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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

5º DOMINGO TEMPO COMUM-B


04 de fevereiro - Ano  B

Evangelho - Mc 1,29-39


Jesus desafiou os costumes dos judeus, que tratava a mulher com muita injustiça.  Continuar lendo


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“VAMOS A OUTROS LUGARES, ÀS ALDEIAS DA REDONDEZA!” – Olivia Coutinho.

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 04 de Fevereiro de 2018

Evangelho de Mc1,29-39

Este evangelho, vem nos mostrar a proximidade de Jesus com os sofredores! Jesus não se apresentou ao povo, em cima de palanques, iludindo as pessoas com promessas vazias, e sim, em meio aos sofredores! Foi curando os doentes, libertando os acorrentados pelas as forças do mal, que Jesus se apresentou como o Filho de Deus!
O texto nos apresenta três momentos de atividades de Jesus, num só dia!
Para absorvermos melhor a mensagem que o evangelho que nos passar, seria interessante nos colocarmos dentro do  texto, fazendo a mesma experiência dos discípulos, passando um dia inteiro com Jesus, conhecendo de perto o seu cotidiano.
No primeiro momento, Jesus  sai da sinagoga, onde havia libertado um homem de um espírito mau, e segue, juntamente com Tiago e João, para a casa de Pedro, até então conhecido como Simão. Ao saber que a sogra de Simão, estava de cama com febre alta, Jesus vai até ela, e segurando-a  pela a mão, a ajuda a levantar! A partir de então, a sua febre baixou, e ela se pôs a servi-los.
Neste episódio, o que deve chamar mais a nossa atenção, não é a  cura em si, e sim, a postura de quem recebe a cura. A sogra de Simão, (Pedro) ao sentir a intervenção de Deus em seu corpo, ou seja, ao sentir-se curada, não se acomodou, pôs-se logo a servir! É o que Jesus espera de cada um de nós, Ele quer nos ver sempre em movimento e nunca parados! Quando  Jesus curava alguém, Ele sempre dizia: “levanta-te, vai..."
No segundo momento, vemos Jesus curando e libertando muitas pessoas, em frente a casa de Simão. A multidão que o procurava, crescia dia pós dia e, se por um lado, Jesus se compadecia daquela multidão que não tinha a quem recorrer, Ele sabia também, que não poderia prender-se aquele povo, e nem permitir que as pessoas o enxergasse como um fazedor de milagres. Jesus não fora enviado ao mundo para fazer milagres, os milagres que Ele realizava, ou  era por compaixão, ou para servir de sinal, de que Ele era  o enviado de Deus. O compromisso que Jesus assumira com o Pai, ia muito mais além do que realizar milagres, Jesus viera ao mundo para libertar o povo da escravidão do pecado, para ensinar a todos, o caminho da vida, caminho este que perpassa  pela a prática da justiça...
E por fim, no terceiro momento, o evangelho nos mostra Jesus em oração! Certamente, buscando no Pai, força e discernimento para exercer o seu ministério, para tomar as decisões certas, afinal, Jesus  tinha o seu lado humano e sem a força do Pai, Ele  poderia correr o risco de se deixar levar pelo o coração, e assim, comprometer o desenvolvimento do projeto de Deus, confiado a Ele. 
Enquanto Jesus estava em oração, Simão e seus companheiros,  o interrompeu dizendo: “Todos estão te procurando.” Para a surpresa destes discípulos, Jesus não volta para junto do povo. Fortalecido pelo o Pai, Jesus não se deixa levar pelo o seu lado humano, pois a missão confiada a Ele, deveria se estender a outros povos. “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim. ”
 Vemos ai, a importância da oração, Jesus rezava sempre, principalmente quando Ele precisava tomar alguma decisão difícil como essa; o coração humano de Jesus pedia pra Ele ficar ali, socorrendo aquele povo tão carente, mas a missão exigia que Ele fosse ao encontro de outros povos.
Façamos como Jesus, busquemos força e discernimento no Pai, para que possamos acertar nas nossas decisões, decisões, muitas vezes difíceis, mas necessárias, como o rompimento com tudo  que nos afasta de Deus...

