1º DOMINGO
QUARESMA
DOMINGO- 18 de
Fevereiro – Ano B
Evangelho Mc 1,12-15
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Precisamos seguir o exemplo de Jesus.
Ele foi forte diante do maligno, e venceu suas tentações. Continuar lendo
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FIEIS A CRISTO VENCEREMOS TODAS AS TENTAÇÕES!- Olivia Coutinho
1º DOMINGO DA QUARESMA
Dia 18 de Fevereiro de 2018
Evangelho de Mc1,12-15
Estamos no início da Quaresma, um tempo forte na vida da Igreja e de
todos os que se dispõem a caminhar com o Cristo vencedor.
Neste tempo propício a um recolhimento interior, somos chamados a ouvir
a voz do Senhor, que nos fala a todo instante, mas nem sempre, ouvimos a sua
voz, por estarmos dando ouvidos as vozes do mundo.
A liturgia deste tempo, tem como propósito, despertar em nós, o desejo
de mudança, de reaver os valores do evangelho, que às vezes vamos deixando de
lado, por estarmos voltados para os “valores” do mundo
Nas palavras de Jesus, que iremos meditar neste tempo reflexivo, haverá
sempre um apelo de conversão, e todos nós sabemos que não é fácil
percorrer este caminho, sozinhos nos damos conta, pois mudança, é sempre um
grande desafio, requer coragem, determinação, renuncias, e acima de tudo,
o constante exercício do perdão.
A penitência, o jejum e a oração, são os três exercícios que constituem
o tripé da nossa vivencia quaresmal.
O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do seu
coração de Pai misericordioso, nunca fecha, ela está sempre aberta para nos
receber de volta, basta querermos voltar!
Aproveitemos, pois, este tempo em que a graça e a misericórdia
transbordam do coração do Pai, para voltarmos ao seu convívio!
O evangelho que a liturgia deste primeiro Domingo da Quaresma nos
convida a refletir, apresenta-nos Jesus no deserto, sendo
tentado a desistir da sua missão, a trocar o projeto de Deus por bens
materiais, mas a sua resposta é taxativa: “Não só de pão vive o homem, mas de
toda palavra que sai da boca de Deus”. Mt4,4.
Jesus foi tentado a aceitar e a confiar no poder do demônio, mas Ele
respondeu com firmeza: “...Não tentarás o Senhor teu Deus.”
O Filho de Deus venceu o inimigo por estar fortalecido no Espírito do
Pai, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente a sua missão:
libertar a humanidade da escravidão do pecado.
Assim como aconteceu com Jesus, acontece também conosco, a tentação do
TER e do PODER, está sempre a nos rondar, precisamos estar sempre atentos,
vigilantes, para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é
oportunista, ela surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a
mudar de vida, ou quando estamos enfraquecidos na fé.
Para nos seduzir, o mal chega até a nós, disfarçado do bem, por isto,
precisamos estar sempre atentos para não tornarmos presas fácies do inimigo,
deixando-nos enganar pelas aparências.
Ninguém está livre das tentações, elas estão por toda parte,
principalmente onde existe o bem, para vencê-la, é importante estarmos sempre
em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos de uma arma poderosíssima,
que é a oração!
Ser tentado, não significa pecar, pecar é cair na tentação. E todos nós,
já passamos pela a experiência de ser tentado, o próprio Jesus viveu esta
experiência, é a nossa ligação com Ele, que nos torna resistentes as tentações,
que não nos deixa cair nas ciladas preparadas pelo o inimigo.
Que o Espírito Santo de Deus, que fortaleceu Jesus nas tentações, nos
fortaleça também, e que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o SER,
pelo o TER!
Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “...não nos
deixeis cair em tentação”... Peçamos a Ele todos os dias esta graça!
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
PARA OUVIR O ÁUDIO DESTA REFLEXÃO,
ACESSE O LINK: https://www.spreaker.com/user/radiolibertador1/programa-refletindo-o-evangelho-1-domngo
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Compromissos batismais
Neste I Domingo da Quaresma somos convidados a refletir sobre os
compromissos assumidos no dia do nosso batismo. Deus fez conosco uma Aliança
pela Vida (1ª leitura), essa responsabilidade nos envolve por inteiro e é a
referência que aprova ou rejeita a nossa consciência diante de Deus (2ª
leitura). O Evangelho nos convida a não termos medo da luta pelo testemunho dos
nossos compromissos batismais na sociedade assumindo a nossa missão de féis e
corajosos discípulos de Cristo capazes de conviver com “animais selvagens”, mas
acolher “anjos” como parceiros no serviço ao Reino de Deus.
1ª leitura: Gênesis 9,8-15
Deus quer uma aliança pela vida
Esta breve passagem nos apresenta Noé como alguém profundamente
comprometido com o projeto de Salvação de sua Família. Desde seu nascimento Noé
é visto como sinal de bênção e consolo (cf. Gn. 5,29). Esta primeira leitura
tem uma profunda relação com o Evangelho. Encontramos vários pontos semelhantes
nas narrações sobre Noé e Jesus (I leitura e evangelho). Jesus nos é
apresentado por Marcos como o homem impelido pelo Espírito ao “deserto”, onde
passa “quarenta dias” (=sua vida sintoniza com o Pai), que viveu entre “animais
selvagens”, era servido por “anjos” (cf. Mc. 1,13) e aos pobres anuncia a conversão
para a Salvação. Noé viveu entre gigantes heróis e famosos (cf. Gen 6,4), num
ambiente de maldade crescente (cf. Gn. 6,5.11.12), acolheu o projeto de Deus de
renovar a face da terra e dentro da arca conviveu com animais domésticos e
feras (cf. Gn. 9,9). “Noé era um homem justo, íntegro entre seus
contemporâneos, e andava com Deus” (Gn. 6,9). O patriarca Noé é a prefiguração
do autêntico cristão que zela pela sua Salvação através da fé: a arca. A fé é a
arca que nos conduz com segurança ao porto seguro definitivo, o paraíso. Quem
não tem fé, facilmente “se afoga” nas águas turbulentas da história, ao
contrário, para o batizado, animado pelo Espírito Santo, o dilúvio representa
desafios a serem superados, ou seja, o egoísmo, a violência, a indiferença etc.
Esse compromisso de Salvação da pessoa humana tem uma dimensão cósmica
(universal), pois beneficia também o resto da criação. Noé, salvando sua
família, também salva a natureza por ele cuidada. Paulo fala disso quando diz
que a criação “geme e sofre esperando por libertação” (cf. Rm 8,22). Deus quer
conosco uma aliança pela Vida, uma aliança “bioética” e “ecológica”. Faz a sua
parte e nos dá ao longo da nossa história de vida pessoal e social, muitos
sinais arco Iris.
Nossa Vida:
Com a celebração do nosso batismo assumimos, em síntese, um único
compromisso: zelar pela nossa Salvação... estrategicamente, amando a Deus e os
outros! Somos convidados neste I Domingo da Quaresma a seguir o exemplo de Noé
renovando diante de Deus e da comunidade o nosso compromisso de construir e
calafetar cuidadosamente a nossa arca ao longo da nossa história: nossa Fé
(1Pedro 3,20 cf. II leitura). Uma barca furada, logo afunda! Uma canoa
rasa logo é invadida pelas águas do dilúvio da história. Um barco sem leme fica
à deriva das ondas. O Espírito nos conduz! A fé é um dom, mas também é uma
responsabilidade humana (construção) porque para ser aprofundada é necessário,
por parte da pessoa, o seu esforço, reflexão, estudo, oração... A calafetagem é
o ato de tapar os furos de uma embarcação para que não entre água e, assim, não
afunde. Nossa fé também precisa ser “calafetada”: deve ser, ao máximo possível,
preservada de impurezas das águas do dilúvio dos males do contexto
sócio-cultural onde vivemos. Quando ela fica contaminada, se torna ideologia;
deixa de ser um caminho do Espírito que nos conduz a Vida Eterna.
