4º DOMINGO TEMPO COMUM
28 de Janeiro de 2018
Evangelho
- Mc 1,21-28
·
Jesus ensinava como quem tem autoridade. Jesus ensinava com autoridade
porque Ele não tinha medo de nada, porque Ele sabia tudo, porque estava
empenhado em mudar o mundo, porque Ele é Santo, Ele é o próprio Deus encarnado!
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“JESUS
O INTIMOU: CALA-TE E SAI DELE!” Olivia Coutinho
4º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 28 de Janeiro de 2018
Evangelho de Mc1,21-28
Não podemos negar a existência e a força do mal, o mal existe e
está sempre a nos rondar, mas ele só ganha força em nós, se nos distanciarmos
de quem é mais forte do que ele: Jesus!
As estruturas do mal conhecem quem é mais forte do que elas,
quem tem poder de destruí-las, por isto fazem de tudo para eliminá-lo, mas não
conseguem, pois o mal sobrepõe o bem, não encontra espaço no coração habitado
por Jesus!
Jesus não quer que nenhum de nós, seja escravizado pelas
as forças do mal, por isto, Ele
está sempre nos chamando a permanecermos Nele, pois só Nele,
conseguiremos aniquilar as forças do inimigo.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir,
começa dizendo que Jesus entrou numa sinagoga em Cafarnaum, junto com os seus
discípulos e começou a ensinar.
O
povo ficou maravilhado com o seu jeito diferente de ensinar, pois Jesus falava
com autoridade, isto é, falava com propriedade, falava daquilo que Ele conhecia
e vivia. Diferente dos outros líderes religiosos, que não viviam o que falavam.
A
narrativa diz ainda, que na sinagoga, havia um homem possuído por um espírito
mau, cuja simples presença de Jesus o atormentava. O episódio, nos mostra o
poder de Jesus sobre o mal, naquele encontro, não houve confronto, a simples
presença do bem, (Jesus) exterminou o mal.
“Que
queres de nós Jesus Nazareno? Viestes para nos destruir? Eu sei que tu és o
santo de Deus!” E Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”. A partir de então,
aquele homem, se viu, completamente livre das correntes do mal que o impedia de
ser ele mesmo.
Com
esta ação libertadora, Jesus, desmascara aqueles líderes religiosos, que não
estavam comprometidos com a vida. O olhar de Jesus, vai além dos limites
impostos por eles, pois Jesus enxerga o homem na sua essência, e não, o mal que
está nele, o mal, Jesus extermina e o homem, Ele traz de volta à vida!
Aquele
homem, possuído pelo o espírito mal, simboliza, todas as pessoas que
estão acorrentadas pelas as forças do mal, pessoas que são impedidas de falar,
de agir como sujeitos da sua própria história.
O
texto nos convida a conhecermos
a verdade que liberta e a vivermos esta verdade, só assim, podemos
também, falar com autoridade, nos tornando caminho de
libertação para o outro.
Saber
que Jesus é o Filho de Deus, todos sabem, até o inimigo, como vimos no
evangelho, o que vai fazer a diferença mesmo, é saber quem é o Filho de Deus,
quais são as suas propostas.
Conhecer
Jesus, saber quais são as suas propostas, é o primeiro passo de quem
quer fazer a melhor escolha para sua vida.
A
vida é a maior expressão do amor de Deus, não conduzi-la para o bem, é a maior
ingratidão do homem ao seu Criador.
FIQUE
NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha
fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:
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A liturgia do 4º domingo do tempo comum garante-nos que Deus não se
conforma com os projetos de egoísmo e de morte que desfeiam o mundo e que
escravizam os homens e afirma que Ele encontra formas de vir ao encontro dos
seus filhos para lhes propor um projeto de liberdade e de vida plena.
A primeira leitura propõe-nos – a partir da figura de Moisés – uma
reflexão sobre a experiência profética. O profeta é alguém que Deus escolhe,
que Deus chama e que Deus envia para ser a sua “palavra” viva no meio dos
homens. Através dos profetas, Deus vem ao encontro dos homens e apresenta-lhes,
de forma bem perceptível, as suas propostas.
O Evangelho mostra como Jesus, o Filho de Deus, cumprindo o projeto
libertador do Pai, pela sua Palavra e pela sua ação, renova e transforma em
homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da
morte.
A segunda leitura convida os crentes a repensarem as suas prioridades e
a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um
verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos.
1ª leitura – Dt. 18,15-20 – AMBIENTE
O livro do Deuteronômio é aquele “livro da Lei” ou “livro da Aliança”
descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (622 a.C.)
(cf. 2Re. 22). Neste livro, os teólogos deuteronomistas – originários do Norte
(Israel) mas, entretanto, refugiados no sul (Judá) após as derrotas dos reis do
norte frente aos assírios – apresentam os dados fundamentais da sua teologia:
há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto
(Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com Ele uma aliança eterna; e
o Povo de Deus deve ser um único Povo, a propriedade pessoal de Jahwéh
(portanto, não têm qualquer sentido as questões históricas que levaram o Povo
de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão). A
finalidade fundamental dos catequistas deuteronomistas é levar o Povo de Deus a
um compromisso firme e exigente com a Lei de Deus, proclamada no Sinai. É um
convite firme ao Povo de Deus no sentido de abraçar a Aliança com Jahwéh e de
viver na fidelidade aos compromissos assumidos.
Literariamente, o livro apresenta-se como um conjunto de três discursos
de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab. Pressentindo a proximidade da
sua morte, Moisés deixa ao Povo uma espécie de “testamento espiritual”: lembra
aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus e convida-os a renovar a
sua aliança com Jahwéh.
O texto que hoje nos é proposto apresenta-se como parte do segundo discurso de Moisés (cf. Dt. 4,44-28,68). Trata-se de um texto que integra um conjunto legislativo sobre as estruturas de governo do Povo de Deus (cf. Dt. 16,18-18,22). Em concreto, o nosso texto refere-se ao papel e ao significado do profetismo.
O texto que hoje nos é proposto apresenta-se como parte do segundo discurso de Moisés (cf. Dt. 4,44-28,68). Trata-se de um texto que integra um conjunto legislativo sobre as estruturas de governo do Povo de Deus (cf. Dt. 16,18-18,22). Em concreto, o nosso texto refere-se ao papel e ao significado do profetismo.
O fenômeno profético não é exclusivo de Israel, mas é um fenômeno
relativamente conhecido entre os povos do Crescente Fértil. Entre os cananeus,
os movimentos proféticos apareciam com relativa frequência, normalmente ligados
à adivinhação, ao êxtase, a convulsões, a delírios (habitualmente provocados
por instrumentos sonoros, gritos, danças, etc.). A multiplicidade de
experiências proféticas obriga, exatamente, a pôr o problema do discernimento
entre a verdadeira e a falsa profecia… O que é que caracteriza o verdadeiro
profeta? Quando é que um profeta fala, realmente, em nome de Deus? Este problema
devia pôr-se, particularmente, no Reino do Norte, na época de Acab (874-853
a.C.) e de Jezabel, quando os profetas de Baal dominavam. As tradições sobre o
profeta Elias (cf. 1Re. 17 - 2Re 13,21) traçam esse quadro de confronto diário
entre a verdadeira e a falsa profecia.
O catequista deuteronomista refere-se, precisamente, a esta questão. Ele
apresenta, aqui, o quadro do verdadeiro profeta, oferecendo assim ao seu povo
os critérios para distinguir o verdadeiro do falso profeta.
MENSAGEM
Para os teólogos deuteronomistas, Moisés é o exemplo e o modelo do
verdadeiro profeta. O que é que isso significa?
Significa, em primeiro lugar, que na origem e no centro da vocação de
Moisés está Deus. Não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua
iniciativa; não foi Moisés que conquistou, pelas suas ações ou pelas suas
qualidades, o “direito” a ser “profeta”. A iniciativa foi de Deus que, de forma
gratuita, o escolheu, o chamou e o enviou em missão. Se Moisés foi designado
para ser um sinal de Jahwéh, foi porque Deus assim o quis. A consagração do
“profeta” resulta de uma ação gratuita de Deus que, de acordo com critérios
muitas vezes ilógicos na perspectiva dos homens, escolhe aquela pessoa em
concreto, com as suas qualidades e defeitos, para o enviar aos seus irmãos.
Em segundo lugar, Moisés disse sempre e testemunhou sempre as palavras
que Deus lhe colocou na boca e que lhe ordenou que dissesse. A mensagem
transmitida não era a mensagem de Moisés, mas a mensagem de Deus. O verdadeiro
profeta não é aquele que transmite uma mensagem pessoal, ou que diz aquilo que
os homens gostam de ouvir; o verdadeiro profeta é aquele que, com coragem e
frontalidade, testemunha fielmente as propostas de Deus para os homens e para o
mundo.
As palavras do profeta devem ser cuidadosamente escutadas e acolhidas,
pois são palavras de Deus. O próprio Deus pedirá contas a quem fechar os
ouvidos e o coração aos desafios que Deus, através do profeta, apresenta ao
mundo.
ATUALIZAÇÃO
A vocação profética é uma vocação que surge por iniciativa de Deus.
Ninguém é profeta por escolha própria, mas porque Deus o chama. O profeta tem
de ter consciência, antes de mais, que é Deus quem está por detrás da sua
escolha e do seu envio. O profeta não pode assumir uma atitude de arrogância e
de auto-suficiência, mas tem de se sentir um instrumento humilde através do
qual Deus age no mundo.
Ao tomar consciência de que é apenas um instrumento através do qual Deus
age no meio da comunidade humana, o profeta descobre a necessidade de levar
muito a sério a missão que lhe foi confiada. O testemunho profético não é um
passatempo ou um compromisso para as horas vagas; está fora de causa o cruzar
os braços e deixar correr. Trata-se de um compromisso que deve ser assumido e
vivido com fidelidade absoluta e total empenho.