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho



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O dom da saúde e experiência da enfermidade
A Palavra de Deus deste Domingo nos convida a refletir sobre a condição humana profundamente marcada pela experiência da dor, da doença e do sofrimento. Sem a fé, então, a vida fica sem sentido e a existência humana torna-se um tormento como a vida de um escravo no trabalho forçado (I leitura). O Evangelho nos apresenta Jesus Cristo como o Senhor da Saúde, que conforta e liberta os sofredores de seus males; a saúde deve ser entendida como oportunidade e condição para servir os outros; o mais nobre desses serviços segundo o testemunho de Paulo é o gratuito anúncio da Boa Nova libertadora (II leitura).
LEITURA: Jó 7,1-4.6-7 – UM SENTIDO PARA A DOR, A DOENÇA E O SOFRIMENTO
O livro de Jó é um maravilhoso drama sobre uma das questões mais enigmáticas da existência humana: o sofrimento! Por que sofremos? Qual é o sentido do sofrimento? Qual é a sua causa? O que fazer quando por ele somos acometidos? Qual deve ser a nossa justa postura diante daquele que sofre? Essas são algumas das principais questões teologicamente tratadas no livro de Jó. Vale a pena lê-lo e meditá-lo!  A trama desse drama existencial é muito simples: um homem chamado Jó, rico, judeu piedoso e fiel, homem justo e observante (cf. Jó 1,1.8;2.3), repentinamente perde tudo - bens, parentes, amigos, estima -  fica gravemente enfermo e padece profundamente em seu leito de dor. Então, apresentam-se três homens (Elifaz, Baldad e Sofar), seus amigos (cf. Jo 2,11), que tentam, a todo custo, persuadi-lo a reconhecer algum mal cometido. Contudo, Jó, sempre contra-argumentando, sustenta sua inocência (cf. Jó 9, 2; 15.20; 10,15). No auge do drama, a partir do capítulo 38, Deus entra em cena e faz dois longos discursos a Jó. Este, dessa vez, não rebate, mas se cala dizendo: “sou aquele que denegriu teus desígnios com palavras sem sentido. Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora os meus olhos te viram e, por isso, retrato-me e faço penitência” (Jó 42,3-6). Essa é a grande moldura que contorna o trecho que nos é proposto hoje. Jó reflete em seu leito de sofrimento e nos apresenta algumas verdades incontestáveis da condição humana: a) Que a vida humana sobre a terra é uma luta (cf. Jó 7,1). De fato, a essência nos foi dado como dom, mas a qualidade da nossa história depende da sábia auto-administração; isso não é fácil, é uma luta; b) Que o homem fazendo experiência de sofrimento, lutando, aspira ardentemente por recompensa como um mercenário, ou seja, como aquele que trabalha por um preço ou salário combinado ou como um escravo que, fadigado pelo trabalho ao sol, suspira pela sombra, por um refrigério (cf. Jó 7, 2-3); a vida humana é marcada por carências e insatisfações e suspiramos por conforto e plenitude; c) Somos tentados a perder o sentido da vida quando caímos no sofrimento e vivenciamos o tédio, o vazio, a tristeza, a angústia, a falta de esperança... (cf. Jó 7, 4-6); d) Apesar de tudo, é necessário depositar a esperança em Deus. O que sustenta Jó, não é a paciência, mas é a Fé da qual brota uma dinâmica esperança que o alimenta: “lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade” (cf. Jó 7, 7). Apesar de tudo, vale a pena depositar em Deus nossa esperança.
Nossa vida
Hoje assistimos em nossa sociedade uma grande corrida contra a dor, as doenças e o sofrimento humano. A dor física, já foi “vencida”, mas continua de modo tecnicamente inalcançável a fabricação de uma “anestesia” para eliminar a dor causada pelas dimensões afetiva, moral e espiritual. Possivelmente nunca haverá! Isso atesta o limite da ciência que, jamais, será capaz de dar sentido e desvendar a totalidade da condição humana. O ser humano pode escapar da dor física, mas dificilmente se livra das inquietantes provocações da própria alma. Dentro desse contexto de luta pela busca de uma resposta para os problemas físicos humanos, corre-se o perigo de cairmos no “corporeísmo”: ideologia que vê o corpo como centro de tudo e realidade fundamental do ser humano. Na verdade, o corpo é parte do ser pessoa! Somos uma realidade composta por duas dimensões básicas: uma física (material) e outra espiritual (imaterial). O corporeísmo é uma ideologia materialista que concebe o corpo como puro instrumento de prazer (fonte de sensações) e produção (trabalho). No horizonte dessa ideologia não há espaço para a dor, para o sofrimento e nem para o sentido sagrado da Vida. É por isso que, hoje, em muitos países há uma grande reivindicação pela eutanásia (morte provocada do enfermo). Onde fica o sentido do sofrimento e da doença? Como vimos no drama de Jó, no sofrimento se esconde um mistério, pois nem tudo tem uma lógica de causa e efeito, culpa e castigo! Quando vemos o sofrimento do inocente, a nossa tentativa de explicar esse fenômeno cai por terra! O inocente também sofre! E o que dizer das catástrofes provocadas por fenômenos naturais (vulcões, tsunamis, terremotos!?..). A dor e o sofrimento têm um significado: revelam, antes de tudo, a nossa fragilidade, são sinais de nossa finitude, acusam a nossa insuficiência (não nos bastamos a nós mesmos!), nos mostram que somos dependentes. Não há como mudar essa realidade, isso faz parte da nossa constituição natural; essa é a condição da nossa identidade. Muitas vezes, após esperneamos como Jó, precisamos do consolo da Fé para nos acalmar! A fé dá um sentido à dor, à doença e ao sofrimento! Diante do sofrimento sem fé, caímos na revolta e rejeição, mas com fé nossa postura é de acolhida e resignação; sem fé somos movidos pelo sentimento de injustiça, com fé admitimos o reconhecimento da nossa finitute; sem fé nos sentimos castigados, com fé renovamos a nossa consciência da dependência divina; sem fé falta sentido e contemplamos o vazio, com fé somos capazes de perceber o sentido pedagógico do sofrimento (nos educa); sem fé, quando imersos no sofrimento, buscamos um culpado, com fé confessamos a nossa pequenez imersa no grande mistério divino que nos convida à oração e à esperança (cf. Sl 33,22; Sl 39,8).
2ª. II LEITURA: 1Coríntios 9, 16-19.22-23 – O EVANGELHO COMO PAIXÃO
Assim como a sogra Pedro nos deu um maravilhoso exemplo com sua atitude de serviço imediatamente à recuperação de sua saúde, Paulo por sua vez, nos revela sua gratuita paixão em gastar suas energias a serviço do Evangelho que, para si, constituía uma necessidade (cf. 1Cor 9,16). Com esse testemunho, o apóstolo nos revela a sua profunda consciência de dever corresponder às graças que de Deus recebeu: anunciando-a aos outros. Testemunhar a viva voz uma graça recebida, de fato, é um dever de gratidão: “ai de mim de não evangelizar” (1Cor 9,16). Mas Paulo não só testemunha sua gratuita paixão pelo anúncio do evangelho, mas também declara as atitudes que o acompanham: “embora livre de sujeição..., eu me fiz servo de todos... Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos... ” (cf. 1Cor 9,19-22). Nessas suas declarações encontramos, de forma límpida, a vivência de alguns valores e atitudes basilares da espiritualidade cristã: a liberdade (“embora livre de sujeição”), o serviço (“me fiz servo”), a solidariedade (“me fiz fraco com os fracos”), a adaptabilidade (“me fiz tudo para todos”). Em fim, em confronto com a temática de hoje, saúde e sofrimento, Paulo nos convida a refletir a certeza de que no Evangelho encontramos a fonte do nosso alento, do consolo e da nossa esperança... pois “os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós” (Rm 8,18).
Nossa vida:
Paulo nos testemunha uma série de valores que dão sentido a uma existência: a liberdade de colocar-se a serviço do evangelho gratuitamente, a renúncia a privilégios, a disponibilidade para servir os outros...  Essa atitude paulina de “ser para”, profundamente excêntrica – lançada para fora de si – gratuita, contrasta profundamente com muitos males de nossos dias que amordaçam e matam espiritualmente milhões de pessoas no mundo que vivem enjauladas pelo medo do outro, aprisionadas pelo egoísmo, acomodadas em privilégios passageiros, anestesiadas pelo comodismo e ignorância. Paulo nos indica que o Evangelho é a fonte que nos dá a chave do sentido da vida, que a verdadeira liberdade é profundamente altruísta e se concretiza na experiência do voluntariado. O apóstolo nos faz recordar a dinâmica do grão de trigo: que o ser humano à medida que sai de dentro de si mesmo, se encontra... e doando-se jamais se esvazia!
3ª. EVANGELHO: Marcos 1, 21-28 – JESUS É O MÉDICO DA HUMANIDADE
Esse relato de Marco contém vários elementos significativos: a) Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum onde já havia curado um homem possuído por um espírito impuro (cf. texto do Domingo passado) e imediatamente, saindo com alguns dos seus discípulos, continua a promover curas fora da sinagoga. Quer nos mostrar que entre Fé e a Vida não deve haver fragmentação; o compromisso com a vida nova que brota do anúncio do Reino é contínuo, dentro e fora do templo. O que se celebra no templo (liturgia), se torna compromisso de vida lá fora. b) Um segundo detalhe significativo é o da cura da sogra de Pedro e sua atitude. Jesus “tomou-a pela mãe e levantou-a e imediatamente a febra a deixou” (Mc 1,31). Jesus com essa atitude de se aproximar com liberdade de uma mulher doente, dar-lhe a mão e levantá-la constitui um fato totalmente extraordinário para os parâmetros sacerdotais de então. É uma atitude crítica, uma vez que os rabinos do seu tempo tinham uma postura de pouco interesse pelo contato humano, mas muito prezavam o puro anúncio da Torá, ou seja, a bíblia hebraica, ou Pentateuco (5 primeiros livros da Bíblia), que contém a lei mosaica. Mais ainda, Jesus deixa-se servir por ela! Jamais um sacerdote dos tempos de Jesus assumiria essa atitude. Jesus está abrindo novos horizontes necessários para a vivência da Fé; c) O terceiro fato profundamente importante é a atitude da mulher curada: “imediatamente põe-se a servir os presentes”. A sogra de Pedro nos mostra o verdadeiro objetivo da saúde: possibilitar-nos a capacidade de nos colocar a serviço dos outros. d) Jesus é o médico da humanidade: levavam a Jesus doentes afetados por diversos tipos de males: físicos, psíquicos (possessos) etc (Mc 1,32), curava doenças e expulsava demônios... mais que um elenco de doenças o texto que nos mostrar que em Jesus temos a resposta para todos os males da humanidade; nele está a plenitude da vida e da saúde; e) A necessidade de ir além: a fama de Jesus crescia e ele corria o risco de se tornar refém da popularidade, do seu heroísmo taumatúrgico, por isso, reconhecendo a transcendência de sua missão sai do meio desse assédio (“todos te procuram”), vai para um lugar deserto, entra em oração e daí segue para outros lugares. A mística (a comunhão com o Pai e o Espírito Santo) é a fonte da operosidade incansável de Jesus. Jesus prova dessa forma seu consciente senso de transcendência de sua missão e por isso não se deixa envolver-se de uma forma total a ponto de se tornar refém de seus beneficiários.
Nossa Vida:
Tanto as atitudes da sogra de Pedro com aquelas de Jesus nos apontam para a mesma mensagem: para servir é necessário ser livre! Livre, sobretudo, de amarras psíquicas, afetivas, econômicas, culturais... Quando o evangelista Marcos relata que a sogra de Pedro, uma vez curada, imediatamente pôs-se a servir a Jesus e seus discípulos, quer deixar uma profunda e clara mensagem a seus destinatários: a vida saudável está para o serviço generoso que promove ou outros, assim como, a doença está para a paralisia e a morte da pessoa. Cada vez mais cresce em nossa sociedade o fenômeno do voluntariado. Isso é muito significativo, pois trata-se de uma realidade social que testemunha que a nossa felicidade pessoal passa pela nossa dedicação aos outros.  Mas para nos tornamos servos, não basta a saúde física. O egoísmo é a fonte das prisões que sufoca muitas pessoas e as mantêm presas a si mesmas com medo dos outros, cheias de desculpas calculadas que justificam a própria mesquinhez, defensivas quanto a qualquer proposta de gratuidade de promoção dos menos favorecidos, secas e impassíveis diante do drama alheio... Mas por isso pagam caro: são infelizes, vazios e suas alegrias são artificiais! Jesus é o médico da humanidade... Suas atitudes nos revelam o caminho do sentido da vida e nos mostram para que servem todas as nossas forças e capacidades. O tempo passa depressa... e, pressa, devemos também ter para fazer o bem!
MENSAGENS E COMPROMISSOS:
Há um sentido para o sofrimento e a doença: revelam a nossa fragilidade, pequenez, insuficiência, dependência do Criador.
O Evangelho é a fonte do nosso sustento... e nos convida à  gratuidade! Nele descobrimos o sentido para as nossas carências.
É preciso ser livre para poder servir... Jesus é o médico da humanidade! Nele está a definitiva esperança de nossa Cura!
Antônio de Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)



