6º DOMINGO TEMPO COMUM
Evangelho - Mc 1,40-45
A compaixão de Jesus foi
maior que os ditames da Lei. Por isso Ele tocou o leproso e o libertou daquele
sofrimento. Continuar lendo
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“SE QUERES TENS O PODER DE CURAR-ME.” – Olivia Coutinho.
6ª DOMINGO DO TEMPO
COMUM
Dia 11 de Fevereiro
de 2018
Evangelho de
Mc1,40-45
Ninguém passa em
vão, perto de Jesus, mudanças profundas acontecem na vida de quem toca e se
deixa por Ele!
O ponto fundamental
de todos os ensinamentos de Jesus sempre foi o amor, Jesus era
movido pelo o amor, por onde Ele passava, a
sua presença, exalava amor, todas as suas ações se convergiam em favor da vida.
Como continuadores
da presença de Jesus aqui na terra, não podemos ficar indiferentes ao
sofrimento do nosso irmão e nem deixar que ele desconheça a verdade que liberta.
O evangelho que a
liturgia deste Domingo nos convida a refletir, continua narrando as
ações libertadoras de Jesus, mostrando-nos o quão é grande, a sua
compaixão para com os sofredores!Desta vez, o
beneficiado desta ação libertadora de Jesus, foi um homem acometido por uma doença
que não somente lhe causava feridas no corpo, como também, feridas profundas na
alma: a lepra, hoje
conhecida como hanseníase.
A lepra, naquele
tempo, era uma doença incurável, quem a contraia, era visto como impuro
condenado ao isolamento, a viver fora do convívio social, religioso e
familiar. E se alguém era curado desta doença, sua cura era atribuída
exclusivamente a Deus! E para que uma pessoa curada, pudesse voltar a sua
vida normal, era preciso que esta cura, fosse constatada pelos os
sacerdotes, somente eles, poderiam autorizar a sua reintegração ao
convívio social...
O leproso, citado
no evangelho, já havia perdido a esperança no humano, ele viu em Jesus, a sua
única possibilidade de cura, por isso não hesitou em infringir as leis, para
chegar até Ele! Prostrado aos pés de Jesus, ele diz: “Se queres, tens o
poder de curar-me.” E contrariando as leis, que proibiam qualquer contato com
os leprosos, Jesus, não somente permite que aquele leproso se aproxime Dele,
como também, toca nele, dizendo: “Eu quero: fica curado!”
Ao ser curado,
aquele homem, sente abraçado por Deus, experimentando no corpo e na alma,
a ação libertadora de Jesus! A partir de então, ele recobra para além da sua
vida física, a sua vida social, familiar e religiosa.
Superada a
marginalização, e completamente revestido da graça de Deus, ele vê surgir
diante de si, novos horizontes! E mesmo sendo recomendado por Jesus, para não
espalhar o acontecido, ele não consegue obedece-lo, pois não consegue guardar
só para si, tamanha alegria!
A se ver livre da
lepra, aquele homem, proclama com veemência o nome de Jesus, dando testemunho
da sua cura.
Esta narrativa nos
mostra, que pela fé, é possível vencer todos os obstáculos que nos impedem de
aproximarmos de Jesus, de sermos tocados por Ele! A fé abre caminhos, nos
coloca diante de Jesus, como colocou aquele leproso.
Sintamos também,
abraçados por Deus, libertos das muitas “lepras” que nos impede de abraçar o
outro, de vivermos como irmãos.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Os nossos males
crônicos
A Liturgia da Palavra deste VI
Domingo do Tempo Comum nos lança um sério tema para a nossa reflexão: a
exclusão social! Somos todos chamados em causa! (I Leitura). A “lepra” que
promove a exclusão hoje continua dentro de nós. Trata-se de males para os quais
não há cura, mas a Fé nos fornece tratamento porque nos educa ao discernimento
para sabermos escolher o que convém (II leitura). Jesus nos convida ao combate
à exclusão através da prática da acolhida sem preconceito (Evangelho).
1ª. Leitura: LEVÍTICO
13,1-2.44-46 – A COMUNIDADE E O INDIVÍDUO IMPURO
O contexto sócio-cultural desse
texto nos convida a uma atitude de compreensão dessa forma de tratamento ao
leproso (de antigamente!) que, para os padrões de hoje nos parece tão
cruel. A preocupação primária que aparece no contexto dos capítulos 13-14 do
livro do Levítico, não é a exclusão em si como forma de punição do doente, mas
tem a intenção de preservação da pureza ou saúde da comunidade, uma vez que a
lepra era uma doença incurável (cf. Lev. 13,11), uma terrível maldição
contagiosa e humilhante (cf. Lev 13,51; 2Cr 15,5; 2Cr 26,
21). Era uma ameaça para a comunidade. Na base dessa narração está uma
limitação científica: ainda não se conhecia as causas dessa doença e, por isso,
se lhe atribuía uma origem divina: uma maldição de Deus. É por isso que não
aparece no texto a figura do médico que deveria examinar os doentes, mas a do
sacerdote. A pessoa que era acometida de manchas na pele que produzissem
suspeita de lepra, era logo levada ao sacerdote para ser examinada (cf. Lv.
13,1-3). Estamos em numa fase primitiva da busca de compreensão da causa e
consistência dessa doença enigmática e desfiguradora. Certos de seu contágio,
da sua característica deformadora e sem remédio, o que fazer com os doentes? A
declaração pública de “impuro” não era banalizada. O zelo pela saúde da
comunidade motivou os líderes (sacerdotes, sobretudo) a estabelecerem sérios
procedimentos de tratamento de cada caso: a pessoa doente, era isolada para ser
analisada por diversos dias (cf. Lev. 13, 3-5), observava-se o desenvolvimento
da doença (cf. Lev. 13,8) em fim, após a comprovação da mesma, o sacerdote
fazia a declaração. Aquele que recebia o resultado positivo do exame, era
imediatamente afastado do convívio comunitário para não contaminar os outros
(cf. Lev. 13, 46), assumia a responsabilidade de reconhecer o próprio estado de
impureza por onde andasse gritando: «Impuro! Impuro!» além de adotar uma
postura diferente capaz de ser logo reconhecido pelos membros da comunidade
andando com roupas rasgadas, despenteado e barbado (cf. Lev. 13, 46).
