3º DOMINGO QUARESMA
Ano B
4 de Março de 2018
Evangelho - Jo 2,13-25
Os vendilhões do templo transformaram a sua casa em
uma casa de comércio.
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“DESTRUÍ ESTE TEMPLO E EM TRÊS DIAS O LEVANTAREI”.- Olivia Coutinho
3ºDOMINGO DAQUARESMA
Dia 04 de Março de 2018
Evangelho de Jo2,13-22
Somos caminheiros da esperança, caminhando rumo a Páscoa do Senhor Jesus, queremos beber da água viva, que jorra do seu coração misericordioso!
Para que possamos chegar a Páscoa, com o Espírito renovado, é preciso que tenhamos uma boa preparação, tendo como propósito maior, a conversão. A conversão, ou seja, uma mudança de vida, exige de nós, um exercício constante, um reencontro com os valores que desprezamos, a reparação dos erros que cometemos, do mal que causamos a tantas pessoas que ficaram machucadas, feridas pelas as nossas atitudes não cristãs.
A liturgia deste tempo Quaresmal, reforça em nós, a certeza da existência de um Deus misericordioso, um Deus que é Pai, que não cansa de esperar pelo o nosso retorno à vida!
O evangelho que a liturgia deste terceiro Domingo da Quaresma nos convida a refletir, chama a nossa atenção, sobre a importância de eliminarmos tudo o que nos impede de fazermos do nosso coração, um templo vivo, onde Jesus possa habitar e agir no mundo através de nós!
O texto começa falando da indignação de Jesus diante a uma tamanha inversão de valores: um lugar onde deveria ser um local de oração, de encontro de irmãos, estava sendo transformado num lugar de comercio, de exploração da fé.
Indignado, Jesus age com rigor, espalha as moedas pelo o chão, derruba as mesas, expulsa os vendedores e todos os animais, com exceção das pombas, com as pombas, Jesus foi mais ameno, não as expulsou, pediu que as retirassem dali, provavelmente, em respeito aos pobres, pois as pombas, eram as oferendas dos pobres ao templo!
É importante entendermos: a preocupação de Jesus, não era com o templo de pedra em si, e sim, com o templo de “pedra viva" que é a pessoa humana, Jesus sabia da esperteza dos vendilhões do templo, Ele estava ciente de que estes, que se diziam fiéis a Deus, estavam explorando o povo, principalmente os mais pobres.
“Não façais da casa de Meu Pai uma casa de comercio.” Os discípulos lembraram mais tarde, o que diz a escritura: O zelo pela casa do meu Pai me consumirá.” Graças ao testemunho deles, hoje, nós sabemos, que foi o zelo pelo o que é do Pai, (a humanidade) que levou Jesus à morte, e sabemos também, que foi o amor do Pai por esta humanidade, que o ressuscitou no terceiro dia!
Sempre que deparamos com este evangelho, é comum, ficarmos centrados na atitude severa de Jesus expulsando os vendilhões do templo, e com isso, não meditamos o mais importante, o cerne do evangelho, que é a sua apresentação como o templo vivo de Deus:
“Destruí este templo, e em três dias o levantarei.” Com essas palavras, Jesus se revela como o Templo vivo de Deus, fazendo alusão a sua morte e ressurreição, mas por estarem voltados voltados para as coisas materiais e cegos para as coisas de Deus os vendilhões do templo, não entenderam aquela revelação! Enquanto Jesus falava de um templo de carne, que era Ele mesmo, eles entenderam que Jesus estava se referindo ao templo de pedra, e até zombaram Dele.
Jesus é o templo vivo de Deus, enxertados Nele, somos também, templos vivos de Deus, seres humanos divinizados, por carregarmos dentro de nós, a essência Divina!
Como seguidores de Jesus, precisamos nos comprometer mais com a construção e com a conservação do templo de vivo de Deus, que é o ser humano na sua totalidade.
Cuidemos do nosso corpo e respeitemos o corpo do outro, pois o meu, e o seu corpo é um Santuário, o templo vivo de Deus.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
PARA OUVIR O ÁUDIO DESTA REFLEXÃO, ACESSE O LINK:
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A
casa de meu Pai não é mercado!
A celebração deste
3º domingo da Quaresma ajuda-nos a compreender a importância da atividade
profética da Igreja e o motivo pelo qual sofre incompreensão por causa dela. É
notório que existe uma tendência cada vez mais acentuada no sentido de relegar
a religião ao plano privado e individual, alegando que religião não tem nada a
ver com questões sociais que é algo pessoal e que cada a “pratica” como achar
melhor.
Tal proposta é
desmentida pela Liturgia da Palavra de hoje que apresenta Jesus envolvido com o
problema sócio-religioso do Templo de Jerusalém (evangelho), transformado em
mercado pelas autoridades dos judeus, onde o ídolo do lucro transgredia
abertamente a Lei de Deus (1ª leitura). A polêmica por causa dos vendedores do
templo será uma das acusações que levarão o Senhor à morte de cruz, mas é na
cruz que se revela o poder a sabedoria de Deus (2ª leitura), como escreve São
Paulo.
1ª
leitura: Êxodo 20,1-7
A Aliança de Deus
com seu povo eleito se expressa nos Dez Mandamentos que são normas essenciais
não só para uma relação harmoniosa com Deus, mas também para uma boa
convivência entre os homens. Depois da experiência da escravidão sofrida pelo
povo de Israel no Egito, mais do que leis, os mandamentos são princípios que
orientam a vida para nunca mais cair na escravidão.
Tudo começa pelo
reconhecimento de um só Deus no qual o coração humano pode confiar totalmente.
O povo deve escolher: entre servir ao único Deus verdadeiro que, no seu amor,
liberta da escravidão para dar liberdade e vida ou servir a outros deuses que
acarretam como consequência, a escravidão e a morte.
As idolatrias que
hoje convivem conosco são muitas. A maior delas, hoje, é “a idolatria do
mercado”, além de outras como a procura pela fama, o poder, a posse dos bens materiais,
o culto do corpo, etc. Quando todas essas coisas isso passam a estar em
primeiro lugar na vida, acabam ocupando o lugar de Deus, e se transformam em
ídolos. Desta forma, anula-se o 1º mandamento que diz: “não tenha outros deuses
diante de mim”. Estes são os ”outros deuses” que tiram a nossa liberdade e dão
continuidade à escravidão e não a veneração de imagens (como alguns pensam) as
quais não são mais do que representações artísticas da fé. A proibição de
“fabricar ídolos” é para não “fabricar esses deuses” que nos fazem perder a
liberdade e a orientação de nossa vida.
A proibição de usar
o nome do Deus libertador para acobertar injustiças e opressões (“não pronuncie
em vão o nome de Javé seu Deus”) tem como objetivo, impedir que o Nome de Deus
seja manipulado para justificar um sistema que fabrica a injustiça em função de
interesses pessoais e de grupos, assim como evitar que a religião seja usada e
manipulada para ganhar dinheiro em benefício próprio, que é a forma idolátrica
mais nefasta que se conhece na atualidade.
2ª
leitura: 1 Corintios 1,22-25
O projeto de Deus é
bem diferente dos projetos dos homens que valorizam os ricos, os poderosos, os
intelectuais, os que têm «status», beleza física, facilidade de expressão e
desprezam àqueles que não se encaixam nesses padrões.
Deus subverte uma
sociedade iludida com esses falsos valores e se alia com os pobres, os fracos e
os simples, porque estes sabem confiar n'Ele, se abrem e se apóiam na sua
Providência. É por isso que são Paulo nos diz que é na pobreza e na fraqueza
que Deus manifesta a sua força e seu poder (ver 2 Corintios 12,9).
Os coríntios achavam
que insistir muito na cruz de Cristo não estava de acordo com os padrões
estéticos da cultura grega e, por isso, era conveniente que a pregação de Paulo
evitasse esse tema para que o cristianismo tivesse maior aceitação no mundo
pagão. Paulo reconhece que anunciar Cristo crucificado pode parecer “loucura
para os pagãos”, pois é como dizer que a fraqueza é forte. Mas reafirma que é
justamente isto que acontece na cruz de Cristo onde “ a loucura de Deus é mais
sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.
Para ser bem aceito,
ele não está a fim de esvaziar o Evangelho do seu conteúdo próprio. Por isso
proclama: “Nós..., anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e
loucura para os pagãos. O poder e a graça de Deus se manifestam na cruz, onde
Cristo carregou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade pagando o
preço do nosso resgate e alcançando-nos a Salvação. De um instrumento de morte
(no qual eram executados os criminosos), surgiu a verdadeira vida para toda a
humanidade.