SALMO 25 (24): este salmo é uma oração de súplica na qual apresenta
duas situações distintas: de um lado o suplicante sente-se pressionado por seus
inimigos; sentindo-se solitário, infeliz, angustiado implora socorro a Deus.
Por isso pede que não fique envergonhado, e seus inimigos não triunfem sobre si
(cf. Sl. 25,2.3.16-20). Por outro lado parece-lhe fortemente, como
inimigo que o aflige, a consciência de pecado. Pede a Deus que não se lembre
dos desvios de sua juventude (cf. Sl. 25,7), que olhe seu sofrimento e miséria,
mas perdoe seus pecados todos (cf. Sl. 25,18). O Salmista revela ainda sua
consciência da necessidade de andar nos caminhos de Deus (cf. Sl. 25,4.5), pois
Deus é bondade e retidão, e aponta o caminho da vida para os pecadores, bem
como Ele guia os pobres conforme o direito, e ensina a eles o seu caminho (Sl.
25,8-10).
2ª leitura: 1 Pedro 3,18-22
O efeito absoluto da morte de Cristo
Em primeiro lugar Pedro nos apresenta a validade absoluta da morte de
Cristo, Senhor da história: “Cristo morreu uma vez por todas pelos pecados”
(1Pd. 3,18). Isso significa que o benefício do seu sacrifício na cruz atingiu
também aqueles que morreram antes Dele (cf. 1Pd. 3,19-20). Esse absoluto Dom é
real e sempre presente pelo fato de que Jesus Cristo é o Deus encarnado e,
enquanto Deus, Ele tem o domínio de toda a história: presente, passado, futuro
e submeteu a si todas as suas criaturas e poderes (cf. Cl. 1,16; 1Pd. 3,22). Para
Deus não há limites. Para aqueles que vivem na era cristã somos convidados a
acolher a graça do convite à Salvação através da vivência dos nossos
compromissos batismais: cuidar de cultivar uma “boa consciência diante de Deus,
mediante a ressurreição de Jesus Cristo” (cf. (1Pd. 3,21). Essa “boa
consciência diante de Deus” da qual Pedro fala, significa o confronto ao qual
submetemos o nosso agir: escolhas e atitudes. Para Paulo a bondade “da
consciência” é testemunhada pelo Espírito Santo (cf. Rm. 9,1) e não pela
própria pessoa, pois a falta de acusação da consciência não significa
inocência: Deus é quem tudo julga (cf. 1Cor. 4,4),
porque só ele tem pleno conhecimento de quem somos, o que sentimos, o que
pensamos, o que decidimos e o que fazemos. Da parte do cristão, resta o dever
se fazer sempre o bem (cf. Rm. 2,10; Rm. 12,17; Gl. 6,9).
Nossa vida
Deus já fez a sua parte e continua nos fazendo o bem nos dando sua
assistência através do Espírito Santo que nos orienta na vivência dos
compromissos do nosso batismo. O desafio da nossa parte é aquele de viver com a
“consciência tranqüila” porque lutamos para colocar em prática a dinâmica
vontade de Deus. Como Paulo já bem frisou, a consciência da pessoa é
susceptível, ou seja, passível de erro: pode ser alienada, viciada,
entorpecida, anestesiada, torturada, enganada... Uma consciência nesse estado
perde a sua função crítica que é aquela de, imediatamente, emitir um juízo
sobre a qualidade das ações da pessoa a partir do critério Verdade-Caridade! A
fé, que se traduz em serviço aos outros, é o princípio supremo que avalia e
julga a própria consciência pessoal (cf. Mt 25, 31-46; Fl 4,4-8).
Evangelho: Marcos 1,12-15
Jesus é tentado a abandonar os pobres
Marcos nos apresenta Jesus ligado à Galiléia, Ele veio dessa região
antes do seu batismo (cf. Mc. 1,9) e pós o batismo a ela retorna (cf. Mc.
1,14). O Filho de Deus tudo transcende, portanto, Marcos em seu evangelho não
está preocupado em evidenciar o apego de Jesus ou a opção por um território
simplesmente. Para melhor entendermos essa questão basta lembrarmos o fato
histórico de que no tempo de Jesus essa região da Palestina era habitada
basicamente por pobres e era alvo de pouco cuidado político. O centro de
referência era a Judéia e Jerusalém era a capital para onde tudo convergia. Com
isso Marco quer dar ênfase ao fato que, desde o início da vida pública de
Jesus, Ele mostrou a todos sua radical opção preferencial pelos excluídos e
pobres. Começa cuidando dos pobres galileus: um jovem galileu promovendo seus
irmãos! Nos versículos apresentados hoje, Marcos nos revela que essa missão é
difícil, pois a pobreza tem uma história, deixa sequelas na vida das pessoas, é
gerada e há pessoas que dela se interessam para mantê-la e dominar os
empobrecidos. Nessa missão o grande aliado de Jesus é o Espírito Santo. Ele
impele Jesus ao deserto, ou seja, a viver movido por uma contínua relação com o
Pai, quem lhe confiou essa missão (cf. Mc. 1,12). O deserto, mais que um lugar
geográfico do ponto de vista bíblico, é um estado de espírito que leva o fiel a
confessar sua consciência de dependência de Deus e sua necessária comunhão com
Ele. O deserto para Marco também significa a Missão de Jesus com a totalidade
das suas dificuldades. A fidelidade à Missão implicará a necessária experiência
do serviço, sacrifício, da generosidade, da descentralização pessoal, do
desapego, da total dependência de Deus. É dentro desse contexto de luta que
Jesus é tentado por Satanás a abandonar a pobre humanidade. Para Satanás “cair”
na tentação seria abandonar os pobres ou conviver com eles mantendo-os como
estão. Abandonar os pobres sedentos de salvação, significava rejeitar a cruz (o
martírio). Para Satanás “cair” na tentação seria viver no conforto pessoal e,
em vez de conviver com “animais selvagens” (duros opositores), seria fechar-se
a um grupo de amigos, ser aplaudido e querido. Jesus viveu entre “animais
selvagens” e “anjos”. Marco simbolicamente com essa imagem, quer nos dizer que
Jesus teve opositores, inimigos, pessoas que lhe foram indiferentes, que o
rejeitavam, que não o acolhiam... quando um animal selvagem vê um humano, corre
ou ataca! Mas não foi só isso. Jesus também viveu rodeado de “anjos” que o
serviam: seus discípulos, os pobres que acorriam a seu encontro movidos pela
fé, Maria sua mãe, as mulheres que o acompanhavam e lhe ajudavam (cf. Lc 8,
1-3). Jesus não agia à semelhança de um sociólogo mapeando a pobreza. O que lhe
interessava era, antes de tudo, o coração, a mentalidade, a postura das
pessoas. Por isso os pobres são chamados à conversão (cf. Mc 1,15). É
necessário decidir-se pela Salvação integral e vida eterna.