Se o profeta é designado para tornar presente no meio dos homens o
projeto de Deus, ele não pode utilizar a missão em benefício próprio; não deve
ceder à tentação de se vender aos poderes do mundo e pactuar com eles, a fim de
concretizar a sua sede de poder e de protagonismo, não pode “vender a alma ao
diabo” para daí tirar algum benefício, não deve utilizar o seu ministério para
se exibir, para ser admirado, para conseguir sucesso, para promover a sua
imagem e obter os aplausos das multidões. A missão profética tem de estar
sempre ao serviço de Deus, dos planos de Deus, da verdade de Deus, e não ao
serviço de esquemas pessoais, interesseiros e egoístas.
2ª leitura – 1Cor. 7,32-35 – AMBIENTE
A comunidade cristã de Corinto é uma comunidade tipicamente grega, que
mergulha as suas raízes numa cultura-ambiente marcada por grandes contradições.
As diversas escolas filosóficas que existiam na cidade (e um pouco por todo o
mundo grego) tinham perspectivas muito diversas sobre o sentido da vida e sobre
a forma de chegar à felicidade e à realização plena. As propostas de caminho
apresentadas por essas escolas eram, frequentemente, divergentes e mesmo
opostas.
Um dos sectores onde se nota, particularmente, esse balançar entre
caminhos opostos, é nas questões de ética sexual. Neste âmbito, a cultura
coríntia oscilava entre dois extremos: por um lado, um grande laxismo (como era
normal numa cidade marítima, onde chegavam marinheiros de todo o mundo e onde
reinava Afrodite, a deusa grega do amor); por outro lado, um desprezo absoluto
pela sexualidade (típico de certas tendências filosóficas influenciadas pela
filosofia platônica, que consideravam a matéria um mal e que faziam do não
casar um ideal absoluto).
O desejo de Paulo é o de apresentar um caminho equilibrado, face a estes
exageros: condenação sem apelo de todas as formas de desordem sexual, defesa do
valor do casamento, elogio do celibato (cf. 1Cor. 7).
Provavelmente, os coríntios tinham consultado Paulo acerca do melhor
caminho a seguir – o do matrimônio ou o do celibato. Paulo responde à questão
no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios (de onde é retirado o texto da
nossa segunda leitura). Paulo considera que não tem, a este propósito, “nenhum
preceito do Senhor”; no entanto, o seu parecer é que quem não está comprometido
com o casamento deve continuar assim e quem está comprometido não deve “romper
o vínculo” (1Cor. 7,25-28). Na perspectiva de Paulo, os cristãos não devem
esquecer que “o tempo é breve”, quando tiverem que fazer as suas opções – nomeadamente,
quando tiverem que fazer a sua escolha entre o casamento ou o celibato.
MENSAGEM
Paulo reconhece que, quem não é casado tem mais tempo e disponibilidade
para se preocupar “com as coisas do Senhor” (v. 32b) e para agradar ao Senhor.
Quem é casado tem de atender às necessidades da família e de dividir a sua
atenção por uma série de realidades ligadas à vida do dia a dia; quem não é
casado pode responder aos desafios de Deus e gastar a sua vida ao serviço do
projecto de Deus sem quaisquer condicionalismos ou limitações.
Paulo estará, aqui, a desvalorizar a vida conjugal e a sexualidade?
Estará a dizer que o matrimônio é um caminho a evitar, ou é um caminho que
afaste de Deus? De modo nenhum. Para Paulo, o casamento é uma realidade
importante (ele considera que tanto o casamento como o celibato são dons de
Deus – cf. 1Cor. 7,7); mas não deixa de ser uma realidade terrena e efêmera,
que não deve, por isso, ser absolutizada. Paulo nunca diz que o casamento seja
uma realidade má ou um caminho a evitar; contudo, é evidente, nas suas
palavras, uma certa predileção pelo celibato… Na sua perspectiva, o celibato
leva vantagem enquanto caminho que aponta para as realidades eternas: anuncia a
vida nova de ressuscitados que nos espera, ao mesmo tempo que facilita um
serviço mais eficaz a Deus e aos irmãos.
Na verdade, as palavras de Paulo fazem sentido em todos os tempos e
lugares; mas elas tornam-se mais lógicas se tivermos em conta o ambiente
escatológico que se respirava nas primeiras comunidades. Para os crentes a quem
a Primeira Carta aos Coríntios se destinava, a segunda e definitiva vinda de
Jesus estava iminente; era preciso, portanto, preocupar-se com as coisas de
Deus e relativizar as realidades transitórias e efêmeras, entre as quais se
contava o casamento.
ATUALIZAÇÃO
Por detrás das afirmações que Paulo faz no texto que nos é proposto como
segunda leitura, está a convicção de que as realidades terrenas são passageiras
e efêmeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Não se trata de
propor uma evasão do mundo e uma espiritualidade descarnada, insensível, alheia
ao amor, à partilha, à ternura; mas trata-se de avisar que as realidades desta
terra não podem ser o objetivo final e único da vida do homem. Esta reflexão
convida-nos a repensarmos as nossas prioridades, e a não ancorarmos a nossa
vida em realidades transitórias.
A virgindade consagrada, por amor do Reino, nem sempre é um valor
compreendido, à luz dos valores da nossa sociedade. Paulo, contudo, sublinha o
valor da virgindade como valor autêntico, pois anuncia o mundo novo que há-de
vir e disponibiliza para o serviço de Deus e dos irmãos. É sinal de
desprendimento, de doação, de disponibilidade e deve ser positivamente
valorizada. Aqueles que são chamados a viver dessa forma não são gente estéril
e infeliz, alheia às coisas bonitas da vida, mas são pessoas generosas, que
renunciaram a um bem (o matrimônio) em vista da sua entrega a Deus e aos
outros.
Evangelho – Mc. 1,21-28 – AMBIENTE
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem
como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que
proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que
geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de
Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que
aderem à sua proposta de salvação/libertação. Este percurso de descoberta do
Messias que o catequista Marcos nos propõe termina em Mc. 8,29-30, com a
confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a
confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de
Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
O texto que nos é hoje proposto aparece, exatamente, no princípio desta
caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Rodeado já
pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-Se como o
Messias-libertador, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma
proposta de salvação.
A cena situa-nos em Cafarnaum (em hebraico Kfar Nahum, a “aldeia de
Naum”), a cidade situada na costa noroeste do Lago Kineret (o Mar da Galileia).
De acordo com os Evangelhos Sinópticos, é aí que Jesus se vai instalar durante
o tempo do seu ministério na Galileia. Vários dos discípulos – Simão e seu irmão
André, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João – viviam em Cafarnaum.
MENSAGEM
É um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum para a
liturgia sinagogal. Jesus, recém-chegado à cidade, entra na sinagoga – como
qualquer bom judeu – para participar na liturgia sabática. A celebração
comunitária começava, normalmente, com a “profissão de fé” (cf. Dt 6,4-9), a
que se seguiam orações, cânticos e duas leituras (uma da Torah e outra dos
Profetas); depois, vinha o comentário às leituras e as bênçãos. É provável que
Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas.
Fê-lo de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam
habituadas a ouvir aos “escribas” (os estudiosos das Escrituras). As pessoas ficaram
maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não
como os escribas” (v. 22). A referência à autoridade das palavras de Jesus
pretende sugerir que Ele vem de Deus e traz uma proposta que tem a marca de
Deus.
A “autoridade” que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se, também,
em ações concretas (como se a “autoridade” das palavras tivesse de ser
caucionada pela própria ação). Na sequência das palavras ditas por Jesus e que
transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena
“um homem com um espírito impuro”. Os judeus estavam convencidos que todas as
doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens e os
tornavam prisioneiros. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir
a Lei (as normas corretas de convivência social e religiosa) e ficavam numa
situação de “impureza” – isto é, afastadas de Deus e da comunidade. Na
perspectiva dos contemporâneos de Jesus, esses “espíritos maus” que afastavam
os homens da órbita de Deus tinham um poder absoluto, que os homens não podiam,
com as suas frágeis forças, ultrapassar. Acreditava-se que só Deus, com o seu
poder e autoridade absolutos, era capaz de vencer os “espíritos maus” e
devolver aos homens a vida e a liberdade perdidas.
Numa encenação com um singular poder evocador, Marcos põe o “espírito
mau” que domina “um homem” presente na sinagoga, a interpelar violentamente
Jesus. Sugere-se, dessa forma, que diante da proposta libertadora que Jesus
veio apresentar, em nome de Deus, os “espíritos maus” responsáveis pelas
cadeias que oprimem os homens ficam inquietos, pois sentem que o seu poder
sobre a humanidade chegou ao fim. A ação da cura do homem “com um espírito
impuro” constitui “a prova provada” de que Jesus traz uma proposta de
libertação que vem de Deus; pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem
para o salvar de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude.
Para Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um
programa de acção: Jesus veio ao encontro dos homens para os libertar de tudo
aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida. A libertação que Deus quer
oferecer à humanidade está a acontecer. O “Reino de Deus” instalou-se no mundo.
Jesus, cumprindo o projeto libertador de Deus, pela sua Palavra e pela sua
ação, renova e transforma em homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros
do egoísmo, do pecado e da morte.
ATUALIZAÇÃO
O “homem com um espírito impuro” representa todos os homens e mulheres,
de todas as épocas, cujas vidas são controladas por esquemas de egoísmo, de
orgulho, de auto-suficiência, de medo, de exploração, de exclusão, de
injustiça, de ódio, de violência, de pecado. É essa humanidade prisioneira de
uma cultura de morte, que percorre um caminho à margem de Deus e das suas
propostas, que aposta em valores efêmeros e escravizantes ou que procura a vida
em propostas falíveis ou efêmeras. O Evangelho de hoje garante-nos, porém, que
Deus não desistiu da humanidade, que Ele não Se conforma com o fato de os
homens trilharem caminhos de escravidão, e que insiste em oferecer a todos a
vida plena.
