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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 14 de março de 2018

5º DOMINGO QUARESMA-A

5º DOMINGO QUARESMA

18 de Março de 2018

AnoB

Evangelho - Jo 12,20-33



·     Os gregos queriam conhecer Jesus. É o que nós devemos fazer. Não só conhecer Jesus, como também segui-lo, e fazer tudo o que podemos para que todos também o sigam. Continuar lendo.



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“QUEREMOS VER JESUS!” Olivia Coutinho.

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA

DIA 18 DE MARÇO DE 2018

Evangelho de Jo12,20-33

Nestes dias em que fazemos o caminho para a Páscoa do Senhor Jesus, revivendo seus últimos passos rumo a cruz, queremos proclamar com mais veemência a nossa fé, colocando em prática tudo o que aprendemos durante este nosso caminhar! 
A liturgia deste tempo de graça, nos conscientizou de que a nossa vida, só tem sentido se vivida na perspectiva da vida eterna, nos  fez mergulhar no mistério do amor do Pai, nos mostrando o quão é grande o seu amor por nós!  
O evangelho que a liturgia deste 5º Domingo da Quaresma, coloca diante de nós, nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, a assumir a nossa fé, com todas as suas consequências.
O texto começa dizendo, que entre as pessoas que haviam subido para adorar a Deus, durante a festa dos Judeus, estavam também, alguns gregos, que sentiram desejosos de ver Jesus. Certamente, esses gregos  já haviam ouvido falar Dele, razão pela a qual, eles queriam vê-lo.
Filipe, um dos discípulos de Jesus, cujo nome era de origem grega, foi o escolhido como intermediário, talvez pela origem do nome.  Eles disseram a Filipe: “Senhor, queremos ver Jesus!”
Filipe convidou André, e os dois, levaram o fato  ao conhecimento de Jesus, que não se  manifestou,  mas, provavelmente, ao tomar conhecimento, que a sua palavra, já atingia  outros povos, (no caso os gregos) o tenha motivado a falar abertamente de sua morte para os discípulos. Naquelas alturas, Jesus, convicto da necessidade da sua morte, para que o mundo fosse redimido, dá como  encerrada a sua missão aqui na terra, dando a entender, que a partir de então, Ele só seria visto na cruz.   
Ciente do bem que sua morte traria para a humanidade, Jesus  abraça a cruz, como abraçasse a todos nós, pois seria  pela  a  Cruz, que Ele nos libertaria do cativeiro, nos devolvendo a vida.
Mesmo na iminência de um grande sofrimento, Jesus ainda encontra força para falar da fecundidade da vida, referindo-se aos frutos que seriam produzidos com a sua morte.
A caminho da cruz, Jesus fala de vida, dando o exemplo de uma semente que só produz frutos, quando cai na terra e morre. “Se o grão de trigo que cai na terra e não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muitos frutos.”
Ao falar da dinâmica de uma semente, Jesus fala de si mesmo, Ele se via, como aquela  semente, que precisaria morrer, para produzir frutos, do contrário Ele não passaria de mais um pregador, que passara por este mundo.
 Falando claramente da sua morte, Jesus já delega aos discípulos, a incumbência de fazê-lo  conhecido, não somente por aqueles gregos, que queriam vê-lo, mas pelo o povo do mundo inteiro, o  que de fato aconteceu.  Foi depois da sua morte e ressurreição, que Jesus ficou  conhecido em todos os rincões da terra! 
Finalizando a sua trajetória terrena, Jesus adverte os discípulos e hoje a nós, sobre o perigo do apego à vida terrena! A sua mensagem é muito clara: somente quem é desapegado, desprendido, está  livre para segui-lo!  
Quem deseja verdadeiramente seguir Jesus, deve  apresentar-se a Ele, completamente livre de qualquer apego. O apego escraviza, é uma forma ilusória de resguardar a vida, vida, que nem pertence a nós, pois pertence a Deus.
Quando resguardamos a nossa vida, podemos até nos sentir protegidos de algum infortuno, mas não  realizaremos a vontade de Deus, não produziremos os frutos esperados por Ele.
“Queremos ver Jesus!” São muitos, os que querem "ver" Jesus, mas desconhecem o caminho para chegar a Ele. Gastemos a nossa vida, para que o outro tenha mais vida, tornemo-nos caminho para leva-lo a Jesus.  

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

PARA OUVIR ESTA REFLEXÃO É SÓ CLICAR NA FOTO: 

Programa refletindo o Evangelho 5º domingo da Quaresma



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A fantasia da caridade
1. No caminho quaresmal há três atitudes que abrem a porta à Reconciliação: o encontro com Deus na oração, a austeridade e penitência no jejum, e a caridade na dádiva da esmola (cf. Mt. 6,2). Estas três atitudes não podem ser hipócritas, isto é, feitas para serem vistas pelos homens. Têm de ser autênticas, reveladoras da profunda comunhão com Deus, e da total fraternidade com os irmãos. Com esta sensibilidade, João Paulo II, em vários dos seus escritos, refere a importância da “fantasia da caridade”. Não basta amar os outros, é necessário constantemente inventar as melhores formas de amor. Jesus foi Mestre ao iniciar-nos na fantasia da caridade.
• “Dar a Boa Nova aos pobres” (Lc. 4,18). Ao definir a sua missão, Jesus, seguindo o profeta Isaías, assume-se como servidor dos mais pobres, dos oprimidos, de todos os que sofrem. É, na caridade, dar prioridade àqueles que toda a gente despreza e que é urgente amar.
• “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt. 14,16). Jesus teve pena da multidão que o seguia há três dias. A multiplicação dos pães, convite à partilha, abriu um tempo novo da caridade. A generosidade de um jovem que tinha cinco pães e dois peixes, pela proposta de Jesus, atingiu a multidão de milhares de homens e de mulheres, e todos ficaram saciados. Foi a mais extraordinária parábola da partilha que Jesus soube contar.
• “Lázaro sai para fora” (Jo. 12,43). Jesus compadeceu-se com todos aqueles que tinham perdido alguém. Jairo acabava de ver a filha “adormecer”; a viúva de Naim acompanhava o filho à sepultura; Marta chorava Lázaro, o irmão morto há quatro dias. Jesus vai ao encontro da dor humana e liberta todos da morte. Maior amor é impossível.
• “De todo o lugar Lhe traziam doentes e Ele curava-os a todos” (Mt. 4,24). O sinal que Jesus dava de que era o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao Mundo, era as curas dos doentes. Cegos, coxos, paralíticos, leprosos, com pequenos gestos de amor, voltavam a encontrar a alegria de viver. Era a fé, a confiança em Jesus, que lhes restituía a vida com qualidade. Encontrar Jesus era, para estes, fonte de salvação.
• “Vai em paz os teus pecados são perdoados” (Mt. 9,2). Com o escândalo dos fariseus, Jesus dizia a todos os pecadores que o perdão do pai era muito maior que a história de cada um. Curados pela fé, recebiam o perdão total e eram convidados a caminhar a um ritmo diferente no futuro. Perdão total era a maior prova do amor.
• “Todos te procuram” (Mc. 1,37). Quem d’Ele precisava ia ao seu encontro, mesmo em lugares desertos, quando estava em oração. N’Ele punha a sua esperança. A relação, mesmo com os mais pobres, era a sua expressão de amor. Em tudo e sempre, Jesus viveu a fantasia da caridade.
• “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc. 23,43). Até na proximidade da morte, crucificado, entre dois homens condenados, a Palavra de Jesus foi de ternura. Quem abre o coração a Jesus encontra sempre um grito de amor para se sentir feliz. Ao lermos os Evangelhos é-se surpreendido constantemente com as palavras e os gestos de amor que marcavam o Filho do Homem. Como Ele próprio o disse: Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu próprio Filho Único (Jo. 3,16). Jesus, em última análise, é o amor de Deus na história, um amor que salva.
2. A vida cristã, centrada na pessoa de Jesus, obriga a redescobrir a caridade. O Evangelho, de uma forma constante, define claramente qual é o caminho do amor. Não é possível ficar no simples cumprimento da Lei Antiga. Jesus não veio para destruir a Lei mas para a completar (cf. Mt. 5,17-20).
• O mandamento novo (Jo 13,34) “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei, por isto vos conhecerão como meus discípulos”. O amor torna-se, por vontade de Jesus, a “marca” do cristão, a forma como é conhecido.
• O perdão total (Mt. 18,21-22). Pedro julgou que bastava perdoar sete vezes. Jesus, porém, deu a regra, perdoar setenta vezes sete, isto é, perdoar sempre.
• A Reconciliação (Mt. 5,23-24). Estando diante do altar para fazer oferendas, se alguém recorda que há quem esteja de relações cortadas com ele, deve interromper a oração indo primeiro reconciliar-se. A dinâmica do perdão total, na relação fraterna, é a exigência máxima para o cristão.
• Amar até à unidade (Jo. 17,21). Como Jesus e o Pai são um só no amor, também todos os cristãos têm o dever de construir a unidade até à comunhão total. Desafio difícil, mas essencial para seguir Jesus até ao fim.
• Julgados pelo amor (Mt. 25,40). O que fizeste ao mais pequenino dos teus irmãos foi a Mim que o fizeste. Por isso diz o Senhor: nos fins dos tempos, vem possuir o Reino que foi preparado para ti desde todo o sempre.
• A maior prova do amor (Jo. 15,13). De muitas maneiras Jesus veio dizer que dar a vida por aqueles a quem se ama é a expressão máxima do amor. É uma proposta radical, mas que leva ao máximo a fantasia da caridade. Não se diga que não é possível, esta foi a “loucura” dos mártires.
O capítulo quinto de Mateus, que começa com as Bem-Aventuranças, propõe não apenas o cumprimento da Lei mas a plenitude da lei que se encontra no amor. Por isso termina com uma expressão que poderá ler-se assim “sede então perfeitos no amor, como o Pai do Céu é perfeito a amar” (Mt. 5,48).
3. A fantasia da caridade, nesta Quaresma, pede aos cristãos um novo dicionário que lhes permita amar sempre com o coração cheio de exigência. Algumas palavras que marcam o caminho quaresmal:
• acolher – estar sempre disponível para quantos nos procuram, qualquer que seja a circunstância, constitui um apelo de conversão quaresmal.
• compreender – tentar entender com o tempo necessário o problema do outro que veio ao nosso encontro, não é fácil. Exige tempo, reclama palavras assertivas, e pede respostas que sejam suficientemente salvadoras. Todos são diferentes, mas todos precisam da atenção necessária.
• servir – o serviço generoso constitui a melhor forma de seguir Jesus. Como Eu vos servi, sirvam-se vocês também uns aos outros (cf. Jo. 13,14).
• partilhar – pôr em comum os nossos bens, sobretudo o que nos sobra, é uma forma privilegiada de imitar as primitivas comunidades cristãs. “Todos punham tudo em comum” (At. 2,44).
• preferir – esta é das tarefas mais difíceis, escolher aqueles a quem se ama. Olhando com atenção maior os mais pobres, os pequeninos, os de mais idade, os marginais, os mais abandonados.
• perdoar – há tantas razões pelas quais se fica magoado ou se cortam relações. A fantasia da caridade pede mesmo a invenção das formas de perdão.
• amar – é esta a originalidade do ser cristão: amar a todos, amar sempre, amar em qualquer circunstância. Um amor que redime e salva.
Chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram; ter um prato à mesa disponível para quem chega e nos surpreende; aceitar uma chamada telefônica e escutar um desabafo ou uma súplica; apoiar nos estudos um jovem ou um adulto em dificuldade; tudo isto e muitas outras coisas são expressões da fantasia da caridade.
4. O Evangelho de Mateus fala da oração, do jejum e da esmola. Para se não ser hipócrita será necessário que cada um converta a esmola na fantasia da caridade (cf. Mt. 6,2).
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