Nossa Vida:
Logo após o seu batismo Jesus, intrepidamente, assume sua missão num
contexto profundamente marcado pela violência: seu precursor, João Batista,
tinha sido cruelmente decapitado. Jesus mesmo, diante dos discípulos reconheceu
esse drama dizendo: “desde os dias de João Batista até agora, o Reino do Céu
sofre violência...”(Mt 12,12). Contudo, essa realidade em nada intimida Jesus
que, totalmente movido pelo poder do Espírito Santo inicia o anúncio do Amor e
da Paz: “Jesus voltou para a Galiléia, com a força do Espírito, e sua fama
espalhou-se por toda a redondeza” (Lc 4,14). Eis algumas mensagens desse texto:
a) Quem é movido pelo Espírito não tem medo. Esse é um fato documentado
por todos os evangelistas: Jesus é confortado pelo seu Pai através do Espírito
Santo. Assim também pode acontecer conosco: à medida que cresce a nossa paixão
pelo Reino de Deus mais somos confortados pela presença de Deus em nossa vida que
arranca o medo de nossa alma. b) A experiência do deserto robustece a
nossa espiritualidade. A experiência do “deserto” é a oração. C) A
promoção do Reino de Deus implica, com sabedoria, sabermos conviver com
“animais selvagens”, mas fazer-nos ajudar por “anjos”. Por outro lado, mais que
combater os primeiros, o discípulo de Jesus, deve mesmo, é apostar todos os
recursos na promoção de “anjos”; todavia, o desafio maior e mais nobre, é
aquele de assumirmos, pacientemente e com coragem, a transformação de “animais
selvagens em anjos”. D) Os pobres são chamados à conversão porque ao Reino de
Deus interessa, essencialmente, o coração (amor) e a consciência da pessoa.
Jesus dá prioridade aos pobres porque reconhece neles a dignidade humana ferida
por serem vítimas do sistema político-cultural excludente e viverem sem meios
para efetivarem a própria libertação. Mas para Jesus isso não basta. A pobreza
econômica não é sinônimo de santidade. Há pobres moralmente culpados e
espiritualmente mesquinhos. Jesus, sabendo da ambigüidade do coração humano, os
convida à conversão. Quando Jesus apresenta as bem-aventuranças reforça esse
caminho de pobreza espiritual: «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o
Reino do Céu” (Mt 5,3).
MENSAGENS e COMPROMISSOS:
O Bom cristão deve zelar pela manutenção da barca da fé que nos conduz,
anima, purifica na perspectiva da Salvação.
Testemunhar o batismo cuidando do estado de boa consciência diante de
Deus, fazendo o bem, servindo...
Não ter medo de testemunhar a própria fé diante dos “animais selvagens
de hoje”, mas lutar para transformá-los em anjos!
Antônio de Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)
Foi tentado por Satanás, e os anjos o serviam
A primeira
leitura, Gênesis 9, fala da aliança de Deus com Noé. A aliança mais importante,
será a realizada com Abraão... A Aliança com Noé pertence a um segundo plano da
economia da salvação. Nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra, assegura
Deus a Noé (Gn. 9,11). E esta promessa vai acompanhada de um memorial: o
arco-íris, sinal de um novo pacto entre Deus e a humanidade.
O medo do
“dilúvio” foi quebrado! Agora temos uma nova aliança a partir de uma
alternativa de vida para todos os seres viventes. A arca que abrigou a família
se transforma em uma grande casa acolhedora da vida, onde o cuidado com os
animais se destaca, de maneira especial (Gn. 9,10-7). É a casa da vida que
coloca o ser humano em comunhão entre a terra, a natureza, e o cosmos.
O rio
Jordão, o deserto e a Galileia são como que um mesmo “fio condutor” de um
deslocamento fundamental que dá inicio ao evangelho de Marcos. Aí percebemos o
movimento do reino de Deus que convida a mobilizar-nos em busca de nossos
próprios “lugares do Reino” onde se concretizam e se desenrolam nossas opções
pela vida, pela dignificação das pessoas e das comunidades.
O rio
Jordão evoca grandes e significativos feitos da historia de Israel. É mais
importante, sem dúvida, quando Josué e o grupo do deserto atravessam o rio para
entrar na terra prometida (Js. 3-4). Relato das origens daquele projeto de vida
igualitária revelado por Deus aos escravos fugitivos do Egito. A partir dessa
memória primordial, João, o Batista, convoca o povo ao redor de uma nova
esperança messiânica. Aí também chega Jesus, procurando “as águas de João”.
O deserto é
a mediação muito freqüente de discernimento, formação e amadurecimento do
projeto de Deus. Jesus é levado pelo Espírito ao deserto, lugar por excelência
onde Israel aprendeu a ser povo. Sujeito e projeto unidos na memória do êxodo,
dando inicio ao evangelho de Jesus.
Galileia é
o lugar onde Jesus concretiza sua opção pela humanidade e pela humanização.
Essa geografia é, para Jesus, o espaço vital do Reino. É um mar, uma terra e um
povo aberto às nações do entorno. As fronteiras se “cruzam” dando lugar à
inclusão do diferente em múltiplas “misturas”. Tudo isto favoreceu o
amadurecimento e a irrupção do kairós do reino de Deus.
A passagem
do Jordão em direção ao deserto, propõe a articulação de movimentos messiânicos
proféticos que têm nesses lugares suas fontes de inspiração e de organização.
Marcos vincula o confronto com Satanás, principio cósmico do mal, com a
enfermidade, a marginalização e a morte dos pobres; será para Jesus a definição
de sua vida pela rota do reino de Deus.
O deserto
deixa de ser um lugar de prova e penitencia, segundo a tradição judaica, para
converter-se em lugar de aprendizagem definitiva no confronto e na superação do
desequilíbrio. O Espírito de Deus leva Jesus até a memória fundacional de
Israel; vencendo a Satanás, a vida se transforma em fidelidade para com Deus e
para com o ser humano. O simbolismo dos “quarenta” tem a ver com o trauma do
novo nascimento. Os poderes da historia se confrontam: Jesus, como princípio da
humanidade, libertada a partir de Deus, e Satanás, que é símbolo e causa de
morte no mundo. Nós nos encontramos frente ao relato de uma nova origem.
Marcos
reescreve a historia, levando-nos da água do batismo à reconstrução da
humanidade, par nos dizer que Jesus está aí apostando numa nova opção de vida,
dignidade e felicidade humana. Porém, Jesus não assume o combate solitário.
Está junto como os animais e os anjos como que evocando um novo paraíso. O
serviço evangélico comunica esperança e a realidade da salvação.
Ao retomar
o “paraíso” para reiniciar o caminho do humano, Jesus conta com forças naturais
e angelicais (terra e céu) favoráveis. Jesus se encontra entre a tentação
satânica e o serviço angélico. É o dilema que permanentemente enfrentamos.
Marcos evocou estes poderes como em um espelho para que possamos nos espelhar
neles. Ele esclareceu o que é servir, conectando-nos à “historia
original”. Já na historia concreta esses atores sobrenaturais desaparecem e é
quando Jesus nos ensina a servir, servindo à sua comunidade discipular.
Obviamente,
os quarenta dias de deserto não desaparecem. Duram todo o evangelho, toda a
vida. São paradigma da contradição e do desequilíbrio, que permanentemente
atravessam a historia. Na trama da vida humana nasceu e foi sendo introduzida e
decidida a trama do pecado e a esperança de todos os viventes (incluindo
animais, anjos e diabos). Definitivamente, a liturgia apresenta este evangelho
do começo do ministério de Jesus em paralelo com o começo da quaresma. A
quaresma é a vida humana...
Um chamado
à conversão ecológica Urgente
A primeira
leitura deste domingo introduz o tema ecológico na liturgia, concretamente no
tema da conversão. Se a mensagem deste primeiro domingo da quaresma é centrado
na conversão, este texto nos dá uma motivação bíblica para incluir a dimensão
ecológica nessa conversão hoje necessária.
Embora nos
custe admitir, é do conhecimento de todos que as três religiões monoteístas, a
religiões do livro, tiveram e continuam tendo muito pouca sensibilidade
ecológica. Mais ainda: a dimensão cultural da exploração sem misericórdia da
natureza, vista como mero objeto, objeto de exploração, coisificada, objetivada
como mero recurso à nossa disposição, não foi invenção humana alheia ao
religioso, ao contrario se apóia literalmente nas palavras do Gênesis, (1,26,
no primeiro capítulo da Bíblia). E tudo isso pelo “antropocentrismo”, um erro
de perspectiva do qual a Bíblia não nos libertou, mas nos confirmou, e pelo
qual nos consideramos o centro da realidade do cosmos.
