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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

3º DOMINGO QUARESMA-B


3º DOMINGO QUARESMA
Ano  B

4 de Março de 2018

Evangelho - Jo 2,13-25


Os vendilhões do templo transformaram a sua casa em uma casa de comércio.







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DESTRUÍ ESTE TEMPLO E EM TRÊS DIAS O LEVANTAREI”.- Olivia Coutinho
 
3ºDOMINGO DAQUARESMA
 
Dia 04 de Março de 2018
 
Evangelho de Jo2,13-22

Somos caminheiros da esperança, caminhando  rumo a  Páscoa do Senhor Jesus, queremos beber da água viva, que jorra do seu coração misericordioso!
 Para que possamos chegar a Páscoa, com o Espírito renovado, é preciso que tenhamos uma boa preparação, tendo como propósito maior, a conversão.  A conversão, ou seja, uma mudança de vida, exige de nós, um exercício constante, um reencontro com os valores que desprezamos, a reparação dos erros que cometemos, do mal que causamos a tantas pessoas que ficaram machucadas, feridas pelas as nossas atitudes não cristãs.
A liturgia deste tempo Quaresmal, reforça em nós, a certeza da existência de um Deus misericordioso, um Deus que é Pai, que não cansa de esperar pelo o nosso retorno à vida!
O evangelho que a liturgia deste terceiro Domingo da Quaresma  nos convida a refletir, chama a nossa atenção, sobre  a importância de eliminarmos tudo o que nos impede de fazermos do nosso coração, um templo vivo, onde Jesus possa habitar e agir no mundo através de nós! 
O texto começa  falando da indignação de Jesus diante a uma tamanha inversão de valores: um lugar onde deveria ser um local de oração, de encontro de irmãos, estava sendo transformado num lugar de comercio, de exploração da fé. 
Indignado, Jesus age com rigor, espalha as moedas pelo o chão, derruba as mesas, expulsa os vendedores e todos os animais, com exceção das pombas, com as pombas, Jesus foi mais ameno, não as expulsou, pediu que as retirassem dali, provavelmente, em respeito aos pobres, pois as pombas, eram as oferendas dos pobres ao templo!
É importante entendermos: a preocupação de Jesus, não era com o templo de pedra em si, e sim, com o templo de “pedra viva" que é a pessoa humana,  Jesus sabia da esperteza dos vendilhões do templo, Ele estava ciente de que estes, que se diziam fiéis a Deus, estavam explorando o povo, principalmente os mais pobres.
“Não façais da casa de Meu Pai uma casa de comercio.” Os discípulos lembraram mais tarde, o que diz a escritura:  O zelo pela casa do meu Pai me consumirá.” Graças ao testemunho deles, hoje, nós sabemos, que foi o zelo pelo o que é do Pai, (a humanidade) que levou Jesus à morte, e  sabemos também, que foi o amor do Pai por esta humanidade, que o ressuscitou no terceiro dia! 
Sempre que deparamos com este evangelho, é comum, ficarmos centrados na atitude severa de Jesus expulsando os vendilhões do templo, e com isso, não meditamos o mais importante, o cerne do evangelho, que é a sua apresentação  como o templo vivo de Deus:
“Destruí este templo, e em três dias o levantarei.” Com essas palavras, Jesus se revela como o Templo vivo de Deus, fazendo alusão a sua morte e ressurreição, mas por estarem voltados  voltados para as coisas materiais e cegos para as coisas de Deus os vendilhões do templo, não entenderam aquela revelação! Enquanto Jesus falava de um templo de carne, que era Ele mesmo, eles entenderam  que Jesus estava se referindo ao templo de pedra, e até  zombaram Dele. 
Jesus é o templo vivo de Deus, enxertados Nele, somos também, templos vivos de Deus, seres humanos divinizados, por carregarmos dentro de nós, a essência Divina!
Como seguidores de Jesus, precisamos nos comprometer mais com a construção e com a conservação do templo de vivo de Deus, que é o ser humano na sua totalidade.
Cuidemos do nosso corpo e respeitemos o corpo do outro, pois o meu, e o seu corpo é um Santuário, o templo vivo de Deus.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
 
PARA OUVIR O ÁUDIO DESTA REFLEXÃO, ACESSE  O LINK: 