Jesus cura a sogra de Pedro e outros enfermos
A leitura apresenta Jó mergulhado em um grande sofrimento. Diante de seus amigos abre o coração e manifesta sua desilusão. Eles, que defendem uma teologia distante da vida, não podem compreender a queixa de seu amigo nem acompanhá-lo plenamente em sua dor.
O grito de Jó está presente na vida diária de muitos homens e mulheres em todos os rincões do planeta, que enfrentam uma vida de luta e dificuldade. Jó compara sua existência com a via de um “mercenário”, quem vende sua força de trabalho por dinheiro em causas que não são suas e se cansa por empreendimentos que não ama.
O livro de Jó, como sabemos, é uma jóia literária dentro da Bíblia hebraica (na qual está baseado o nosso Novo Testamento). É uma reflexão sapiencial sobre esse problema insolúvel, ou melhor, sobre esse mistério eterno que é o “mal”. O mistério do mal é uma presença injustificada no mundo.
O mistério do mal poderia ser uma justificativa para quem poderia ser responsabilizado pela existência do mal: Deus poderia ser responsabilizado pela sua presença? Porém, a “teodiceia” apenas mostra a existência de Deus, quer dizer, “justifica” a Deus, como a própria etimologia da palavra expressa.
O importante no livro de Jó não são os “dados históricos”, que não existem. Na verdade, o livro de Jô não é um livro histórico, nem suas respostas são de tipo explicativo que gostaríamos ouvir sobre a questão da dor humana, hoje absolutamente ultrapassadas, mas o que importa é a sabedoria de suas reflexões.
A ciência avança a cada dia. Não teria sentido hoje estudar a ótica na obra de Newton, mesmo que ele tenha sido um de seus fundadores, pois sua obra está hoje cientificamente ultrapassada. Porém, nem sempre avançamos diariamente em sabedoria, que não está no mesmo plano da ciência. Hoje a humanidade continua vivendo da sabedoria de personagens como Confucio, Buda, Sócrates, Jesus... Na realidade, não avançamos naquela sabedoria fundamental adquirida faz três mil anos... Essa constatação nos permite escutar e ler o livro de Jó.
Paulo, de maneira parecida a Jó, entra em uma discussão acalorada com seus interlocutores da comunidade de Corinto. Grupos contrários ao seu modo de pensar o criticam e questionam sua autoridade (v. 3). Paulo responde fazendo uma defesa pessoal e radical de sua missão, e declara sua absoluta liberdade frente a toda manipulação de poder humano.
Não se declara membro de um movimento ou representante de alguma instituição, mas um homem “obrigado a cumprir uma tarefa”. No império Romano era comum a prática do clientelismo, no qual o benfeitor se convertia em patrão de quem recebia seus benefícios. O apóstolo deseja deixar claro a pureza de sua mensagem. Ele não está se vendendo a ninguém “cliente”, nem é moldado por nenhum interesse pessoal (v. 18-18).
Esta liberdade em Cristo, permite ao apóstolo ser um servidor dos demais. Não teme moldar-se às condições de vida dos destinatários de sua mensagem: judeus, seguidores da lei, rebeldes e fragilizados. Paulo anuncia assim o Evangelho da liberdade, que não compactua com a rigidez, nem faz o jogo de nenhum interesse particular ou sectário, mas que é capaz de entrar em dialogo com a diferença e de chegar a “todas” as realidades humanas, como uma Boa Noticia do amor de Deus.
Isto é precisamente o que faz Jesus no evangelho de Marcos: entrar na vida das pessoas, ser um deles em seu cotidiano. No domingo passado vimos Jesus curando um endemoninhado. Hoje o acompanhamos com Simão e André na casa de Pedro. A casa, o lugar íntimo onde se partilha o teto e a mesa. Aí se encontra com uma anciã doente, a sogra de Pedro. Jesus se aproxima, toma-a pela mão e ela se levanta. Um gesto simples: aproximar-se e tomar a pessoa pela mão faz o milagre de recuperar a mulher. O melhor de tudo é a cura não é somente da saúde, mas também a capacidade de servir. Ao entardecer, muitos vieram buscá-lo, conforme relata o evangelista, pois Jesus continuava curando.
Era comum na época de Jesus que os enfermos fossem considerados malditos ou possessos por espíritos maus, rejeitados, excluídos. Ninguém se atrevia aproximar-se deles. Jesus, ao contrario, se entrega com amor e dedicação ao seu cuidado, fazendo-se servidor.
A prática da cura, a luta contra o mal, isto é, a práxis libertadora do ser humano... é a prática habitual de Jesus. Tão importante como fazer o bem, é evitar o mal, é lutar contra ele: dar a vida em defesa da paz, saúde, bem-estar, felicidade... a todos os carentes dessas realidades. Ser cristão é, entre outras muitas coisas, lutar contra o mal, não ficar de braços cruzados ou ensimesmados nos próprios assuntos, quando vivemos em um mundo com as cifras tenebrosas de pobreza e miséria que hoje padecemos.
“Anunciar hoje o Reino” não é questão somente de palavras; exige simultaneamente compromisso. A “evangelização” hoje será como a de Jesus. O “anuncio” da boa noticia não é simplesmente transmitir informação... mas  fazer, construir, lutar contra o mal; curar, reabilitar os irmãos, colocar-se a seu serviço, acompanhar e dignificar a vida como manifestação da mão criadora de Deus.



Neste Evangelho, mais uma vez, Jesus nos mostra a sua ação libertadora. Onde está Jesus, lá está a felicidade, lá está a alegria. Sua presença modifica o ambiente, tudo muda. Com Jesus ao nosso lado, sentimo-nos fortes e protegidos.
Jesus sai da sinagoga, entra na casa do seu amigo e cura a sogra de Pedro que estava acamada, com febre. Aquela que estava doente foi curada e, para demonstrar sua alegria e gratidão, imediatamente começou a servi-los.
Quantos exemplos encontramos no Evangelho de hoje. Mostra que a oração está presente na vida de Jesus. Marcos inicia mostrando Jesus saindo da sinagoga, onde, certamente, estava ensinando e orando. Jesus quer nos mostrar que, também ele, encontra forças na oração para cumprir sua missão.
Observe que Jesus não foi sozinho à sinagoga. Convidou seus amigos Tiago e João para acompanhá-lo. Esse exemplo deve ser seguido. Precisamos convidar e trazer todos nossos amigos para a casa do Senhor.
Ao sair da sinagoga Jesus foi visitar Simão e André. O enviado do Pai não fica parado, está sempre a procura das pessoas. Sabe como é importante a presença amiga. Devia estar preocupado e se perguntando porque esses seus amigos não teriam ido à sinagoga naquele dia?
Quando chegou, encontrou a sogra de Pedro acamada e com febre. Aproximou-se, segurou sua mão e a curou. Esse gesto de Jesus é totalmente contrário aos costumes da época. Tocar em uma mulher sã, já não era normal, quanto mais doente. Qualquer judeu observante da lei teria se afastado dela.
Mais um exemplo, mais uma lição. Além da compaixão pelos enfermos, sem usar nenhuma palavra, Jesus deixou claro que não pode haver discriminação e pede mudanças. Isto vale também para os dias de hoje. A mulher, sempre marginalizada pela sociedade, tem direito a igualdade, dignidade e respeito.
Outra lição aprendemos com a sogra de Pedro; assim que sentiu-se curada, passou a servi-lo. Ela soube agradecer o benefício recebido, imediatamente colocou-se a serviço. Quantas vezes recorremos a Deus. Quantas curas alcançamos, quantas graças recebemos sem nunca nos lembrarmos de agradecer.
Jesus andava por toda Galiléia, curando e expulsando demônios. Pouco se importava com o número de habitantes. Pregava em todos os lugares, em todas as aldeias. "É para isso que eu vim", dizia ele. Queria mostrar que, por menor que seja o lugar, mesmo que lá habite uma só pessoa, o evangelizador tem que se fazer presente.
Resumindo: Jesus acolhe a todos sem distinção de sexo, raça ou cor. Seu carinho e atenção para com a mulher e com o enfermo são claras demonstrações de amor e igualdade.
Levantar-se de madrugada para orar, é um recado direto para quem quer segui-lo. Ninguém está dispensado de orar. A oração faz parte da atividade apostólica. É ela que dá sentido e força para a ação missionária.
Viu como é grande poder da oração? Por tudo isso, vamos rezar para que nunca faltem boas notícias, como estas.
Jorge Lorente




“Passou fazendo o bem”
No dia em que o apóstolo Pedro batizou em Cesárea o centurião Cornélio, no discurso que fez àquela pequena comunidade atenta e comovida, disse a respeito de Jesus uma belíssima palavra: “Ele passou fazendo o bem e curando a todos” (At. 10,38). O elogio é tão precioso, que já foi dito que esse poderia ser o epitáfio para o sepulcro de Jesus, se Ele tivesse precisado de epitáfio, e se o seu sepulcro não tivesse sido apenas o lugar de passagem em que repousou o operário cansado, para acordar na manhã da Ressurreição.
Quando leio essa palavra de são Pedro nos Atos dos Apóstolos, eu a ligo espontaneamente ao trecho de São Marcos – por sinal, discípulo de são Pedro – que a Igreja faz ler neste domingo. Marcos, na concisão característica do estilo do seu evangelho, nos mostra Jesus “fazendo o bem e curando a todos” inclusive libertando os possessos  do demônio. Foi em Cafarnaum. Ao cair da tarde, já depois  do sol posto de um dia de sábado. Jesus acabara de curar a sogra de Pedro, com a leveza e a decisão de um gesto cheio de poder. Ela estava prostrada na cama com febre. Levaram Jesus até ela. Jesus simplesmente a tomou pela mão e a levantou. Completamente curada! Tanto que ela se pôs a servir aos presentes com toda a simplicidade de uma experimentada dona-de-casa. A notícia se espalhava rapidamente pela cidade. E, então, de toda parte trouxeram doentes para que Jesus os curasse. Numa expressão de evidente ampliação oriental, Marcos diz que “toda a cidade”  se reuniu ali. E se juntaram, apinhados junto à porta da casa de Pedro (cf. Mc. 1,29-34).
Devia ser impressionante ver aquela gente toda, com seus doentes arrastando-se como podiam, apoiando-se nos outros e até transportados em macas. E, à medida que as curas iam acontecendo, crescia o favor e a alegria dos parentes e amigos.
E crescia o amor e a gratidão para com Jesus. Queriam, até, que Ele ficasse mais tempo. Ele, porém, se retirou de madrugada para rezar num lugar solitário, e depois seguiu para outros lugares da Galiléia,  para pregar sua palavra de vida eterna. Pois era essa a sua missão.
Jesus é o Salvador. Veio tirar o pecado do mundo. E veio livrar o homem das conseqüências do pecado como são as doenças e a morte. Ele tem o compromisso antes de tudo com a vida. Com a vida presente e com a vida futura. “Eu sou a Ressurreição e a vida” é como Ele declara (Jo 11,25). Vivemos num mundo marcado por mil sinais de morte. Desde o aborto, até os assaltos, os seqüestros, o submundo das drogas e de todas as indignidades. Sem falar na pobreza e nas doenças e de todas as indignidades. Sem falar na pobreza e nas doenças, que apressam o caminho da morte. A Igreja tem que ser um pouco como essa porta da casa de são Pedro – que facilmente evoca a grande casa de Pedro, que é a própria Igreja – aonde todos acorrem em busca de saúde e de vida. E só pode ser abençoada por todos essa ampla ação da Igreja na área da pastoral da saúde. É Cristo que passa “fazendo o bem a todos”. A consciência disso poderá, até, levar muita gente a cumprir com mais amor e maior dedicação sua missão de médico, de enfermeiro, de auxiliar de enfermagem, de assistente social.
A determinados santos Deus dá o dom das curas miraculosas, numa participação do poder taumatúrgico de Cristo. É como está no final do Evangelho de são Marcos: “Em meu nome, expulsarão demônios... imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados” (Mc. 16,17-18). Como aconteceu com Santo Antônio.
Mas, independentemente disso, a ação dos cristãos que cuidam de seus enfermos, com carinho e dedicação, é como uma mensagem de vida que se irradia de Cristo. “Assim como eu fiz, deveis fazer vós também”, disse o Mestre no dia em que lavou os pés aos seus discípulos (Jo 13,15). Acontece, até, muitas vezes, que a única experiência de presença de Deus que uma pessoa sente em sua vida é o dia em que, prostrado no leito da enfermidade, em sua enfermidade, recebe os cuidados de uma pessoa cheia de amor cristão. Nunca me esqueço de um singelo episódio que li ainda no meu tempo de seminarista. Um homem que estava hospitalizado com uma gravíssima enfermidade foi tratado com toda a dedicação por uma religiosa enfermeira. A doença não o poupou. Mas, pouco antes de morrer, pediu que a religiosa lhe estendesse a mão. Tomou-a e a beijou respeitosamente, dizendo: estou beijando a mão de Deus! Era um reflexo da caridade de Cristo, o Filho de Deus, que chegara até ele, através da dedicação daquela irmã enfermeira.
padre Lucas de Paula Almeida, CM