Um conceito
novo, que especifica bem o sentido do “antropocentrismo” é o de “especismo”:
concretamente, considera que nós somos a última espécie, somos os recém vindos
ao mundo, nos convertemos em uma autêntica força geológica e nos consideramos
os seus donos e protagonistas, postergando todas as demais espécies,
considerando-as uma classe inferior, biologia e filosoficamente.
A “aliança
com Noé” é um pacto com o qual, segundo a tradição recolhida do gênesis, Deus
quer comprometer-se com toda a humanidade e todo ser vivo; promessa de que não
haverá nenhum novo dilúvio que destrua o ser humano nem a vida sobre a face da
terra. O arco-íris será sua lembrança para Deus, diz o Gênesis (9,13).
Hoje é
necessário outro pacto ecológico, uma aliança de paz do ser humano com a
natureza, para deixar de agredi-la e de destruí-la, para passar a uma atitude
de cuidado e de responsabilidade. É preciso superar a postura tradicional
de “concordismo bíblico”; pensamento segundo o qual tudo o que é bom que
descobrimos ou amadurecemos... já estava previamente na Bíblia, ainda que
tivéssemos passado vinte séculos sem percebê-lo.... A dimensão ecológica que
hoje estamos descobrindo não está na bíblia.
Mais: na
bíblia estão fundamentadas atitudes que hoje parecem ecologicamente
irresponsáveis, ou anti-ecológicas. A Bíblia foi escrita em uma época sem
perspectiva ecológica e é por isso que na liturgia e no ano litúrgico está tão
ausente a ecologia. É necessário “forçar” adequadamente a situação para
introduzir o tema, pela urgência do mesmo.
Neste
momento, aumentar a consciência da responsabilidade ecológica da humanidade,
sobretudo em vista da urgência de evitar o “ponto de retorno” que se aproxima
perigosamente segundo todos os cálculos, é um dos deveres máximos do cristão e
de todo simples ser humano consciente. Se a humanidade não toma urgentemente
uma nova atitude, entra em crise sua própria sobrevivência.
E ainda que
mudemos amanhã mesmo, os estragos causados no planeta já são irreversíveis, e
vamos pagar caro por eles durante muito tempo. É importante que a conversão de
que nos fala a quaresma inclua a conversão ecológica, além da conversão para um
compromisso maior com a questão da saúde.
Quaresma é
um tempo muito especial para o cristão. É período de oração e penitência para
nos prepararmos para os acontecimentos centrais de nossa fé; a morte e
Ressurreição de Jesus.
O período
da quaresma representa os quarenta dias que Jesus passou no deserto após ter
sido batizado. Jesus se preparava para assumir sua missão e, durante todos
esses dias, foi tentado pelo demônio. Não teve um só minuto de sossego.
Durante as
vinte e quatro horas do dia o demônio tentava fazê-lo mudar de idéia. O
príncipe da terra sabia dos objetivos de Jesus e não estava gostando nada,
nada, daquela história de pregar a conversão e a aceitação da Palavra de Deus.
Jesus quis
se fazer semelhante a nós em tudo, menos no pecado, no entanto, quis também
experimentar as tentações que enfrentamos diariamente. Este evangelho é o nosso
próprio dia-a-dia, vivemos rodeados pelas tentações. É só o demônio perceber
que estamos nos preparando para assumir a evangelização, e lá vem ele.
Vem como
quem não quer nada. Oferece mundos e fundos para nos ver desistindo. Não tem
fraco que resista suas ofertas. Se ele não consegue por "bem", coloca
pedrinhas em nossos sapatos. Faz de tudo para atrapalhar e desestimular.
Marcos diz
que Jesus foi para o deserto "movido pelo Espírito Santo". Jesus
deixou-se guiar pelo Espírito. Foi no Espírito, que encontrou forças para
superar as provações e as tentações que se apresentaram em seu caminho.
Esta é a
prova concreta que Jesus nos deixou. O vencedor deixa-se guiar e entrega-se com
fé. Porém, não podemos vacilar, é preciso estar atento, pois o demônio não
desiste e vai estar permanentemente cochichando maravilhas, em nossos ouvidos.
Estar
atento significa estar preparado. Jesus preparou-se para iniciar sua missão
fazendo penitência, Jejuando e orando durante os quarenta dias em que ficou no
deserto. Mais uma vez, Jesus quis mostrar-nos o poder da penitência e da
oração.
Mais uma
lição nós aprendemos com o evangelho de hoje. O jejum e a oração não nos
isentam das tentações, porém são os meios mais eficazes para vencê-las. O jejum
e a oração devem levar-nos à conversão e à aproximação.
Quaresma é
tempo de aproximar-se do irmão e de viver a experiência da intimidade com Deus.
Tempo de lembrar que Jesus foi traído. Tempo de meditar a perseguição, o
calvário e sua morte. É tempo de profunda meditação e não de profunda tristeza,
pois Jesus Ressuscitou.
Jesus
venceu a morte! Nessa verdade se baseia toda nossa fé, por isso, vamos viver a
alegria e a esperança de vida eterna. É preciso deixar de lado o comodismo e
dar continuidade ao trabalho iniciado. Vamos nos preparar para a vinda Gloriosa
de Jesus e levar este recado para todos os irmãos: "O Reino de Deus já
chegou, convertam-se e creiam nesta boa notícia!"
Jorge Lorente
O despontar de uma nova humanidade
E logo o
Espírito o impeliu para o deserto. E Ele esteve no deserto quarenta dias sendo
tentado por Satanás; e vivia entre as feras, e os anjos o serviam.
Depois que
João foi preso, veio Jesus para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus:
"Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede
no evangelho".
O trecho de
hoje está claramente dividido em duas partes: a tentação de Jesus no deserto
(1,12-13) e a inauguração de sua atividade na Galileia (1,14-15).
"Em
seguida o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto" (v. 12). O deserto
é o lugar do encontro com Deus, mas também a moradia preferida dos demônios.
"E
Jesus ficou no deserto durante quarenta dias, e aí era tentado por Satanás.
Jesus vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam" (v. 13).
Segundo Oseías (2,16), Deus teria impelido novamente o seu povo para o deserto
a fim de falar ao seu coração. Jesus se retira para o deserto a fim de se
tornar o chefe de uma comunidade a caminho de Deus. Durante quarenta dias foi
continuamente tentado. No início da atividade de Jesus, Satanás procura pô-lo
em oposição à vontade do Pai.
"Depois
que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galileia, pregando a boa
notícia de Deus" (v. 14). Depois que João foi traído e entregue a Herodes,
Jesus foi para a Galileia. É a Galileia das nações (Is. 9,1), porque habitada
principalmente por pagãos, mas é também a terra de Jesus e dos seus primeiros
discípulos.
"Pregando
a boa noticia de Deus": Jesus não se apresenta como um rabi que ensina,
mas como um arauto que anuncia com coragem a verdade que Deus quer que seja
transmitida. Esse anúncio, o querigma, é a função essencial da comunidade, pois
a fé provém da escuta (cf. Rm. 10,17).
"O
tempo já se cumpriu, e o reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem
na boa notícia" (v. 15). O tempo de expectativa já passou. Agora Deus está
para inaugurar o novo tempo. "O reino de Deus está próximo": O
senhorio de Deus sobre o mundo começa a se manifestar no ensinamento e nas
obras de Jesus.
O evangelho
é uma boa notícia da salvação que já está agindo. "Convertam-se e acreditem
na boa notícia". Para acolher essa boa noticia se faz necessária uma
mudança total de mentalidade, uma profunda conversão de coração. A salvação se
adquire aceitando a revelação de Deus e se entregando com total abandono a
Jesus Cristo.
padre Fernando
Armellini - Celebrando a Palavra
temas de pregação dos padres dominicanos
Revista “O Mílite”
"Se és Filho de Deus..."
