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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 23 de março de 2018

DOMINGO DE RAMOS-Ano B



DOMINGO DE RAMOS

25 de Março – Ano B

Evangelho Mc 14,1-15,47

(Vídeo)DOMINGO DE RAMOS-Vera Lúcia



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Neste domingo vemos Jesus glorioso, entrando em Jerusalém, e sendo aclamado como um rei, pelo povo agradecido por sua generosidade e poder de cura.  Continuar lendo




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REFLEXÃO DO DOMINGO DE RAMOS.  Olivia Coutinho
“BENDITO O QUE VEM   EM NOME DO SENHOR ”!
Hoje, DOMINGO DE RAMOS, somos convidados a aclamar Jesus, caminhando com Ele rumo ao uma nova Jerusalém!
Com o domingo de Ramos, iniciamos a semana Santa!
Para nós, cristãos católicos, a semana Santa é um tempo forte, quando estaremos reunidos em comunidade, para revivermos os últimos passos de Jesus a caminho da cruz e principalmente, para celebrarmos a vida, que a morte não venceu! 
A liturgia deste tempo nos convida a prepararmos para vivermos de maneira intensa, livre e amorosa o acontecimento mais importante do ano litúrgico: A PÁSCOA DO SENHOR JESUS!
Aprendemos muito durante esta nossa caminhada quaresmal, mas ainda há muito que aprender, afinal, temos uma missão muito importante pela frente: fazer chegar a muitos corações sombrios, a Luz do Cristo ressuscitado! O caminho que percorremos durante estes quarenta dias da Quaresma nos aproximou mais de Deus, nos fez conscientizar da nossa necessidade de conversão, trouxe-nos a certeza de que temos tudo para sermos felizes: um Pai que nos ama, que não levou em conta as nossas ingratidões, um Pai que não desiste de nós, que enviou o seu Filho para nos ensinar o caminho da vida!
Não pensemos que foi fácil para Jesus, passar por tamanho sofrimento, mesmo, sendo Deus, Jesus não estava isento do sofrimento.  Ao assumir a natureza humana, Jesus  assumiu-a por inteiro, exceto no pecado, se Ele quisesse, poderia ter recusado a cruz, mas não o fez, em obediência ao Pai, em querer levar em frente o seu projeto de vida plena para todos!  Uma obediência que resultou na sua morte, morte, que também não foi da vontade de Deus, e sim, por consequência da maldade humana. Deus poderia ter evitado o sofrimento de Jesus, libertando-o  daquele martírio, mas não o fez, por amor a cada um de nós, por quer reconstruir a aliança de amor entre Ele e o homem, uma aliança que fora quebrada pelo pecado. A entrada festiva de Jesus em Jerusalém marca o início de seu calvário! Jesus  entra em Jerusalém aclamado como Rei e Senhor da gloria, o Rei e Senhor do povo oprimido, do povo sem  voz e sem vez.
Para identificar-se com estes, Jesus entra na cidade, montado num jumentinho, o único meio de transporte dos pobres daquela época.
A sua entrada triunfal em Jerusalém, foi uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, o Rei tão esperado e desejado pelos “pequenos!”
“As multidões que iam à frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Tamanha aclamação, incendiou a ira de  seus adversários, que ao sentirem ameaçados de perder os seus tronos para Jesus, apressaram em dar fim na sua pessoa.
Nas celebrações da Semana Santa, nós nos comovemos diante as encenações da Paixão e morte de Jesus, achamos uma maldade imensa, o que fizeram com Ele, mas será que hoje, nós também, não continuamos, de alguma forma, fazendo o mesmo com Ele, na pessoa do irmão? Será que nós, não estamos crucificando Jesus, com as nossas atitudes do dia a dia? Toda vez que não praticamos a justiça, a solidariedade, que negamos ajuda ao nosso irmão, estamos também crucificando Jesus. E ao contrário, todo vez que praticamos a justiça, que promovemos o nosso irmão, estamos ressuscitando Jesus!
Rasguemos, pois, as vestes do “homem” velho, para nos revestir do “homem” novo, que aprendeu com Jesus a partilhar a vida, a ser vida na vida do outro, para que assim, possamos desde já, vivenciar o grande sentido da Páscoa: Passagem... Vida nova... Renovação...
Celebrar a Páscoa é celebrar a vida, é resgatar valores hoje tão esquecidos, como o amor, a justiça...
Como verdadeiros seguidores de Jesus, devemos estar sempre disposto a enfrentar todo e qualquer desafio para levar em frente a nossa missão de anunciadores da grande notícia: Jesus ressuscitou Ele vive entre nós!
Com os pés no chão, e o olhar para o alto, carreguemos a nossa cruz,  certos de que um dia, nós também, ressuscitaremos com Jesus.
Quiseram eliminar aquele que acolheu os pobres, os  abandonados, que defendeu a vida, mas não conseguiram, pois a vida vence quando o amor se faz presente.
DESEJO A TODOS UMA FRUTUOSA SEMANA SANTA!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olivia Coutinho