A entrega livre a
amorosa de Jesus em favor de todos é a opção de vida realmente humana. No nosso
caso, lutar pelo bem do irmão necessitado (comida, vestido, saúde, moradia,
trabalho, família...) é o caminho do Amor, mesmo que traga consigo
incompreensão e, até mesmo, perseguição. O caminho da cruz por um grande ideal
é o caminho de Jesus e a “mensagem de Cristo na cruz” é a marca distintiva do
cristianismo, pois, mesmo que pareça contraditório, “para aqueles que são
chamados, tanto judeus como gregos, ele é o Messias, poder de Deus e sabedoria
de Deus”.
Como consequência
disso, a verdadeira comunidade cristã é a dos pobres, ou dos que são solidários
com eles, porque se nutre da sabedoria do projeto de Deus e é portadora da
novidade que provoca transformações radicais.
Evangelho:
João 2,13-25
Uma das acusações
que contribuíram para condenar Jesus à morte foi a de ter promovido a
destruição do templo, o local santo dos judeus («Nós o ouvimos dizer: 'Vou
destruir esse templo feito por homens, e em três dias construirei um outro, que
não será feito pelos homens!'» Marcos 14,58). Na realidade, Jesus se referia à
necessidade de destruir a mentalidade criada em volta do Templo que, em lugar
de colocar Deus em primeiro lugar, servia para explorar o povo. Expulsando os
vendedores do templo, Jesus mexeu com a comercialização da religião, e com a
prática de fazer do Templo um lugar social fundamentado na economia e no poder.
Para os judeus, o
templo era o lugar privilegiado de encontro com Deus. Ali os peregrinos que
vinham do mundo inteiro entregavam suas ofertas, as quais formavam um
verdadeiro tesouro administrado pelos sacerdotes. De fato, o povo precisava
trocar o dinheiro dos outros países, de onde vinham, e comprar os animais para
as oferendas, mas isso tinha sido manipulado de forma a transformar o templo de
Jerusalém, a casa de oração, num local comercial com a aparência de lugar de
culto piedoso.
Jesus ficou
indignado quando “encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os
cambistas sentados”, lucrando encima da religiosidade popular. O gesto do
Senhor erguendo a mão com “um chicote de cordas” para expulsar os vendedores do
Templo nos impressiona. Com certeza, não era uma gesto de ira, não estava
atacando as pessoas, mas a estrutura que tinha transformado a ”casa de meu Pai
num mercado”. É uma atitude profética para purificar o templo ao mesmo tempo
que para denunciar a opressão e a exploração dos pobres pelas autoridades
religiosas.
Ao ser questionado
pelos dirigentes dos judeus, Jesus dá esta resposta misteriosa: «Destruam esse
templo, e em três dias eu o levantarei». Quer assim mostrar que essa
instituição religiosa já tinha caducado. Doravante, «os verdadeiros adoradores
vão adorar o Pai em espírito e verdade» - João 4,23), sendo que o seu corpo
ressuscitado o verdadeiro templo é o lugar de encontro de Deus com a
humanidade, pois Ele não mora em edifícios materiais, mas no coração do ser
humano.
Palavra
de Deus na vida
Pode parecer
estranha a atitude profética de Jesus. Logo Ele que se apresentava como “manso
e humilde de coração” (Mateus 11,29) e o profeta Isaías ( Isaias 42,3) fala
d'Ele como alguém que “não quebrará a cana que já está rachada”. Como entender
esta atitude a não ser pela gravidade de algo que Ele quer denunciar?
Jesus denuncia a
comercialização da religião, o aproveitamento da religiosidade popular para
enriquecimento ilícito, o uso de Deus para legitimar o mercado, o poder, o
dinheiro, a desigualdade entre as classes sociais e, até mesmo, a miséria e o
desprezo pelos marginalizados. Ele mostra que «o zelo pela tua casa me consome»
e não se importa em perturbar a ordem do Templo com tanto de expulsar dele tudo
aquilo que o deturpa, mesmo enfrentando o poder político, religioso e econômico
concentrados naquele lugar.
Questionado pelos
dirigentes dos judeus («Que sinal nos mostras para agires assim?») Jesus
arrisca a própria vida, identificando o templo com seu corpo («Destruam esse
Templo, e em três dias eu o levantarei»). Eles o interpretam materialmente para
acusá-lo de subversivo, mas sabem muito bem que Jesus está se referindo a que
nem as pessoas nem Deus podem ser comercializados. De agora em diante, Ele será
o ponto de encontro entre Deus e a humanidade. Precisamos de templos para
celebrar a fé em Jesus, mas o nosso verdadeiro templo é o Senhor ao qual nos
unimos pela fé.
É necessário que a
Igreja tenha a mesma coragem profética do Senhor para desafiar a atual
idolatria do mercado, se bem que, para isso, ela também tem que se purificar do
interesse excessivo pelo lado econômico e do pouco compromisso, ainda hoje, com
a “opção preferencial pelos pobres”.
Não podemos negar
que as atividades evangelizadoras da Igreja exigem dinheiro, mas todos os que
fazemos parte dela temos o dever de contribuir com o nosso dízimo ao seu
sustento de forma suficiente para poder retirar todos os “balcões” que o
costume, a tradição e a falta de colaboração econômica por parte dos fiéis
fizeram armar em volta da igreja, dando a impressão de que, também ali, tudo sé
compra e se vende.
Uma Igreja assim
purificada (esta Igreja que somos todos nós) terá a força de Jesus para
denunciar, com autoridade, todo tipo de exploração sobre o povo.
Pensando
bem...
Os dez mandamentos
que aqui aparecem são para nós o fundamento da moral e o resumo da Lei de Deus;
se bem que, no cristianismo, o que manda é o “novo mandamento”, no qual
descobrimos a exigência de amar como Jesus amou; de amar e cuidar do outro como
Deus nos ama e cuida de nós. Infelizmente, uma catequese por demais centrada
nos dez mandamentos reduziu o conceito de pecado a “não fazer nada do que está
proibido”. Uma atitude puramente negativa que devemos superar em vista do bem
que devemos fazer..
+ Refletindo sobre a
atitude de Jesus com os vendedores do Templo, já pensaram no tropel que faria o
Senhor em certos cultos que garantem as bênçãos de Deus de acordo com o tamanho
das ofertas... e em tantos santuários nos quais o bazar de objetos religiosos
ocupa um lugar tão especial? Jesus quer substituir o sistema religioso que
comercializa e explora o ser humano “na casa do meu Pai”, pelo templo do seu corpo,
onde habita a plenitude da divindade e o Espírito divino.
Campanha
da Fraternidade 2012
A grande luz sobre a
realidade misteriosa do sofrimento humano provém do amor divino, tal como se
revela nas Sagradas Escrituras. É sob esta luz que podemos julgar a realidade
do atendimento à saúde em nosso meio para discernir o que podemos e devemos
fazer.
Cristo vivenciou o
sofrimento em intensidade tal que realizou em si a profecia de Isaías,
tornando-se o “homem das dores... Em que o Senhor fez cair as culpas de todos
nós” (cf. Is. 53,3.6). No entanto, o amor profundo o impulsionou a cumprir
fielmente a vontade do Pai.
A paixão de Cristo
representa a máxima expressão do sofrimento humano, que, nesta entrega do
Redentor, recebe uma significação nova e profunda ao ser associado ao amor.
É o amor no Espírito
que constitui a comunidade eclesial e a impulsiona ao serviço dos doentes
quando coopera para que sejam supridas as deficiências no atendimento à saúde.
A caridade é um dever da Igreja e suscita iniciativas para que todos tenham
vida.
No contexto
eclesial, os doentes e os sofredores não se resumem a destinatários de atenções
e de cuidados. Eles nos evangelizam com o testemunho do sofrimento aceito e
oferecido, o milagre do amor. A resposta frente a esta realidade é a nossa
solidariedade.
padre Ciriaco
Madrigal
"Não
façais da casa de meu pai uma casa de comércio"
Hoje é o domingo da
expulsão dos vendilhões do templo. O tema central da celebração deste 3º
Domingo da Quaresma é a adoração de Deus. Cristo é o templo da Nova Aliança.
Neste terceiro domingo de nossa caminhada, rumo à Páscoa do Senhor, encontramos
Jesus em Jerusalém, testemunhando o seu gesto profético da purificação do
Templo e o anúncio da ressurreição. Em Jesus Cristo, templo vivo de Deus
contemplamos a glória do Pai.