A noroeste
de Jericó, há um maciço montanhoso, inculto e áspero, que tem o nome de
"monte da Quarentena" (Djebel Garantal). Nesse lugar, segundo a
tradição, é que Jesus se retirou para quarenta dias de jejum e oração, logo
depois do batismo recebido nas águas do rio Jordão. A primeira quaresma do
cristianismo! E aí, como nos contam os evangelhos, Jesus foi agredido pelo
demônio com três violentas tentações. Misteriosas tentações, na verdade, pelas
quais o divino Salvador quis ser solidário com nossa condição de frágeis
criaturas humanas, sujeitas a todo o tipo de tentações. É claro que Ele jamais
poderia ceder a nenhuma tentação; mas quis com seu exemplo ensinar-nos o modo
de vencê-Ias. Como disse elegantemente o nosso Padre Vieira, no sermão que
pregou em Roma, num primeiro domingo da Quaresma, na igreja de Santo Antônio
dos Portugueses: "Permitiu, pois, Cristo Senhor nosso ser tentado do
demônio hoje, não para se honrar com a vitória (que era pequeno triunfo), mas
para nos ensinar a vencer com seu exemplo".
O evangelho
de Marcos, na sua costumeira concisão, nos diz apenas que Jesus se retirou para
o deserto e aí foi tentado por Satanás, e os anjos o serviam (cf. Mc. 1,12-13).
Mas tanto Mateus como Lucas desenvolvem a narração das tentações e da vitória.
Jesus tinha passado quarenta dias em jejum, e estava sentindo fome. O demônio
começou por aí: "Se és filho de Deus, manda que estas pedras se
transformem em pães" (Mt. 4,3). A resposta de Jesus foi imediata:
"Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai
da boca de Deus'" (v 4). O tentador o levou, então, à Cidade Santa e o
colocou no pináculo do Templo. E o desafiou: "Se és Filho de Deus,
atira-te daqui para baixo, pois está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu
respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para não tropeçares em alguma pedra''.
E Jesus
respondeu prontamente: "Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor
teu Deus' (ibid. vs. 6-7). É interessante notar que um desta tentação vai
reaparecer no Calvário: "Se és Filho de Deus, desce da cruz" (Mt.
27,40). E veio, então, a terceira tentação. Por não sabermos qual sorte de
fantasmagoria, o demônio transportou Jesus a um monte altíssimo, e ali daquelas
alturas lhe mostrou o deslumbrante espetáculo da grandeza de todos os reinos do
mundo. E lançou seu insolente desafio: "Eu te darei tudo isto, se
prostrado me adorares". E Jesus respondeu com nobre majestade:
"Vai-te, Satanás, porque está escrito: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a
Ele prestarás culto" (vs. 8-10). Aí, o demônio o deixou em paz e vieram os
anjos do céu para servi-Io.
E fácil
descobrir como essas tentações correspondem às três áreas de inclinação para o
mal a que está sujeito o homem nesta terra: a área dos prazeres dos sentidos, a
área da soberba e da vaidade, e a área da cobiça dos bens e do dinheiro. Os
três ídolos aos quais o homem de hoje presta sua adoração: o prazer, o poder, o
dinheiro. E Jesus nos ensina o caminho para vencer essas más inclinações. E
procurar a força de Deus, a força de sua palavra, que ilumina os caminhos e nos
dá coragem para caminhá-Ios.
A Quaresma
está aí para nos ajudar nesse trabalho. Para nos levar à conversão, na medida
em que dela precisamos. E justamente nos traz neste primeiro domingo o exemplo
de Jesus. Convidamos a usar o remédio que Ele usou: a Palavra de Deus, a
oração, o jejum.
Quaresma é
tempo de Palavra de Deus. Como não lembrar as famosas pregações quaresmais de
outros tempos? Os pastores de hoje, em estilo mais modesto, sabem descobrir
novos caminhos para a catequese e a evangelização. A Campanha da Fraternidade
cumpre em grande parte esse papel. Quaresma é tempo de oração.
Rezar mais
e, sobretudo, rezar melhor. E incrível a desproporção entre os poucos minutos
diários que os cristãos, na média, dedicam à oração, e as muitas horas gastas
nas outras ocupações! Quaresma é tempo de jejum e penitência. A Igreja abrandou
muito a antiga disciplina do jejum, que era observado outrora realmente durante
quarenta dias. Em parte ela o fez, olhando para os milhões de cristãos de hoje,
que fazem um jejum forçado, pelas condições de pobreza em que se encontram. Mas
não estamos dispensados do jejum. Ou melhor, não estamos dispensados de
praticar a sobriedade cristã, que nos faz moderar o uso da comida e da bebida e
fugir de todos os excessos, por exemplo, no hábito de fumar.
Vamos
desejar e esperar que a Quaresma nos leve a um conhecimento sempre maior de
Jesus Cristo - é o que pede a "coleta" da missa deste domingo - de
quem vamos celebrar no fim destes quarenta dias a Paixão, a Morte e a
Ressurreição.
padre Lucas de
Paula Almeida, CM
No Deserto
Estamos no
início da Quaresma. Quaresma é o grande retiro espiritual dos cristãos em
preparação da festa da Páscoa. É o coração do ano litúrgico e o cume da fé
cristã. Na Igreja primitiva, na Quaresma fazia-se a preparação próxima do
Batismo.
As leituras
nos introduzem no caminho da renovação do Batismo e nos chamam à conversão.
A 1ª
leitura evoca o dilúvio, o 1° batismo pelo qual todo o universo teve de
passar para que surgisse uma nova criação (Gn. 9,8-15). Começamos a ler a
historia da salvação a partir do episódio do dilúvio, quando Deus salvou o
justo Noé e sua família e fez a primeira Aliança com a humanidade. Através do
dilúvio, Deus purificou a humanidade corrompida. O dilúvio foi o grande batismo
de todo o universo, que renasceu das águas para estabelecer uma nova Aliança.
E o
arco-íris deixado por Deus no céu foi o sinal dessa Aliança, desse abraço entre
o céu e a terra, entre Deus e os homens.
A 2ª
leitura, nos lembra que as águas purificadoras do dilúvio são imagem das águas
purificadoras do batismo (1Pd. 3,18-22).
Pedro
interpreta a figura de Noé e do dilúvio em chave batismal. É uma antiga
catequese batismal da Igreja primitiva.
O Evangelho
resume as palavras inaugurais do ministério de Jesus, proclamando a graça do
reino e chamando os homens à conversão. (Mc. 1,12-15)
O episódio
das tentações de Jesus no deserto, mais do que uma narrativa histórica,
trata-se de uma catequese.
O
"deserto", para os judeus, é o lugar privilegiado do encontro com
Deus. Foi no deserto que o povo experimentou o amor e a solicitude de Deus e
foi no deserto que Deus propôs a Israel uma Aliança.
Foi também
no deserto, que Israel tentou Deus: valia a pena o êxodo.
Não seria
melhor permanecer no Egito ao redor das panelas de carne e cebolas.
Para Jesus
o "deserto" é o "lugar" do encontro com Deus e do
discernimento dos seus projetos. E é o "lugar" da prova, da tentação
de abandonar Deus e de seguir outros caminhos.
"Quarenta
dias" é um número simbólico, que lembra o tempo da caminhada do Povo no
deserto e a experiência de Moisés e de Elias.
"Satanás"
representa os que se opõem ao estabelecimento do seu Reino.
"As
tentações": Marcos não especifica as tentações, mas elas simbolizam as
provações que Jesus enfrentou ao longo de toda a sua vida para se manter fiel à
missão confiada por Deus. Elas resumem também as tentações de todos nós...