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A casa de meu Pai não é mercado!
A celebração deste 3º domingo da Quaresma ajuda-nos a compreender a importância da atividade profética da Igreja e o motivo pelo qual sofre incompreensão por causa dela. É notório que existe uma tendência cada vez mais acentuada no sentido de relegar a religião ao plano privado e individual, alegando que religião não tem nada a ver com questões sociais que é algo pessoal e que cada a “pratica” como achar melhor.
Tal proposta é desmentida pela Liturgia da Palavra de hoje que apresenta Jesus envolvido com o problema sócio-religioso do Templo de Jerusalém (evangelho), transformado em mercado pelas autoridades dos judeus, onde o ídolo do lucro transgredia abertamente a Lei de Deus (1ª leitura). A polêmica por causa dos vendedores do templo será uma das acusações que levarão o Senhor à morte de cruz, mas é na cruz que se revela o poder a sabedoria de Deus (2ª leitura), como escreve São Paulo.
1ª leitura: Êxodo 20,1-7
A Aliança de Deus com seu povo eleito se expressa nos Dez Mandamentos que são normas essenciais não só para uma relação harmoniosa com Deus, mas também para uma boa convivência entre os homens. Depois da experiência da escravidão sofrida pelo povo de Israel no Egito, mais do que leis, os mandamentos são princípios que orientam a vida para nunca mais cair na escravidão.
Tudo começa pelo reconhecimento de um só Deus no qual o coração humano pode confiar totalmente. O povo deve escolher: entre servir ao único Deus verdadeiro que, no seu amor, liberta da escravidão para dar liberdade e vida ou servir a outros deuses que acarretam como consequência, a escravidão e a morte.
As idolatrias que hoje convivem conosco são muitas. A maior delas, hoje, é “a idolatria do mercado”, além de outras como a procura pela fama, o poder, a posse dos bens materiais, o culto do corpo, etc. Quando todas essas coisas isso passam a estar em primeiro lugar na vida, acabam ocupando o lugar de Deus, e se transformam em ídolos. Desta forma, anula-se o 1º mandamento que diz: “não tenha outros deuses diante de mim”. Estes são os ”outros deuses” que tiram a nossa liberdade e dão continuidade à escravidão e não a veneração de imagens (como alguns pensam) as quais não são mais do que representações artísticas da fé. A proibição de “fabricar ídolos” é para não “fabricar esses deuses” que nos fazem perder a liberdade e a orientação de nossa vida.
A proibição de usar o nome do Deus libertador para acobertar injustiças e opressões (“não pronuncie em vão o nome de Javé seu Deus”) tem como objetivo, impedir que o Nome de Deus seja manipulado para justificar um sistema que fabrica a injustiça em função de interesses pessoais e de grupos, assim como evitar que a religião seja usada e manipulada para ganhar dinheiro em benefício próprio, que é a forma idolátrica mais nefasta que se conhece na atualidade.
2ª leitura: 1 Corintios 1,22-25
O projeto de Deus é bem diferente dos projetos dos homens que valorizam os ricos, os poderosos, os intelectuais, os que têm «status», beleza física, facilidade de expressão e desprezam àqueles que não se encaixam nesses padrões.
Deus subverte uma sociedade iludida com esses falsos valores e se alia com os pobres, os fracos e os simples, porque estes sabem confiar n'Ele, se abrem e se apóiam na sua Providência. É por isso que são Paulo nos diz que é na pobreza e na fraqueza que Deus manifesta a sua força e seu poder (ver 2 Corintios 12,9).
Os coríntios achavam que insistir muito na cruz de Cristo não estava de acordo com os padrões estéticos da cultura grega e, por isso, era conveniente que a pregação de Paulo evitasse esse tema para que o cristianismo tivesse maior aceitação no mundo pagão. Paulo reconhece que anunciar Cristo crucificado pode parecer “loucura para os pagãos”, pois é como dizer que a fraqueza é forte. Mas reafirma que é justamente isto que acontece na cruz de Cristo onde “ a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.
Para ser bem aceito, ele não está a fim de esvaziar o Evangelho do seu conteúdo próprio. Por isso proclama: “Nós..., anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. O poder e a graça de Deus se manifestam na cruz, onde Cristo carregou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade pagando o preço do nosso resgate e alcançando-nos a Salvação. De um instrumento de morte (no qual eram executados os criminosos), surgiu a verdadeira vida para toda a humanidade.
A entrega livre a amorosa de Jesus em favor de todos é a opção de vida realmente humana. No nosso caso, lutar pelo bem do irmão necessitado (comida, vestido, saúde, moradia, trabalho, família...) é o caminho do Amor, mesmo que traga consigo incompreensão e, até mesmo, perseguição. O caminho da cruz por um grande ideal é o caminho de Jesus e a “mensagem de Cristo na cruz” é a marca distintiva do cristianismo, pois, mesmo que pareça contraditório, “para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, ele é o Messias, poder de Deus e sabedoria de Deus”.
Como consequência disso, a verdadeira comunidade cristã é a dos pobres, ou dos que são solidários com eles, porque se nutre da sabedoria do projeto de Deus e é portadora da novidade que provoca transformações radicais.
Evangelho: João 2,13-25
Uma das acusações que contribuíram para condenar Jesus à morte foi a de ter promovido a destruição do templo, o local santo dos judeus («Nós o ouvimos dizer: 'Vou destruir esse templo feito por homens, e em três dias construirei um outro, que não será feito pelos homens!'» Marcos 14,58). Na realidade, Jesus se referia à necessidade de destruir a mentalidade criada em volta do Templo que, em lugar de colocar Deus em primeiro lugar, servia para explorar o povo. Expulsando os vendedores do templo, Jesus mexeu com a comercialização da religião, e com a prática de fazer do Templo um lugar social fundamentado na economia e no poder.
Para os judeus, o templo era o lugar privilegiado de encontro com Deus. Ali os peregrinos que vinham do mundo inteiro entregavam suas ofertas, as quais formavam um verdadeiro tesouro administrado pelos sacerdotes. De fato, o povo precisava trocar o dinheiro dos outros países, de onde vinham, e comprar os animais para as oferendas, mas isso tinha sido manipulado de forma a transformar o templo de Jerusalém, a casa de oração, num local comercial com a aparência de lugar de culto piedoso.
Jesus ficou indignado quando “encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados”, lucrando encima da religiosidade popular. O gesto do Senhor erguendo a mão com “um chicote de cordas” para expulsar os vendedores do Templo nos impressiona. Com certeza, não era uma gesto de ira, não estava atacando as pessoas, mas a estrutura que tinha transformado a ”casa de meu Pai num mercado”. É uma atitude profética para purificar o templo ao mesmo tempo que para denunciar a opressão e a exploração dos pobres pelas autoridades religiosas.
Ao ser questionado pelos dirigentes dos judeus, Jesus dá esta resposta misteriosa: «Destruam esse templo, e em três dias eu o levantarei». Quer assim mostrar que essa instituição religiosa já tinha caducado. Doravante, «os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade» - João 4,23), sendo que o seu corpo ressuscitado o verdadeiro templo é o lugar de encontro de Deus com a humanidade, pois Ele não mora em edifícios materiais, mas no coração do ser humano.
Palavra de Deus na vida
Pode parecer estranha a atitude profética de Jesus. Logo Ele que se apresentava como “manso e humilde de coração” (Mateus 11,29) e o profeta Isaías ( Isaias 42,3) fala d'Ele como alguém que “não quebrará a cana que já está rachada”. Como entender esta atitude a não ser pela gravidade de algo que Ele quer denunciar?
Jesus denuncia a comercialização da religião, o aproveitamento da religiosidade popular para enriquecimento ilícito, o uso de Deus para legitimar o mercado, o poder, o dinheiro, a desigualdade entre as classes sociais e, até mesmo, a miséria e o desprezo pelos marginalizados. Ele mostra que «o zelo pela tua casa me consome» e não se importa em perturbar a ordem do Templo com tanto de expulsar dele tudo aquilo que o deturpa, mesmo enfrentando o poder político, religioso e econômico concentrados naquele lugar.
Questionado pelos dirigentes dos judeus («Que sinal nos mostras para agires assim?») Jesus arrisca a própria vida, identificando o templo com seu corpo («Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei»). Eles o interpretam materialmente para acusá-lo de subversivo, mas sabem muito bem que Jesus está se referindo a que nem as pessoas nem Deus podem ser comercializados. De agora em diante, Ele será o ponto de encontro entre Deus e a humanidade. Precisamos de templos para celebrar a fé em Jesus, mas o nosso verdadeiro templo é o Senhor ao qual nos unimos pela fé.
É necessário que a Igreja tenha a mesma coragem profética do Senhor para desafiar a atual idolatria do mercado, se bem que, para isso, ela também tem que se purificar do interesse excessivo pelo lado econômico e do pouco compromisso, ainda hoje, com a “opção preferencial pelos pobres”.
Não podemos negar que as atividades evangelizadoras da Igreja exigem dinheiro, mas todos os que fazemos parte dela temos o dever de contribuir com o nosso dízimo ao seu sustento de forma suficiente para poder retirar todos os “balcões” que o costume, a tradição e a falta de colaboração econômica por parte dos fiéis fizeram armar em volta da igreja, dando a impressão de que, também ali, tudo sé compra e se vende.
Uma Igreja assim purificada (esta Igreja que somos todos nós) terá a força de Jesus para denunciar, com autoridade, todo tipo de exploração sobre o povo.
Pensando bem...
Os dez mandamentos que aqui aparecem são para nós o fundamento da moral e o resumo da Lei de Deus; se bem que, no cristianismo, o que manda é o “novo mandamento”, no qual descobrimos a exigência de amar como Jesus amou; de amar e cuidar do outro como Deus nos ama e cuida de nós. Infelizmente, uma catequese por demais centrada nos dez mandamentos reduziu o conceito de pecado a “não fazer nada do que está proibido”. Uma atitude puramente negativa que devemos superar em vista do bem que devemos fazer..
+ Refletindo sobre a atitude de Jesus com os vendedores do Templo, já pensaram no tropel que faria o Senhor em certos cultos que garantem as bênçãos de Deus de acordo com o tamanho das ofertas... e em tantos santuários nos quais o bazar de objetos religiosos ocupa um lugar tão especial? Jesus quer substituir o sistema religioso que comercializa e explora o ser humano “na casa do meu Pai”, pelo templo do seu corpo, onde habita a plenitude da divindade e o Espírito divino.
Campanha da Fraternidade 2012
A grande luz sobre a realidade misteriosa do sofrimento humano provém do amor divino, tal como se revela nas Sagradas Escrituras. É sob esta luz que podemos julgar a realidade do atendimento à saúde em nosso meio para discernir o que podemos e devemos fazer.
Cristo vivenciou o sofrimento em intensidade tal que realizou em si a profecia de Isaías, tornando-se o “homem das dores... Em que o Senhor fez cair as culpas de todos nós” (cf. Is. 53,3.6). No entanto, o amor profundo o impulsionou a cumprir fielmente a vontade do Pai.
A paixão de Cristo representa a máxima expressão do sofrimento humano, que, nesta entrega do Redentor, recebe uma significação nova e profunda ao ser associado ao amor.
É o amor no Espírito que constitui a comunidade eclesial e a impulsiona ao serviço dos doentes quando coopera para que sejam supridas as deficiências no atendimento à saúde. A caridade é um dever da Igreja e suscita iniciativas para que todos tenham vida.
No contexto eclesial, os doentes e os sofredores não se resumem a destinatários de atenções e de cuidados. Eles nos evangelizam com o testemunho do sofrimento aceito e oferecido, o milagre do amor. A resposta frente a esta realidade é a nossa solidariedade.
padre Ciriaco Madrigal




