04 de fevereiro -
Ano B
Evangelho - Mc 1,29-39
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“VAMOS A OUTROS LUGARES, ÀS ALDEIAS DA
REDONDEZA!” – Olivia Coutinho.
5º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 04 de Fevereiro de 2018
Evangelho de Mc1,29-39
Este evangelho, vem nos mostrar a proximidade
de Jesus com os sofredores! Jesus não se apresentou ao povo, em cima de
palanques, iludindo as pessoas com promessas vazias, e sim, em meio aos
sofredores! Foi curando os doentes, libertando os acorrentados pelas as forças
do mal, que Jesus se apresentou como o Filho de Deus!
O texto nos apresenta três momentos de
atividades de Jesus, num só dia!
Para absorvermos melhor a mensagem que o
evangelho que nos passar, seria interessante nos colocarmos dentro do
texto, fazendo a mesma experiência dos discípulos, passando um dia inteiro com
Jesus, conhecendo de perto o seu cotidiano.
No primeiro momento, Jesus sai da
sinagoga, onde havia libertado um homem de um espírito mau, e segue, juntamente
com Tiago e João, para a casa de Pedro, até então conhecido como Simão. Ao
saber que a sogra de Simão, estava de cama com febre alta, Jesus vai até ela, e
segurando-a pela a mão, a ajuda a levantar! A partir de então, a sua
febre baixou, e ela se pôs a servi-los.
Neste episódio, o que deve chamar mais a nossa
atenção, não é a cura em si, e sim, a postura de quem recebe a cura. A
sogra de Simão, (Pedro) ao sentir a intervenção de Deus em seu corpo, ou seja,
ao sentir-se curada, não se acomodou, pôs-se logo a servir! É o que Jesus
espera de cada um de nós, Ele quer nos ver sempre em movimento e nunca parados!
Quando Jesus curava alguém, Ele sempre dizia: “levanta-te, vai..."
No segundo momento, vemos Jesus curando e
libertando muitas pessoas, em frente a casa de Simão. A multidão que o
procurava, crescia dia pós dia e, se por um lado, Jesus se compadecia daquela
multidão que não tinha a quem recorrer, Ele sabia também, que não poderia
prender-se aquele povo, e nem permitir que as pessoas o enxergasse como um
fazedor de milagres. Jesus não fora enviado ao mundo para fazer milagres, os
milagres que Ele realizava, ou era por compaixão, ou para servir de
sinal, de que Ele era o enviado de Deus. O compromisso que Jesus
assumira com o Pai, ia muito mais além do que realizar milagres, Jesus viera ao
mundo para libertar o povo da escravidão do pecado, para ensinar a todos, o
caminho da vida, caminho este que perpassa pela a prática da justiça...
E por fim, no terceiro momento, o evangelho
nos mostra Jesus em oração! Certamente, buscando no Pai, força e discernimento
para exercer o seu ministério, para tomar as decisões certas, afinal, Jesus
tinha o seu lado humano e sem a força do Pai, Ele poderia correr o
risco de se deixar levar pelo o coração, e assim, comprometer o desenvolvimento
do projeto de Deus, confiado a Ele.
Enquanto Jesus estava em oração, Simão e seus
companheiros, o interrompeu dizendo: “Todos estão te procurando.” Para a
surpresa destes discípulos, Jesus não volta para junto do povo. Fortalecido
pelo o Pai, Jesus não se deixa levar pelo o seu lado humano, pois a missão
confiada a Ele, deveria se estender a outros povos. “Vamos a outros lugares, às
aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim. ”
Vemos ai, a importância da oração, Jesus
rezava sempre, principalmente quando Ele precisava tomar alguma decisão difícil
como essa; o coração humano de Jesus pedia pra Ele ficar ali, socorrendo aquele
povo tão carente, mas a missão exigia que Ele fosse ao encontro de outros
povos.
Façamos como Jesus, busquemos força e
discernimento no Pai, para que possamos acertar nas nossas decisões, decisões,
muitas vezes difíceis, mas necessárias, como o rompimento com tudo que
nos afasta de Deus...
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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O dom da saúde e
experiência da enfermidade
A Palavra de Deus deste Domingo
nos convida a refletir sobre a condição humana profundamente marcada pela
experiência da dor, da doença e do sofrimento. Sem a fé, então, a vida fica sem
sentido e a existência humana torna-se um tormento como a vida de um escravo no
trabalho forçado (I leitura). O Evangelho nos apresenta Jesus Cristo como o
Senhor da Saúde, que conforta e liberta os sofredores de seus males; a saúde
deve ser entendida como oportunidade e condição para servir os outros; o mais
nobre desses serviços segundo o testemunho de Paulo é o gratuito anúncio da Boa
Nova libertadora (II leitura).
LEITURA: Jó 7,1-4.6-7 – UM
SENTIDO PARA A DOR, A DOENÇA E O SOFRIMENTO
O livro de Jó é um maravilhoso
drama sobre uma das questões mais enigmáticas da existência humana: o
sofrimento! Por que sofremos? Qual é o sentido do sofrimento? Qual é a sua
causa? O que fazer quando por ele somos acometidos? Qual deve ser a nossa justa
postura diante daquele que sofre? Essas são algumas das principais questões
teologicamente tratadas no livro de Jó. Vale a pena lê-lo e meditá-lo! A
trama desse drama existencial é muito simples: um homem chamado Jó, rico, judeu
piedoso e fiel, homem justo e observante (cf. Jó 1,1.8;2.3), repentinamente
perde tudo - bens, parentes, amigos, estima - fica gravemente enfermo e
padece profundamente em seu leito de dor. Então, apresentam-se três homens
(Elifaz, Baldad e Sofar), seus amigos (cf. Jo 2,11), que tentam, a todo custo,
persuadi-lo a reconhecer algum mal cometido. Contudo, Jó, sempre
contra-argumentando, sustenta sua inocência (cf. Jó 9, 2; 15.20; 10,15). No
auge do drama, a partir do capítulo 38, Deus entra em cena e faz dois longos
discursos a Jó. Este, dessa vez, não rebate, mas se cala dizendo: “sou aquele
que denegriu teus desígnios com palavras sem sentido. Falei de coisas que não
entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora
os meus olhos te viram e, por isso, retrato-me e faço penitência” (Jó 42,3-6).
Essa é a grande moldura que contorna o trecho que nos é proposto hoje. Jó
reflete em seu leito de sofrimento e nos apresenta algumas verdades
incontestáveis da condição humana: a) Que a vida humana sobre a terra é uma
luta (cf. Jó 7,1). De fato, a essência nos foi dado como dom, mas a qualidade
da nossa história depende da sábia auto-administração; isso não é fácil, é uma
luta; b) Que o homem fazendo experiência de sofrimento, lutando, aspira
ardentemente por recompensa como um mercenário, ou seja, como aquele que
trabalha por um preço ou salário combinado ou como um escravo que, fadigado
pelo trabalho ao sol, suspira pela sombra, por um refrigério (cf. Jó 7, 2-3); a
vida humana é marcada por carências e insatisfações e suspiramos por conforto e
plenitude; c) Somos tentados a perder o sentido da vida quando caímos no
sofrimento e vivenciamos o tédio, o vazio, a tristeza, a angústia, a falta de
esperança... (cf. Jó 7, 4-6); d) Apesar de tudo, é necessário depositar a esperança
em Deus. O que sustenta Jó, não é a paciência, mas é a Fé da qual brota uma
dinâmica esperança que o alimenta: “lembra-te de que minha vida nada mais é do
que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade” (cf. Jó 7, 7).
Apesar de tudo, vale a pena depositar em Deus nossa esperança.
Nossa vida
Hoje assistimos em nossa
sociedade uma grande corrida contra a dor, as doenças e o sofrimento humano. A
dor física, já foi “vencida”, mas continua de modo tecnicamente inalcançável a
fabricação de uma “anestesia” para eliminar a dor causada pelas dimensões
afetiva, moral e espiritual. Possivelmente nunca haverá! Isso atesta o limite
da ciência que, jamais, será capaz de dar sentido e desvendar a totalidade da
condição humana. O ser humano pode escapar da dor física, mas dificilmente se
livra das inquietantes provocações da própria alma. Dentro desse contexto de
luta pela busca de uma resposta para os problemas físicos humanos, corre-se o
perigo de cairmos no “corporeísmo”: ideologia que vê o corpo como centro de
tudo e realidade fundamental do ser humano. Na verdade, o corpo é parte do ser
pessoa! Somos uma realidade composta por duas dimensões básicas: uma física
(material) e outra espiritual (imaterial). O corporeísmo é uma ideologia
materialista que concebe o corpo como puro instrumento de prazer (fonte de
sensações) e produção (trabalho). No horizonte dessa ideologia não há espaço
para a dor, para o sofrimento e nem para o sentido sagrado da Vida. É por isso
que, hoje, em muitos países há uma grande reivindicação pela eutanásia (morte
provocada do enfermo). Onde fica o sentido do sofrimento e da doença? Como
vimos no drama de Jó, no sofrimento se esconde um mistério, pois nem tudo tem
uma lógica de causa e efeito, culpa e castigo! Quando vemos o sofrimento do
inocente, a nossa tentativa de explicar esse fenômeno cai por terra! O inocente
também sofre! E o que dizer das catástrofes provocadas por fenômenos naturais
(vulcões, tsunamis, terremotos!?..). A dor e o sofrimento têm um significado:
revelam, antes de tudo, a nossa fragilidade, são sinais de nossa finitude,
acusam a nossa insuficiência (não nos bastamos a nós mesmos!), nos mostram que
somos dependentes. Não há como mudar essa realidade, isso faz parte da nossa
constituição natural; essa é a condição da nossa identidade. Muitas vezes, após
esperneamos como Jó, precisamos do consolo da Fé para nos acalmar! A fé dá um
sentido à dor, à doença e ao sofrimento! Diante do sofrimento sem fé, caímos na
revolta e rejeição, mas com fé nossa postura é de acolhida e resignação; sem fé
somos movidos pelo sentimento de injustiça, com fé admitimos o reconhecimento
da nossa finitute; sem fé nos sentimos castigados, com fé renovamos a nossa
consciência da dependência divina; sem fé falta sentido e contemplamos o vazio,
com fé somos capazes de perceber o sentido pedagógico do sofrimento (nos
educa); sem fé, quando imersos no sofrimento, buscamos um culpado, com fé
confessamos a nossa pequenez imersa no grande mistério divino que nos convida à
oração e à esperança (cf. Sl 33,22; Sl 39,8).