Da morte brota a vida
A liturgia deste domingo mostra-nos o significado da morte salvadora de Jesus que, por amor a toda a humanidade, entregou sua vida na cruz. É o Senhor que nos ensina, com seu próprio exemplo de vida, que dar e receber não são dois movimentos contraditórios. Eles estão tão ligados entre si, que o ser humano só ganha vida na medida em que está disposto a doá-la, renunciando ao egoísmo, para colocar-se a serviço dos outros (evangelho). A vida de quem está sempre se poupando e evitando o risco, não chega a desabrochar e não se desenvolve. Na prática, torna-se estéril e vazia. Na realidade, quem se coloca diante da vida com generosidade e entrega, como o próprio Cristo, acaba recebendo mais do que ele dá (2ª leitura). O exemplo do grão de trigo que cai na terra e morre para germinar, mais do que um fenômeno da natureza, é a condição necessária para qualquer coisa dar fruto na vida.
1ª leitura: Jeremias 31,31-34
Diante da infidelidade do povo de Israel que rompeu muitas vezes a aliança com Deus, não guardou seus mandamentos, se fechou diante do futuro e ficou sem forças para começar de novo, o profeta Jeremias anuncia a vontade do Senhor de fazer “uma nova aliança”. Deus não mudará a sua Lei, mas mudará o coração do ser humano, capacitando-o para entender e praticar a sua vontade (“Colocarei minha lei em seu peito e a escreverei em seu coração”). Agora vai ficar inscrita no coração humano, sede da liberdade, das decisões e dos desejos, sem, com tudo, limitar a sua liberdade. Quando se tem Deus «no coração», a lei se humaniza, se acata com sinceridade e o ser humano se transforma em Povo de Deus.
Desta forma é Deus quem dá o primeiro passo, perdoando as infidelidades e manifestando seu amor eterno e misericordioso. A aliança no coração será algo íntimo ao homem de forma que a liberdade humana poderá estar em sintonia com a vontade divina. Nesta nova relação com Deus, ”ninguém mais precisará ensinar seu próximo... porque todos... me conhecerão”. Antes a aliança consistia numa lei escrita em tabuas de pedra, agora estará escrita no coração humano, todos terão o senso do amor e da fidelidade e, por isso, a lei externa, os mediadores e os mestres, não serão mais necessários.
2ª leitura: Hebreus 5,7-9
O texto desta leitura lembra a oração e do Senhor no horto das Oliveiras, quando Jesus ora ao Pai ante a possibilidade de ser liberado da morte. Foi na oração que Ele se fortaleceu para assumir a sua missão. Nós, cristãos, temos muito que aprender neste sentido, pois, muitas vezes, nossa oração não é de súplica e, sim, uma forma de pedir a Deus que faça a nossa vontade e não nós a vontade d'Ele.
O texto nos aproxima também do sofrimento assumido por Cristo como prova da sua obediência aos desígnios do Pai. Nesta aproximação à vontade do Pai é que Jesus se torna manifestação da presença de Deus entre nós, caminho e modelo de salvação aberto a todos os homens e mulheres do mundo.
A “obediência” é a aceitação da soberania de Deus sobre a nossa vida e, portanto, a aceitação da vontade divina. Neste sentido, o autor da carta aos Hebreus contrapõe a obediência de Cristo, que trouxe a vida, à desobediência de Adão, que trouxe a morte. Portanto, a salvação só é possível para aqueles que a acolhem numa atitude de fé e obediência à semelhança de Cristo.
Evangelho: João 12,20-23
Neste evangelho aparecem alguns peregrinos “gregos” (prosélitos estrangeiros não judeus) interessados, não apenas em ver, mas em conhecer Jesus. Na linguagem do evangelista João, “ver”, significa “conhecer” e conhecer leva a “crer”. Portanto, aqueles gregos sentiam as palavras de Jesus como dignas de fé. Para tanto, precisavam de um intermediário entre os apóstolos. Encontram dois com nome grego (Filipe e André) e se dirigem a Filipe: «Senhor, queremos ver Jesus.».
Aqueles gregos representam todos os povos da terra sobre os quais irá recair esse acontecimento de salvação universal, incluído na morte de Cristo na cruz como parte de Plano do Pai. Jesus quer cumprir plenamente esse Plano de Salvação. Por isso pronuncia umas palavras comovedoras sobre seu destino e fala: «Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado». A hora decisiva, a hora da verdade chegou e consiste na passagem pela Paixão e Cruz para a glória da Ressurreição.
Para ilustrar isto, o Senhor apresenta sete imagens muito ricas em conteúdo:
1. “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto”. Uma pequena parábola que mostra o sentido da sua Morte como passagem para a vida plena e a Ressurreição. Comparando-se com o grão de trigo que precisa morrer para dar fruto, Jesus expressa perfeitamente o sentido de sua morte: Ele é o grão de trigo que, caindo no chão da humanidade e morrendo por todos, germinou e cresceu como uma espiga cheia de grãos, que somos nós, renovados com a nova vida de filhos de Deus. Com isto, mostra que, do fracasso aparente da cruz, irá surgir uma vida renovada e muito mais fecunda.
2. “Quem tem apego à sua vida, vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna. Uma expressão com a qual descreve sua entrega total de onde brota a vida divina para toda a humanidade.
3. ”Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Com isso se refere à Páscoa como o triunfo da graça e do poder de Deus sobre o pecado e a morte.
4. “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”. É no paradoxo da cruz, quando tudo parecer perdido, que a força do sacrifício de Cristo atrairá a humanidade para Ele e se tornará o centro da história, Senhor e Salvador do universo.
5. “Veio uma voz do céu: «Eu manifestei a glória do meu nome, e vou manifestá-la de novo.». Como no batismo de Jesus e na transfiguração, acontece mais uma vez esta manifestação de Deus (teofania), mas a multidão fica confusa.
6. “Agora é o julgamento deste mundo”. A “hora” de Jesus vai acontecer como o julgamento definitivo sobre o mal. No entanto, esta “hora”, como lembra a 2ª leitura de hoje, traz consigo angustia, abatimento e tentação (“o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora?”). A reação de Jesus é reafirmar-se em sua decisão de cumprir a vontade do Pai (“Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, manifesta a glória do teu nome!”).
7. “Jesus assim falava para indicar com que morte ia morrer”. O evangelista fala da morte de Jesus, não como o final da vida, mas como a passagem necessária para a sua glória e ressurreição.
Quando, em meio ao sofrimento e à dor, formos tentados de desistir lembremo-nos do exemplo maravilhoso de obediência e coragem que o Senhor nos dá. Crer em Jesus significa seguir seu caminho, até mesmo na cruz, sendo capazes de doar-nos aos outros para levá-los a Cristo a fim de participarem da vida nova que o Senhor nos oferece.
Palavra de Deus na vida
Egoísta é aquele que pensa: “A vida é minha e faço com ela o que eu quiser; só a uso em benefício próprio”. O Evangelho, porém, nos diz que só terá vida plena aquele que conseguir despojar-se de si mesmo e dos seus interesses para doar-se aos outros, entregando-se numa atitude de serviço fraterno.
Neste contexto, o Senhor nos diz: “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto”. A morte do grão de trigo parece um fracasso. Mas, na realidade, quando o grão de trigo é enterrado, não morre; é a partir dessa aparente morte que desenvolve todas as suas potencialidades para transformar-se numa espiga cheia de grãos que multiplicam o fruto indefinidamente. Fracasso mesmo seria o grão de trigo não morrer; porque, sem germinar, não serve para nada.
Da mesma forma, quem se dedica a promover o ser humano e melhorar o mundo em que vivemos pode parecer aos olhos dos mais pessimistas que perde o seu tempo, mas, na realidade, o tempo dele se multiplica em tantas vidas redimidas do abandono, da marginalização de do esquecimento. A “morte” dos que estamos unidos a Cristo, pela fé e pelo batismo, é como a morte do grão de trigo: dessa “morte” (que pode ser o compromisso de participar na construção de um mundo melhor com todo o sacrifico que leva consigo) nasce sempre uma Vida Nova.
Muitas vezes queremos seguir a Cristo evitando a cruz e fugindo da renúncia que o compromisso por um mundo melhor traz consigo, e ficamos como o grão de trigo que não morre, mas também não germina, não dá fruto e acaba servindo de alimento para os pássaros do céu. No entanto, se quisermos participar com Cristo da redenção da humanidade, temos que segui-lo (“Se alguém quer servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo”) sem medo de praticar o dom de nós mesmos.
O Senhor, certamente, está em nossos irmãos que sofrem carências físicas, espirituais e sociais num mundo que os marginaliza. Por isso, se colocarmos o sentido de nossa vida no ter (seja dinheiro, poder ou prestígio) e nos aliarmos com o sistema social desumano e opressor que existe em nosso meio, nos tornaremos infecundos para o Reino de Deus. Mas, se “perdermos” nossa vida participando nas iniciativas por superar a injustiça, promover o respeito pelos mais fracos, a “mesa partilhada” e a igualdade de oportunidades para todos, ”nos guardaremos para a vida eterna”.
Pensando bem...
Os gregos que buscam Jesus representam todo ser humano, buscador de felicidade, amor, sentido da vida, esperança, plenitude, verdade, beleza... As pessoas buscam uma referência que sirva de orientação, ilumine o seu horizonte, motive seu esforço e indique a direção a seguir. A resposta é Jesus. Ele nos mostra o Caminho e o modo de caminhar.
Como os gregos do evangelho, pode que digamos nós também: «queremos ver Jesus». Mas será que é Jesus crucificado, obediente ao Pai até a morte que queremos ver? É esse Jesus do alto da cruz que nos atrai como acontece com todos aqueles que descobrem o sentido da doação fraterna? Será que é Jesus ressuscitado dos mortos, vivo e presente no meio de nós que estamos procurando?
Campanha da Fraternidade 2012
Cuidamos muito mal de nosso corpo e nos esquecemos que ele faz parte da nossa realidade espiritual. Cuidamos mal de nossa alma, pois esquecemos que ela tem um corpo e é através dele que pode realizar toda espécie de boas obras. A rede de saúde que existe em nossa sociedade pode e deve ser melhorada, mas não podemos esquecer que o melhor remédio é sempre prevenir as doenças. Se melhorarmos o nosso comportamento em relação aos nossos hábitos alimentares, à higiene pessoal e familiar, ao controle do tabagismo e do alcoolismo, em fim, aos cuidados básicos da nossa saúde, teríamos uma qualidade de vida bem melhor e seriamos muito mais felizes. Somos responsáveis por este corpo que Deus nos deu. Quando descuidamos da saúde estamos desprezando o maior dom que recebemos e não estamos contribuindo para que “a saúde se difunda sobre a terra”.
padre Ciriaco Madrigal