"Não façais da casa de meu pai uma casa de comércio"
Hoje é o domingo da expulsão dos vendilhões do templo. O tema central da celebração deste 3º Domingo da Quaresma é a adoração de Deus. Cristo é o templo da Nova Aliança. Neste terceiro domingo de nossa caminhada, rumo à Páscoa do Senhor, encontramos Jesus em Jerusalém, testemunhando o seu gesto profético da purificação do Templo e o anúncio da ressurreição. Em Jesus Cristo, templo vivo de Deus contemplamos a glória do Pai.
Nosso mundo é regido pelo pensamento único do mercado global. Tudo se submete a ele. As próprias leis, bonitas no papel (como a Declaração dos Direitos Humanos e tantas outras iniciativas), cedem diante desta "lei maior", deste novo "deus" ou diante deste imperativo do dogma do pensamento único do mercado.
O que nos tem a dizer sobre isso a liturgia deste terceiro domingo da Quaresma?
Primeira leitura - Êxodo 20,1-17
Moisés deu a lei que passou; em Cristo, a Aliança é definitiva. Esta leitura nos relata a promulgação solene dos Dez Mandamentos, que selou a primeira Aliança de Deus com seu povo, logo depois da libertação da escravidão do Egito, no deserto do Sinai. Os três primeiros mandamentos referem-se a Deus; os outros sete, ao próximo. O tema central deles é a "proteção da vida humana", porque no Egito se matava muito, a começar pelas crianças recém-nascidas. O v. 13 garante o direito à vida. "Não matar" não significa só deixar viver, mas também não deixar morrer. Não criar ou não permitir condições tais que levem o próximo à morte.
A imagem com a qual Javé se revela a Israel é a do libertador do seu Povo da escravidão (cf. v. 2a). A presença do Senhor reconhece-se por esta sua contínua atividade libertadora. Só nesta perspectiva se podem compreender os Mandamentos, que são todos um convite a respeitar a dignidade de cada pessoa, libertando-o de qualquer forma de idolatria (versículos 3-4) e de escravidão (vs. 8-11).
Os Mandamentos podem ser lidos e interpretados a partir do mandamento do repouso do sábado (vs. 8-11). Este mandamento é exclusivo de Israel, desconhecido das outras culturas, e por isso distintivo do Povo do Senhor. Com este mandamento é reconhecida a grande dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do seu Criador (cf. Gênesis 1,26).
Desta grande consideração pela dignidade do ser humano derivam depois todos os outros Mandamentos, quer os que dizem respeito ao relacionamento com Deus (cf. versículo 2b-7), que os que se relacionam com o comportamento com as outras pessoas (cf. vs. 12-17). Precisamente porque chamado a ser imagem e semelhança do seu Deus, o ser humano só se degradará ao adorar outras divindades. Chamado a colaborar com o seu Senhor na Criação, a relação que instaurará com as outras pessoas consistirá em ter somente comportamentos que transmitam vida.
O mandamento de não cometer adultério, versículo 14, está ordenada à defesa da vida e da família. Para que o matrimônio possa cumprir sua finalidade, exige-se a fidelidade entre os esposos. A Bíblia leva a sério "o amor, o matrimônio, a vida e a fecundidade". O mandamento dirige-se tanto à mulher, como ao homem.
O mandamento de não furtar, do versículo 15, não visa só os bens do próximo. Trata-se, antes de tudo, da própria pessoa, de sua liberdade. O rapto de pessoas e sua escravização são considerados gravíssimos pecados de furto (Êxodo 21,16; Deuteronômio 24,7). Reter o salário de um operário também é um furto (Deuteronômio 24,15; Lv. 19,13).
Muito pelo contrário do que se pensa, o Primeiro Testamento não visa só os atos externos. O 10º mandamento (v. 17) tem como objeto o desejo, a cobiça das coisas do próximo. Tem em mira a raiz do pecado, o desejo desregrado que nasce no coração do homem (Mateus 15,19). O mandamento aponta essa cobiça como um pecado que se opõe à Aliança.
No salmo responsorial 18/19,8-11
O salmo 18/19 mistura dois tipos, e isso levou muita gente a dividi-lo em dois. De fato, dos vs. 2 a 7 temos um hino de louvor, sem nenhuma introdução. Nele o céu e o firmamento, o dia e a noite, em silêncio, cantam os louvores de quem os criou. É portanto, um hino de louvor ao Deus criador. Mas na segunda parte (vs. 8-15) o estilo é sapiencial, apresentando uma reflexão sobre a Lei de Deus, também chamada de "testemunho" (v. 8b), "preceitos" (v. 9a), "mandamento" (v. 9b), "temor" (v. 10a) e "decisões". São seis palavras para dizer basicamente a mesma coisa. Ao lado de cada uma dessas palavras repete-se sempre o nome "Javé".
Este salmo fala que a lei do Senhor é fonte de energia, luz e conforto, sabedoria para os simples, alegria para o coração e carregada de justiça. Obedecer a lei do Senhor nos livra dos grandes pecados. O "jugo" do Senhor "é suave e o seu peso leve", e quem o acolhe encontra descanso para a sua vida (cf. Mateus 11,29-30). O acolhimento da vontade de Deus não mortifica as pessoas mas torna-as uma pessoa esplêndida: "Os preceitos do Senhor são claros e iluminam os olhos" (versículo 9).
O rosto de Deus no salmo 18/19 é muito interessante. Duas imagens de Deus são muito fortes neste Salmo: o Deus da Aliança (versículos 8-15), que entrega a Lei a seu Povo, e o Deus Criador, reconhecido como tal e por suas criaturas em todo o mundo (vs. 2-7). Portanto, o rosto de Deus como Aliança, significa "acordo" com o Povo e Criador que ama as suas criaturas.
O Novo Testamento viu em Jesus Cristo o cumprimento perfeito da Nova Aliança, aquele que fez ver de forma perfeita o Pai (João 1,18; 14,9). Sua Lei é o amor (João 13,34). Jesus louva o Pai por ter revelado seu projeto aos pequeninos (Mateus 11,25) e mandou aprender com os lírios do campo e as aves do céu o amor que o Pai tem por nós Mateus (6,25-30).
Agradeçamos ao Senhor pela garantia de liberdade que Ele nos dá através de sua Aliança em Jesus Cristo.
Segunda leitura: 1Cor. 1,22-25
No tempo de Paulo, muitos queriam chegar a Deus usando somente a inteligência. Mas a sabedoria de Deus, que atua a reconstituição da Aliança na crucifixão do Filho, não é compreendida como sabedoria, mas é escândalo para aqueles que não são chamados. O apóstolo Paulo lembra à comunidade de Corinto que a vida cristã é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para os eleitos das comunidades cristãs, é poder e sabedoria de Deus, que confunde os sábios deste mundo.
"A Lei nos diz que o Messias vai permanecer aqui para sempre. Como podes dizer que é preciso que o Filho do Homem seja levantado?" (cf. João 12,34). Como acreditar num Messias que não sé é morto, mas que morre da morte dos malditos, "como está escrito: Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro"? (Gálatas 3,13; cf. Deuteronômio 21,23). A morte ignominiosa da cruz era considerada o sinal mais evidente de que Jesus não podia ser o libertador esperado (cf. Lucas 24,21). Ao contrário, Paulo exorta os cristãos a não pensarem segundo a mentalidade das pessoas, mas segundo Deus (cf. Mateus 16,23).
Um Deus crucificado num patíbulo será sempre impossível de acreditar por todos aqueles que, como os judeus, constantemente procuram manifestações do poder de Deus e esperam sinais e prodígios. Um Deus que Se faz servo das pessoas Se tornará incompreensível da parte de todos os que, como os gregos, fazem da própria sabedoria um pedestal para exercer o seu poder sobre as pessoas (cf. vs. 22-23) Mas é na Cruz, onde um homem morre por amor, que se encontra o verdadeiro "poder de Deus" e a verdadeira "sabedoria de Deus" (versículo 24), e Jesus Crucificado é o único sinal do Senhor para toda a Humanidade.
A doutrina anunciada por Paulo, então, apresenta-se como oposta às pretensões dos judeus e gregos. Na contradição da cruz está a grandeza-triunfo de Deus. Sua ação parece fraca e louca, mas nela manifesta-se a grandeza-força e sabedoria de Deus que confunde os fortes e sábios deste mundo (1Coríntios 1,27s). No entanto, os que têm fé, vêem na "fraqueza e loucura" (Gálatas 5,11) do agir divino o sinal de sua misericórdia. O anúncio da cruz, que parecia contradizer a esperança das pessoas, pela luz da fé é visto como vitória (João 12,34). O instrumento de maldição, usado no suplício dos condenados, tornou-se instrumento de salvação. Mais uma vez a sabedoria de Deus trilhou caminhos que não são os da sabedoria dos seres humanos.  
Evangelho: Jo 2,13-25)
O tema central de hoje é a adoração de Deus. É o que o Primeiro Testamento entende por "temor de Deus". Este termo não aponta um medo infantil diante de um Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do Mistério. Israel não pode "temer" outros deuses (2 Reis 17,7.35 etc.). Este temor de Deus se expressa, antes de tudo na Lei do Sinai, cujo resumo são os dez Mandamentos. Inicia com o mandamento do temor de Deus: só a Deus se deve adorar, pois Ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também no relacionamento com o próximo (o co-esraelita, em primeira instância). Pois Deus não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o "culto" (adoração de Deus) implicar imediatamente num "etos" (critérios de comportamento).