Nosso mundo é regido
pelo pensamento único do mercado global. Tudo se submete a ele. As próprias
leis, bonitas no papel (como a Declaração dos Direitos Humanos e tantas outras
iniciativas), cedem diante desta "lei maior", deste novo
"deus" ou diante deste imperativo do dogma do pensamento único do
mercado.
O que nos tem a
dizer sobre isso a liturgia deste terceiro domingo da Quaresma?
Primeira
leitura - Êxodo 20,1-17
Moisés deu a lei que
passou; em Cristo, a Aliança é definitiva. Esta leitura nos relata a
promulgação solene dos Dez Mandamentos, que selou a primeira Aliança de Deus
com seu povo, logo depois da libertação da escravidão do Egito, no deserto do
Sinai. Os três primeiros mandamentos referem-se a Deus; os outros sete, ao
próximo. O tema central deles é a "proteção da vida humana", porque
no Egito se matava muito, a começar pelas crianças recém-nascidas. O v. 13
garante o direito à vida. "Não matar" não significa só deixar viver,
mas também não deixar morrer. Não criar ou não permitir condições tais que
levem o próximo à morte.
A imagem com a qual
Javé se revela a Israel é a do libertador do seu Povo da escravidão (cf. v.
2a). A presença do Senhor reconhece-se por esta sua contínua atividade
libertadora. Só nesta perspectiva se podem compreender os Mandamentos, que são
todos um convite a respeitar a dignidade de cada pessoa, libertando-o de
qualquer forma de idolatria (versículos 3-4) e de escravidão (vs. 8-11).
Os Mandamentos podem
ser lidos e interpretados a partir do mandamento do repouso do sábado (vs.
8-11). Este mandamento é exclusivo de Israel, desconhecido das outras culturas,
e por isso distintivo do Povo do Senhor. Com este mandamento é reconhecida a
grande dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do seu Criador
(cf. Gênesis 1,26).
Desta grande
consideração pela dignidade do ser humano derivam depois todos os outros
Mandamentos, quer os que dizem respeito ao relacionamento com Deus (cf.
versículo 2b-7), que os que se relacionam com o comportamento com as outras
pessoas (cf. vs. 12-17). Precisamente porque chamado a ser imagem e semelhança
do seu Deus, o ser humano só se degradará ao adorar outras divindades. Chamado
a colaborar com o seu Senhor na Criação, a relação que instaurará com as outras
pessoas consistirá em ter somente comportamentos que transmitam vida.
O mandamento de não
cometer adultério, versículo 14, está ordenada à defesa da vida e da família.
Para que o matrimônio possa cumprir sua finalidade, exige-se a fidelidade entre
os esposos. A Bíblia leva a sério "o amor, o matrimônio, a vida e a
fecundidade". O mandamento dirige-se tanto à mulher, como ao homem.
O mandamento de não
furtar, do versículo 15, não visa só os bens do próximo. Trata-se, antes de
tudo, da própria pessoa, de sua liberdade. O rapto de pessoas e sua
escravização são considerados gravíssimos pecados de furto (Êxodo 21,16;
Deuteronômio 24,7). Reter o salário de um operário também é um furto
(Deuteronômio 24,15; Lv. 19,13).
Muito pelo contrário
do que se pensa, o Primeiro Testamento não visa só os atos externos. O 10º
mandamento (v. 17) tem como objeto o desejo, a cobiça das coisas do próximo.
Tem em mira a raiz do pecado, o desejo desregrado que nasce no coração do homem
(Mateus 15,19). O mandamento aponta essa cobiça como um pecado que se opõe à
Aliança.
No
salmo responsorial 18/19,8-11
O salmo 18/19
mistura dois tipos, e isso levou muita gente a dividi-lo em dois. De fato, dos
vs. 2 a 7 temos um hino de louvor, sem nenhuma introdução. Nele o céu e o
firmamento, o dia e a noite, em silêncio, cantam os louvores de quem os criou.
É portanto, um hino de louvor ao Deus criador. Mas na segunda parte (vs. 8-15)
o estilo é sapiencial, apresentando uma reflexão sobre a Lei de Deus, também
chamada de "testemunho" (v. 8b), "preceitos" (v. 9a),
"mandamento" (v. 9b), "temor" (v. 10a) e
"decisões". São seis palavras para dizer basicamente a mesma coisa.
Ao lado de cada uma dessas palavras repete-se sempre o nome "Javé".
Este salmo fala que
a lei do Senhor é fonte de energia, luz e conforto, sabedoria para os simples,
alegria para o coração e carregada de justiça. Obedecer a lei do Senhor nos
livra dos grandes pecados. O "jugo" do Senhor "é suave e o seu
peso leve", e quem o acolhe encontra descanso para a sua vida (cf. Mateus
11,29-30). O acolhimento da vontade de Deus não mortifica as pessoas mas
torna-as uma pessoa esplêndida: "Os preceitos do Senhor são claros e
iluminam os olhos" (versículo 9).
O rosto de Deus no
salmo 18/19 é muito interessante. Duas imagens de Deus são muito fortes neste
Salmo: o Deus da Aliança (versículos 8-15), que entrega a Lei a seu Povo, e o
Deus Criador, reconhecido como tal e por suas criaturas em todo o mundo (vs.
2-7). Portanto, o rosto de Deus como Aliança, significa "acordo" com
o Povo e Criador que ama as suas criaturas.
O Novo Testamento
viu em Jesus Cristo o cumprimento perfeito da Nova Aliança, aquele que fez ver
de forma perfeita o Pai (João 1,18; 14,9). Sua Lei é o amor (João 13,34). Jesus
louva o Pai por ter revelado seu projeto aos pequeninos (Mateus 11,25) e mandou
aprender com os lírios do campo e as aves do céu o amor que o Pai tem por nós
Mateus (6,25-30).
Agradeçamos ao
Senhor pela garantia de liberdade que Ele nos dá através de sua Aliança em
Jesus Cristo.
Segunda
leitura: 1Cor. 1,22-25
No tempo de Paulo,
muitos queriam chegar a Deus usando somente a inteligência. Mas a sabedoria de
Deus, que atua a reconstituição da Aliança na crucifixão do Filho, não é
compreendida como sabedoria, mas é escândalo para aqueles que não são chamados.
O apóstolo Paulo lembra à comunidade de Corinto que a vida cristã é escândalo
para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para os eleitos das comunidades
cristãs, é poder e sabedoria de Deus, que confunde os sábios deste mundo.
"A Lei nos diz
que o Messias vai permanecer aqui para sempre. Como podes dizer que é preciso
que o Filho do Homem seja levantado?" (cf. João 12,34). Como acreditar num
Messias que não sé é morto, mas que morre da morte dos malditos, "como está
escrito: Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro"? (Gálatas
3,13; cf. Deuteronômio 21,23). A morte ignominiosa da cruz era considerada o
sinal mais evidente de que Jesus não podia ser o libertador esperado (cf. Lucas
24,21). Ao contrário, Paulo exorta os cristãos a não pensarem segundo a
mentalidade das pessoas, mas segundo Deus (cf. Mateus 16,23).
Um Deus crucificado
num patíbulo será sempre impossível de acreditar por todos aqueles que, como os
judeus, constantemente procuram manifestações do poder de Deus e esperam sinais
e prodígios. Um Deus que Se faz servo das pessoas Se tornará incompreensível da
parte de todos os que, como os gregos, fazem da própria sabedoria um pedestal
para exercer o seu poder sobre as pessoas (cf. vs. 22-23) Mas é na Cruz, onde um
homem morre por amor, que se encontra o verdadeiro "poder de Deus" e
a verdadeira "sabedoria de Deus" (versículo 24), e Jesus Crucificado
é o único sinal do Senhor para toda a Humanidade.
A doutrina anunciada
por Paulo, então, apresenta-se como oposta às pretensões dos judeus e gregos.
Na contradição da cruz está a grandeza-triunfo de Deus. Sua ação parece fraca e
louca, mas nela manifesta-se a grandeza-força e sabedoria de Deus que confunde
os fortes e sábios deste mundo (1Coríntios 1,27s). No entanto, os que têm fé,
vêem na "fraqueza e loucura" (Gálatas 5,11) do agir divino o sinal de
sua misericórdia. O anúncio da cruz, que parecia contradizer a esperança das
pessoas, pela luz da fé é visto como vitória (João 12,34). O instrumento de
maldição, usado no suplício dos condenados, tornou-se instrumento de salvação.
Mais uma vez a sabedoria de Deus trilhou caminhos que não são os da sabedoria
dos seres humanos.