2ª. II LEITURA: 1Coríntios 9,
16-19.22-23 – O EVANGELHO COMO PAIXÃO
Assim como a sogra Pedro nos deu
um maravilhoso exemplo com sua atitude de serviço imediatamente à recuperação
de sua saúde, Paulo por sua vez, nos revela sua gratuita paixão em gastar suas
energias a serviço do Evangelho que, para si, constituía uma necessidade (cf.
1Cor 9,16). Com esse testemunho, o apóstolo nos revela a sua profunda
consciência de dever corresponder às graças que de Deus recebeu: anunciando-a
aos outros. Testemunhar a viva voz uma graça recebida, de fato, é um dever de
gratidão: “ai de mim de não evangelizar” (1Cor 9,16). Mas Paulo não só
testemunha sua gratuita paixão pelo anúncio do evangelho, mas também declara as
atitudes que o acompanham: “embora livre de sujeição..., eu me fiz servo de
todos... Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo
para todos... ” (cf. 1Cor 9,19-22). Nessas suas declarações encontramos, de
forma límpida, a vivência de alguns valores e atitudes basilares da
espiritualidade cristã: a liberdade (“embora livre de sujeição”), o serviço
(“me fiz servo”), a solidariedade (“me fiz fraco com os fracos”), a
adaptabilidade (“me fiz tudo para todos”). Em fim, em confronto com a temática
de hoje, saúde e sofrimento, Paulo nos convida a refletir a certeza de que no
Evangelho encontramos a fonte do nosso alento, do consolo e da nossa
esperança... pois “os sofrimentos do momento presente não se comparam com a
glória futura que deverá ser revelada em nós” (Rm 8,18).
Nossa vida:
Paulo nos testemunha uma série
de valores que dão sentido a uma existência: a liberdade de colocar-se a
serviço do evangelho gratuitamente, a renúncia a privilégios, a disponibilidade
para servir os outros... Essa atitude paulina de “ser para”, profundamente
excêntrica – lançada para fora de si – gratuita, contrasta profundamente com
muitos males de nossos dias que amordaçam e matam espiritualmente milhões de
pessoas no mundo que vivem enjauladas pelo medo do outro, aprisionadas pelo
egoísmo, acomodadas em privilégios passageiros, anestesiadas pelo comodismo e
ignorância. Paulo nos indica que o Evangelho é a fonte que nos dá a chave do
sentido da vida, que a verdadeira liberdade é profundamente altruísta e se
concretiza na experiência do voluntariado. O apóstolo nos faz recordar a
dinâmica do grão de trigo: que o ser humano à medida que sai de dentro de si
mesmo, se encontra... e doando-se jamais se esvazia!
3ª. EVANGELHO: Marcos 1, 21-28 –
JESUS É O MÉDICO DA HUMANIDADE
Esse relato de Marco contém vários
elementos significativos: a) Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum onde já havia
curado um homem possuído por um espírito impuro (cf. texto do Domingo passado)
e imediatamente, saindo com alguns dos seus discípulos, continua a promover
curas fora da sinagoga. Quer nos mostrar que entre Fé e a Vida não deve haver
fragmentação; o compromisso com a vida nova que brota do anúncio do Reino é
contínuo, dentro e fora do templo. O que se celebra no templo (liturgia), se
torna compromisso de vida lá fora. b) Um segundo detalhe significativo é o da
cura da sogra de Pedro e sua atitude. Jesus “tomou-a pela mãe e levantou-a e
imediatamente a febra a deixou” (Mc 1,31). Jesus com essa atitude de se
aproximar com liberdade de uma mulher doente, dar-lhe a mão e levantá-la
constitui um fato totalmente extraordinário para os parâmetros sacerdotais de
então. É uma atitude crítica, uma vez que os rabinos do seu tempo tinham uma
postura de pouco interesse pelo contato humano, mas muito prezavam o puro
anúncio da Torá, ou seja, a bíblia hebraica, ou Pentateuco (5 primeiros livros
da Bíblia), que contém a lei mosaica. Mais ainda, Jesus deixa-se servir por
ela! Jamais um sacerdote dos tempos de Jesus assumiria essa atitude. Jesus está
abrindo novos horizontes necessários para a vivência da Fé; c) O terceiro fato
profundamente importante é a atitude da mulher curada: “imediatamente põe-se a
servir os presentes”. A sogra de Pedro nos mostra o verdadeiro objetivo da
saúde: possibilitar-nos a capacidade de nos colocar a serviço dos outros. d)
Jesus é o médico da humanidade: levavam a Jesus doentes afetados por diversos
tipos de males: físicos, psíquicos (possessos) etc (Mc 1,32), curava doenças e
expulsava demônios... mais que um elenco de doenças o texto que nos mostrar que
em Jesus temos a resposta para todos os males da humanidade; nele está a
plenitude da vida e da saúde; e) A necessidade de ir além: a fama de Jesus
crescia e ele corria o risco de se tornar refém da popularidade, do seu
heroísmo taumatúrgico, por isso, reconhecendo a transcendência de sua missão
sai do meio desse assédio (“todos te procuram”), vai para um lugar deserto,
entra em oração e daí segue para outros lugares. A mística (a comunhão com o
Pai e o Espírito Santo) é a fonte da operosidade incansável de Jesus. Jesus
prova dessa forma seu consciente senso de transcendência de sua missão e por
isso não se deixa envolver-se de uma forma total a ponto de se tornar refém de
seus beneficiários.
Nossa Vida:
Tanto as atitudes da sogra de
Pedro com aquelas de Jesus nos apontam para a mesma mensagem: para servir é
necessário ser livre! Livre, sobretudo, de amarras psíquicas, afetivas,
econômicas, culturais... Quando o evangelista Marcos relata que a sogra de
Pedro, uma vez curada, imediatamente pôs-se a servir a Jesus e seus discípulos,
quer deixar uma profunda e clara mensagem a seus destinatários: a vida saudável
está para o serviço generoso que promove ou outros, assim como, a doença está
para a paralisia e a morte da pessoa. Cada vez mais cresce em nossa sociedade o
fenômeno do voluntariado. Isso é muito significativo, pois trata-se de uma
realidade social que testemunha que a nossa felicidade pessoal passa pela nossa
dedicação aos outros. Mas para nos tornamos servos, não basta a saúde
física. O egoísmo é a fonte das prisões que sufoca muitas pessoas e as mantêm
presas a si mesmas com medo dos outros, cheias de desculpas calculadas que
justificam a própria mesquinhez, defensivas quanto a qualquer proposta de
gratuidade de promoção dos menos favorecidos, secas e impassíveis diante do
drama alheio... Mas por isso pagam caro: são infelizes, vazios e suas alegrias
são artificiais! Jesus é o médico da humanidade... Suas atitudes nos revelam o
caminho do sentido da vida e nos mostram para que servem todas as nossas forças
e capacidades. O tempo passa depressa... e, pressa, devemos também ter para
fazer o bem!
MENSAGENS E COMPROMISSOS:
Há um sentido para o sofrimento
e a doença: revelam a nossa fragilidade, pequenez, insuficiência, dependência
do Criador.
O Evangelho é a fonte do nosso
sustento... e nos convida à gratuidade! Nele descobrimos o sentido para
as nossas carências.
É preciso ser livre para poder
servir... Jesus é o médico da humanidade! Nele está a definitiva esperança de
nossa Cura!
Antônio de
Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)
Jesus cura a sogra de Pedro e
outros enfermos
A leitura apresenta Jó mergulhado em um grande
sofrimento. Diante de seus amigos abre o coração e manifesta sua desilusão.
Eles, que defendem uma teologia distante da vida, não podem compreender a
queixa de seu amigo nem acompanhá-lo plenamente em sua dor.
O grito de Jó está presente na vida diária de muitos
homens e mulheres em todos os rincões do planeta, que enfrentam uma vida de
luta e dificuldade. Jó compara sua existência com a via de um “mercenário”,
quem vende sua força de trabalho por dinheiro em causas que não são suas e se
cansa por empreendimentos que não ama.
O livro de Jó, como sabemos, é uma jóia literária
dentro da Bíblia hebraica (na qual está baseado o nosso Novo Testamento). É uma
reflexão sapiencial sobre esse problema insolúvel, ou melhor, sobre esse
mistério eterno que é o “mal”. O mistério do mal é uma presença injustificada
no mundo.
O mistério do mal poderia ser uma justificativa para
quem poderia ser responsabilizado pela existência do mal: Deus poderia ser
responsabilizado pela sua presença? Porém, a “teodiceia” apenas mostra a
existência de Deus, quer dizer, “justifica” a Deus, como a própria etimologia
da palavra expressa.
O importante no livro de Jó não são os “dados históricos”,
que não existem. Na verdade, o livro de Jô não é um livro histórico, nem suas
respostas são de tipo explicativo que gostaríamos ouvir sobre a questão da dor
humana, hoje absolutamente ultrapassadas, mas o que importa é a sabedoria de
suas reflexões.
A ciência avança a cada dia. Não teria sentido hoje
estudar a ótica na obra de Newton, mesmo que ele tenha sido um de seus
fundadores, pois sua obra está hoje cientificamente ultrapassada. Porém, nem
sempre avançamos diariamente em sabedoria, que não está no mesmo plano da
ciência. Hoje a humanidade continua vivendo da sabedoria de personagens como
Confucio, Buda, Sócrates, Jesus... Na realidade, não avançamos naquela
sabedoria fundamental adquirida faz três mil anos... Essa constatação nos
permite escutar e ler o livro de Jó.
Paulo, de maneira parecida a Jó, entra em uma
discussão acalorada com seus interlocutores da comunidade de Corinto. Grupos
contrários ao seu modo de pensar o criticam e questionam sua autoridade (v. 3).
Paulo responde fazendo uma defesa pessoal e radical de sua missão, e declara
sua absoluta liberdade frente a toda manipulação de poder humano.
