5º DOMINGO
QUARESMA
18 de Março de 2018
AnoB
Evangelho - Jo 12,20-33
·
Os gregos queriam conhecer Jesus. É o
que nós devemos fazer. Não só conhecer Jesus, como também segui-lo, e fazer
tudo o que podemos para que todos também o sigam. Continuar
lendo.
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“QUEREMOS VER JESUS!” Olivia Coutinho.
QUINTO
DOMINGO DA QUARESMA
DIA 18
DE MARÇO DE 2018
Evangelho
de Jo12,20-33
Nestes dias em
que fazemos o caminho para a Páscoa do Senhor Jesus, revivendo seus últimos
passos rumo a cruz, queremos proclamar com
mais veemência a nossa fé,
colocando em prática tudo o que aprendemos durante este nosso caminhar!
A liturgia
deste tempo de graça, nos conscientizou de que a nossa vida, só tem sentido se
vivida na perspectiva da vida eterna, nos fez mergulhar no mistério do
amor do Pai, nos mostrando o quão é grande o seu amor por nós!
O evangelho que
a liturgia deste 5º Domingo da Quaresma, coloca diante de nós, nos convida a
pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, a assumir a nossa fé, com todas as
suas consequências.
O texto começa
dizendo, que entre as pessoas que haviam subido para adorar a Deus, durante a
festa dos Judeus, estavam também, alguns gregos, que sentiram desejosos de ver
Jesus. Certamente, esses gregos já haviam ouvido falar Dele, razão pela a
qual, eles queriam vê-lo.
Filipe, um dos
discípulos de Jesus, cujo nome era de origem grega, foi o escolhido como
intermediário, talvez pela origem do nome. Eles disseram a Filipe:
“Senhor, queremos ver Jesus!”
Filipe convidou
André, e os dois, levaram o fato ao conhecimento de Jesus, que não se
manifestou, mas, provavelmente, ao tomar conhecimento, que a sua
palavra, já atingia outros povos, (no caso os gregos) o tenha motivado a
falar abertamente de sua morte para os discípulos. Naquelas alturas, Jesus,
convicto da necessidade da sua morte, para que o mundo fosse redimido, dá como
encerrada a sua missão aqui na terra, dando a entender, que a partir de
então, Ele só seria visto na cruz.
Ciente do bem
que sua morte traria para a humanidade, Jesus abraça a cruz, como
abraçasse a todos nós, pois seria pela a Cruz, que Ele nos
libertaria do cativeiro, nos devolvendo a vida.
Mesmo na
iminência de um grande sofrimento, Jesus ainda encontra força para falar da
fecundidade da vida, referindo-se aos frutos que seriam produzidos com a sua
morte.
A caminho da
cruz, Jesus fala de vida, dando o exemplo de uma semente que só produz frutos,
quando cai na terra e morre. “Se o grão de trigo que cai na terra e não morre,
ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muitos frutos.”
Ao falar da
dinâmica de uma semente, Jesus fala de si mesmo, Ele se via, como aquela
semente, que precisaria morrer, para produzir frutos, do contrário Ele
não passaria de mais um pregador, que passara por este mundo.
Falando
claramente da sua morte, Jesus já delega aos discípulos, a incumbência de
fazê-lo conhecido, não somente por aqueles gregos, que queriam vê-lo, mas
pelo o povo do mundo inteiro, o que de fato aconteceu. Foi depois
da sua morte e ressurreição, que Jesus ficou conhecido em todos os
rincões da terra!
Finalizando a
sua trajetória terrena, Jesus adverte os discípulos e hoje a nós, sobre o
perigo do apego à vida terrena! A sua mensagem é muito clara: somente quem é
desapegado, desprendido, está livre para segui-lo!
Quem deseja
verdadeiramente seguir Jesus, deve apresentar-se a Ele, completamente
livre de qualquer apego. O apego escraviza, é uma forma ilusória de resguardar
a vida, vida, que nem pertence a nós, pois pertence a Deus.
Quando
resguardamos a nossa vida, podemos até nos sentir protegidos de algum
infortuno, mas não realizaremos a vontade de Deus, não produziremos os
frutos esperados por Ele.
“Queremos ver
Jesus!” São muitos, os que querem "ver" Jesus, mas desconhecem o
caminho para chegar a Ele. Gastemos a nossa vida, para que o outro tenha mais
vida, tornemo-nos caminho para leva-lo a Jesus.
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
PARA OUVIR ESTA
REFLEXÃO É SÓ CLICAR NA FOTO:
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A
fantasia da caridade
1. No caminho
quaresmal há três atitudes que abrem a porta à Reconciliação: o encontro com
Deus na oração, a austeridade e penitência no jejum, e a caridade na dádiva da
esmola (cf. Mt. 6,2). Estas três atitudes não podem ser hipócritas, isto é,
feitas para serem vistas pelos homens. Têm de ser autênticas, reveladoras da
profunda comunhão com Deus, e da total fraternidade com os irmãos. Com esta
sensibilidade, João Paulo II, em vários dos seus escritos, refere a importância
da “fantasia da caridade”. Não basta amar os outros, é necessário
constantemente inventar as melhores formas de amor. Jesus foi Mestre ao
iniciar-nos na fantasia da caridade.
• “Dar a Boa Nova
aos pobres” (Lc. 4,18). Ao definir a sua missão, Jesus, seguindo o profeta
Isaías, assume-se como servidor dos mais pobres, dos oprimidos, de todos os que
sofrem. É, na caridade, dar prioridade àqueles que toda a gente despreza e que
é urgente amar.
• “Dai-lhes vós
mesmos de comer” (Mt. 14,16). Jesus teve pena da multidão que o seguia há três
dias. A multiplicação dos pães, convite à partilha, abriu um tempo novo da
caridade. A generosidade de um jovem que tinha cinco pães e dois peixes, pela
proposta de Jesus, atingiu a multidão de milhares de homens e de mulheres, e
todos ficaram saciados. Foi a mais extraordinária parábola da partilha que
Jesus soube contar.
• “Lázaro sai para
fora” (Jo. 12,43). Jesus compadeceu-se com todos aqueles que tinham perdido
alguém. Jairo acabava de ver a filha “adormecer”; a viúva de Naim acompanhava o
filho à sepultura; Marta chorava Lázaro, o irmão morto há quatro dias. Jesus
vai ao encontro da dor humana e liberta todos da morte. Maior amor é
impossível.
• “De todo o lugar
Lhe traziam doentes e Ele curava-os a todos” (Mt. 4,24). O sinal que Jesus dava
de que era o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao Mundo, era as curas dos
doentes. Cegos, coxos, paralíticos, leprosos, com pequenos gestos de amor,
voltavam a encontrar a alegria de viver. Era a fé, a confiança em Jesus, que
lhes restituía a vida com qualidade. Encontrar Jesus era, para estes, fonte de
salvação.
• “Vai em paz os
teus pecados são perdoados” (Mt. 9,2). Com o escândalo dos fariseus, Jesus
dizia a todos os pecadores que o perdão do pai era muito maior que a história
de cada um. Curados pela fé, recebiam o perdão total e eram convidados a
caminhar a um ritmo diferente no futuro. Perdão total era a maior prova do
amor.
• “Todos te
procuram” (Mc. 1,37). Quem d’Ele precisava ia ao seu encontro, mesmo em lugares
desertos, quando estava em oração. N’Ele punha a sua esperança. A relação,
mesmo com os mais pobres, era a sua expressão de amor. Em tudo e sempre, Jesus
viveu a fantasia da caridade.
• “Hoje estarás
comigo no Paraíso” (Lc. 23,43). Até na proximidade da morte, crucificado, entre
dois homens condenados, a Palavra de Jesus foi de ternura. Quem abre o coração
a Jesus encontra sempre um grito de amor para se sentir feliz. Ao lermos os
Evangelhos é-se surpreendido constantemente com as palavras e os gestos de amor
que marcavam o Filho do Homem. Como Ele próprio o disse: Deus amou tanto o
mundo que lhe deu o seu próprio Filho Único (Jo. 3,16). Jesus, em última
análise, é o amor de Deus na história, um amor que salva.
2. A vida cristã,
centrada na pessoa de Jesus, obriga a redescobrir a caridade. O Evangelho, de uma
forma constante, define claramente qual é o caminho do amor. Não é possível
ficar no simples cumprimento da Lei Antiga. Jesus não veio para destruir a Lei
mas para a completar (cf. Mt. 5,17-20).
• O mandamento novo
(Jo 13,34) “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei, por isto vos
conhecerão como meus discípulos”. O amor torna-se, por vontade de Jesus, a
“marca” do cristão, a forma como é conhecido.
• O perdão total
(Mt. 18,21-22). Pedro julgou que bastava perdoar sete vezes. Jesus, porém, deu
a regra, perdoar setenta vezes sete, isto é, perdoar sempre.
• A Reconciliação
(Mt. 5,23-24). Estando diante do altar para fazer oferendas, se alguém recorda
que há quem esteja de relações cortadas com ele, deve interromper a oração indo
primeiro reconciliar-se. A dinâmica do perdão total, na relação fraterna, é a
exigência máxima para o cristão.