Nossa Vida:
O que nos interessa aqui diante
do texto citado, não é fazer uma crítica sociológica desse fato, mas aprofundar
o sentido ético-teológico da sua mensagem para nós hoje. Estamos diante de uma
brilhante narração que revela-nos diversas mensagens muito significativas: a) O
ser humano padece de males crônicos: há males que nos acompanham ou deixam em
nós ou nos outros, seqüelas para toda a vida: o orgulho, o egoísmo, a
desonestidade, o medo, a mesquinhez, o comodismo ... são males que nos excluem
da vida da comunidade, da comunhão com os outros, da felicidade...;
b) É necessário buscar o equilíbrio entre o “indivíduo contaminado” e a
“preservação da saúde da comunidade”: bem sabemos que um indivíduo
“contaminado” pode comprometer o bem-estar de uma inteira comunidade.; c) É
necessário crescer na consciência da própria doença: trata-se de uma atitude de
honestidade em vista de não causar males aos outros. Em nossa sociedade ninguém
declara a “própria impureza” e por isso, cresce a cada dia, os contaminados
pela corrupção, pelo suborno, pela mentira etc. Mas também pela AIDs, doença
venéreas, etc Contudo, veremos no evangelho que os parâmetros colocados
por Jesus para a resolução desse problema, vão muito além desses aí
apresentados. Não basta que a comunidade adote uma atitude defensiva em relação
ao indivíduo “doente”, é necessário buscar de todas as formas, mecanismos que
possam romper com o circulo vicioso da exclusão; como? Combatendo à raiz, os
males individuais: é necessário promover o tratamento das pessoas e elas devem
ser responsabilizadas por isso. Essa atitude, de corresponsabilidade conjunta,
é aquela que encontramos também no processo de tratamento e cura de Naamã, o
chefe do exército do rei de Aram que, apesar de ser um homem de bem, estimado e
valente, ficou leproso (cf. 2Rs 5, 1-27), mas graças às iniciativas de
“cuidado” da comunidade, ficou curado Deus lhe veio ao seu encontro e ficou
curado (a fé cura!).
SALMO 32 (31): Este salmo é uma
oração de gratidão a Deus por causa do perdão recebido, na qual a conversão é
apresentada como fonte de alegria para o salmista. Por isso diz: “Feliz aquele
cuja ofensa é absolvida, a quem Deus não acusa nenhum pecado” (Sl 32,1-2). O
salmista narra a experiência do peso que sentia quando estava em pecado (cf. Sl
32,3-4), mas depois da confissão, veio-lhe a experiência do alívio libertador
(cf. Sl 32,5-7). Conclui essa oração com um conselho de sabedoria: é preciso
não ser teimoso no mal, incapaz de compreender o caminho da retidão, pois os
injustos sofrem tormentos (cf. Sl 32,8-9). Vale a pena, então, estar em
comunhão com Deus e viver na alegria (cf. Sl 32,11).
2ª. LEITURA: 1Cor. 10, 31-11,1 –
META A SER ALCANÇADA: A LIBERDADE RESPONSÁVEL
Este breve trecho está inserido
dentro de uma polêmica discussão enfrentada por Paulo que causou impacto entre
cristãos: aquela dos alimentos puros e impuros. Paulo encerra a discussão
declarando como Jesus que todos os alimentos são bons, que não há alimento
físico capaz de contaminar o espírito (cf. Mc 7,19). Paulo vai além e,
ousadamente afirma: «tudo é permitido. Mas nem tudo convém. Tudo é permitido.
Mas nem tudo edifica. Ninguém procure satisfazer aos seus próprios interesses,
mas os do próximo” (cf. 1Cor 10,23-24). Conclui essa interessante reflexão
dizendo aos cristãos de Corinto que, seja no comer ou no beber, ou façam
qualquer outra coisa, tudo seja feito para a glória de Deus. Paulo preocupa-se
com a possibilidade de ver seus fiéis alimentando a fé na Ressurreição e ao
mesmo tempo vivendo subjugados às superstições que delimita o que fazer e o que
não fazer, o que comer e não comer, o que é puro e o que é impuro! Quem vive
movido por superstições, neutraliza a própria a fé e sua liberdade perde força.
Quem tem fé não se deixa orientar por essas coisas. Mas para evitar escândalos
para os fracos de espírito, Paulo apela para o princípio da Caridade. Sim, é
necessário não causar escândalos, ou seja, mal-estar aos outros levando-os a
desacreditar no Bem. Nas entrelinhas, o apóstolo com a sensibilidade de um
pedagogo, apela para importância do Bom senso que sabe reconhecer, de acordo
com as circunstâncias, aquilo que convém e aquilo que não convém. Foi dessa
maneira que ele sempre agiu e por isso se colocou como modelo a ser imitado:
buscar agradar em tudo, quanto possível, a todos e não procurar a
satisfação dos próprios interesses (cf. 10,32-33).
Nossa Vida:
Esse texto paulino tem muito a
ver com o tema “lepra” apresentado hoje na primeira leitura e no Evangelho. Uma
das mais graves “lepras” dos nossos dias que gera graves conseqüências é a
ignorância, o analfabetismo moral, a ausência de consciência dos mais
importantes recursos humanos naturais (a inteligência, liberdade, vontade...).
A lepra da ignorância é a responsável pela explicação supersticiosa da
realidade, ela é a mãe da superstição que gera nas pessoas uma mentalidade
passiva, medrosa, acorrentada, oprimida, limitada... inibidora do
desenvolvimento humano. A ignorância, mãe da ingenuidade, gera ainda o
escândalo do fatalismo em muitas pessoas e povos apesar de estarmos no século
XXI. Em fim quando Paulo apela para o princípio da responsabilidade: “tudo é
permitido, mas nem tudo convém”, está afirmando a sua sabedoria e liberdade que
brotam da sua fé e que orientam suas escolhas. Uma afirmação semelhante
encontra-se no Livro do Eclesiástico: “Meu filho, prove a si mesmo durante a
sua vida. Veja o que é prejudicial, e não o conceda a si próprio. Nem tudo
convém a todos, nem todos gostam de tudo” (Eclo 37,27-29). Quem tem convicções
sólidas, alicerçadas em valores e princípios, se revela sempre Livre e
Responsável e seu agir emerge com mais consistência porque sabe administrar as
pressões internas e externas, aquelas que vem do ambiente em que vive e de
dentro de si mesmo.