As leituras dos domingos da Quaresma estão todas centradas no rosto do Pai, na tentativa de eliminar as crenças que ofuscam o seu esplendor. No primeiro domingo o Livro do Gênesis apresenta um Deus desarmado: "Colocarei o meu arco nas nuvens" (Gênesis 9,13), que não castiga o ser humano pelos seus pecados mas que é fiel à sua Aliança com a Humanidade (cf. Gênesis 9,8-15). No segundo domingo a leitura, extraída também do Livro do Gênesis, era centrada sobre um Deus que rejeita os sacrifícios humanos (cf. Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18). Nesta evolução da purificação, o Evangelho de hoje revela a imagem que Jesus não quer sacrifícios de animais ou coisas. Em todas as religiões as pessoas projetaram freqüentemente sobre a divindade o tipo de relacionamento experimentado com os poderosos da terra. Habituados a ter que oferecer os seus bens melhores aos patrões, pensaram obter de maneira parecida a bondade da divindade oferecendo-lhe o que de melhor tinham na sua vida. Com Jesus, tudo isto acaba. Expulsando os vendedores do Templo de Jerusalém, o Filho de Deus não pretende purificar o lugar santo corrompido pelo comércio, mas impedir um culto que na realidade era só fachada e o pretexto da casta sacerdotal para desfrutar do povo e impor o seu domínio sobre ele.
Jesus anuncia o sacrifício que vai restabelecer a Aliança e a ressurreição que é garantia maior da "nova Aliança". Na sociedade judaica do tempo de Jesus o Templo havia se transformado no centro do poder religioso, político e econômico, onde agia a cúpula governamental (o Sinédrio) e onde se guardavam também imensas riquezas. De lugar de culto ao verdadeiro Deus, o Templo havia se transformado em instrumento de opressão e exploração do povo. A lei de Deus não era mais para defender a vida. Por isso, Jesus é tomado por uma "ira profética": pega um chicote e expulsa os negociantes que estavam transformando o templo de Deus num mercado. Contudo, Jesus não pensa em uma restauração do Templo de Jerusalém como casa de oração, "mas na sua substituição". Para João, o sentido deste trecho lido neste terceiro domingo é anunciar Jesus como o Novo Templo, lugar da revelação e adoração do Pai, isto é, a pessoa de Jesus Cristo é o lugar onde se encontra Deus.
A Aliança entre Deus e o seu Povo era descrita pelos profetas com a metáfora esponsal. Mas nesse matrimônio entre Deus e Israel já não há amor. Eis a razão porque nas Bodas de Caná na Galiléia mudou a água em vinho, símbolo do amor dos esposos (cf. Cântico dos Cânticos 2,6), que veio a faltar. A nova relação com deus agora já não se baseia nos esforços das pessoas (figurados nas "talhas" que continham a água para a purificação: cf. João 2,6), mas no acolhimento do seu amor gratuito.
Portanto, uma vez entrando no Templo de Jerusalém, Jesus expulsa a todos dali, incluindo os animais destinados aos sacrifícios. O Pai não requer nenhum tipo de oferenda ou de sacrifício (cf. Mateus 8,13), mas é Ele que oferece tudo a todos (cf. Atos 17,25). Embora expulsando os vendedores de bois e de ovelhas, Cristo dirige a sua censura unicamente aos vendedores de pombas (cf. v. 16), animal símbolo do Espírito, o amor do Pai que não pode ser vendido, mas apenas oferecido.
Aqui está também a importância da antiga Aliança. A síntese das leituras bíblicas deste domingo pode formular-se deste modo: "o novo templo espiritual" constrói-se sobre Cristo, morto e ressuscitado (evangelho e segunda leitura), e fundamenta a "nova Aliança" e a "nova religião em espírito e verdade", que veio substituir a antiga Aliança, explanada na Lei de Moisés.
É importante ver a passagem da purificação do templo como auto-manifestação do mistério salvador de Cristo. Ele significa a importância da "antiga Aliança" e o fim do culto que encarnava no templo de Jerusalém. Cristo dá lugar a uma Aliança e Culto novos em espírito e verdade.
Trata-se da "Aliança e do culto novo" que Jesus prega na linha dos profetas do Antigo Testamento e frente á degeneração do culto do templo de Jerusalém que se tinha tornado ritualista, vazio e hipócrita, além de ser, já, desnecessário. Por isso o véu do templo rasga-se quando Jesus morre.
Os primeiros cristãos não tiveram templos, nem catedrais, nem basílicas, durante vários séculos. Estavam conscientes, tal como deveríamos estar nós, de que assembléia (= ekklesía, em grego) é a autêntica Igreja de Deus, o santuário espiritual, prolongamento do corpo de Cristo que é o "templo da nova Aliança". Até mesmo cada cristão, cada batizado no Espírito de Jesus, é templo de Deus.
Jesus Cristo é o nosso modelo. Ele é o grande sacerdote e a vítima da nova Aliança e do culto que culmina na fórmula cristológica e trinitária que encerra a oração eucarística: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo poderoso...
O que significa para nós hoje esse gesto de Jesus usando o chicote? As práticas religiosas que usamos em nossos templos estão de acordo com o Evangelho?
Função na liturgia
Não existe, nas leituras da Quaresma, nem a leitura contínua dos evangelhos, nem a coerência (ligação) entre a Primeira leitura e o Evangelho, que caracteriza a Liturgia da Palavra nos domingos comuns. Contudo, as leituras trazem presente, mediante seus temas diversos, um espírito comum: o espírito de conversão. É nesta pedagogia da conversão que se situa o presente Evangelho. Podemos aprofundar, neste sentido, os três momentos da narração:
1) a expulsão dos vendedores e dos animais de sacrifício (2,13-16): pôr fim a uma forma de religião que já não vale desde que Jesus nos mostra a vontade do Pai.
2) O Novo Templo, Jesus (v. 17, transição, e vs. 18-22): procurar adorar e amar a Deus no Filho morto e ressuscitado. 3) a precariedade da fé (versículos 23-25): mesmo quando nós professamos a fé em Jesus Cristo, ainda não nos colocamos definitiva e seguramente ao seu lado; seja isto uma advertência  contra uma segurança temerária e uma exortação para uma conversão sempre renovada.
Em tudo isto aparece, naturalmente, o cristocentrismo radical do evangelista João. Converter-se, na linha de João, significa voltar-se para Jesus Cristo, confiar Nele, abandonar os templos provisórios ou degenerados. E trata-se do Cristo morto e ressuscitado, não do Cristo simpático, bacana, etc.
Podemos dizer que o Evangelho de hoje, como também do Quarto e Quinto Domingo, nos preparam para a conversão como encontro com o Senhor padecente e ressuscitado (cf. sobretudo o Quinto domingo da Quaresma, João 12,20-33).
Da palavra celebrada para o cotidiano vida
A caminhada quaresmal, já chegou a meio percurso, é um momento privilegiado para favorecer a "conversão" das pessoas e o conhecimento do rosto de Deus. É importante conhecer no que Deus acredita, para saber depois como comportar-se com o próximo.
O grande pecado do mundo globalizado é a sacralização do mercado. O culto ao mercado virou uma religião subliminar cheia de deuses nanicos, que cultuam a riqueza, o poder, justificando no mundo uma desigualdade terrível, corrompendo às vezes a própria religião com a mercantilização do sagrado (teologia da prosperidade).
Jesus condena essa prática e chama a nossa atenção para o projeto de Deus do Êxodo, a libertação. O Templo é a casa de Deus, lugar da memória histórica (ele guarda a Arca da Aliança, selada no Sinai). Não pode ser local de ostentação, de pode e de opressão do povo. O Templo é importante, mas não absoluto. Na travessia do deserto, Deus acampava numa tenda. Por muito tempo não quis templo. O verdadeiro templo de Deus é Jesus Cristo, que acampou entre nós (João 1,14). Nós mesmo somos o templo de Deus (1Coríntios 6,15).
É por isso que a segunda leitura fala do escândalo da cruz. A proposta do Evangelho está na contramão a sabedoria dos grandes e poderosos, na contramão do mercado.
 É também dentro desse contexto que devem ser colocados os mandamentos de Deus, a lei da vida, da libertação. Se as comunidades cristãs não tiverem clareza do projeto de Jesus Cristo (que é a contramão do projeto do mercado), não será possível observar os mandamentos. Não adianta sabê-los de cor. Eles foram exatamente promulgados para superar as opressões que aconteciam na "casa da escravidão" (no sistema do faraó).
 Ora, o deus-mercado de hoje repete exatamente as opressões do faraó: não observa nenhum dos mandamentos. Senão vejamos, mandamento por mandamento: o mercado adora o dinheiro e o poder (1º); usando de modo blasfemo o nome de Deus para justificar a guerra e tantas barbaridades (2º); não guarda o Dia do Senhor (3º); desmonta a família (4º); mata bastante e manda matar (5º) legaliza o adultério (6º); rouba legalmente (7º); usa do falso testemunho contra os pobres da terra (dentro e fora dos tribunais) (8º); e, finalmente, nos ensina todo o santo dia a cobiçar de tudo através da propaganda desenfreada dos meios de comunicação social (9º e 10º).
A Quaresma é um convite de conversão, para cada um de nós, para as comunidades. Sem sair da "casa da escravidão" não é possível de jeito nenhum observar os mandamentos. Sem termos um projeto de vida, não adiantam as leis. Sem um projeto de vida, nunca teremos o começo do mundo novo representado pela Páscoa, pela ressurreição de Jesus.
Ligando a palavra com a ação eucarística
Nossa fé cristã afirma que a Igreja, o povo de Deus convocado, faz a Eucaristia e que a Eucaristia faz a Igreja. Cada vez que celebramos a Eucaristia está se reconstituindo, se reconstruindo. Volta e encontrar seu centro, que é dar a vida. Dispõe-se a se entregar para os outros e, assim, se reconstitui como povo que tem uma missão no meio dos pobres. É a decisão renovada de dar a vida nas lutas humanas e nos projetos humanos que transforma este mundo. É povo que se transforma em presença real de Cristo que se entregou por amor. É a conseqüência do "Amém" proclamado ao comungar.
É impossível, portanto, celebrar autenticamente a Eucaristia sem adquirir consciência de ser povo enviado e povo que se renova para cumprir melhor a missão que Deus nos mostra na história.
Cada vez que nos reunimos para celebrar, renovamos a Aliança selada no sangue de Jesus, o Templo vivo do Pai. A comunidade reunida no amor de Cristo continua, com a presença do Ressuscitado e do seu Espírito, a tarefa de levar adiante a Aliança da salvação até que Deus seja tudo em todos.
padre Benedito Mazeti