• Amar até à unidade
(Jo. 17,21). Como Jesus e o Pai são um só no amor, também todos os cristãos têm
o dever de construir a unidade até à comunhão total. Desafio difícil, mas
essencial para seguir Jesus até ao fim.
• Julgados pelo amor
(Mt. 25,40). O que fizeste ao mais pequenino dos teus irmãos foi a Mim que o
fizeste. Por isso diz o Senhor: nos fins dos tempos, vem possuir o Reino que
foi preparado para ti desde todo o sempre.
• A maior prova do
amor (Jo. 15,13). De muitas maneiras Jesus veio dizer que dar a vida por
aqueles a quem se ama é a expressão máxima do amor. É uma proposta radical, mas
que leva ao máximo a fantasia da caridade. Não se diga que não é possível, esta
foi a “loucura” dos mártires.
O capítulo quinto de
Mateus, que começa com as Bem-Aventuranças, propõe não apenas o cumprimento da
Lei mas a plenitude da lei que se encontra no amor. Por isso termina com uma
expressão que poderá ler-se assim “sede então perfeitos no amor, como o Pai do
Céu é perfeito a amar” (Mt. 5,48).
3. A fantasia da
caridade, nesta Quaresma, pede aos cristãos um novo dicionário que lhes permita
amar sempre com o coração cheio de exigência. Algumas palavras que marcam o
caminho quaresmal:
• acolher – estar
sempre disponível para quantos nos procuram, qualquer que seja a circunstância,
constitui um apelo de conversão quaresmal.
• compreender –
tentar entender com o tempo necessário o problema do outro que veio ao nosso
encontro, não é fácil. Exige tempo, reclama palavras assertivas, e pede
respostas que sejam suficientemente salvadoras. Todos são diferentes, mas todos
precisam da atenção necessária.
• servir – o serviço
generoso constitui a melhor forma de seguir Jesus. Como Eu vos servi, sirvam-se
vocês também uns aos outros (cf. Jo. 13,14).
• partilhar – pôr em
comum os nossos bens, sobretudo o que nos sobra, é uma forma privilegiada de
imitar as primitivas comunidades cristãs. “Todos punham tudo em comum” (At.
2,44).
• preferir – esta é
das tarefas mais difíceis, escolher aqueles a quem se ama. Olhando com atenção
maior os mais pobres, os pequeninos, os de mais idade, os marginais, os mais
abandonados.
• perdoar – há
tantas razões pelas quais se fica magoado ou se cortam relações. A fantasia da
caridade pede mesmo a invenção das formas de perdão.
• amar – é esta a
originalidade do ser cristão: amar a todos, amar sempre, amar em qualquer
circunstância. Um amor que redime e salva.
Chorar com os que
choram e alegrar-se com os que se alegram; ter um prato à mesa disponível para
quem chega e nos surpreende; aceitar uma chamada telefônica e escutar um
desabafo ou uma súplica; apoiar nos estudos um jovem ou um adulto em
dificuldade; tudo isto e muitas outras coisas são expressões da fantasia da
caridade.
4. O Evangelho de
Mateus fala da oração, do jejum e da esmola. Para se não ser hipócrita será
necessário que cada um converta a esmola na fantasia da caridade (cf. Mt. 6,2).
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Da
morte brota a vida
A liturgia deste
domingo mostra-nos o significado da morte salvadora de Jesus que, por amor a
toda a humanidade, entregou sua vida na cruz. É o Senhor que nos ensina, com
seu próprio exemplo de vida, que dar e receber não são dois movimentos
contraditórios. Eles estão tão ligados entre si, que o ser humano só ganha vida
na medida em que está disposto a doá-la, renunciando ao egoísmo, para
colocar-se a serviço dos outros (evangelho). A vida de quem está sempre se
poupando e evitando o risco, não chega a desabrochar e não se desenvolve. Na
prática, torna-se estéril e vazia. Na realidade, quem se coloca diante da vida
com generosidade e entrega, como o próprio Cristo, acaba recebendo mais do que
ele dá (2ª leitura). O exemplo do grão de trigo que cai na terra e morre para
germinar, mais do que um fenômeno da natureza, é a condição necessária para
qualquer coisa dar fruto na vida.
1ª
leitura: Jeremias 31,31-34
Diante da
infidelidade do povo de Israel que rompeu muitas vezes a aliança com Deus, não
guardou seus mandamentos, se fechou diante do futuro e ficou sem forças para
começar de novo, o profeta Jeremias anuncia a vontade do Senhor de fazer “uma
nova aliança”. Deus não mudará a sua Lei, mas mudará o coração do ser humano,
capacitando-o para entender e praticar a sua vontade (“Colocarei minha lei em
seu peito e a escreverei em seu coração”). Agora vai ficar inscrita no coração
humano, sede da liberdade, das decisões e dos desejos, sem, com tudo, limitar a
sua liberdade. Quando se tem Deus «no coração», a lei se humaniza, se acata com
sinceridade e o ser humano se transforma em Povo de Deus.
Desta forma é Deus
quem dá o primeiro passo, perdoando as infidelidades e manifestando seu amor
eterno e misericordioso. A aliança no coração será algo íntimo ao homem de
forma que a liberdade humana poderá estar em sintonia com a vontade divina.
Nesta nova relação com Deus, ”ninguém mais precisará ensinar seu próximo...
porque todos... me conhecerão”. Antes a aliança consistia numa lei escrita em
tabuas de pedra, agora estará escrita no coração humano, todos terão o senso do
amor e da fidelidade e, por isso, a lei externa, os mediadores e os mestres,
não serão mais necessários.
2ª
leitura: Hebreus 5,7-9
O texto desta
leitura lembra a oração e do Senhor no horto das Oliveiras, quando Jesus ora ao
Pai ante a possibilidade de ser liberado da morte. Foi na oração que Ele se
fortaleceu para assumir a sua missão. Nós, cristãos, temos muito que aprender
neste sentido, pois, muitas vezes, nossa oração não é de súplica e, sim, uma
forma de pedir a Deus que faça a nossa vontade e não nós a vontade d'Ele.
O texto nos aproxima
também do sofrimento assumido por Cristo como prova da sua obediência aos
desígnios do Pai. Nesta aproximação à vontade do Pai é que Jesus se torna
manifestação da presença de Deus entre nós, caminho e modelo de salvação aberto
a todos os homens e mulheres do mundo.
A “obediência” é a
aceitação da soberania de Deus sobre a nossa vida e, portanto, a aceitação da
vontade divina. Neste sentido, o autor da carta aos Hebreus contrapõe a
obediência de Cristo, que trouxe a vida, à desobediência de Adão, que trouxe a
morte. Portanto, a salvação só é possível para aqueles que a acolhem numa
atitude de fé e obediência à semelhança de Cristo.
Evangelho:
João 12,20-23
Neste evangelho
aparecem alguns peregrinos “gregos” (prosélitos estrangeiros não judeus)
interessados, não apenas em ver, mas em conhecer Jesus. Na linguagem do
evangelista João, “ver”, significa “conhecer” e conhecer leva a “crer”.
Portanto, aqueles gregos sentiam as palavras de Jesus como dignas de fé. Para
tanto, precisavam de um intermediário entre os apóstolos. Encontram dois com
nome grego (Filipe e André) e se dirigem a Filipe: «Senhor, queremos ver
Jesus.».
Aqueles gregos
representam todos os povos da terra sobre os quais irá recair esse
acontecimento de salvação universal, incluído na morte de Cristo na cruz como
parte de Plano do Pai. Jesus quer cumprir plenamente esse Plano de Salvação.
Por isso pronuncia umas palavras comovedoras sobre seu destino e fala: «Chegou
a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado». A hora decisiva, a hora da
verdade chegou e consiste na passagem pela Paixão e Cruz para a glória da
Ressurreição.
Para ilustrar isto,
o Senhor apresenta sete imagens muito ricas em conteúdo:
1. “Se o grão de
trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito
fruto”. Uma pequena parábola que mostra o sentido da sua Morte como passagem
para a vida plena e a Ressurreição. Comparando-se com o grão de trigo que
precisa morrer para dar fruto, Jesus expressa perfeitamente o sentido de sua
morte: Ele é o grão de trigo que, caindo no chão da humanidade e morrendo por
todos, germinou e cresceu como uma espiga cheia de grãos, que somos nós,
renovados com a nova vida de filhos de Deus. Com isto, mostra que, do fracasso
aparente da cruz, irá surgir uma vida renovada e muito mais fecunda.
2. “Quem tem apego à
sua vida, vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la
para a vida eterna. Uma expressão com a qual descreve sua entrega total de onde
brota a vida divina para toda a humanidade.
3. ”Chegou a hora em
que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Com isso se refere à Páscoa como o
triunfo da graça e do poder de Deus sobre o pecado e a morte.
4. “Quando eu for
levantado da terra, atrairei todos a mim”. É no paradoxo da cruz, quando tudo
parecer perdido, que a força do sacrifício de Cristo atrairá a humanidade para
Ele e se tornará o centro da história, Senhor e Salvador do universo.