A vida de
Jesus será uma luta constante de superação até a vitória definitiva na cruz,
através da Ressurreição. Da sua opção, vai surgir um mundo de paz e de
harmonia.
Jesus
aparece como o novo Adão, que vence o tentador. Vencendo a tentação, Jesus
inaugura a Aliança definitiva, mais importante que a de Noé.
Após ser
batizado e ter superado as tentações no deserto, Jesus inicia o seu trabalho
apostólico, proclamando: "O Reino já chegou... Convertei-vos e crede no
evangelho".
As mesmas
palavras, que ouvimos quarta feira passada ao receber as cinzas e que são um
resumo do espírito da Quaresma, que estamos iniciando.
Quaresma é
dilúvio e deserto. É dilúvio que arranca o pecado e leva a construir a área de
Salvação e é sinal de que Deus está em Paz conosco. É deserto pela
espiritualidade do despojamento, que nos propõe.
Quaresma é
converter-se e crer: "converter-se" é muito mais que fazer
penitências ou realizar privações momentâneas. É fazer com Deus seja o centro
de nossa existência e ocupe sempre o primeiro lugar.
"Crer"
não é apenas aceitar um conjunto de verdades intelectuais. É aderir à pessoa de
Cristo, escutar a sua proposta, acolhê-la no coração e fazer dela o guia de
nossa vida.
A nossa
Quaresma: a liturgia de hoje nos conscientiza da fidelidade de Deus e da
necessidade de morrer ao homem velho para ressuscitar com Cristo a uma vida
nova. Sinal eficaz desse passo é o batismo; o caminho é a conversão até a
Páscoa.
Gesto
concreto: o que pretendo fazer nesse tempo sagrado da Quaresma?
Planejei
gestos concretos:
Quais são
os momentos especiais de oração... de deserto?
Qual a
minha penitência quaresmal, proveitosa para mim e agradável a Deus?
Quais os
atos de caridade que pretendo realizar?
O que
poderia fazer para promover a minha saúde e de todos os irmãos, para que
"a saúde se difunda sobre a terra".
Esse é o
caminho para que a Páscoa aconteça dentro de cada um de nós...
padre Antônio
Geraldo Dalla Costa
“Arrependimento e fé”
Estamos no tempo litúrgico que busca a conversão dos pecados e das atitudes
que ferem o diálogo com Deus. Momento oportuno para revermos nossas ações:
estamos seguindo retamente os ensinamentos do filho do Homem ou estamos fazendo
nossa caminhada paralela com o Evangelho? O que podemos fazer para mudar a
direção da vida, caso não esteja a contento com o Pai? Se Deus fez a aliança
com todos os seres e cumpriu sua palavra e Jesus foi tentado a
deixar sua missão, mas manteve perseverante, qual lição possamos tirar desta
lógica para amadurecer na fé? Será que consigamos buscar o arrependimento dos
pecados na construção de um novo Reino? Afinal, buscamos qual Reino: o
reino da justiça ou da injustiça; o reino do amor ou do desamor? Que atitude
poderemos tomar a partir da nossa introspecção?
Diante de nossos olhos têm-se dois caminhos: o caminho do bem e o
caminho do mal. O caminho do bem requer um pouco de atenção, solicitude,
compaixão e amor com o próximo. Este, por sua vez, é um caminho lento, moroso e
pesado, devido às atenções a serem contempladas. Enquanto que o caminho do mal
é reto, limpo, colorido e cheio de pegadinhas. Não cansa muito, pois sempre nos
chama a atenção para a distração. Além disso, o caminho do mal oferece uma
deixa para resolver a situação amanhã e não cobra comprometimento um com o
outro. Agora, estamos numa bifurcação: qual dos caminhos devemos seguir?
Para muitos cristãos do mundo de hoje o caminho a ser seguido não é o
caminho verdadeiro e correto, ou seja, o caminho de Cristo. Talvez pela
exigência, pela renúncia, pelo compromisso com o outro não oferece atração
inequívoca para a dedicação. São tantas atrações e tentações que o mundo
mundano ofereça que enche os olhos dos descrentes e dos sem fé. São
alegrias falsas como o carnaval desregradas a pura bebida, dinheiro, traição e
vale tudo; são ostentações baratas dos realitys shows, nas observâncias das
facilidades, nas entregas carnais e nos tramas da desunião a preço de conchavos
que saltam pelos olhos, mais uma vez, dos descrentes e dos sem fé. Estes na
verdade são caminhos desejados, maturados por muitos na intenção da
luxúria e do status pessoal.
Jesus salientou que seguir os ensinamentos do Pai requer tolerância
consigo mesmo. Não é fácil dispor das tentações e dos arrependimentos para
construir nova vida. Estes que aventurarem por seguir os preceitos da justiças
serão perseguidos, maltratados, violentados e achacados pelos covardes
acobertados de peles de carneiros. Porém são lobos famintos e afoitos por
víveres que não aprenderam a discernir.
Olha que os hebreus viveram quarenta anos no deserto, tempo necessário
para compreender o valor e a fé no Senhor. Ali no deserto foram colocados a
prova do amor para com Deus. Sentiram-se fome, sede, frio, abandonados, mas
provaram que estavam crentes na promessa feita ao Pai Abraão, Isaac e
Jacó. Não arredaram o pé, mesmo em contratempo. Foi também no
deserto que Moisés teve a experiência com Deus e colocou diante de si os
mandamentos que fundamenta até hoje nossa caminhada. Sem dúvida, tanto os
hebreus quanto Moisés sentiram vontade de abandonar tudo e seguir outros
caminhos. As tentações eram evidentes. O povo cobrava de Moisés alimentos,
saída daquelas dificuldades, exigia respostas claras e objetivas. Porém, no
abraço a missão e no caminho escolhido não deixou abalar por nenhuma tentação.
Jesus também foi tentado. No Evangelho de Marcos não encontramos uma
tentação explicita, mas no conjunto do Evangelho percebemos que foram muitas as
tentações que colocaram a prova o amor do Filho Amado para com os irmãos
necessitados durante a sua vida. Em meios aos animais selvagens e o
Satanás de um lado e os espíritos e anjos que os servem de outro, Jesus
precisava discernir um caminho que levasse a construção de um Reino que
contemplasse a felicidade. Assim a prática de Jesus vai mostrar como venceu as
tentações e como foi fiel ao projeto do Pai até o fim.
Ao retirar-se para o deserto Jesus queria isolar do poder opressor dos
grandes centros para abastecer das vitalidades. Sabia que o povo estava a sua
espera. Não tinha como enfrentar o poder operante despreparados. Não que Jesus
era desprovido da santidade, ele tinha poder para tal, mas ao afastar dos
traidores o pensamento do homem libertador se concentrava no bem-fazer para uma
legião de necessitados. Tanto que quanto fica sabendo que João foi morte, Ele
segue para Galiléia na pregação de que o Reino está próximo.
A proximidade do Reino está na sua morte. A completa eficácia da
construção do Reino está na morte de cruz que causará pavor entre seus
seguidores. Somente os seguidores que tiveram fé e acreditaram nas suas
palavras vão continuar na missão de evangelizar e denunciando todas as mazelas
sociais que machucam o povo. Pedro, o discípulo fiel e amado de Jesus afirmou:
“Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos
injustos, a fim de nos conduzir a Deus”
Por que então Jesus morreu? Ou seja, qual o motivo que levou Jesus a
morte? Jesus morreu por pregar severamente contra o domínio opressor, por
rejeitar as propostas maléficas do poder dos fariseus e doutores da lei. Jesus
morreu por querer uma sociedade justa, fraterna, solidária, saudável e sem
tentações perniciosas. A escolha que Jesus fez foi da vida e da liberdade para
atender a vontade do Pai. Ele foi fiel e deixou este legado para nos atentar
seguir com discernimento o que fez.
