítima, onde chegavam marinheiros de todo o mundo e onde reinava Afrodite, a deusa grega do amor); por outro lado, um desprezo absoluto pela sexualidade (típico de certas tendências filosóficas influenciadas pela filosofia platônica, que consideravam a matéria um mal e que faziam do não casar um ideal absoluto).
O desejo de Paulo é o de apresentar um caminho equilibrado, face a estes exageros: condenação sem apelo de todas as formas de desordem sexual, defesa do valor do casamento, elogio do celibato (cf. 1Cor. 7).
Provavelmente, os coríntios tinham consultado Paulo acerca do melhor caminho a seguir – o do matrimônio ou o do celibato. Paulo responde à questão no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios (de onde é retirado o texto da nossa segunda leitura). Paulo considera que não tem, a este propósito, “nenhum preceito do Senhor”; no entanto, o seu parecer é que quem não está comprometido com o casamento deve continuar assim e quem está comprometido não deve “romper o vínculo” (1Cor. 7,25-28).
MENSAGEM
Na perspectiva de Paulo, os cristãos não devem esquecer que “o tempo é breve”, quando tiverem que fazer as suas opções – nomeadamente, quando tiverem que fazer a sua escolha entre o casamento ou o celibato. Em concreto, o que é que isto significa?
O cristão vive mergulhado nas realidades terrenas, mas não vive para elas. Ele sabe que as realidades terrenas são passageiras e efêmeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Para o cristão, o que é fundamental e deve ser posto em primeiro lugar, são as realidades eternas… E o cristão, embora estimando e amando as realidades deste mundo, pode renunciar a elas em vista de um bem maior. O mais importante, para um cristão, deve ser sempre o amor a Cristo e a adesão ao Reino. Tudo o resto (mesmo que seja muito importante) deve subjugar-se a isto.
Na sua catequese aos coríntios, o apóstolo aplica estes princípios à questão do casamento/celibato. Para ele, o casamento é uma realidade importante (ele considera que tanto o casamento como  o celibato são dons de Deus – cf. 1Cor. 7,7); mas não deixa de ser uma realidade terrena e efêmera, que não deve, por isso, ser absolutizada. Paulo nunca diz que o casamento seja uma realidade má ou um caminho a evitar; mas é evidente, nas suas palavras, uma certa predileção pelo celibato… Na sua perspectiva, o celibato leva vantagem enquanto caminho que aponta para as realidades eternas: anuncia a vida nova de ressuscitados que nos espera, ao mesmo tempo que facilita um serviço mais eficaz a Deus e aos irmãos (cf. 1Cor. 7,32-38).
Na verdade, as palavras de Paulo fazem sentido em todos os tempos e lugares; mas elas tornam-se mais lógicas se tivermos em conta o ambiente escatológico que se respirava nas primeiras comunidades. Para os crentes a quem a Primeira Carta aos Coríntios se destinava, a segunda e definitiva vinda de Jesus estava iminente; era preciso, portanto, relativizar as realidades transitórias e efêmeras, entre as quais se contava o casamento.
ATUALIZAÇÃO
• A todo o instante somos colocados diante de realidades diversas e contrastantes e temos de fazer as nossas escolhas. A mentalidade dominante, a moda, o politicamente correto, os nossos preconceitos e interesses egoístas interferem frequentemente com as nossas opções e impõem-nos valores que nem sempre são geradores de liberdade, de paz, de vida verdadeira. Mais grave, ainda: muitas vezes, endeusamos determinados valores efêmeros e passageiros, que nos fazem perder de vista os valores autênticos, verdadeiros, definitivos. O nosso texto sugere um princípio a ter em conta, a propósito desta questão: os valores deste mundo, por mais importantes e interessantes que sejam, não devem ser absolutizados. Não se trata de desprezar as coisas boas que o mundo coloca à nossa disposição; mas trata-se de não colocar nelas, de forma incondicional, a nossa esperança, a nossa segurança, o objetivo da nossa vida.
• Na verdade, o cristão deve viver com a consciência de que “o tempo é breve”. Ele sabe que a sua vida não encontra sentido pleno e absoluto nesta terra e que a sua passagem por este mundo é uma peregrinação ao encontro dessa vida verdadeira e definitiva que só se encontra na comunhão plena com Deus. Para chegar a atingir esse objetivo último, o cristão deve converter-se a Cristo e segui-l’O no caminho do amor, da entrega, do serviço aos irmãos. Tudo aquilo que deixa um espaço maior para essa adesão a Cristo e ao seu caminho, deve ser valorizado e potenciado. É aí que deve ser colocada a nossa aposta.
Evangelho: Marcos 1,14-20 – AMBIENTE
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina em Mc. 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
O texto que nos é hoje proposto aparece, exatamente, no princípio desta caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Neste texto, Marcos apresenta aos seus leitores os primeiros passos da acção do Messias libertador.
O lugar geográfico em que o texto nos situa é a Galileia – uma região em permanente contacto com os pagãos e, por isso, considerada pelas autoridades religiosas de Jerusalém uma terra de onde “não podia vir nada de bom”. Terra insignificante e sem especial relevo na história religiosa do Povo de Deus, a “Galileia dos gentios” parecia condenada a continuar uma região esquecida, marginalizada, por onde nunca passariam os caminhos de Deus e a proposta libertadora do Messias.
MENSAGEM
O nosso texto divide-se em duas partes. Na primeira, Marcos apresenta uma espécie de resumo da pregação inicial de Jesus (cf. Mc. 1,14-15); na segunda, o nosso evangelista apresenta os primeiros passos da comunidade dos discípulos – a comunidade do Reino (cf. Mc. 1,16-20).
No breve resumo da pregação inicial de Jesus, Marcos coloca na boca de Jesus as seguintes palavras: “cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc. 1,15).
Na expressão “cumpriu-se o tempo”, a palavra grega utilizada por Marcos e que traduzimos por “tempo” (“kairós”) refere-se a um tempo bem distinto do tempo material (“chronos”), que é o tempo medido pelos relógios. Poderia traduzir-se como “de acordo com o projeto de salvação que Deus tem para o mundo, chegou a altura determinada por Deus para o cumprimento das suas promessas”.
Que “tempo” é esse que “se aproximou” dos homens e que está para começar? É o “tempo” do “Reino de Deus”. A expressão – tão frequente no Evangelho segundo Marcos – leva-nos a um dos grandes sonhos do Povo de Deus…
A catequese de Israel (como aliás acontecia com a reflexão teológica de outros povos do Crescente fértil) referia-se, com frequência, a Jahwéh como a um rei que, sentado no seu trono, governa o seu Povo. Mesmo quando Israel passou a ter reis terrenos, esses eram considerados apenas como homens escolhidos e ungidos por Jahwéh para governar o Povo, em lugar do verdadeiro rei que era Deus. O exemplo mais típico de um rei/servo de Jahwéh, que governa Israel em nome de Jahwéh, submetendo-se em tudo à vontade de Deus, foi David. A saudade deste rei ideal e do tempo ideal de paz e de felicidade em que Jahwéh reinava (através de David) sobre o seu povo, vai marcar toda a história futura de Israel. Nas épocas de crise e de frustração nacional, quando reis medíocres conduziam a nação por caminhos de morte e de desgraça, o Povo sonhava com o regresso aos tempos gloriosos de David. Os profetas, por sua vez, vão alimentar a esperança do Povo anunciando a chegada de um tempo, no futuro, em que Jahwéh vai voltar a reinar sobre Israel e vai restabelecer a situação ideal da época de David. Essa missão, na perspectiva profética, será confiada a um “ungido” que Deus vai enviar ao seu Povo. Esse “ungido” (em hebraico “messias”, em grego “cristo”) estabelecerá, então, um tempo de paz, de justiça, de abundância, de felicidade sem fim – isto é, o tempo do “reinado de Deus”.
O “Reino de Deus” é, portanto, uma noção que resume a esperança de Israel num mundo novo, de paz e de abundância, preparado por Deus para o seu Povo. Esta esperança está bem viva no coração de Israel na época em que Jesus aparece a dizer: “o tempo completou-se e o Reino de Deus aproximou-se”. Certas afirmações de Jesus, transmitidas pelos Evangelhos sinópticos, mostram que Ele tinha consciência de estar pessoalmente ligado ao Reino e de que a chegada do Reino dependia da sua ação.
Jesus começa, precisamente, a construção desse “Reino” pedindo aos seus conterrâneos a conversão (“metanoia”) e o acolhimento da Boa Nova (“evangelho”).
“Converter-se” significa transformar a mentalidade e os comportamentos, assumir uma nova atitude de base, reformular os valores que orientam a própria vida. É reequacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem e ocupe sempre o primeiro lugar. Na perspectiva de Jesus, não é possível que esse mundo novo de amor e de paz se torne uma realidade, sem que o homem renuncie ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência e passe a escutar de novo Deus e as suas propostas.
“Acreditar” não é apenas aceitar um conjunto de verdades intelectuais; mas é, sobretudo, aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração, fazer dela o guia da própria vida. “Acreditar” é escutar essa “Boa Notícia” de salvação e de libertação (“evangelho”) que Jesus propõe e fazer dela o centro à volta do qual se constrói toda a existência.
“Conversão” e “adesão ao projeto de Jesus” são duas faces de uma mesma moeda: a construção de um homem novo, com uma nova mentalidade, com novos valores, com uma postura vital inteiramente nova. Vai ser isso que Jesus vai propor em cada palavra que pronuncia: que nasça um homem novo, capaz de amar o próximo (Mt. 22,39), mesmo aquele que é adversário ou inimigo (Lc. 10,29-37); que nasça um homem novo, que não vive para o egoísmo, para a riqueza, para os bens materiais, mas sim para a partilha (Mc. 6,32-44); que nasça um homem novo, que não viva para ter poder e dominar, mas sim para o serviço e para a entrega da vida (Mc. 9,35). Então, sim, teremos um mundo novo – o “Reino de Deus”.
Depois de dizer qual a proposta inicial de Jesus, Marcos apresenta-nos os primeiros discípulos. Pedro e André, Tiago e João são – na versão de Marcos – os primeiros a responder positivamente ao desafio do Reino, apresentado por Jesus. Isso significa que eles estão dispostos a “converter-se” (isto é, a mudar os seus esquemas de vida, de forma a que Deus passe a estar sempre em primeiro lugar) e a “acreditar na Boa Nova” (isto é, a aderir a Jesus, a escutar a sua proposta de libertação, a acolhê-la no coração e a transformá-la em vida).
A apresentação feita por Marcos do chamamento dos primeiros discípulos não parece ser uma descrição fotográfica de acontecimentos concretos, mas antes a definição de um modelo de toda a vocação cristã. Nesta catequese sobre a vocação, Marcos sugere que:
1º O chamamento a entrar na comunidade do Reino é sempre uma iniciativa de Jesus dirigida a homens concretos, “normais” (com um nome, com uma história de vida, com uma profissão, possivelmente com uma família).
2º Esse chamamento é sempre categórico, exigente e radical (Jesus não “prepara” previamente esse chamamento, não explica nada, não dá garantias nenhumas e nem sequer se volta para ver se os chamados responderam ou não ao seu desafio).
3º Esse chamamento não é para frequentar as aulas de um mestre qualquer, a fim de aprender e depois repetir uma doutrina qualquer; mas é um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer com Ele uma experiência de vida, para aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive no amor a Deus e aos irmãos.
4º Esse chamamento exige uma resposta imediata, total e incondicional, que deve levar a subalternizar tudo o resto para seguir Jesus e para integrar a comunidade do Reino (Pedro, André, Tiago e João não exigem garantias, não pedem tempo para pensar, para medir os prós e os contras, para pôr em ordem os negócios, para se despedir do pai ou dos amigos, mas limitam-se a “deixar tudo” e a seguir Jesus).
O Evangelho deste domingo apresenta, portanto, o convite que Jesus faz a todos os homens no sentido de integrarem a comunidade do Reino; e apresenta também um modelo para a forma como os chamados devem escutar e acolher esse chamamento.
ATUALIZAÇÃO
• Quando contemplamos a realidade que nos rodeia, notamos a existência de sombras que desfeiam o mundo e criam, tantas vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na vida dos homens. Esse quadro não é, no entanto, uma realidade irremediável a que estamos para sempre condenados. Nos projetos de Deus, está um mundo diferente – um mundo de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava o “Reino de Deus”. É esse projeto que Jesus nos apresenta e ao qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, um mundo onde Deus esteja presente e que se edifique de acordo com os projetos e os critérios de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura?
• Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. Temos de modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros para que se torne possível o nascimento de uma realidade diferente. Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de comodismo e de voltar a escutar Deus e as suas propostas, para que aconteça, na nossa vida e à nossa volta, uma transformação radical – uma transformação no sentido do amor, da justiça e da paz. O que é que temos de “converter” – quer em termos pessoais, quer em termos institucionais – para que se manifeste, realmente, esse Reino de Deus tão esperado?
• De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige também o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Estou disposto acolher o chamamento de Jesus e a percorrer o caminho do “discípulo”?
• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem exceção. Todos os batizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo.
• O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está decisivamente implantada na nossa história. Não tem fronteiras materiais e definidas; mas está a acontecer e a concretizar-se através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que acontecem à nossa volta (muitas vezes, até fora das fronteiras institucionais da “Igreja”) e que são um sinal visível do amor de Deus nas nossas vidas. Não é uma realidade que construímos de uma vez, mas é uma realidade sempre em construção, sempre a fazer-se, até à sua realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo e o pecado desaparecerem para sempre. Em cada dia que passa, temos de renovar o compromisso com o “Reino” e empenharmo-nos na sua edificação.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho



Desprendimento para seguir o senhor
I. O Evangelho da missa de hoje narra a chamada que Cristo dirigiu a quatro dos seus discípulos: Pedro, André, Tiago e João 1. Os quatro eram pescadores e encontravam-se entregues ao trabalho, lançando as redes ou consertando-as, quando Jesus passou e os chamou.
Estes Apóstolos já conheciam o Senhor2 e tinham-se sentido profundamente atraídos pela sua pessoa e pela sua doutrina. A chamada que recebem agora é a definitiva: Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens.
Estes homens deixaram tudo imediatamente e seguiram o Mestre. Noutra passagem, o Evangelho relata com palavras parecidas a vocação de Mateus: relictis omnibus, deixando todas as coisas, levantando-se, o seguiu. E os demais Apóstolos, cada um nas circunstâncias peculiares em que Jesus os encontrou, devem ter feito o mesmo.
Para seguirmos o Senhor, é preciso que tenhamos a alma livre de todo o apegamento; em primeiro lugar, do amor próprio, da preocupação excessiva pela saúde, pelo futuro..., pelas riquezas e bens materiais. Porque, quando o coração se enche dos bens da terra, já não resta lugar para Deus.
A alguns, o Senhor pede uma renúncia absoluta, para dispor deles mais plenamente, tal como fez com os Apóstolos, com o jovem rico3, com tantos e tantos ao longo dos séculos, que encontraram nEle o seu tesouro e a sua riqueza. E a todo aquele que pretenda segui-lo, exige um desprendimento efetivo de si mesmo e daquilo que tem e usa.
Se esse desprendimento for real, manifestar-se-á em muitos momentos da vida diária, porque, como o mundo criado é bom, o coração tende a apegar-se de forma desordenada às criaturas e às coisas. Por isso o cristão necessita de uma vigilância contínua, de um exame freqüente, para que os bens criados não o impeçam de unir-se a Deus, antes sejam um meio de amá-lo e servi-lo. “Cuidem todos, portanto, de dirigir retamente os seus afetos – adverte o Concílio Vaticano II – para que, por causa das coisas deste mundo e do apego às riquezas, não encontrem um obstáculo que os afaste, contra o espírito de pobreza evangélica, da busca da caridade perfeita, segundo a admoestação do Apóstolo: Os que usam deste mundo não se detenham nele, porque os atrativos deste mundo passam (cf. 1Cor. 7,31)” (4).
Estas palavras de São Paulo aos cristãos de Corinto, apresentadas na segunda Leitura da Missa, são um convite para que ponhamos o nosso coração todo inteiro no eterno: em Deus.
II. O DESPRENDIMENTO CRISTÃO não é desprezo pelos bens materiais, desde que sejam adquiridos e utilizados de acordo com a vontade de Deus, mas é tornar realidade na própria vida aquele conselho do Senhor: Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo5.
Um coração tíbio e dividido, inclinado a compaginar o amor a Deus com o amor aos bens, às comodidades e ao aburguesamento, bem cedo desalojará Cristo do seu coração e se achará prisioneiro desses bens, que para ele se converterão em males. Não devemos esquecer que todos trazemos dentro de nós, como conseqüência do pecado original, a tendência para uma vida mais fácil, para o supérfluo, para as ânsias de domínio, para a preocupação com o futuro.
Esta tendência da natureza humana agrava-se com a corrida desenfreada pela posse e utilização dos meios materiais, como se fossem a coisa mais importante da vida, uma corrida que vemos estender-se cada vez mais na sociedade em que vivemos. Nota-se por toda a parte uma inclinação clara não já para o legítimo conforto, mas para o luxo, para não abrir mão de nada que dê prazer. É uma pressão violenta que se observa por toda a parte e que não devemos esquecer se queremos realmente manter-nos livres desses liames para seguir o Senhor e ser exemplos vivos de temperança, no meio de uma sociedade que devemos conduzir para Deus.
A abundância e a fruição dos bens materiais nunca darão felicidade ao mundo; o coração só encontrará a plenitude para a qual foi criado no seu Deus e Senhor. Quando não se atua com a fortaleza necessária para viver interiormente desprendido, “o coração fica triste e insatisfeito; penetra por caminhos de um eterno descontentamento e acaba escravizado já aqui na terra, convertendo-se em vítima desses mesmos bens que talvez tenha conseguido à custa de esforços e renúncias sem número” (6).
A pobreza e o desprendimento cristãos não têm nada a ver com a sujidade e o desleixo, com o desalinho ou a falta de educação. Jesus apresentou-se sempre bem vestido. A sua túnica, certamente confeccionada pela sua Mãe, foi objeto de sorteio no Calvário porque era inconsútil, tecida de alto a baixo (7); era uma veste orlada8. Observamos também como, na casa de Simão, o Senhor reparou que se tinham omitido com Ele as regras usuais da boa educação e fez ver ao anfitrião que não lhe tinha oferecido água para lavar os pés, nem o tinha cumprimentado com o ósculo da paz nem ungido a sua cabeça com óleo... (9).
A pobreza do cristão que deve santificar-se no meio do mundo está ligada ao trabalho de que vive e com o qual sustenta a sua família; no estudante, a um estudo sério e ao bom aproveitamento do tempo, com a clara consciência de que contraiu uma dívida para com a sociedade e para com os seus, e de que deve preparar-se com competência para ser útil; na mãe de família, ao cuidado do lar, da roupa, dos móveis para que durem, à poupança prudente, que levará a evitar caprichos pessoais, ao exame da qualidade do que compra, o que suporá em muitos casos ir de loja em loja para comparar preços...
E, quanto aos filhos, como agradecem depois de terem sido criados com essa austeridade que entra pelos olhos e que não necessita de muitas explicações quando vêem que é vivida pelos pais! E isto ainda que se trate de uma família de posição econômica desafogada. Os pais deixam aos filhos uma grande herança quando lhes fazem ver com o seu exemplo que o trabalho é o melhor capital e o mais sólido, quando lhes mostram o valor das coisas e os ensinam a gastar tendo em conta a situação de aperto em que muitos se encontram na terra.
III. O DESPRENDIMENTO EFETIVO dos bens exige sacrifício. Um desprendimento que não custe é pouco real. O estilo de vida cristã implica uma mudança radical de atitude em face dos bens terrenos, os quais não hão de ser procurados e utilizados como se fossem um fim, mas como meio para servir a Deus, à família, à sociedade.
O fim que um cristão tem em vista não é possuir cada vez mais, mas amar mais e mais a Cristo através do seu trabalho, da sua família e também através dos bens materiais. A generosa preocupação pelas necessidades alheias que os primeiros cristãos viviam (10), e que são Paulo ensinou também a viver aos fiéis das comunidades que ia fundando, será sempre um exemplo de vigência permanente; um cristão nunca poderá contemplar com indiferença as necessidades espirituais ou materiais dos outros e deve contribuir generosamente para solucionar essas necessidades. E há de ser consciente de que então não só se remedeiam as necessidades dos santos (dos outros irmãos na fé), mas também se contribui muito para a glória do Senhor (11).
A generosidade na esmola a pessoas necessitadas ou a obras boas sempre foi uma manifestação – embora não a única – de desprendimento real dos bens e de espírito de pobreza evangélica. Não somente esmola do supérfluo, mas aquela que se compõe principalmente de sacrifícios pessoais, de um passar necessidade em algum campo. Esta oferenda, feita com o sacrifício daquilo que talvez nos parecesse necessário, é muito grata a Deus. A esmola brota de um coração misericordioso, e “é mais útil para quem a dá do que para aquele que a recebe. Porque quem a dá tira um proveito espiritual, ao passo que quem a recebe tira somente um proveito material” (12).
Tal como aos Apóstolos, o Senhor convidou-nos a segui-lo – cada um nas suas condições peculiares –, e, para respondermos a essa chamada, devemos estar atentos e ver se também nós deixamos todas as coisas, ainda que tenhamos que servir-nos delas. Vejamos se somos generosos com o que temos e usamos, se estamos desapegados do tempo, da saúde, se os nossos amigos nos conhecem como pessoas que vivem sobriamente, se somos magnânimos na esmola, se evitamos gastos que no fundo são um capricho, vaidade, aburguesamento, se cuidamos daquilo que usamos: livros, instrumentos de trabalho, roupa.
Jesus passa também ao nosso lado. Não deixemos que, por causa de meia dúzia de bagatelas – são Paulo chama-as lixo13 –, estejamos adiando indefinidamente uma união mais profunda com Ele.
Francisco Fernández-Carvajal