Para Marcos, a proposta de Deus torna-se realidade viva e atuante em
Jesus. Ele é o Messias libertador que, com a sua vida, com a sua palavra, com
os seus gestos, com as suas ações, vem propor aos homens um projeto de
liberdade e de vida. Ao egoísmo, Ele contrapõe a doação e a partilha; ao
orgulho e à auto-suficiência, Ele contrapõe o serviço simples e humilde a Deus
e aos irmãos; à exclusão, Ele propõe a tolerância e a misericórdia; à
injustiça, ao ódio, à violência, Ele contrapõe o amor sem limites; ao medo, Ele
contrapõe a liberdade; à morte, Ele contrapõe a vida. O projeto de Deus,
apresentado e oferecido aos homens nas palavras e ações de Jesus, é
verdadeiramente um projeto transformador, capaz de renovar o mundo e de
construir, desde já, uma nova terra de felicidade e de paz. É essa a Boa Nova
que deve chegar a todos os homens e mulheres da terra.
Os discípulos de Jesus são as testemunhas da sua proposta libertadora.
Eles têm de continuar a missão de Jesus e de assumir a mesma luta de Jesus
contra os “demônios” que roubam a vida e a liberdade do homem, que introduzem
no mundo dinâmicas criadoras de sofrimento e de morte. Ser discípulo de Jesus é
percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e lutar, se necessário até ao dom
total da vida, por um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais
justo, mais fraterno. Os seguidores de Jesus não podem ficar de braços
cruzados, a olhar para o céu, enquanto o mundo é construído e dirigido por
aqueles que propõem uma lógica de egoísmo e de morte; mas têm a grave
responsabilidade de lutar, objetivamente, contra tudo aquilo que rouba a vida e
a liberdade ao homem.
O texto refere o incômodo do “homem com um espírito impuro”, diante da presença
libertadora de Jesus. O pormenor faz-nos pensar nas reações agressivas e
intolerantes – por parte daqueles que pretendem perpetuar situações de
injustiça e de escravidão – diante do testemunho e do anúncio dos valores do
Evangelho. Apesar da incompreensão e da intolerância de que são, por vezes,
vítimas, os discípulos de Jesus não devem deixar-se encerrar nas sacristias,
mas devem assumir corajosamente e de forma bem visível o seu empenho na
transformação das realidades políticas, econômicas, sociais, laborais,
familiares.
A luta contra os “demônios” que desfeiam o mundo e que escravizam os
homens nossos irmãos é sempre um processo doloroso, que gera conflitos,
divisões, sofrimento; mas é, também, uma aventura que vale a pena ser vivida e
uma luta que vale a pena travar. Embarcar nessa aventura é tornar-se cúmplice
de Deus na construção de um mundo de homens livres.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José
Ornelas Carvalho
A escravidão do pecado
I. O evangelho da missa deste domingo (1) fala-nos da cura de um
endemoninhado. A vitória sobre o espírito imundo – isso é o que significa
Belial ou Belzebu, nome que a Escritura dá ao demônio (2) – é mais um sinal da
chegada do Messias, que vem libertar os homens da sua escravidão mais perigosa:
a do demônio e do pecado.
Este homem atormentado de Cafarnaum dizia aos gritos: Que há entre ti e
nós, Jesus Nazareno? Vieste perder-nos? Conheço-te; és o Santo de Deus! E Jesus
mandou-lhe de forma imperativa: Cala-te e sai dele. Todos ficaram estupefatos.
João Paulo II ensina que não é de excluir que em certos casos o espírito
maligno chegue a exercer o seu domínio não só sobre as coisas materiais, mas
também sobre o corpo do homem, motivo pelo qual se fala de “possessões
diabólicas” (3).
Nem sempre é fácil distinguir o que há de preternatural nesses casos,
nem a Igreja é condescendente ou apóia facilmente a propensão para considerar
muitos fatos como intervenções diretas do demônio; mas, em princípio, não se
pode negar que, na sua ânsia de fazer mal e de induzir ao mal, Satanás chegue a
essa expressão extrema da sua superioridade4.
A possessão diabólica aparece no Evangelho acompanhada normalmente de
manifestações patológicas: epilepsia, mudez, surdez... Os possessos perdem
freqüentemente o domínio sobre si mesmos, sobre os seus gestos e palavras; há
casos em que chegam a tornar-se instrumentos do demônio. Por isso, os milagres
que o Senhor realizou neste campo manifestavam o advento do Reino de Deus e a
conseqüente expulsão do diabo dos domínios do Reino: Agora o príncipe deste
mundo será lançado fora (5). Quando os setenta e dois discípulos voltaram da
sua missão apostólica, cheios de alegria pelos resultados colhidos, disseram a
Jesus: Senhor, até os demônios se nos submetiam em teu nome. E o Mestre
respondeu-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio (6).
Desde a chegada de Cristo, o demônio bate em retirada, mas o seu poder é
ainda muito grande e “a sua presença torna-se mais forte à medida que o homem e
a sociedade se afastam de Deus” (7); devido ao pecado mortal, não poucos homens
ficam sujeitos à escravidão do demônio (8), afastam-se do Reino de Deus para
penetrarem no reino das trevas, do mal; convertem-se, em diferentes graus, em
instrumento do mal no mundo e ficam submetidos à pior das escravidões.
Devemos permanecer vigilantes para saber identificar e repelir as
armadilhas do tentador, que não descansa no seu propósito de fazer-nos mal, já
que, a partir do pecado original, ficamos sujeitos às paixões e expostos aos
assaltos da concupiscência e do demônio: fomos vendidos como escravos ao pecado
(9). “Toda a vida humana, individual e coletiva, se apresenta como luta – luta
dramática – entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais ainda: o homem
sente-se incapaz de neutralizar com eficácia os ataques do mal por si mesmo, a
ponto de sentir-se preso entre grilhões” (10). Por isso devemos dar todo o seu
sentido à última das súplicas que Cristo nos ensinou no Pai-Nosso: livrai-nos
do mal.
Além do fato histórico concreto que o trecho do Evangelho de hoje nos relata,
podemos ver nesse possesso todo o pecador que quer livrar-se de Satanás e do
pecado, pois Jesus não veio libertar-nos “dos povos dominadores, mas do
demônio; não da prisão do corpo, mas da malícia da alma” (11).
“Livrai-nos, Senhor, do Mal, do Maligno; não nos deixeis cair em
tentação. Fazei, pela vossa infinita misericórdia, que não cedamos perante a
infidelidade a que nos seduz aquele que foi infiel desde o começo” (12).
II. A experiência da ofensa a Deus é uma realidade. E o cristão não
demora a descobrir essa profunda marca do mal e a ver o mundo escravizado pelo
pecado (13).
São Paulo recorda-nos que fomos resgatados por um preço muito alto (14)
e exorta-nos firmemente a não voltar à escravidão. “O primeiro requisito para
desterrar esse mal [...] é procurar comportar-se com a disposição clara,
habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos
sentir – no coração e na cabeça – horror ao pecado grave” (15).
O pecado mortal é a pior desgraça que nos pode acontecer. Quando um
cristão se deixa conduzir pelo amor, tudo lhe serve para a glória de Deus e
para o serviço dos seus irmãos, os homens, e as próprias realidades terrenas
são santificadas: o lar, a profissão, o esporte, a política... Pelo contrário,
quando se deixa seduzir pelo demônio, o seu pecado introduz no mundo um
princípio de desordem radical, que o afasta do seu Criador e é a causa de todos
os horrores que se aninham no seu íntimo. Nisto está a maldade do pecado: em
que os homens, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram
graças, mas perverteram os seus pensamentos em vaidades, vindo a obscurecer-se
o seu coração insensato [...]. Trocaram a glória do Deus incorruptível pela
semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de
répteis (16).
O pecado – um só pecado – exerce uma misteriosa influência, umas vezes
oculta, outras visível e palpável, sobre a família, os amigos, a Igreja e a
humanidade inteira. Se um ramo de videira é atacado por uma praga, toda a
planta se ressente; se um ramo fica estéril, a videira já não produz o fruto
que se esperava dela; além disso, outros ramos podem também secar e morrer.
Renovemos hoje o propósito firme de repelir tudo aquilo que possa ser
ocasião, mesmo remota, de ofender a Deus: espetáculos, leituras inconvenientes,
ambientes em que destoa a presença de um homem ou uma mulher que segue o Senhor
de perto... Amemos muito o sacramento da Penitência. Meditemos com freqüência a
Paixão de Cristo para entender melhor a maldade do pecado. Peçamos a Deus que
seja uma realidade nas nossas vidas a sentença popular tão cheia de sentido:
“Antes morrer que pecar”.
III. Embora nunca penetremos suficientemente na realidade do mistério de
iniqüidade que é o pecado, basta que nos apercebamos da sua profunda malícia
para que nunca queiramos colocar o combate espiritual na fronteira entre o
grave e o leve, pois o maior perigo está em “desprezar a luta nessas
escaramuças que calam pouco a pouco na alma, até a tornarem frouxa, quebradiça
e indiferente, insensível aos apelos de Deus” (17).
Os pecados veniais – que não causam a morte espiritual, como o pecado
mortal, mas, pelo desleixo e pela falta de contrição que implicam, são um
convite aos pecados graves – produzem esse efeito funesto nas almas que não
lutam por evitá-los, e constituem um excelente aliado do demônio. Sem matarem a
vida da graça, debilitam-na, tornam mais difícil o exercício da virtude e mal
permitem ouvir as insinuações do Espírito Santo. “Que pena me dás enquanto não
sentires dor dos teus pecados veniais! – Porque, até então, não terás começado
a ter verdadeira vida interior” (18).
Para lutar eficazmente contra os pecados veniais, o cristão deve começar
por encará-los na sua real importância: causam mediocridade espiritual e
tibieza, e tornam realmente difícil o caminho da vida interior.
Os santos recomendaram sempre a confissão freqüente, sincera e contrita,
como meio eficaz de combater essas faltas e pecados, e caminho seguro de
progresso interior. “Deves ter sempre verdadeira dor dos pecados que confessas,
por leves que sejam – aconselha São Francisco de Sales –, e fazer o firme
propósito de emendar-te daí por diante. Há muitos que perdem grandes bens e
muito proveito espiritual porque, ao confessarem os pecados veniais como que
por costume e só por cumprir, sem pensarem em corrigir-se, permanecem toda a
vida carregados deles” (19).