"Chegou a hora em que o filho homem vai ser glorificado"
Domingo do grão de trigo caído na terra. Neste domingo, vamos ao encontro do Senhor e recebemos dele o anúncio de que sua glória passa pela experiência do grão que cai na terra para produzir frutos. Fazemos memória da Páscoa de Jesus que hoje acontece em todas as pessoas que gastam sua vida em favor dos outros. Cristo elevado na cruz institui a nova e eterna Aliança.
No tempo quaresmal, defrontamo-nos com a experiência da morte como caminho necessário e inevitável para alcançar a vida. Por mais paradoxal que pareça, o caminho para a vida é o mesmo da morte.
O culto a Deus, para ser autêntico, deve levar para a prática. O projeto de Deus sempre envolve a esperança de um mundo diferente, de alianças em favor da vida, de comunidades comprometidas com a mudança de rumo.
Primeira leitura: Jeremias 31,31-34
O contexto desta leitura é o da calamidade resultante da destruição de Jerusalém no ano 587 a.C., fruto das infidelidades de Judá e Israel à Aliança feita com Javé. No horizonte amplo da profecia, Jeremias antevê uma futura e definitiva Aliança, não mais feita com mediações exteriores (sacrifícios, ritos legais, tábuas de pedra), mas gravada no coração, escrita no peito de um novo povo de Deus. Por esta nova Aliança abre-se a perspectiva de uma nova humanidade reconciliada.
O profeta Jeremias já tinha previsto que este tempo da Nova Aliança caracterizado pela nova vida, no perdão das culpas passadas pela presença da lei do Senhor nos corações. O profeta Jeremias é encarregado de anunciar a Palavra de Deus num dos mais difíceis períodos da história de Israel. Dirigindo-se ao povo hebreu exilado, proclama uma Nova Aliança. Chegada a plenitude da história da salvação, realizou-se na pessoa de Cristo a Nova Aliança de Deus com seu povo e com toda a humanidade, como profetizou Jeremias, ao anunciar uma lei, uma religião e uma Aliança interiores, pessoais, vivas, escritas não em tábuas de pedra mas no coração das pessoas.
Como o profeta Jeremias chegou a esta concepção da lei de Deus inscrita nos corações das pessoas? A seus olhos, Deus sonda os corações e os rins, no sentido de que Ele está presente no interior de nossos pensamentos (coração) e de nossas paixões (rins) (Jr. 11,20; 12,3; 17,10; 20,12). Em todo caso, só depois de ter experimentado os pensamentos e as paixões, isto é, corações e rins, é que o Senhor aceita as pessoas em sua presença.
O contexto desta leitura é o da calamidade resultado da destruição de Jerusalém em 587 a.C., fruto das infidelidades de Judá e Israel à Aliança feita com Deus. Olhando toda a situação, o profeta Jeremias anuncia uma futura e definitiva Aliança, não mais feita com mediações exteriores (sacrifícios, ritos legais, tábuas de pedra), mas gravada no coração, escrita no peito de um novo povo de Deus. No entanto, essa Lei, dada em tábuas de pedra, não tinha conseguido conduzir o povo a Deus. O ritualismo e o formalismo tinham abafado o seu conteúdo.
Deus então promete algo novo. Não se trata de renovação da Aliança do Sinai, nem de sua reformulação parcial. Trata-se de algo diferente. E a novidade está nos versículos 33-34. Os elementos principais da novidade são três: "interiorização, conhecimento de Deus e perdão dos pecados".
Como primeiro elemento da novidade, a Aliança passará a ser gravada no coração da pessoa humana. Na nova Aliança a Lei será colocada no íntimo da pessoa humana. Não será apenas uma lei externa que necessita de ameaças e sanções, mas será uma lei interior que inclinará suavemente a pessoa humana a seguir com "alegria e docilidade" a vontade de Deus. A Aliança do Sinai, gravada em pedra, foi rompida. O gesto de Moisés de lançar ao chão e despedaçar as pedras da Lei (Êxodo 32,19), no episódio do bezerro de ouro, torna-se um símbolo de toda a Aliança do Sinai. A nova Aliança, implantada por Deus no coração da pessoa humana, será perpétua. Isto significa que Deus não esquece a sua promessa: "Ele dá o alimento aos que o temem e "jamais esquecerá sua aliança" (Salmo 111,5). Nosso Deus é um Deus que não admite opressão. "Ele enviou libertação para o seu povo, confirmou sua Aliança para sempre. Seu nome é santo e digno de respeito" (Salmo 111,9).
E esta sendo perpétua acontece o "segundo elemento" da novidade: um conhecimento interior de Deus, isto é, fazer experiência de Deus. Não se trata de um conhecimento especulativo, mas de um "conhecimento afetivo, amoroso", que abre o coração da pessoa para Deus e o leva a aderir "com alegria" os seus preceitos. Este conhecimento não necessitará de mestres porque será posto "no íntimo" de cada pessoa pelo próprio Deus. E não será privilégio de poucos: todos receberão este conhecimento, "grandes e pequenos". Provavelmente aqui são indicados os sábios e dirigentes da nação, bem como os pobres e ignorantes.
"O terceiro elemento" da Nova Aliança é o "perdão dos pecados". Este perdão é anunciado como um dom gratuito, quase como uma anistia que tem como centro a bondade e a misericórdia de Deus. Significa que Deus amolece o seu coração em relação ao pecador. E o perdão dos pecados estabelece um novo relacionamento, totalmente cordial e amistoso, entre a pessoa e Deus.
Salmo responsorial 50/51,3-4.12-15
O Salmo 50/51 é uma súplica individual. Uma pessoa vive um drama: o conhecimento profundo de sua miséria e pecados; tem plena consciência da gravidade da própria culpa, com a qual quebrou a Aliança com Deus. Por isso suplica. O pecado é um ato pessoal contra Deus, não mera violência de ordem abstrata.
O Salmo frisa a fraqueza humana diante do pecado ("pecador já minha mãe me concebeu", v. 7) e a necessidade da graça de Deus para criar dentro de nós um coração novo. Deus não quer sacrifícios e holocaustos, mas um coração contrito e humilhado. O Salmo lembra a misericórdia de Deus por Davi.
O salmista em oração coloca-se diante da misericórdia de Deus, confiando que Ele tudo pode e quer sanar, regenerar, recriar todas as coisas com a santidade e a novidade do seu Espírito.
O rosto de Deus no salmo 50/51, é mais uma vez, o Deus da Aliança. O salmista, pois, tem consciência aguda da transgressão que cometeu. Porém, maior que seu pecado é a confiança no Deus que perdoa.
O tema da súplica está presente na vida de Jesus (tivemos a oportunidade de vê-lo nos outros salmos de súplica individual). O tema do perdão ilimitado de Deus aparece forte, por exemplo, no capítulo 18 de Mateus, nas parábolas da misericórdia (Lucas 15) e nos episódios em que Jesus perdoa e recria plenamente as pessoas (por exemplo, João 8,1-11; Lucas 7,36-50 etc.).
O tema do "lavar" (versículo 4a) ressoa na cura do cego de nascimento (João 9,7); o purifica-me (versículo 4b) aponta para toda a prática de Jesus, que cura leprosos, doentes, etc.
No Primeiro Testamento este Salmo lembrava ao povo a misericórdia de Deus com Davi, apesar de seu grande pecado. Cantando hoje este salmo, peçamos que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a viver em profunda comunhão com Ele e com os irmãos e nos conduza num caminho da verdadeira conversão.