3ª. EVANGELHO: Mc. 1, 40-45 –
JESUS PROMOVE A INCLUSÃO SOCIAL
No domingo passado Jesus se
apresentava como o médico da humanidade que curava todos os tipos de doenças e
enfermidades. Dentre as doenças estava aquela mais temida: a lepra. Para os
judeus essa doença física era símbolo do pecado: mal crônico espiritual que
sempre nos acompanha. No evangelho, Jesus acolhe e cura um leproso. Essa
atitude reveladora de sua divindade, apresenta Jesus como o médico do pecado,
ou seja, o único que tem o poder de fazer desaparecer os males espirituais da
humanidade. No evangelho a relação com a lepra e o leproso é bem diferente
daquela da primeira leitura. No Novo Testamento não há espaço para justificar a
exclusão. Não basta que o indivíduo “impuro” tenha a consciência do próprio
mal, é necessário que ele sinta indignação com a própria situação e assuma a
responsabilidade da busca da própria cura (cf. Mc 1,40-41); não basta evitar
contaminar a comunidade, é necessário que a comunidade saia do seu puritanismo
fechado e ajude o “leproso” a usufruir o direito à saúde e à dignidade de vida;
não basta o respeito e a solidariedade dos outros, é necessário que o “leproso”
assuma o compromisso de querer mudar a própria condição pela fé. Esses são
alguns dos parâmetros que colhemos do evangelho. Vejamos alguns tópicos
particulares: a) A fé faz desaparecer a lepra: o leproso é corajoso, desobedece
às normas preestabelecidas pelos sacerdotes, aproxima-se de Jesus e pediu de
joelhos: «se queres, tu tens o poder de me purificar.» (Mc 1, 40). Com esse
heróico gesto revela a profundidade de sua fé no filho de Deus reconhecendo o
seu poder extraordinário e sua misericórdia diante da miséria humana; b) Quem
tem fé rompe com os esquemas promotores da exclusão: essa idéia está
presente tanto nos gestos de Jesus que não manifesta nenhuma preocupação em se
tornar impuro sendo tocado pelo leproso, que estende-lhe a mão, que toca o
leproso... quanto nas atitudes do leproso que sai da periferia, ousadamente
mete-se no meio da multidão, vai ao encontro de Jesus e, de joelhos suplica-lhe
a cura. Esse gesto de Jesus representa uma clara rejeição da ordem
preestabelecida mantenedora de esquemas excludentes. c) A alegria da cura tudo
supera... Jesus não é um reformista que desconhece a ordem estabelecida. Apesar
de claramente desobedecer alguns preceitos (acolher e tocar o leproso),
reconhece o importante papel do sacerdote e por isso manda o leproso curado se
apresentar a ele e oferecer pela sua purificação o sacrifício que
prescrevia a Lei para que fosse um testemunho para eles (cf. Mc. 1, 45).
“Mas o homem foi embora e começou a pregar muito e a espalhar a notícia” (Mc.
1,45). Como no caso da sogra de Pedro (Mc. 1,31), quem é curado assume um dinamismo
diferente de vida feito de serviço, anúncio do benefício recebido e testemunho
da libertação.
Nossa Vida:
A exclusão Social: São várias as
perspectivas de temas de reflexão desse texto. Creio que o mais importante seja
aquele da necessidade de sermos promotores da inclusão! Trata-se de um tema
muito discutido em nossos dias em todo o mundo. Milhões de pessoas vivem à
margem da sociedade e, por isso, excluídas da possibilidade de usufruírem da
beleza da dignidade humana porque padecem de muitos males: alienação,
ignorância, opressão política religiosa, fundamentalismo religioso e
ideológico, etc. Essa situação, como um “pecado capital”, gera outros males
para esses oprimidos, tais como o comodismo, a mediocridade, a submissão, a
visão fatalista da vida, recorrem à superstição para explicar os próprios
males, a fragilidade psíquica (baixa auto-estima), a violência, o vício...
Contudo, não pensemos que é necessário esperarmos um Messias para libertar essa
pobre humanidade. A perspectiva de libertação dessa situação não será
miraculosa. O Evangelho, descrevendo a sensibilidade de Jesus e as atitudes do
leproso sedento de saúde e inclusão, nos apresenta a necessária inquietude ou
indignação que devemos ter para poder mudar qualquer realidade. Ou nos
indignamos e lutamos por mudança, ou nos acomodamos renunciando a nossa
dignidade. O combate à exclusão é um compromisso de mão-dupla, pois quem só
recebe benefícios continua na própria miséria e faz disso um meio para
sobreviver. É isso que encontramos nas ruas das nossas cidades. Milhares de
pessoas fizeram opção pela mendicância como meio de sobrevivência: é a
artimanha da lepra do comodismo! Além dessa dupla inquietude dinâmica, Jesus
nos indica também a necessidade do combate ao preconceito, que jazem em nossas
mentes como uma espécie de lei que nos impõe atitudes contrárias à dignidade
das pessoas e ou povos. O preconceito tem conseqüências terríveis: classifica,
exclui, rotula, nega a evidência da realidade etc. Aquele que vive determinado
pelos preconceitos é escravo da fantasia que criou ou das superficiais idéias
que lhe colocaram na própria mente. O preconceituoso é um “leproso”. Em
fim, trazendo a reflexão para um nível individual, somos convidados a pensar
nas “nossas lepras pessoais” que nos corroem por dentro e afloram em gestos de
violência aos outros: o orgulho, a inveja, a vingança, a avareza, a ira, a
mágoa, a preguiça, a indiferença, a intemperança, a mentira, a corrupção, a
desonestidade, a murmuração, a fofoca... São males psico-espirituais promotores
de graves conseqüências imorais (comportamento negativo e pernicioso!), como a
lepra física, que não tem cura, mas tratamento: a Fé, a Esperança e o Amor.
MENSAGENS e COMPROMISSOS:
1. Entre comunidade e indivíduo
é necessário que haja corresponsabilidade e respeito.
2. Em matéria de comportamento,
tudo é possível, mas nem tudo é bom e edifica... Precisamos de discernimento!
3. Somos chamados, como “bons
cristãos e honestos cidadãos”, a contribuir para diminuição da exclusão
promovendo a acolhida e o combatendo o preconceito, bem como, refletindo a
lepra como uma fragilidade psico-espiritual pessoal que precisa ser tratada.
Antônio de
Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)
A lepra o deixou e ele ficou
limpo
No evangelho de Marcos, lido hoje, Jesus se encontra
com um leproso que se atreve a romper uma norma que o obrigava a permanecer
distante do convívio dos cidadãos. Essa norma é também lembrada na primeira
leitura, do Levítico. Na tradição judaica (primeira leitura) a enfermidade era
interpretada como uma maldição divina, um castigo, uma conseqüência do pecada
da pessoa enferma ou de alguém da família.