Oxalá não endureçais os vossos corações quando ouvirdes a sua voz (20),
exorta-nos o Salmo responsorial da Missa. Peçamos ao Espírito Santo que nos
ajude a ter um coração cada vez mais limpo e forte, capaz de cortar o menor
laço que nos aprisione, e de se abrir a Deus tal como Ele espera de cada
cristão.
Francisco Fernández-Carvajal
A Palavra nos liberta, transformando as
relações que embasam a nossa vida
A função primordial do profeta é anunciar por meio
da Palavra, que a manifestação de Deus se realiza em meio às nossas
fragilidades, e esta manifestação é forte o suficiente para nos restaurar, seja
no âmbito individual, seja no social. Evidentemente que esta missão não
despreza o contexto social ao qual se está inserido; o autêntico profeta não
está de forma alguma desconectado dos acontecimentos na sociedade, ou seja,
àquilo que os sinais dos tempos evidenciam.
Na Antiga Aliança, especialmente na fase que segue
entre a reforma religiosa do Rei Josias (+/- 620 a.C.) e o exílio babilônio
(586-538 a.C.), período que corresponde ao auge do profetismo em Israel, Moisés
torna-se o modelo de profeta para os que assumissem tal missão, estes deveriam
possuir fielmente as características de servo e porta-voz do Senhor, tal como
Moises: “Farei surgir para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante
a ti. Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu
lhe mandar” (Dt 18,18). Esta promessa do Senhor segue, pois, a um pedido do
próprio povo que temia uma relação direta com Deus; sabiam que diante da
santidade extrema do Senhor e de sua pureza, a raça humana pecadora não poderia
subsistir. O profeta vem com a missão de intermediar esta relação e não possui
autoridade própria, muito embora se isente da responsabilidade caso não seja
ouvido pelo povo (cf. vs. 19-20). O salmo reforça a obrigação que o povo tem de
atender as palavras do profeta; ouvir implica obedecer sem restrições para
transformar a realidade de dor e sofrimento em justiça e paz, por isso a frase
que compõe o refrão: “Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!” ;
é o próprio Senhor que levanta a voz ante o louvor e culto que se inicia.
Também o salmista faz referência a Deus que se manifesta no rochedo, conforme
descrito no livro do Êxodo; a ligação é evidenciada com a evocação à
Massa-Meriba, onde segundo consta, o povo teria duvidado da presença do Senhor
e como prova, a partir da ação de Moises, seu profeta, fez brotar água – do
batismo – de dentro da rocha onde se encontrava, como sinal de que Ele se
manifesta até mesmo na rocha maciça (cf. Ex. 17,6-7).
A partir do momento em que nos fechamos aos
ensinamentos do Senhor, também nós nos tornamos rochas duras, e ainda assim,
Deus habita o nosso interior e realiza a graça necessária para que se torne
conhecido a nós. Mas este conhecer-se se dá por meio da revelação de um
mistério existencial. Nem todos são capazes de compreender e enxergar
claramente a presença do Senhor, Paulo se preocupa com esta dificuldade que
surge por conta das preocupações do dia a dia e, em sua Carta aos Coríntios, na
pequena perícope que a Segunda leitura nos apresenta neste domingo, nos dá um
conselho pastoral e bem pessoal, acerca do celibato, isto é, da opção livre por
não contrair o matrimônio, como forma de aprofundar a relação com o Senhor e
melhor se dedicar à sua proposta libertadora, longe das preocupações que o
mundo impõe. Evidentemente, Paulo não condena a vida matrimonial, ao contrário,
nos quer mais livres para servir e reconhecer o Senhor.
Toda via, ao profeta, Jesus não dá o direito de O
desvelar, por isso, no Evangelho de Marcos, é clara a repreensão que faz,
primeiro aos espíritos imundos, que o reconhecem por que se veem ameaçados em
seu poder, que exercem no centro político-religioso: a sinagoga de Cafarnaum,
mantendo as pessoas alienadas, depois àqueles que são curados pelos milagres
que realiza e depois ainda seus seguidores, que são proibidos de o apontar como
o “Filho do Homem”; ao profeta cabe apenas e tão somente anunciar a
possibilidade da Salvação, por meio da presença eficaz do Senhor que intervém
em nossa dura realidade histórica que propicia muito mais a morte do que
promove a vida. Evidentemente que a ação do profeta pressupõe sinais que
revelam esta presença divina, são os milagres presentes na ação de Jesus e na
ação dos discípulos missionários que seguem no decorrer da história da Salvação
e na vida da Igreja, mais tais sinais não são o princípio da ação profética, e
não emanam da vontade do profeta, e por isso não podem ser colocados sobre o
anúncio, sob o risco da soberba e do orgulho que matam a unção de seu
ministério, tornando-o nulo e, portanto, repugnante ao Senhor.
Se antes, Moises era o exemplo para os profetas que
surgiam, hoje, a ação de Jesus, seu anuncio e sua prática, são modelos que os
profetas contemporâneos têm por base para marcar a sua atuação evangélica no
mundo que se apresenta com inúmeros desafios para a definitiva libertação do
mal.
Jesuel
Arruda
Jesus traz o “novo” e ensina com
autoridade!
1. Marcos está preocupado em apresentar quem é
Jesus, e o faz não com definições abstratas mas o apresenta agindo. A partir
dos seus gestos, descobriremos quem é Jesus.
2. O trecho de hoje é o primeiro ato público de
Jesus. Os vv. 21-34 apresentam um dia típico da atividade de Jesus: é uma
amostra daquilo que o Mestre faz constantemente. No evangelho de hoje veremos
só um aspecto desse dia típico (que prossegue no evangelho do próximo domingo).
3. Marcos situa no tempo e no espaço o relato do
primeiro milagre: é um dia de sábado (tempo) e Jesus entra na sinagoga
(espaço), acompanhado pelos discípulos que acabara de convocar (vv. 16-20). O
sábado era uma instituição sagrada para as pessoas daquela época, dia de
celebrar a vida e a comunhão com Deus. A sinagoga era lugar de estudo e
aprendizagem. Mas o sábado e a sinagoga não estavam favorecendo a vida.
4. Jesus começa a ensinar (v. 21). Marcos não fala do
conteúdo desse ensinamento. É que, neste evangelho, ensino e prática são a
mesma coisa. O povo se admira, porque ele ensina como quem tem autoridade, e
não como os doutores da Lei (v. 22). Depois que o homem possuído por um
espírito mau foi libertado, o povo fica espantado, e todos se perguntam: “O que
é isto? Um ensinamento novo, dado com autoridade” (v. 27a).
5. O ensinamento de Jesus é novo porque liberta ao
mesmo tempo que ensina. Aí se situa a diferença entre o seu ensinamento e o dos
doutores da Lei, cuja prática não conduz à libertação. E isso tem muito a ver
com nossa prática pastoral, às vezes, feita de teorias sem imprimir uma
caminhada libertadora. Ao entrar na sinagoga, Jesus se volta para quem não
recebia atenção (v. 23). Ele faz com que o possuído pelo demônio se torne o
centro das atenções, e sua libertação é, ao mesmo tempo, prática e ensinamento.
6. O homem possuído pelo espírito mau é símbolo de
todas as pessoas despersonalizadas às quais foi impedido falar e agir como
sujeitos da própria vida e história. Não são donas de si próprias. Sua vida e
destino dependem de “outros” que pensam, falam e agem por elas. O que acontece
nessas situações? Os espíritos maus que falam em nome do povo jamais admitirão
a possibilidade de o povo vir a ser libertado.
7. É assim que o espírito mau reage diante de
Jesus: “O que queres de nós?” (v. 24a). Notemos um detalhe importante: o
espírito mau fala no plural (nós), sinal de que representa de fato tudo o que
despersonaliza e aliena as pessoas. Nesse sentido, ele é o princípio de todas
as alienações da sociedade: discursos políticos enganadores, planos econômicos
que roubam do povo o pouco que possui, entendimentos sociais que não ajudam o
povo a sair da miséria, etc..
8. Marcos está preocupado em mostrar “quem é
Jesus”. E no episódio em questão, o espírito mau reconhece que Jesus veio para
destruir todas as raízes do mal e suas manifestações: “Viestes para nos
destruir?” (v. 24a). Este é um dos momentos altos da catequese deste evangelho:
Jesus é aquele que veio destruir o mal que aliena e despersonaliza as pessoas.
9. Para Marcos, Jesus é “o forte” anunciado por
João Batista (cf. 1,7). Há mais um detalhe importante neste versículo: o
espírito mau já sabe quem é Jesus: “Tu és o Santo de Deus” (v. 24b). O Mestre é
a pessoa escolhida pelo Pai para libertar as pessoas. Para o povo da Bíblia,
conhecer o nome de alguém é, de certa forma, ter controle sobre a pessoa. Jesus
é o forte. O espírito da alienação não tem poder sobre ele.
10. Os espíritos maus sabem quem é Jesus. Mas ele
impõe-lhes silêncio: “cale-se e saia dele!” (v. 25). Não se trata simplesmente
de abafar a alienação. Isso seria pior. É preciso que as pessoas sejam de fato
livres.
11. Ao tocar no tema do silêncio imposto aos
espíritos maus, abrimos uma porta importante ao Evangelho de Marcos. Jesus age
dessa forma porque é tarefa de seus seguidores proclamarem quem ele é. Pega
muito mal o fato de Jesus ser anunciado pelo espírito da alienação. Mas, ao
longo desse evangelho, os discípulos de Jesus sofrem de ignorância crônica. São
muitas as passagens que comprovam esse detalhe. Por incrível que pareça, quem
revela Jesus como Filho de Deus é um pagão, aos pés da cruz (15,39), depois de
ter visto que o ensinamento do Mestre passa pela entrega total da vida. O que
fazer, então? A resposta está nas primeiras palavras de Jesus em Marcos:
“convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (1,15).
12. Marcos conclui o episódio com uma espécie de
sumário: “a fama de Jesus logo se espalhou por toda parte, em toda a região da
Galileia” (v. 28). A Galileia, lugar dos marginalizados, vai descobrindo que
chegou para ela a Boa Notícia do Reino que é vida para os que dela foram
privados. Jesus, contudo, irá rejeitar a possibilidade de se tornar famoso como
tentação que não constrói o Reino.