O sofrimento
A liturgia dominical procura sempre iluminar a nossa vida nas mais diversas situações. Uma situação concreta que aflige o homem de todos os tempos é o sofrimento.
Por que há no mundo tantas pessoas sofrendo? Ninguém gosta de sofrer… mas o sofrimento existe: injustiças, guerras, calamidades, pobreza, fome, discórdias, doenças…
Quem é o culpado? Seriam os nossos pecados? É um castigo de Deus? Como explicar então os inocentes... o Cristo na cruz? Por que Deus permite essas coisas sem intervir? Por que o justo também sofre e o malvado parece estar em situação melhor?
Qual é o sentido do sofrimento e da dor?
As leituras bíblicas nos dão uma resposta...
Na 1ª leitura, vemos a experiência do sofrimento de Jó (7,1-4.6-7). Jó é um homem justo e fiel ao Senhor. Possuía muitos bens e uma família generosa. De repente, viu-se privado de todos os seus bens, perdeu a família e foi atingido por uma doença grave. Essa triste situação provoca no coração dolorido de Jó sentimentos de amargura e de revolta contra esse Deus incompreensível. Até os amigos insinuam ser castigo de Deus… Jó lamenta sua condição de sofredor, mas confia em Deus, pois tem a certeza de que só em Deus pode encontrar esperança e o sentido para a sua existência.
A experiência de Jó no sofrimento é um modelo para todos os que têm fé. Mesmo amaldiçoando seu próprio nascimento, Jó não amaldiçoa Deus, pelo contrário, reconhece e louva sua sabedoria e suas obras na criação: o abismo de seu sofrimento pessoal não lhe fecha os olhos para a grandeza de Deus.
Diante do sofrimento, ou descobrimos o rosto verdadeiro de Deus ou fazemos dele um monstro, que nos devora e inferniza a nossa vida… Não nos esqueçamos: o sofrimento pode ser uma visita de Deus… E quando entendermos isso, tudo fica muito diferente… "Não nascemos para sofrer, mas o sofrimento nos faz crescer..."
Na 2ª leitura, a expressão "ai de mim se não evangelizar" traduz o princípio fundamental da vida de são Paulo. (1Cor. 9,16-19.22-23)
No Evangelho, vemos Jesus diante do sofrimento (Mc. 1,29-39)
O texto narra uma jornada messiânica de Jesus, no início de sua missão pública na Galiléia. Inicialmente, mostra o Messias proclamando o Reino de Deus. A seguir, mostra a realidade do Reino atuando no mundo como salvação e libertação, nas palavras e gestos de Jesus. Apresenta Jesus agindo diante de uma multidão de sofredores: Ele aparece solidário à dor dos homens e atento às suas necessidades.
Com a autoridade que lhe vem do Pai e em comunhão total com o Pai, Jesus vence o mal e a dor que escravizam o homem e anuncia um mundo novo de liberdade e de vida plena.
Sai da sinagoga e na casa de Pedro: aproxima-se da sogra de Pedro… estende a mão… e a "levanta"… Ela retoma a vida normal, acolhe e serve os hóspedes...
"Todos o procuram... Cura muitos doentes e endemoniados"… "De madrugada, levanta-se e vai rezar, num lugar deserto…": com a pregação: ilumina os espíritos, revela o amor de Deus, leva as almas à fé, dá sentido à dor… e mostra o caminho da salvação.
Com os milagres: cura corpos enfermos… expulsa demônios… Quer um mundo novo, sem qualquer forma de dor...
Com a oração: compreende o plano de Deus e aceita a vontade do Pai… Só a verdadeira oração pode nos iluminar o sentido da dor…
O sofrimento continuará sempre sendo um mistério… Jesus não elimina o sofrimento, mas nos ensina a carregá-lo com amor e esperança, para que dê frutos de vida eterna… Jesus nos garante de que Deus nunca nos abandona… Resta-nos confiar em Deus e entregar-nos em seu amor.
Os cristãos não descobriram o caminho para evitar o sofrimento. Sofrem como os outros e, às vezes, até mais do que os outros, mas descobriram que a Cruz de Jesus Cristo é redentora.
Carregar a cruz sozinhos é desesperador… Mas unidos a Cristo, todo sofrimento é salvador, inclusive o nosso…
Qual é a nossa atitude diante dos nossos sofrimentos?
- de aceitação... ou de revolta? (Jesus: no Getsêmani... no Pai Nosso...) "Ninguém nasceu para sofrer, mas a dor nos faz crescer..." Qual é a nossa atitude diante do sofrimento dos outros?
- Estendemos a mão e ajudamos a se libertar?
No dia 11 de fevereiro, celebramos o dia mundial do enfermo.
"Levanta-te e vai, a tua fé te salvou" (Lc. 17,19 : Lema de 2012).
Como podemos ajudar concretamente os doentes de nossa comunidade?Valorizamos o trabalho da pastoral da saúde?
Rezemos para que Deus nos dê muita luz para compreender o mistério do sofrimento e muita coragem para carregá-lo com amor.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa




O poder de Jesus sobre as doenças
Inúmeras passagens dos Evangelhos mostram que Cristo, como divino taumaturgo, curou as mais variadas doenças, estando continuamente junto dos que padeciam alguma moléstia. Durante seu profícuo ministério Ele encontrou  por toda parte enfermos em seu caminho.  Assim aconteceu em Cafarnaum com a sogra de são Pedro, acamada com febre sendo que depois Ele curou naquela cidade “muitas pessoas de diversas doenças” (Mc. 1,30.34). Movido de compaixão Ele restituiu a saúde aos que dele se aproximavam com e profunda fé. Esta virtude era inclusive uma exigência que fazia. A dois cegos que lhe pediam a cura ele disse: “Faça-se-vos segundo a vossa fé (Mt. 9,28). Sua força divina era colocada a serviço dos que jaziam presos em terríveis enfermidades. A doença é sempre o sinal do estado em que se encontra o homem após o pecado original.
Enquanto durar o mundo atual a humanidade tem que carregar as conseqüências de sua rebelião contra o seu Criador. O estado de perfeição só se dará lá no céu. Tendo assumido a natureza humana, Jesus se identificou com os sofredores: “Estive doente e me visitaste”. Este cuidado com os padecentes é, aliás,  uma das condições   para se  entrar no Reino dos eleitos (Mt. 25,36). Servir os doentes é servir ao próprio Cristo em seus membros que padecem.  O enfermo é então a imagem e o símbolo do próprio Filho de Deus que quis conhecer nesta terra as misérias humanas, não apenas as corporais como, outrossim, as do espírito, como aconteceu na sua agonia no Horto das Oliveiras e no alto da Cruz.  Como profetizou Isaías eram nossos males que Ele suportou (Is. 53,4). Como Redentor da humanidade Ele passou “fazendo o bem e curando todos os que estavam no poder do diabo” (Atos 10,38). Ele era o médico do corpo e da alma e mostrou que com sua Paixão e Morte daria um novo sentido às dores humanas, conferindo-lhes um valor de redenção, de purificação.  São Paulo compreendeu isto magnificamente e disse aos Coríntios: “Trazemos em nosso corpo os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor. 4,10).
Neste sentido o Apóstolo mostrava aos colossenses que  cumpre ao cristão “completar na sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo por seu corpo, que é a Igreja”. Embora se deva lutar contra a doença, valorizando o dom da vida, evitando tudo que possa prejudicar a saúde,  quem passa por alguma moléstia deve se integrar no processo  da auto-salvação, suportando-a em reparação das próprias faltas e das iniqüidades que se cometem mundo afora. É necessário sempre esperar o momento em que Deus irá atender as súplicas e restituir a saúde.  Na cura da sogra de são Pedro é de se observar que quem obtém a cura de sua doença deve se entregar ainda mais fielmente a suas tarefas diárias. Com efeito, são Marcos destaca que imediatamente aquela senhora se reintegrou a suas tarefas familiares, manifestando sua gratidão exatamente no serviço de quantos estavam naquela casa. A um miraculado, que desejava segui-lo, Ele disse: “Vai para tua casa, para os teus e narra-lhes tudo que o Senhor fez por ti e como se compadeceu de ti. Ele partiu e começou a apregoar na Decápole as grandes coisas que Jesus lhe tinha feito, e todos ficavam maravilhados” (Mc. 5,19-23) O melhor hino de ação de graças é, de fato, o cumprimento do dever nas tarefas que Deus destinou a cada um. Nem se pode esquecer que o  tema “Fraternidade e saúde pública” com o lema  “Que a saúde se difunda sobre a terra.” (Eclo. 38,8) será refletido na Campanha da Fraternidade deste ano e recordará assim, ainda uma vez,  o poder de Jesus sobre as doenças e a responsabilidade de cada um perante os que sofrem, sobretudo os familiares.
O Médico divino conta com cada um de nós não apenas para que com confiança nele vençamos a doença, mas também ajudemos a todos que sofrem, levando-lhes auxílio espiritual e material. Uma das melhores contribuições para com os necessitados é ajudar, a quem precisa, a comprar os remédios prescritos pelos médicos.  Jesus espera também que proclamemos por toda parte as maravilhas que ele opera em nossas vidas e isto como um ato de agradecimento.
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho




Tristezas não pagam dívidas. É o que resulta da mensagem da Palavra de Deus para este domingo. O impulso de Jesus no Evangelho é sintomático: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». Temos de redescobrir a urgência da missão, a qual não se identifica com o proselitismo, constrangendo os outros a adotar o nosso modo de pensar e de ver, nem se reduz a uma mera inculturação do Evangelho, mas que antes é uma encarnação da Palavra de Deus na multiplicidade de condições humanas, línguas e costumes das pessoas que se vão encontrando. Sempre com muita alegria e entusiasmo.
A exclamação Paulina «Ai de mim se eu não anunciar o evangelho», é igualmente válida para todo aquele que, sendo leigo, presbítero ou bispo, recebeu das mãos da Igreja o Evangelho, esse mesmo Evangelho que deve propagar como se difunde «o perfume de Cristo» (2Cor. 2,15) entre aqueles que estão perto e os que estão longe.
Jesus não quer que acabemos por desvalorizar o Evangelho que foi depositado em nós como «um tesouro, em vasos de barro» (2Cor. 4,7), mas quer antes que arrisquemos tudo para o fazer atrativo e útil ao sentido da vida da humanidade inteira. Jesus Cristo em pessoa é o tesouro, achado no meio do campo, pelo qual vale a pena vender quanto possuímos e somos, a fim de o adquirir. Por ele somos chamados a considerar tudo como «lixo, a fim de ganhar Cristo e nele encontrados» (Fl. 3,8-9). O Evangelho completa a sua carreira com os pés cansados, cobertos de pó e não raro feridos, com os pés de quem, como Paulo, «nada mais quis saber, a não ser Jesus Cristo e este crucificado» (1Cor. 2,2).
Neste suspiro de São Paulo, todo o cristão se revê. O Evangelho, é a grande Palavra para o cristão - qual terreno, onde se mostra o tesouro Jesus Cristo - para ser depois apresentado por cada um de nós que já alimentamos o sentido da vida com as pérolas do seu ensinamento.
A descoberta deste tesouro de alegria, de paz, de amor e de plenitude, deve fazer de todos os cristãos, pessoas inquietas enquanto a mensagem do Evangelho não chegar a todos os corações. Por isso, façamos do desabafo de Paulo a nossa respiração e que todos possam dizer, não sei viver neste mundo se não dou aos outros tudo o que Jesus já me deu. Esta oferta pode, se nós quisermos, embelezar o nosso mundo e a vida toda.
padre José Luís Rodrigues




A cura da sogra de Pedro
“JESUS CURA E LIBERTA AS PESSOAS DE FORMA INTEGRAL”.
Estar com Jesus é estar com a salvação. Ele nos liberta de todos os males, físicos e espirituais. Onde Jesus passava havia diversas curas. A verdadeira cura é a nossa conversão ao essencial. É uma transformação geral que acontece com toda a pessoa. Mais do que nosso físico corruptível devemos ser curados no centro de nossa alma aonde o Senhor quer habitar. Quando nos enchemos do Espírito Santo nos tornamos da mesma forma instrumentos de salvação de nossos irmãos. Seremos felizes quando soubermos a razão de nossa existência e vivermos de acordo com ela.
EVANGELHO (Mc. 01, 29-39):
Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. A Sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. A cidade inteira se reuniu em frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. E andava por toda a Galiléia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
“Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios”.
A passagem de Jesus fazia que as pessoas ficassem curadas. Não só de um mal físico, mas especialmente de um mal espiritual. O reinado de Deus leva as pessoas a uma paz interior capaz de curá-las de todos os males. A verdadeira cura acontece em todas as dimensões da pessoa especialmente quando ela descobre o sentido de sua vida. Percebemos muitas pessoas afastadas delas mesmas vivendo uma vida de angústia e sofrimento. Quando o homem se afasta da presença de Deus ele se afasta de sua própria felicidade. Somos desafiados a crescermos em todas as dimensões de nossa vida. Jesus nos apresenta uma libertação em todos os níveis numa profunda experiência do amor de Deus que nunca se afasta de nós por sermos suas criaturas e pela consagração batismal que qualifica esta realidade.
Somos criados conforme a imagem de Deus. O nosso criador está muito acima de nós. Tudo faz parte de um grande mistério. Por esta razão é muito difícil de nós nos conhecermos e nos entendermos numa dimensão mais profunda. As curas que Jesus realizava faziam que as pessoas vivessem uma nova dimensão. Não há cura sem conversão. Se vivermos uma total entrega numa amizade profunda com Jesus teremos também nós a experiência de sermos curados, pois todos somos enfermos pela presença do pecado no mundo.
É interessante de se observar como Jesus segura na mão da sogra de Pedro e ela se levanta e se põe a servir. O toque de Jesus é curativo porque Deus é o autor da vida. O poder divino de Jesus transforma todas as coisas em novas. Quando Ele nos toca nos transforma, nos capacita para vivermos uma vida nova cheia de alegria e paz. O fato de esta mulher sair e se por a serviço nos indica que a experiência de amor com Cristo nos leva a uma ação que não é mais vazia. A verdadeira evangelização é fruto de amor. Não é fruto de uma teoria vazia. Não adianta pensar e falar sem amar, pois é o amor que vai fazer a diferença em nossa vida.
Hoje temos muitas religiões do imediatismo que se utilizam de Cristo para seus próprios benefícios. É cultuado o “deus dos consolos” e não os “consolos de Deus” que passam pela cruz e pelo sacrifício oferecido. Quando esquecemos o valor da doação e do oferecimento começamos a pensar em nós mesmos. Estas religiões servem mais para um crescimento econômico dos pregadores do que para solucionar na raiz o problema existencial das pessoas. Oferecem soluções imediatas para problemas que tem grande profundidade. Normalmente os que abandonam a Igreja são pessoas fracas na fé que tem um nível cultural e espiritual insuficiente e com uma afetividade desajustada. Temos três grandes tesouros que jamais podemos abandonar pela pregação de qualquer pessoa que são a Palavra de Deus, a Eucaristia e a Devoção a Maria como intercessora e modelo de obediência a Deus. Tudo que fere estes grandes tesouros não vem de Deus.
Sem a fé com base no evangelho não poderemos entender o sentido do sofrimento que faz parte de nossa existência limitada em preparação para a eternidade onde estas características não terão mais influência sobre nós. Quando aprendemos o sentido da negação de nós mesmos, o despojamento de nosso egoísmo vamos aceitando a realidade de nossa vida e vencendo o imediatismo, o relativismo e o individualismo.
O que adiantaria sermos curados fisicamente se nossos sentimentos e nossa entrega a Deus não são curados? O que adianta termos tanta prosperidade se não nos amamos e somos solidários? Nesta crise de relacionamento que estamos vivendo precisamos recorrer ao que realmente pode nos ajudar. Precisamos buscar em Cristo, o verdadeiro amigo, uma vida de conversão e mudança em busca do essencial.
“Curai Senhor Jesus o nosso coração de todo fechamento ao vosso infinito amor”.
padre Giribone - OMIVICAPE



Saiu para um lugar deserto… (Mc. 1,29-39)
Imerso em intensa vida missionária, Jesus acha tempo para rezar. Sujeito a intensa pressão, solicitado pela multidão, dividido entre amigos (os discípulos), inimigos (fariseus, saduceus, homens do Templo) e necessitados (cegos, surdos, paralíticos, enfermos…), Jesus procura o Pai no silêncio.
Bastaria o exemplo do Mestre para que não caíssemos na armadilha de uma vida hiperativa sem o correspondente equilíbrio da vida orante. Na prática, porém, quantos fracassos devidos ao excesso de confiança em si mesmo e à falta de apoio na graça de Deus! De modo geral, a figura de um fiel dedicado à oração – exatamente porque conta acima de tudo com as luzes e as forças de Deus – costuma ser tomada como imagem de fuga do mundo, descompromisso com a realidade ou, na expressão marxista assimilada pelos cristãos, “alienação”.
Traço típico da civilização ocidental, onde louvamos a eficiência e a produtividade, a ênfase na ação deriva de uma visão otimista de nós mesmos e da aposta quase exclusiva no resultado de nossas atividades. Um mestre do Oriente diria que nos falta uma dose de humildade…
Gerhard Tersteegen [1697-1769] reflete sobre este equilíbrio necessário:
“Se alguém é verdadeiramente chamado e enviado pelo Salvador para o serviço e o despertar do próximo, a vida ativa deve permanecer sempre submissa à vida contemplativa, e esta última deve permanecer como sua preocupação mais importante.
Quero dizer que esses discípulos não deveriam dedicar todo o tempo a agir, sair e falar, mas que também é necessário a tais apóstolos reunir-se frequentemente junto a Jesus para com ele se entreter e repousar um pouco em um local deserto (cf. Mc 6,30-31). Isto permite que o serviço da Palavra permaneça sempre ligado à perseverança na oração (cf. At 6,4) e a ela subordinado.
De modo geral, aliás, eles jamais deveriam entregar-se desmedidamente às relações e ao trabalho com o próximo, sob o risco de negligenciar a vigilância sobre si mesmos, ou deixá-la em segundo plano diante do ensinamento, e poderia ocorrer que, depois de terem pregado aos outros, sejam eles mesmos desqualificados (cf. 1Cor 9,27).”
Em plena agonia, sabendo que chegara sua hora extrema, Jesus convida os apóstolos a acompanhá-lo na oração. Pouco depois, ele volta e os encontra adormecidos. Ainda ressoa em nossos ouvidos a sua queixa dolorida: “Não pudestes vigiar uma hora comigo?!” (Mc 14,37) E advertiu seus seguidores: “Levantai-vos e orai para não cairdes em tentação”. (Lc 22,46)
Orai sem cessar: “Minha alma aguarda pelo Senhor mais que as sentinelas pela aurora.” (Sl. 130,6)
Antônio Carlos Santini