Evangelho:
Jo 2,13-25)
O tema central de
hoje é a adoração de Deus. É o que o Primeiro Testamento entende por
"temor de Deus". Este termo não aponta um medo infantil diante de um
Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do
Mistério. Israel não pode "temer" outros deuses (2 Reis 17,7.35
etc.). Este temor de Deus se expressa, antes de tudo na Lei do Sinai, cujo
resumo são os dez Mandamentos. Inicia com o mandamento do temor de Deus: só a
Deus se deve adorar, pois Ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o
temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também
no relacionamento com o próximo (o co-esraelita, em primeira instância). Pois
Deus não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem
mutuamente. Daí o "culto" (adoração de Deus) implicar imediatamente
num "etos" (critérios de comportamento).
As leituras dos
domingos da Quaresma estão todas centradas no rosto do Pai, na tentativa de
eliminar as crenças que ofuscam o seu esplendor. No primeiro domingo o Livro do
Gênesis apresenta um Deus desarmado: "Colocarei o meu arco nas
nuvens" (Gênesis 9,13), que não castiga o ser humano pelos seus pecados
mas que é fiel à sua Aliança com a Humanidade (cf. Gênesis 9,8-15). No segundo
domingo a leitura, extraída também do Livro do Gênesis, era centrada sobre um
Deus que rejeita os sacrifícios humanos (cf. Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18).
Nesta evolução da purificação, o Evangelho de hoje revela a imagem que Jesus
não quer sacrifícios de animais ou coisas. Em todas as religiões as pessoas
projetaram freqüentemente sobre a divindade o tipo de relacionamento
experimentado com os poderosos da terra. Habituados a ter que oferecer os seus
bens melhores aos patrões, pensaram obter de maneira parecida a bondade da
divindade oferecendo-lhe o que de melhor tinham na sua vida. Com Jesus, tudo
isto acaba. Expulsando os vendedores do Templo de Jerusalém, o Filho de Deus
não pretende purificar o lugar santo corrompido pelo comércio, mas impedir um
culto que na realidade era só fachada e o pretexto da casta sacerdotal para
desfrutar do povo e impor o seu domínio sobre ele.
Jesus anuncia o
sacrifício que vai restabelecer a Aliança e a ressurreição que é garantia maior
da "nova Aliança". Na sociedade judaica do tempo de Jesus o Templo
havia se transformado no centro do poder religioso, político e econômico, onde
agia a cúpula governamental (o Sinédrio) e onde se guardavam também imensas
riquezas. De lugar de culto ao verdadeiro Deus, o Templo havia se transformado
em instrumento de opressão e exploração do povo. A lei de Deus não era mais
para defender a vida. Por isso, Jesus é tomado por uma "ira
profética": pega um chicote e expulsa os negociantes que estavam
transformando o templo de Deus num mercado. Contudo, Jesus não pensa em uma
restauração do Templo de Jerusalém como casa de oração, "mas na sua
substituição". Para João, o sentido deste trecho lido neste terceiro
domingo é anunciar Jesus como o Novo Templo, lugar da revelação e adoração do
Pai, isto é, a pessoa de Jesus Cristo é o lugar onde se encontra Deus.
A Aliança entre Deus
e o seu Povo era descrita pelos profetas com a metáfora esponsal. Mas nesse
matrimônio entre Deus e Israel já não há amor. Eis a razão porque nas Bodas de
Caná na Galiléia mudou a água em vinho, símbolo do amor dos esposos (cf.
Cântico dos Cânticos 2,6), que veio a faltar. A nova relação com deus agora já
não se baseia nos esforços das pessoas (figurados nas "talhas" que
continham a água para a purificação: cf. João 2,6), mas no acolhimento do seu
amor gratuito.
Portanto, uma vez
entrando no Templo de Jerusalém, Jesus expulsa a todos dali, incluindo os
animais destinados aos sacrifícios. O Pai não requer nenhum tipo de oferenda ou
de sacrifício (cf. Mateus 8,13), mas é Ele que oferece tudo a todos (cf. Atos
17,25). Embora expulsando os vendedores de bois e de ovelhas, Cristo dirige a
sua censura unicamente aos vendedores de pombas (cf. v. 16), animal símbolo do
Espírito, o amor do Pai que não pode ser vendido, mas apenas oferecido.
Aqui está também a
importância da antiga Aliança. A síntese das leituras bíblicas deste domingo
pode formular-se deste modo: "o novo templo espiritual" constrói-se
sobre Cristo, morto e ressuscitado (evangelho e segunda leitura), e fundamenta
a "nova Aliança" e a "nova religião em espírito e verdade",
que veio substituir a antiga Aliança, explanada na Lei de Moisés.
É importante ver a
passagem da purificação do templo como auto-manifestação do mistério salvador
de Cristo. Ele significa a importância da "antiga Aliança" e o fim do
culto que encarnava no templo de Jerusalém. Cristo dá lugar a uma Aliança e Culto
novos em espírito e verdade.
Trata-se da
"Aliança e do culto novo" que Jesus prega na linha dos profetas do
Antigo Testamento e frente á degeneração do culto do templo de Jerusalém que se
tinha tornado ritualista, vazio e hipócrita, além de ser, já, desnecessário.
Por isso o véu do templo rasga-se quando Jesus morre.
Os primeiros
cristãos não tiveram templos, nem catedrais, nem basílicas, durante vários
séculos. Estavam conscientes, tal como deveríamos estar nós, de que assembléia
(= ekklesía, em grego) é a autêntica Igreja de Deus, o santuário espiritual,
prolongamento do corpo de Cristo que é o "templo da nova Aliança".
Até mesmo cada cristão, cada batizado no Espírito de Jesus, é templo de Deus.
Jesus Cristo é o
nosso modelo. Ele é o grande sacerdote e a vítima da nova Aliança e do culto
que culmina na fórmula cristológica e trinitária que encerra a oração
eucarística: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo
poderoso...
O que significa para
nós hoje esse gesto de Jesus usando o chicote? As práticas religiosas que
usamos em nossos templos estão de acordo com o Evangelho?
Função
na liturgia
Não existe, nas
leituras da Quaresma, nem a leitura contínua dos evangelhos, nem a coerência
(ligação) entre a Primeira leitura e o Evangelho, que caracteriza a Liturgia da
Palavra nos domingos comuns. Contudo, as leituras trazem presente, mediante
seus temas diversos, um espírito comum: o espírito de conversão. É nesta
pedagogia da conversão que se situa o presente Evangelho. Podemos aprofundar,
neste sentido, os três momentos da narração:
1) a expulsão dos
vendedores e dos animais de sacrifício (2,13-16): pôr fim a uma forma de
religião que já não vale desde que Jesus nos mostra a vontade do Pai.
2) O Novo Templo,
Jesus (v. 17, transição, e vs. 18-22): procurar adorar e amar a Deus no Filho
morto e ressuscitado. 3) a precariedade da fé (versículos 23-25): mesmo quando
nós professamos a fé em Jesus Cristo, ainda não nos colocamos definitiva e
seguramente ao seu lado; seja isto uma advertência contra uma segurança
temerária e uma exortação para uma conversão sempre renovada.
Em tudo isto
aparece, naturalmente, o cristocentrismo radical do evangelista João.
Converter-se, na linha de João, significa voltar-se para Jesus Cristo, confiar
Nele, abandonar os templos provisórios ou degenerados. E trata-se do Cristo
morto e ressuscitado, não do Cristo simpático, bacana, etc.
Podemos dizer que o
Evangelho de hoje, como também do Quarto e Quinto Domingo, nos preparam para a
conversão como encontro com o Senhor padecente e ressuscitado (cf. sobretudo o
Quinto domingo da Quaresma, João 12,20-33).
Da
palavra celebrada para o cotidiano vida
A caminhada
quaresmal, já chegou a meio percurso, é um momento privilegiado para favorecer
a "conversão" das pessoas e o conhecimento do rosto de Deus. É
importante conhecer no que Deus acredita, para saber depois como comportar-se
com o próximo.
O grande pecado do
mundo globalizado é a sacralização do mercado. O culto ao mercado virou uma
religião subliminar cheia de deuses nanicos, que cultuam a riqueza, o poder,
justificando no mundo uma desigualdade terrível, corrompendo às vezes a própria
religião com a mercantilização do sagrado (teologia da prosperidade).
Jesus condena essa
prática e chama a nossa atenção para o projeto de Deus do Êxodo, a libertação.