1ª leitura: Dt. 18,15–20
13. Estes versículos pertencem a uma unidade maior,
chamada Código Deuteronômico (12,1-26,19), que apresenta o projeto de uma nova
sociedade. A partir de 17,14-20 temos leis referentes à pessoa do rei (poder
político), e em 18,1-8 são apresentadas leis que regulamentam a vida dos
levitas (poder religioso). É dentro desse contexto que Deus promete um profeta
cujas características principais são: não ter nenhum compromisso com o poder
político (rei) e religioso (sacerdotes), e ser para todo o povo porta-voz e
interprete do projeto de Deus (v. 18), que visa a construção de história e
sociedade novas.
14. As religiões vizinhas a Israel tinham seus
profetas. Mas a função deles era de sustentar o sistema que concentrava a vida
na mão de poucos em detrimento da maioria sofrida. É por isso que os versículos
que antecedem o trecho de hoje proíbem em Israel a existência de adivinhos,
astrólogos e magos. Essas pessoas, tidas como profetas, eram consultadas pelas
autoridades e elas sempre se inclinavam para os interesses da classe dominante
contra o bem do povo.
15. O profeta do povo de Deus é diferente. Em
primeiro lugar, é suscitado por Javé, o Deus libertador e, em segundo lugar,
assemelha-se a Moisés (v. 15), líder que organizou e conduziu o povo rumo à
libertação e posse da terra por Deus prometida.
Daí decorrem duas responsabilidades:
- A primeira diz respeito ao povo. A tarefa deste é
dar ouvidos ao que o profeta diz, pois o próprio Deus vai pedir contas a quem
não escutar as palavras que o profeta pronuncia em nome de Javé (v. 19).
- A segunda responsabilidade diz respeito ao
próprio porta-voz de Deus. Segundo Amós – o profeta contemporâneo ao surgimento
do livro do Deuteronômio – “o Senhor Javé não faz coisa alguma sem revelar seu
segredo aos profetas, seus servos” (Am. 3,7).
16. Por isso, o profeta que tiver ousadia de dizer
em nome de Deus alguma coisa que Javé não lhe ordenou, ou que falar em nome de
outros deuses, esse profeta deverá morrer (cf.v.20). O profeta, portanto, é
aquele que mostra ao povo o que é e o que não é o projeto de Deus, sem ter
“rabo preso” com as instituições do poder político-religioso e sem se envolver
pela ideologia que conserva e sustenta uma sociedade desigual.
2ª leitura: 1Cor. 7,32–35
17. Paulo continua respondendo a várias questões
levantadas pela comunidade de Corinto. Uma delas dizia respeito à virgindade.
Alguns líderes da comunidade achavam melhor não casar. E querem saber o que o
fundador da comunidade pensa disso. Paulo sente que não tem, a esse respeito,
nenhum preceito do Senhor (v. 25).
18. Ele sabe que, (para o povo do Primeiro
Testamento), casamento e filhos eram importantes para o crescimento do povo de
Deus, pois este dependia de uma raça. Quanto maior o número de nascimentos,
mais numeroso se tornava o povo de Deus. Para Paulo esse critério não vale
mais, pois o povo da nova aliança não é uma raça, mas a união de muitos povos
em torno do projeto de Deus anunciado em Jesus. A virgindade, malvista no
Primeiro Testamento, passa a ser dom de Deus (cf. 7,7) a partir de novo ponto
de referência, ou seja, Jesus que se pôs inteiramente a serviço do projeto do
Pai
19. A ênfase, portanto, é posta agora na
evangelização, mediante a qual o povo de Deus vai crescendo em número e abrindo
novas fronteiras. O próprio Paulo se considera pai das comunidades que fundou,
e as pessoas que ele evangelizou são filhos “gerados” por ele.
20. Com a possibilidade do fim do mundo e a
urgência da evangelização alguns lideres tomaram a decisão de não se casar.
Para Paulo, virgindade/celibato só adquire sentido enquanto doação plena e
total ao Reino: “a mulher que não se casa e a virgem ocupam-se com as coisas do
Senhor, para serem santas no corpo e no espírito” (v. 34a).
21. Paulo se esforçou para ajudar os líderes da
comunidade a enfrentar os novos desafios da evangelização dentro um tempo e
realidades específicas. Contudo, esta leitura deixa algumas inquietações:
- hoje, as pessoas que trabalham nas comunidades
(exceto padres e irmãs) são casadas. É lícito afirmar que esses lideres “ficam
divididos”? (cf. vv. 33-34a);
- hoje, o fim do mundo só é preocupação para os
fundamentalistas que procuram convencer e “converter” pessoas com base no medo.
Seria esse um critério válido para evangelizar?
Refletindo.
1. Profeta é aquele que procura interpretar para o
povo o projeto de Deus, desmacarando as ideologias político-religiosas que o
deturpam. E nós, hoje? Jesus ensina libertando. E qual é a nossa prática?
Possuímos um “ensinamento novo” para levar a quem encontramos? Os espíritos
maus sabem quem é Jesus. E nós, sabemos? Quem é Jesus para nós? O domingo, –
nosso dia sagrado, – é dia de libertação para a multidão de pessoas
despersonalizadas?
2. Um povo de sacerdotes e profetas se reúne, no
domingo, para celebrar a fé no Deus vivo e libertador. A Eucaristia é o lugar
privilegiado para aprendermos quem é Jesus, e nada melhor para aprender do que
participar do seu Memorial. A Eucaristia – celebração da Palavra e do Pão –
precisa a cada domingo restaurar-nos e renovar-nos para nos recolocar no
caminho da construção de uma sociedade de valores novos: o “novo” de Jesus
Cristo.
3. Nos três séculos antes do exílio babilônico, a
figura do profeta ganhou sua imagem “clássica”. Com a reforma religiosa de
Josias (620 a.C.), surge o livro do Deuteronômio (recapitulação da Lei de
Moisés), que comporta uma definição do que deve ser um profeta.
Profeta = alguém como Moisés,
alguém que escuta a Palavra de Deus,
alguém em quem Deus coloca suas palavras na boca
para transmiti-las,
alguém que não fala em nome de Deus a não ser o que
lhe for inspirado,
alguém que não fala em nome de outros deuses,
alguém cujas palavras são confirmadas pelos fatos
(Dt. 18,15-22).
4. Pela instituição do profetismo, o povo de Israel
se distingue das nações pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e
superstição (18,14). Mas, pouco depois do exílio, a instituição entra em
declínio. A partir do século IV a.C., Israel não tem mais profetas (= não tem
mais a voz de Deus a guiar seus passos). Aí surge a saudade. O texto de Dt.
18,15.18 – que fala genericamente do “profeta como Moisés” – originalmente
indicando a instituição profética, é agora interpretado como apontando para o
Messias – profeta.
5. Alguém como Moisés. Jesus ensinando como alguém
que tem autoridade, portanto, não como os escribas! Essa “autoridade” evoca o
poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a
palavra. O povo tem a sensação de ver um profeta. Mas a presença da sua
“autoridade” esconde algo que o povo não consegue entender: o que é isso? (Mc.
1,27). Ao longo do evangelho de Marcos, Jesus revelará sua identidade de Filho
do Homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurado em Dn 7. A ele pertence a
autoridade (Dn. 7,14: exousia em grego). Interessante! Quem parece suspeitar da
verdadeira identidade de Jesus é o demônio que é expulso naquela ocasião (Mc
1,24); ele conhece seu adversário.
6. A identidade de Jesus. No evangelho de Mc paira
um mistério sobre a figura de Jesus. Aos demônios (1,25.34;3,12), aos miraculados
(1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe
publicar o exercício de sua “autoridade” que eles sentem e presenciam. O
mistério da identidade de Jesus só é desvendado na hora da morte, quando o
centurião romano, representante do mundo inteiro, proclama: “Este homem era
verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39). Só na morte fica claro, sem
ambigüidade, o modo e o sentido da obra messiânica de Cristo, segundo “os
pensamentos de Deus” (cf. 8,31-33).
7. Portanto, se Jesus ensina com autoridade,
devemos enxergar no profeta de Nazaré (cf. 6,4) o Filho do Homem, que vem com
os plenos poderes de Deus. Jesus é o profeta do Reino de Deus. Profeta, isto é,
mediador e porta-voz de Deus.
8. Vivendo ao lado dos cananeus que consultavam os
sortilégios, os búzios, os necromantes que evocavam espíritos, etc. (nada muito
diferente do que temos ainda hoje em dia!), os israelitas eram também tentados
a essas práticas. Mas Moisés lhes lembra, a partir do Sinai, que Deus lhes
falaria sempre por meio de profetas, seus porta-vozes. Não precisariam, então,
consultar os outros deuses... O profeta falaria com a autoridade de Deus.
9. No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz
de Deus e de seu Reino. Deus mostra que está com ele. Dá-lhe poder de fazer
sinais: na sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece
sua autoridade profética: “um ensinamento novo, dado com autoridade” (Mc.
1,27).
10. Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a
autoridade do profeta, mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar
que Deus está com ele, mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa
é ser porta-voz de Deus. Jesus não veio para fazer milagres, e sim, para nos
dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que participemos ativamente de seu
projeto de amor.
11. Embora os sinais não sejam sua tarefa
prioritária, todavia não deixam de revelar um pouco em que consiste o Reino que
Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus. Jesus não faz sinais danosos para
as pessoas (por ex. as pragas do Egito). O primeiro sinal de Jesus em Marcos, é
uma expulsão de demônio. A obsessão demoníaca simboliza o mal que toma conta do
ser humano. Libertando o endemoninhado de seu mal, Jesus demonstra que o Reino
por ele anunciado não é apenas um apelo livre à conversão de cada um, mas luta
vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.