5. “Veio uma voz do
céu: «Eu manifestei a glória do meu nome, e vou manifestá-la de novo.». Como no
batismo de Jesus e na transfiguração, acontece mais uma vez esta manifestação
de Deus (teofania), mas a multidão fica confusa.
6. “Agora é o
julgamento deste mundo”. A “hora” de Jesus vai acontecer como o julgamento
definitivo sobre o mal. No entanto, esta “hora”, como lembra a 2ª leitura de
hoje, traz consigo angustia, abatimento e tentação (“o que vou dizer? Pai,
livra-me desta hora?”). A reação de Jesus é reafirmar-se em sua decisão de
cumprir a vontade do Pai (“Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai,
manifesta a glória do teu nome!”).
7. “Jesus assim
falava para indicar com que morte ia morrer”. O evangelista fala da morte de
Jesus, não como o final da vida, mas como a passagem necessária para a sua
glória e ressurreição.
Quando, em meio ao
sofrimento e à dor, formos tentados de desistir lembremo-nos do exemplo
maravilhoso de obediência e coragem que o Senhor nos dá. Crer em Jesus
significa seguir seu caminho, até mesmo na cruz, sendo capazes de doar-nos aos
outros para levá-los a Cristo a fim de participarem da vida nova que o Senhor
nos oferece.
Palavra
de Deus na vida
Egoísta é aquele que
pensa: “A vida é minha e faço com ela o que eu quiser; só a uso em benefício
próprio”. O Evangelho, porém, nos diz que só terá vida plena aquele que
conseguir despojar-se de si mesmo e dos seus interesses para doar-se aos
outros, entregando-se numa atitude de serviço fraterno.
Neste contexto, o
Senhor nos diz: “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho.
Mas se morre, produz muito fruto”. A morte do grão de trigo parece um fracasso.
Mas, na realidade, quando o grão de trigo é enterrado, não morre; é a partir dessa
aparente morte que desenvolve todas as suas potencialidades para transformar-se
numa espiga cheia de grãos que multiplicam o fruto indefinidamente. Fracasso
mesmo seria o grão de trigo não morrer; porque, sem germinar, não serve para
nada.
Da mesma forma, quem
se dedica a promover o ser humano e melhorar o mundo em que vivemos pode
parecer aos olhos dos mais pessimistas que perde o seu tempo, mas, na
realidade, o tempo dele se multiplica em tantas vidas redimidas do abandono, da
marginalização de do esquecimento. A “morte” dos que estamos unidos a Cristo,
pela fé e pelo batismo, é como a morte do grão de trigo: dessa “morte” (que
pode ser o compromisso de participar na construção de um mundo melhor com todo
o sacrifico que leva consigo) nasce sempre uma Vida Nova.
Muitas vezes
queremos seguir a Cristo evitando a cruz e fugindo da renúncia que o
compromisso por um mundo melhor traz consigo, e ficamos como o grão de trigo
que não morre, mas também não germina, não dá fruto e acaba servindo de
alimento para os pássaros do céu. No entanto, se quisermos participar com
Cristo da redenção da humanidade, temos que segui-lo (“Se alguém quer servir a
mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo”) sem medo de
praticar o dom de nós mesmos.
O Senhor,
certamente, está em nossos irmãos que sofrem carências físicas, espirituais e
sociais num mundo que os marginaliza. Por isso, se colocarmos o sentido de
nossa vida no ter (seja dinheiro, poder ou prestígio) e nos aliarmos com o
sistema social desumano e opressor que existe em nosso meio, nos tornaremos
infecundos para o Reino de Deus. Mas, se “perdermos” nossa vida participando
nas iniciativas por superar a injustiça, promover o respeito pelos mais fracos,
a “mesa partilhada” e a igualdade de oportunidades para todos, ”nos guardaremos
para a vida eterna”.
Pensando
bem...
Os gregos que buscam
Jesus representam todo ser humano, buscador de felicidade, amor, sentido da
vida, esperança, plenitude, verdade, beleza... As pessoas buscam uma referência
que sirva de orientação, ilumine o seu horizonte, motive seu esforço e indique
a direção a seguir. A resposta é Jesus. Ele nos mostra o Caminho e o modo de
caminhar.
Como os gregos do
evangelho, pode que digamos nós também: «queremos ver Jesus». Mas será que é
Jesus crucificado, obediente ao Pai até a morte que queremos ver? É esse Jesus
do alto da cruz que nos atrai como acontece com todos aqueles que descobrem o
sentido da doação fraterna? Será que é Jesus ressuscitado dos mortos, vivo e
presente no meio de nós que estamos procurando?
Campanha
da Fraternidade 2012
Cuidamos muito mal
de nosso corpo e nos esquecemos que ele faz parte da nossa realidade
espiritual. Cuidamos mal de nossa alma, pois esquecemos que ela tem um corpo e
é através dele que pode realizar toda espécie de boas obras. A rede de saúde
que existe em nossa sociedade pode e deve ser melhorada, mas não podemos
esquecer que o melhor remédio é sempre prevenir as doenças. Se melhorarmos o
nosso comportamento em relação aos nossos hábitos alimentares, à higiene
pessoal e familiar, ao controle do tabagismo e do alcoolismo, em fim, aos
cuidados básicos da nossa saúde, teríamos uma qualidade de vida bem melhor e
seriamos muito mais felizes. Somos responsáveis por este corpo que Deus nos
deu. Quando descuidamos da saúde estamos desprezando o maior dom que recebemos
e não estamos contribuindo para que “a saúde se difunda sobre a terra”.
padre Ciriaco
Madrigal
"Chegou
a hora em que o filho homem vai ser glorificado"
Domingo do grão de
trigo caído na terra. Neste domingo, vamos ao encontro do Senhor e recebemos
dele o anúncio de que sua glória passa pela experiência do grão que cai na
terra para produzir frutos. Fazemos memória da Páscoa de Jesus que hoje
acontece em todas as pessoas que gastam sua vida em favor dos outros. Cristo
elevado na cruz institui a nova e eterna Aliança.
No tempo quaresmal,
defrontamo-nos com a experiência da morte como caminho necessário e inevitável
para alcançar a vida. Por mais paradoxal que pareça, o caminho para a vida é o
mesmo da morte.
O culto a Deus, para
ser autêntico, deve levar para a prática. O projeto de Deus sempre envolve a
esperança de um mundo diferente, de alianças em favor da vida, de comunidades
comprometidas com a mudança de rumo.
Primeira
leitura: Jeremias 31,31-34
O contexto desta
leitura é o da calamidade resultante da destruição de Jerusalém no ano 587
a.C., fruto das infidelidades de Judá e Israel à Aliança feita com Javé. No
horizonte amplo da profecia, Jeremias antevê uma futura e definitiva Aliança,
não mais feita com mediações exteriores (sacrifícios, ritos legais, tábuas de
pedra), mas gravada no coração, escrita no peito de um novo povo de Deus. Por
esta nova Aliança abre-se a perspectiva de uma nova humanidade reconciliada.
O profeta Jeremias
já tinha previsto que este tempo da Nova Aliança caracterizado pela nova vida,
no perdão das culpas passadas pela presença da lei do Senhor nos corações. O
profeta Jeremias é encarregado de anunciar a Palavra de Deus num dos mais
difíceis períodos da história de Israel. Dirigindo-se ao povo hebreu exilado,
proclama uma Nova Aliança. Chegada a plenitude da história da salvação,
realizou-se na pessoa de Cristo a Nova Aliança de Deus com seu povo e com toda
a humanidade, como profetizou Jeremias, ao anunciar uma lei, uma religião e uma
Aliança interiores, pessoais, vivas, escritas não em tábuas de pedra mas no
coração das pessoas.
Como o profeta
Jeremias chegou a esta concepção da lei de Deus inscrita nos corações das
pessoas? A seus olhos, Deus sonda os corações e os rins, no sentido de que Ele
está presente no interior de nossos pensamentos (coração) e de nossas paixões
(rins) (Jr. 11,20; 12,3; 17,10; 20,12). Em todo caso, só depois de ter
experimentado os pensamentos e as paixões, isto é, corações e rins, é que o Senhor
aceita as pessoas em sua presença.
O contexto desta
leitura é o da calamidade resultado da destruição de Jerusalém em 587 a.C.,
fruto das infidelidades de Judá e Israel à Aliança feita com Deus. Olhando toda
a situação, o profeta Jeremias anuncia uma futura e definitiva Aliança, não
mais feita com mediações exteriores (sacrifícios, ritos legais, tábuas de
pedra), mas gravada no coração, escrita no peito de um novo povo de Deus. No
entanto, essa Lei, dada em tábuas de pedra, não tinha conseguido conduzir o
povo a Deus. O ritualismo e o formalismo tinham abafado o seu conteúdo.
Deus então promete
algo novo. Não se trata de renovação da Aliança do Sinai, nem de sua
reformulação parcial. Trata-se de algo diferente. E a novidade está nos
versículos 33-34. Os elementos principais da novidade são três:
"interiorização, conhecimento de Deus e perdão dos pecados".