Ainda no contexto do início de um novo Tempo Litúrgico, a Liturgia deste dia apresenta a evidência pedagógica de apelar a um novo modo de viver.
Canto:
Evangelho de Marcos 1,14-20: Sem conversão e mudança de vida torna-se difícil perceber a presença do Reino de Deus.
O Evangelho que acabamos de ouvir descreve o início da vida pública de Jesus. Chamamos de vida pública porque Jesus, com as atitudes descritas no Evangelho dá início à sua pregação. Durante 30 anos, Jesus morou em Nazaré, onde exercia a profissão de carpinteiro.
Nazaré é considerada, por isso, um tempo de preparação, no silêncio e na oração, para a missão que deveria realizar aqui na terra: pregar o Reino de Deus, anunciando a Boa Nova, convidando todos os homens e mulheres a se converterem ao projeto divino.
Passados os 30 anos de Nazaré, Jesus mudou de cidade e foi morar na cidade de Cafarnaum, perto do mar da Galiléia. Foi ali, numa cidade repleta de estrangeiros, em meio a pessoas que não seguiam a religião judaica, que ele começou sua pregação.
Este gesto de Jesus, esta escolha de Jesus, já é, em si mesma, uma mensagem, um jeito de dizer que veio para todos os povos e não somente para o povo judeu.
O outro gesto muito expressivo é Jesus que passa convidando alguns pescadores para segui-lo. Como ia caminhando, convida os pescadores a se tornarem caminheiros, como ele próprio é caminheiro e anunciador da Boa Nova, o Evangelho.
O anunciador da mensagem divina é sempre caminheiro, como também foi caminheiro o profeta Jonas, que ouvimos na 1ª leitura, enviado por Deus para caminhar no meio de estrangeiros para anunciar e convocar a conversão, caso contrário, a cidade seria destruída.
A vocação dos primeiros discípulos está ligada à preparação dos discípulos para atuarem na obra evangelizadora que estava sendo iniciada por ele. Jesus convida os discípulos para que o ajudassem a pregar a Boa Nova da Salvação.
Convidou gente simples, para que fizessem o caminho com ele, aprendessem dele o Evangelho, se tornassem seus discípulos e, depois, fossem eles mesmos os anunciadores da Boa Nova em todo mundo.
Uma mensagem clara que ninguém nasce evangelizador, mas se forma evangelizador através do discipulado, do caminho feito com Jesus, no seguimento de Jesus.
Aqui entendemos o início do canto do salmista: “mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada”.