12. O mal que é maior que a gente existe também
hoje. São: a crescente desigualdade social, a má distribuição de terra e de
seus produtos, a asfixia da natureza pelas indústrias e pela poluição, a vida
insalubre dos que tem menos, a corrupção, o terror, o tráfico de drogas, o
crime organizado, o esvaziamento moral e espiritual pelos meios de comunicação…
Esses demônios parecem dominar muita gente e fazem muitas vítimas. O sinal
profético de Jesus significa a libertação desse mal do mundo, que transcende
nossas parcas forças. E a sua Palavra, proferida com autoridade de Deus mesmo,
nos ensina a realizar essa libertação.
13. Jesus veio trazer a Palavra e a ação concreta
(=bondade) de Deus. Veio anunciar e instaurar o Reino de Deus no nosso meio.
Veio libertar o mundo dos homens e o mundo das coisas da ganância e da avareza
e da maldade humana. Veio restabelecer o “homem” e a “mulher” criados à imagem
e semelhança da Trindade.
14. Para esse Reino Novo é que Deus convoca a
Igreja. Ela deve apresentar ou melhor renovar as palavras e os gestos e
atitudes de Jesus. Deve confirmar que é portadora da sua mensagem com sinais e
obras, que revelam o poder de Deus superando o mal: no empenho pela justiça e
no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do meio ambiente
adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja hoje.
prof. Ângelo
Vitório Zambon
O “poder-autoridade” de Jesus
Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, a
presença de personagens carismáticos, considerados porta-vozes de Deus. A
figura do profeta ganhou sua imagem “clássica” no livro do Deuteronômio,
iniciado no tempo da reforma religiosa de Josias (± 620 a.C.) e apresentado
como recapitulação da Lei de Moisés. O profeta deve ser alguém como Moisés,
alguém que fale de modo confiável em nome de Deus (1ª leitura). Com o tempo, a
figura do “profeta como Moisés” tornou-se imagem do Messias que havia de vir.
O evangelho de hoje (Mc. 1,21-28) apresenta Jesus segundo esse modelo,
como alguém que ensina “com autoridade”, não como os escribas! Essa autoridade
evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem
a palavra. Entretanto, paira um mistério sobre a figura de Jesus no Evangelho
de Marcos. Jesus proíbe aos discípulos e aos beneficiados de suas curas
publicar o exercício de sua “autoridade” que eles presenciaram. O mistério da
identidade de Jesus só será desvendado na hora da morte, quando o centurião
romano proclamar: “Este homem era verdadeiramente Filho de Deus” (15,39). Só na
morte fica claro, sem ambiguidade, o modo e o sentido da obra messiânica de
Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. Mc. 8,31-33).
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” de 1
Coríntios. Na linha da “reserva escatológica” (cf. domingo passado), Paulo
explica as vantagens do celibato, ao menos quando assumido com vistas à
escatologia.
1ª leitura (Dt. 18,15-20)
Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações
pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (Dt. 18,14). Deus
suscitará em Israel profetas conforme o modelo de Moisés, seu porta-voz no
Sinai. O profeta deve anunciar a cada geração a palavra de Deus, não
sensacionalismo, adivinhação ou seja lá o que for. Tais serão os “profetas
“como eu” que Moisés anuncia em Dt. 18,15 (cf. 18,18). O profeta deve ser
alguém como Moisés, alguém que escute a palavra de Deus e a quem Deus coloque
suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o
que este não lhe tiver inspirado nem fale em nome de outros deuses; alguém
cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos (18,15-22). Mas, pouco depois do
exílio babilônico, essa instituição entra em declínio e a expressão “um profeta
como eu” (Dt 18,15) acaba sendo interpretada num sentido individual,
significando o Messias. Jo 6,14 (cf. 1,21.45; At. 3,22-23) mostra que Jesus foi
identificado com esse Messias-profeta.
Evangelho (Mc. 1,21-28)
A palavra de Jesus é um acontecer e um agir. Marcos não narra o conteúdo
daquilo que Jesus pregou na sinagoga de Cafarnaum, mas o efeito: Jesus age com
autoridade (1,22.27) na expulsão dos espíritos imundos, que reconhecem nele o
representante de Deus. Jesus ensina com autoridade, não como os escribas! Essa
“autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais
que confirmem a palavra.
Ora, o termo grego que Marcos usa (exousía) não é costumeiro, no
judaísmo helenístico, para falar do poder profético, e sim do poder
escatológico do “filho de homem” descrito no livro de Daniel! Ao ler Mc.
1,21-28 tem-se a impressão de que o povo viu em Jesus um profeta, o que é
confirmado pelas opiniões populares citadas em Mc. 6,15 e 8,28. Mas a presença
da “autoridade” nele esconde algo que o povo não consegue entender: “Que é
isso?” (1,27). Ao percorrermos o Evangelho de Marcos, descobrimos que a
identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do homem, o enviado
escatológico de Deus, prefigurado em Dn. 7,13-14. A este pertence a exousía, a
“autoridade” (Dn. 7,14). Quem percebe a identidade de Jesus é o demônio por ele
expulso (Mc 1,24): o demônio reconhece aquele que põe em perigo o seu domínio!
No Evangelho de Marcos paira um mistério sobre a figura de Jesus: o
“segredo messiânico”. Aos demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44;
5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o
exercício da “autoridade” que presenciaram. Se Jesus ensina com autoridade e poder
efetivo, que confirmam sua palavra profética, devemos enxergar nele o “Filho do
homem”, que vem com os plenos poderes de Deus.
2ª leitura (1Cor. 7,32-35)
No espírito da “reserva escatológica” que vimos domingo passado, dando
importância não tanto ao estado de vida, mas antes à diligência escatológica
com a qual ele é assumido, Paulo explica que o estado celibatário lhe permite
uma dedicação mais intensa àquilo que se relaciona de modo imediato com o reino
escatológico. Não condena, porém, as “mediações do reino”, entre as quais o
casamento, para o qual Jesus mesmo deu instruções (1Cor. 7,10). O celibato é um
conselho pessoal de Paulo (7,25). Como o sentido da escatologia é que o Senhor
nos encontre ocupado com sua causa, Paulo aconselha o estado de vida que deixa
nosso espírito mais livre para pensar nisso. Conselho não para truncar nossa
liberdade, mas para a libertar mais ainda. É claro, está falando do celibato
assumido, não do celibato “levado de carona”, como é, muitas vezes, o de parte
de nosso clero; porque, se não é assumido interiormente, desvia mais da causa
do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, o
celibato, além de proporcionar liberdade para Deus aos que o assumem, constitui
um lembrete para os casados, a fim de que, no meio de suas preocupações,
conservem a reserva escatológica, que os faz ver melhor o sentido último de
tudo quanto fazem.
Dicas para reflexão
Jesus é o profeta do reino de Deus. Mas que é um profeta? Conforme a 1ª
leitura, o profeta é mediador e porta-voz de Deus. Moisés lembra aos israelitas
que, quando da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex. 19), tiveram tanto
medo, que Deus precisou estabelecer um intermediário para falar com eles. Esse
intermediário foi Moisés, o primeiro “profeta bíblico”. E ele ensina que sempre
haverá profetas em Israel para serem mediadores e porta-vozes de Deus, de modo
que os israelitas já não precisam recorrer aos adivinhos cananeus, que
consultam as divindades mediante sortilégios, búzios, necromantes (que evocam
espíritos) etc. O profeta é aquele que fala com a autoridade de Deus que o
envia. Muitas vezes, sua palavra é corroborada por Deus por meio de sinais
milagrosos.
No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz de Deus e de seu reino.
Deus mostra que está com ele. Dá-lhe “poder-autoridade” para fazer sinais. Na
sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece: “Um
ensinamento novo, dado com autoridade…” (Mc. 1,27).
Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a autoridade do profeta,
mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar que Deus está com ele,
mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa é ser porta-voz de
Deus. Jesus veio para nos dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que
participemos ativamente de seu projeto de amor. Por outro lado, os sinais,
embora não sejam sua tarefa propriamente, não deixam de revelar um pouco em que
consiste o reino que Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus. Jesus nunca
faz sinais danosos para as pessoas (como as pragas do Egito, que sobrevieram
pela mão de Moisés). O primeiro sinal de Jesus, em Marcos, é uma expulsão de
demônio. A possessão demoníaca simboliza o mal que toma conta do ser humano sem
que este o queira. Libertando o endemoninhado do seu mal, Jesus demonstra que o
reino por ele anunciado não é apenas apelo livre à conversão de cada um, mas
luta vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.
O mal que é maior que a gente existe também hoje: a crescente
desigualdade social, a má distribuição da terra e de seus produtos, a lenta
asfixia do ambiente natural por conta das indústrias e da poluição, a vida
insalubre dos que têm de menos e dos que têm demais, a corrupção, o terror, o
tráfico de drogas, o crime organizado, o esvaziamento moral e espiritual pelo mau
uso dos meios de comunicação... Esses demônios parecem dominar muita gente e
fazem muitas vítimas. O sinal profético de Jesus significa a libertação desse
“mal do mundo” que transcende nossas parcas forças. E sua palavra, proferida
com a autoridade de Deus mesmo, ensina-nos a realizar essa libertação.
Como Jesus, a Igreja é chamada a apresentar ao mundo a palavra de Deus e
o anúncio de seu reino. Como confirmação dessa mensagem, deve também
demonstrar, em sinais e obras, que o poder de Deus supera o mal: no empenho
pela justiça e no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do
meio ambiente adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja
hoje.
Paulus
Jesus profeta ensina libertando
Marcos está preocupado em mostrar quem é Jesus. Mas o evangelista não se
preocupa com definições abstratas. Ele apresenta Jesus agindo. E, com base em
seus gestos, nós podemos descobrir quem Jesus é.
O trecho de hoje é de grande importância. Trata-se do primeiro ato
público de Jesus. Além disso, os vv. 21-34 apresentam um dia típico da
atividade de Jesus: o que encontramos nesses versículos é uma amostra daquilo
que o Mestre faz constantemente. No evangelho de hoje consideramos só um
aspecto desse dia típico (que prossegue no evangelho do próximo domingo).
Marcos situa no tempo e no espaço o relato do primeiro milagre: é um dia
de sábado (tempo) e Jesus entra na sinagoga (espaço), acompanhado pelos
discípulos que acabara de convocar (vv. 16-20). O sábado era uma das
instituições sagradas para as pessoas daquela época, dia de celebrar a vida e a
comunhão com Deus. A sinagoga era lugar de estudo e aprendizagem. Mas o sábado
e a sinagoga não estavam favorecendo a vida.