“O templo vivo”
Qual é a proposta de Deus para o homem e como deve o homem se relacionar com Deus?
Trata-se de uma pergunta vital para toda a humanidade desde o código da Aliança firmada no Sinai, até a Nova Aliança selada com o sangue do novo Cordeiro Pascal que é Jesus Cristo.
Na premissa da Lei Deus revela a sua identidade “Eu sou o Senhor Teu Deus que te tirou do Egito”. Eis aí um Deus libertador, cuja ação a favor do povo oprimido e explorado ratifica sua imagem, ele não é um Deus distante e indiferente ao destino do homem.
É justamente sobre essa premissa que são elaboradas as leis que doravante irão nortear as relações com Deus e com o próximo. O seguimento da Lei fará do homem um ser liberto, vivendo sua existência na paz e na alegria, pois nos diz o salmo responsorial da liturgia deste terceiro Domingo da Quaresma, que a Lei do Senhor é perfeita e os seus preceitos são precisos.
Como em toda e qualquer relação o quesito básico é a fidelidade “Não terás outros deuses diante de mim”
A confiança de uma esposa pelo seu marido, não está no fato de acreditar que ele não irá traí-la com outra mulher, mas sim de que ele a ama e por isso não precisa de uma amante. Assim, ser fiel a Deus não é apenas não traí-lo, mas amá-lo e adorá-lo de todo o coração a todo instante da vida. A exigência da fidelidade colocada na Aliança não é um peso, mas uma grande alegria. Quando em uma relação conjugal, uma das partes tem dificuldade para ser fiel ao outro, é porque o amor nunca existiu. A Lei de Deus é libertadora e não opressora.
A partir do ano 538 a.C., no período pós-exílio, sob o domínio persa, com a restauração do altar dos sacrifícios o templo passa a ser a referência mais importante nas relações com Deus onde a estrutura cultual do judaísmo faz dele o lugar único do encontro com Deus, através dos ritos e sacrifícios de purificação. No exílio, longe do templo, o israelita perdera sua identidade religiosa.
O tema central da reflexão desse domingo está na segunda parte do evangelho de João, onde Jesus, quebrando este paradigma irá afirmar “Destruam este templo e em três dias eu o reconstruirei”. Uma afirmação que desafia o projeto de morte do sistema político-religioso, prenunciando o seu fracasso ao tentar destruir o Reino que Jesus havia implantado no meio dos homens. Esta declaração e mais a expulsão dos vendedores e cambistas do templo foi certamente à gota d´água que acabou levando Jesus diante do tribunal.
De que adianta ter uma relação legalista com Deus, se o próprio sistema religioso oprime e explora o povo? Jesus condena esse formalismo marcado pela hipocrisia onde as relações para com Deus se fundamentam na justificação e faz dele devedor do homem. Doravante o caráter sagrado do templo será relativizado diante de Jesus, só ele tem o sagrado que é Deus e o revela, não aos mandantes da estrutura religiosa, mas a gente simples do povo, no caso os discípulos que haviam se tornado seus seguidores, pois só ele é o único e verdadeiro caminho para o Pai, decretando assim a falência da estrutura religiosa em torno do templo.
Os vendedores e cambistas do templo estavam a serviço de latifundiários poderosos, que comercializavam de maneira inescrupulosa os animais a serem ofertados no Holocausto, enriquecendo as custas do povo, que para cumprir um preceito religioso, tornara-se vítima dos exploradores. Hoje em dia não falta em nossa sociedade os “descendentes” dos vendilhões do templo de Jerusalém, que muitas vezes em nome de Deus, fazem grandes negócios acumulando “gordos lucros” aos grandes conglomerados econômicos. Mas não é evangélica essa conduta de ficarmos olhando o “rabo” dos outros, é melhor neste tempo quaresmal olharmos para nossas comunidades e nos perguntarmos com toda sinceridade, que lugar o Povo de Deus ocupa dentro da instituição religiosa?
Porque no centro de qualquer sistema religioso deve estar a preocupação com a vida do homem, sua liberdade, sua realização como pessoa e sua dignidade de Filho de Deus e nesse sentido, qualquer conduta ou preceito religioso que contrarie essa verdade absoluta proclamada e defendida por Jesus, não provém do Evangelho e não merece crédito, venha de qual igreja vier!