Como primeiro
elemento da novidade, a Aliança passará a ser gravada no coração da pessoa
humana. Na nova Aliança a Lei será colocada no íntimo da pessoa humana. Não
será apenas uma lei externa que necessita de ameaças e sanções, mas será uma
lei interior que inclinará suavemente a pessoa humana a seguir com
"alegria e docilidade" a vontade de Deus. A Aliança do Sinai, gravada
em pedra, foi rompida. O gesto de Moisés de lançar ao chão e despedaçar as
pedras da Lei (Êxodo 32,19), no episódio do bezerro de ouro, torna-se um
símbolo de toda a Aliança do Sinai. A nova Aliança, implantada por Deus no
coração da pessoa humana, será perpétua. Isto significa que Deus não esquece a
sua promessa: "Ele dá o alimento aos que o temem e "jamais esquecerá
sua aliança" (Salmo 111,5). Nosso Deus é um Deus que não admite opressão.
"Ele enviou libertação para o seu povo, confirmou sua Aliança para sempre.
Seu nome é santo e digno de respeito" (Salmo 111,9).
E esta sendo
perpétua acontece o "segundo elemento" da novidade: um conhecimento
interior de Deus, isto é, fazer experiência de Deus. Não se trata de um
conhecimento especulativo, mas de um "conhecimento afetivo, amoroso",
que abre o coração da pessoa para Deus e o leva a aderir "com
alegria" os seus preceitos. Este conhecimento não necessitará de mestres
porque será posto "no íntimo" de cada pessoa pelo próprio Deus. E não
será privilégio de poucos: todos receberão este conhecimento, "grandes e
pequenos". Provavelmente aqui são indicados os sábios e dirigentes da
nação, bem como os pobres e ignorantes.
"O terceiro
elemento" da Nova Aliança é o "perdão dos pecados". Este perdão
é anunciado como um dom gratuito, quase como uma anistia que tem como centro a
bondade e a misericórdia de Deus. Significa que Deus amolece o seu coração em
relação ao pecador. E o perdão dos pecados estabelece um novo relacionamento,
totalmente cordial e amistoso, entre a pessoa e Deus.
Salmo
responsorial 50/51,3-4.12-15
O Salmo 50/51 é uma
súplica individual. Uma pessoa vive um drama: o conhecimento profundo de sua
miséria e pecados; tem plena consciência da gravidade da própria culpa, com a
qual quebrou a Aliança com Deus. Por isso suplica. O pecado é um ato pessoal
contra Deus, não mera violência de ordem abstrata.
O Salmo frisa a
fraqueza humana diante do pecado ("pecador já minha mãe me concebeu",
v. 7) e a necessidade da graça de Deus para criar dentro de nós um coração
novo. Deus não quer sacrifícios e holocaustos, mas um coração contrito e
humilhado. O Salmo lembra a misericórdia de Deus por Davi.
O salmista em oração
coloca-se diante da misericórdia de Deus, confiando que Ele tudo pode e quer
sanar, regenerar, recriar todas as coisas com a santidade e a novidade do seu
Espírito.
O rosto de Deus no
salmo 50/51, é mais uma vez, o Deus da Aliança. O salmista, pois, tem
consciência aguda da transgressão que cometeu. Porém, maior que seu pecado é a
confiança no Deus que perdoa.
O tema da súplica
está presente na vida de Jesus (tivemos a oportunidade de vê-lo nos outros
salmos de súplica individual). O tema do perdão ilimitado de Deus aparece
forte, por exemplo, no capítulo 18 de Mateus, nas parábolas da misericórdia
(Lucas 15) e nos episódios em que Jesus perdoa e recria plenamente as pessoas
(por exemplo, João 8,1-11; Lucas 7,36-50 etc.).
O tema do
"lavar" (versículo 4a) ressoa na cura do cego de nascimento (João
9,7); o purifica-me (versículo 4b) aponta para toda a prática de Jesus, que
cura leprosos, doentes, etc.
No Primeiro
Testamento este Salmo lembrava ao povo a misericórdia de Deus com Davi, apesar
de seu grande pecado. Cantando hoje este salmo, peçamos que o Senhor tenha
misericórdia de nós e nos ajude a viver em profunda comunhão com Ele e com os irmãos
e nos conduza num caminho da verdadeira conversão.
Segunda
leitura: Hebreus 5,7-9
O autor da carta aos
Hebreus atesta que Jesus superou o sistema sacrifical do Antigo Testamento. Ele
é o único mediador, o único sacerdote. O sacerdócio levítico não é apresentado
como vocação, enquanto o de Cristo, sim, portanto, não podia ser considerado
como perfeito. Cristo, porém, foi levado à perfeição, sua natureza humana foi
refundida no crisol do sofrimento, Ele foi "consagrado sacerdote".
Seu sacrifício é o único agradável a Deus.
Em suma, a leitura
mostra como o Pontífice da Nova Aliança "está perto das pessoas". A
vida humana de Cristo, perseguido, caluniado, incompreendido, torturado e por
fim crucificado e morto, tornou-se apto a conferir a seus seguidores a
salvação. O cristão aprende que os seus sofrimentos podem adquirir um novo
significado à luz dos sofrimentos de Jesus.
O Quinto Domingo da
Quaresma coloca o cristão face a face com o núcleo do Mistério: a Nova Aliança,
a oblação sacerdotal sob a forma de uma existência efetiva, a exaltação de
Jesus como glória de Deus. A liturgia deste domingo já antecipa o sentido da
Páscoa de Jesus Cristo.
Evangelho:
João 12,20-33
Jesus compara a sua
obra redentora com o trigo que morre, para que haja vida que é fruto da Nova
Aliança. No Evangelho de João a "glorificação" de Cristo significa a
sua paixão, morte e ressurreição, que Ele mesmo explica, logo em seguida, com
três referências em profunda ligação: "o grão de trigo, o seguimento dos
discípulos e a obediência ao Pai". A breve parábola do grão de trigo tem
como ponto central "a fecundidade": se cai na terra e morre, dá muito
fruto; se não cai, permanece estéril.
João destaca que
está chegando a "hora" da exaltação de Jesus, de sua paixão, morte e
ressurreição. O cerco começa a fechar-se ao redor de Jesus: começam a aparecer
o escândalo da cruz e a tensão da paixão. Sua glorificação, porém, não passa
pelas expectativas do povo que quer proclamá-lo rei. No mundo das contradições
do poder (do "príncipe deste mundo") Jesus assume um messianismo
diferente: monta num jumentinho (João 12,14-15), assume o caminho do serviço,
da doação do grão de trigo que morre para produzir fruto, do discípulo e da
discípula que doa a sua vida para proclamar a vida maior, a vida eterna. O povo
não entende. Humanamente falando, Jesus se perturba, mas vai em frente, pois a
voz que vem do Pai confirma: "Eu manifestei a glória do de meu nome".
A glória de Jesus consiste em dar sua vida, para que nasça um mundo diferente,
novo, sem a prepotência do "príncipe deste mundo". "Quando eu
for levantado da terra, atrairei todos a mim."
Tanto no Getsémani
como na passagem evangélica de hoje, fica claro a natural repugnância de Jesus
perante a morte, devido à sua verdadeira humanidade e condição mortal, como
homem que é. "Agora sinto-me angustiado. Que direi? Pai, salva-me desta
hora? Mas é precisamente para esta hora que eu vim. Pai glorifica o teu
nome" (27-28a).
Esta estremecedora
prova da fraqueza humana está presente, também, na segunda leitura, cujo
contexto consiste em duas características de Cristo como sacerdote:
compreensivo pela sua condição humana e escolhido pelo Pai para tal missão.
Jesus não é um masoquista quem tem prazer com a dor. Muito pelo contrário, como
homem normal que era, ao saber-se "condenado à morte", sente medo e,
desfeito em lágrimas, grita, chora e suplica a Deus Pai. Tanto no Getsémani
como no Gólgota: "Cristo, nos dias de sua vida mortal, com gritos e
lágrimas, dirigiu orações e súplicas a quem o podia livrar da morte"
(Hebreus 5,7)
A introdução do
evangelho mostra "os romeiros", de língua grega, se dirigindo aos
apóstolos de nome grego, Filipe e André, originários de Betsaida, a parte mais
helenizada da Galiléia. Na suposição que se trate de pagãos, a exclamação de
Jesus "Chegou a hora em que o Filho do Homem é glorificado" ganha um
sentido de manifestação universal ao mundo, reforçando as últimas palavras do
contexto anterior: "Todo o mundo vai atrás dele" (12,19).
Assim, a
"glória" de Cristo, é manifestada aos pagãos que concordam com a
salvação. Não é apenas a glória de um Messias nacionalista, mas a de um Deus,
irradiando sua luz sobre o mundo inteiro (vv. 20-13). Os pagãos podem entrar na
ação do Salvador, o que permite a Cristo de entrever um dos aspectos de sua
glorificação próxima, sob a forma da "reunião das nações" (v. 32; cf.
Isaias 53,12). Assim Jesus toma consciência da fecundidade universal de sua
morte próxima.
A oposição entre
Cristo e os judeus baseia-se em duas concepções diferentes das noções de
"fecundidade e de glorificação". Para os judeus somente os meios
poderosos podem conduzir á glória; para Cristo, o único caminho é o mistério
pascal de sua Paixão. Esta oposição entre a humilhação e a glorificação
encontra-se na ambigüidade da palavra "elevar".