Não se declara membro de um movimento ou
representante de alguma instituição, mas um homem “obrigado a cumprir uma
tarefa”. No império Romano era comum a prática do clientelismo, no qual o
benfeitor se convertia em patrão de quem recebia seus benefícios. O apóstolo
deseja deixar claro a pureza de sua mensagem. Ele não está se vendendo a
ninguém “cliente”, nem é moldado por nenhum interesse pessoal (v. 18-18).
Esta liberdade em Cristo, permite ao apóstolo ser um
servidor dos demais. Não teme moldar-se às condições de vida dos destinatários
de sua mensagem: judeus, seguidores da lei, rebeldes e fragilizados. Paulo
anuncia assim o Evangelho da liberdade, que não compactua com a rigidez, nem
faz o jogo de nenhum interesse particular ou sectário, mas que é capaz de
entrar em dialogo com a diferença e de chegar a “todas” as realidades humanas,
como uma Boa Noticia do amor de Deus.
Isto é precisamente o que faz Jesus no evangelho de
Marcos: entrar na vida das pessoas, ser um deles em seu cotidiano. No domingo
passado vimos Jesus curando um endemoninhado. Hoje o acompanhamos com Simão e
André na casa de Pedro. A casa, o lugar íntimo onde se partilha o teto e a
mesa. Aí se encontra com uma anciã doente, a sogra de Pedro. Jesus se aproxima,
toma-a pela mão e ela se levanta. Um gesto simples: aproximar-se e tomar a
pessoa pela mão faz o milagre de recuperar a mulher. O melhor de tudo é a cura
não é somente da saúde, mas também a capacidade de servir. Ao entardecer,
muitos vieram buscá-lo, conforme relata o evangelista, pois Jesus continuava
curando.
Era comum na época de Jesus que os enfermos fossem
considerados malditos ou possessos por espíritos maus, rejeitados, excluídos.
Ninguém se atrevia aproximar-se deles. Jesus, ao contrario, se entrega com amor
e dedicação ao seu cuidado, fazendo-se servidor.
A prática da cura, a luta contra o mal, isto é, a
práxis libertadora do ser humano... é a prática habitual de Jesus. Tão
importante como fazer o bem, é evitar o mal, é lutar contra ele: dar a vida em
defesa da paz, saúde, bem-estar, felicidade... a todos os carentes dessas
realidades. Ser cristão é, entre outras muitas coisas, lutar contra o mal, não
ficar de braços cruzados ou ensimesmados nos próprios assuntos, quando vivemos
em um mundo com as cifras tenebrosas de pobreza e miséria que hoje padecemos.
“Anunciar hoje o Reino” não é questão somente de
palavras; exige simultaneamente compromisso. A “evangelização” hoje será como a
de Jesus. O “anuncio” da boa noticia não é simplesmente transmitir
informação... mas fazer, construir, lutar contra o mal; curar, reabilitar
os irmãos, colocar-se a seu serviço, acompanhar e dignificar a vida como
manifestação da mão criadora de Deus.
Neste Evangelho, mais uma vez, Jesus nos mostra a sua
ação libertadora. Onde está Jesus, lá está a felicidade, lá está a alegria. Sua
presença modifica o ambiente, tudo muda. Com Jesus ao nosso lado, sentimo-nos
fortes e protegidos.
Jesus sai da sinagoga, entra na casa do seu amigo e
cura a sogra de Pedro que estava acamada, com febre. Aquela que estava doente
foi curada e, para demonstrar sua alegria e gratidão, imediatamente começou a
servi-los.
Quantos exemplos encontramos no Evangelho de hoje.
Mostra que a oração está presente na vida de Jesus. Marcos inicia mostrando
Jesus saindo da sinagoga, onde, certamente, estava ensinando e orando. Jesus
quer nos mostrar que, também ele, encontra forças na oração para cumprir sua
missão.
Observe que Jesus não foi sozinho à sinagoga.
Convidou seus amigos Tiago e João para acompanhá-lo. Esse exemplo deve ser
seguido. Precisamos convidar e trazer todos nossos amigos para a casa do
Senhor.
Ao sair da sinagoga Jesus foi visitar Simão e André.
O enviado do Pai não fica parado, está sempre a procura das pessoas. Sabe como
é importante a presença amiga. Devia estar preocupado e se perguntando porque
esses seus amigos não teriam ido à sinagoga naquele dia?
Quando chegou, encontrou a sogra de Pedro acamada e com
febre. Aproximou-se, segurou sua mão e a curou. Esse gesto de Jesus é
totalmente contrário aos costumes da época. Tocar em uma mulher sã, já não era
normal, quanto mais doente. Qualquer judeu observante da lei teria se afastado
dela.
Mais um exemplo, mais uma lição. Além da compaixão
pelos enfermos, sem usar nenhuma palavra, Jesus deixou claro que não pode haver
discriminação e pede mudanças. Isto vale também para os dias de hoje. A mulher,
sempre marginalizada pela sociedade, tem direito a igualdade, dignidade e
respeito.
Outra lição aprendemos com a sogra de Pedro; assim
que sentiu-se curada, passou a servi-lo. Ela soube agradecer o benefício
recebido, imediatamente colocou-se a serviço. Quantas vezes recorremos a Deus.
Quantas curas alcançamos, quantas graças recebemos sem nunca nos lembrarmos de
agradecer.
Jesus andava por toda Galiléia, curando e expulsando
demônios. Pouco se importava com o número de habitantes. Pregava em todos os
lugares, em todas as aldeias. "É para isso que eu vim", dizia ele. Queria
mostrar que, por menor que seja o lugar, mesmo que lá habite uma só pessoa, o
evangelizador tem que se fazer presente.
Resumindo: Jesus acolhe a todos sem distinção de
sexo, raça ou cor. Seu carinho e atenção para com a mulher e com o enfermo são
claras demonstrações de amor e igualdade.
Levantar-se de madrugada para orar, é um recado
direto para quem quer segui-lo. Ninguém está dispensado de orar. A oração faz
parte da atividade apostólica. É ela que dá sentido e força para a ação
missionária.
Viu como é grande poder da oração? Por tudo isso,
vamos rezar para que nunca faltem boas notícias, como estas.
Jorge Lorente
“Passou fazendo o bem”
No dia em que o apóstolo Pedro batizou em Cesárea o
centurião Cornélio, no discurso que fez àquela pequena comunidade atenta e
comovida, disse a respeito de Jesus uma belíssima palavra: “Ele passou fazendo
o bem e curando a todos” (At. 10,38). O elogio é tão precioso, que já foi dito
que esse poderia ser o epitáfio para o sepulcro de Jesus, se Ele tivesse precisado
de epitáfio, e se o seu sepulcro não tivesse sido apenas o lugar de passagem em
que repousou o operário cansado, para acordar na manhã da Ressurreição.
Quando leio essa palavra de são Pedro nos Atos dos
Apóstolos, eu a ligo espontaneamente ao trecho de São Marcos – por sinal,
discípulo de são Pedro – que a Igreja faz ler neste domingo. Marcos, na
concisão característica do estilo do seu evangelho, nos mostra Jesus “fazendo o
bem e curando a todos” inclusive libertando os possessos do demônio. Foi em
Cafarnaum. Ao cair da tarde, já depois do sol posto de um dia de sábado.
Jesus acabara de curar a sogra de Pedro, com a leveza e a decisão de um gesto
cheio de poder. Ela estava prostrada na cama com febre. Levaram Jesus até ela.
Jesus simplesmente a tomou pela mão e a levantou. Completamente curada! Tanto
que ela se pôs a servir aos presentes com toda a simplicidade de uma
experimentada dona-de-casa. A notícia se espalhava rapidamente pela cidade. E,
então, de toda parte trouxeram doentes para que Jesus os curasse. Numa
expressão de evidente ampliação oriental, Marcos diz que “toda a cidade”
se reuniu ali. E se juntaram, apinhados junto à porta da casa de Pedro (cf. Mc.
1,29-34).
Devia ser impressionante ver aquela gente toda, com
seus doentes arrastando-se como podiam, apoiando-se nos outros e até
transportados em macas. E, à medida que as curas iam acontecendo, crescia o
favor e a alegria dos parentes e amigos.
E crescia o amor e a gratidão para com Jesus.
Queriam, até, que Ele ficasse mais tempo. Ele, porém, se retirou de madrugada
para rezar num lugar solitário, e depois seguiu para outros lugares da
Galiléia, para pregar sua palavra de vida eterna. Pois era essa a sua
missão.
Jesus é o Salvador. Veio tirar o pecado do mundo. E
veio livrar o homem das conseqüências do pecado como são as doenças e a morte.
Ele tem o compromisso antes de tudo com a vida. Com a vida presente e com a
vida futura. “Eu sou a Ressurreição e a vida” é como Ele declara (Jo 11,25).
Vivemos num mundo marcado por mil sinais de morte. Desde o aborto, até os
assaltos, os seqüestros, o submundo das drogas e de todas as indignidades. Sem
falar na pobreza e nas doenças e de todas as indignidades. Sem falar na pobreza
e nas doenças, que apressam o caminho da morte. A Igreja tem que ser um pouco
como essa porta da casa de são Pedro – que facilmente evoca a grande casa de
Pedro, que é a própria Igreja – aonde todos acorrem em busca de saúde e de
vida. E só pode ser abençoada por todos essa ampla ação da Igreja na área da
pastoral da saúde. É Cristo que passa “fazendo o bem a todos”. A consciência
disso poderá, até, levar muita gente a cumprir com mais amor e maior dedicação
sua missão de médico, de enfermeiro, de auxiliar de enfermagem, de assistente
social.
A determinados santos Deus dá o dom das curas
miraculosas, numa participação do poder taumatúrgico de Cristo. É como está no
final do Evangelho de são Marcos: “Em meu nome, expulsarão demônios... imporão
as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados” (Mc. 16,17-18). Como
aconteceu com Santo Antônio.