Cúria Diocesana JALES


Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galiléia, pregando a Boa Notícia de Deus: «O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia».
Ao passar pela beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e seu irmão André; estavam jogando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: «Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens».
Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.
Caminhando mais um pouco, Jesus viu Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes. Jesus logo os chamou. E eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partiram, seguindo Jesus.
O Reino de Deus está aqui
Os cristãos do mundo inteiro se reúnem cada domingo deste ano para ler e partilhar uma passagem do Evangelho de Marcos. É assim como vamos conhecendo melhor as atitudes de Jesus, seus ensinamentos, sua grande sensibilidade pelos excluídos e excluídas que o leva a entregar sua vida em defesa daqueles e daquelas que são oprimidos pela realidade sociocultural e religiosa que os rodeia. 
O evangelho deste domingo nos apresenta Jesus como um itinerante. Depois de estar no deserto, Ele volta para Galileia e esta característica marcará a vida de Jesus e seus seguidores/as.
O motivo de estar sempre a caminho é sua paixão por comunicar a Boa Notícia de Deus: “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo”. 
Marcos define assim o conteúdo do ensinamento de Jesus como “Boa Nova” e é preciso estar com ele para viver e descobrir o “Reino de Deus que está próximo”.
Suas palavras causam impacto nos judeus que as escutavam. Não continuava Israel dominado pelos romanos? Não seguiam os camponeses oprimidos? Não continuava o mundo cheio de corrupção e injustiça?
Mas Jesus afirma com convicção que Deus já está aqui, atuando silenciosamente no meio do povo, e assim seu reinado vai se expandindo pelas regiões de Galileia.
Jesus partilha, comunica sua própria experiência de um Deus vivo, presente e atuante, por isso, apesar da dureza da realidade, ousa proclamar sua fé e convidar a crer nesta Boa Notícia.
Os contemporâneos de Jesus, assim como nós agora, poderiam perguntar-se: Como pode dizer que o Reino de Deus já está presente? Onde pode ser visto e experimentado? 
Em mais de uma oportunidade, os evangelhos nos mostram que estas perguntas foram feitas a Jesus. E Ele respondeu de forma ainda mais desconcertante para a mentalidade da época.
O Reino de Deus não vem de forma espetacular, nem tem que se escutar os céus buscando sinais especiais e não entra em cálculos nem prognósticos.
É necessário aprender a captar sua presença e ação de outra maneira, porque o Reino de Deus já está entre nós!
As pessoas simples e pobres são os primeiros em acolher a Boa Notícia de um Deus que os ama e não os esqueceu. Ao contrário, sua preocupação é libertar seus/suas filhos/as de tudo quanto os/as desumaniza e os/as faz sofrer.
Por isso os evangelhos narram de diferentes formas a infatigável vida itinerante de Jesus, que, movido pela compaixão, cura os doentes, consola os abatidos, liberta os oprimidos social ou religiosamente, manifestando, assim, a bondade de Deus.
Unido a esta proclamação da chegada do Reino de Deus, Jesus exorta seus ouvintes a converter-se e acreditar na Boa Notícia.
A nova presença de Deus pede uma mudança profunda. Para participar do Reino de Deus é preciso deixar-se transformar pela sua dinâmica de amor que leva a modificar a forma de pensar e agir.
A palavra conversão, metanoein, significa mudar a forma de pensar e agir, ou seja, não viver de acordo com os critérios do “império” reinante, mas assumir um estilo de vida que irradie o reinado de Deus.
O que implica viver relações de cuidado e respeito com todo o criado, exercitar a capacidade de diálogo e crescimento junto com o diferente, promover a justiça e a reconciliação e fazer os pequenos estarem sempre em primeiro lugar.
A chegada do Reino pede uma mudança pessoal e comunitária, o povo tem que tomar outro rumo para alcançar a Vida para todos/as.
E esta tarefa não pode ser exclusiva de uma pessoa. Por isso Jesus, desde o início, rodeia-se de amigos/as e colaboradores/as. Ele sabe que é necessário criar um movimento de homens e mulheres, do próprio povo, que ajudem os outros a tomar consciência da proximidade salvadora de Deus.
A segunda parte do evangelho de hoje nos narra o chamado de Jesus aos seus primeiros amigos: «Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens».
Chama a atenção que o convite é austero. A proposta consiste em segui-lo em sua vida itinerante pelos caminhos de Galileia e Judeia, partilharem sua experiência de Deus, aprenderem a reconhecer Sua ação e acolhê-la e guiados por Ele participarem na tarefa de anunciar a todos a vinda do Reino.
Os primeiros homens e mulheres que acolheram o chamado de Jesus, fazendo-se seus discípulos/as e seguidores/as formaram um grupo plural do qual se iniciará o movimento que deu origem ao cristianismo.
Neste grupo inicial, podemos incluir Paulo de Tarso, hoje celebramos a memória de seu martírio. Embora não tenha convivido com Jesus, sua vida e missão abriram as portas da fé cristã ao diálogo com culturas e religiões diferentes.
A fé cristã transmitida deste grupo inicial de homens e mulheres apaixonados/as como seu Mestre pela proposta do Reino de Deus, de geração em geração chegou a nós hoje, para ser acolhida, vivida e comunicada.
Por isso, para quem está lendo estas palavras, é dirigido o convite de acolher as mais importantes: "O Reino de Deus já chegou, convertam-se e acreditem na Boa Notícia".