Programa Refletindo o Evangelho Domingo de ramos

Reflexão do Evangelho Dominical com Olívia Coutinho



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Domingo de ramos – a proximidade da paixão
A liturgia de domingo de ramos tem duas partes. A primeira é a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelos “meninos hebreus” que, com alegria, agitam ramos de oliveira em sinal de paz. Eles gritam “hosana, hosana, ó filho de David”, numa extraordinária manifestação de fé. A narrativa é de Marcos. A segunda parte é a celebração da eucaristia que contém três textos da palavra de Deus: a profecia de Isaías, anunciadora do servo de Javeh que, maltratado dá a imagem do que vai ser o mistério de Jesus Cristo, o Salvador pelo sofrimento; a carta aos filipenses em que S. Paulo faz a síntese do mistério de Jesus “obediente até à morte e à morte na cruz, pelo que Deus lhe deu um nome que está acima de todo o nome” (Flp. 2,8-9); e o Evangelho de Marcos que contém a narrativa da Paixão, como Pedro a viveu e é anunciada nas suas catequeses.
1. O servo de Javeh
Nunca é demais refletir sobre esta extraordinária profecia, uma vez que o servo, descrito por Isaías, anuncia a pessoa de Jesus, o Messias esperado. Três notas definem o servo de Javeh. Ele é escolhido de Deus e por ele ungido; ele aceita todo o sofrimento como primícias da redenção necessária; ele celebra a total comunhão com Deus para realizar o projeto de salvação que o Senhor queria para o seu povo.
2. O redentor universal
Na síntese teológica mais bela dos escritos de Paulo, a pessoa de Jesus é vista como o filho que aceitou ser fiel até à morte, e a morte na cruz. Marcado pela ignomínia dos homens, mereceu a redobrada ternura de Deus que lhe deu “um nome que está acima de todos os outros nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu” (Flp. 2,10). O novo servo de Javeh é Jesus o filho de Deus que veio para ser reconhecido por todas as nações. Não há salvação em nenhum outro.
3. A paixão segundo são Marcos
Cada evangelista descreve a paixão de Cristo, segundo a sua própria experiência. Marcos teve o privilégio de acompanhar Pedro na sua missão apostólica. Quantas vezes terá escutado Pedro a falar da sua experiência na Paixão de Jesus? Na sua narrativa da Paixão coloca 4 cenários: na ceia, em diálogo maravilhoso com os discípulos, com interpelações a Judas e palavras de conforto ou de atenção a Pedro e aos seus companheiros; no Horto das Oliveiras, onde com Pedro, Tiago e João, próximos, viveu na maior solidão a expectativa da morte; nos tribunais de Caifás (tribunal religioso), de Pilatos (tribunal político), da multidão (tribunal popular), tribunais em que a sentença foi sempre a condenação injusta; no Calvário, onde já pendurado na cruz sentiu com angústia o aparente abandono do Pai. Descobrir as características da paixão, no evangelho de S. Marcos, é um bom convite para a meditação na semana santa.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