Mas, independentemente disso, a ação dos cristãos que
cuidam de seus enfermos, com carinho e dedicação, é como uma mensagem de vida
que se irradia de Cristo. “Assim como eu fiz, deveis fazer vós também”, disse o
Mestre no dia em que lavou os pés aos seus discípulos (Jo 13,15). Acontece,
até, muitas vezes, que a única experiência de presença de Deus que uma pessoa
sente em sua vida é o dia em que, prostrado no leito da enfermidade, em sua
enfermidade, recebe os cuidados de uma pessoa cheia de amor cristão. Nunca me
esqueço de um singelo episódio que li ainda no meu tempo de seminarista. Um
homem que estava hospitalizado com uma gravíssima enfermidade foi tratado com
toda a dedicação por uma religiosa enfermeira. A doença não o poupou. Mas, pouco
antes de morrer, pediu que a religiosa lhe estendesse a mão. Tomou-a e a beijou
respeitosamente, dizendo: estou beijando a mão de Deus! Era um reflexo da
caridade de Cristo, o Filho de Deus, que chegara até ele, através da dedicação
daquela irmã enfermeira.
padre Lucas de Paula
Almeida, CM
O sofrimento
A liturgia dominical procura sempre iluminar a nossa
vida nas mais diversas situações. Uma situação concreta que aflige o homem de
todos os tempos é o sofrimento.
Por que há no mundo tantas pessoas sofrendo? Ninguém
gosta de sofrer… mas o sofrimento existe: injustiças, guerras, calamidades,
pobreza, fome, discórdias, doenças…
Quem é o culpado? Seriam os nossos pecados? É um
castigo de Deus? Como explicar então os inocentes... o Cristo na cruz? Por que
Deus permite essas coisas sem intervir? Por que o justo também sofre e o
malvado parece estar em situação melhor?
Qual é o sentido do sofrimento e da dor?
As leituras bíblicas nos dão uma resposta...
Na 1ª leitura, vemos a experiência do sofrimento de
Jó (7,1-4.6-7). Jó é um homem justo e fiel ao Senhor. Possuía muitos bens e uma
família generosa. De repente, viu-se privado de todos os seus bens, perdeu a
família e foi atingido por uma doença grave. Essa triste situação provoca no
coração dolorido de Jó sentimentos de amargura e de revolta contra esse Deus
incompreensível. Até os amigos insinuam ser castigo de Deus… Jó lamenta sua
condição de sofredor, mas confia em Deus, pois tem a certeza de que só em Deus
pode encontrar esperança e o sentido para a sua existência.
A experiência de Jó no sofrimento é um modelo para
todos os que têm fé. Mesmo amaldiçoando seu próprio nascimento, Jó não
amaldiçoa Deus, pelo contrário, reconhece e louva sua sabedoria e suas obras na
criação: o abismo de seu sofrimento pessoal não lhe fecha os olhos para a
grandeza de Deus.
Diante do sofrimento, ou descobrimos o rosto
verdadeiro de Deus ou fazemos dele um monstro, que nos devora e inferniza a
nossa vida… Não nos esqueçamos: o sofrimento pode ser uma visita de Deus… E
quando entendermos isso, tudo fica muito diferente… "Não nascemos para
sofrer, mas o sofrimento nos faz crescer..."
Na 2ª leitura, a expressão "ai de mim se não
evangelizar" traduz o princípio fundamental da vida de são Paulo. (1Cor.
9,16-19.22-23)
No Evangelho, vemos Jesus diante do sofrimento (Mc.
1,29-39)
O texto narra uma jornada messiânica de Jesus, no
início de sua missão pública na Galiléia. Inicialmente, mostra o Messias
proclamando o Reino de Deus. A seguir, mostra a realidade do Reino atuando no
mundo como salvação e libertação, nas palavras e gestos de Jesus. Apresenta
Jesus agindo diante de uma multidão de sofredores: Ele aparece solidário à dor
dos homens e atento às suas necessidades.
Com a autoridade que lhe vem do Pai e em comunhão
total com o Pai, Jesus vence o mal e a dor que escravizam o homem e anuncia um
mundo novo de liberdade e de vida plena.
Sai da sinagoga e na casa de Pedro: aproxima-se da
sogra de Pedro… estende a mão… e a "levanta"… Ela retoma a vida
normal, acolhe e serve os hóspedes...
"Todos o procuram... Cura muitos doentes e
endemoniados"… "De madrugada, levanta-se e vai rezar, num lugar
deserto…": com a pregação: ilumina os espíritos, revela o amor de Deus,
leva as almas à fé, dá sentido à dor… e mostra o caminho da salvação.
Com os milagres: cura corpos enfermos… expulsa
demônios… Quer um mundo novo, sem qualquer forma de dor...
Com a oração: compreende o plano de Deus e aceita a
vontade do Pai… Só a verdadeira oração pode nos iluminar o sentido da dor…
O sofrimento continuará sempre sendo um mistério…
Jesus não elimina o sofrimento, mas nos ensina a carregá-lo com amor e
esperança, para que dê frutos de vida eterna… Jesus nos garante de que Deus
nunca nos abandona… Resta-nos confiar em Deus e entregar-nos em seu amor.
Os cristãos não descobriram o caminho para evitar o
sofrimento. Sofrem como os outros e, às vezes, até mais do que os outros, mas
descobriram que a Cruz de Jesus Cristo é redentora.
Carregar a cruz sozinhos é desesperador… Mas unidos a
Cristo, todo sofrimento é salvador, inclusive o nosso…
Qual é a nossa atitude diante dos nossos sofrimentos?
- de aceitação... ou de revolta? (Jesus: no
Getsêmani... no Pai Nosso...) "Ninguém nasceu para sofrer, mas a dor nos
faz crescer..." Qual é a nossa atitude diante do sofrimento dos outros?
- Estendemos a mão e ajudamos a se libertar?
No dia 11 de fevereiro, celebramos o dia mundial do
enfermo.
"Levanta-te e vai, a tua fé te salvou" (Lc.
17,19 : Lema de 2012).
Como podemos ajudar concretamente os doentes de nossa
comunidade?Valorizamos o trabalho da pastoral da saúde?
Rezemos para que Deus nos dê muita luz para
compreender o mistério do sofrimento e muita coragem para carregá-lo com amor.
padre Antônio Geraldo
Dalla Costa
O poder de Jesus
sobre as doenças
Inúmeras passagens dos Evangelhos
mostram que Cristo, como divino taumaturgo, curou as mais variadas doenças,
estando continuamente junto dos que padeciam alguma moléstia. Durante seu
profícuo ministério Ele encontrou por toda parte enfermos em seu
caminho. Assim aconteceu em Cafarnaum com a sogra de são Pedro, acamada
com febre sendo que depois Ele curou naquela cidade “muitas pessoas de diversas
doenças” (Mc. 1,30.34). Movido de compaixão Ele restituiu a saúde aos que dele
se aproximavam com e profunda fé. Esta virtude era inclusive uma exigência que
fazia. A dois cegos que lhe pediam a cura ele disse: “Faça-se-vos segundo a
vossa fé (Mt. 9,28). Sua força divina era colocada a serviço dos que jaziam
presos em terríveis enfermidades. A doença é sempre o sinal do estado em que se
encontra o homem após o pecado original.
Enquanto durar o mundo atual a
humanidade tem que carregar as conseqüências de sua rebelião contra o seu
Criador. O estado de perfeição só se dará lá no céu. Tendo assumido a natureza
humana, Jesus se identificou com os sofredores: “Estive doente e me visitaste”.
Este cuidado com os padecentes é, aliás, uma das condições
para se entrar no Reino dos eleitos (Mt. 25,36). Servir os doentes é
servir ao próprio Cristo em seus membros que padecem. O enfermo é então a
imagem e o símbolo do próprio Filho de Deus que quis conhecer nesta terra as
misérias humanas, não apenas as corporais como, outrossim, as do espírito, como
aconteceu na sua agonia no Horto das Oliveiras e no alto da Cruz. Como
profetizou Isaías eram nossos males que Ele suportou (Is. 53,4). Como Redentor
da humanidade Ele passou “fazendo o bem e curando todos os que estavam no poder
do diabo” (Atos 10,38). Ele era o médico do corpo e da alma e mostrou que com
sua Paixão e Morte daria um novo sentido às dores humanas, conferindo-lhes um
valor de redenção, de purificação. São Paulo compreendeu isto
magnificamente e disse aos Coríntios: “Trazemos em nosso corpo os sofrimentos
mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor.
4,10).
Neste sentido o Apóstolo
mostrava aos colossenses que cumpre ao cristão “completar na sua carne o
que falta aos sofrimentos de Cristo por seu corpo, que é a Igreja”. Embora se
deva lutar contra a doença, valorizando o dom da vida, evitando tudo que possa
prejudicar a saúde, quem passa por alguma moléstia deve se integrar no
processo da auto-salvação, suportando-a em reparação das próprias faltas
e das iniqüidades que se cometem mundo afora. É necessário sempre esperar o
momento em que Deus irá atender as súplicas e restituir a saúde. Na cura
da sogra de são Pedro é de se observar que quem obtém a cura de sua doença deve
se entregar ainda mais fielmente a suas tarefas diárias. Com efeito, são Marcos
destaca que imediatamente aquela senhora se reintegrou a suas tarefas
familiares, manifestando sua gratidão exatamente no serviço de quantos estavam
naquela casa. A um miraculado, que desejava segui-lo, Ele disse: “Vai para tua
casa, para os teus e narra-lhes tudo que o Senhor fez por ti e como se compadeceu
de ti. Ele partiu e começou a apregoar na Decápole as grandes coisas que Jesus
lhe tinha feito, e todos ficavam maravilhados” (Mc. 5,19-23) O melhor hino de
ação de graças é, de fato, o cumprimento do dever nas tarefas que Deus destinou
a cada um. Nem se pode esquecer que o tema “Fraternidade e saúde pública”
com o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra.” (Eclo. 38,8) será
refletido na Campanha da Fraternidade deste ano e recordará assim, ainda uma
vez, o poder de Jesus sobre as doenças e a responsabilidade de cada um
perante os que sofrem, sobretudo os familiares.
O Médico divino conta com cada
um de nós não apenas para que com confiança nele vençamos a doença, mas também
ajudemos a todos que sofrem, levando-lhes auxílio espiritual e material. Uma
das melhores contribuições para com os necessitados é ajudar, a quem precisa, a
comprar os remédios prescritos pelos médicos. Jesus espera também que
proclamemos por toda parte as maravilhas que ele opera em nossas vidas e isto
como um ato de agradecimento.
cônego José
Geraldo Vidigal de Carvalho
Tristezas não pagam dívidas. É o que resulta da
mensagem da Palavra de Deus para este domingo. O impulso de Jesus no Evangelho
é sintomático: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar
aí também, porque foi para isso que Eu vim». Temos de redescobrir a urgência da
missão, a qual não se identifica com o proselitismo, constrangendo os outros a
adotar o nosso modo de pensar e de ver, nem se reduz a uma mera inculturação do
Evangelho, mas que antes é uma encarnação da Palavra de Deus na multiplicidade
de condições humanas, línguas e costumes das pessoas que se vão encontrando.