O Templo é a casa de Deus, lugar da memória histórica (ele guarda a Arca da
Aliança, selada no Sinai). Não pode ser local de ostentação, de pode e de
opressão do povo. O Templo é importante, mas não absoluto. Na travessia do
deserto, Deus acampava numa tenda. Por muito tempo não quis templo. O
verdadeiro templo de Deus é Jesus Cristo, que acampou entre nós (João 1,14).
Nós mesmo somos o templo de Deus (1Coríntios 6,15).
É por isso que a
segunda leitura fala do escândalo da cruz. A proposta do Evangelho está na
contramão a sabedoria dos grandes e poderosos, na contramão do mercado.
É também
dentro desse contexto que devem ser colocados os mandamentos de Deus, a lei da
vida, da libertação. Se as comunidades cristãs não tiverem clareza do projeto
de Jesus Cristo (que é a contramão do projeto do mercado), não será possível
observar os mandamentos. Não adianta sabê-los de cor. Eles foram exatamente
promulgados para superar as opressões que aconteciam na "casa da
escravidão" (no sistema do faraó).
Ora, o
deus-mercado de hoje repete exatamente as opressões do faraó: não observa
nenhum dos mandamentos. Senão vejamos, mandamento por mandamento: o mercado
adora o dinheiro e o poder (1º); usando de modo blasfemo o nome de Deus para
justificar a guerra e tantas barbaridades (2º); não guarda o Dia do Senhor
(3º); desmonta a família (4º); mata bastante e manda matar (5º) legaliza o
adultério (6º); rouba legalmente (7º); usa do falso testemunho contra os pobres
da terra (dentro e fora dos tribunais) (8º); e, finalmente, nos ensina todo o
santo dia a cobiçar de tudo através da propaganda desenfreada dos meios de
comunicação social (9º e 10º).
A Quaresma é um
convite de conversão, para cada um de nós, para as comunidades. Sem sair da
"casa da escravidão" não é possível de jeito nenhum observar os
mandamentos. Sem termos um projeto de vida, não adiantam as leis. Sem um
projeto de vida, nunca teremos o começo do mundo novo representado pela Páscoa,
pela ressurreição de Jesus.
Ligando
a palavra com a ação eucarística
Nossa fé cristã
afirma que a Igreja, o povo de Deus convocado, faz a Eucaristia e que a Eucaristia
faz a Igreja. Cada vez que celebramos a Eucaristia está se reconstituindo, se
reconstruindo. Volta e encontrar seu centro, que é dar a vida. Dispõe-se a se
entregar para os outros e, assim, se reconstitui como povo que tem uma missão
no meio dos pobres. É a decisão renovada de dar a vida nas lutas humanas e nos
projetos humanos que transforma este mundo. É povo que se transforma em
presença real de Cristo que se entregou por amor. É a conseqüência do
"Amém" proclamado ao comungar.
É impossível, portanto,
celebrar autenticamente a Eucaristia sem adquirir consciência de ser povo
enviado e povo que se renova para cumprir melhor a missão que Deus nos mostra
na história.
Cada vez que nos
reunimos para celebrar, renovamos a Aliança selada no sangue de Jesus, o Templo
vivo do Pai. A comunidade reunida no amor de Cristo continua, com a presença do
Ressuscitado e do seu Espírito, a tarefa de levar adiante a Aliança da salvação
até que Deus seja tudo em todos.
padre Benedito
Mazeti
“O templo vivo”
Qual
é a proposta de Deus para o homem e como deve o homem se relacionar com Deus?
Trata-se
de uma pergunta vital para toda a humanidade desde o código da Aliança firmada
no Sinai, até a Nova Aliança selada com o sangue do novo Cordeiro Pascal que é
Jesus Cristo.
Na
premissa da Lei Deus revela a sua identidade “Eu sou o Senhor Teu Deus que te
tirou do Egito”. Eis aí um Deus libertador, cuja ação a favor do povo oprimido
e explorado ratifica sua imagem, ele não é um Deus distante e indiferente ao
destino do homem.
É
justamente sobre essa premissa que são elaboradas as leis que doravante irão
nortear as relações com Deus e com o próximo. O seguimento da Lei fará do homem
um ser liberto, vivendo sua existência na paz e na alegria, pois nos diz o
salmo responsorial da liturgia deste terceiro Domingo da Quaresma, que a Lei do
Senhor é perfeita e os seus preceitos são precisos.
Como
em toda e qualquer relação o quesito básico é a fidelidade “Não terás outros
deuses diante de mim”
A
confiança de uma esposa pelo seu marido, não está no fato de acreditar que ele
não irá traí-la com outra mulher, mas sim de que ele a ama e por isso não
precisa de uma amante. Assim, ser fiel a Deus não é apenas não traí-lo, mas
amá-lo e adorá-lo de todo o coração a todo instante da vida. A exigência da
fidelidade colocada na Aliança não é um peso, mas uma grande alegria. Quando em
uma relação conjugal, uma das partes tem dificuldade para ser fiel ao outro, é
porque o amor nunca existiu. A Lei de Deus é libertadora e não opressora.
A
partir do ano 538 a.C., no período pós-exílio, sob o domínio persa, com a
restauração do altar dos sacrifícios o templo passa a ser a referência mais
importante nas relações com Deus onde a estrutura cultual do judaísmo faz dele
o lugar único do encontro com Deus, através dos ritos e sacrifícios de
purificação. No exílio, longe do templo, o israelita perdera sua identidade
religiosa.
O
tema central da reflexão desse domingo está na segunda parte do evangelho de
João, onde Jesus, quebrando este paradigma irá afirmar “Destruam este templo e
em três dias eu o reconstruirei”. Uma afirmação que desafia o projeto de morte
do sistema político-religioso, prenunciando o seu fracasso ao tentar destruir o
Reino que Jesus havia implantado no meio dos homens. Esta declaração e mais a
expulsão dos vendedores e cambistas do templo foi certamente à gota d´água que
acabou levando Jesus diante do tribunal.
De
que adianta ter uma relação legalista com Deus, se o próprio sistema religioso
oprime e explora o povo? Jesus condena esse formalismo marcado pela hipocrisia
onde as relações para com Deus se fundamentam na justificação e faz dele
devedor do homem. Doravante o caráter sagrado do templo será relativizado
diante de Jesus, só ele tem o sagrado que é Deus e o revela, não aos mandantes
da estrutura religiosa, mas a gente simples do povo, no caso os discípulos que
haviam se tornado seus seguidores, pois só ele é o único e verdadeiro caminho
para o Pai, decretando assim a falência da estrutura religiosa em torno do
templo.
Os
vendedores e cambistas do templo estavam a serviço de latifundiários poderosos,
que comercializavam de maneira inescrupulosa os animais a serem ofertados no
Holocausto, enriquecendo as custas do povo, que para cumprir um preceito
religioso, tornara-se vítima dos exploradores. Hoje em dia não falta em nossa
sociedade os “descendentes” dos vendilhões do templo de Jerusalém, que muitas
vezes em nome de Deus, fazem grandes negócios acumulando “gordos lucros” aos
grandes conglomerados econômicos. Mas não é evangélica essa conduta de ficarmos
olhando o “rabo” dos outros, é melhor neste tempo quaresmal olharmos para
nossas comunidades e nos perguntarmos com toda sinceridade, que lugar o Povo de
Deus ocupa dentro da instituição religiosa?
Porque
no centro de qualquer sistema religioso deve estar a preocupação com a vida do
homem, sua liberdade, sua realização como pessoa e sua dignidade de Filho de
Deus e nesse sentido, qualquer conduta ou preceito religioso que contrarie essa
verdade absoluta proclamada e defendida por Jesus, não provém do Evangelho e
não merece crédito, venha de qual igreja vier!
SEGUNDA HOMILIA
"Mercantilismo religioso"
Um
dia quando líamos esse evangelho em uma reunião de equipe, levantou-se a dona
Maria, que veio lá do norte, e disse que Jesus a fez lembrar-se dos fiscais que
davam o “rapa” quando ela e o marido tentavam vender mercadorias em uma rua de
São Paulo, “eles chegavam arrebentando tudo, virando a banca de pernas prá cima
e a gente corria, senão o cassetete de borracha “comia solto”, nunca pensei que
Jesus Cristo também perdesse a paciência e ficasse brabo desse jeito” –
finalizou dona Maria.
Foi
quando uma catequista muito jovem, perguntou-nos se Jesus estava realmente
bravo, e com o que, qual a causa da sua indignação?