Referências
PAGOLA, José Antonio. Jesús. Aproximación histórica.
EQUIPE DE REFLEXÃO BÍBLICA. Reconstruir relações num mundo ferido. Uma leitura de Marcos em pespectiva de relações novas. CRB/2008
INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS








O Reino de Deus está aí:  convertei-vos
Encerrado o tempo natalino, os evangelhos da liturgia dominical apresentam em lectio continua o início da pregação de Jesus segundo o evangelista do ano, no caso, Marcos. Assim, ouvimos hoje a proclamação da chegada do reino de Deus e da conversão que deve acompanhar essa boa notícia. Isso não deixa de suscitar algumas perguntas. Por que “conversão” ao receber uma boa notícia?
De fato, na 1ª leitura e no evangelho de hoje, a pregação da conversão ressoa em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Na 1ª leitura, de Jonas, trata-se de pregação ameaçadora, dirigida à “grande cidade” Nínive, capital da Assíria. Diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando sua misericórdia universal, poupa a cidade.
O Evangelho de Marcos, por outro lado, resume a pregação inicial de Jesus, não na capital do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, mas na periferia da Palestina. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “O tempo está cumprido”. Chega de castigo: o “reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida aos pobres da Galileia. O “Filho”, que no batismo recebeu toda a afeição do Pai e foi ungido com o Espírito profético e messiânico, leva a boa-nova aos pobres, partilhando a opressão e demonstrando a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos. 
Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão pela fé na boa-nova. Enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos e a história continua como antes, no Novo Testamento vemos que a proclamação da boa-nova exige fé e participação ativa no reino cuja presença é anunciada.
Como no domingo passado, a 2ª leitura tem um tema independente, tomado das “questões particulares” da primeira carta aos Coríntios, a visão de Paulo a respeito dos diversos estados de vida.
1ª leitura (Jn 3,1-5.10)
A 1ª leitura de hoje narra, no estilo profético-sapiencial, a conversão de Nínive segundo o livro de Jonas. Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do império dos gentios (a Assíria). E acontece o que um judeu piedoso não poderia imaginar: a cidade se converte em consequência da pregação do profeta fujão. Deus chama à conversão, e quem aceita o chamado é salvo.
O salmo responsorial (Sl. 25[24],4ab-5ab.6-7bc.8-9) sublinha a importância da conversão: Deus guia ao bom caminho os pecadores.
Evangelho (Mc. 1,14-20)
Devidamente introduzido pela aclamação, o evangelho narra o início da pregação de Jesus como anúncio da chegada do reino de Deus e exortação à correspondente conversão. O Evangelho de Marcos é o evangelho da “irrupção do reino de Deus”. Como Jonas, na 1ª leitura, Jesus aparece como profeta apocalíptico, mas, em vez de uma catástrofe, anuncia a boa-nova da chegada do reino e pede conversão e fé. E isso com a “autoridade” do reino que se revela na expulsão de demônios e outros sinais (Mc. 1,22.27). Ele é o “Filho de Deus” (1,1; 9,7; 15,39; cf. 1,11).
Mas por que essa mensagem exige conversão? A mensagem de Jonas logrou êxito e produziu penitência à base do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão à base da fé na boa-nova. Observe-se que conversão não é a mesma coisa que penitência. Certas Bíblias traduzem, erroneamente, Mc. 1,15 como “fazei penitência” em vez de “convertei-vos”. Penitência tem a ver com pena, castigo. Conversão é dar nova virada à vida. O grego metanoia sugere uma mudança de mentalidade. Por trás disso está o hebraico shuv, “voltar” (a Deus), não por causa do medo, mas por causa da confiança no dom de Deus, o “reino de Deus”, que é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o pai-nosso: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade”. Onde reinam o amor e a justiça, conforme a vontade de Deus, acontece o reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com essa vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente esse reino em sua própria pessoa. Ele é o reino de Deus que se torna presente. Todo o Evangelho de Marcos desenvolve essa verdade.
No início, o significado de Jesus e de sua pregação está envolto no mistério, mas, aos poucos, há de revelar-se para quem acreditar na boa-nova, sobretudo quando esta se tornar cruz e ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir do castigo anunciado, em Mc 1 a proclamação da boa-nova exige fé e participação ativa no reino que a partir de agora abre espaço. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do reino que ele traz presente. Essa adesão ativa é exemplificada no chamamento dos primeiros seguidores. Imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Marcos narra a vocação dos primeiros discípulos, vocação que os transforma, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. Eles são uma espécie de parábola viva: sua profissão é símbolo da realidade do reino à qual eles estão sendo convidados. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco...
2ª leitura (1Cor. 7,29-31)
Em 1Cor. 7, Paulo responde a perguntas com relação ao casamento. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade (cf. comentário do domingo passado), revelam um tom de “reserva escatológica”; ou seja: tudo isso não é o mais importante para quem vive na expectativa da parúsia. Porque “o tempo é breve” (7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, em certo sentido, indiferentes. Paulo se estende a respeito do matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e a respeito do celibato (expressando seus próprios conselhos). O estado de vida é realidade provisória, que perde sua importância diante do definitivo que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Na continuação do texto, Paulo mostra o valor de seu celibato como plena disponibilidade para as coisas de Cristo – uma espécie de antecipação da parúsia (7,32).
Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade nova, e esta é que importa. Assim, Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas essa dialética deve ser formulada novamente em cada geração e em cada pessoa. Nossa maneira de articulá-la não precisa ser, necessariamente, a mesma de Paulo, que pensa na vinda próxima do Cristo glorioso. Podemos repartir com ele um sadio “relativismo escatológico” (Quid hoc ad aeternitatem?), porém, a maneira de relativizar o provisório pode ser diferente da sua. Relativizar significa “tornar relativo”, “pôr em relação”. O cuidado de viver bem o casamento ou qualquer outra realidade humana – o trabalho, o bem-estar etc. – deve ser posto em relação com o reino de Deus e sua justiça.
Dicas para reflexão
O evangelho contém os temas do anúncio do reino, da conversão e do seguimento. Como o tema da conversão será aprofundado na Quaresma, podemos orientar a reflexão para o tema do seguimento dos discípulos, pensando também no lema da Conferência de Aparecida: “discípulos-missionários”.
Muitos jovens entre os que demonstram sensibilidade aos problemas dos seus semelhantes encontram-se diante de um dilema: continuar dentro do projeto de sua família ou dispor-se a um serviço mais amplo, lá onde a solidariedade o exige. Foi um dilema semelhante que Jesus fez surgir para seus primeiros discípulos (evangelho). Ele andava anunciando o reinado do Pai celeste, enquanto eles estavam trabalhando na empresa de pesca do pai terrestre. Jesus os convidou a deixar o barco e o pai e a tornar-se pescadores de gente. O reino de Deus precisa de colaboradores que abandonem tudo, para que cativem a massa humana que necessita do carinho de Deus.
Esse carinho de Deus é aceito na conversão e na fé: conversão para sair de uma atitude não sincronizada com seu amor e fé como confiança no cumprimento de sua promessa. Deus quer proporcionar ao mundo seu carinho, sua graça. Não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva. Jesus convida à conversão porque o reino de Deus chegou (Mc. 1,14-15). Para ajudar, chama pescadores de gente. Tiramos daí três considerações:
• Deus espera a conversão de todos, para que possam participar de seu reino de amor, justiça e paz.
• Para proclamar a chegada do seu reinado e suscitar a conversão, o coração novo, capaz de acolhê-lo, Deus precisa de colaboradores que façam de sua missão a sua vida, até mesmo à custa de outras ocupações (honestas em si).
• Mas, além dos que largam seus afazeres no mundo, também os outros – todos – são chamados a participar ativamente na construção desse reino, exercendo o amor e a justiça em toda e qualquer atividade humana.
É este o programa da Igreja, chamada a continuar a missão de Jesus: o anúncio da vontade de Deus e de sua oferta de graça ao mundo; a vocação, formação e envio de pes-soas que se dediquem ao anúncio; e a orientação de todos para a participação no reino de Deus, vivendo na justiça e no amor.