Porém, não se trata
de uma manifestação espetacular. "A glória de Jesus é a sua
"exaltação", e esta é, antes de tudo, "a elevação na cruz",
como está no final do texto do evangelho: os versículos 32-33. Em outros
termos, a cruz de Cristo é o trono da sua glória e ao mesmo tempo seu tribunal;
diante da cruz, nós nos unimos a Ele (v. 25-26) ou então entramos no julgamento
e somos jogados fora (v. 32). Conferir também João 3,18-21.
Nesta hora é que
entra o senhorio de Cristo: ele será "elevado da terra" para atrair
todos a si: imagem do Senhor glorioso, mas não devemos esquecer que esta
exaltação, para João, se realiza antes de tudo na "elevação da cruz",
prova do amor de Deus e revelação de seu rosto.
Assim, a liturgia,
mediante este evangelho e os dos domingos anteriores nos envolve num movimento
de "conversão radical", ao aproximarmo-nos também no tempo litúrgico
da cruz de Cristo, revelação do amor de Deus para nós.
Para ganhar a vida é
preciso perdê-la. Pois a vida que se tem agora não é uma morada definitiva, mas
uma ocasião para mostrarmos qual é o seu verdadeiro compromisso. A nossa vida
neste mundo não é a última, mas a penúltima. Quem torna a sua vida aqui a
última causa de seu compromisso, "perde o trem da vida eterna". Quem,
porém, gasta sua vida para realizar a doação até o fim, está com Jesus, aqui e
para sempre. Assim, se serve a Jesus como Senhor e recebe-se o reconhecimento
do Pai. Em outras palavras, viver de verdade é estar do lado de Jesus.
Agora fica claro o
que é este estar com Jesus. É estar com Ele na sua agonia (cf. Mateus
26,36-46). A ousadia de João faz com que, na "hora da glorificação do
Filho do Homem" se situe a angústia da agonia de Jesus, o grão de trigo
que se sente sufocado na terra. Embora João nos apresente, no seu Evangelho,
Jesus visto através da Ressurreição, ele não esconde o drama humano desta
existência (cf. Hebreus 5,7), drama da obediência ao Pai (cf. Filipenses
2,6ss), na doação até o fim.
A conclusão que João
dá ao discurso, em torno do "tema da luz", resume-se
maravilhosamente: do alto da cruz, Jesus atrai a humanidade, em forma de um
apelo silencioso, para que todos "caminhem em sua luz", isto é,
acreditem Nele. Esta fé reúne efetivamente todas os cristãos "em volta da
cruz", formando a comunidade messiânica dos últimos tempos, fazendo assim
da cruz o trono do novo Rei e Senhor.
A glória de Deus na
Escritura não significa, como nas línguas modernas, a fama, o glamour, mas o
valor verdadeiro, a importância, o respeito que Deus impõe. Na realidade,
Glória, em hebraico, "evoca a idéia de peso": salmo 49/48,17-18.
Somente Deus pode possuir uma verdadeira glória, um verdadeiro valor: Salmo
6162,6-8; Isaias 6,1-6.
A afirmação do Novo
Testamento anuncia que a glória de Deus é manifestada em Jesus (Hebreus 1,3; 2
Coríntios 4,6; 1 Coríntios 2,8; João 1,14-18); as obras que Jesus realiza
manifestam esta glória: Ele é verdadeiramente "o primeiro homem a ter
peso", valor, mas isto lhe vem de sua comunhão perfeita com o Pai,
principalmente nas horas de sua paixão e de sua ressurreição (João 10,30;
17,19; 12,28).
Esta glória
repercute sobre os cristãos (João 17,10) através da comunhão sacramental (1
João 5,7; João 19,34-36) e pela comunicação da comunhão que Jesus vive com o
Pai (2 Coríntios 1,22; Colosensses 1,10-11).
Da
Palavra celebrada ao cotidiano vida
A liturgia deste
quinto domingo da Quaresma já antecipa o sentido da Páscoa de Jesus. O Caminho
da experiência do Deus Javé que Jesus fez. A nova e definitiva Aliança que Ele
propõe passa por três caminhos fundamentais.
O Caminho de Jesus é
o caminho da solidariedade: sua proposta não discrimina ninguém, é aberta para
todas as culturas. "Queremos ver Jesus" é o que dizem alguns pagãos
gregos, que tinham subido a Jerusalém para prestar culto a Deus, na festa da
Páscoa. Filipe ouve esse pedido, chama André, e os dois juntos transmitem esse
desejo a Jesus. Hoje mesmo sem saber se expressar desse modo, são muitos os que
querem ver, conhecer e encontrar Jesus. Na verdade, Ele é a resposta aos
anseios mais profundo do ser humano, pois "ilumina todo ser humano que vem
a esse mundo" (João 1,9). Hoje, cada batizado precisa ser esse tipo de
instrumento, para que o mundo desorientado encontre o rumo da salvação, da vida
plena que Deus deseja para todos e que é oferecida em Jesus Cristo, Caminho,
Verdade e Vida.
O caminho de Jesus é
o caminho do serviço, do Messias Servo humilde: Ele assume as dores e
esperanças de seu povo na contramão do pode dos reis, rainhas e presidentes
deste mundo (Jesus não aceita ser rei e educa o povo numa outra direção (João
12,13).
O caminho de Jesus
não é o caminho da glória deste mundo, mas o caminho da exaltação na cruz, o
caminho do grão de trigo que morre para dar mais vida. A cruz de Jesus não foi
um decreto de Deus, mas a conseqüência de sua solidariedade com o destino dos
pobres, dos pecadores, dos doentes. Quem toma esse caminho no mundo torto em
que vivemos terá contra si o projeto "dos inimigos da partilha", que
procuram sempre crucificar a justiça, a paz e a verdade. Quem trabalha com
autenticidade nas pastorais da Igreja (principalmente nas pastorais sociais)
terá quase sempre pela frente esse tipo de inimigos. Quem faz Aliança com os
projetos dos movimentos sociais populares que defendem os direitos das classes
oprimidas certamente sofrerá o enfrentamento sofrido por Jesus.
Através da imagem do
"grão de trigo" (João 12,24), Jesus ilustra as modalidades e os
efeitos da morte na pessoa humana, na qual Deus concedeu o seu Espírito. Cada
pessoa conserva em si mesma muito mais energias do que julga ter. Capacidade
amor que cada pessoa não tem a possibilidade de desenvolver no breve espaço de
sua existência. Como grão de trigo começa a produzir a vida só quando caído na
terra e morre, assim o ser humano pode libertar toda a energia vital que contém
em si só através da morte. No momento da morte as suas energias de amor
libertam-se e exercem a sua plena eficácia. Como a vida contida no grão se
manifesta numa forma nova, assim, com a morte, também a vida contida no
indivíduo se manifesta numa forma completamente nova e mais rica. Assim a
morte, em vez de destruir a pessoa humana, permite-lhe um novo crescimento. A morte
propicia ao ser humano um ato de absoluta entrega e amor a Deus. Por isso a
morte permite uma extrema realização humana. A morte liberta a semente de
ressurreição que se esconde dentro da vida mortal. Por isso no momento da
morte, ressuscitamos com Cristo.
Para que exista esta
fecundidade é necessário que o ser humano ofereça a sua vida: "quem se
apega à sua vida pai perde-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai
conservá-la para a vida eterna". (João 12,25). Quando o ser humano adere a
Jesus, aceitando a sua vida e a sua morte como norma para a sua existência,
desenvolve-se nele uma vida indestrutível, e desta plenitude de vida compreende
que o dom de si mesmo não é uma perda, mas uma vantagem. Quem coloca a sua vida
ao serviço dos outros não a diminui, mas, realiza-a plenamente e para sempre.
A
morte de Cristo como caridade
A oração do dia, por
sua vez, nos dará uma chave interpretativa com a qual encontraremos a harmonia
entre a Primeira leitura e o Evangelho. Sua súplica para que a comunidade permaneça
"na mesma caridade que levou o Filho a entregar-se à morte no seu amor
pelo mundo" conduzirá nossa argumentação. O original da Oração do Dia
utiliza a palavra "caritas", traduzida normalmente por
caridade, no sentido de amor, afeição, ternura. Nesse sentido, o que predispôs
Jesus, como israelita fiel, em sua entrega, foi a caridade. Tal entrega, é
descrita, na mesma oração, com o qualificativo latino "diligens",
que significa amar - opção de tradução escolhida na versão portuguesa para o
Brasil. Mas o verbo diligo, de onde vem diligens trata do amor
pautado numa opção ou decisão e não tanto na emotividade ou sentimento. É neste
ponto que reside a ligação entre a primeira leitura e o Evangelho. A decisão de
Jesus em se entregar nasce da "Lei" inscrita por Deus em seu coração,
em sua inteligência fiel. A glorificação, da qual nos fala João, é o
reconhecimento do Pai à sua fidelidade à Aliança. A morte de Jesus, informada
no contexto pela expressão "quando for elevado da terra" só tem
sentido se entendida como decisão, segundo a lógica amorosa da Aliança. E daí
vem o fruto: sermos atraídos a Ele, para viver no seu amor, sendo movidos -
diligentemente - por Ele. Esclarece-se, assim, a frase de Jesus, entoada neste
Domingo como Antífona de Comunhão: "Se o grão de trigo que cai na terra
não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito
fruto.