SEGUNDA HOMILIA


"Mercantilismo religioso"
Um dia quando líamos esse evangelho em uma reunião de equipe, levantou-se a dona Maria, que veio lá do norte, e disse que Jesus a fez lembrar-se dos fiscais que davam o “rapa” quando ela e o marido tentavam vender mercadorias em uma rua de São Paulo, “eles chegavam arrebentando tudo, virando a banca de pernas prá cima e a gente corria, senão o cassetete de borracha “comia solto”, nunca pensei que Jesus Cristo também perdesse a paciência e ficasse brabo desse jeito” – finalizou dona Maria.
Foi quando uma catequista muito jovem, perguntou-nos se Jesus estava realmente bravo, e com o que, qual a causa da sua indignação?
O grupo ficou dividido, uns acharam que ele já estava cansado de ver aquela exploração no templo, e que nesse dia, estando com o pavio curto e a paciência esgotada, não se segurou e “soltou os cachorros” prá cima dos exploradores gananciosos. Outro grupo achou que na verdade, o evangelista quer colocar essa briga como o estopim que irá desencadear todo o processo contra Jesus, já que era a semana da páscoa judaica e os vendedores que foram expulsos, não iriam deixar barato aquela atitude de Jesus, mesmo porque, eles vendiam com autorização dos sumo sacerdotes, que tinham interesse nas vendas, uma vez que em sua maioria eram latifundiários, portanto, “fornecedores” naturais de animais para serem sacrificados, podendo então concluir que Jesus havia “cutucado a onça com a vara curta, ou ainda, havia mexido com um vespeiro”.
Como membro da comunidade e freqüentador do templo, Jesus não concorda que haja uma segunda intenção naqueles que trocam moedas e vendem animais para o sacrifício, porque comunidade não é lugar de se fazer barganha, de se buscar interesses particulares que não sejam os do bem comum, não é lugar para se fazer negociatas e trocas de favores, e vem daí a indignação de Jesus para com as lideranças que permitiam a exploração, porque a venda lhes trazia um lucro bem gordo.
Muitas vezes tranqüilizamos a nossa consciência quando pensamos que trabalhamos realmente com amor e que nada buscamos para nós, na pastoral ou movimento onde atuamos, entretanto, sempre há a tentação de ganharmos algo em troca do nosso trabalho, quem é que não quer ser reconhecido por aquilo que faz?
Ser sempre ouvido, consultado, ter a opinião mais importante, ter uma palavra de peso maior, ter poder de influência no conselho e nas demais equipes, exercer um poder paralelo ao da instituição, medir forças com outra liderança, com nossos pastores, ministros, cooperadores, ter prioridade em ocupar salas ou outro espaço qualquer, fazer certas exigências para desempenhar o trabalho. A grande verdade é que, embora de uma maneira dissimulada, também temos nossas “barraquinhas” particulares que faz da comunidade uma verdadeira feira livre, às vezes.
A indignação de Jesus é porque as relações no templo tornaram-se mercantilizadas, e então o evangelho nos faz um forte apelo chamando-nos a uma conversão sincera, para que a convivência na comunidade seja sempre marcada pelo amor gratuito, pela docilidade e flexibilidade, não nos faltando misericórdia, compreensão e paciência, e que possamos eliminar do nosso meio as divisões, os ranços e azedumes, que magoa, fere e machuca os irmãos e irmãs. Que não profanemos o templo sagrado que é a vida dos irmãos, onde o Senhor está presente, senão, de pouco adiantará respeitarmos o ambiente sagrado da igreja templo.
No êxodo, Deus caminhava no meio do povo, habitando em tendas, depois, na monarquia ele foi “enlatado” no templo de Jerusalém, para dar sustentação ao Rei, seu ungido que reinava em seu nome. Deus estava no templo para ser adorado, receber as ofertas e sacrifícios, mas agora, ao se colocar como novo templo, Jesus Cristo está dando um solene basta a antiga religião, Deus deixará o templo para habitar na “Eclésia”, na assembléia da igreja, no meio do povo da nova aliança, aberto a todos os homens que quiserem participar do novo reino. Deus faz morada no mais íntimo do homem dando um novo significado à vida humana, que entra em comunhão com o Divino, tornando-se sagrada e indestrutível.
Aos homens que pensaram ter destruído Jesus para sempre na cruz do calvário, Deus Pai o encheu de glória com a ressurreição, os que hoje pensam ser capazes de enterrar o cristianismo, ridicularizando os seus ensinamentos terão uma surpresa no final da história, pois Jesus garante que esse Reino é eterno e atingirá a sua plenitude, independente da vontade do homem.
diácono José da Cruz



1 – O centro e o conteúdo essencial da fé cristã é Jesus Cristo e o mistério da Ressurreição. Sem Páscoa não haveria vida nova, não haveria Igreja, que nasce precisamente com a ressurreição de Jesus, pedra após pedra se ergue com Ele do sepulcro, para a luz e para a vida, para o mundo e para as alturas.
Mas por ora, enquanto não chega a Páscoa, é tempo de caminhar, é tempo da travessia por todos os desertos da solidão, da doença e da morte. Ao terceiro dia, Ele levantar-se-á, e levantar-nos-á com Ele, dos escombros do pecado, do sofrimento e do mal, para nos dar a Sua vida nova, um novo Templo de graça, de verdade e de paz. As "dores da maternidade" ainda fazem mossa, ainda fazem sofrer, ainda nos fazem dobrar sobre nós próprios, em posição que espera o afago e o abraço de Deus, para levantarmos o olhar e vermos os novos Céus e a nova Terra, que nos aguardam e atraem.
O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma fala-nos do sinal maior que Jesus nos poderá dar: a Sua ressurreição. O templo cairá por terra e da terra, a que pertencemos, e a que Deus quis e quer pertencer, por Jesus Cristo, erguer-se-á o Templo do encontro, da festa, da alegria, até à eternidade.
"Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio»...
Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei»... Muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem".
O templo de pedra é sinal da presença de Deus no meio de nós, e daí a necessidade de ser respeitado por nele transparecer a Sua luz. É também sinal de outro templo, e da vida nova, o Templo que é o próprio Jesus Cristo, onde Se pode encontrar Deus de verdade, e o templo que somos nós, imagem e semelhança de Deus, sacrários vivos do Altíssimo.
2 – Como em tudo na vida, o caminho também é importante. Não adianta correr se não sabemos para onde nos leva a estrada, a ruela, a avenida. Pode ter um piso agradável, macio, colorido, artístico, mas por aí não nos leva a bom porto, porque não sabemos também onde aportar. Não podemos navegar sem orientação. Para o barco que não sabe para onde navega, todo o vento é desfavorável. Como cristãos sabemos o destino: a vida eterna, a comunhão em plenitude junto de Deus. Mas a vida em Deus não é futuro, não somente futuro, é também presente, é também vida, é também a nossa casa, as nossas paixões, as nossas vivências, os nossos projetos; a eternidade vislumbra-se e inicia a partir daqui, do lugar em que me encontro, no mundo que é a minha casa, a minha família, a minha vizinhança, o mundo que é a minha aldeia, a minha paróquia, a minha vila e a minha cidade, a minha escola e o meu trabalho.
Por sorte, não estamos num labirinto fechado, escurecido, traiçoeiro, ainda que possa haver labirintos na nossa vida e possam existir tantos caminhos quantas as pessoas que estão a caminhar. Os que nos precederam na fé, inspirados por Deus, clarearam a quaresma que temos de fazer para nos acercarmos da Páscoa, tapetearam a estrada para que as quedas não nos destruíssem e nos fizessem destruir.
Escutemos Moisés: "Não terás outros deuses perante Mim... Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto... Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus... Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares..., o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença".
É um bom ponto de partida para nos tornarmos cúmplices de Jesus Cristo. Os Mandamentos continuam a ser para a Igreja (e para os cristãos) e para o mundo (como base dos Direitos Humanos) uma referência fundamental, que nos exercitam na convivência com Deus, e na caridade para com todos.
3 – Os sinais pedidos a Jesus são-nos também exigidos a nós, como seus discípulos, seus seguidores. Tal como Ele, o maior sinal para nós é a ressurreição que emoldura a Cruz do amor, da paixão, da entrega que n’Ele, Deus feito homem, nos é ofertado em plenitude.
"Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
No nosso itinerário quaresmal até à Páscoa, e até à vida eterna, há de haver lugar à partilha, à solidariedade, à comunhão, ao serviço, traduzindo em concreto a cruz, expressão do amor, da caridade, e daquela – a cruz –, dar sinais, deixar o vislumbre da LUZ que nos vem da RESSURREIÇÃO e de nos tornarmos, pela fé, pelo batismo, cúmplices de Jesus Cristo. Anunciamos a morte e a ressurreição até que Ele venha. Anunciamos como Ele, em palavras que se tornam vida gasta com os outros e a favor dos outros. No compromisso com os outros, na justiça e na caridade, a ressurreição acontecerá.
padre Manuel Gonçalves