Por ser considerada contagiosa, a lepra era
regulamentada por normas rígidas que excluíam da vida social as pessoas
afetadas. Essa falsa crença de que a lepra era contagiosa perdurou durante
muitos séculos. O doente da lepra era um morto em vida, e o pior era que a
enfermidade era normalmente considerada incurável. Os sacerdotes tinham a
função de examinar as chagas do enfermo e em caso de diagnostico positivo, a
pessoa era declarada impura.
Ela deveria se retirar do convívio, começar uma vida
de solidão, a viver em desalinho, gritando pelos caminhos: “Impuro! Impuro!”,
para evitar encontrar-se com pessoas sadias que poderiam ser contagiadas. Na
realidade, todo o sistema normativo religioso gerava uma permanente exclusão de
pessoas por motivos de gênero, saúde, condição social, idade, religião e
nacionalidade.
Certamente, esse homem, cansado de sua condição, aproxima-se
de Jesus e se ajoelha, colocando nele toda sua confiança: “Se queres, podes
purificar-me”. Jesus se compadece e o toca, rompendo, não somente um costume,
mas também uma norma religiosa sumamente rígida. Jesus age com liberdade em
relação à lei que marginaliza e exclui a pessoa. Jesus coloca a pessoa
acima da lei, inclusive da lei religiosa. A religião de Jesus não está contra a
vida, antes ao contrario: coloca a vida das pessoas como centro de tudo. A vida
das pessoas está acima da lei e não o contrario.
Jesus pede silencio (é o conhecido tema do “segredo
messiânico”, ainda hoje um tanto misterioso), e o envia ao sacerdote como sinal
de sua re-inclusão na dinâmica social, “para que sirva de testemunha” de que
Deus deseja e pode agir para além das normas, recuperando a vida e a dignidade
de seus filhos e filhas. Porém, esse homem não faz caso de tal segredo, rompe o
silencio, e começa a proclamar com entusiasmo sua experiência de libertação.
Não parece que se tenha servido da mediação do
sacerdote ou da instituição do templo, mas que se auto-inclui e toma a decisão
autônoma de divulgar a Boa Noticia. Isto faz com que Jesus fique impedido de se
apresentar em público nas cidades e passa a viver em lugares ermos, pois ao
assumir a causa dos excluídos, Jesus se converte em um excluído também.
Contudo, fora dos lugares oficiais da vida, começa a brotar a vida nova para
quem o descobre e o busca.
É uma página recorrente nos evangelhos: Jesus, não
somente prega, mas cura, purifica os enfermos. Palavras e fatos, dizer e fazer,
anuncio e construção, teoria e prática. Libertação integral: espiritual e
corporal. E essa é sua religião: o amor libertador, acima de toda lei que
aliena. A lei consiste precisamente e acima de tudo em amar e libertar.
A segunda leitura segue um caminho independente
diante da relação entre a primeira e a terceira leituras. É um belo texto de
Paulo que fala da integralidade da espiritualidade. A espiritualidade não é tão
“espiritual”; de alguma maneira é também “material”. É preciso lembrar que a
palavra “espiritualidade” é uma palavra desafortunada. Temos que usá-la, porém
precisamos rever seu sentido etimológico. Não queremos ser “espirituais” se
isso significa valorizar o espírito e desprezar o corpo ou a matéria.
Paulo está nessa linha: “Quer comais, quer babais, ou
façais qualquer outra coisa...”. Não somente as atividades tradicionalmente
tidas como religiosas, ou espirituais, têm a ver com a espiritualidade, mas
também atividades muito materiais, preocupações muito humanas, como o comer e o
beber, ou qualquer outra atividades de nossa vida, podem e devem ser integradas
no campo de nossa espiritualidade (que já não se torna somente espiritual).
Nossa vida de fé pode e deve santificar toda nossa
vida humana, em todas as suas preocupações e trabalhos, não somente quando
temos a sorte de poder dedicar nosso tempo a atividades “estritamente
religiosas”, como a oração e o culto.
O Concilio Vaticano II insistiu muito nisso: “Todos
somos chamados à santidade” (LG. V). Não existem os “profissionais da
santidade”, que estariam num suposto “estado de perfeição”, enquanto os demais
teriam que atender a preocupações mais humanas. Não. Todos somos chamados a
realizar trabalhos, tarefas, preocupações humanas... “nossa própria existência”
à categoria de “culto agradável a Deus” (Rm. 12,1-2). Podemos ser muito
“espirituais” (com reservas para esta palavra de ressaibos greco-platônicos),
mas podemos também nos santificar com o mais “material” de nossa vida.
"Se quiseres, podes
curar-me"
Nos tempos mais esclarecidos em que vivemos, temos
que fazer um esforço muito grande de compreensão, para aceitar que tenha havido
na Lei do Antigo Povo de Deus prescrições tão deprimentes e tão dolorosas a
respeito das pessoas atingidas pela doença da lepra. Tais pessoas eram
excluídas drasticamente da comunidade. Tinham que viver isoladas nas suas
cabanas fora do povoado. Tinham que usar roupas rasgadas e gritar
"impuro", ao se aproximarem pessoas sadias. Se tivessem a ventura de
ficar curadas, tinham que se mostrar aos sacerdotes, apresentar uma oferenda e
obter um certificado de saúde. Só então podiam reingressar na comunidade. Tudo
isso se encontra, apresentado com os mais minuciosos pormenores, no livro do
Levítico em mais de um lugar.
Lamentavelmente, a catequese da Igreja em séculos
passados ajudou a manter essa discriminação, inclusive por usar freqüentemente
a lepra como símbolo do pecado. Mas a Igreja, ao mesmo tempo, fez o melhor que
pôde para socorrer esses irmãos discriminados. Acolheu-os em casas de saúde especializadas,
e deu todo o apoio aos esforços da medicina para a descoberta de remédios para
a terrível enfermidade. E foi acolhendo as novas informações de que a doença é
curável e não é tão perigosamente transmissível como se acreditava. O grande
Papa Pio XII teve o grande mérito de dizer certa vez em público uma segura
palavra a esse respeito, abrindo largo caminho para a nova mentalidade. E hoje
os tempos são mais amenos para a consciência da Igreja e do mundo dentro do
qual ela vive.