O Tempo da Quaresma
é, para a Igreja, a oportunidade que Deus nos concede para a conversão do nosso
"coração de pedra em coração de carne". Um coração capaz de assumir a
Aliança não mais inscrita na frieza da pedra, mas no calor de nossa humanidade.
Jesus tinha um coração de carne, capaz de assumir a Aliança mesmo que ela Lhe
acarretasse o sofrimento e a morte. Decidindo-se pela fidelidade à Aliança,
assumiu a morte e a converteu em entrega de si, em oblação. A sua morte foi a
"última prece e súplica" pela humanidade - e, nesse sentido, nós o
reconhecemos como na carta aos Hebreus, da qual nos vem a II leitura, como o
perfeito sacerdote. Na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação
eterna para todos os que Lhe obedecem". E a salvação, a saúde que provém
de Deus vai salvaguardando a dignidade e honradez humanas, é garantida para nós
pela Aliança. A fidelidade da Igreja, portanto, à causa de Jesus de Nazaré,
glorificado por Deus em sua morte redentora, garante-nos a vida plena. Estamos
unidos a Cristo na morte e na vida nova que Ele inaugura por sua ressurreição.
padre Benedito
Mazeti
1
– Cada vez mais perto, mais perto ainda, e logo depois a luz incandescer-nos-á,
enchendo a nossa vida de luz, de paz, de vida nova, de presença de Deus, com o
fulgor e o dinamismo da Páscoa, que nos atrairá para além da cruz, que tornará
mais belo, mais profundo e mais generoso o nosso olhar e a nossa esperança. Os
nossos olhos serão transformados pela magia do amor que Deus nos dá, para
fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado.
Em
Jerusalém, Jesus passeia-se às claras por entre os homens e as mulheres, em
festa. Vai onde germina a vida, ao encontro dos outros. Deus vem onde nos pode
encontrar, a nossa casa, à nossa vida, às nossas praças e ruas. Em sentido
inverso, muitos são os que se sentem também atraídos por Ele e O procuram,
querem vê-l’O, ora por curiosidade ora tocados pela fé. Talvez neles arda o
Espírito de Deus.
As
palavras de Jesus não podem ser mais explícitas:
«Chegou
a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos
digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer,
dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida
neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que
Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me
servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de
dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta
hora. Pai, glorifica o teu nome».
O
Filho do Homem vai ser glorificado pelo sofrimento, pela cruz, melhor, vai ser
glorificado pela entrega, pelo amor sem fim, pela dádiva da Sua vida, do seu
Corpo, morrerá por amor. Se se pode morrer por amor, eis ALGUÉM que o faz. Sem
apelo nem agravo. É hora do tormento e dor, de tristeza e angústia. É hora de
confiança e de realizar-se a vontade do Pai, a vontade do Amor. É o grão de
trigo que cai à terra, morre, para logo germinar na abundância de saborosos
frutos.
2
– Não é uma hora fácil, a de Jesus Cristo, ao contemplar o quão perto se
encontra do fim biológico. "Agora a minha alma está perturbada"
(Evangelho). Resolutamente sabe que não veio para fazer o caminho mais curto,
mais fácil, mas para vivenciar conosco todas as experiências, também a da dor,
do sofrimento, da solidão, do abandono e da morte. Também aqui Jesus, Deus
feito Homem, nos assume por inteiro. Não fica à distância a contemplar a nossa
morte. Vem morrer conosco. E por nós.
Ele
aprende como é amarga a passagem deste mundo para a eternidade. Angustiante. Há
de transpirar gotas de sangue, tal a ansiedade e o medo. Mas não desfalece.
Coloca-Se em Deus Pai. Cola-Se n'Aquele que O enviou. E que O livrará da morte
eterna.
"Nos
dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores
e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua
piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo
atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de
salvação eterna" (2ª leitura).
3
– O desiderato da Sua vida e missão é a salvação da humanidade. Toda. De todos
os lugares e em todos os tempos. Vem para cumprir as promessas de Deus feitas
ao Seu povo, e por Israel a todos os povos da terra.
O
momento presente, de sofrimento, de blasfêmias, de prisão e da morte que se
aproxima, não é, de todo, comparável à beleza do amor de Deus. Jesus resiste
nessa intimidade com Deus. Sabe que se aproxima a hora da morte, mas também
sabe que o amor que vai até ao fim selará a nova aliança da Redenção.
Ele
inscrever-nos-á para sempre no coração de Deus e em nós inscreverá a lei do
amor.
Como
nos revela através de Jeremias: "Dias virão, diz o Senhor, em que
estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova... Hei
de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu
serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Não terão já de se instruir uns aos
outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos
eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou
perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas".
O
início da nova Aliança dá-Se na oferenda de Jesus, da Sua vida, do Seu Corpo
por inteiro. Pelo Seu sacrifício o perdão do nosso pecado. Acolhamos n'Ele a
vida nova, novos céus e nova terra. É também pela Cruz que ficamos a conhecer a
Lei de Deus, o rosto do Amor.
4
– A liturgia deste quinto domingo da Quaresma deve levar-nos ao mesmo desejo
dos judeus gregos que vieram a Jerusalém, conforme se diz no Evangelho:
"alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa,
foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido:
«Senhor, nós queríamos ver Jesus»".
O
nosso privilégio facilita a nossa fé e adesão ao Evangelho, pois nascemos na
hora de Cristo Senhor, fomos sepultados para o pecado e para a morte, pelo
Batismo, e tornamo-nos novas criaturas, ressuscitando pelo Espírito Santo.
Nesta tensão entre a vida presente e a eternidade, entre a Quaresma e a Páscoa
da nossa existência mortal, o desejo por ver Jesus há de ser o desejo por nos
vermos transformados pelo Seu amor redentor e vivermos como filhos e irmãos.
Também
com o salmista rezemos, pedindo:
"Criai
em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito
generoso".
padre Manuel Gonçalves
Chegou
a hora em que o filho do homem será glorificado
1ª
leitura: Jeremias 31, 31-34
Deus
renova-nos
1. O texto de
Jeremias está integrado num bloco literário e teológico a que se chamou o
"livro da consolação" (Jr. 30-33); e, concretamente, o da nossa
leitura litúrgica é uma das afirmações mais destemidas do Antigo Testamento
sobre a necessidade de uma nova aliança. Jeremias foi um profeta a quem tocou
viver a situação mais dramática do seu povo (os babilônios estavam às portas de
Jerusalém para a destruírem) e a quem a vocação para ser profeta não convinha
muito, mas, foi o mais contrário à sua alma (" não queria arrancar
para plantar"). Nestes termos, a leitura do profeta Jeremias, mostra-se
como se, isoladamente, se tivesse empenhado em "arrancar", mas não em
"plantar". No entanto, este livro da consolação é um apelo à esperança
e o nosso texto é o zénite teológico dessa esperança contra toda a esperança. O
texto de hoje vem na continuação de uma chamada à responsabilidade pessoal (Jr.
31,29-30) para mostrar que ainda que as coisas mudem, Deus manterá a sua
promessa de salvação.
2. Portanto, apesar
de tudo, Deus não recua, mas está disposto a colocar a Aliança no coração de
cada um de nós; é uma forma de Se comprometer mais profundamente no seu projeto
de salvação. É um apelo à responsabilidade mais pessoal, mas sem rejeitar o
sentido comunitário de tudo isto, porque todos os que vivem essa Aliança no seu
coração, se sentirão pertencendo ao povo, à comunidade do Deus vivo e
verdadeiro. O problema de uma nova aliança poderia parecer um atentado ao
"dogma" da Aliança do Sinai, onde Israel encontrou a sua identidade.
Mas já se sabe que os dogmas são usados pelos poderosos para ocupar o lugar de
Deus e para coisas piores. Podem enganar o povo simples, mas o profeta não,
porque a voz de Deus está sempre alerta. Por isso o profeta, com esta mensagem,
não somente concede a Deus toda a sua autonomia e liberdade, como também com
isso defende o povo para que também ele, povo, se sinta livre. A lei do coração
quer dizer que é uma "lei humana" o que Deus pede, humana e de acordo
com as nossas debilidades.
3. O profeta descreve
esta nova situação como algo que antes achava que fazia muita faltava, um novo
"conhecimento de Deus". (cf. Jr. 2,8; 4,22, 9,2), portanto a nova
Aliança não estará em ritos e cerimônias ou sacrifícios novos, mas em toda uma
"experiência" nova de Deus: mais humana, mais íntima, e
misericordiosa que se sentida no coração e expressa na praxis da justiça e da
fraternidade com os que foram ignorados. Pôr no coração "leb"
(em hebraico) está entranhado na alma e e radical nos profetas"; é o mesmo
que é o cérebro para a antropologia atual, porque tudo se move a partir daí.