O tempo se completou
Marcos descreve assim o começo da atividade pública de Jesus: “Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho”.
Terminara o tempo das preparações.  O povo, durante séculos, foi sendo acompanhado pelos profetas, por líderes do povo, por homens carismáticos.   Páginas admiráveis do Testamento Antigo nos falam de pessoas que foram profundamente tocadas  em seu interior pelos profetas. “Os ninivitas acreditaram em Deus; aceitaram  fazer jejum e vestiram sacos, desde o superior ao inferior. Vendo Deus suas obras de conversão e que os ninivitas se afastavam do mau caminho, compadeceu-se  e suspendeu o mal que tinha ameaço fazer-lhes, e não o fez”. Os que mudam e conduta tocam as fibras da bondade de Deus.
O coração de Deus, as atenções do Altíssimo se voltaram sempre para suas criaturas querendo-as voltadas para seu amor.  Conversão significa realizar uma reorientação da vida. Procurar um outro horizonte, diferente dos interesses pequenos e mesquinhos  que suplica o ego.  Dinheiro, poder, prestígio, força passam a não ser as coisas mais importantes da vida. Significa ver a vida com os olhos de Deus, transformar o interior para que o exterior seja sacramento de bondade.
Segundo Marcos a atividade pública de Jesus começa  depois da prisão do Batista.  Ele havia preparado os caminhos do Senhor.  Como hoje ainda o Senhor irrompe na vida de muitos  depois que familiares, pessoas boas, missionários andaram trabalhando seu coração.  A conversão é obra de Deus em corações abertos à sua ação, em  pessoas que foram levadas ao olhar de Deus por preparadores dos caminhos do  Senhor, por servos inúteis  que fizeram o que tinham que fazer e desapareceram como o Batista.
Trata-se de mudar de vida, de inverter as  coisas.  Francisco de Assis falava do doce que se tornou amargo e do amargo que veio a ser transformar em doce. Mas não basta.  Não seremos apenas “atletas”  espirituais, gente orgulhosa de seus feitos ascéticos.  Será preciso ainda crer no evangelho, na boa nova que se chama Jesus, nas palavras do sermão da montanha, na força que se esconde na semente  pequena,  na colherinha de fermento e numa pitada e sal. Será preciso aqui e ali e sempre ir dando a vida pelos irmãos, acolher as diferenças, perdoar os que nos cospem no rosto,  viver na força, no dinamismo do Evangelho, dinamismo de morte e vida, de cruz e ressurreição.  Crer no Evangelho é deixar que essa força tome conta de nossa vida, das comunidades de vida consagrada, das paróquias.  Uma comunidade que abandona o empenho da conversão está fadada a desaparecer.  Ela se torna uma mera  agência de coisas sagradas e não   parábola do reino.
E Jesus chama colaboradores para sua missão. Os pescadores daqueles cantos serão pescadores de gente. O tempo se completou e agora Jesus conta com Simão e André, Tiago e João e todos os seus discípulos de todos os tempos.
frei Almir Ribeiro Guimarães



O Reino de Deus está aí: convertei-vos
Conversão é uma mensagem freqüente na Bíblia. Mas ela não tem sempre o mesmo conteúdo. Na 1ª leitura e no evangelho de hoje encontramos a mensagem da conversão em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Em Jn. 3 (1ª leitura), trata-se de uma pregação ameaçadora, dirigida à maior cidade que o autor conhecia, Nínive, capital da Assíria; diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando à “capital do mundo” sua misericórdia universal, poupa a cidade.
No N.T., trata-se da pregação inaugural de Jesus, não no centro do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, Jerusalém, mas num canto perdido, meio pagão, da Palestina: os arredores do lago de Genesaré, na Galiléia. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “Está cumprido o tempo”: chega de castigo (cf. Is. 40,2), cumpriu-se o tempo das profecias, das promessas: o “Reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida não aos cidadãos da capital do império, mas aos pobres da Galiléia. Realizando as profecias de Is. (40,1-2.9; 42,1;61,1-2), o Filho que recebe toda a afeição do Pai, ungido com seu Espírito profético e messiânico (cf. Mc. 1,11, batismo de Jesus), leva a Boa-Nova aos pobres, assumindo sua opressão e demonstrando assim a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos.
Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão na base da fé na boa-nova (evangelho).
A gente deve voltar a Deus, não por causa do medo de perder o bem-estar, mas levado por uma profunda confiança nos bens que ainda não conhece e que se tornam próximos em seu Enviado, resumidos no termo “Reino de Deus”. Este é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o Pai-nosso: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade”. A pregação da proximidade do Reino, por Jesus, significa: lá onde reina o amor, que é a vontade de Deus para com seus filhos e filhas, acontece o Reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com esta vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente em sua própria pessoa esse Reino. Ele é o Reino de Deus que se torna presente. Todo o evangelho de Mc desenvolve esta verdade fundamental, que, nesta primeira mensagem do Cristo, está envolta no mistério de sua personalidade e palavra, mas, aos poucos, revelará seu significado para quem acreditar na Boa-Nova, sobretudo quando esta se tomar Cruz e Ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos, sem que o povo se envolva com estes, em Mc 1 vemos que a proclamação da Boa-Nova exige fé e participação ativa no Reino, cuja presença é anunciada. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do Reino que ele traz presente. Essa adesão ativa, no evangelho de Mc, é exemplificada por diversas perícopes dedicadas ao seguimento. Aderir ao Cristo é seguí-lo. Por isso, imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Mc narra a vocação dos primeiros discípulos. Vocação esta que é uma transformação, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco…
A 2ª leitura é tomada da secção das “questões particulares” da 1 Coríntios. Ao fim de toda uma exposição sobre o matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e o celibato (oferecendo seus próprios conselhos), Paulo esboça uma visão global referente aos estados de vida. O estado de vida é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim, Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa (4).
(4) Nossa maneira de articular não precisa ser, necessariamente, a da “santa indiferença”que Paulo demonstra, tendo em vista a vinda próxima do Cristo glorioso. Certo, repartiremos com ele um sadio “relativismo escatológico” (Quid hoc ad aeternitatem?”), porém, a maneira de relativizar o provisório pode ser diferente da sua. Relativizar significa “tornar relativo”, “pôr em relação”. Também o cuidado de viver bem o casamento, como qualquer outra realidade humana, como sejam o trabalho, o bem-estar etc., é uma maneira de relativizar, se este “vivem bem”significa: conforme a vontade de Deus, procurando em primeiro lugar seu Reino e sua justiça.
Johan Konings "Liturgia dominical"

Pregação de Jesus
* 14-15: são as primeiras palavras de Jesus: elas apresentam a chave para interpretar toda a sua atividade. Cumprimento: em Jesus, Deus se entrega totalmente. Não é mais tempo de esperar. É hora de agir. O Reino é o amor de Deus que provoca a transformação radical da situação injusta que domina os homens. Está próximo: o Reino é dinâmico e está sempre crescendo. Conversão: a ação de Jesus exige mudança radical da orientação de vida. Acreditar na Boa Notícia: é aceitar o que Jesus realiza e empenhar-se com ele.
* 16-20: o chamado dos primeiros discípulos é um convite aberto a todos os que ouvem as palavras de Jesus. Simão e André deixam a profissão; Tiago e João deixam a família… Seguir a Jesus implica deixar as seguranças que possam impedir o compromisso com uma ação transformadora.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral



Inícios em Cafarnaum
João Batista, o mensageiro de Jesus, foi preso, pois mexeu com os interesses e privilégios dos poderosos. O que irá acontecer com Jesus? Aos poucos o Evangelho mostrará que Jesus não se deixa amedrontar por ninguém, vencendo tudo aquilo que gera a morte para o povo.
Depois disso, Jesus vai para a Galiléia, lugar onde se encontram as pessoas pobres que vivem à margem da sociedade, gente considerada sem valor e impura, pelos poderosos. É no meio dessa gente e a partir dela que Jesus inicia seus ensinamentos, anunciando o Reino de Deus e pedindo que se convertam e creiam no Evangelho.
Jesus escolhe pessoas simples e as chama a partir da realidade do dia a dia. Simão e André são trabalhadores que ganhavam a vida pescando. E Jesus convida-os para serem pescadores de homens. Mas o que significa pescar homens? Afinal, homens não vivem no mar!
O mar é um mistério para todos e, embora os pescadores vivessem nele, tinham medo do desconhecido. A expressão pescar homens significa tirar o homem do medo, do escuro, da insegurança, e os discípulos escolhidos se animaram com a idéia. Ser pescador de homens, portanto, é anunciar o Reino de Deus que Jesus veio ensinar.
O povo, naquela época, vivia um período de reinado opressor e sofrido, que lhes tirava as esperanças de uma vida melhor, portanto, a proposta era levá-los para um encontro pessoal com o projeto de Deus.
Jesus também chama Tiago e João, que a partir daquele momento ouvem o chamado e se tornam discípulos dando uma resposta imediata. Deixam seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partem seguindo a Jesus.
Converter-se é sinônimo de aceitar a prática de vida que Jesus mostra. O Reino de Deus precisa de discípulos que se convertam e se comprometam em anunciar a vontade e o Amor de Deus ao mundo. E, o inicio da Boa Nova trazida por Jesus, se tornará realidade mediante o compromisso das pessoas e das comunidades que dizem sim ao Mestre.
Jesus escolhe as pessoas e as chama a partir da realidade do dia a dia. Não importa se o que fazem é honesto ou desonesto, certo ou errado. O apelo é igual para todos, e a resposta precisa ser imediata: “seguir a Jesus.”