Sempre com muita alegria e entusiasmo.
A exclamação Paulina «Ai de mim se eu não anunciar o
evangelho», é igualmente válida para todo aquele que, sendo leigo, presbítero
ou bispo, recebeu das mãos da Igreja o Evangelho, esse mesmo Evangelho que deve
propagar como se difunde «o perfume de Cristo» (2Cor. 2,15) entre aqueles que
estão perto e os que estão longe.
Jesus não quer que acabemos por desvalorizar o
Evangelho que foi depositado em nós como «um tesouro, em vasos de barro» (2Cor.
4,7), mas quer antes que arrisquemos tudo para o fazer atrativo e útil ao
sentido da vida da humanidade inteira. Jesus Cristo em pessoa é o tesouro,
achado no meio do campo, pelo qual vale a pena vender quanto possuímos e somos,
a fim de o adquirir. Por ele somos chamados a considerar tudo como «lixo, a fim
de ganhar Cristo e nele encontrados» (Fl. 3,8-9). O Evangelho completa a sua
carreira com os pés cansados, cobertos de pó e não raro feridos, com os pés de
quem, como Paulo, «nada mais quis saber, a não ser Jesus Cristo e este
crucificado» (1Cor. 2,2).
Neste suspiro de São Paulo, todo o cristão se revê. O
Evangelho, é a grande Palavra para o cristão - qual terreno, onde se mostra o
tesouro Jesus Cristo - para ser depois apresentado por cada um de nós que já
alimentamos o sentido da vida com as pérolas do seu ensinamento.
A descoberta deste tesouro de alegria, de paz, de
amor e de plenitude, deve fazer de todos os cristãos, pessoas inquietas
enquanto a mensagem do Evangelho não chegar a todos os corações. Por isso,
façamos do desabafo de Paulo a nossa respiração e que todos possam dizer, não
sei viver neste mundo se não dou aos outros tudo o que Jesus já me deu. Esta
oferta pode, se nós quisermos, embelezar o nosso mundo e a vida toda.
padre José Luís Rodrigues
A cura da sogra de Pedro
“JESUS CURA E LIBERTA AS PESSOAS DE FORMA INTEGRAL”.
Estar com Jesus é estar com a salvação. Ele nos liberta
de todos os males, físicos e espirituais. Onde Jesus passava havia diversas
curas. A verdadeira cura é a nossa conversão ao essencial. É uma transformação
geral que acontece com toda a pessoa. Mais do que nosso físico corruptível
devemos ser curados no centro de nossa alma aonde o Senhor quer habitar. Quando
nos enchemos do Espírito Santo nos tornamos da mesma forma instrumentos de
salvação de nossos irmãos. Seremos felizes quando soubermos a razão de nossa
existência e vivermos de acordo com ela.
EVANGELHO (Mc. 01, 29-39):
Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com
Tiago e João, para a casa de Simão e André. A Sogra de Simão estava de cama,
com febre, e eles logo contaram a Jesus. E ele se aproximou, segurou sua mão e
ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos
pelo demônio. A cidade inteira se reuniu em frente da casa. Jesus curou muitas
pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os
demônios falassem, pois sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava
escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão e seus
companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos
estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da
redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. E andava por
toda a Galiléia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
“Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e
expulsou muitos demônios”.
A passagem de Jesus fazia que as pessoas ficassem
curadas. Não só de um mal físico, mas especialmente de um mal espiritual. O
reinado de Deus leva as pessoas a uma paz interior capaz de curá-las de todos
os males. A verdadeira cura acontece em todas as dimensões da pessoa
especialmente quando ela descobre o sentido de sua vida. Percebemos muitas
pessoas afastadas delas mesmas vivendo uma vida de angústia e sofrimento.
Quando o homem se afasta da presença de Deus ele se afasta de sua própria
felicidade. Somos desafiados a crescermos em todas as dimensões de nossa vida.
Jesus nos apresenta uma libertação em todos os níveis numa profunda experiência
do amor de Deus que nunca se afasta de nós por sermos suas criaturas e pela
consagração batismal que qualifica esta realidade.
Somos criados conforme a imagem de Deus. O nosso
criador está muito acima de nós. Tudo faz parte de um grande mistério. Por esta
razão é muito difícil de nós nos conhecermos e nos entendermos numa dimensão
mais profunda. As curas que Jesus realizava faziam que as pessoas vivessem uma
nova dimensão. Não há cura sem conversão. Se vivermos uma total entrega numa
amizade profunda com Jesus teremos também nós a experiência de sermos curados,
pois todos somos enfermos pela presença do pecado no mundo.
É interessante de se observar como Jesus segura na
mão da sogra de Pedro e ela se levanta e se põe a servir. O toque de Jesus é
curativo porque Deus é o autor da vida. O poder divino de Jesus transforma
todas as coisas em novas. Quando Ele nos toca nos transforma, nos capacita para
vivermos uma vida nova cheia de alegria e paz. O fato de esta mulher sair e se
por a serviço nos indica que a experiência de amor com Cristo nos leva a uma
ação que não é mais vazia. A verdadeira evangelização é fruto de amor. Não é
fruto de uma teoria vazia. Não adianta pensar e falar sem amar, pois é o amor
que vai fazer a diferença em nossa vida.
Hoje temos muitas religiões do imediatismo que se
utilizam de Cristo para seus próprios benefícios. É cultuado o “deus dos
consolos” e não os “consolos de Deus” que passam pela cruz e pelo sacrifício
oferecido. Quando esquecemos o valor da doação e do oferecimento começamos a
pensar em nós mesmos. Estas religiões servem mais para um crescimento econômico
dos pregadores do que para solucionar na raiz o problema existencial das
pessoas. Oferecem soluções imediatas para problemas que tem grande
profundidade. Normalmente os que abandonam a Igreja são pessoas fracas na fé
que tem um nível cultural e espiritual insuficiente e com uma afetividade
desajustada. Temos três grandes tesouros que jamais podemos abandonar pela
pregação de qualquer pessoa que são a Palavra de Deus, a Eucaristia e a Devoção
a Maria como intercessora e modelo de obediência a Deus. Tudo que fere estes
grandes tesouros não vem de Deus.
Sem a fé com base no evangelho não poderemos entender
o sentido do sofrimento que faz parte de nossa existência limitada em
preparação para a eternidade onde estas características não terão mais
influência sobre nós. Quando aprendemos o sentido da negação de nós mesmos, o
despojamento de nosso egoísmo vamos aceitando a realidade de nossa vida e
vencendo o imediatismo, o relativismo e o individualismo.
O que adiantaria sermos curados fisicamente se nossos
sentimentos e nossa entrega a Deus não são curados? O que adianta termos tanta
prosperidade se não nos amamos e somos solidários? Nesta crise de
relacionamento que estamos vivendo precisamos recorrer ao que realmente pode
nos ajudar. Precisamos buscar em Cristo, o verdadeiro amigo, uma vida de
conversão e mudança em busca do essencial.
“Curai Senhor Jesus o nosso coração de todo
fechamento ao vosso infinito amor”.
padre Giribone -
OMIVICAPE
Saiu para um lugar deserto… (Mc.
1,29-39)
Imerso em intensa vida missionária, Jesus acha tempo
para rezar. Sujeito a intensa pressão, solicitado pela multidão, dividido entre
amigos (os discípulos), inimigos (fariseus, saduceus, homens do Templo) e
necessitados (cegos, surdos, paralíticos, enfermos…), Jesus procura o Pai no
silêncio.
Bastaria o exemplo do Mestre para que não caíssemos
na armadilha de uma vida hiperativa sem o correspondente equilíbrio da vida
orante. Na prática, porém, quantos fracassos devidos ao excesso de confiança em
si mesmo e à falta de apoio na graça de Deus! De modo geral, a figura de um
fiel dedicado à oração – exatamente porque conta acima de tudo com as luzes e
as forças de Deus – costuma ser tomada como imagem de fuga do mundo,
descompromisso com a realidade ou, na expressão marxista assimilada pelos
cristãos, “alienação”.
Traço típico da civilização ocidental, onde louvamos
a eficiência e a produtividade, a ênfase na ação deriva de uma visão otimista
de nós mesmos e da aposta quase exclusiva no resultado de nossas atividades. Um
mestre do Oriente diria que nos falta uma dose de humildade…
Gerhard Tersteegen [1697-1769] reflete sobre este
equilíbrio necessário:
“Se alguém é verdadeiramente chamado e enviado pelo
Salvador para o serviço e o despertar do próximo, a vida ativa deve permanecer
sempre submissa à vida contemplativa, e esta última deve permanecer como sua
preocupação mais importante.
Quero dizer que esses discípulos não deveriam dedicar
todo o tempo a agir, sair e falar, mas que também é necessário a tais apóstolos
reunir-se frequentemente junto a Jesus para com ele se entreter e repousar um
pouco em um local deserto (cf. Mc 6,30-31). Isto permite que o serviço da
Palavra permaneça sempre ligado à perseverança na oração (cf. At 6,4) e a ela
subordinado.
De modo geral, aliás, eles jamais deveriam
entregar-se desmedidamente às relações e ao trabalho com o próximo, sob o risco
de negligenciar a vigilância sobre si mesmos, ou deixá-la em segundo plano
diante do ensinamento, e poderia ocorrer que, depois de terem pregado aos outros,
sejam eles mesmos desqualificados (cf. 1Cor 9,27).”