Mas é mais que o cérebro: ter coração ou não o ter, todos sabemos o que
significa ao nível mais popular; a nível bíblico é como ter espírito, ter alma
ou não tê-la. A lei, sem alma, escraviza; com alma liberta. O profeta está
falar, pois, de uma Aliança que estará modelada na experiência mais profunda e
humana de Deus em cada um dos seus.
2ª
leitura: carta aos Hebreus 5,7-9
Cristo,
sacerdote solidário da humanidade
1. A nossa leitura
faz parte de uma secção que, começando em Heb. 4, 15, nos mostra Jesus Cristo
como Sumo-Sacerdote. Esta carta tão peculiar do Novo Testamento, que não é de
são Paulo, embora durante muito tempo a tradição lha tenha atribuído,
oferece-nos, neste caso, uma teologia do papel de Jesus Cristo. O sacerdócio de
Jesus, tem, porém, a inovação de não ter sido herdada (como a de Melquisedec),
mas que é novo, recém-estreado, capaz de conseguir graça e salvação, para o que
o sacerdócio hereditário e ritual não é válido. É o sacerdócio do Filho de
Deus, mas que, tendo-Se feito um de nós, padecendo, chorando, compreendendo as
nossas misérias, sendo absoluta e radicalmente humano, em contacto com a nossa
fraqueza, nos introduz no mistério misericordioso e amoroso de Deus.
2. A figura de
Melquisedec escolhida, portanto, como modelo para o sacerdócio de Cristo, serve
para mostrar que Cristo é um sacerdote original: não herda, não aprende o
ofício, e não se cansa de atender aos que precisam. O autor constrói uma
cristologia do sacerdócio de Cristo com citações dos salmos 2,7 e 110, 4. Não é
alguém que se procure a Si próprio, que Se glorifique pessoalmente: existe para
os outros. E o mais humano possível: aprende a sofrer, como sofrem os homens. É
isto que O torna digno de fé. A Paixão, da qual estamos a falar, é entendida
como uma prova de solidariedade para com a humanidade. É assim, portanto, que o
nosso autor evoca a existência humana de Jesus e nos dá a compreender que essa
existência é colocada ao mesmo nível da dos outros homens, frágeis, e mortais.
Daí que se diga que aprendeu a "obedecer" ou aprendeu a
"obediência". Creio que quer dizer que aceitou, sendo perfeito
moralmente, que devia ser sofrente, porque todos os homens o são.
Evangelho:
João 12,20-33
A
hora da verdade é a hora da morte e esta, da glória
1. O texto de João
oferece-nos hoje uma cena muito significativa que devemos entender no contexto
de toda a "teologia da hora" deste evangelista. A sorte de Jesus está
lançada, porque os judeus, seus dirigentes, já tinham decidido que Ele tem de
morrer. A ressurreição de Lázaro (Jo 11), com o que isso significa - dar vida -
foi determinante a este respeito. Para João, os judeus decidem a morte. Mas o
Jesus do Evangelho de João não Se deixa morrer de qualquer maneira; não lhe
roubam a vida, mas é Ele que a quer entregar. E com todas as consequências. Por
isso nos falam de que tinham subido à festa da Páscoa uns gregos, quer dizer,
uns pagãos simpatizantes do judaísmo, "tementes a Deus", como se lhes
chamava, que tinham ouvido falar de Jesus e queriam conhecê-l'O, comunicando
este desejo a Filipe e a André. É então que Jesus, o Jesus de São João, Se
decide, definitivamente, levar às últimas consequências o seu compromisso. O
judaísmo, o seu mundo, a sua religião, a sua recusa em se abrir a uma nova
Aliança tinha esgotado todas as possibilidades. Uma série de
"afirmações": sobre o grão de trigo que morre e dá fruto (v. 24;
sobre amar e perder a vida (v. 25) (como em Mc. 8, 35; Mt. 10, 30; 16, 25; Lc.
9,24; 17,33) e sobre o destino dos servos junto com o do Mestre, abrem o
caminho a uma "revelação" sobre o momento e a hora de Jesus.
2. Efetivamente, as
palavras que podemos ler sobre uma experiência extraordinária de Jesus, uma
experiência dialética como a da Transfiguração e, de certa maneira, como a
experiência do Getsêmani Mc. 14,32-42; Mt. 26,36-46; Lc. 22,39-46) são o centro
deste texto de João, que tem como testemunhos não apenas os discípulos que eram
judeus como aqueles gregos que tinham chegado à festa e, inclusive, a multidão
que escutou algo de extraordinário. Muitos comentaristas viram aqui antecipado
o Getsêmani de João que não está narrado no momento da Paixão. Neste caso, pode
ser considerado como a preparação para a "hora"que, em João, é a hora
da morte e esta, por sua vez, a hora da glória. O evangelista, depois da
opinião de Caifás após a ressurreição de Lázaro de que um devia morrer pelo
povo (Jo 11,50s) está a preparar tudo para este momento que se aproxima. A
morte já está decidida, mas essa morte não chega como eles pensam que vai
chegar, mas com a liberdade soberana que Jesus quer assumir nesse momento.
3. Era, portanto,
como se Ele esperasse um momento como este para caminhar para a morte: chegou a
hora que se estava a preparar desde o início do Evangelho, é a hora da verdade,
da paixão-glorificação. E Jesus, com uma consciência absoluta da sua missão,
fala-nos do grão de trigo, que se não cai na terra e morre, não pode dar fruto.
A vida verdadeira só se consegue morrendo, dando-a aos outros. É verdade que,
falando do ponto de vista de Jesus, esta decisão, não se toma olimpicamente ou
com desprezo; porque Lhe custa entregar-Se à morte naquelas condições. Por
isso, recebe o consolo do alto para ir até ao final e, antes que Lhe tirem a
vida, entrega-a como o grão de trigo. Ele ama a sua própria vida, entrega-a aos
outros, coloca-a nas mãos de Deus e dos homens. Tudo parece demasiado
extraordinário; em João não pode ser de outra maneira, mas também é muito
humano. Jesus não tem medo na hora da verdade, porque confia plenamente no Pai
e adverte que os seus que têm esta mesma disposição.
4. Os vv. 31-33
descrevem-nos, numa linguagem apocalíptica, a vitória sobre a morte na cruz.
Esta é uma teologia muito própria de João que não viu na cruz fracasso algum de
Jesus; pelo contrário, é a partir da cruz que atrairá o mundo inteiro (cf. Jô.
3,14-15; 8,28). E isto não porque João pensasse que Jesus ressuscitava na cruz,
no exato momento da morte, como atual e razoavelmente se defende, em muitos
escritos teológicos. .Mas porque a morte de Jesus lhe confere um poder
incomensurável. A morte não Lhe é imposta, não é a consequência de um juízo
injusto ou inumano, mas é o próprio Jesus que a "procura" como o grão
de trigo que necessita de morrer para "ter vida" e porque provoca o
julgamento sobre o mundo, sobre a falsidade do poder e a mentira do mundo. A
hora de Jesus é a hora da cruz, porque é a hora da verdade de Deus. E então, a
mentira do mundo será descoberta. Mas Jesus atrairá a Si, à sua hora, à sua
verdade, à sua vida nova, todos os homens.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Estamos no final do
“livro dos sinais” que é a chave interpretativa que João usa no seu Evangelho,
e já se está perfilando o encontro mortal entre a classe dirigente e Jesus.
Esta passagem é como um elo entre o que até agora João contou e se conclui com
esta aparição das “gentes” (assinaladas por estes “gregos”), e o que está para
suceder. João subdivide os próximos acontecimentos em dois âmbitos. O primeiro âmbito
é o diálogo unicamente com os discípulos no contexto da ceia pascal (cc.
13-17), e o outro âmbito é a cena pública da paixão e depois a aparição do
ressuscitado (cc. 18-21).
Este episódio,
talvez não de todo real, quer assinalar que a abertura às gentes começou já com
o próprio Jesus. Não se trata tanto de andar a convencer os outros acerca de
qualquer coisa, mas de acolher sobretudo a sua busca e levá-la à maturidade. E
esta maturidade não se alcança senão com a colaboração dos outros e com um diálogo
com Jesus. Não se diz se Jesus falou a estes “gregos”: o texto parece abreviar
a narração, fazendo levar de imediato à evidência de que “tipo de Jesus” se
devem acercar aqueles que o procuram. Trata-se do Jesus que oferece a vida, que
dá frutos através da morte. Não, portanto, um Jesus “filósofo”, “sábio”, mas
sobretudo aquele que não está agarrado à própria vida, mas a doou e se colocou
ao serviço da vida de todos.O que se diz nos versículos 27-33 em que se
manifesta a angústia e a perturbação de Jesus diante da morte iminente, é
chamado também o “Getsémani do IV Evangelho”, em paralelo com a narração dos
Sinópticos sobre a vigília dolorosa de Jesus no Getsémani. Como acontece com o
trigo, que só se rompendo e morrendo pode libertar toda a sua vitalidade, do
mesmo modo Jesus morrendo mostrará todo o seu amor que dá vida. A história da
semente é a história de Jesus e de todo o discípulo que o quer servir e ter
vida n'Ele.