Jesus começa a ensinar (v. 21). Marcos não fala do conteúdo desse
ensinamento. É que, neste evangelho, ensino e prática são a mesma coisa. O povo
se admira, porque ele ensina como quem tem autoridade, e não como os doutores
da Lei (v. 22). Depois que o homem possuído por um espírito mau foi libertado,
o povo fica espantado, e todos se perguntam: “O que é isto? Um ensinamento
novo, dado com autoridade” (v. 27a).
O ensinamento de Jesus é novo porque liberta ao mesmo tempo que ensina.
Aí se situa a diferença entre o seu ensinamento e o dos doutores da Lei, cuja
prática não conduz à libertação. E isso tem muito que ver com nossa prática
pastoral, às vezes feita de teorias, sem imprimir uma caminhada libertadora. Ao
entrar na sinagoga, Jesus se volta para quem não recebia atenção (v. 23). Ele
faz que o possuído pelo demônio se torne o centro das atenções, e sua
libertação é, ao mesmo tempo, prática e ensino.
O homem possuído pelo espírito mau é símbolo de todas as pessoas
despersonalizadas às quais se impediu falar e agir como sujeitos da própria
vida e história. Não são donas de si próprias. Sua vida e destino dependem de
“outros” que pensam, falam e agem por elas. O que acontece nessas situações? Os
espíritos maus que falam em nome do povo jamais admitirão a possibilidade de
este vir a ser libertado. É assim que o espírito mau reage diante de Jesus: “O
que queres de nós?” (v. 24a). Notemos um detalhe importante: o espírito mau
fala no plural (nós), sinal de que representa de fato tudo o que despersonaliza
e aliena as pessoas. Nesse sentido, ele é o princípio de todas as alienações da
sociedade: discursos políticos enganadores, planos econômicos que roubam do
povo o pouco que possui, entendimentos sociais que não ajudam o povo a sair da
miséria etc.
Marcos está preocupado em mostrar quem é Jesus. E, no episódio em
questão, o espírito mau reconhece que Jesus veio para destruir todas as raízes
do mal e suas manifestações: “Vieste para nos destruir?” (v. 24a). Este é um
dos momentos altos na catequese deste evangelho: Jesus é aquele que veio
destruir o mal que aliena e despersonaliza as pessoas. Para Marcos, Jesus é “o
forte” anunciado por João Batista (cf. 1,7). Há mais um detalhe importante
neste versículo: o espírito mau já sabe quem é Jesus: “Tu és o Santo de Deus”
(v. 24b). O Mestre é a pessoa escolhida pelo Pai para libertar as pessoas. Para
o povo da Bíblia, conhecer o nome de alguém é, de certa forma, ter controle
sobre a pessoa. Jesus é o forte. O espírito da alienação não tem poder sobre
ele.
Os espíritos maus sabem quem é Jesus. Mas ele impõe-lhes silêncio:
“Cale-se e saia dele!” (v. 25). Não se trata simplesmente de abafar a
alienação. Isso seria pior. É preciso que as pessoas sejam, de fato, livres.
Ao tocar no tema do silêncio imposto aos espíritos maus, abrimos uma
porta importante no Evangelho de Marcos. Jesus age dessa forma porque é tarefa
de seus seguidores proclamarem quem ele é. “Pega muito mal” o fato de Jesus ser
anunciado pelo espírito da alienação. Mas, ao longo deste evangelho, os
discípulos de Jesus sofrem de ignorância crônica. São muitas as passagens que
comprovam esse detalhe. Por incrível que pareça, quem revela Jesus como Filho
de Deus é um pagão, aos pés da cruz (15,39), depois de ter visto que o
ensinamento do Mestre passa pela entrega total da vida. O que fazer, então? A
resposta está nas primeiras palavras de Jesus em Marcos: “Convertam-se e
acreditem na boa notícia” (1,15).
Marcos conclui o episódio com uma espécie de sumário: “A fama de Jesus
logo se espalhou por toda parte, em toda a região da Galileia” (v. 28). A
Galileia, lugar dos marginalizados, vai descobrindo que chegou para ela a boa
notícia do Reino: vida para os que dela foram privados. Jesus, contudo, vai
rejeitar a possibilidade de se tornar famoso como tentação que não constrói o
Reino.
Paulus
Dos que se casam e dos que não se casam
Somos convidados a viver em profunda intimidade com
o Senhor. A partir do momento em que tivemos a absoluta certeza de que o
Ressuscitado nos chamava para o seu seguimento quisemos, e continuamos
querendo, levar a sério nossa vida cristã. Casados ou solteiros,
temos a peito esse seguimento do Senhor. Na epístola proclamada na liturgia de
hoje Paulo fala das “preocupações” do seguidor de Cristo. Coloca o tema vivido
pelos se casam e pelos que não se casam.
“Eu gostaria que estivésseis livres de
preocupações. O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor. O casado
preocupa-se com as coisas do mundo, e procura agradar à sua mulher e,
assim está dividido. Do mesmo modo, a mulher não casada e a jovem solteira têm
zelo pelas coisas do Senhor e procuram ser santas de corpo e de espírito. Mas a
que se casou preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar seu marido”.
Estas poucas linhas de Paulo não são fáceis de
serem interpretadas. A impressão que se tem é que ele privilegiaria a vida de
consagração a Deus no estado da vida de virgindade.
Paulo, por vezes, acredita que o tempo do fim
esteja próximo. Então, o que importa é ocupar-se do Senhor. Talvez, em
parte, por esta razão essa preferência pelo não casamento. As pessoas teriam
menos preocupações. É preciso entender bem essa “preferência” pelo estado
virginal.
Podemos muito bem imaginar um casal cristão,
vivendo a intimidade da união de seus corações e de seus corpos, no seio de uma
família com filhos, da vida social e profissional completamente
consagrado e de dedicado a Deus. Vivendo no meio do mundo esses cristãos
casados não absolutizam dinheiro, prestigio, sexo e casamento, mas vivem tudo
sob a ótica do discernimento e do bom senso. Não é simplesmente por causa do
casamento que deixarão de estar com Deus, privar de sua intimidade, viver sob o
bafejo de seu amor na vida conjugal e familiar. Pode ser que, algumas vezes, as
preocupações pelas coisas da terra e as vaidades impeçam uma maior união com o
Senhor. Isso depende de cada casal e de cada pessoa. Há pessoas que não
se casam, e nem por isso se ocupam das coisas do Senhor.
Paulo dá a entender que as pessoas que não se casam
podem ser mais livres para o Senhor. Desde os tempos apostólicos houve oa que
resolveram não se casar. Experimentaram uma forte vontade de serem totalmente
do Senhor e foram reservando seu tempo, sua história, suas energias mais
preciosas para o Senhor. Santo Antão, nos primeiros séculos, inventou um
gênero de vida marcado pela oração, jejuns, ascese, pobreza e consagração
virginal ao Senhor. Este estilo de vida ainda é seguido hoje. Há os que não se
casam, não por rejeitarem o matrimônio mas porque querem ter como única
preocupação as coisas do Senhor…Essas pessoas para serem significativas
terão vida de intimidade total com o Senhor, farão suas as preocupações
de seu Mestre e vão se esvaziando de si mesmas.
Paulo conclui: “O que eu desejo é levar-vos ao que
é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações”.
Será que os cuidados da casa, do casamento, da
família nos distanciam do Senhor? Como vemos a vida religiosa em nossos dias?
frei Almir
Ribeiro Guimarães
O “poder” de Jesus
Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, o
fato de ser orientado por personagens carismáticos, considerados porta-vozes de
Deus.
Nos três séculos antes do exílio babilônico, a figura do profeta ganhou
sua imagem “clássica”. Com a reforma religiosa de Josias (620 a.C.), surge o
livro do Deuteronômio, recapitulação da Lei de Moisés. Comporta uma espécie de
definição do que deve ser um profeta (nem todos eram assim!): alguém como
Moisés, alguém que escute a palavra de Deus, alguém a quem Deus coloque suas
palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que
este não lhe tiver inspirado, nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas
palavras sejam confirmadas pelos fatos (Dt. 18,15-22) (1ª leitura).
Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações
pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (18,14). Mas pouco
depois do exílio, a instituição entra em declínio. A partir do século IV a.C.,
Israel não tem mais profetas. Aí surge a saudade. O texto de Dt. 18,15.18, que
fala genericamente do “profeta como Moisés” – originalmente indicando a
instituição profética - é agora interpretado no sentido individual, como
apontando uma figura do tempo messiânico: o Messias-profeta.
Ora, a figura do “profeta como Moisés”, que a 1ª leitura da liturgia de
hoje evoca, é apenas um “aperitivo” daquilo que o evangelho (Mc. 1,21-28) deixa
entrever. Apresenta Jesus como alguém que ensina com autoridade, portanto, não
como os escribas! Essa “autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome
de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. Porém, o termo grego (exousia)
não é costumeiro no judaísmo helenístico para falar do poder profético, e sim,
do poder escatológico do Filho de Homem e de Deus, no livro de Daniel! O
episódio de Mc. 1,21-28 (evangelho) dá a entender que o povo teve, diante de
Jesus, a impressão de ver um profeta, o que é confirmado pelas opiniões
populares citadas em Mc. 6,15 e 8,28.
Mas a constatação da presença da “autoridade” esconde algo que o povo
não consegue entender: “Que é isso?” (1,27). Ao percorrermos o evangelho de Mc,
descobriremos que a identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do
Homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurado em Dn. 7. A este pertence a
exousia (Dn. 7,14), a “autoridade”. Quem parece suspeitar a identidade de Jesus
é o demônio que é expulso naquela ocasião (Mc 1,24); ele conhece seu
adversário.