O
grupo ficou dividido, uns acharam que ele já estava cansado de ver aquela
exploração no templo, e que nesse dia, estando com o pavio curto e a paciência
esgotada, não se segurou e “soltou os cachorros” prá cima dos exploradores
gananciosos. Outro grupo achou que na verdade, o evangelista quer colocar essa
briga como o estopim que irá desencadear todo o processo contra Jesus, já que
era a semana da páscoa judaica e os vendedores que foram expulsos, não iriam
deixar barato aquela atitude de Jesus, mesmo porque, eles vendiam com autorização
dos sumo sacerdotes, que tinham interesse nas vendas, uma vez que em sua
maioria eram latifundiários, portanto, “fornecedores” naturais de animais para
serem sacrificados, podendo então concluir que Jesus havia “cutucado a onça com
a vara curta, ou ainda, havia mexido com um vespeiro”.
Como
membro da comunidade e freqüentador do templo, Jesus não concorda que haja uma
segunda intenção naqueles que trocam moedas e vendem animais para o sacrifício,
porque comunidade não é lugar de se fazer barganha, de se buscar interesses
particulares que não sejam os do bem comum, não é lugar para se fazer
negociatas e trocas de favores, e vem daí a indignação de Jesus para com as
lideranças que permitiam a exploração, porque a venda lhes trazia um lucro bem
gordo.
Muitas
vezes tranqüilizamos a nossa consciência quando pensamos que trabalhamos
realmente com amor e que nada buscamos para nós, na pastoral ou movimento onde
atuamos, entretanto, sempre há a tentação de ganharmos algo em troca do nosso
trabalho, quem é que não quer ser reconhecido por aquilo que faz?
Ser
sempre ouvido, consultado, ter a opinião mais importante, ter uma palavra de
peso maior, ter poder de influência no conselho e nas demais equipes, exercer
um poder paralelo ao da instituição, medir forças com outra liderança, com
nossos pastores, ministros, cooperadores, ter prioridade em ocupar salas ou
outro espaço qualquer, fazer certas exigências para desempenhar o trabalho. A
grande verdade é que, embora de uma maneira dissimulada, também temos nossas “barraquinhas”
particulares que faz da comunidade uma verdadeira feira livre, às vezes.
A
indignação de Jesus é porque as relações no templo tornaram-se mercantilizadas,
e então o evangelho nos faz um forte apelo chamando-nos a uma conversão
sincera, para que a convivência na comunidade seja sempre marcada pelo amor
gratuito, pela docilidade e flexibilidade, não nos faltando misericórdia,
compreensão e paciência, e que possamos eliminar do nosso meio as divisões, os
ranços e azedumes, que magoa, fere e machuca os irmãos e irmãs. Que não
profanemos o templo sagrado que é a vida dos irmãos, onde o Senhor está
presente, senão, de pouco adiantará respeitarmos o ambiente sagrado da igreja
templo.
No
êxodo, Deus caminhava no meio do povo, habitando em tendas, depois, na
monarquia ele foi “enlatado” no templo de Jerusalém, para dar sustentação ao
Rei, seu ungido que reinava em seu nome. Deus estava no templo para ser
adorado, receber as ofertas e sacrifícios, mas agora, ao se colocar como novo
templo, Jesus Cristo está dando um solene basta a antiga religião, Deus deixará
o templo para habitar na “Eclésia”, na assembléia da igreja, no meio do povo da
nova aliança, aberto a todos os homens que quiserem participar do novo reino.
Deus faz morada no mais íntimo do homem dando um novo significado à vida
humana, que entra em comunhão com o Divino, tornando-se sagrada e
indestrutível.
Aos
homens que pensaram ter destruído Jesus para sempre na cruz do calvário, Deus
Pai o encheu de glória com a ressurreição, os que hoje pensam ser capazes de
enterrar o cristianismo, ridicularizando os seus ensinamentos terão uma
surpresa no final da história, pois Jesus garante que esse Reino é eterno e
atingirá a sua plenitude, independente da vontade do homem.
diácono José da Cruz
1
– O centro e o conteúdo essencial da fé cristã é Jesus Cristo e o mistério da
Ressurreição. Sem Páscoa não haveria vida nova, não haveria Igreja, que nasce
precisamente com a ressurreição de Jesus, pedra após pedra se ergue com Ele do
sepulcro, para a luz e para a vida, para o mundo e para as alturas.
Mas
por ora, enquanto não chega a Páscoa, é tempo de caminhar, é tempo da travessia
por todos os desertos da solidão, da doença e da morte. Ao terceiro dia, Ele
levantar-se-á, e levantar-nos-á com Ele, dos escombros do pecado, do sofrimento
e do mal, para nos dar a Sua vida nova, um novo Templo de graça, de verdade e
de paz. As "dores da maternidade" ainda fazem mossa, ainda fazem
sofrer, ainda nos fazem dobrar sobre nós próprios, em posição que espera o
afago e o abraço de Deus, para levantarmos o olhar e vermos os novos Céus e a
nova Terra, que nos aguardam e atraem.
O
Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma fala-nos do sinal maior que Jesus
nos poderá dar: a Sua ressurreição. O templo cairá por terra e da terra, a que
pertencemos, e a que Deus quis e quer pertencer, por Jesus Cristo, erguer-se-á
o Templo do encontro, da festa, da alegria, até à eternidade.
"Estava
próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os
vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas.
Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas
e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas;
e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de
meu Pai casa de comércio»...
Então
os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes
proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três
dias o levantarei»... Muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no
seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não
precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há
no homem".
O
templo de pedra é sinal da presença de Deus no meio de nós, e daí a necessidade
de ser respeitado por nele transparecer a Sua luz. É também sinal de outro
templo, e da vida nova, o Templo que é o próprio Jesus Cristo, onde Se pode
encontrar Deus de verdade, e o templo que somos nós, imagem e semelhança de
Deus, sacrários vivos do Altíssimo.
2
– Como em tudo na vida, o caminho também é importante. Não adianta correr se
não sabemos para onde nos leva a estrada, a ruela, a avenida. Pode ter um piso
agradável, macio, colorido, artístico, mas por aí não nos leva a bom porto,
porque não sabemos também onde aportar. Não podemos navegar sem orientação.
Para o barco que não sabe para onde navega, todo o vento é desfavorável. Como
cristãos sabemos o destino: a vida eterna, a comunhão em plenitude junto de Deus.
Mas a vida em Deus não é futuro, não somente futuro, é também presente, é
também vida, é também a nossa casa, as nossas paixões, as nossas vivências, os
nossos projetos; a eternidade vislumbra-se e inicia a partir daqui, do lugar em
que me encontro, no mundo que é a minha casa, a minha família, a minha
vizinhança, o mundo que é a minha aldeia, a minha paróquia, a minha vila e a
minha cidade, a minha escola e o meu trabalho.
Por
sorte, não estamos num labirinto fechado, escurecido, traiçoeiro, ainda que possa
haver labirintos na nossa vida e possam existir tantos caminhos quantas as
pessoas que estão a caminhar. Os que nos precederam na fé, inspirados por Deus,
clarearam a quaresma que temos de fazer para nos acercarmos da Páscoa,
tapetearam a estrada para que as quedas não nos destruíssem e nos fizessem
destruir.
Escutemos
Moisés: "Não terás outros deuses perante Mim... Não adorarás outros deuses
nem lhes prestarás culto... Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus...
Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares..., o sétimo dia é o sábado
do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na
terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério.
Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não
cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o
seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe
pertença".
É
um bom ponto de partida para nos tornarmos cúmplices de Jesus Cristo. Os
Mandamentos continuam a ser para a Igreja (e para os cristãos) e para o mundo
(como base dos Direitos Humanos) uma referência fundamental, que nos exercitam
na convivência com Deus, e na caridade para com todos.
3
– Os sinais pedidos a Jesus são-nos também exigidos a nós, como seus
discípulos, seus seguidores. Tal como Ele, o maior sinal para nós é a
ressurreição que emoldura a Cruz do amor, da paixão, da entrega que n’Ele, Deus
feito homem, nos é ofertado em plenitude.