A religião verdadeira é dar a vida pelos outros
1ª leitura: Êxodo 20,1-17
Deus e o homem encontram-se na Aliança
1. A primeira leitura é o famoso Decálogo, coração de um "código da Aliança" que se tornou a expressão mais definida da teologia sacerdotal (a diferença do Decálogo de Dt. 5,6-21) e que desempenhou um papel considerável na evolução ética da humanidade. Embora expresso em forma negativa e absoluta, tem uns objetivos bem determinados: proteger a comunidade, o povo da Aliança, para lhe dar uma identidade e para que não voltem à escravidão. É isso o que espera, o povo se adorar outros deuses estranhos já que todos os impérios tinham os seus deuses protetores e os dominadores impunham-nos como sinal de vitória.
2. Mas, além disso, é um código em dez Palavras que exprime uma relação dialogal, interpessoal. O Decálogo procura exprimir uns direitos fundamentais, como hoje defendemos, no âmbito da comunidade internacional. Por isso, devemos valorizá-lo como uma proposta, naquela época, que se antecipa séculos e séculos a muitas conquistas humanas da nossa época. Pretende que as relações entre Deus e o homem, e a dos homens entre si estejam enformadas pela adoração e pela religião verdadeira, pela justiça enquanto todo o pecado contra o próximo é um pecado contra Deus. É verdade que o decálogo é como um "escudo" que protege a santidade de Deus, mas também a dignidade de todos os homens, do próximo em concreto.
3. Por detrás destas expressões formuladas nesta teologia sacerdotal, devemos ver a ação do Deus salvador que fez uma aliança com o povo. Este, por seu lado, deve ser não somente um bom intermediário, mas um verdadeiro missionário deste projeto salvador de Deus. Disseram que no fundo devemos ver a gratidão de Deus. Antes, pois, de que a humanidade se tenha dotado dos direitos fundamentais, estes propósitos do "decálogo" mostram a ânsia de Israel para ser um povo fiel, um povo justo, embora dependente de Deus. Mas segundo a melhor teologia bíblica é em Deus que está a fonte de toda a justiça e dignidade humana,
2ª leitura: 1 Coríntios 1,22-25
Deus fala da sabedoria da cruz
1. A segunda leitura propõe-nos a sabedoria da cruz. É uma passagem da carta em que Paulo se confronta com o problema da divisão da comunidade em facções diversas que se remetem para personagens do cristianismo primitivo; uns para Paulo, outros para Pedro, outros para Apolo; e, inclusive, outros (muito provavelmente o próprio Paulo) para Cristo como o único que pode dar consistência à nossa fé. O texto de hoje faz parte de um amplo conjunto (1Cor. 1-4) que o apóstolo enfrenta por informações das "gentes de Cloe", talvez uma das comunidades domésticas. E, em vez de uma reprimenda moralizante e sem sentido, propõe, para a unidade e comunhão da comunidade, que crux sola nostra theologia como dizia Lutero. Na cruz, as divisões, os partidos, os grupos de elite de uma comunidade ficam à altura das nossas próprias misérias.
2. Paulo fala de Cristo crucificado face às divisões, o valer mais ou menos, o ser dos primeiros ou dos últimos, porque na cruz de Cristo se revela o Deus que se "baixou" até nós. Este Cristo crucificado, revelação do verdadeiro Deus, é loucura para os judeus que, desde sempre, concebem Deus na sua grandeza; loucura para a sabedoria deste mundo que é também uma sabedoria de prepotência inaudita. A religião da cruz, no entanto, não é a religião da ignomínia, mas da condescendência com os fracos e com os que não contam neste mundo. Embora alguns tenham censurado esta explicação paulina como a decadência da sociedade (Nietzsche), esse é o único caminho onde podemos reconhecer o nosso Salvador. Com um estilo retórico, usando a diatribe de uma forma clássica, Paulo pergunta com insistência se os sábios, os entendidos, os investigadores podem oferecer-nos o sentido profundo e radical da nossa vida. Porque a nossa vida verdadeira é muito mais do que conhecer o "genoma humano".
3.No entanto, não se trata de condenar a sabedoria humana em si, nem a investigação nem a filosofia. Nem tão pouco se há-de entender a "theologia crucis" como a religião do masoquismo. Nada disso! Não é assim da forma com que Paulo argumenta, mas de como é possível que os nossos critérios e as nossas decisões humanas estejam à altura de quem nos dá vida e Espírito. Por isso, a sua afirmação decisiva é que Deus conferiu a Cristo, o crucificado, não o esqueçamos, "poder e sabedoria de Deus". E conhecemos que esse é um poder sem poder" e uma "sabedoria sem a lógica fria deste mundo" É o poder e a sabedoria de quem se entregou por nós. É aqui que se constrói a "theologia crucis" na "proexistência", em saber viver para os outros, como faz o nosso Deus. É partindo daqui que Paulo procura curar a loucura das divisões e das arrogâncias humanas existentes na comunidade de Corinto.
Evangelho: João 2,13-25
Jesus procura uma religião de vida
1. O relato da expulsão dos vendedores do templo, na primeira Páscoa "dos judeus" que João menciona na sua obra, é um marco de referência obrigatório do sentido deste texto joânico. No fundo, também devemos saber ver as chaves messiânicas com as quais João quis apresentar este relato, tendo em conta um texto como o de Zac. 14,21 (o deutero-Zacarias) para anunciar o dia do Senhor. É assim que se constroem algumas idéias do nosso Evangelho: Páscoa, religião, messianismo, culto, relação com Deus, vida, sacrifícios. Jesus expulsa especificamente os animais do culto. Não devemos pensar que Jesus começa a dar chicotadas às pessoas, mas aos animais; João sublinhou mais este aspecto. Os animais eram os substitutos dos sacrifícios a Deus. Portanto, sem animais, o sentido do texto é mais claro. Jesus quer anunciar, profeticamente, uma religião nova, pessoal, sem necessidade de "substituições". Por isso disse: Tirai isto daqui". Não se pode interpretar, pois, como um ato político-militar, como se fez no passado. É, consideramos, uma profecia "em ato".
2. O Evangelho de João apresenta, portanto, essa cena de Jesus que seduz as mentes proféticas e renovadoras. Desde logo, é um acto profético e não podemos deixar de o valorizá-lo dessa forma: no contexto da Páscoa, a grande festa religiosa dos judeus piedosos a Jerusalém. Esta é uma cena que não devemos permitir que se converta em algo vulgar; que não podemos rebaixá-la fazendo dela um caso normal. Está lá, no coração do Evangelho, para ser uma crítica da nossa religião sem coração com a qual muitas vezes queremos comprar Deus. É a condenação daquele tipo de religião sem fé e sem espiritualidade que sempre houve e continua a haver. Já Jeremias (7,11) tinha clamado contra o templo, porque com ele, se usava o nome de Deus para justificar muitas coisas. Agora, Jesus com esta ação simbólico-profética, como faziam os antigos profetas quando as suas palavras no eram escutadas, quer levar às últimas consequências o que a religião do templo, onde se adora Deus, não seja uma religião de vida, mas de vazio. Por isso mesmo não está a condenar o culto e a oração de uma religião esvaziada de conteúdo e depois não tenha incidência na vida.
3. Não esqueçamos que este episódio ficou marcado na tradição cristã como um marco, por se considerar como acusação determinante na condenação de Jesus à morte, uma das causas imediatas da mesma. Ainda que João tenha adiantado ao começo da sua atividade o que os outros evangelhos propõem no final (Mc. 11,15-17; Mt. 21,12-13; Lc. 19,45-46) estamos no caminho certo se com ele vemos o confronto que os judeus vão ter com Jesus. Este episódio não é outra coisa senão a proposta de Jesus para uma religião humana, libertadora, comprometida e, inclusive, verdadeiramente espiritual. Embora João seja muito ousado, teologicamente falando, está a anunciar a transformação de uma religião de culto por uma religião em que o importante é dar a vida uns pelos outros, como se faz ao mencionar o "corpo" de Jesus que substituirá o templo. Aqui, com este episódio (se bem que não só) como sabemos Jesus jogou a sua vida em "nome de Deus e aplicaram-lhe a lei também "em nome de Deus". Quem tinha razão? Como no episódio faz-se apelo à Ressurreição ("em três dias o levantarei") está claro que era o Deus de Jesus o verdadeiro e não o Deus da Lei. Esta é uma diferença teológica inquestionável, porque se Deus ressuscitou Jesus foi porque não podia assumir aquela morte injusta. Mas sucede que, apesar disso, os homens continuam a preferir o Deus da Lei e a religião do templo e dos sacrifícios de animais. Jesus, porém, ofereceu-nos uma religião de vida.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro




Purificar o coração
1. O profeta Ezequiel fazia um dia uma oração pedindo ao Senhor para lhe purificar o coração e o espírito. Acrescentava “tirai do meu peito o coração de pedra e dai-me um coração capaz de amar” (Ez. 36,26). Neste tempo de Quaresma sugere-se a purificação do coração, libertando-o de todo o egoísmo, “das rixas, das brigas, das contendas, das imolações, dos ciúmes, das discórdias e divisões” (cf. Gl. 5,19) como dizia S. Paulo. Encharcando-o, porém, dos frutos do Espírito: “a alegria, o amor, a paz, a bondade, a ternura, a solidariedade e o domínio de si próprio” (Gl. 5,22). Esta é a mudança total da vida. No Evangelho, muitas vezes Jesus insiste na mudança de vida.
• Aos enfermos a quem curava repetia sempre: “A tua fé salvou-te, vai em paz, não tornes a pecar” (Mc 5, 34).
• Aos pecadores, mesmo que desprezados por todos, dizia: “Ninguém te condenou, também eu te não condeno, vai em paz” (Jo 8,11).
• Aos inquietos, fossem sinedritas, como Nicodemos ou cobradores de impostos, como Zaqueu repetia: “é preciso nascer de novo” (Jo 3,7) ou então: “desce depressa que vou almoçar em tua casa” (Lc. 19,5).
• A um jovem que queria ser melhor chegou a pedir “Vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e vem depois” (Mt. 19,21).
• A uma mulher da Samaria, uma estrangeira, prometeu a água viva que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4).
• Compreendendo a fragilidade de Pedro, também soube dizer-lhe “E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc. 22,31-32).
O Papa Francisco, na Mensagem da Quaresma, pede para que os cristãos fortaleçam o coração. Também Paulo dizia, no meio das suas dificuldades “Tudo posso, n’Aquele que me dá força” (Fil 4, 13). É o coração novo, purificado, que pode transformar tudo à sua volta.
2. A Liturgia deste 3º Domingo da Quaresma permite encontrar Jesus, no Templo, a purificar a casa do Senhor. Os vendilhões e os cambistas tinham transformado a casa de Deus em casa de negócios. Na descrição de Marcos havia três coisas que profanavam o templo: as pombas, outros animais e o dinheiro. Hoje continuam a ser as mesmas coisas que profanam o templo.
• As pombas, que são símbolo de espiritualidade, tinham-se tornado no templo forma de lucro. Também hoje muitas vezes a relação com Deus tem o seu quê de negócio, com promessas que depois se não cumprem, com exigências na oração que quase pretendem forçar os céus.
• Os animais estavam votados ao sacrifício. No templo de Jerusalém tinham-se tornado interesse no jogo de compra e venda. Também hoje a materialidade, com as suas características, reduz profundamente a relação com Deus. As preocupações que dominam até os cristãos são mais a casa, o automóvel, o computador, as roupas de moda e muitas inutilidades. Quase se transforma o templo da vida em centro comercial de facilidades, sem que Deus ali tenha lugar.
• O dinheiro era trocado pelos cambistas. Ia-se ao templo para assegurar vantagens e não para adorar a Deus. Também hoje se vive com a obsessão pela segurança económica. Porque o dinheiro se tornou um absoluto, como diz o Papa Francisco, a economia mata e a pessoa é sacrificada à ânsia de dinheiro e de poder.
• O ambiente é uma outra característica do templo que o Senhor quis purificar. Também hoje os ambientes estão perturbados pelo medo, pela angústia, pelo desemprego, pela pobreza, pelo desconhecimento do futuro. Por isso, as pessoas isolam-se e, nas grandes cidades, ficam sós, sem a capacidade de relação que lhes permitiria sentir-se parte de uma comunidade viva. Como é possível que crianças e idosos sejam abandonados à sua solidão?!
Cada cristão deve ter consciência de que o seu corpo, toda a sua vida, é templo do Espírito Santo que habita nele. Por isso, neste tempo de Quaresma, o desafio está em purificar a vida, do culto da matéria, do dinheiro, dos ambientes negativos, até de uma espiritualidade egocentrista que separa dos outros. O templo que cada cristão é, tem de estar preparado para receber o Senhor e dar o Senhor aos outros.
3. Para contrariar uma cidade que aparentemente vive na abundância mas que se esqueceu de Deus, vale a pena repensar a conversão quaresmal. É uma forma de avaliação crítica, para a renovação profunda que cada um pretende. O Papa Francisco pede uma Igreja em saída indo determinadamente ao encontro dos outros que andam mais longe. A cidade dos homens também é um templo. Este templo pode estar profanado e, por isso, o cristão tem nele um lugar de extraordinária importância. Foi Jesus que o disse: “Pai Santo não Te peço que os tires do mundo, mas que os libertes da maldade. Como Tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo. Santifica-os na verdade.” (Jo 17, 15-20). Respondendo ao apelo de Jesus, o cristão é chamado a dar um sentido novo ao seu prédio, à sua rua, ao seu bairro, ao café que frequenta, ao lugar profissional onde trabalha, ao seu grupo de amigos. Como fazê-lo?
• Dando pão aos que têm fome e água aos que têm sede. É preciso reinventar a parábola da partilha para que os que têm carências essenciais à vida tenham quem se preocupe com eles.
• Indo ao encontro dos que estão na solidão. Há pessoas que bem perto de nós foram “deixadas à beira do caminho”. O próprio Papa Francisco considera ser pecado mortal o abandono dos pais e avós (Homilia de 4 de Março 2015). Mas também há vizinhos e outros conhecidos que estão atolados na solidão. É preciso estar com esses.
• Sendo conforto na infelicidade que surpreendeu alguns. A crise do mundo trouxe inúmeros sofrimentos. Fazer seu o sofrimento dos outros é missão do cristão. Ouvi-los, compreendê-los, ajudar a vencer alguns problemas, reafirmar confiança, apoiar sem julgar, ser palavra ou sorriso, ou simplesmente ternura, tudo isto faz-se presença que é um sinal de amor.
• Acolhendo os mais pequeninos muitas vezes atirados para as instituições. Era o poeta que interpelava o próprio Deus ao dizer “Mas as crianças Senhor/ porque lhes dais tanta dor/ porque padecem assim? (Augusto Gil). Quando se vê uma criança com olhos esbugalhados em frente da montra de uma pastelaria, quando se sabe que outra criança não é capaz de aprender a ler e a escrever, o cristão não pode ser insensível, tem que lhe dar toda a ternura e encontrar-lhe saída para o seu futuro.
• Levando, então, Deus à cidade. A falta de Deus impede o reconhecimento de que todos são família, sendo irmãos com o mesmo Pai. Se se aceita a beleza da presença de Deus, vai ser mais fácil que todos se sintam irmãos, que todos aprendam a perdoar, que todos consigam acolher os mais pobres, que todos saibam sorrir, transformando a relação humana no universo de felicidade. Esta é a missão dos cristãos numa Igreja em saída.
Estas “dicas” são apenas sugestões para que os cristãos recriem a sua conversão neste tempo de Quaresma. Com o coração purificado será mais fácil purificar também a cidade dos homens, fazendo que ela deixe de ser casa de negócio, mas se torne templo onde Deus habita e todos se sintam companheiros na construção da felicidade.
4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande é na cidade um agente de transformação social. Se a oração é de relevante importância, a presença operante na relação com os outros será anunciadora de uma Igreja em saída que quer mesmo transformar o mundo.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



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