“(…) A centralidade da missão de Jesus encontra-se na revelação do Reino de Deus, de modo que para ele é mais importante a pregação do que a realização de curas e outros tipos de milagres. Os milagres estão relacionados com a revelação, pois explicitam o conteúdo principal da pregação de Jesus que é o amor que Deus tem por todos nós e o bem que ele concede a nós como manifestação desse amor. Sendo assim, o mais importante não é o milagre em si, mas a revelação que ele traz junto de si:
Deus ama a todos nós com amor eterno e tudo faz pela nossa felicidade, e isso deve ser anunciado a todos os povos”. (CNBB)
No Evangelho, segundo São Marcos, a primeira cura realizada por Jesus é a expulsão de um espírito impuro de um homem que está sob o domínio de escribas e da sinagoga de Cafarnaum, cidade onde Jesus foi morar, ao iniciar sua missão (Mc. 1,21-28).
A lei imposta pelos escribas na sinagoga e no templo, além de ser um peso na vida das pessoas (Mt 23,1-4; Lc. 13,10-17), impedia que se pensasse e agisse orientado pelo Espírito de Deus.
Nas palavras de Paulo, “a letra mata, o Espírito é que dá a vida” (2Cor 3,6). Por isso, Jesus salva as pessoas dessa força demoníaca que cria dependência e não liberta.
Convém lembrar que, mais do que freqüentar o templo, Jesus prefere as casas, prefere o encontro com povo nos caminhos. Ali, todas as pessoas têm acesso ao encontro com Deus. No templo, só podiam entrar os sacerdotes. “Logo depois, Jesus, Simão, André, Tiago e João saíram da sinagoga e foram até a casa de Simão e de André.” (v. 29).
Esta narrativa relata a segunda cura de Jesus, conforme Marcos. Agora, é a sogra de Simão que está doente (v. 30). Logo que soube, dirigiu-se à cama em que ela estava.
Três coisas chamam a atenção:
1) “Ele chegou perto dela” (v. 31). Mais que procurar quem é o próximo, Jesus se torna próximo.
2) “segurou a mão dela”, Jesus faz algo fundamental para quem trabalha com pessoas doentes e com quem está na exclusão. Valorizando o toque, o abraço, Jesus valoriza sobremodo as pessoas debilitadas.
3) Jesus “ajudou-a s se levantar”. Enquanto estava deitada, essa mulher não podia ser sujeito com agir próprio pois dependia de outras pessoas. Colocá-la em pé faz dela uma “diácona”, uma pessoa livre para servir. “e ela começou a cuidar deles”.
Convém lembrar, também, que, se em Marcos a primeira pessoa curada foi um homem (Mc 1,21-28), a segunda foi uma mulher. Jesus tratava as mulheres com a mesma dignidade com que se relacionava com os homens. Assim como tinha discípulos, tinha também discípulas.
Quando Marcos menciona as mulheres que foram com ele até a cruz, cita Maria Madalena, Maria e Salomé, além de muitas outras mulheres que o seguiam, serviam e subiram com ele para Jerusalém como verdadeiras discípulas (Mc. 15,40-41).
E o que nos resta senão também colocar-nos em pé e, com a força do Espírito de Jesus ressuscitado, tornar-nos pessoas livres para servir?
Para concluir: Naquele dia, depois do pôr do sol e junto à porta da casa de Simão e de André, Jesus ainda curou muitas pessoas enfermas e expulsou demônios, isto é, forças contrárias a Deus e que diminuem a vida de quem está sob seu domínio.
As duas curas realizadas anteriormente, a do homem possesso e a da mulher enferma, são símbolos de toda prática libertadora de Jesus. E é prática que não para. Mesmo o sol já posto, Jesus continua libertando pessoas enfermas e endemoninhas.
A proibição de “falar, pois sabiam quem ele era” (Mc 1,34) faz parte da intenção teológica de Marcos. Ele quer evitar a idéia de Jesus como um messias triunfalista, para reforçar a fé em Jesus como o ungido pelo Espírito de Deus (Mc 1,10) que vence, aos poucos e de forma humilde como o servo sofredor, as forças contrárias ao espírito do Reino. Por isso, Marcos apresenta Jesus insistindo em que não se divulgue o seu messianismo aos quatro ventos.
A proibição se estende aos demônios (Mc. 1,25.34; 3,12), às pessoas curadas (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e a seus apóstolos (Mc. 8,30; 9,9), reservando essa revelação somente para o momento da cruz e pela boca de um estrangeiro: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc. 15,39).
Depois de um dia de atividades salvadoras e que vão noite adentro, Jesus descansa para estar com as energias renovadas para mais um dia de serviço à vida. Mas não basta novo vigor físico. Algo mais profundo é necessário.
Por isso, ainda de madrugada, Jesus se retira para um lugar deserto e ali cultiva sua íntima comunhão com o Pai, o Deus libertador do Êxodo. É que vai ao deserto, lugar por onde Deus guiou seu povo para a liberdade e “lá, ele orava” (Mc 1,35).
A comunhão com o Pai é o segredo da força de Jesus na solidariedade com as pessoas mais desprezadas de sua época, entre elas as doentes e as possessas por todas as forças de alienação e que não permitem que sejam sujeitos de suas vidas.
A intimidade com o Pai, essa espiritualidade de comunhão profunda com o sagrado, faz de Jesus uma pessoa radicalmente livre.
A oração é a fonte onde Jesus bebe do mais puro Espírito que sustenta sua ação emancipadora junto às pessoas em estado de dependência, seja em relação às enfermidades, seja em relação às forças que nos alienam, impedindo-nos de sermos filhas e filhos livres e com dignidade.
Reflexão Apostólica: 
A metodologia e andragogia (forma de ensinar adultos) são bem nítidas no evangelho de hoje. Pergunte-se: quantas vezes ao lê-lo apenas vi o milagre sobre a febre da sogra de Pedro, mas passou despercebido o processo para obtenção da graça?
Um parêntese importante: VEMOS O QUEREMOS QUE SEJA VISTO. Esse fato é muito comum. Sei que isso vai além de uma simples organização das informações por nosso cérebro, às vezes conscientemente ou não, abandonamos outras informações para selecionamos o que desejamos ver, ouvir e até ler. Isso é muito importante ao se ler a bíblia, ok? Lembre-se: A bíblia não é aquele livro MINUTOS DE SABEDORIA…
Voltando… Repare nas linhas desse evangelho a suave e bem conduzida metodologia de Jesus: Ele CHEGOU PERTO , SEGUROU A MÃO dela e AJUDOU-A A SE LEVANTAR. A FEBRE SAIU da mulher, e ELA COMEÇOU A CUIDAR DELES.
De fato, Jesus se aproxima, nos segura pela mão, ajuda-nos a levantar então a redenção acontece, a febre, o desanimo, o temor partem e de certa forma a pessoa resgatada passa a entender (caem as escamas dos olhos) que passou a ter um compromisso para que outros também se ergam.
Como ler isso e não sentir-se amado e também um pouco de pesar pela nossa ingratidão? Quantas pessoas, bem definidas por São Tiago, pedem mal, andam pelo mundo doentes, cabisbaixos, repletos de vaidades, orgulhos e de cobiça, debulhando-se em crendices e falsa fé (…); não querem entender que Jesus primeiro oferece a mão para vê-los de pé, mas se vêem interessados somente pela cura da febre, o carro novo, o apartamento novo…
Como poderemos sustentar a carga que o mundo nos oferece se estivermos debilitados pela doença que nos paralisa e vicia chamada ganância, orgulho, vaidade? O que adianta mudar por fora, se rodear de bens visíveis e ostentáveis se vivo aquela música do Moacir Franco que diz: “SE POR DENTRO EU NÃO MUDO”?
Muitos não conseguem ver que são a grande prioridade para Deus e o Senhor bem sabe o que cada um precisa. Outros, porém perderam um pouco o zelo, esquecem que para continuar avançando precisam dessa aproximação de Jesus em suas vidas. Esse é um fato comum após quinze ou vinte anos a frente de uma obra, de uma pastoral, de um movimento. Parece que alguns estão no automático.
Outros, porém ainda não conseguem ver ou sentir o vinculo que temos ou precisamos ter com os outros. Talvez não tenham culpa de verem a vida dessa maneira, pois assim foram criados e acostumados, no entanto uma boa parcela deles vive assim de vontade própria e conscientemente.
Odeiam regras, não se adaptam a sistemas de trabalho onde não podem impor suas regras; tentam transformar o pensamento das pessoas para de certa forma atende-las; são inteligentes e sabem manipular as pessoas pela emoção.
Santo Agostinho tem uma frase muito interessante sobre isso: “DOIS HOMENS OLHARAM ATRAVÉS DAS GRADES DA PRISÃO. UM VIU A LAMA, O OUTRO AS ESTRELAS”.
Algumas pessoas têm maior facilidade de reerguer-se, de compreender, de acatar, pois sua fé em Deus a nutre dia-a-dia; outras, porém se apegam em coisas materiais, no sofrimento e em futilidades
A cura não vem para aquele que mantém o coração fechado ao passo a passo de Deus. João Paulo II disse certa vez: “A PIOR DAS PRISÕES É UM CORAÇÃO FECHADO”.
Vemos algumas delas em nossas comunidades, no trabalho, na faculdade, em cargos de liderança ou de grande influencia. Por ter seu mundo seus próprios umbigos talvez inconscientemente também façam de Deus alguém que deva agradá-los, pois são capazes de trocar de paróquia (de bairro para outro) ou credo (católicos que se tornam evangélicos ou vice – versa) como se trocassem de roupa se forem contestadas ou não contempladas.
Uma coisa é certa… Elas pedem muito. E como pedem. E depois, será que fazem?
Como bem vimos, a fase inicial da graça é a aproximação de Jesus para nos estender a mão e nos ver levantar. Precisamos deixar nossa vida nas mãos de Deus, pois de fato Ele sabe o que precisamos. Pedir sim, mas assumindo nossa parte após a redenção. Como propôs a CNBB “(…) o mais importante não é o milagre em si, mas a revelação que ele traz junto de si”.
Reflitamos esse pensamento:  “(…) Animados deste espírito de fé, conforme está escrito: Eu cri, por isto falei (Sl. 115,1), também NÓS CREMOS, E POR ISSO FALAMOS, pois sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, nos ressuscitará também a nós com Jesus e nos fará comparecer diante dele convosco. E tudo isso se faz por vossa causa, para que a graça se torne copiosa entre muitos e redunde o sentimento de gratidão, para glória de Deus “. (II Cor. 4, 14-15)
Se realmente creio, levanto.
Propósito:
Senhor Jesus, eu te procuro com sinceridade, na certeza de encontrar, em ti, palavras que façam reviver a esperança no meu coração.
Sidnei Walter John