"Os
judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos
Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas
para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e
sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e
o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
No
nosso itinerário quaresmal até à Páscoa, e até à vida eterna, há de haver lugar
à partilha, à solidariedade, à comunhão, ao serviço, traduzindo em concreto a
cruz, expressão do amor, da caridade, e daquela – a cruz –, dar sinais, deixar
o vislumbre da LUZ que nos vem da RESSURREIÇÃO e de nos tornarmos, pela fé,
pelo batismo, cúmplices de Jesus Cristo. Anunciamos a morte e a ressurreição
até que Ele venha. Anunciamos como Ele, em palavras que se tornam vida gasta
com os outros e a favor dos outros. No compromisso com os outros, na justiça e
na caridade, a ressurreição acontecerá.
padre Manuel Gonçalves
A
religião verdadeira é dar a vida pelos outros
1ª
leitura: Êxodo 20,1-17
Deus
e o homem encontram-se na Aliança
1. A primeira
leitura é o famoso Decálogo, coração de um "código da Aliança" que se
tornou a expressão mais definida da teologia sacerdotal (a diferença do
Decálogo de Dt. 5,6-21) e que desempenhou um papel considerável na evolução
ética da humanidade. Embora expresso em forma negativa e absoluta, tem uns
objetivos bem determinados: proteger a comunidade, o povo da Aliança, para lhe
dar uma identidade e para que não voltem à escravidão. É isso o que espera, o povo
se adorar outros deuses estranhos já que todos os impérios tinham os seus
deuses protetores e os dominadores impunham-nos como sinal de vitória.
2. Mas, além disso,
é um código em dez Palavras que exprime uma relação dialogal, interpessoal. O
Decálogo procura exprimir uns direitos fundamentais, como hoje defendemos, no
âmbito da comunidade internacional. Por isso, devemos valorizá-lo como uma
proposta, naquela época, que se antecipa séculos e séculos a muitas conquistas
humanas da nossa época. Pretende que as relações entre Deus e o homem, e a dos
homens entre si estejam enformadas pela adoração e pela religião verdadeira,
pela justiça enquanto todo o pecado contra o próximo é um pecado contra Deus. É
verdade que o decálogo é como um "escudo" que protege a santidade de
Deus, mas também a dignidade de todos os homens, do próximo em concreto.
3. Por detrás destas
expressões formuladas nesta teologia sacerdotal, devemos ver a ação do Deus
salvador que fez uma aliança com o povo. Este, por seu lado, deve ser não
somente um bom intermediário, mas um verdadeiro missionário deste projeto
salvador de Deus. Disseram que no fundo devemos ver a gratidão de Deus. Antes,
pois, de que a humanidade se tenha dotado dos direitos fundamentais, estes
propósitos do "decálogo" mostram a ânsia de Israel para ser um povo
fiel, um povo justo, embora dependente de Deus. Mas segundo a melhor teologia
bíblica é em Deus que está a fonte de toda a justiça e dignidade humana,
2ª
leitura: 1 Coríntios 1,22-25
Deus
fala da sabedoria da cruz
1. A segunda leitura
propõe-nos a sabedoria da cruz. É uma passagem da carta em que Paulo se
confronta com o problema da divisão da comunidade em facções diversas que se
remetem para personagens do cristianismo primitivo; uns para Paulo, outros para
Pedro, outros para Apolo; e, inclusive, outros (muito provavelmente o próprio
Paulo) para Cristo como o único que pode dar consistência à nossa fé. O texto
de hoje faz parte de um amplo conjunto (1Cor. 1-4) que o apóstolo enfrenta por
informações das "gentes de Cloe", talvez uma das comunidades
domésticas. E, em vez de uma reprimenda moralizante e sem sentido, propõe, para
a unidade e comunhão da comunidade, que crux sola nostra theologia como dizia
Lutero. Na cruz, as divisões, os partidos, os grupos de elite de uma comunidade
ficam à altura das nossas próprias misérias.
2. Paulo fala de
Cristo crucificado face às divisões, o valer mais ou menos, o ser dos primeiros
ou dos últimos, porque na cruz de Cristo se revela o Deus que se
"baixou" até nós. Este Cristo crucificado, revelação do verdadeiro
Deus, é loucura para os judeus que, desde sempre, concebem Deus na sua
grandeza; loucura para a sabedoria deste mundo que é também uma sabedoria de
prepotência inaudita. A religião da cruz, no entanto, não é a religião da
ignomínia, mas da condescendência com os fracos e com os que não contam neste
mundo. Embora alguns tenham censurado esta explicação paulina como a decadência
da sociedade (Nietzsche), esse é o único caminho onde podemos reconhecer o
nosso Salvador. Com um estilo retórico, usando a diatribe de uma forma
clássica, Paulo pergunta com insistência se os sábios, os entendidos, os
investigadores podem oferecer-nos o sentido profundo e radical da nossa vida.
Porque a nossa vida verdadeira é muito mais do que conhecer o "genoma
humano".
3.No entanto, não se
trata de condenar a sabedoria humana em si, nem a investigação nem a filosofia.
Nem tão pouco se há-de entender a "theologia crucis" como a
religião do masoquismo. Nada disso! Não é assim da forma com que Paulo
argumenta, mas de como é possível que os nossos critérios e as nossas decisões
humanas estejam à altura de quem nos dá vida e Espírito. Por isso, a sua
afirmação decisiva é que Deus conferiu a Cristo, o crucificado, não o
esqueçamos, "poder e sabedoria de Deus". E conhecemos que esse é um
poder sem poder" e uma "sabedoria sem a lógica fria deste mundo"
É o poder e a sabedoria de quem se entregou por nós. É aqui que se constrói a
"theologia crucis" na "proexistência", em saber viver para
os outros, como faz o nosso Deus. É partindo daqui que Paulo procura curar a
loucura das divisões e das arrogâncias humanas existentes na comunidade de
Corinto.
Evangelho:
João 2,13-25
Jesus
procura uma religião de vida
1. O relato da
expulsão dos vendedores do templo, na primeira Páscoa "dos judeus"
que João menciona na sua obra, é um marco de referência obrigatório do sentido
deste texto joânico. No fundo, também devemos saber ver as chaves messiânicas
com as quais João quis apresentar este relato, tendo em conta um texto como o
de Zac. 14,21 (o deutero-Zacarias) para anunciar o dia do Senhor. É assim que
se constroem algumas idéias do nosso Evangelho: Páscoa, religião, messianismo,
culto, relação com Deus, vida, sacrifícios. Jesus expulsa especificamente os
animais do culto. Não devemos pensar que Jesus começa a dar chicotadas às
pessoas, mas aos animais; João sublinhou mais este aspecto. Os animais eram os
substitutos dos sacrifícios a Deus. Portanto, sem animais, o sentido do texto é
mais claro. Jesus quer anunciar, profeticamente, uma religião nova, pessoal,
sem necessidade de "substituições". Por isso disse: Tirai isto
daqui". Não se pode interpretar, pois, como um ato político-militar, como
se fez no passado. É, consideramos, uma profecia "em ato".
2. O Evangelho de
João apresenta, portanto, essa cena de Jesus que seduz as mentes proféticas e
renovadoras. Desde logo, é um acto profético e não podemos deixar de o
valorizá-lo dessa forma: no contexto da Páscoa, a grande festa religiosa dos
judeus piedosos a Jerusalém. Esta é uma cena que não devemos permitir que se
converta em algo vulgar; que não podemos rebaixá-la fazendo dela um caso
normal. Está lá, no coração do Evangelho, para ser uma crítica da nossa
religião sem coração com a qual muitas vezes queremos comprar Deus. É a
condenação daquele tipo de religião sem fé e sem espiritualidade que sempre
houve e continua a haver. Já Jeremias (7,11) tinha clamado contra o templo,
porque com ele, se usava o nome de Deus para justificar muitas coisas. Agora,
Jesus com esta ação simbólico-profética, como faziam os antigos profetas quando
as suas palavras no eram escutadas, quer levar às últimas consequências o que a
religião do templo, onde se adora Deus, não seja uma religião de vida, mas de
vazio. Por isso mesmo não está a condenar o culto e a oração de uma religião
esvaziada de conteúdo e depois não tenha incidência na vida.
3. Não esqueçamos
que este episódio ficou marcado na tradição cristã como um marco, por se
considerar como acusação determinante na condenação de Jesus à morte, uma das
causas imediatas da mesma. Ainda que João tenha adiantado ao começo da sua
atividade o que os outros evangelhos propõem no final (Mc. 11,15-17; Mt.
21,12-13; Lc. 19,45-46) estamos no caminho certo se com ele vemos o confronto
que os judeus vão ter com Jesus. Este episódio não é outra coisa senão a
proposta de Jesus para uma religião humana, libertadora, comprometida e,
inclusive, verdadeiramente espiritual. Embora João seja muito ousado,
teologicamente falando, está a anunciar a transformação de uma religião de
culto por uma religião em que o importante é dar a vida uns pelos outros, como
se faz ao mencionar o "corpo" de Jesus que substituirá o templo.