No evangelho de Mc paira um mistério sobre a figura de Jesus. Aos
demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos
discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o exercício de sua
“autoridade” que eles presenciaram. O mistério da identidade de Jesus só é
desvendado na hora da morte, quando o centurião romano, representante do mundo
inteiro, proclama: “Este homem era verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39). Só
na morte fica claro, sem ambigüidade, o modo e o sentido da obra messiânica de
Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. 8,3 1-33).
Portanto, se Jesus ensina com autoridade (e com essa misteriosa
autoridade expulsa demônios, confirmando sua palavra profética), devemos
enxergar no profeta de Nazaré (cf. 6, 4) o Filho do Homem, que vem com os
plenos poderes de Deus.
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” da 1Cor. Na
linha da “reserva escatológica” (cf. dom. passado), Paulo explica as vantagens
do celibato, ao menos, quando assumido com vistas à escatologia. Como o sentido
da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com sua causa (cf. 1° dom.
Advento B), é melhor adotar o estado de vida que deixe nosso espírito mais
livre para pensar nisso. É um conselho de Paulo, não para truncar nossa
liberdade, mas para a libertar mais ainda.
Claro, está falando do celibato assumido, não do celibato “levado de
carona”, como é, muitas vezes, o do nosso clero; pois, quando não é assumido
interiormente, desvia mais a mente da causa do Senhor do que as preocupações
matrimoniais. Bem entendido, porém, o celibato, além da liberdade para Deus que
proporciona aos que o assumem, é também um lembrete para os casados,
ajudando-os, no meio de suas preocupações, a conservarem, também eles, a reserva
escatológica, que os faz ver o caráter provisório de seu estado e problemas e,
sobretudo, o sentido último que deve ser dado a tudo isso.
Johan Konings
"Liturgia dominical"
O sábado, quando se refere a Jesus, aparece sempre nos Evangelhos como
um dia de ação e, para os judeus, ele é o coração da lei de Israel, ou seja, é
preciso observar os mandamentos segundo a vontade de Deus. Eles entendiam as
leis e, como Deus descansou no sétimo dia, no sábado, todos devem também
descansar e dedicá-lo a adorar Aquele que tudo criou. “O sétimo dia é sábado;
repouso absoluto em honra do Senhor” (Ex. 31,15), porém, Jesus veio ensinar que
o importante é o homem e não a lei, e que o Amor precede as regras, portanto,
“o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc. 2,27).
A idéia central deste Evangelho não é exatamente quando ou o quê Jesus
ensina, mas como Ele ensina; a autoridade que Ele imprime em Suas palavras e
ações e o efeito que provoca nas pessoas, que vai da admiração ao espanto. É um
ensinamento novo porque liberta e ensina ao mesmo tempo.
Na Bíblia, todo profeta é um portador de Deus, mas Jesus vai além,
porque Ele é o próprio Deus que se fez presente no diálogo com o homem, e a Sua
autoridade está tanto nas Palavras como no poder da sua ação, por isso é
repetida nos dois versículos: 22 e 27.
O espírito impuro fala em nome do povo dependente e submisso que
reconhece Jesus e O revela como o Santo de Deus, enquanto a maioria, ou a
totalidade dos que ali se encontram, O desconhecem como tal.
As pessoas, espantadas, reconhecem a autoridade de Jesus porque
presenciam o demônio saindo do corpo do possesso e obediente a Ele, mas ainda
não compreendem quem é esse Homem e de onde vem tal autoridade, perguntando
entre si: “O que é isso?”
Jesus veio para destruir todas as raízes do mal e as suas manifestações.
Ele é a pessoa escolhida pelo Pai para libertar o Seu povo!
Ao escrever esta passagem, Marcos quer passar a confiança em Jesus como
um Mestre e alguém que cura os doentes. E é, exatamente, o fato das pessoas
ficarem assustadas e impressionadas com a autoridade de Jesus, que a Sua fama
se espalha por toda a Galiléia e, posteriormente, desperta em Herodes e em
outros tantos poderosos, o desejo de destruí-Lo por uma falsa ameaça de poder.
Jesus apresenta uma nova doutrina nos seus ensinamentos através de
várias passagens, como nas bem-aventuranças, no mandamento do amor, nos
conselhos evangélicos; e, com autoridade, expulsando os demônios com efeito
imediato.
Pequeninos do Senhor
“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento,
pois ensinava como quem tem autoridade, não como os
escribas”.
Hoje a Palavra a nós proclamada mostra o Senhor ensinando. O Evangelho
nos dá conta que seu ensinamento causava admiração. E por quê? Porque Jesus não
é um simples mestre, um mero rabi... Vocês escutaram na primeira leitura o que
Moisés prometera – ou melhor, o que Deus mesmo prometera pela boca de Moisés:
“O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos,
um profeta como eu: a ele deverás escutar!” Eis! Moisés, o grande líder e
libertador de Israel, aquele através do qual Deus falava ao seu povo e lhe dera
a Lei, anuncia que Deus suscitará um profeta como ele. E os judeus esperavam
esse profeta. Chegaram mesmo a perguntar a João Batista: “És o profeta?” (Jo
1,21), isto é, “És o profeta prometido por Moisés?” Pois bem, caríssimos: esse
Profeta, esse que é o Novo Moisés, esse que é a própria Palavra de Deus chegou:
é Jesus, nosso Senhor! Como Moisés, ele foi perseguido ainda pequeno por um rei
que queria matar as criancinhas; como Moisés, ele teve que fugir do tirano
cruel, como Moisés, sobre o Monte – não o Sinai, mas o das Bem-aventuranças –
ele deu a Lei da vida ao seu povo; como Moisés, num lugar deserto, deu ao povo
de comer, não mais o maná que perece, mas aquele pão que dura para a vida
eterna. Jesus é o verdadeiro Moisés; e mais que Moisés, “porque a Lei foi dada
por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).
Jesus é a plenitude da Lei de Moisés, Jesus não é somente um profeta, mas é o
próprio Deus, Senhor dos profetas, Senhor de Moisés! Moisés deu testemunho dele
no Tabor e cairia de joelhos a seus pés se o encontrasse. Jesus, caríssimos, é
a própria Palavra do Pai feita carne, feita gente, habitando entre nós!
Mas, essa Palavra não é somente voz, sopro saído da boca. Essa Palavra
que é Jesus é tão potente (lembrem-se que tudo foi criado através dela!), que
não somente fala, mas faz a salvação acontecer. Por isso os milagres de Jesus,
suas obras portentosas: para mostrar que ele é a Palavra eficaz e poderosa do
nosso Deus. Ao curar um homem atormentado na sinagoga de Cafarnaum, Jesus nosso
Senhor mostra toda a sua autoridade, seu poder e também o sentido de sua vinda
entre nós: ele veio trazer-nos o Reino de Deus, do Pai, expulsando o reino de
satanás, isto é, tudo aquilo que demoniza a nossa vida e nos escraviza! –
Obrigado, Senhor, Jesus, pela tua vinda! Obrigado pela tua obra de libertação!
Muito obrigado porque, em ti, tudo é Palavra potente: tua voz, tuas ações
salvadoras, teu modo de viver, teus exemplos, tuas atitudes! Tu não somente
tens palavras de vida eterna; tu mesmo és a Palavra de Vida! Obrigado! Dá-nos a
capacidade de escutar-te sempre!
Se Jesus é essa Palavra potente, Palavra de vida, então viver sua
Palavra é encontrar verdadeiramente a vida e a liberdade. Na leitura do
Deuteronômio que escutamos, Deus dizia, falando do profeta que haveria de vir:
“Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe
mandar. Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele
pronunciar em meu nome”. Ora, se Jesus é a Palavra de Deus, então é nele que
encontramos a luz para os nossos passos e o rumo da nossa existência. Num mundo
como o nosso, que prega uma autonomia louca do homem em relação a Deus, uma
autonomia contra Deus, nós que cremos em Jesus, devemos cuidar de nos converter
sempre a ele, escutando sua palavra. Ele nos fala, caríssimos: fala-nos nas
Escrituras, fala-nos na voz da sua Igreja, fala-nos íntimo do coração, fala-nos
na vida e nos acontecimentos... Certamente, ouvi-lo não é fácil, pois muitas
vezes sua palavra é convite a sairmos de nós mesmos, de nossos pensamentos
egoístas, de nossas visões estreitas, de nossa sensibilidade quebrada e ferida
pelo pecado. Sairmos de nós para irmos em direção ao Senhor, iluminados pela
sua santa palavra – eis o que Cristo nos propõe hoje!
É tão grande a bênção de encontrar o Senhor, de viver nele e para ele,
que São Paulo chega mesmo a aconselhar o celibato, para estarmos mais
disponíveis para o Senhor. Vocês escutaram a segunda leitura da Missa deste
hoje. O apóstolo recomenda o ficar solteiro, não por egoísmo ou ódio ao
matrimônio, mas para ter mais condições de ser solícitos para com as coisas do
Senhor e melhor permanecer junto ao senhor. É este o sentido do celibato dos
religiosos e dos padres diocesanos: recordar ao mundo que Cristo é o Senhor
absoluto de nossa vida e que por ele vale a pena deixar tudo, para com ele
estar, para, como Maria irmã de Marta, estar a seus pés, escutando-o e para ele
dando o melhor de nós. O celibato, que num mundo descrente e sedento de prazer
sensual, é um escândalo, para os cristãos é um sinal do primado de Cristo e do
seu Reino.
Rezemos para que aqueles que prometeram livremente viver
celibatariamente cumpram seus compromissos com amor ao Senhor e à Igreja.
Rezemos também para que os cristãos saibam ver no celibato não uma armadilha ou
uma frustração, mas um belíssimo sinal profético, um verdadeiro grito de que
Deus deve ser amado por tudo e em tudo, acima de todas as coisas. Se os casados
mostram a nós, celibatários, a beleza do amor conjugal e do mistério de amor
esponsal entre Cristo e a Igreja, nós, solteiros pelo Reino dos Céus, mostramos
aos casados e ao mundo que tudo passa e tudo é relativo diante da beleza, da
grandeza e do absoluto dAquele que Deus nos enviou: o seu Filho bendito, sua
Palavra eterna, Verdade que ilumina, liberta e dá vida. A ele a glória para
sempre.
dom Henrique Soares da
Costa
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