Algumas perguntas
a) Por que foram
precisamente Filipe e André os interpelados?
b) O que
verdadeiramente procuravam estes “gregos”?
c) Também nós
recebemos às vezes perguntas semelhantes sobre a fé, a Igreja, a vida cristã?
d) Não parece que
Jesus se tenha encontrado com estes “gregos”, mas confirmou a proximidade da
sua “hora”. Por que falou desta maneira?
e) Jesus queria que
respondessem com fórmulas ou antes com testemunhos?
“Senhor, queremos
ver Jesus”
Trata-se de uma
pergunta que fazem alguns “gregos” a Filipe. Deles diz-se que “tinham vindo a
Jerusalém para adorar nos dias da Festa”. Provavelmente são aqueles “tementes a
Deus” de que se fala frequentemente nos textos neotestamentários, simpatizantes
da religião hebraica, ainda que não sejam verdadeiramente judeus. Podiam ser
somente de origem sírio-fenícia, como indica Marcos com a mesma palavra (Mc.
7,26) quando fala da mulher que pede a cura da filha. No pedido que fazem
podemos encontrar somente curiosidade de se aproximarem de uma personagem
famosa e discutida. Mas o contexto em que são apresentados por João, esta
procura indica pelo contrário que procuravam verdadeiramente e com coração
aberto. E é mesmo assim que são imediatamente apresentados como foi dito:
“Olhai como toda a gente foi com Ele” (Jo. 12,19).
E logo a notícia é
comentada por Jesus como o “chegar a hora do Filho do Homem”. O fato de se
terem dirigido a Filipe, e este os orientar para André, é devido ao fato de os
dois serem de Betsaida, uma cidade onde as pessoas estavam misturadas e tinham
necessidade de se entenderem em diferentes idiomas. As duas personagens representam
de qualquer modo duas sensibilidades: Filipe é mais tradicionalista (como se vê
pela frase que disse depois de ter conhecido Jesus (Jo 1,45)), enquanto André,
que já tinha participado no movimento de João Baptista, era de caráter mais
aberto à novidade (Jo. 1,41), para indicar que a comunidade que se abre aos
pagãos, que acolhe a solicitude de quem procura com um coração curioso, é uma
comunidade que vive na diversidade de sensibilidades.
“Se o grão de
trigo não cai na terra...”
A resposta de Jesus
parece menos dirigida aos “gregos”, que desejavam vê-lo, e mais orientada para
todos, discípulos e “gregos”. Ele vê abrirem-se as fronteiras, sente a
tumultuosa adesão das gentes, mas quer chamar a atenção que esta fama que o
rodeia, esta “glória” que quiseram conhecer de perto, é de outro gênero da que
eles talvez esperassem. Trata-se de uma vida que está para ser destruída, de
uma palavra que é “silenciada”, esmagada até à morte, sepultada nas entranhas
do ódio e da terra, para a fazer desaparecer. E em vez de verem uma glória ao
estilo humano, estão perante uma “glória” que se revela através do sofrimento e
da morte. Vale para eles como vale para toda a comunidade cristã que se quer
abrir aos “gregos”. Deve “consultar” este Senhor, ou seja, deve estar em contacto
com este rosto, com esta morte para a vida, deve dar a própria contemplação do
mistério e não só aportar noções. Deve viver o verdadeiro despojo das
seguranças e das gratificações humanas, para poder servir o Senhor e receber
também ele a honra do Pai. O apego à própria vida e à sabedoria humana - e no
mundo grego estes eram valores muito considerados - é o verdadeiro obstáculo ao
autêntico “conhecimento de Jesus”. Servir o nome do Senhor, acolher a
solicitude de quem o procura, levá-los a Jesus, mas sem viver ao estilo do
Senhor, sem dar sobretudo testemunho de compartilhar a mesma escolha de vida, o
mesmo dom da vida, não serve para nada.
“Agora a minha alma
está perturbada”
Esta “agitação” de
Jesus é um elemento muito interessante. Não é fácil sofrer, a carne revolta-se,
a inclinação natural faz fugir do sofrimento. Também Jesus sentiu esta
repugnância, sentiu horror, diante da morte que se perfilava dolorosa e
humilhante. Na sua pergunta “que vou dizer?”, podemos sentir este calafrio,
este medo, esta tentação de subtrair-se a uma tal morte. João coloca este
momento difícil antes da Última Ceia; os Sinópticos, pelo contrário, colocam-no
na oração do Getsémani, antes da prisão (Mc. 14,32-42; Mt. 26,36-46; Lc.
22,39-46). Em todo o caso, todos coincidem em sublinhar em Jesus este temor e
fadiga que o torna semelhante a nós, frágil e cheio de medo.
Mas Ele enfrente
esta angústia “confiando-se” ao Pai, reclamando para si mesmo que este é o seu
projeto, que toda a sua vida tende precisamente para esta hora, que se revela e
se assume. O tema da hora - sabemo-lo bem - é muito importante para João:
veja-se a primeira afirmação nas bodas de Caná (Jo 2,4) e depois mais
frequentemente (Jo 4,21; 7,6.8.30; 8,20; 11,9; 13,1; 17,1). Trata-se não
somente de um tempo determinado mas também de uma circunstância decisiva, para
a qual tudo se orienta.
“Atrairei todos a
mim”
Excluído pela
violência homicida dos que se sentiam ameaçados, a suspensão da cruz
converte-se numa verdadeira entronização, ou seja, a exposição de quem é para
todos salvação e bênção. Da violência que o queria marginalizar e eliminar,
passa-se à força centrípeta exercida por aquela imagem de entronização.
Trata-se de “um atrair” que se gera não por curiosidade, mas por amor. Será
suscitador de discipulado, de adesão em todos aqueles que saibam ir para além
do fato físico, e verão n'Ele a gratuidade feita totalidade. Não será a morte
ignominiosa que afastará, mas que se converterá em fonte de atração misteriosa,
gramática que abre novos sentidos para a vida. Uma vida entregue que gera vida;
uma vida sacrificada que gera esperança e nova solidariedade, nova comunhão,
nova liberdade.
Ordem do Carmo
Jesus é caminho que
nos conduz ao Pai. A Quaresma é um momento propício de retomar nosso
seguimento. O ato de querer ver Jesus é unido ao ato de querer segui-Lo e
conhecê-Lo. Em cada Domingo deste período fomos convocados a reforçar nosso
seguimento:
1º domingo:
encontramos o Senhor que estabelece uma aliança duradoura conosco; o Batismo de
Jesus e o nosso batismo em Cristo é agora a nova Aliança estabelecida por Deus.
Fortalecido pela graça batismal, o cristão tem forças para superar as tentações
do mundo presente.
2º domingo:
percebemos que quem deseja estar com o Senhor deve manter-se fiel a Ele. Abraão
e Paulo nos dão o exemplo de fé e fidelidade. Este ato humano pode nos levar a
contemplar o Filho muito amado do Pai.
3º domingo: seguimos
o itinerário quaresmal colocando o Deus vivo e verdadeiro como centro de nossa
vida; essa é a perspectiva das leituras daquele Domingo:
quem adorar a Deus
em espírito e verdade deve fazê-lo em Cristo, o que exige a fé e o cumprimento
da lei do amor.
4º domingo: como o
povo do Antigo Testamento, muitos ainda procuram as "trevas" e não a
"luz". O cristão é homem e mulher que deseja conhecer o caminho
proposto por Cristo; um caminho iluminado e iluminador. Um caminho de graça que
é dom de Deus.
Neste 5º domingo da
Quaresma o desejo de ver Jesus, expresso com tanta esperança pelo grupo dos
gregos no evangelho, traduz uma aspiração que percorre os séculos. O jeito de
Jesus viver e propor o Reino de Deus perpassa todo o horizonte histórico e
atrai a atenção e o respeito dos que crêem e dos que ainda não tem fé.
Cristo é o
verdadeiro Deus; Cristo é plena e totalmente verdadeiro homem; Cristo é
indissoluvelmente Deus-homem, pois é impossível separar a sua divindade de sua
ressurreição e de sua atuação durante a vida terrena. Vemos então a comunidade
eclesial em uma posição privilegiada na qual pode contemplar a glorificação de
Jesus. Ele mostra
qual o seu caminho
para a glória dos que desejam vê-lo: o caminho da cruz, o caminho da obediência
a Deus, o caminho da semente lançada à terra, que não fica só, mas, morrendo,
produz muito fruto. Não tem outro momento, a hora é agora. Este é o momento de
glorificar o Pai através de sua vida. Jesus se lança totalmente no plano do Pai
e realiza
plenamente sua
vontade quando passa pela paixão-morte e ressurreição.
Quem quiser ver
Cristo e estar com Ele onde Ele está, isto é, no Pai, terá que acompanha-lo em
sua hora. Aceitar ser semente lançada à terra, aprender a obediência com
pedidos e súplicas. Este será fiel à nova aliança em Cristo anunciada por
Jeremias. Deixará que Deus coloque a sua lei em seu coração e a imprima em sua
mente. Deixará que Deus seja o seu Deus para assim pertencer a seu povo.
Diocese São
Mateus
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