“Pregar o evangelho que cura”
A vida do homem é uma luta
Jesus inicia a pregação do Evangelho para a salvação integral do corpo e da alma como uma unidade. Outra dimensão clara da missão de Jesus é a transformação do coração para servir tanto ao anúncio como à cura dos males que afligem o ser humano. A leitura do livro de Jó reflete a condição humana à qual Jesus se dirige. Assumiu essa condição, por isso sabia onde estava a dor das pessoas. Jó descreve essa angústia existencial de sofrimento, de cansaço, de dor, de carência e de desencanto. Diz “os meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear” (Jo 7,6). A lançadeira ou canoinha é o instrumento que, no tear, trabalha com a linha que faz o trançado do tecido. Além do mais, Jó não vislumbrava futuro. Jesus, tendo essa situação diante dos olhos e no coração, veio como médico para sanar todas as dores. Sua pregação se faz através das palavras que curam os corações e seus gestos que curam os corpos. É bonito imaginar esta cena: “À tarde, depois do por do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio… Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios” (Mc 1,32.34). As pessoas atribuíam as doenças à possessão diabólica. É diferente da possessão diabólica que entendemos. Por estar desligada da vida do povo, podemos perceber como a pregação que fazemos não tem o efeito que pretendemos. Privilegia somente o intelectual. Por isso não cala nos corações. Jesus falava mais através dos gestos concretos. Não se trata de fazer milagres ou expulsar demônios, mas criar situações nas quais as pessoas possam se libertar dos males que sofrem. O carinho de Jesus pelas populações vem do conhecimento que tem de sua vida, pois a vivia. Sabemos que a Igreja corre o risco de descuidar-se do o povo, deixando-o a sua sorte. Depois reclamamos das saídas das pessoas para outras igrejas.
Pelo Evangelho, faço tudo
Paulo, seguidor apaixonado de Jesus, tinha o anúncio do Evangelho como sua missão e sua vida. Se não tivermos essa loucura pelo Evangelho, seremos inócuos no anúncio. Ele descreve que pregar o evangelho se tornou para ele uma segunda natureza: “Pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu ao pregar o Evangelho” (16). Sente-o como um encargo que lhe foi confiado. O salário de Paulo é o direito de anunciar sem receber paga sem usar os direitos que o evangelho lhe dá (1Cor 9,18). Paulo acompanha o modo de ser e viver de Jesus, vivendo no meio do povo, tornando-se escravo de todos… com os fracos, eu me fiz fraco para ganhar os fracos, Com todos eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do Evangelho eu faço tudo, para ter parte nele (18). E Jesus andava por toda a Galiléia pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
A serviço do Evangelho
A cura da sogra de Pedro é uma explicação do resultado da obra apostólica: Jesus saiu da sinagoga e foi para a casa de Pedro. A sogra estava doente e contaram a Jesus. Ele a tomou pela mão e ela começou a servi-los. É a transformação radical da pessoa, sair de si e servir. Paulo se põe a serviço, fazendo-se escravo de todos. Outro grande serviço é a oração, como Jesus que sempre se encontrava com o Pai. Sem o relacionamento com o Pai se perde a dimensão maior da evangelização. Por isso a importância da oração, sobretudo na comunidade. Pregador sem Deus prega a si mesmo e não toca os corações. O grande drama da pregação é a falta de coerência, isto é, santidade.


Jesus inicia sua pregação do Evangelho para a salvação integral, corpo e alma. Transforma o coração para servir no anúncio e na cura dos males. Jó apresenta a situação do homem. Jesus assume essa condição para curá-la. Cura pela palavra e pelo milagre. Perdemos a força evangelizadora quando deixamos o povo.
Paulo tem o Evangelho como vida e missão. Não o faz por lucro, mas serve como escravo. Faz-se fraco com os fracos, como Jesus.
A cura da sogra de Pedro exemplifica a pregação de Jesus. Cura para colocar-se a serviço. Um serviço fundamental de Jesus e nosso é a oração. Sem a oração perde-se a condição de evangelização. 
Médico sem jaleco 
Jó nos diz que a vida não é fácil. A vida é um sopro. Há momentos em que nos desanimamos. Aqui então aparece o médico que buscamos. Ele não usa jaleco.
Marcos narra os milagres de Jesus. Não é para fazer bonito. Ele nos mostra que com eles vence o mal, não só do corpo.
As curas que Jesus faz têm uma finalidade, como podemos ver na cura da sogra. Ela estava com febre. Ele a tomou pela mão e a febre desapareceu. E ela se pôs a servi-los Dizer-se curado é por-se a serviço. As curas que fazia eram para que as pessoas se pusessem a serviço. Hoje muitos são curados e não aprendem a por-se a serviço.
De onde Jesus tira sua energia? A sintonia de Jesus com o Pai está em sua oração constante. Por isso sua obra apostólica vai para muitos lugares. Vejamos como a falta de oração nos faz tão fracos na fé e no serviço.
Jesus abriu os olhos de Paulo para a fé. Sente que é uma obrigação sua a evangelização. Evangelização não é elenco de doutrinas, mas a união de sua vida com todos: Por causa do Evangelho eu faço tudo para ter parte nele.
É preciso pegar o jaleco de Jesus.
padre Luiz Carlos de Oliveira


Somos libertados e salvos para servir
Jesus se encontra na sua missão na Galiléia(Mc 1,14-3,6), especificamente em Cafarnaum (Mc 1,21-39). Podemos dividir o texto em algumas partes. A primeira parte(vv.29-31) relata a cura da febre da sogra de Simão que é considerada como o segundo milagre de Jesus no Evangelho de Marcos. A segunda parte(vv.32-34) apresenta um sumário da atividade de Jesus na tarde do primeiro dia. A terceira parte(vv.35-39) fala da conclusão da atividade de Jesus em Cafarnaum com alguns pequenos detalhes da mesma.

1. A Cura Da Febre Da Sogra De Simão (vv.29-31)    
Depois da cura do endemoninhado na Sinagoga de Cafarnaum (veja o 4º Domingo) que é o primeiro milagre de Jesus segundo Marcos, o evangelista narra como o segundo milagre, no fim do primeiro dia de atividade de Jesus, a cura da febre da sogra de Simão na intimidade de uma casa (não mais na sinagoga). Isto nos mostra que Jesus é o libertador tanto para o ambiente oficial (sinagoga, onde se encontra o endemoninhado) como para os ambientes privados (casa, onde se encontra a sogra de Simão).
A casa onde acontece a cura da sogra de Simão não significa apenas como lugar de moradia ou centro produtivo (onde se fabrica o pão, o azeite, o vinho, manteiga, queijo etc.), mas principalmente, neste caso, como símbolo de um novo sistema de relações de convivência oposto ao espaço oficial simbolizado pela sinagoga. A casa, aqui, simboliza um sistema de convivência alternativa, onde as pessoas têm posse de sua própria vida, e onde existem relações imediatas sem nenhuma formalidade, pois todos se sentem à vontade, e  em casa todos têm o domínio sobre o próprio espaço. Em casa ninguém é chamado pelo título, mas pelo nome. Em casa cada um é gente e não um número. Neste ambiente é que Jesus curou a febre da sogra de Pedro.
Para os antigos, as doenças e principalmente a febre eram obra do demônio ou de origem demoníaca (cf. Lc 13,11-16), que suga a saúde das pessoas que resulta na diminuição da capacidade de viver e de usufruir a vida na sua plenitude (“está de cama”, prostrada). Por isso, Jesus expulsa a febre como se expulsasse o demônio (cf. Lc 4,39), o mesmo termo que se usa em Mc 1,25. No v. 31 diz-se que “a febre a deixou”. É uma frase que poderia ser entendida como “o demônio da febre foi embora”. A “febre” se considera como se fosse uma entidade.
No relato da cura não se narra gestos mágicos de Jesus como ordenar a saída do demônio (cf. Mc 1,25). Jesus se mostra, aqui, solidário com a humanidade sofrida: ele se aproxima, abaixa-se, tomar a mão da mulher e fazê-la levantar-se. A força da solidariedade sempre causa o reerguimento de quem estiver prostrado sobre o peso de problemas da vida.
O relato sublinha também o uso de determinados termos que para Marcos têm significado próprio, como “tomar pela mão” e “fazer levantar”. Estas duas expressões são usadas em cenas de ressurreição. O termo “levantar-se” ”(o verbo em grego “egeiro”, “levantar” também significa “ressurgir da morte”, cf. Mc 14,28; 12,26)  aparecerá também na cura do paralítico (Mc 2,9-11) e na do cego de Jericó (Mc 10,49). E o mesmo termo será usado no anúncio da ressurreição do próprio Jesus (cf. Mc 16,6). Em outras palavras, o gesto de Jesus de levantar a sogra de Simão antecipa a vitória de Jesus sobre a morte e antecipa, consequentemente, nossa ressurreição vista no reerguimento da sogra de Pedro. A expressão “tomar pela mão” também tem um significado como um gesto típico da salvação de Deus quando resolve levantar o seu povo abatido, isto é, ressuscitá-lo de uma situação mortal (cf. Is 41,13;42,6;45,1;Sl 73,23-24).
Jesus ajuda a sogra de Simão a se levantar que a impedia de servir, pois, de fato, logo depois, “ela se pôs a servi-los” (v.31b). Isto significa que a sogra de Simão, mulher ressuscitada, vai começar a fazer parte da casa de Jesus ou do grupo dos seus discípulos cuja missão principal é servir para salvar; servir para que outro viva. Aqui a sogra de Simão que foi curada representa todos os pequeninos levantados por Jesus (a mulher era desvalorizada) e aqueles que são prontos para servir os outros.
Seguir Jesus, neste sentido, significa servir e não dominar nem alienar. O Reino de Deus é, certamente, caracterizado por um amor serviçal. O serviço é a atitude característica de quem segue Jesus. Cada pessoa é levantada por Jesus para se integrar à comunidade de servidores. O serviço constitui a identidade cristã (cf. Rm 12,9-13;Gl 5,13;Fl 2,5-7;Ef 5,21). E Jesus vai educando ou ensinando os discípulos lentamente a viver esse novo caminho de vida, isto é, SERVIR (cf. Mc 9,35;10,43-45). E o próprio Jesus se propõe como modelo de servir os outros (cf. Mc 10,45;Lc 12,37;Jo 13,1-17). Nós acolhemos o Reino de Deus quando colocamos a nossa vida a serviço dos demais pela sua salvação (cf. Mc 9,33-35). Mas quando se fala do serviço não se trata do serviço escravo, que degrada a pessoa. Trata-se do serviço fraterno, expressão de amor. O amor é que dá dignidade ao serviço.
A comunidade cristã primitiva não estava interessada nos milagres de Jesus meramente como fatos extraordinários. Eles são uma manifestação do poder de Deus que se atua em Jesus e ao mesmo tempo, são uma proclamação da plenitude do tempo (cf. Mc 1,15). O poder de Jesus proclama a realidade presente do Reino de Deus (cf. At 2,22). Eles acreditam que Jesus é o Salvador e que através das obras  de sua vida terrena, ele antecipa as realidades divinas comunicadas aos fiéis. Entendido desta maneira, o relato se torna um retrato simbólico para os fiéis onde eles, antes, se prostravam sob o poder do pecado, mas agora são levantados por Jesus, e são chamados a servi-Lo nos irmãos, seus próximos (v.31.