Jesus curou muitos leprosos. O Evangelho o registra
com freqüência. Numa dessas curas, narrada pelos três sinóticos e acolhida na
Liturgia da Palavra deste sexto domingo do Tempo Comum, aparece
maravilhosamente a confiança absoluta do doente no poder de Jesus e a prontidão
com que o Senhor o curou. O leproso aproximou-se de Jesus, lançou-se de joelhos
a seus pés e exclamou: "Senhor, se quiseres, podes curar-me". E Jesus
imediatamente estendeu a mão, tocou-o - Ele não participava do tabu da antiga
Lei - e disse: "Quero, fica curado" (Mc. 1,40-42). Em seguida mandou
que ele se fosse apresentar ao sacerdote para cumprir a prescrição da Lei e
proibiu-lhe que divulgasse a notícia. Como se podia prever, o homem curado não
foi capaz de atender à proibição de Jesus. Espalhou o mais que pôde a notícia,
de tal sorte que Jesus nem podia mais entrar às claras em nenhuma cidade e
tinha que se afastar para lugares desertos. O evangelista o registra, mas
acrescentando que todos acorriam a Ele de toda parte.
Aparece bem claro, no episódio, que Jesus atendeu ao
pedido do leproso com uma prontidão que correspondia ao tamanho da confiança e
da fé que existia no coração daquele homem. E ficou a lição para nós. Para nos
mostrar como a oração que dirigimos a Deus para pedir-lhe alguma coisa deve
ser alicerçada num fundo muito sincero de fé no poder de Deus e de confiança em
sua bondade. "Se quiseres" é uma expressão que indica de maneira
muito viva essa fé e essa confiança. Quantas vezes encontramos Jesus dizendo a
quem lhe vem pedir uma cura: "Tem confiança, meu filho! “ A importância da
fé em quem faz um pedido, ficou bem explícita no caso da mulher que tocou a
orla do manto de Jesus para se ver livre de sua enfermidade:
"Tem confiança, minha filha. Tua fé te
salvou" (Mt. 9,22). Assim deve ser nossa oração. Sempre envolvida numa
grande fé e numa firme confiança.
Há comentadores que chamam a atenção para o fato de
Jesus ter mandado que o leproso curado se apresentasse aos sacerdotes. Estava
apenas lembrando a ele o dever de cumprir a Lei? Ou tinha também a intenção de
que o fato mostrasse aos sacerdotes que o Messias tinha chegado e se estavam
cumprindo as predições dos profetas a respeito de seu poder taumatúrgico? Tal
finalidade não é improvável. E parece corresponder ao desejo de Jesus de se manifestar,
fugindo sempre de interpretações de um falso messianismo. Afinal, a luz do
Messias se devia revelar ao mundo.
padre Lucas de Paula
Almeida, CM
Os excluídos
Marcos, no seu Evangelho, vai mostrando: "Quem é
Jesus". Não se preocupa com definições abstratas... mas apresenta
concretamente Jesus agindo. A partir de seus gestos, podemos descobrir quem ele
é:
- Jesus liberta o homem possuído por um espírito mau;
- estende a mão à sogra de Pedro e ajuda a
levantar-se;
- hoje vemos a sua atitude para com os marginalizados
e excluídos.
A 1ª Leitura mostra severa discriminação dos
leprosos, na lei de Moisés: "O leproso andará com vestes rasgadas, cabelos
soltos e barba coberta... Viverá isolado, morando fora do acampamento... Ao se
encontra com alguém, deve gritar: sou impuro..." (Lv. 13,1-2.44-46)
O preceito se explica pela preocupação de contágio e
pelo conceito dos hebreus, que viam na lepra um castigo de Deus... O leproso
era assim um castigado de Deus e um excluído da comunidade.
Na 2ª Leitura, Paulo convida a "fazer tudo para
a glória de Deus" (1Cor. 10,31-11,1).
No Evangelho, vemos a atitude de Cristo para um
leproso: purifica o doente e o reintegra na sua comunidade (Mc. 1,40-45).
- Um leproso, contrariando a lei, aproxima-se de
Jesus e de joelhos implora: "Se queres, podes limpar-me..."
- Jesus "se compadece", "estende a mão
e toca-o..." e restitui a saúde: "Eu quero, fica curado..."
Ao acolher e tocar o leproso, Jesus transgredia a
lei, que proibia tocar neles. Mas logo em seguida a cumpre: manda apresentar-se
ao sacerdote, a quem cabia a decisão de reconhecer a cura e reintegrar na
comunidade. Para Cristo, a caridade está acima da Lei... Jesus
"compadecido" cura dois males: o mal da solidão e o mal da lepra. E
reintegra o leproso na convivência fraterna.
O Leproso, ao experimentar o poder salvador de Jesus,
torna-se um ardoroso testemunha do amor e da bondade de Deus.
Deus não exclui ninguém. Todos são chamados a integrar
a família dos filhos de Deus. O leproso não é um marginal, um pecador
condenado, um homem indigno, mas um filho amado a quem Deus quer oferecer a
Salvação e a vida.
O caminho do leproso deve ser o caminho de todo
discípulo:
- vir a Jesus, aceitar a própria limitação humana;
- experimentar a misericórdia e o poder libertador do
Senhor;
- e finalmente tornar-se testemunha das grandes obras
de Deus.
Outros vêm nesse episódio elementos do sacramento da
penitência: a penitência é um encontro com Jesus, que cura da lepra do pecado e
re-introduz na comunidade eclesial.
Os leprosos de hoje...
Infelizmente a "lepra" ainda hoje existe em
nossa sociedade e na Igreja.
Há muitos excluídos, mantidos "fora do
acampamento". São rejeitados, como se fossem leprosos, todos os
"diversos": os que pensam ou agem diferente de nós....
E quando alguém se sente um "leproso", a
quem ele deve se dirigir? Será que poderá contar com o apoio dos cristãos de
sua comunidade, com a mesma confiança do leproso que procurou Jesus?
Leprosos de hoje são os que vivem nos barracos das
favelas das cidades ricas; são os desempregados das cidades industriais; os
jovens drogados, vítimas de uma sociedade consumista; são as crianças
abandonadas; são os idosos sem vez no emprego e na família, como produto
descartável...
São lepras que matam muito mais do que a lepra do
tempo de Jesus.
Jesus não teve repugnância dos leprosos...
Pelo contrário, aproxima-se deles, porque vê neles um
filho de Deus.
Qual é a nossa atitude para com eles?
Nossos preconceitos, nosso legalismo não estão
criando marginalização e exclusão para os nossos irmãos?
Jesus sentiu "compaixão"... O que sentimos
diante do sofrimento, da injustiça, da miséria de um irmão?
"Estendemos a mão" ou apenas lamentamos:
"coitado"?
A cura da lepra era um sinal dos tempos
messiânicos... No Antigo Testamento, só dois grandes profetas tinham curado a
lepra: Moisés (sua irmã Maria) e Eliseu (Naaman, o Sírio).
Os guias religiosos não reconhecem o dia da
libertação... O leproso curado o vislumbra e o testemunha com entusiasmo.