Pequeninos do Senhor



O reino de Deus está aí: convertei-vos
1ª leitura (Jn. 3,1-5.10) A pregação de conversão de Jonas
No livro de Jonas é mostrado que Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do império dos gentios. Deus oferece como graça o chamado à conversão; quem o aceita é salvo. * 3,1-5 cf. Mt. 12,41; Lc. 11,32 * 3,10 cf. Gn. 6,6; Jr. 26,3; 18,7-8.
2ª leitura (1Cor. 7,29-31) O “esquema” deste mundo passa
Em 1Cor. 7 Paulo responde a perguntas com relação ao casamento. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade, revelam um tom de “reserva escatológica”; ou seja: tudo isso não é o mais importante, para quem vive na expectativa da parusia. Porque “o tempo é breve” (7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, num certo sentido, indiferentes: são um “esquema” (literalmente, conforme o grego) que passa. Paulo continua, depois, mostrando o valor de seu celibato como plena disponibilidade para as coisas de Cristo – uma espécie de antecipação da Parusia (7,32).
* 7,29 cf. Rm. 13,11; 2Cor. 6,2.8-10 * 7,31 cf. 1Jo 2,16-17.
 Evangelho (Mc. 1,14-20) O Reino de Deus está aí: convertei-vos
Marcos é o evangelho da “irrupção do Reino de Deus”. Jesus aparece como profeta apocalíptico, anunciando a boa-nova da chegada do Reino e pedindo conversão e fé. Mas ele não apenas anuncia. Ele tem também a “autoridade” (Mc 1,22.27) do Reino, o que se mostra na expulsão de demônios e outros sinais. Ele é o “Filho de Deus” (1,1; 9,7; 15,39; cf. 1,11). Contudo, nem mesmo os discípulos o reconheceram como tal. Somente depois da Ressurreição, entenderiam isso e fariam de Jesus mesmo o conteúdo da “boa-nova” que iam pregar. Para nós, agora, graças ao testemunho deles, fica claro que a atuação de Jesus foi a inauguração do Reino que ele anunciava. Nele, em sua pregação, confirmada por sinais, o Reino tornou-se presente. Por isso, exige conversão e fé (1,15), bem como seguimento incondicional dos que são chamados (1,16-20).
* 1,14-15 cf. Mt. 4,12-17; Lc. 4,14-15; Mc. 6,17-18; Dn. 7,22; Gl. 4,4 * 1,16-20 cf. Mt. 4,18-22; Lc. 5,1-11.

Conversão é uma mensagem frequente na Bíblia. Mas ela não tem sempre o mesmo conteúdo. Na 1ª leitura e no evangelho de hoje encontramos a mensagem da conversão em duas articulações bem diferentes, revelando a distinção entre o antigo e o novo. Em Jn3 (1ª leitura), trata-se de uma pregação ameaçadora, dirigida à maior cidade que o autor conhecia, Nínive, capital da Assíria; diante do medo que a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando à “capital do mundo” sua misericórdia universal, poupa a cidade.
No N.T., trata-se da pregação inaugural de Jesus, não no centro do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, Jerusalém, mas num canto perdido, meio pagão, da Palestina: os arredores do lago de Genesaré, na Galileia. Não anuncia uma catástrofe, mas a plenitude do tempo. “Está cumprido o tempo”: chega de castigo (cf. Is 40,2), cumpriu-se o tempo das profecias, das promessas: o “Reino de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida não aos cidadãos da capital do império, mas aos pobres da Galileia. Realizando as profecias de Is (40,1-2.9; 42,1; 61,1-2), o Filho que recebe toda a afeição do Pai, ungido com seu Espírito profético e messiânico (cf. Mc 1,11), leva a Boa-Nova aos pobres, assumindo sua opressão e demonstrando assim a compreensão verdadeira do amor universal de Deus, que começa pelos últimos.
 Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de Cristo solicita conversão na base da fé na boa-nova (evangelho).

A gente deve voltar a Deus, não por causa do medo de perder o bem-estar, mas levado por uma profunda confiança nos bens que ainda não conhece e que se tornam próximos em seu Enviado, resumidos no termo “Reino de Deus”. Este é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o Pai-Nosso: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade”. A pregação da proximidade do Reino, por Jesus, significa: lá onde reina o amor, que é a vontade de Deus para com seus filhos e filhas, acontece o Reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com esta vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente em sua própria pessoa esse Reino. Ele é o Reino de Deus que se torna presente. Todo o evangelho de Mc desenvolve esta verdade fundamental, que, nesta primeira mensagem do Cristo, está envolta no mistério de sua personalidade e palavra, mas, aos poucos, revelará seu significado para quem acreditar na Boa-Nova, sobretudo quando esta se tornar Cruz e Ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos, sem que o povo se envolva com estes, em Mc 1 vemos que a proclamação da Boa-Nova exige fé e participação ativa no Reino cuja presença é anunciada. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do Reino que ele traz presente. Essa adesão ativa, no evangelho de Mc, é exemplificada por diversas perícopes dedicadas ao seguimento. Aderir ao Cristo é segui-lo. Por isso, imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Mc narra a vocação dos primeiros discípulos. Vocação esta que é uma transformação, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. E eles abandonam o que eram e o que tinham – até mesmo o pai no barco...
 A 2ª leitura é tomada da secção das “questões particulares” da 1Cor. Ao fim de toda uma exposição sobre o matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e o celibato (oferecendo seus próprios conselhos), Paulo esboça uma visão global referente aos estados de vida. O estado de vida é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim, Paulo Evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa.