2. Resumo Da Atividade De Jesus Na Tarde Do Primeiro Dia De Sua Atividade (vv.32-34)
A segunda parte do texto do Evangelho  tem um gênero literário típico conhecido como “sumário”. Este gênero pode encontrar-se em outras partes deste evangelho (cf. Mc 1,14-15;3,7-12;6,6b; veja também At 2,42-47;4,32-37;5,12-16).
Esta segunda parte começa com esta expressão: “depois do pôr-do-sol”. Esta expressão quer nos dizer que a obrigação do repouso sabático termina (cf. Mc 1,21). Consequentemente, o povo pode levar os doentes a Jesus nesse horário. A lei do sábado não permite alguém transportar cargas durante o dia santo (cf. Jr 17,24). Só a partir das seis da tarde é que começa o novo dia. A lei do sábado, em vez de libertar, domina as pessoas e as enche de escrúpulos e de angústias.
A população angustiada e doente (necessitados) se encontra na porta da casa/na praça (cf. Mc 2,2) em busca de solução de seus problemas em Jesus. Três vezes temos visto Jesus curando o povo: primeiro, ele curou alguém na sinagoga; segundo, ele curou a sogra de Simão na sua casa; e terceiro, ele curou a multidão na porta (rua). Jesus não escolhe nem o lugar nem a pessoa. Ele resolve o clamor da humanidade em necessidade. Onde quer que se encontre uma enfermidade, Jesus está lá pronto para usar o seu poder de cura. Até nos dia santo para o povo como o Sábado, Jesus cura. Para ele a salvação do ser humano está acima da lei religiosa por sagrada que ela pareça ser. A salvação é destinada a todos, especialmente aos marginalizados em todos os sentidos. E os necessitados pode ser encontrados dentro das igrejas  e fora delas. A presença de um necessitado é um apelo para cada cristão agir e oferecer alguma solução. Nenhum cristão poderia dizer: “Isso não é meu problema!”. Por acaso, Jesus veio para este mundo para fazer uma viagem turística?
Ao libertar os endemoninhados, Jesus “não permitia que os demônios falassem, pois eles sabiam quem ele era” (v.34). Esta ordem de calar os demônios tem por finalidade de alertar o povo/leitor para que não faça uma conclusão apressada ou precipitada sobre a verdadeira identidade de Jesus antes de sua manifestação definitiva: a morte e a ressurreição. Ninguém pode se precipitar. Tudo tem que ser checada e verificado antes de pronunciar qualquer tipo de sentença, pois uma palavra dita não tem volta. Esta ordem também quer ressaltar a ignorância humana acerca do Messias Jesus: os demônios conhecem quem é Jesus, enquanto que os próprios seguidores não conhecem quem Jesus é. Só pode ser uma ironia.
Nunca podemos decifrar definitivamente o mistério da pessoa de Jesus. Ninguém pode fazer uma conclusão apressada ou precipitada a respeito de Jesus. Somos convidados, por isso, a decifrar progressivamente, dia após dia, o enigma da presença de Jesus na nossa vida e o segredo da força misteriosa que tem produzido tantos mártires na história do cristianismo por causa de Jesus. É uma força inexplicável que faz alguém abandonar tudo para se agregar a Jesus. É uma força que alguém encontrou para se levantar novamente. Só em Jesus podemos encontrar resposta e a força perdida. Jesus é a fonte de nossa força que não se esgota jamais. Voltar a Jesus significa renovar as forças para cada um continuar a caminhar.

3. A conclusão da atividade de Jesus em Cafarnaum e a sua saída silenciosa (vv.35-39)
A atividade de Jesus em Cafarnaum se conclui com a oração solitária: “No dia seguinte, quando ainda estava muito escuro, ele se levantou e foi para um lugar deserto e lá rezava”(v.35). Enquanto isso, os discípulos estão o procurando (v.36-37). No final deste Evangelho Jesus fará a mesma coisa e os discípulos vão procurá-lo: ele se levanta de madrugada (Mc 16,2), os seus o buscam de maneira equivocada (Mc 16,1-3), é preciso ir adiante pela Galiléia (Mc 16,7). Para Mc o primeiro dia do ministério de Jesus é o modelo de toda a atividade missionária de Jesus. Cada atividade missionária ou evangelizadora sempre segue o mesmo ritmo: sair da oração para a missão e voltar da missão para a oração. Sem seguir este ritmo, o espírito mundano vai começar a dominar nossas atividades.
O encerramento da atividade de Jesus em Cafarnaum simboliza o encerramento de toda a carreira de Jesus, pois no fim ele se retirará, angustiado, para encontrar  forças na oração a fim de que possa estar plenamente em sintonia com o desígnio de Deus que faz vencer a tentação.
Logo no início de sua atividade Jesus se retira para orar a só. Jesus percebe a má intenção do povo de fazê-lo um taumaturgo para solucionar problemas cotidianos do povo (o povo quer uma vida fácil sem luta; quer uma vitória de graça sem querer superar as dificuldades; é como querer diploma sem estudar; veja também Mc 6,45-46).  A multidão quer ficar com Jesus, porque ele pode fazer tudo sem nenhum esforço ou trabalho; trata-se de uma vida fácil. Estimula-se, assim, a preguiça. A multidão vem a Jesus não porque o ama ou porque ele tem uma nova visão desta vida; em última análise, a multidão vem usá-lo. Deus não é alguém para ser usado nos momentos difíceis, mas alguém para ser amado e relembrado todos os dias de nossa vida, pois Deus é a origem e o fim de tudo. Este desejo se expressa na busca de Jesus por Simão e os outros que estão com ele. Procurar aqui tem um tom negativo; eqüivale a perseguir. Simão e os companheiros tentam afastar Jesus dos caminhos de Deus (cf. Mc 8,33;10,28;14,29-31). Ao perceber esta tentação, Jesus se refugia na oração para combater os riscos de desviá-lo do projeto do Pai. Jesus faz o bem não para buscar os aplausos. Ele faz o bem e retira-se e se dispõe a partir para outros lugares, pois todos têm o direito de receber a salvação. Este mesmo Jesus não busca os aplausos como os outros homens, mas os imitadores de seus gestos e passos.
Jesus é capaz de deixar a multidão, de deixar até os que dele precisam, para consagrar umas horas ao Pai. Sem esta volta à fonte, sua alma humana não teria força de levar adiante sua missão de Salvador. A oração para ele é um refúgio.
Com o ato de retirar-se para orar, Jesus quer ensinar seus seguidores que a oração é uma força para viver bem de acordo com os planos de Deus. Mais tarde, em Mc 9,29, ele vai chamar a atenção dos discípulos que não conseguem expulsar um demônio de um jovem ao dizer: “ Esta espécie de demônio não se pode expulsar senão com a oração(e jejum).”  Como se Jesus quisesse dizer-lhes: “Vocês não estão rezando. Vocês somente se preocupam com o poder. Por isso, vocês não conseguiram curar o jovem”.
Este relato nos faz perguntar: “Quais momentos de retirar-se no seu dia-a-dia?” Retirar-se significa deixar-se guiar por Deus, para não deixar-se possuir por ninguém. Uma oração autêntica e profunda torna a pessoa, que a faz, sensível ao sofrimento alheio e buscar meios ao seu alcance para solucioná-lo. E a torna humilde. “Se você é humilde, nada vai tocá-lo, nem glória nem desgraça, pois você sabe o que (queme) você é” (Madre Teresa de Calcutá).
padre Vitus Gustama,svd


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