Em plena agonia, sabendo que chegara sua hora
extrema, Jesus convida os apóstolos a acompanhá-lo na oração. Pouco depois, ele
volta e os encontra adormecidos. Ainda ressoa em nossos ouvidos a sua queixa
dolorida: “Não pudestes vigiar uma hora comigo?!” (Mc 14,37) E advertiu seus
seguidores: “Levantai-vos e orai para não cairdes em tentação”. (Lc 22,46)
Orai sem cessar: “Minha alma aguarda pelo Senhor mais
que as sentinelas pela aurora.” (Sl. 130,6)
Antônio Carlos Santini
“(…) A centralidade da missão de Jesus encontra-se na
revelação do Reino de Deus, de modo que para ele é mais importante a pregação
do que a realização de curas e outros tipos de milagres. Os milagres estão
relacionados com a revelação, pois explicitam o conteúdo principal da pregação
de Jesus que é o amor que Deus tem por todos nós e o bem que ele concede a nós
como manifestação desse amor. Sendo assim, o mais importante não é o milagre em
si, mas a revelação que ele traz junto de si:
Deus ama a todos nós com amor eterno e tudo faz pela
nossa felicidade, e isso deve ser anunciado a todos os povos”. (CNBB)
No Evangelho, segundo São Marcos, a primeira cura
realizada por Jesus é a expulsão de um espírito impuro de um homem que está sob
o domínio de escribas e da sinagoga de Cafarnaum, cidade onde Jesus foi morar,
ao iniciar sua missão (Mc. 1,21-28).
A lei imposta pelos escribas na sinagoga e no templo,
além de ser um peso na vida das pessoas (Mt 23,1-4; Lc. 13,10-17), impedia que
se pensasse e agisse orientado pelo Espírito de Deus.
Nas palavras de Paulo, “a letra mata, o Espírito é
que dá a vida” (2Cor 3,6). Por isso, Jesus salva as pessoas dessa força
demoníaca que cria dependência e não liberta.
Convém lembrar que, mais do que freqüentar o templo,
Jesus prefere as casas, prefere o encontro com povo nos caminhos. Ali, todas as
pessoas têm acesso ao encontro com Deus. No templo, só podiam entrar os
sacerdotes. “Logo depois, Jesus, Simão, André, Tiago e João saíram da sinagoga
e foram até a casa de Simão e de André.” (v. 29).
Esta narrativa relata a segunda cura de Jesus,
conforme Marcos. Agora, é a sogra de Simão que está doente (v. 30). Logo
que soube, dirigiu-se à cama em que ela estava.
Três coisas chamam a atenção:
1) “Ele chegou perto dela” (v. 31). Mais que procurar
quem é o próximo, Jesus se torna próximo.
2) “segurou a mão dela”, Jesus faz algo fundamental
para quem trabalha com pessoas doentes e com quem está na exclusão. Valorizando
o toque, o abraço, Jesus valoriza sobremodo as pessoas debilitadas.
3) Jesus “ajudou-a s se levantar”. Enquanto estava
deitada, essa mulher não podia ser sujeito com agir próprio pois dependia de
outras pessoas. Colocá-la em pé faz dela uma “diácona”, uma pessoa livre para
servir. “e ela começou a cuidar deles”.
Convém lembrar, também, que, se em Marcos a primeira
pessoa curada foi um homem (Mc 1,21-28), a segunda foi uma mulher. Jesus
tratava as mulheres com a mesma dignidade com que se relacionava com os homens.
Assim como tinha discípulos, tinha também discípulas.
Quando Marcos menciona as mulheres que foram com ele
até a cruz, cita Maria Madalena, Maria e Salomé, além de muitas outras mulheres
que o seguiam, serviam e subiram com ele para Jerusalém como verdadeiras
discípulas (Mc. 15,40-41).
E o que nos resta senão também colocar-nos em pé e,
com a força do Espírito de Jesus ressuscitado, tornar-nos pessoas livres para
servir?
Para concluir: Naquele dia, depois do pôr do sol e
junto à porta da casa de Simão e de André, Jesus ainda curou muitas pessoas
enfermas e expulsou demônios, isto é, forças contrárias a Deus e que diminuem a
vida de quem está sob seu domínio.
As duas curas realizadas anteriormente, a do homem
possesso e a da mulher enferma, são símbolos de toda prática libertadora de
Jesus. E é prática que não para. Mesmo o sol já posto, Jesus continua
libertando pessoas enfermas e endemoninhas.
A proibição de “falar, pois sabiam quem ele era” (Mc
1,34) faz parte da intenção teológica de Marcos. Ele quer evitar a idéia de
Jesus como um messias triunfalista, para reforçar a fé em Jesus como o ungido
pelo Espírito de Deus (Mc 1,10) que vence, aos poucos e de forma humilde como o
servo sofredor, as forças contrárias ao espírito do Reino. Por isso, Marcos
apresenta Jesus insistindo em que não se divulgue o seu messianismo aos quatro
ventos.
A proibição se estende aos demônios (Mc. 1,25.34;
3,12), às pessoas curadas (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e a seus apóstolos (Mc.
8,30; 9,9), reservando essa revelação somente para o momento da cruz e pela
boca de um estrangeiro: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc. 15,39).
Depois de um dia de atividades salvadoras e que vão
noite adentro, Jesus descansa para estar com as energias renovadas para mais um
dia de serviço à vida. Mas não basta novo vigor físico. Algo mais profundo é
necessário.
Por isso, ainda de madrugada, Jesus se retira para um
lugar deserto e ali cultiva sua íntima comunhão com o Pai, o Deus libertador do
Êxodo. É que vai ao deserto, lugar por onde Deus guiou seu povo para a
liberdade e “lá, ele orava” (Mc 1,35).
A comunhão com o Pai é o segredo da força de Jesus na
solidariedade com as pessoas mais desprezadas de sua época, entre elas as
doentes e as possessas por todas as forças de alienação e que não permitem que
sejam sujeitos de suas vidas.
A intimidade com o Pai, essa espiritualidade de
comunhão profunda com o sagrado, faz de Jesus uma pessoa radicalmente livre.
A oração é a fonte onde Jesus bebe do mais puro
Espírito que sustenta sua ação emancipadora junto às pessoas em estado de dependência,
seja em relação às enfermidades, seja em relação às forças que nos alienam,
impedindo-nos de sermos filhas e filhos livres e com dignidade.
Reflexão Apostólica:
A metodologia e andragogia (forma de ensinar adultos)
são bem nítidas no evangelho de hoje. Pergunte-se: quantas vezes ao lê-lo
apenas vi o milagre sobre a febre da sogra de Pedro, mas passou despercebido o
processo para obtenção da graça?
Um parêntese importante: VEMOS O QUEREMOS QUE SEJA
VISTO. Esse fato é muito comum. Sei que isso vai além de uma simples
organização das informações por nosso cérebro, às vezes conscientemente ou não,
abandonamos outras informações para selecionamos o que desejamos ver, ouvir e
até ler. Isso é muito importante ao se ler a bíblia, ok? Lembre-se: A bíblia
não é aquele livro MINUTOS DE SABEDORIA…
Voltando… Repare nas linhas desse evangelho a suave e
bem conduzida metodologia de Jesus: Ele CHEGOU PERTO , SEGUROU A MÃO dela e
AJUDOU-A A SE LEVANTAR. A FEBRE SAIU da mulher, e ELA COMEÇOU A CUIDAR DELES.
De fato, Jesus se aproxima, nos segura pela mão,
ajuda-nos a levantar então a redenção acontece, a febre, o desanimo, o temor
partem e de certa forma a pessoa resgatada passa a entender (caem as escamas
dos olhos) que passou a ter um compromisso para que outros também se ergam.
Como ler isso e não sentir-se amado e também um pouco
de pesar pela nossa ingratidão? Quantas pessoas, bem definidas por São Tiago,
pedem mal, andam pelo mundo doentes, cabisbaixos, repletos de vaidades,
orgulhos e de cobiça, debulhando-se em crendices e falsa fé (…); não querem
entender que Jesus primeiro oferece a mão para vê-los de pé, mas se vêem
interessados somente pela cura da febre, o carro novo, o apartamento novo…
Como poderemos sustentar a carga que o mundo nos
oferece se estivermos debilitados pela doença que nos paralisa e vicia chamada
ganância, orgulho, vaidade? O que adianta mudar por fora, se rodear de bens
visíveis e ostentáveis se vivo aquela música do Moacir Franco que diz: “SE POR
DENTRO EU NÃO MUDO”?
Muitos não conseguem ver que são a grande prioridade
para Deus e o Senhor bem sabe o que cada um precisa. Outros, porém perderam um
pouco o zelo, esquecem que para continuar avançando precisam dessa aproximação
de Jesus em suas vidas. Esse é um fato comum após quinze ou vinte anos a frente
de uma obra, de uma pastoral, de um movimento. Parece que alguns estão no
automático.
Outros, porém ainda não conseguem ver ou sentir o
vinculo que temos ou precisamos ter com os outros. Talvez não tenham culpa de
verem a vida dessa maneira, pois assim foram criados e acostumados, no entanto
uma boa parcela deles vive assim de vontade própria e conscientemente.
Odeiam regras, não se adaptam a sistemas de trabalho
onde não podem impor suas regras; tentam transformar o pensamento das pessoas para
de certa forma atende-las; são inteligentes e sabem manipular as pessoas pela
emoção.
Santo Agostinho tem uma frase muito interessante
sobre isso: “DOIS HOMENS OLHARAM ATRAVÉS DAS GRADES DA PRISÃO. UM VIU A LAMA, O
OUTRO AS ESTRELAS”.
Algumas pessoas têm maior facilidade de reerguer-se,
de compreender, de acatar, pois sua fé em Deus a nutre dia-a-dia; outras, porém
se apegam em coisas materiais, no sofrimento e em futilidades
A cura não vem para aquele que mantém o coração
fechado ao passo a passo de Deus. João Paulo II disse certa vez: “A PIOR DAS
PRISÕES É UM CORAÇÃO FECHADO”.
Vemos algumas delas em nossas comunidades, no
trabalho, na faculdade, em cargos de liderança ou de grande influencia. Por ter
seu mundo seus próprios umbigos talvez inconscientemente também façam de Deus
alguém que deva agradá-los, pois são capazes de trocar de paróquia (de bairro
para outro) ou credo (católicos que se tornam evangélicos ou vice – versa) como
se trocassem de roupa se forem contestadas ou não contempladas.
Uma coisa é certa… Elas pedem muito. E como pedem. E
depois, será que fazem?
Como bem vimos, a fase inicial da graça é a
aproximação de Jesus para nos estender a mão e nos ver levantar. Precisamos
deixar nossa vida nas mãos de Deus, pois de fato Ele sabe o que precisamos.