O encontro com Jesus transformou totalmente a vida do
leproso.
Ele não podia esconder a alegria, que esse encontro
produziu na sua vida e sentiu a necessidade de dar testemunho.
O nosso encontro com Cristo nessa eucaristia nos
torna capazes de testemunhar no meio de nossos irmãos, com alegria e
entusiasmo, a libertação que Cristo nos trouxe?
Quais são os nossos leprosos... que excluímos do
nosso convívio?
Estamos dispostos, a exemplo de Cristo, nos aproximar
deles e estender a nossa mão?
padre Antônio Geraldo
Dalla Costa
A lepra
desapareceu e o homem ficou curado.
Este Evangelho narra a cena da
cura de um leproso. Ele “chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: Se queres,
tens o poder de curar-me”. A fé é condição para recebermos as graças de Deus.
“Jesus, cheio de compaixão,
estendeu a mão, tocou nele, e disse: Eu quero: fica curado!” O sentido literal
da palavra compaixão é “sofrer junto”. Ela leva a pessoa a, de dó, sofrer o
mesmo que o outro está sofrendo. Só isso já é um alívio para o outro, porque
sente que há alguém unido na dor. Daí para frente, os dois juntos, com os
recursos que têm, procuram sair do problema. É bem mais fácil lutarmos contra
uma dificuldade, junto com alguém, do que sozinho. E mais: “Onde dois ou mais
estiverem unidos em meu nome” – disse Jesus – “eu estou no meio deles” (Mt.
18-20).
“Jesus não podia mais entrar
publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos.” Houve uma troca de
posições: o homem saiu do deserto e Jesus foi para lá. A compaixão muitas vezes
leva a isso. Mas o amor faz a pessoa feliz, mesmo vivendo no deserto.
Sob o nome de lepra incluíam-se
diversas doenças da pela, além da lepra como tal. Todos esses casos eram
considerados doença incurável e contagiosa; portanto, o doente devia afastar-se
das pessoas e viver sozinho, em um lugar isolado. Se alguém tocasse nele,
ficava também impuro, tendo de ir morar junto com ele lá no deserto (Lv. 5,5-6;
13,45s).
O “leproso” era um ferido por
Deus, e por isso ficava excluídos também da sinagoga e do convívio com o povo
eleito, passando a levar uma vida miserável.
Jesus amou tanto aquele doente,
que enfrentou todo esse rigor da Lei. Foi como se ele dissesse ao leproso: a
sua dor é a minha dor; o seu problema é o meu problema.
“Por toda parte, Jesus andou
fazendo o bem” (At. 10,38). O cristão verdadeiro sente compaixão das pessoas
que sofrem, e se une com elas, sem medo de “se sujar” ou de as coisas
complicarem para si. Isso é solidariedade, que nasce da compaixão.
Jesus nunca ficava neutro entre
uma pessoa certa e outra errada, um opressor e um oprimido, mas sempre assume o
lado da verdade, da vida, do excluído e dos mandamentos de Deus. Por isso que
os cristãos, seguidores de Jesus, facilmente “se queimam” ou “se estrepam”.
“Vai, mostra-te ao sacerdote e
oferece, pela tua purificação, o que Moises ordenou, como prova para eles!” A
prova era dupla: de que o homem está curado, portanto pode voltar ao convívio
social, e que foi Jesus que o curou, isto é, reintegrou na sociedade uma pessoa
que os sacerdotes excluíam, através de suas leis sobre puro e impuro. Aqueles
sacerdotes se preocupavam em proteger o resto da sociedade, mas não se
preocupavam em reintegrar nela os pobres doentes ou pecadores que haviam sido
excluídos.
A nossa sociedade atual é
parecida. Ela cria uma série de medidas para se proteger, por exemplo, contra a
AIDS, mas não enfrenta a raiz do problema, que é o liberalismo total no uso do
sexo. Ela cria FEBEM para se proteger contra o menor infrator, mas pouco se
preocupa em recuperá-lo e reintegrá-lo na sociedade.
A pior medida é apelar para as
armas, nas guerras e em conflitos pessoais. Como é triste matar uma pessoa
humana, e causar lágrimas nos familiares, até o fim da vida! Falta-nos, muitas
vezes, paciência na solução dos conflitos.
Hoje, há milhões de pessoas
marginalizadas: pela fome, pela pobreza, pelo analfabetismo, pelo desemprego, pelas
doenças... Cabe-nos uma pergunta: o que a nossa Comunidade está fazendo por
eles? Nós nos preocupamos mais em colocar seguranças na porta da igreja, ou em
recuperar essas pessoas? Colocar segurança na porta da igreja é uma atitude
egoísta que só pensa no nosso lado, em nos proteger. Ela é válida, mas
recuperar os marginalizados é muito mais importante e mais cristão.
“Não contes nada disso a
ninguém!” Porque Jesus estava interessado em projetar não a si mesmo, mas a
Comunidade cristã que ele estava criando. Ela, a Igreja, é a força de Deus no
meio do povo. As pessoas sempre procuram alguém para se apoiar; Jesus quer o
contrário: que a Comunidade cristã se apóie em Cristo e na sua união. Reino de
Deus é povo organizado, e unido com Deus e entre si.
“Ele foi e começou a contar.” A
própria vida do ex-leproso já era por si um testemunho em favor de Jesus. É
impossível esconder a luz, especialmente quando essa luz não quer chamar a
atenção sobre si mesma. Evangelizar é falar bem de Jesus e de sua Igreja. Contar,
espalhar os benefícios que eles nos fazem
Deus nem sempre nos cura e nos
livra de todas as doenças. Ninguém fica eternamente na terra. Mas, se tivermos
fé, Deus nos dá a paz na doença e nos ajuda e transforma em bem as próprias
doenças que sofremos.
Os antigos tinham uma figura
mitológica chamada oportunidade. Era uma figura que passava sempre correndo, e
só podia ser agarrada pelos cabelos. Mas, ao contrário de nós, ela tinha os
cabelos na frente da cabeça, e, quando corria, os cabelos esticavam para frente,
não para trás.
Assim, aqueles que quisessem
agarrá-la, deviam dar conta da sua passagem por determinado lugar e ficar ali
esperando, a fim de agarrá-la pela frente, pois, se ela passasse, acabou,
ninguém conseguia pegá-la.
Aquele leproso aproveitou a
oportunidade, porque, vivendo em um povo que via a sua doença como sem cura,
procurou a Jesus: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Que nós também
aproveitemos todas as oportunidades boas, inclusive as que nos são oferecidas
pela fé.