Aqui, com este episódio (se bem que não só) como sabemos Jesus jogou a sua vida
em "nome de Deus e aplicaram-lhe a lei também "em nome de Deus".
Quem tinha razão? Como no episódio faz-se apelo à Ressurreição ("em três
dias o levantarei") está claro que era o Deus de Jesus o verdadeiro e não
o Deus da Lei. Esta é uma diferença teológica inquestionável, porque se Deus
ressuscitou Jesus foi porque não podia assumir aquela morte injusta. Mas sucede
que, apesar disso, os homens continuam a preferir o Deus da Lei e a religião do
templo e dos sacrifícios de animais. Jesus, porém, ofereceu-nos uma religião de
vida.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Purificar
o coração
1. O profeta Ezequiel
fazia um dia uma oração pedindo ao Senhor para lhe purificar o coração e o
espírito. Acrescentava “tirai do meu peito o coração de pedra e dai-me um
coração capaz de amar” (Ez. 36,26). Neste tempo de Quaresma sugere-se a
purificação do coração, libertando-o de todo o egoísmo, “das rixas, das brigas,
das contendas, das imolações, dos ciúmes, das discórdias e divisões” (cf. Gl.
5,19) como dizia S. Paulo. Encharcando-o, porém, dos frutos do Espírito: “a
alegria, o amor, a paz, a bondade, a ternura, a solidariedade e o domínio de si
próprio” (Gl. 5,22). Esta é a mudança total da vida. No Evangelho, muitas vezes
Jesus insiste na mudança de vida.
• Aos enfermos a quem
curava repetia sempre: “A tua fé salvou-te, vai em paz, não tornes a pecar” (Mc
5, 34).
• Aos pecadores,
mesmo que desprezados por todos, dizia: “Ninguém te condenou, também eu te não
condeno, vai em paz” (Jo 8,11).
• Aos inquietos,
fossem sinedritas, como Nicodemos ou cobradores de impostos, como Zaqueu
repetia: “é preciso nascer de novo” (Jo 3,7) ou então: “desce depressa que vou
almoçar em tua casa” (Lc. 19,5).
• A um jovem que
queria ser melhor chegou a pedir “Vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e vem
depois” (Mt. 19,21).
• A uma mulher da
Samaria, uma estrangeira, prometeu a água viva que jorra para a vida eterna
(cf. Jo 4).
• Compreendendo a
fragilidade de Pedro, também soube dizer-lhe “E tu, uma vez convertido,
confirma os teus irmãos” (Lc. 22,31-32).
O Papa Francisco, na
Mensagem da Quaresma, pede para que os cristãos fortaleçam o coração. Também
Paulo dizia, no meio das suas dificuldades “Tudo posso, n’Aquele que me dá
força” (Fil 4, 13). É o coração novo, purificado, que pode transformar tudo à
sua volta.
2. A Liturgia deste
3º Domingo da Quaresma permite encontrar Jesus, no Templo, a purificar a casa
do Senhor. Os vendilhões e os cambistas tinham transformado a casa de Deus em
casa de negócios. Na descrição de Marcos havia três coisas que profanavam o
templo: as pombas, outros animais e o dinheiro. Hoje continuam a ser as mesmas
coisas que profanam o templo.
• As pombas, que são
símbolo de espiritualidade, tinham-se tornado no templo forma de lucro. Também
hoje muitas vezes a relação com Deus tem o seu quê de negócio, com promessas
que depois se não cumprem, com exigências na oração que quase pretendem forçar
os céus.
• Os animais estavam
votados ao sacrifício. No templo de Jerusalém tinham-se tornado interesse no
jogo de compra e venda. Também hoje a materialidade, com as suas
características, reduz profundamente a relação com Deus. As preocupações que
dominam até os cristãos são mais a casa, o automóvel, o computador, as roupas
de moda e muitas inutilidades. Quase se transforma o templo da vida em centro
comercial de facilidades, sem que Deus ali tenha lugar.
• O dinheiro era
trocado pelos cambistas. Ia-se ao templo para assegurar vantagens e não para
adorar a Deus. Também hoje se vive com a obsessão pela segurança económica.
Porque o dinheiro se tornou um absoluto, como diz o Papa Francisco, a economia
mata e a pessoa é sacrificada à ânsia de dinheiro e de poder.
• O ambiente é uma
outra característica do templo que o Senhor quis purificar. Também hoje os
ambientes estão perturbados pelo medo, pela angústia, pelo desemprego, pela
pobreza, pelo desconhecimento do futuro. Por isso, as pessoas isolam-se e,
nas grandes cidades, ficam sós, sem a capacidade de relação que lhes permitiria
sentir-se parte de uma comunidade viva. Como é possível que crianças e idosos
sejam abandonados à sua solidão?!
Cada cristão deve ter
consciência de que o seu corpo, toda a sua vida, é templo do Espírito Santo que
habita nele. Por isso, neste tempo de Quaresma, o desafio está em purificar a
vida, do culto da matéria, do dinheiro, dos ambientes negativos, até de uma
espiritualidade egocentrista que separa dos outros. O templo que cada cristão
é, tem de estar preparado para receber o Senhor e dar o Senhor aos outros.
3. Para contrariar
uma cidade que aparentemente vive na abundância mas que se esqueceu de Deus,
vale a pena repensar a conversão quaresmal. É uma forma de avaliação crítica,
para a renovação profunda que cada um pretende. O Papa Francisco pede uma
Igreja em saída indo determinadamente ao encontro dos outros que andam mais
longe. A cidade dos homens também é um templo. Este templo pode estar profanado
e, por isso, o cristão tem nele um lugar de extraordinária importância. Foi
Jesus que o disse: “Pai Santo não Te peço que os tires do mundo, mas que os
libertes da maldade. Como Tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo.
Santifica-os na verdade.” (Jo 17, 15-20). Respondendo ao apelo de Jesus, o
cristão é chamado a dar um sentido novo ao seu prédio, à sua rua, ao seu
bairro, ao café que frequenta, ao lugar profissional onde trabalha, ao seu
grupo de amigos. Como fazê-lo?
• Dando pão aos que
têm fome e água aos que têm sede. É preciso reinventar a parábola da partilha
para que os que têm carências essenciais à vida tenham quem se preocupe com
eles.
• Indo ao encontro
dos que estão na solidão. Há pessoas que bem perto de nós foram “deixadas à
beira do caminho”. O próprio Papa Francisco considera ser pecado mortal o abandono
dos pais e avós (Homilia de 4 de Março 2015). Mas também há vizinhos e outros
conhecidos que estão atolados na solidão. É preciso estar com esses.
• Sendo conforto na
infelicidade que surpreendeu alguns. A crise do mundo trouxe inúmeros
sofrimentos. Fazer seu o sofrimento dos outros é missão do cristão. Ouvi-los,
compreendê-los, ajudar a vencer alguns problemas, reafirmar confiança, apoiar
sem julgar, ser palavra ou sorriso, ou simplesmente ternura, tudo isto faz-se
presença que é um sinal de amor.
• Acolhendo os mais
pequeninos muitas vezes atirados para as instituições. Era o poeta que
interpelava o próprio Deus ao dizer “Mas as crianças Senhor/ porque lhes dais
tanta dor/ porque padecem assim? (Augusto Gil). Quando se vê uma criança com
olhos esbugalhados em frente da montra de uma pastelaria, quando se sabe que
outra criança não é capaz de aprender a ler e a escrever, o cristão não pode
ser insensível, tem que lhe dar toda a ternura e encontrar-lhe saída para o seu
futuro.
• Levando, então,
Deus à cidade. A falta de Deus impede o reconhecimento de que todos são
família, sendo irmãos com o mesmo Pai. Se se aceita a beleza da presença de
Deus, vai ser mais fácil que todos se sintam irmãos, que todos aprendam a
perdoar, que todos consigam acolher os mais pobres, que todos saibam sorrir,
transformando a relação humana no universo de felicidade. Esta é a missão dos
cristãos numa Igreja em saída.
Estas “dicas” são
apenas sugestões para que os cristãos recriem a sua conversão neste tempo de
Quaresma. Com o coração purificado será mais fácil purificar também a cidade
dos homens, fazendo que ela deixe de ser casa de negócio, mas se torne templo
onde Deus habita e todos se sintam companheiros na construção da felicidade.
4. A Comunidade
Paroquial do Campo Grande é na cidade um agente de transformação social. Se a
oração é de relevante importância, a presença operante na relação com os outros
será anunciadora de uma Igreja em saída que quer mesmo transformar o mundo.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
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