Nesta quaresma, tempo de jejum, oração e esmola requer muito de nós.
Procuremos atentar-se para os caminhos que nos levam ao Pai, mas antes tentamos
compreender em nós o arrependimento das tentações que abraçamos por prazer.
Colocamos em primeiro lugar a busca incessante de um Deus fraterno que nos quer
o bem e a felicidade e/ou espelhamos nos salmo 24 “mostrai-me, ó Senhor, vossos
caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza,
porque sóis o Deus da minha salvação”. As tentações estão nos cercando por
todos os lados. Não desanimem de buscar o verdadeiro Deus que é o caminho reto
e honrado de todo o cristão. Quem ousar conhecer o caminho de Cristo
Ressuscitado, for batizado para obter uma boa consciência, estará junto do Pai
no céu.
Claudinei M. Oliveira
Com Jesus enfrentemos as tentações
A quaresma é um tempo de graça para cada cristão. É o período em que
somos convidados a nos prepararmos para o grande acontecimento de nossa fé: a
páscoa.
O que este tempo litúrgico de quarenta dias nos lembra e qual o seu
sentido?
Os quarenta dias que durou o dilúvio no tempo de Noé: tempo de
purificar a humanidade corrompida.
Os quarenta anos de marcha do povo de Deus pelo deserto em busca da
terra prometida: tempo de caminhada em busca da liberdade, é também tempo de
purificação, de abandono dos falsos deuses e adesão ao Deus de Jacó.
Os 40 dias de jejum e oração que Jesus Cristo passou no deserto,
preparando-se para a vida pública: tempo de preparação para a missão.
Para vivermos bem este tempo litúrgico que dura 40 dias a Igreja nos
propõe três instrumentos: a caridade, o jejum e a oração. São gestos exteriores
que devem ser realizados não para agradar aos homens, mas para agradar a Deus.
O jejum não é regime, não brota da necessidade estética, brota da
necessidade que o homem tem de experimentar práticas ascéticas para purificar o
próprio espírito e de se tornar solidário com os que sofrem privações das
coisas essenciais da vida.
1 - O jejum ajuda-nos a controlar os próprios desejos e instintos. Não
podemos fazer tudo que queremos. Vários de nossos desejos não podem ser
satisfeitos.
2 - Ensina-nos a ser solidários. A partilhar, caridade, que em nossas
partilhas e gestos de caridade, saibamos valorizar o outro. Não posso dar ao
outro aquilo que não quero para mim. Pobre não é lata de lixo. Lugar de lixo é
no lixo.
3 - Neste primeiro domingo o Espírito Santo nos conduz ao deserto para,
juntamente com Cristo, enfrentarmos as tentações e sairmos vencedores.
O evangelho de hoje (Mc. 1,12-15) é composto de duas partes: a primeira
tem como tema central a tentação de Cristo no deserto e a segunda já nos mostra
Cristo anunciando a chegada do Reino de Deus.
Marcos não cita o diálogo entre Jesus e Satanás tal como fazem Mateus e
Lucas. Marcos nos faz notar que Jesus se deixa conduzir pelo Espírito de Deus.
O Espírito o conduz ao deserto, lugar onde o povo de Deus também foi tentado e,
ao contrário de Jesus, muitas vezes caiu.
Mesmo de forma breve, Marcos faz questão de mostrar que Jesus foi
tentado por Satanás durante os quarenta dias em que passou no deserto, sua
condição divina não o eximiu de fazer a dura experiência humana da luta contra
o mal. Jesus não foi tentado somente durante estes quarenta dias, toda a sua
vida foi uma constante e dura batalha contra o mal.
Toda a vida do Mestre foi de luta: às vezes era diretamente contra
Satanás, outras, com seus adversários, outras ainda por parte de seus
discípulos que por o amarem não o queriam ver pregado no alto de uma cruz (Mc.
8,33). A tentação culminou no alto do Calvário, lá foi tentado a descer do
madeiro e a salvar-se a si mesmo, traindo assim sua missão (Mc. 15,29-32).
A Grande tentação que Cristo teve que encarar foi a de negar sua
condição de ser filho obediente do Pai. Existem dois modos de entender o que
significa ser filho de Deus: para o tentador equivale a ter poder e glória;
para Jesus ser filho de Deus significa cumprir fielmente a vontade do Pai. Esta
mesma tentação experimentamos a cada dia quando somos convocados a viver na
glória, a ostentar poder e a abandonar o caminho da cruz, precisamos, como
Jesus, optar por fazer a vontade do Pai.
Assim como Jesus, somos tentados quotidianamente a desobedecermos a
Deus. O diabo raramente se mostra como de fato ele é, a tentação vem sempre
disfarçada de algo bom, que vai nos fazer bem! Mas é só aparência, é como o
pescador que para fisgar o peixe esconde a agulha dentro de um pedaço de carne.
Precisamos ficar atentos e pedir forças a Deus para não nos curvarmos diante
das tentações que o mundo nos apresenta. Não vale a pena ceder às tentações,
não se arrisque, elas trarão somente destruição para sua vida e para a vida de
sua família.
Jesus não ficou no deserto, foi em missão, à procura daqueles que dele
precisava. E vai para a Galiléia, um lugar insignificante ao norte da
Palestina. Cristo anuncia a chegada do Reino de Deus, que significa a soberania
universal de Deus. O Reino é um presente de Deus pela humanidade, a resposta
esperada de quem quer adentrar neste dinamismo é conversão e fé. É justamente
essa a mensagem central da quaresma: converter-se para chegar à páscoa de
Cristo renovados.
O Reino de Deus vai acontecendo à medida que os nossos corações se
converterem e se abrirem à ação divina. Que esta quaresma nos sirva para darmos
espaço ao Reino de Deus.
padre Erivaldo Gomes de Almeida
Jesus tentado por satanás
Quem estuda a Bíblia com atenção percebe que o livro santo mostra a
tentação não tanto como um estímulo para a prática do mal, incitação que vem de
fora do ser racional, mas como uma disposição interior para o desprezo de algum
dos dez mandamentos. A atitudes eticamente condenáveis é levada a criatura
humana que cede a tais impulsos, sendo que eles propiciam a atuação do Maligno.
Tiago falou claramente: “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência”
(Tg. 1,14).
A Sagrada Escritura, portanto, focaliza a tentação mais através
de suas causas e ocasiões externas, deixando de lado o aspecto da sedução que é
uma conseqüência da falta de controle interno. São testes pelos quais Deus faz
passar o homem. Assim a queda de Adão e Eva no paraíso (Gn. 3,1-19); a provação
de Abraão (Gn. 22,1-19); o sofrimento por que passou Jó. É certo que, segundo a
narrativa bíblica, o Criador permitiu a Satanás atribular o célebre patriarca
da Induméia, mas o Adversário atuou como um instrumento do Todo-Poderoso para
provar a paciência daquele Justo, como aconteceu no Paraíso para testar a
fidelidade de nossos primeiros pais.
É interessante ressaltar que no Antigo Testamento o Povo Eleito tentava
o Ser Supremo, sempre paciente diante das infidelidades humanas (Dt. 6,16;
9,22; 1Cor. 10,9). No Novo Testamento aparece mais acentuada a atuação externa
do demônio para levar ao pecado. Ele é um aproveitador das circunstâncias menos
favoráveis ao crente para o fazer se afastar do Ser Supremo. Os que desejam ser
fiéis ao Senhor do Universo são vítimas do Inimigo. Paulo advertiu os
Tessalonisenses: “Pois, quando ainda estávamos convosco, vos predizíamos que
havíamos de padecer tribulações, como com efeito aconteceu: e vós o sabeis.