Pedir sim, mas assumindo nossa parte após a redenção. Como propôs a CNBB “(…) o
mais importante não é o milagre em si, mas a revelação que ele traz junto de
si”.
Reflitamos esse pensamento: “(…) Animados deste
espírito de fé, conforme está escrito: Eu cri, por isto falei (Sl. 115,1),
também NÓS CREMOS, E POR ISSO FALAMOS, pois sabemos que aquele que ressuscitou
o Senhor Jesus, nos ressuscitará também a nós com Jesus e nos fará comparecer
diante dele convosco. E tudo isso se faz por vossa causa, para que a graça se
torne copiosa entre muitos e redunde o sentimento de gratidão, para glória de
Deus “. (II Cor. 4, 14-15)
Se realmente creio, levanto.
Propósito:
Senhor Jesus, eu te procuro com sinceridade, na
certeza de encontrar, em ti, palavras que façam reviver a esperança no meu
coração.
Sidnei Walter John
“Pregar o evangelho que cura”
A vida do homem é uma luta
Jesus inicia a pregação do Evangelho para a salvação
integral do corpo e da alma como uma unidade. Outra dimensão clara da missão de
Jesus é a transformação do coração para servir tanto ao anúncio como à cura dos
males que afligem o ser humano. A leitura do livro de Jó reflete a condição
humana à qual Jesus se dirige. Assumiu essa condição, por isso sabia onde
estava a dor das pessoas. Jó descreve essa angústia existencial de sofrimento,
de cansaço, de dor, de carência e de desencanto. Diz “os meus dias correm mais
rápido do que a lançadeira do tear” (Jo 7,6). A lançadeira ou canoinha é o
instrumento que, no tear, trabalha com a linha que faz o trançado do tecido.
Além do mais, Jó não vislumbrava futuro. Jesus, tendo essa situação diante dos
olhos e no coração, veio como médico para sanar todas as dores. Sua pregação se
faz através das palavras que curam os corações e seus gestos que curam os
corpos. É bonito imaginar esta cena: “À tarde, depois do por do sol, levaram a
Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio… Jesus curou muitas pessoas
de diversas doenças e expulsou muitos demônios” (Mc 1,32.34). As pessoas
atribuíam as doenças à possessão diabólica. É diferente da possessão diabólica
que entendemos. Por estar desligada da vida do povo, podemos perceber como a
pregação que fazemos não tem o efeito que pretendemos. Privilegia somente o
intelectual. Por isso não cala nos corações. Jesus falava mais através dos
gestos concretos. Não se trata de fazer milagres ou expulsar demônios, mas
criar situações nas quais as pessoas possam se libertar dos males que sofrem. O
carinho de Jesus pelas populações vem do conhecimento que tem de sua vida, pois
a vivia. Sabemos que a Igreja corre o risco de descuidar-se do o povo,
deixando-o a sua sorte. Depois reclamamos das saídas das pessoas para outras
igrejas.
Pelo Evangelho, faço tudo
Paulo, seguidor apaixonado de Jesus, tinha o anúncio
do Evangelho como sua missão e sua vida. Se não tivermos essa loucura pelo
Evangelho, seremos inócuos no anúncio. Ele descreve que pregar o evangelho se
tornou para ele uma segunda natureza: “Pregar o Evangelho não é para mim motivo
de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu ao
pregar o Evangelho” (16). Sente-o como um encargo que lhe foi confiado. O salário
de Paulo é o direito de anunciar sem receber paga sem usar os direitos que o
evangelho lhe dá (1Cor 9,18). Paulo acompanha o modo de ser e viver de Jesus,
vivendo no meio do povo, tornando-se escravo de todos… com os fracos, eu me fiz
fraco para ganhar os fracos, Com todos eu me fiz tudo, para certamente salvar
alguns. Por causa do Evangelho eu faço tudo, para ter parte nele (18). E Jesus
andava por toda a Galiléia pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
A serviço do Evangelho
A cura da sogra de Pedro é uma explicação do
resultado da obra apostólica: Jesus saiu da sinagoga e foi para a casa de
Pedro. A sogra estava doente e contaram a Jesus. Ele a tomou pela mão e ela
começou a servi-los. É a transformação radical da pessoa, sair de si e servir.
Paulo se põe a serviço, fazendo-se escravo de todos. Outro grande serviço é a
oração, como Jesus que sempre se encontrava com o Pai. Sem o relacionamento com
o Pai se perde a dimensão maior da evangelização. Por isso a importância da
oração, sobretudo na comunidade. Pregador sem Deus prega a si mesmo e não toca
os corações. O grande drama da pregação é a falta de coerência, isto é,
santidade.
Jesus inicia sua pregação do Evangelho para a
salvação integral, corpo e alma. Transforma o coração para servir no anúncio e
na cura dos males. Jó apresenta a situação do homem. Jesus assume essa condição
para curá-la. Cura pela palavra e pelo milagre. Perdemos a força evangelizadora
quando deixamos o povo.
Paulo tem o Evangelho como vida e missão. Não o faz
por lucro, mas serve como escravo. Faz-se fraco com os fracos, como Jesus.
A cura da sogra de Pedro exemplifica a pregação de
Jesus. Cura para colocar-se a serviço. Um serviço fundamental de Jesus e nosso
é a oração. Sem a oração perde-se a condição de evangelização.
Médico sem jaleco
Jó nos diz que a vida não é fácil. A vida é um sopro.
Há momentos em que nos desanimamos. Aqui então aparece o médico que buscamos.
Ele não usa jaleco.
Marcos narra os milagres de Jesus. Não é para fazer
bonito. Ele nos mostra que com eles vence o mal, não só do corpo.
As curas que Jesus faz têm uma finalidade, como
podemos ver na cura da sogra. Ela estava com febre. Ele a tomou pela mão e a
febre desapareceu. E ela se pôs a servi-los Dizer-se curado é por-se a serviço.
As curas que fazia eram para que as pessoas se pusessem a serviço. Hoje muitos
são curados e não aprendem a por-se a serviço.
De onde Jesus tira sua energia? A sintonia de Jesus
com o Pai está em sua oração constante. Por isso sua obra apostólica vai para
muitos lugares. Vejamos como a falta de oração nos faz tão fracos na fé e no
serviço.
Jesus abriu os olhos de Paulo para a fé. Sente que é
uma obrigação sua a evangelização. Evangelização não é elenco de doutrinas, mas
a união de sua vida com todos: Por causa do Evangelho eu faço tudo para ter
parte nele.
É preciso pegar o jaleco de Jesus.
padre Luiz Carlos de
Oliveira
Somos libertados e salvos para
servir
Jesus se encontra na sua missão na Galiléia(Mc
1,14-3,6), especificamente em Cafarnaum (Mc 1,21-39). Podemos dividir o texto
em algumas partes. A primeira parte(vv.29-31) relata a cura da febre da sogra
de Simão que é considerada como o segundo milagre de Jesus no Evangelho de
Marcos. A segunda parte(vv.32-34) apresenta um sumário da atividade de Jesus na
tarde do primeiro dia. A terceira parte(vv.35-39) fala da conclusão da
atividade de Jesus em Cafarnaum com alguns pequenos detalhes da mesma.
1. A Cura Da Febre Da Sogra De Simão
(vv.29-31)
Depois da cura do endemoninhado na Sinagoga de
Cafarnaum (veja o 4º Domingo) que é o primeiro milagre de Jesus segundo Marcos,
o evangelista narra como o segundo milagre, no fim do primeiro dia de atividade
de Jesus, a cura da febre da sogra de Simão na intimidade de uma casa (não mais
na sinagoga). Isto nos mostra que Jesus é o libertador tanto para o ambiente
oficial (sinagoga, onde se encontra o endemoninhado) como para os ambientes
privados (casa, onde se encontra a sogra de Simão).
A casa onde acontece a cura da sogra de Simão não
significa apenas como lugar de moradia ou centro produtivo (onde se fabrica o
pão, o azeite, o vinho, manteiga, queijo etc.), mas principalmente, neste caso,
como símbolo de um novo sistema de relações de convivência oposto ao espaço
oficial simbolizado pela sinagoga. A casa, aqui, simboliza um sistema de
convivência alternativa, onde as pessoas têm posse de sua própria vida, e onde
existem relações imediatas sem nenhuma formalidade, pois todos se sentem à
vontade, e em casa todos têm o domínio sobre o próprio espaço. Em casa
ninguém é chamado pelo título, mas pelo nome. Em casa cada um é gente e não um
número. Neste ambiente é que Jesus curou a febre da sogra de Pedro.
Para os antigos, as doenças e principalmente a febre
eram obra do demônio ou de origem demoníaca (cf. Lc 13,11-16), que suga a saúde
das pessoas que resulta na diminuição da capacidade de viver e de usufruir a
vida na sua plenitude (“está de cama”, prostrada). Por isso, Jesus expulsa a
febre como se expulsasse o demônio (cf. Lc 4,39), o mesmo termo que se usa em
Mc 1,25. No v. 31 diz-se que “a febre a deixou”. É uma frase que poderia ser
entendida como “o demônio da febre foi embora”. A “febre” se considera como se
fosse uma entidade.
No relato da cura não se narra gestos mágicos de
Jesus como ordenar a saída do demônio (cf. Mc 1,25). Jesus se mostra, aqui,
solidário com a humanidade sofrida: ele se aproxima, abaixa-se, tomar a mão da
mulher e fazê-la levantar-se. A força da solidariedade sempre causa o
reerguimento de quem estiver prostrado sobre o peso de problemas da vida.
O relato sublinha também o uso de determinados termos
que para Marcos têm significado próprio, como “tomar pela mão” e “fazer
levantar”. Estas duas expressões são usadas em cenas de ressurreição. O termo
“levantar-se” ”(o verbo em grego “egeiro”, “levantar” também significa
“ressurgir da morte”, cf. Mc 14,28; 12,26) aparecerá também na cura do
paralítico (Mc 2,9-11) e na do cego de Jericó (Mc 10,49). E o mesmo termo será
usado no anúncio da ressurreição do próprio Jesus (cf. Mc 16,6). Em outras
palavras, o gesto de Jesus de levantar a sogra de Simão antecipa a vitória de
Jesus sobre a morte e antecipa, consequentemente, nossa ressurreição vista no
reerguimento da sogra de Pedro. A expressão “tomar pela mão” também tem um
significado como um gesto típico da salvação de Deus quando resolve levantar o
seu povo abatido, isto é, ressuscitá-lo de uma situação mortal (cf. Is
41,13;42,6;45,1;Sl 73,23-24).