Pescadores de gente
Muitos jovens dentre aqueles que demonstram sensibilidade aos problemas dos seus semelhantes encontram-se diante de um dilema: continuar dentro do projeto de sua família ou dispor-se a um serviço mais amplo, lá onde a solidariedade o exige…
 Foi um dilema semelhante que Jesus causou para seus primeiros discípulos (evangelho). Jesus estava anunciando o reinado do Pai celeste, enquanto eles estavam trabalhando na empresa de pesca do pai terrestre. Jesus os convidou a deixarem o barco e o pai e a se tornarem pescadores de gente. O reino de Deus precisa de colaboradores que abandonem tudo, para catarem a massa humana que necessita o carinho de Deus.
 Deus quer proporcionar ao mundo seu carinho, sua graça. Não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Provocar tal conversão na maior cidade do mundo de então, em Nínive, tal foi a missão que Deus confiou ao “profeta a contragosto”, Jonas (1ª leitura). Também Jesus convida à conversão, porque o Reino de Deus chegou (Mc 1,14-15). Para ajudar, chama pescadores de gente. Tiramos daí três considerações:
– Deus espera a conversão de todos, para que possam participar de seu reino de amor, de justiça e de paz.
– Para proclamar e a chegada do seu reinado e suscitar a conversão, o coração novo, capaz de acolhê-lo, Deus precisa de colaboradores, que façam de sua missão a sua vida, inclusive às custas de outras ocupações (honestas em si).
– Mas além dos que largam seus afazeres no mundo, também os outros – todos – são chamados a participar ativamente na construção desse Reino, exercendo o amor e a justiça em toda e qualquer a atividade humana.
É este o programa da Igreja, chamada a continuar a missão de Jesus: o anúncio da vontade de Deus e de sua oferta de graça ao mundo; a vocação, formação e envio de pessoas que se dediquem ao anúncio; e a orientação de todos a participarem do Reino de Deus, vivendo na justiça e no amor.
Jesus usou a experiência dos pescadores como base para elevá-los a outro nível de “pescaria”. A Igreja pode seguir o mesmo modelo: partir da experiência humana, profissional, social, cultural, para orientar as pessoas à grande pescaria. Sem essa base humana, os anunciadores parecem cair de paraquedas no mundo ao qual eles são enviados, parecem extraterráqueos. Mas se aproveitam a experiência de vida que têm, “conhecendo o mar do mundo”, poderão recolher gente para Deus.
Para Paulo, ser apóstolo é fazer da própria vida um anúncio do Evangelho: “Ai de mim se eu não evangelizar” (1Cor 9,16). Ele não faz apostolado, oito horas por dia, fim de semana livre, férias e décimo terceiro… Ele é apóstolo, “apóstolo 24 horas”. Faz até coisas que não precisaria fazer: ganhar seu pão com o próprio trabalho manual, dispensar a companhia de uma mulher etc. Faz tudo de graça, para não provocar a suspeita de proveito próprio. Porque sua maior recompensa é a felicidade de anunciar o Evangelho gratuitamente. O Evangelho é sua vida.
Johan Konings



Nestes inícios do tempo comum, a liturgia apresenta-nos também os inícios do Evangelho segundo Marcos. Hoje Jesus aparece inaugurando seu ministério público. Suas palavras são consoladoras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!” Eis! A esperança de Israel até que enfim iria realizar-se: o Messias, o Salvador esperado estava chegando para instaurar o Reino! Com Jesus, com sua Pessoa, seus gestos e sua pregação, o Reinado de Deus, a proximidade do Santo de Israel, seria realmente tocada pelo povo de Deus. É isso o Reino de Deus: em Jesus, Deus fez-se próximo, Deus veio acolher, consolar, indicar o caminho, salvar! Em Jesus, o Filho amado, Deus veio revelar sua paternidade, debruçando-se sobre o aflito, o pobre, o pecador. Chegou o Reino: Deus veio consolar o seu povo!
Mas, há algo surpreendente nesse alegre anúncio de Jesus: logo após afirmar que o Reino chegou, o Senhor intima o povo: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Por que Jesus dá esta ordem? Os israelitas não estavam esperando o Reino? Por que precisam se converter?
O Reino que Jesus veio trazer não é de encomenda, não é sob medida, como gostaríamos. O Senhor não vem nos trazer um Deus à nossa medida, à medida do mundo, um deus moderninho para consumo das nossas necessidades, interesses e expectativas. No mundo do fácil, do prático e do descartável, gostaríamos de um deusinho assim... Jesus nos grita: “Convertei-vos! Crede no Evangelho!” O Reino somente será Boa-Notícia para quem abrir-se à surpresa inquietante do Deus que Jesus anuncia. Acolher a novidade, a Boa-notícia, o Evangelho, acolher esse Deus que chega, exige que saiamos de nós mesmos, como os ninivitas que, escutando o apelo de Jonas, converteram-se! Mais tarde, Jesus irá criticar duramente o seu povo: “Os habitantes de Nínive se levantarão no Julgamento, juntamente com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas aqui está algo mais do que Jonas!” (Mt. 12,41). Como é atual a Palavra deste domingo! Cheios de nós, adormecidos e satisfeitos com nossos pensamentos, com nossa lógica cômoda e pagã, jamais poderemos acolher o Reino em nós e experimentar sua alegria e sua paz! Não esqueçamos, caros em Cristo: a primeira palavra do Senhor no Evangelho é “convertei-vos!” Não é possível domar Jesus, não é possível um cristianismo sob medida! Não é por acaso que o Evangelho de hoje começa falando da prisão de João Batista, aquele santo profeta que preparou a vinda do Reino. O Reino sofre violência; violência do mundo, violência do nosso coração envelhecido pelo pecado, da nossa razão tanta vez fechada para a luz do Cristo. Por isso mesmo, logo após apresentar o apelo de Jesus, são Marcos nos fala da vocação dos quatro primeiros discípulos. Certamente, esse chamado deve ser compreendido de modo muito particular como referindo-se à vocação sacerdotal, que faz dos chamados “pescadores de homens”. Mas, esse chamamento indica também a vocação de todo cristão: seguir Jesus no caminho da vida. Nesse sentido, a lição é clara: seguir Jesus exige deixar tudo, deixar-se e colocar a vida em relação com o Senhor! Somente assim poderemos acolher o Reino!
Nunca esqueçamos: diante da urgência de estar com Jesus, de viver unido a ele, de acolher sua pessoa, tudo o mais é relativo! Daí a advertência de São Paulo na segunda leitura de hoje: “O tempo está abreviado. Então que, doravante os que têm mulher vivam como se não tivessem, os que choram, como se não chorassem e os que estão alegres, como se não estivessem; os que fazem compras como se não possuíssem; e os que usam do mundo, como se dele não estivessem gozando. Pois passa a figura deste mundo”. Aqui, não se trata de desvalorizar o mundo e o que de belo e de bom há nele. Trata-se, sim, de colocar as coisas na sua real perspectiva, na perspectiva do Infinito de Deus e da urgência do Reino. O mundo atual, com sua cultura pagã, deseja que esqueçamos os verdadeiros valores, que absolutizemos aquelas coisas que são relativas, que deixemos de lado aquilo que realmente importa. E o que importa? Escutai, caríssimos: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo mais vos será acrescentado!” (Mt. 6,33). Somos chamados a abrir nossa existência, abrir nosso coração, nossa vida, nossos valores para o Cristo que nos traz o Reino do Pai do Céu! Mas somente poderemos acolhê-lo de fato se nos colocarmos diante dele com um coração de pobre, com a consciência de que precisamos realmente do Senhor, que, sozinhos, não nos realizaremos, não seremos felizes, não alcançaremos a verdadeira vida!
É triste perceber hoje quantos cristãos se sentem tão à vontade nessa sociedade consumista, secularizada, pagã e satisfeita consigo própria. Esses, infelizmente, jamais experimentarão a doçura do Reino, que somente poderá ser compreendido por quem chorou, quem teve fome e sede de justiça (isto é de amizade com Deus), quem foi puro, que foi perseguido... É por isso que tantas vezes ouviremos, nos domingos deste ano, o Senhor afirmar que somente poderá compreender e acolher o Reino quem tiver um coração de pobre.
Convertamo-nos! Levemos a sério que o modo de pensar e sentir de Deus não são o nosso! Tenhamos a coragem de nos deixar por Cristo. São Jerônimo, comentando a atitude dos quatro primeiros discípulos chamados pelo Senhor, afirma: “A verdadeira fé não conhece hesitação: imediatamente ouve, imediatamente crê, imediatamente segue...” Seja assim a nossa fé no Senhor, seja assim nossa adesão ao nosso Salvador! Então, seremos felizes de verdade, porque perceberemos que o que Cristo nos trouxe é uma Boa Notícia, a melhor de todas: Deus nos ama, caminha conosco e, no seu bendito Filho, nos convida à amizade íntima com ele, nesta vida e por toda eternidade!
dom Henrique Soares da Costa



  

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