Por isso, não podendo eu sofrer mais demora, enviei a reconhecer a
vossa fé, temendo que o tentador vos tenha tentado; e que se torne inútil o
nosso trabalho” (1Ts. 3,4-5). O que insiste, porém, a Bíblia é que o verdadeiro
manancial das tentações é a concupiscência que está enraizada no interior do
homem. Por isto Paulo mostra que “os que são de Cristo crucificaram a sua
própria carne com os vícios e concupiscências” (1Gl. 5,24).
Pedro fala naqueles que “vão atrás da carne na imunda concupiscência”
(2Pd. 2,10). Portanto, cumpre, ao cristão, antes de tudo, ter o autocontrole de
suas más tendências, pois do contrário cairá fatalmente nas garras satânicas.
Aí entra a liberdade humana ao aderir, ou não, à graça de Deus que nunca falta
a quem quer triunfar do mal. O Novo Testamento mostra que nunca Deus permite
que tentação acima das possibilidades do fiel, mas este tem que
corresponder ao influxo divino.
Este trecho paulino é luminoso: “Deus é fiel, o qual não permitirá que
sejais tentados além do que podem as vossas forças, antes, fará que tireis
ainda vantagens da mesma tentação, para a poderdes suportar” (1Cor. 10,13). Por
tudo isto se compreende como Jesus pôde com facilidade, enquanto homem, vencer
as tentações do demônio no deserto (Mc. 1,12-15).
Como desceu a detalhes Mateus (Mt. 4,1-11), satanás queria provar os poderes
messiânicos do Salvador da humanidade com fins muito materiais como matar a
fome, mudando pedras em pães, vanglória ou enorme imprudência, lançando-se do
pináculo do templo e o anseio de dominação, possuindo os reinos terrenos.
Cristo venceu o tentador e demonstrou peremptoriamente que o seu Reino não era
deste mundo. Nunca ele colocaria os seus poderes divinos no plano material, mas
unicamente a favor da Boa Nova que veio trazer a este mundo. Ele jamais trairia
sua missão salvífica.
O que importava era o Reino de Deus. Assim age também o seu verdadeiro
epígono que sabe se mortificar, pois diz João na sua primeira carta que “tudo
quanto há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e
soberba da vida” (1Jo 2,16). Quem não é continente abre as portas ao Demônio.
Cumpre, pois, garrotar, sufocar interiormente os maus pensamentos que excitam
desejos perigosos, os quais Satanás sabe trabalhar com rara perspicácia. A
quaresma é tempo propício para isto.
O desapego dos bens terrenos, objetivando um novo milênio sem
exclusões; o interesse pela dignidade humana; o esforço para que a saúde
se difunda por toda a terra como proclama o lema da Campanha da Fraternidade; e
a difusão da paz por toda parte são meios para que haja uma real preparação para
a Páscoa. Cumpre, como Jesus, vencer o demônio e suas aliciações.
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
Dom Hélder
Câmara, antigo bispo de Recife, Brasil, dizia: «É necessário viver a religião,
não só representá-la.» Nesta conclusão, descobrimos o sentido do ser batizado e
mergulhamos na água viva que salva cada um no horizonte último da vida, a
salvação. Não basta representar a religião, mas viver a religião em todos os
seus aspectos que conduzem à prática da justiça, da paz, da fraternidade e acreditar
que é possível um mundo novo onde todos de verdade se sentem à mesa do bem
comum.
O batismo é
um dos vários requisitos indispensáveis para a salvação. São Pedro, compara o
batismo ao dilúvio dos dias de Noé. O dilúvio salvou Noé da corrupção e da perversidade
do velho mundo. O batismo salva-nos da corrupção e do pecado da nossa velha
vida. Uma vez que o texto afirma que o batismo nos salva, a questão é
indiscutível. Por isso, vejamos o que diz o texto: "Ser batizado não é
tirar a imundície corporal, mas alcançar de Deus uma boa consciência…",
isto é, pelo batismo alcançamos a salvação de Deus.
Depois de
recebermos o batismo a nossa vida não entra num caminho tipo "mar de
rosas", sem problemas, sem sofrimentos e sem as peculiaridades de qualquer
história pessoal. Todos estamos sujeitos às contingências desta vida. Não
devemos temê-las, mas antes devemos robustecer-nos com os ensinamentos de Jesus
para as vencermos sempre. O batismo é o primeiro requisito desta força interior
que Deus nos quer oferecer. O deserto pode ser toda a nossa propensão para a
esterilidade do amor. Uma vida toda carregada de egoísmo, de violência e de
ódio contra os outros é uma vida no deserto árido sem sombra de existência
verdadeira.
As
tentações, fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e
no nosso coração. Porém, se, sob a condição de batizados, à maneira de Jesus,
acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo, nada nos pode
demover daquilo que é o mais importante. O espírito de Deus, guiar-nos-á sempre
para o bem. Assim, o batismo não é o único requisito para a salvação hoje, mas
não podemos ser salvos sem ele. "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade
vos digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de
Deus" (Jo 3,5).
Neste
sentido, conta-se que certo dia, dom Hélder enviou um homem pobre, desempregado
e maltrapilho, a um pequeno empresário amigo, pedindo que o contratasse,
apresentando-o como seu irmão de sangue. Diante da sua incredulidade e
estupefação, dom Hélder responde: "Desculpe meu amigo, mas João é
verdadeiramente meu irmão...". "Mas o senhor disse: irmão de
sangue...".
"Sim,
ele é verdadeiramente meu irmão de sangue. Pois Cristo deu o seu sangue por ele
como por mim, por você e por todos os homens. Nós somos todos verdadeiramente
irmãos de sangue, pelo sangue do Senhor..."
É
verdadeiramente este o significado do batismo que todos nós recebemos em Jesus
Cristo. Deixemo-nos nesta Quaresma transformar por este realidade divina que
nos eleva para o dom maior da nossa religião, o dom da fraternidade
universal...
padre José Luís
Rodrigues
O Reino de Deus está próximo!
Sim, o
Reino se aproximou do mundo na pessoa do Filho de Deus. Desde que os humildes
pastores de Belém viram o Menino na palha seca da manjedoura, tornava-se
possível tocar Aquele que é o Reino de Deus posto ao nosso alcance.
Até então,
nada havia na terra dos homens que se configurasse como um espaço – geográfico,
social, humano etc. – onde a vontade de Deus fosse plenamente acolhida e
realizada. Agora, com a Encarnação do Verbo, é na pessoa de Jesus Cristo que
esse “reino” acontece. Ali, Deus reina!
Estranhamente,
ainda existe muita gente que tem a ilusão de que Deus permanece distante,
transcendente, fora de alcance. E ele se faz presente no pobre, na família em
oração, nas palavras do Evangelho, no pão e no vinho consagrados. Nossos olhos
míopes ainda custam a reconhecê-lo, mesmo que ele esteja constantemente à nossa
procura.
Falo disso
em meu soneto:
“O visitante”
Senhor, tu
vens bater à minha porta,
Disfarçado
nos trapos de um mendigo:
É teu jeito
de estar sempre comigo
Mesmo
quando faz frio e o vento corta…
Assim é que
o exemplo teu me exorta
Então, sou
eu quem pede para o Amigo
A migalha
de amor que me conforta…
Ah! Jesus,
como é doce o teu convívio!
É remédio
no mal; na dor, alívio…
É virtude a
elevar-me de meu pó…
Depois, de
volta ao lar, se me ajoelho,
Eu fito a
minha face, ali no espelho,
E vejo que
o Amor nos fez um só!
Orai sem
cessar: “Ele está no meio de nós!” (da liturgia eucarística)
Antônio Carlos
Santini
Perfeitas colocações que me ajudarão logo mais na munição da primeira leitura
ResponderExcluirWilson Rosa - Jundiaí Sp