Jesus ajuda a sogra de Simão a se levantar que a
impedia de servir, pois, de fato, logo depois, “ela se pôs a servi-los”
(v.31b). Isto significa que a sogra de Simão, mulher ressuscitada, vai começar
a fazer parte da casa de Jesus ou do grupo dos seus discípulos cuja missão
principal é servir para salvar; servir para que outro viva. Aqui a sogra de
Simão que foi curada representa todos os pequeninos levantados por Jesus (a
mulher era desvalorizada) e aqueles que são prontos para servir os outros.
Seguir Jesus, neste sentido, significa servir e não
dominar nem alienar. O Reino de Deus é, certamente, caracterizado por um amor
serviçal. O serviço é a atitude característica de quem segue Jesus. Cada pessoa
é levantada por Jesus para se integrar à comunidade de servidores. O serviço
constitui a identidade cristã (cf. Rm 12,9-13;Gl 5,13;Fl 2,5-7;Ef 5,21). E
Jesus vai educando ou ensinando os discípulos lentamente a viver esse novo
caminho de vida, isto é, SERVIR (cf. Mc 9,35;10,43-45). E o próprio Jesus se
propõe como modelo de servir os outros (cf. Mc 10,45;Lc 12,37;Jo 13,1-17). Nós
acolhemos o Reino de Deus quando colocamos a nossa vida a serviço dos demais
pela sua salvação (cf. Mc 9,33-35). Mas quando se fala do serviço não se trata
do serviço escravo, que degrada a pessoa. Trata-se do serviço fraterno,
expressão de amor. O amor é que dá dignidade ao serviço.
A comunidade cristã primitiva não estava interessada
nos milagres de Jesus meramente como fatos extraordinários. Eles são uma
manifestação do poder de Deus que se atua em Jesus e ao mesmo tempo, são uma
proclamação da plenitude do tempo (cf. Mc 1,15). O poder de Jesus proclama a
realidade presente do Reino de Deus (cf. At 2,22). Eles acreditam que Jesus é o
Salvador e que através das obras de sua vida terrena, ele antecipa as
realidades divinas comunicadas aos fiéis. Entendido desta maneira, o relato se
torna um retrato simbólico para os fiéis onde eles, antes, se prostravam sob o
poder do pecado, mas agora são levantados por Jesus, e são chamados a servi-Lo
nos irmãos, seus próximos (v.31.
2. Resumo Da Atividade De Jesus Na Tarde Do Primeiro
Dia De Sua Atividade (vv.32-34)
A segunda parte do texto do Evangelho tem um
gênero literário típico conhecido como “sumário”. Este gênero pode encontrar-se
em outras partes deste evangelho (cf. Mc 1,14-15;3,7-12;6,6b; veja também At
2,42-47;4,32-37;5,12-16).
Esta segunda parte começa com esta expressão: “depois
do pôr-do-sol”. Esta expressão quer nos dizer que a obrigação do repouso
sabático termina (cf. Mc 1,21). Consequentemente, o povo pode levar os doentes
a Jesus nesse horário. A lei do sábado não permite alguém transportar cargas
durante o dia santo (cf. Jr 17,24). Só a partir das seis da tarde é que começa
o novo dia. A lei do sábado, em vez de libertar, domina as pessoas e as enche
de escrúpulos e de angústias.
A população angustiada e doente (necessitados) se
encontra na porta da casa/na praça (cf. Mc 2,2) em busca de solução de seus
problemas em Jesus. Três vezes temos visto Jesus curando o povo: primeiro, ele
curou alguém na sinagoga; segundo, ele curou a sogra de Simão na sua casa; e
terceiro, ele curou a multidão na porta (rua). Jesus não escolhe nem o lugar
nem a pessoa. Ele resolve o clamor da humanidade em necessidade. Onde quer que
se encontre uma enfermidade, Jesus está lá pronto para usar o seu poder de
cura. Até nos dia santo para o povo como o Sábado, Jesus cura. Para ele a
salvação do ser humano está acima da lei religiosa por sagrada que ela pareça
ser. A salvação é destinada a todos, especialmente aos marginalizados em todos
os sentidos. E os necessitados pode ser encontrados dentro das igrejas e
fora delas. A presença de um necessitado é um apelo para cada cristão agir e
oferecer alguma solução. Nenhum cristão poderia dizer: “Isso não é meu
problema!”. Por acaso, Jesus veio para este mundo para fazer uma viagem
turística?
Ao libertar os endemoninhados, Jesus “não permitia
que os demônios falassem, pois eles sabiam quem ele era” (v.34). Esta ordem de
calar os demônios tem por finalidade de alertar o povo/leitor para que não faça
uma conclusão apressada ou precipitada sobre a verdadeira identidade de Jesus
antes de sua manifestação definitiva: a morte e a ressurreição. Ninguém pode se
precipitar. Tudo tem que ser checada e verificado antes de pronunciar qualquer
tipo de sentença, pois uma palavra dita não tem volta. Esta ordem também quer
ressaltar a ignorância humana acerca do Messias Jesus: os demônios conhecem
quem é Jesus, enquanto que os próprios seguidores não conhecem quem Jesus é. Só
pode ser uma ironia.
Nunca podemos decifrar definitivamente o mistério da
pessoa de Jesus. Ninguém pode fazer uma conclusão apressada ou precipitada a
respeito de Jesus. Somos convidados, por isso, a decifrar progressivamente, dia
após dia, o enigma da presença de Jesus na nossa vida e o segredo da força
misteriosa que tem produzido tantos mártires na história do cristianismo por
causa de Jesus. É uma força inexplicável que faz alguém abandonar tudo para se
agregar a Jesus. É uma força que alguém encontrou para se levantar novamente.
Só em Jesus podemos encontrar resposta e a força perdida. Jesus é a fonte de
nossa força que não se esgota jamais. Voltar a Jesus significa renovar as
forças para cada um continuar a caminhar.
3. A conclusão da atividade de Jesus em Cafarnaum e a
sua saída silenciosa (vv.35-39)
A atividade de Jesus em Cafarnaum se conclui com a
oração solitária: “No dia seguinte, quando ainda estava muito escuro, ele se
levantou e foi para um lugar deserto e lá rezava”(v.35). Enquanto isso, os
discípulos estão o procurando (v.36-37). No final deste Evangelho Jesus fará a
mesma coisa e os discípulos vão procurá-lo: ele se levanta de madrugada (Mc
16,2), os seus o buscam de maneira equivocada (Mc 16,1-3), é preciso ir adiante
pela Galiléia (Mc 16,7). Para Mc o primeiro dia do ministério de Jesus é o
modelo de toda a atividade missionária de Jesus. Cada atividade missionária ou
evangelizadora sempre segue o mesmo ritmo: sair da oração para a missão e
voltar da missão para a oração. Sem seguir este ritmo, o espírito mundano vai
começar a dominar nossas atividades.
O encerramento da atividade de Jesus em Cafarnaum
simboliza o encerramento de toda a carreira de Jesus, pois no fim ele se
retirará, angustiado, para encontrar forças na oração a fim de que possa
estar plenamente em sintonia com o desígnio de Deus que faz vencer a tentação.
Logo no início de sua atividade Jesus se retira para
orar a só. Jesus percebe a má intenção do povo de fazê-lo um taumaturgo para
solucionar problemas cotidianos do povo (o povo quer uma vida fácil sem luta;
quer uma vitória de graça sem querer superar as dificuldades; é como querer
diploma sem estudar; veja também Mc 6,45-46). A multidão quer ficar com
Jesus, porque ele pode fazer tudo sem nenhum esforço ou trabalho; trata-se de
uma vida fácil. Estimula-se, assim, a preguiça. A multidão vem a Jesus não
porque o ama ou porque ele tem uma nova visão desta vida; em última análise, a
multidão vem usá-lo. Deus não é alguém para ser usado nos momentos difíceis,
mas alguém para ser amado e relembrado todos os dias de nossa vida, pois Deus é
a origem e o fim de tudo. Este desejo se expressa na busca de Jesus por Simão e
os outros que estão com ele. Procurar aqui tem um tom negativo; eqüivale a
perseguir. Simão e os companheiros tentam afastar Jesus dos caminhos de Deus
(cf. Mc 8,33;10,28;14,29-31). Ao perceber esta tentação, Jesus se refugia na
oração para combater os riscos de desviá-lo do projeto do Pai. Jesus faz o bem
não para buscar os aplausos. Ele faz o bem e retira-se e se dispõe a partir
para outros lugares, pois todos têm o direito de receber a salvação. Este mesmo
Jesus não busca os aplausos como os outros homens, mas os imitadores de seus
gestos e passos.
Jesus é capaz de deixar a multidão, de deixar até os
que dele precisam, para consagrar umas horas ao Pai. Sem esta volta à fonte,
sua alma humana não teria força de levar adiante sua missão de Salvador. A
oração para ele é um refúgio.
Com o ato de retirar-se para orar, Jesus quer ensinar
seus seguidores que a oração é uma força para viver bem de acordo com os planos
de Deus. Mais tarde, em Mc 9,29, ele vai chamar a atenção dos discípulos que não
conseguem expulsar um demônio de um jovem ao dizer: “ Esta espécie de demônio
não se pode expulsar senão com a oração(e jejum).” Como se Jesus quisesse
dizer-lhes: “Vocês não estão rezando. Vocês somente se preocupam com o poder.
Por isso, vocês não conseguiram curar o jovem”.
Este relato nos faz perguntar: “Quais momentos de
retirar-se no seu dia-a-dia?” Retirar-se significa deixar-se guiar por Deus,
para não deixar-se possuir por ninguém. Uma oração autêntica e profunda torna a
pessoa, que a faz, sensível ao sofrimento alheio e buscar meios ao seu alcance
para solucioná-lo. E a torna humilde. “Se você é humilde, nada vai tocá-lo, nem
glória nem desgraça, pois você sabe o que (queme) você é” (Madre Teresa de
Calcutá).
padre Vitus Gustama,svd
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