Pedimos a Maria Santíssima que
nos ajude a imitar o seu Filho Jesus, que “passou pela vida fazendo o bem”.
A lepra desapareceu e o homem
ficou curado.
padre
Queiroz
A cura do leproso
As curas físicas operadas por
Jesus representam no plano corporal as curas que Ele deseja realizar no plano
espiritual. No caso do leproso (Mc. 1,40-45) está bem simbolizada a lepra
moral que é o pecado que pode ser sanado pela graça e pelo seu amor misericordioso.
Na narração do Evangelho aquele pobre doente caiu de joelhos para pedir sua
purificação, bem mostrando isto a atitude que deve ter o cristão, ou seja, orar
intensamente para obter a ajuda necessária para vencer os males do corpo e da
alma.
Para que um enfermo possa ser
sarado deve se reconhecer possuído de uma doença, pois, do contrário, não
procurará o médico e os medicamentos não lhe serviriam para nada. Reconhecer
que se é portador de uma moléstia é o primeiro passo para se procurar a cura.
No plano espiritual quem se julga santo, isento de qualquer falta ética não se
dirige ao Redentor e fica preso, escravo de suas prevaricações.
Cumpre a honestidade e a
humildade para que se reconheçam as próprias imperfeições. Davi proclamou
claramente: “Um coração contrito e humilhado Deus não despreza” (Sl. 50).
Grande deve ser realmente a confiança no Senhor sempre bondoso.
Impressionante o que Jesus afiançou: “Não precisam de médicos os sãos, mas os
doentes; não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc. 2,17). É de se notar
que, não obstante a lepra fosse uma moléstia repugnante, Cristo não
coloca o leproso à distância.
Não obstante a chagas
repugnantes, apesar dos olhares dos circunstantes, Ele se aproximou daquele
doente do mesmo modo que Ele recebe cada um de seus discípulos ainda que
repletos de culpas. A lepra espiritual não afasta o Redentor, contando que haja
a boa disposição de mudança de vida. Daqueles que um dia, porém, o
queriam apedrejar, deles e de sua cidade ele se apartou, como aconteceu em
Jerusalém: “Pegaram então em pedras para lhas atirar. Jesus, porém, se ocultou
e saiu do templo”. (Jo. 8,59).
Ele ajuda quem quer sinceramente
seu auxílio. O leproso foi até Ele e prostrou-se por terra deixando bem claro
seu profundo anelo de cura. Claríssimas as orientações do Mestre divino: “Pedi
e recebereis; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque todo que pede,
recebe, e o que busca encontra, e ao que bate abrir-se-á” (Mt. 7,7-8). Poderes
celestes estão à disposição dos que confiam nas palavras do Mestre divino.
Este, porém, deve ser abordado com humildade. O miraculado foi sábio: “Se
queres, tens o poder de curar-me”.
Muitos, por vezes, se dirigem ao
Ser Supremo numa atitude de verdadeira imposição, sendo de bom alvitre, pelo
menos no íntimo do coração, deixar implícito para Deus que seja feita sua
vontade e não a de quem suplica. Ele é quem sabe o que é melhor para cada um,
mas, é certo, que, se o que se pede não for para o bem da salvação própria e do
próximo, Ele, na sua munificência infinita, dará graça ainda maior do que a
instada.
Algo não muito louvável no
leproso curado foi que ele, apesar da recomendação de Jesus não deixou de
apregoar o milagre, dado que “ele foi e começou a contar e a divulgar muito do
fato”. É preciso primeiro no silêncio de uma prece sincera agradecer ao
Benfeitor divino as graças alcançadas num gesto de gratidão, de reconhecimento,
de louvor. Perde-se facilmente uma bênção do céu quando, nem bem
agradeceu ao Criador, alguém sai divulgando o acontecimento, mais para se
mostrar do que para glorificar ao Senhor.
Maria, no seu hino gratulatório
afirmou diante de Isabel que Deus nela realizara grandes maravilhas, mas o fez
apenas porque a Mãe de João Batista havia antes elogiado sua fé profunda.
É necessário ainda, a exemplo daquele leproso que foi curado por Jesus
prostrar-se a seus pés envoltos no fervor, na humildade, na confiança no amor,
no abandono à sua vontade santíssima e sapientíssima Ele conhece as regiões
inexploradas de cada coração e seu olhar clarifica e purifica contanto que se
vá a Ele com desejos sinceros de cura.
Ele não se manifestou como um
mágico vindo do além. Ele deseja que seus dons integrem o fiel na misericórdia
do Pai, estabelecido firmemente em seu amor. Todas estas reflexões patenteiam
que o cristão pode e deve viver na alegria porque conta sempre com a proteção
daquele que tem poder sobre todos os males, tendo afirmado peremptoriamente:
“Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância!” (Jo 10,10).
É por isto que, como mostrou São
Marcos, “de toda parte vinham procurá-lo” (Mc. 1, 45). Imitemos os seus contemporâneos
e junto dele depararemos a saúde corporal e espiritual, muita paz e felicidade.
cônego José
Geraldo Vidigal de Carvalho
Jesus reintegra os
marginalizados
No Evangelho de hoje Marcos nos
apresenta Jesus rompendo com a lei e recuperando para o convívio social alguém
que tinha sido afastado por ser considerado impuro. Ele se revela como aquele
que vem carregar sobre si os nossos sofrimentos e nos curar de todos os males
que impedem a convivência humana. O Evangelho deixa claro que a iniciativa foi
do leproso, que reconhecendo Jesus, pede para ser curado. Sua atitude é um
modelo de oração de confiança no que ser refere ao querer divino. Outro detalhe
importante é a resolução de Jesus: “Eu quero, fica curado”. Sua prática revela
que Ele quer é a libertação integral do homem e da mulher. Ao enviar o leproso
ao sacerdote para confirmar sua reinserção, Jesus ataca a causa da exclusão,
condenando um sistema que determina quem pode ou não, participar da vida
social, mas não cura”. Jesus recusa a publicidade, e o povo, pouco a pouco vai
percebendo seu messianismo que era espiritual, e não, político. Jesus se
identifica com os marginalizados, Ele está fora da cidade, lugar que se torna o
centro da nova relação social: o lugar dos marginalizados é o lugar onde se
pode encontrar Jesus. Na segunda leitura Paulo diz: “Não busco os meus
interesses próprios, mas, os interesses dos outros, para que todos sejam
salvos”. Esse é o retrato da prática de Jesus. Paulo diz que procura agir como
Jesus, e nos convida a fazer o mesmo. A missão salvadora de Jesus continua.