Segunda leitura: Hebreus 5,7-9
O autor da carta aos Hebreus atesta que Jesus superou o sistema sacrifical do Antigo Testamento. Ele é o único mediador, o único sacerdote. O sacerdócio levítico não é apresentado como vocação, enquanto o de Cristo, sim, portanto, não podia ser considerado como perfeito. Cristo, porém, foi levado à perfeição, sua natureza humana foi refundida no crisol do sofrimento, Ele foi "consagrado sacerdote". Seu sacrifício é o único agradável a Deus.
Em suma, a leitura mostra como o Pontífice da Nova Aliança "está perto das pessoas". A vida humana de Cristo, perseguido, caluniado, incompreendido, torturado e por fim crucificado e morto, tornou-se apto a conferir a seus seguidores a salvação. O cristão aprende que os seus sofrimentos podem adquirir um novo significado à luz dos sofrimentos de Jesus.
O Quinto Domingo da Quaresma coloca o cristão face a face com o núcleo do Mistério: a Nova Aliança, a oblação sacerdotal sob a forma de uma existência efetiva, a exaltação de Jesus como glória de Deus. A liturgia deste domingo já antecipa o sentido da Páscoa de Jesus Cristo.

Evangelho: João 12,20-33
Jesus compara a sua obra redentora com o trigo que morre, para que haja vida que é fruto da Nova Aliança. No Evangelho de João a "glorificação" de Cristo significa a sua paixão, morte e ressurreição, que Ele mesmo explica, logo em seguida, com três referências em profunda ligação: "o grão de trigo, o seguimento dos discípulos e a obediência ao Pai". A breve parábola do grão de trigo tem como ponto central "a fecundidade": se cai na terra e morre, dá muito fruto; se não cai, permanece estéril.
João destaca que está chegando a "hora" da exaltação de Jesus, de sua paixão, morte e ressurreição. O cerco começa a fechar-se ao redor de Jesus: começam a aparecer o escândalo da cruz e a tensão da paixão. Sua glorificação, porém, não passa pelas expectativas do povo que quer proclamá-lo rei. No mundo das contradições do poder (do "príncipe deste mundo") Jesus assume um messianismo diferente: monta num jumentinho (João 12,14-15), assume o caminho do serviço, da doação do grão de trigo que morre para produzir fruto, do discípulo e da discípula que doa a sua vida para proclamar a vida maior, a vida eterna. O povo não entende. Humanamente falando, Jesus se perturba, mas vai em frente, pois a voz que vem do Pai confirma: "Eu manifestei a glória do de meu nome". A glória de Jesus consiste em dar sua vida, para que nasça um mundo diferente, novo, sem a prepotência do "príncipe deste mundo". "Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim."
Tanto no Getsémani como na passagem evangélica de hoje, fica claro a natural repugnância de Jesus perante a morte, devido à sua verdadeira humanidade e condição mortal, como homem que é. "Agora sinto-me angustiado. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas é precisamente para esta hora que eu vim. Pai glorifica o teu nome" (27-28a).
Esta estremecedora prova da fraqueza humana está presente, também, na segunda leitura, cujo contexto consiste em duas características de Cristo como sacerdote: compreensivo pela sua condição humana e escolhido pelo Pai para tal missão. Jesus não é um masoquista quem tem prazer com a dor. Muito pelo contrário, como homem normal que era, ao saber-se "condenado à morte", sente medo e, desfeito em lágrimas, grita, chora e suplica a Deus Pai. Tanto no Getsémani como no Gólgota: "Cristo, nos dias de sua vida mortal, com gritos e lágrimas, dirigiu orações e súplicas a quem o podia livrar da morte" (Hebreus 5,7)
A introdução do evangelho mostra "os romeiros", de língua grega, se dirigindo aos apóstolos de nome grego, Filipe e André, originários de Betsaida, a parte mais helenizada da Galiléia. Na suposição que se trate de pagãos, a exclamação de Jesus "Chegou a hora em que o Filho do Homem é glorificado" ganha um sentido de manifestação universal ao mundo, reforçando as últimas palavras do contexto anterior: "Todo o mundo vai atrás dele" (12,19).
Assim, a "glória" de Cristo, é manifestada aos pagãos que concordam com a salvação. Não é apenas a glória de um Messias nacionalista, mas a de um Deus, irradiando sua luz sobre o mundo inteiro (vv. 20-13). Os pagãos podem entrar na ação do Salvador, o que permite a Cristo de entrever um dos aspectos de sua glorificação próxima, sob a forma da "reunião das nações" (v. 32; cf. Isaias 53,12). Assim Jesus toma consciência da fecundidade universal de sua morte próxima.
A oposição entre Cristo e os judeus baseia-se em duas concepções diferentes das noções de "fecundidade e de glorificação". Para os judeus somente os meios poderosos podem conduzir á glória; para Cristo, o único caminho é o mistério pascal de sua Paixão. Esta oposição entre a humilhação e a glorificação encontra-se na ambigüidade da palavra "elevar".
Porém, não se trata de uma manifestação espetacular. "A glória de Jesus é a sua "exaltação", e esta é, antes de tudo, "a elevação na cruz", como está no final do texto do evangelho: os versículos 32-33. Em outros termos, a cruz de Cristo é o trono da sua glória e ao mesmo tempo seu tribunal; diante da cruz, nós nos unimos a Ele (v. 25-26) ou então entramos no julgamento e somos jogados fora (v. 32). Conferir também João 3,18-21.
Nesta hora é que entra o senhorio de Cristo: ele será "elevado da terra" para atrair todos a si: imagem do Senhor glorioso, mas não devemos esquecer que esta exaltação, para João, se realiza antes de tudo na "elevação da cruz", prova do amor de Deus e revelação de seu rosto.
Assim, a liturgia, mediante este evangelho e os dos domingos anteriores nos envolve num movimento de "conversão radical", ao aproximarmo-nos também no tempo litúrgico da cruz de Cristo, revelação do amor de Deus para nós.
Para ganhar a vida é preciso perdê-la. Pois a vida que se tem agora não é uma morada definitiva, mas uma ocasião para mostrarmos qual é o seu verdadeiro compromisso. A nossa vida neste mundo não é a última, mas a penúltima. Quem torna a sua vida aqui a última causa de seu compromisso, "perde o trem da vida eterna". Quem, porém, gasta sua vida para realizar a doação até o fim, está com Jesus, aqui e para sempre. Assim, se serve a Jesus como Senhor e recebe-se o reconhecimento do Pai. Em outras palavras, viver de verdade é estar do lado de Jesus.
Agora fica claro o que é este estar com Jesus. É estar com Ele na sua agonia (cf. Mateus 26,36-46). A ousadia de João faz com que, na "hora da glorificação do Filho do Homem" se situe a angústia da agonia de Jesus, o grão de trigo que se sente sufocado na terra. Embora João nos apresente, no seu Evangelho, Jesus visto através da Ressurreição, ele não esconde o drama humano desta existência (cf. Hebreus 5,7), drama da obediência ao Pai (cf. Filipenses 2,6ss), na doação até o fim.
A conclusão que João dá ao discurso, em torno do "tema da luz", resume-se maravilhosamente: do alto da cruz, Jesus atrai a humanidade, em forma de um apelo silencioso, para que todos "caminhem em sua luz", isto é, acreditem Nele. Esta fé reúne efetivamente todas os cristãos "em volta da cruz", formando a comunidade messiânica dos últimos tempos, fazendo assim da cruz o trono do novo Rei e Senhor.
A glória de Deus na Escritura não significa, como nas línguas modernas, a fama, o glamour, mas o valor verdadeiro, a importância, o respeito que Deus impõe. Na realidade, Glória, em hebraico, "evoca a idéia de peso": salmo 49/48,17-18. Somente Deus pode possuir uma verdadeira glória, um verdadeiro valor: Salmo 6162,6-8; Isaias 6,1-6.
A afirmação do Novo Testamento anuncia que a glória de Deus é manifestada em Jesus (Hebreus 1,3; 2 Coríntios 4,6; 1 Coríntios 2,8; João 1,14-18); as obras que Jesus realiza manifestam esta glória: Ele é verdadeiramente "o primeiro homem a ter peso", valor, mas isto lhe vem de sua comunhão perfeita com o Pai, principalmente nas horas de sua paixão e de sua ressurreição (João 10,30; 17,19; 12,28).
Esta glória repercute sobre os cristãos (João 17,10) através da comunhão sacramental (1 João 5,7; João 19,34-36) e pela comunicação da comunhão que Jesus vive com o Pai (2 Coríntios 1,22; Colosensses 1,10-11).
Da Palavra celebrada ao cotidiano vida
A liturgia deste quinto domingo da Quaresma já antecipa o sentido da Páscoa de Jesus. O Caminho da experiência do Deus Javé que Jesus fez. A nova e definitiva Aliança que Ele propõe passa por três caminhos fundamentais.
O Caminho de Jesus é o caminho da solidariedade: sua proposta não discrimina ninguém, é aberta para todas as culturas. "Queremos ver Jesus" é o que dizem alguns pagãos gregos, que tinham subido a Jerusalém para prestar culto a Deus, na festa da Páscoa. Filipe ouve esse pedido, chama André, e os dois juntos transmitem esse desejo a Jesus. Hoje mesmo sem saber se expressar desse modo, são muitos os que querem ver, conhecer e encontrar Jesus. Na verdade, Ele é a resposta aos anseios mais profundo do ser humano, pois "ilumina todo ser humano que vem a esse mundo" (João 1,9). Hoje, cada batizado precisa ser esse tipo de instrumento, para que o mundo desorientado encontre o rumo da salvação, da vida plena que Deus deseja para todos e que é oferecida em Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.
O caminho de Jesus é o caminho do serviço, do Messias Servo humilde: Ele assume as dores e esperanças de seu povo na contramão do pode dos reis, rainhas e presidentes deste mundo (Jesus não aceita ser rei e educa o povo numa outra direção (João 12,13).
O caminho de Jesus não é o caminho da glória deste mundo, mas o caminho da exaltação na cruz, o caminho do grão de trigo que morre para dar mais vida. A cruz de Jesus não foi um decreto de Deus, mas a conseqüência de sua solidariedade com o destino dos pobres, dos pecadores, dos doentes. Quem toma esse caminho no mundo torto em que vivemos terá contra si o projeto "dos inimigos da partilha", que procuram sempre crucificar a justiça, a paz e a verdade. Quem trabalha com autenticidade nas pastorais da Igreja (principalmente nas pastorais sociais) terá quase sempre pela frente esse tipo de inimigos. Quem faz Aliança com os projetos dos movimentos sociais populares que defendem os direitos das classes oprimidas certamente sofrerá o enfrentamento sofrido por Jesus.
Através da imagem do "grão de trigo" (João 12,24), Jesus ilustra as modalidades e os efeitos da morte na pessoa humana, na qual Deus concedeu o seu Espírito. Cada pessoa conserva em si mesma muito mais energias do que julga ter. Capacidade amor que cada pessoa não tem a possibilidade de desenvolver no breve espaço de sua existência. Como grão de trigo começa a produzir a vida só quando caído na terra e morre, assim o ser humano pode libertar toda a energia vital que contém em si só através da morte. No momento da morte as suas energias de amor libertam-se e exercem a sua plena eficácia. Como a vida contida no grão se manifesta numa forma nova, assim, com a morte, também a vida contida no indivíduo se manifesta numa forma completamente nova e mais rica. Assim a morte, em vez de destruir a pessoa humana, permite-lhe um novo crescimento. A morte propicia ao ser humano um ato de absoluta entrega e amor a Deus. Por isso a morte permite uma extrema realização humana. A morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal. Por isso no momento da morte, ressuscitamos com Cristo.
Para que exista esta fecundidade é necessário que o ser humano ofereça a sua vida: "quem se apega à sua vida pai perde-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna". (João 12,25). Quando o ser humano adere a Jesus, aceitando a sua vida e a sua morte como norma para a sua existência, desenvolve-se nele uma vida indestrutível, e desta plenitude de vida compreende que o dom de si mesmo não é uma perda, mas uma vantagem. Quem coloca a sua vida ao serviço dos outros não a diminui, mas, realiza-a plenamente e para sempre.
A morte de Cristo como caridade
A oração do dia, por sua vez, nos dará uma chave interpretativa com a qual encontraremos a harmonia entre a Primeira leitura e o Evangelho. Sua súplica para que a comunidade permaneça "na mesma caridade que levou o Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo" conduzirá nossa argumentação. O original da Oração do Dia utiliza a palavra "caritas", traduzida normalmente por caridade, no sentido de amor, afeição, ternura. Nesse sentido, o que predispôs Jesus, como israelita fiel, em sua entrega, foi a caridade. Tal entrega, é descrita, na mesma oração, com o qualificativo latino "diligens", que significa amar - opção de tradução escolhida na versão portuguesa para o Brasil. Mas o verbo diligo, de onde vem diligens trata do amor pautado numa opção ou decisão e não tanto na emotividade ou sentimento. É neste ponto que reside a ligação entre a primeira leitura e o Evangelho. A decisão de Jesus em se entregar nasce da "Lei" inscrita por Deus em seu coração, em sua inteligência fiel. A glorificação, da qual nos fala João, é o reconhecimento do Pai à sua fidelidade à Aliança. A morte de Jesus, informada no contexto pela expressão "quando for elevado da terra" só tem sentido se entendida como decisão, segundo a lógica amorosa da Aliança. E daí vem o fruto: sermos atraídos a Ele, para viver no seu amor, sendo movidos - diligentemente - por Ele. Esclarece-se, assim, a frase de Jesus, entoada neste Domingo como Antífona de Comunhão: "Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto.
O Tempo da Quaresma é, para a Igreja, a oportunidade que Deus nos concede para a conversão do nosso "coração de pedra em coração de carne". Um coração capaz de assumir a Aliança não mais inscrita na frieza da pedra, mas no calor de nossa humanidade. Jesus tinha um coração de carne, capaz de assumir a Aliança mesmo que ela Lhe acarretasse o sofrimento e a morte. Decidindo-se pela fidelidade à Aliança, assumiu a morte e a converteu em entrega de si, em oblação. A sua morte foi a "última prece e súplica" pela humanidade - e, nesse sentido, nós o reconhecemos como na carta aos Hebreus, da qual nos vem a II leitura, como o perfeito sacerdote. Na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem". E a salvação, a saúde que provém de Deus vai salvaguardando a dignidade e honradez humanas, é garantida para nós pela Aliança. A fidelidade da Igreja, portanto, à causa de Jesus de Nazaré, glorificado por Deus em sua morte redentora, garante-nos a vida plena. Estamos unidos a Cristo na morte e na vida nova que Ele inaugura por sua ressurreição.
padre Benedito Mazeti