Como discípulos e discípulas de Cristo somos chamados a vencer todo tipo de
marginalização, desenvolvendo relações fraternas que estejam acima das
convenções constrangedoras e excludentes do sistema em que vivemos.Sem medo,
sentindo e mostrando a alegria de pertencer ao povo de Deus, à Igreja do tempo
em que vivemos.
Assessoria
liturgia da forania de Ponte Nova
A busca da dignidade
Ao tomar conta dos textos deste domingo para a missa,
saltou-me ao pensamento o tema do racismo e da xenofobia.
Por isso, lá vão duas situações que se passaram em
qualquer cidade desta vida. Uma mulher de cor negra grávida entrou no autocarro
a caminho da sua casa. Ao chegar ao interior do autocarro, duas ou três pessoas
já de alguma idade, estavam sentadas junto das janelas, quando se aperceberam
da chegada desta senhora saltaram repentinamente para os bancos da coxia para
que a grávida não se sentasse ao seu pé. Mas, Alguém de cor branca noutra zona
do autocarro presencia a "cena de terror", fazendo prevalecer o bom
senso e que repudia qualquer sombra de xenofobia, levantou-se de imediato e
ofereceu o seu lugar para a senhora mais necessitada de assento, tendo em conta
o seu estado de gravidez. A seguir não faltaram ofertas de assento para esta
outra senhora que se prontificou amavelmente a oferecer o seu lugar. Obviamente
que esta mulher recusou com um misto de prazer as prontas ofertas carregadas de
racismo doentio.
Outra situação passou-se num lar de terceira idade,
onde trabalha uma jovem de cor negra. Uma senhora de cor branca, cheia de
salamaleques e muito dona do seu nariz, para não dizer de nariz empinado, outro
dia caiu ao chão, sem conseguir levantar-se, foi de imediato socorrida por esta
funcionária. Repare-se nas manifestações de racismo primário e doentio. Diz a
idosa o seguinte: "tira essas mãos pretas de cima de mim". Na mesma
ocasião alguém de bom senso, ao presenciar a cena triste, dirige-se à idosa do
seguinte modo: "oh dona tal… não diga semelhante barbaridade, esta jovem
tem as mãos mais brancas do que a vossa alma, que está preta de rancor e de
ingratidão". O rosto da jovem ficou lavado em lágrimas. A idosa parece ter
aprendido a lição. Desculpem-me os qualificativos de «cor branca» e «cor preta»
aplicados neste texto às pessoas, mas para vermos o quanto ainda existe de
racismo motivado pela cor da pele. Triste que ainda assim seja…
São Paulo, aponta o caminho, Cristo a todos quer
salvar, tenham a cor que tiverem. Não importa. Basta que cada coração esteja
cheio de amor e aberto ao acolhimento do outro de forma desinteressada. Esta é
a religião dos irmãos, porque todos filhos de um Pai comum. Por isso, dói
saber-se que estas manifestações de racismo e xenofobia ainda fazem parte da
nossa sociedade. É a lepra dos nossos tempos. Não pensemos que o racismo é só
coisa de África ou da América, está muito bem implantado no nosso quotidiano.
Silenciosamente provoca muitas injustiças e sofrimentos.
O apelo do Apóstolo dos gentios deve calar fundo no
coração de cada um de nós: "não sejais ocasião de pecado…". Não podia
vir mais a propósito este apelo, para que cada um deixe de pensar que se salva
sozinho e que ser cristão não implica uma abertura aos outros
incondicionalmente. A salvação de Deus, nunca acontece individualmente, mas vem
ao encontro de todos. E Deus quer que nos olhemos como irmãos.
padre José Luís Rodrigues
A cura do leproso
“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou
nele e disse: Eu quero: fica curado!”
A nossa existência é um grande mistério. Na sua
dimensão mais profunda encontramos o amor incondicional de Deus por todos nós.
Quando não percebemos esta realidade sobrenatural somos fadados a viver nas
margens da nossa vida nos contentando com valores transitórios. Necessitamos
ser curados de um mesmo mal que é a auto suficiência em relação ao nosso
Criador. É ela a causadora de tantos sofrimentos e angústias. Podemos afirmar
que a grande lepra que está disseminada em nossa sociedade é de origem afetiva.
As pessoas não reconhecem o amor de Deus por elas. Por este motivo não se amam
e acabam não amando com sinceridade os seus irmãos.
A lepra, segundo a lei de Moisés tinha como
consequência imediata a exclusão da pessoa da comunidade e o anúncio público a
todos do mal que se vivia a fim de evitar a “contaminação”. O leproso era
humilhado de duas formas: pela enfermidade e pela separação obrigatória da
comunidade (Lv. 13, 44-46). Era uma espécie de morto vivo que só esperava a
morte para dar fim a sua jornada de sofrimentos e humilhações.
O leproso desta passagem do evangelho teve coragem de
se aproximar de Jesus e suplicar. Chegou mais próximo do que a lei permitia na
confiança de que seria curado. A condicional “se queres”, afirma o poder de
Jesus que é o Cristo que tem os mesmos sentimentos de Deus por ser seu Filho
que ama e liberta. Deus deseja muito mais a nossa libertação do que nós mesmos.
Ele nos criou para participarmos de sua felicidade.
Hoje poderíamos traduzir esta lepra por outros males
que afastam a nossa vida de seu real sentido. A maior lepra hoje é a mentira
institucionalizada por aqueles que deveriam nos defender. O homem jamais será
feliz vivendo no individualismo. Somos criados para a vida comunitária e
solidária. Há muitos leprosos em todas as camadas sociais que vivem na competição
do materialismo. O pior é que muitas pessoas fazem o que é ditado pela Grande
Mídia que desvia as pessoas da verdade tornando o ser humano uma máquina de
consumo. Só o amor e a fraternidade poderão nos trazer a verdadeira alegria e a
paz que tanto almejamos.
Precisamos ter a mesma coragem deste leproso que
passou por cima de idéias e rótulos e teve a coragem de pedir sua cura. Só os
humildes poderão alcançar a cura. Se formos fortes em nós mesmos, somos fracos
em Deus. Ser curado é antes de tudo compreender a verdade que nos tornará
realmente livres. O seguimento de Jesus exige amor mais do que só uma
racionalidade vazia.
Temos que ter diagnóstico da doença para encontrarmos
o tratamento adequado. Contra a lepra do egoísmo só existe o amor experimentado
a partir de uma profunda amizade com Jesus.
“Senhor Jesus, venha nos curar do fechamento em nosso
pequeno mundo e fazei que sejamos vossos instrumentos de amorização do mundo”.
padre Giribone -
OMIVICAPE
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