1 – Cada vez mais perto, mais perto ainda, e logo depois a luz incandescer-nos-á, enchendo a nossa vida de luz, de paz, de vida nova, de presença de Deus, com o fulgor e o dinamismo da Páscoa, que nos atrairá para além da cruz, que tornará mais belo, mais profundo e mais generoso o nosso olhar e a nossa esperança. Os nossos olhos serão transformados pela magia do amor que Deus nos dá, para fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado.
Em Jerusalém, Jesus passeia-se às claras por entre os homens e as mulheres, em festa. Vai onde germina a vida, ao encontro dos outros. Deus vem onde nos pode encontrar, a nossa casa, à nossa vida, às nossas praças e ruas. Em sentido inverso, muitos são os que se sentem também atraídos por Ele e O procuram, querem vê-l’O, ora por curiosidade ora tocados pela fé. Talvez neles arda o Espírito de Deus.
As palavras de Jesus não podem ser mais explícitas:
«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome».
O Filho do Homem vai ser glorificado pelo sofrimento, pela cruz, melhor, vai ser glorificado pela entrega, pelo amor sem fim, pela dádiva da Sua vida, do seu Corpo, morrerá por amor. Se se pode morrer por amor, eis ALGUÉM que o faz. Sem apelo nem agravo. É hora do tormento e dor, de tristeza e angústia. É hora de confiança e de realizar-se a vontade do Pai, a vontade do Amor. É o grão de trigo que cai à terra, morre, para logo germinar na abundância de saborosos frutos.
2 – Não é uma hora fácil, a de Jesus Cristo, ao contemplar o quão perto se encontra do fim biológico. "Agora a minha alma está perturbada" (Evangelho). Resolutamente sabe que não veio para fazer o caminho mais curto, mais fácil, mas para vivenciar conosco todas as experiências, também a da dor, do sofrimento, da solidão, do abandono e da morte. Também aqui Jesus, Deus feito Homem, nos assume por inteiro. Não fica à distância a contemplar a nossa morte. Vem morrer conosco. E por nós.
Ele aprende como é amarga a passagem deste mundo para a eternidade. Angustiante. Há de transpirar gotas de sangue, tal a ansiedade e o medo. Mas não desfalece. Coloca-Se em Deus Pai. Cola-Se n'Aquele que O enviou. E que O livrará da morte eterna.
"Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna" (2ª leitura).
3 – O desiderato da Sua vida e missão é a salvação da humanidade. Toda. De todos os lugares e em todos os tempos. Vem para cumprir as promessas de Deus feitas ao Seu povo, e por Israel a todos os povos da terra.
O momento presente, de sofrimento, de blasfêmias, de prisão e da morte que se aproxima, não é, de todo, comparável à beleza do amor de Deus. Jesus resiste nessa intimidade com Deus. Sabe que se aproxima a hora da morte, mas também sabe que o amor que vai até ao fim selará a nova aliança da Redenção.
Ele inscrever-nos-á para sempre no coração de Deus e em nós inscreverá a lei do amor.
Como nos revela através de Jeremias: "Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova... Hei de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Não terão já de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas".
O início da nova Aliança dá-Se na oferenda de Jesus, da Sua vida, do Seu Corpo por inteiro. Pelo Seu sacrifício o perdão do nosso pecado. Acolhamos n'Ele a vida nova, novos céus e nova terra. É também pela Cruz que ficamos a conhecer a Lei de Deus, o rosto do Amor. 
4 – A liturgia deste quinto domingo da Quaresma deve levar-nos ao mesmo desejo dos judeus gregos que vieram a Jerusalém, conforme se diz no Evangelho: "alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus»".
O nosso privilégio facilita a nossa fé e adesão ao Evangelho, pois nascemos na hora de Cristo Senhor, fomos sepultados para o pecado e para a morte, pelo Batismo, e tornamo-nos novas criaturas, ressuscitando pelo Espírito Santo. Nesta tensão entre a vida presente e a eternidade, entre a Quaresma e a Páscoa da nossa existência mortal, o desejo por ver Jesus há de ser o desejo por nos vermos transformados pelo Seu amor redentor e vivermos como filhos e irmãos.
Também com o salmista rezemos, pedindo:
"Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso".
padre Manuel Gonçalves



Chegou a hora em que o filho do homem será glorificado
1ª leitura: Jeremias 31, 31-34
Deus renova-nos
1. O texto de Jeremias está integrado num bloco literário e teológico a que se chamou o "livro da consolação" (Jr. 30-33); e, concretamente, o da nossa leitura litúrgica é uma das afirmações mais destemidas do Antigo Testamento sobre a necessidade de uma nova aliança. Jeremias foi um profeta a quem tocou viver a situação mais dramática do seu povo (os babilônios estavam às portas de Jerusalém para a destruírem) e a quem a vocação para ser profeta não convinha muito, mas, foi  o mais contrário à sua alma (" não queria arrancar para plantar"). Nestes termos, a leitura do profeta Jeremias, mostra-se como se, isoladamente, se tivesse empenhado em "arrancar", mas não em "plantar". No entanto, este livro da consolação é um apelo à esperança e o nosso texto é o zénite teológico dessa esperança contra toda a esperança. O texto de hoje vem na continuação de uma chamada à responsabilidade pessoal (Jr. 31,29-30) para mostrar que ainda que as coisas mudem, Deus manterá a sua promessa de salvação.
2. Portanto, apesar de tudo, Deus não recua, mas está disposto a colocar a Aliança no coração de cada um de nós; é uma forma de Se comprometer mais profundamente no seu projeto de salvação. É um apelo à responsabilidade mais pessoal, mas sem rejeitar o sentido comunitário de tudo isto, porque todos os que vivem essa Aliança no seu coração, se sentirão pertencendo ao povo, à comunidade do Deus vivo e verdadeiro. O problema de uma nova aliança poderia parecer um atentado ao "dogma" da Aliança do Sinai, onde Israel encontrou a sua identidade. Mas já se sabe que os dogmas são usados pelos poderosos para ocupar o lugar de Deus e para coisas piores. Podem enganar o povo simples, mas o profeta não, porque a voz de Deus está sempre alerta. Por isso o profeta, com esta mensagem, não somente concede a Deus toda a sua autonomia e liberdade, como também com isso defende o povo para que também ele, povo, se sinta livre. A lei do coração quer dizer que é uma "lei humana" o que Deus pede, humana e de acordo com as nossas debilidades.
3. O profeta descreve esta nova situação como algo que antes achava que fazia muita faltava, um novo "conhecimento de Deus". (cf. Jr. 2,8; 4,22, 9,2), portanto a nova Aliança não estará em ritos e cerimônias ou sacrifícios novos, mas em toda uma "experiência" nova de Deus: mais humana, mais íntima, e misericordiosa que se sentida no coração e expressa na praxis da justiça e da fraternidade com os que foram ignorados. Pôr no coração "leb" (em hebraico) está entranhado na alma e e radical nos profetas"; é o mesmo que é o cérebro para a antropologia atual, porque tudo se move a partir daí. Mas é mais que o cérebro: ter coração ou não o ter, todos sabemos o que significa ao nível mais popular; a nível bíblico é como ter espírito, ter alma ou não tê-la. A lei, sem alma, escraviza; com alma liberta. O profeta está falar, pois, de uma Aliança que estará modelada na experiência mais profunda e humana de Deus em cada um dos seus.
2ª leitura: carta aos Hebreus 5,7-9
Cristo, sacerdote solidário da humanidade
1. A nossa leitura faz parte de uma secção que, começando em Heb. 4, 15, nos mostra Jesus Cristo como Sumo-Sacerdote. Esta carta tão peculiar do Novo Testamento, que não é de são Paulo, embora durante muito tempo a tradição lha tenha atribuído, oferece-nos, neste caso, uma teologia do papel de Jesus Cristo. O sacerdócio de Jesus, tem, porém, a inovação de não ter sido herdada (como a de Melquisedec), mas que é novo, recém-estreado, capaz de conseguir graça e salvação, para o que o sacerdócio hereditário e ritual não é válido. É o sacerdócio do Filho de Deus, mas que, tendo-Se feito um de nós, padecendo, chorando, compreendendo as nossas misérias, sendo absoluta e radicalmente humano, em contacto com a nossa fraqueza, nos introduz no mistério misericordioso e amoroso de Deus.
2. A figura de Melquisedec escolhida, portanto, como modelo para o sacerdócio de Cristo, serve para mostrar que Cristo é um sacerdote original: não herda, não aprende o ofício, e não se cansa de atender aos que precisam. O autor constrói uma cristologia do sacerdócio de Cristo com citações dos salmos 2,7 e 110, 4. Não é alguém que se procure a Si próprio, que Se glorifique pessoalmente: existe para os outros. E o mais humano possível: aprende a sofrer, como sofrem os homens. É isto que O torna digno de fé. A Paixão, da qual estamos a falar, é entendida como uma prova de solidariedade para com a humanidade. É assim, portanto, que o nosso autor evoca a existência humana de Jesus e nos dá a compreender que essa existência é colocada ao mesmo nível da dos outros homens, frágeis, e mortais. Daí que se diga que aprendeu a "obedecer" ou aprendeu a "obediência". Creio que quer dizer que aceitou, sendo perfeito moralmente, que devia ser sofrente, porque todos os homens o são.
Evangelho: João 12,20-33
A hora da verdade é a hora da morte e esta, da glória
1. O texto de João oferece-nos hoje uma cena muito significativa que devemos entender no contexto de toda a "teologia da hora" deste evangelista. A sorte de Jesus está lançada, porque os judeus, seus dirigentes, já tinham decidido que Ele tem de morrer. A ressurreição de Lázaro (Jo 11), com o que isso significa - dar vida - foi determinante a este respeito. Para João, os judeus decidem a morte. Mas o Jesus do Evangelho de João não Se deixa morrer de qualquer maneira; não lhe roubam a vida, mas é Ele que a quer entregar. E com todas as consequências. Por isso nos falam de que tinham subido à festa da Páscoa uns gregos, quer dizer, uns pagãos simpatizantes do judaísmo, "tementes a Deus", como se lhes chamava, que tinham ouvido falar de Jesus e queriam conhecê-l'O, comunicando este desejo a Filipe e a André. É então que Jesus, o Jesus de São João, Se decide, definitivamente, levar às últimas consequências o seu compromisso. O judaísmo, o seu mundo, a sua religião, a sua recusa em se abrir a uma nova Aliança tinha esgotado todas as possibilidades. Uma série de "afirmações": sobre o grão de trigo que morre e dá fruto (v. 24; sobre amar e perder a vida (v. 25) (como em Mc. 8, 35; Mt. 10, 30; 16, 25; Lc. 9,24; 17,33) e sobre o destino dos servos junto com o do Mestre, abrem o caminho a uma "revelação" sobre o momento e a hora de Jesus.
2. Efetivamente, as palavras que podemos ler sobre uma experiência extraordinária de Jesus, uma experiência dialética como a da Transfiguração e, de certa maneira, como a experiência do Getsêmani Mc. 14,32-42; Mt. 26,36-46; Lc. 22,39-46) são o centro deste texto de João, que tem como testemunhos não apenas os discípulos que eram judeus como aqueles gregos que tinham chegado à festa e, inclusive, a multidão que escutou algo de extraordinário. Muitos comentaristas viram aqui antecipado o Getsêmani de João que não está narrado no momento da Paixão. Neste caso, pode ser considerado como a preparação para a "hora"que, em João, é a hora da morte e esta, por sua vez, a hora da glória. O evangelista, depois da opinião de Caifás após a ressurreição de Lázaro de que um devia morrer pelo povo (Jo 11,50s) está a preparar tudo para este momento que se aproxima. A morte já está decidida, mas essa morte não chega como eles pensam que vai chegar, mas com a liberdade soberana que Jesus quer assumir nesse momento.
3. Era, portanto, como se Ele esperasse um momento como este para caminhar para a morte: chegou a hora que se estava a preparar desde o início do Evangelho, é a hora da verdade, da paixão-glorificação. E Jesus, com uma consciência absoluta da sua missão, fala-nos do grão de trigo, que se não cai na terra e morre, não pode dar fruto. A vida verdadeira só se consegue morrendo, dando-a aos outros. É verdade que, falando do ponto de vista de Jesus, esta decisão, não se toma olimpicamente ou com desprezo; porque Lhe custa entregar-Se à morte naquelas condições. Por isso, recebe o consolo do alto para ir até ao final e, antes que Lhe tirem a vida, entrega-a como o grão de trigo. Ele ama a sua própria vida, entrega-a aos outros, coloca-a nas mãos de Deus e dos homens. Tudo parece demasiado extraordinário; em João não pode ser de outra maneira, mas também é muito humano. Jesus não tem medo na hora da verdade, porque confia plenamente no Pai e adverte que os seus que têm esta mesma disposição.
4. Os vv. 31-33 descrevem-nos, numa linguagem apocalíptica, a vitória sobre a morte na cruz. Esta é uma teologia muito própria de João que não viu na cruz fracasso algum de Jesus; pelo contrário, é a partir da cruz que atrairá o mundo inteiro (cf. Jô. 3,14-15; 8,28). E isto não porque João pensasse que Jesus ressuscitava na cruz, no exato momento da morte, como atual e razoavelmente se defende, em muitos escritos teológicos. .Mas porque a morte de Jesus lhe confere um poder incomensurável. A morte não Lhe é imposta, não é a consequência de um juízo injusto ou inumano, mas é o próprio Jesus que a "procura" como o grão de trigo que necessita de morrer para "ter vida" e porque provoca o julgamento sobre o mundo, sobre a falsidade do poder e a mentira do mundo. A hora de Jesus é a hora da cruz, porque é a hora da verdade de Deus. E então, a mentira do mundo será descoberta. Mas Jesus atrairá a Si, à sua hora, à sua verdade, à sua vida nova, todos os homens.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro



Estamos no final do “livro dos sinais” que é a chave interpretativa que João usa no seu Evangelho, e já se está perfilando o encontro mortal entre a classe dirigente e Jesus. Esta passagem é como um elo entre o que até agora João contou e se conclui com esta aparição das “gentes” (assinaladas por estes “gregos”), e o que está para suceder. João subdivide os próximos acontecimentos em dois âmbitos. O primeiro âmbito é o diálogo unicamente com os discípulos no contexto da ceia pascal (cc. 13-17), e o outro âmbito é a cena pública da paixão e depois a aparição do ressuscitado (cc. 18-21).
Este episódio, talvez não de todo real, quer assinalar que a abertura às gentes começou já com o próprio Jesus. Não se trata tanto de andar a convencer os outros acerca de qualquer coisa, mas de acolher sobretudo a sua busca e levá-la à maturidade. E esta maturidade não se alcança senão com a colaboração dos outros e com um diálogo com Jesus. Não se diz se Jesus falou a estes “gregos”: o texto parece abreviar a narração, fazendo levar de imediato à evidência de que “tipo de Jesus” se devem acercar aqueles que o procuram. Trata-se do Jesus que oferece a vida, que dá frutos através da morte. Não, portanto, um Jesus “filósofo”, “sábio”, mas sobretudo aquele que não está agarrado à própria vida, mas a doou e se colocou ao serviço da vida de todos.O que se diz nos versículos 27-33 em que se manifesta a angústia e a perturbação de Jesus diante da morte iminente, é chamado também o “Getsémani do IV Evangelho”, em paralelo com a narração dos Sinópticos sobre a vigília dolorosa de Jesus no Getsémani. Como acontece com o trigo, que só se rompendo e morrendo pode libertar toda a sua vitalidade, do mesmo modo Jesus morrendo mostrará todo o seu amor que dá vida. A história da semente é a história de Jesus e de todo o discípulo que o quer servir e ter vida n'Ele.
Algumas perguntas
a) Por que foram precisamente Filipe e André os interpelados?
b) O que verdadeiramente procuravam estes “gregos”?
c) Também nós recebemos às vezes perguntas semelhantes sobre a fé, a Igreja, a vida cristã?
d) Não parece que Jesus se tenha encontrado com estes “gregos”, mas confirmou a proximidade da sua “hora”. Por que falou desta maneira?
e) Jesus queria que respondessem com fórmulas ou antes com testemunhos?
“Senhor, queremos ver Jesus”
Trata-se de uma pergunta que fazem alguns “gregos” a Filipe. Deles diz-se que “tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da Festa”. Provavelmente são aqueles “tementes a Deus” de que se fala frequentemente nos textos neotestamentários, simpatizantes da religião hebraica, ainda que não sejam verdadeiramente judeus. Podiam ser somente de origem sírio-fenícia, como indica Marcos com a mesma palavra (Mc. 7,26) quando fala da mulher que pede a cura da filha. No pedido que fazem podemos encontrar somente curiosidade de se aproximarem de uma personagem famosa e discutida. Mas o contexto em que são apresentados por João, esta procura indica pelo contrário que procuravam verdadeiramente e com coração aberto. E é mesmo assim que são imediatamente apresentados como foi dito: “Olhai como toda a gente foi com Ele” (Jo. 12,19).
E logo a notícia é comentada por Jesus como o “chegar a hora do Filho do Homem”. O fato de se terem dirigido a Filipe, e este os orientar para André, é devido ao fato de os dois serem de Betsaida, uma cidade onde as pessoas estavam misturadas e tinham necessidade de se entenderem em diferentes idiomas. As duas personagens representam de qualquer modo duas sensibilidades: Filipe é mais tradicionalista (como se vê pela frase que disse depois de ter conhecido Jesus (Jo 1,45)), enquanto André, que já tinha participado no movimento de João Baptista, era de caráter mais aberto à novidade (Jo. 1,41), para indicar que a comunidade que se abre aos pagãos, que acolhe a solicitude de quem procura com um coração curioso, é uma comunidade que vive na diversidade de sensibilidades.
 “Se o grão de trigo não cai na terra...”
A resposta de Jesus parece menos dirigida aos “gregos”, que desejavam vê-lo, e mais orientada para todos, discípulos e “gregos”. Ele vê abrirem-se as fronteiras, sente a tumultuosa adesão das gentes, mas quer chamar a atenção que esta fama que o rodeia, esta “glória” que quiseram conhecer de perto, é de outro gênero da que eles talvez esperassem. Trata-se de uma vida que está para ser destruída, de uma palavra que é “silenciada”, esmagada até à morte, sepultada nas entranhas do ódio e da terra, para a fazer desaparecer. E em vez de verem uma glória ao estilo humano, estão perante uma “glória” que se revela através do sofrimento e da morte. Vale para eles como vale para toda a comunidade cristã que se quer abrir aos “gregos”. Deve “consultar” este Senhor, ou seja, deve estar em contacto com este rosto, com esta morte para a vida, deve dar a própria contemplação do mistério e não só aportar noções. Deve viver o verdadeiro despojo das seguranças e das gratificações humanas, para poder servir o Senhor e receber também ele a honra do Pai. O apego à própria vida e à sabedoria humana - e no mundo grego estes eram valores muito considerados - é o verdadeiro obstáculo ao autêntico “conhecimento de Jesus”. Servir o nome do Senhor, acolher a solicitude de quem o procura, levá-los a Jesus, mas sem viver ao estilo do Senhor, sem dar sobretudo testemunho de compartilhar a mesma escolha de vida, o mesmo dom da vida, não serve para nada.
“Agora a minha alma está perturbada”
Esta “agitação” de Jesus é um elemento muito interessante. Não é fácil sofrer, a carne revolta-se, a inclinação natural faz fugir do sofrimento. Também Jesus sentiu esta repugnância, sentiu horror, diante da morte que se perfilava dolorosa e humilhante. Na sua pergunta “que vou dizer?”, podemos sentir este calafrio, este medo, esta tentação de subtrair-se a uma tal morte. João coloca este momento difícil antes da Última Ceia; os Sinópticos, pelo contrário, colocam-no na oração do Getsémani, antes da prisão (Mc. 14,32-42; Mt. 26,36-46; Lc. 22,39-46). Em todo o caso, todos coincidem em sublinhar em Jesus este temor e fadiga que o torna semelhante a nós, frágil e cheio de medo.
Mas Ele enfrente esta angústia “confiando-se” ao Pai, reclamando para si mesmo que este é o seu projeto, que toda a sua vida tende precisamente para esta hora, que se revela e se assume. O tema da hora - sabemo-lo bem - é muito importante para João: veja-se a primeira afirmação nas bodas de Caná (Jo 2,4) e depois mais frequentemente (Jo 4,21; 7,6.8.30; 8,20; 11,9; 13,1; 17,1). Trata-se não somente de um tempo determinado mas também de uma circunstância decisiva, para a qual tudo se orienta.
“Atrairei todos a mim”
Excluído pela violência homicida dos que se sentiam ameaçados, a suspensão da cruz converte-se numa verdadeira entronização, ou seja, a exposição de quem é para todos salvação e bênção. Da violência que o queria marginalizar e eliminar, passa-se à força centrípeta exercida por aquela imagem de entronização. Trata-se de “um atrair” que se gera não por curiosidade, mas por amor. Será suscitador de discipulado, de adesão em todos aqueles que saibam ir para além do fato físico, e verão n'Ele a gratuidade feita totalidade. Não será a morte ignominiosa que afastará, mas que se converterá em fonte de atração misteriosa, gramática que abre novos sentidos para a vida. Uma vida entregue que gera vida; uma vida sacrificada que gera esperança e nova solidariedade, nova comunhão, nova liberdade.
Ordem do Carmo


Jesus é caminho que nos conduz ao Pai. A Quaresma é um momento propício de retomar nosso seguimento. O ato de querer ver Jesus é unido ao ato de querer segui-Lo e conhecê-Lo. Em cada Domingo deste período fomos convocados a reforçar nosso seguimento:
1º domingo: encontramos o Senhor que estabelece uma aliança duradoura conosco; o Batismo de Jesus e o nosso batismo em Cristo é agora a nova Aliança estabelecida por Deus. Fortalecido pela graça batismal, o cristão tem forças para superar as tentações do mundo presente.
2º domingo: percebemos que quem deseja estar com o Senhor deve manter-se fiel a Ele. Abraão e Paulo nos dão o exemplo de fé e fidelidade. Este ato humano pode nos levar a contemplar o Filho muito amado do Pai.
3º domingo: seguimos o itinerário quaresmal colocando o Deus vivo e verdadeiro como centro de nossa vida; essa é a perspectiva das leituras daquele Domingo:
quem adorar a Deus em espírito e verdade deve fazê-lo em Cristo, o que exige a fé e o cumprimento da lei do amor.
4º domingo: como o povo do Antigo Testamento, muitos ainda procuram as "trevas" e não a "luz". O cristão é homem e mulher que deseja conhecer o caminho proposto por Cristo; um caminho iluminado e iluminador. Um caminho de graça que é dom de Deus.
Neste 5º domingo da Quaresma o desejo de ver Jesus, expresso com tanta esperança pelo grupo dos gregos no evangelho, traduz uma aspiração que percorre os séculos. O jeito de Jesus viver e propor o Reino de Deus perpassa todo o horizonte histórico e atrai a atenção e o respeito dos que crêem e dos que ainda não tem fé.
Cristo é o verdadeiro Deus; Cristo é plena e totalmente verdadeiro homem; Cristo é indissoluvelmente Deus-homem, pois é impossível separar a sua divindade de sua ressurreição e de sua atuação durante a vida terrena. Vemos então a comunidade eclesial em uma posição privilegiada na qual pode contemplar a glorificação de Jesus. Ele mostra
qual o seu caminho para a glória dos que desejam vê-lo: o caminho da cruz, o caminho da obediência a Deus, o caminho da semente lançada à terra, que não fica só, mas, morrendo, produz muito fruto. Não tem outro momento, a hora é agora. Este é o momento de glorificar o Pai através de sua vida. Jesus se lança totalmente no plano do Pai e realiza
plenamente sua vontade quando passa pela paixão-morte e ressurreição.
Quem quiser ver Cristo e estar com Ele onde Ele está, isto é, no Pai, terá que acompanha-lo em sua hora. Aceitar ser semente lançada à terra, aprender a obediência com pedidos e súplicas. Este será fiel à nova aliança em Cristo anunciada por Jeremias. Deixará que Deus coloque a sua lei em seu coração e a imprima em sua mente. Deixará que Deus seja o seu Deus para assim pertencer a seu povo.
  Diocese São Mateus





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