Iniciamos, neste domingo, a semana mais importante do ano litúrgico, rememorando a entrada de Jesus em Jerusalém antes da sua morte redentora para concluí-la celebrando o triunfo absoluto do Senhor na sua Ressurreição. São dias muito especiais. Neles poderemos reviver e manifestar nossa fé e devoção participando ativamente das celebrações junto com a comunidade cristã.
O triunfo de Jesus passa pela humilhação da cruz (1ª leitura). A sua atitude de profunda humildade perpassa, como pano de fundo, todas as celebrações da Semana Santa (2ª leitura). A leitura completa da Paixão (evangelho) nos permite contemplar em profundidade o amor de Jesus por nós e o mistério da nossa Redenção.
Evangelho: Marcos 11,1-10
A cidade de Jerusalém estava pronta para celebrar a Festa da Páscoa: peregrinação ao templo, muita gente chegando na cidade, encontro de conhecidos, sacrifício de animais, celebração da ceia pascal... Também Jesus estava chegando com seus discípulos para celebrar a Páscoa e uma multidão o aclamava com vivas, palmas e ramos. Antes havia surpreendido a todos pedindo um jumentinho para entrar montado nele. Lembrando o que disse o profeta Zacarias 9,9: “Grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta”. O povo entende o gesto, o reconhece como Messias e o aclama com entusiasmo como aquele que traz o reino da verdadeira justiça (“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”).
Jesus é o Rei-Messias que vai confrontar-se com o centro de poder da sociedade judaica, simbolizado pela cidade de Jerusalém e pelo Templo, sede do poder econômico, político, ideológico e religioso. Ele não entra na cidade de forma triunfal, como rei, montado num vistoso cavalo de guerra. Entra como simples homem, humilde e pacífico, montado num jumento, animal de trabalho, e identificando-se com os pobres.
À diferença do Messias que esperavam, Ele traz consigo a inversão de um sistema social apoiado na força, no poder e na violência, defendendo os privilegiados e desprezando os humildes. Montado num jumento, está claro que Ele não vem para dominar, mas para servir!
1ª leitura: Isaías 50,4-7
A missão do “Servo de Deus” é aqui apresentada como forma de “ajudar os desanimados com uma palavra de coragem”. Ele mesmo se torna discípulo obediente e não se opõe à vontade do Pai nem se protege do sofrimento que envolve sua missão num mundo dominado pela injustiça e o egoísmo. Em meio ao sofrimento na realização do seu ministério, sente a presença do Senhor que o defende e o renova (“o Senhor Javé me ajuda”). Por isso, não recua diante das dificuldades e ataques dos adversários e oferece uma resistência passiva (“apresentei as costas para aqueles que me queriam bater e ofereci o queixo aos que me queriam arrancar a barba, e nem escondi o meu rosto dos insultos e escarros”).
Os estudiosos da Bíblia não sabem dizer quem é este servo de Deus, mas a tradição da Igreja tem como certo que se trata do Senhor entregue aos seus algozes e suportando as torturas com dignidade. Essa foi a atitude de Jesus e essa é a característica fundamental de seus seguidores diante da violência injusta por causa da fé.
2ª leitura: Filipenses 2,6-11
Para exortar os cristãos de Filipos a viver num estilo de vida inspirado nos “mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Filipenses 2,5), Paulo cita aqui um belíssimo hino litúrgico da época que apresenta Cristo como modelo da humildade.
Embora tivesse a mesma condição de Deus, Jesus se apresentou entre os humanos como simples homem. Abriu mão de qualquer privilégio, tornando-se apenas um ser humano obediente a Deus, filho de um povo dominado e a serviço de todos os homens. Mais ainda: submeteu-se à experiência mais difícil, que é a morte. Não bastasse isso, Jesus se entregou até o fim, aceitando a desonra da morte numa cruz, como se fosse um malfeitor, descendo desta forma até os porões da humanidade.
Como resposta a esta “humilhação e esvaziamento”, o Pai o ressuscitou e o colocou no mais alto lugar que possa existir na criação, Isto é, no lugar de “Kyrios” = “o Senhor” do universo e da história (título atribuído somente a Deus).
Reconhecer e aceitar Jesus como “O Senhor” é a maior expressão de louvor “para a glória de Deus Pai”. Um louvor que, para não ficar só em palavras, deve traduzir-se na imitação prática do Senhor, abrindo mão de todo e qualquer privilégio, até mesmo da boa fama e do bom nome, para colocar-nos, sem reservas, a serviço dos irmãos.
Marcos 14,32-52
Depois da ceia, Jesus sentiu a necessidade de falar com o Pai, mas não muito longe dos discípulos. Precisava do apóio deles nesse momento em que, diante da morte, sentia pairar sobre si o que São João da Cruz chamaria de “a noite da alma” («Minha alma está numa tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem»).
Ao assumir sobre si o pecado de toda a humanidade, sentia-se angustiado, frágil e com verdadeiro medo de morrer (”prostrou-se por terra e pedia que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele”). Por um lado, sua natureza humana estava agoniada e se resistia a pagar com sua vida o pecado de toda a humanidade (”Pai! Tudo é possível para ti! Afasta de mim este cálice!”). Por outro lado, estava ali, como Filho de Deus, para cumprir a sua missão (”Contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres”). Nessa luta interior, conhecendo antecipadamente os detalhes de sua morte e sentindo a repulsa de tornar-se pecado diante do Pai, sua angústia chegou a limites inimagináveis. Lucas (como médico que era) descreve a situação verdadeiramente dramática de Jesus: ”Tomado de angústia, Jesus rezava com mais insistência. Seu suor se tornou como gotas de sangue, que caíam no chão” (Lucas 22,44).
O que se passava no íntimo de Jesus? Uma confrontação dramática, entre a necessidade de apoio e a solidão que sentia, entre o medo e a serenidade, entre a coragem de continuar até o fim e a vontade de desistir e fugir. Procurou o apoio de seus discípulos, mas eles, incapazes de alcançar a compreender a profundidade do seu sofrimento, estavam dormindo (“Simão, você está dormindo?... eles não sabiam o que dizer a Jesus”). Naquele momento, Jesus estava, realmente, só!
Diríamos que não foi na cruz; foi nesse momento que Ele sofreu a Paixão. É nessa solidão que Jesus bebe o cálice amargo, antes de sua morte física. Mas é também, na oração e na vigilância, que se reanima no seu projeto de vida e assume a vontade do Pai. No momento em que aceita a vontade do Pai, recupera a sua força e determinação. Agora vai enfrente, sem temor, até o fim (”Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem vai ser entregue ao poder dos pecadores. Levantem-se! Vamos! Aquele que vai me trair já está chegando”).
E Judas chegou..., mas agora Jesus está no comando da situação. Não se desmorona diante da traição (”Judas logo se aproximou de Jesus, dizendo: «Mestre!» E o beijou”). E Lucas acrescenta a resposta de Jesus («Judas, com um beijo você trai o Filho do Homem?» (Lucas 22,48)) como que tentando recuperá-lo ainda, e querendo-o perdoar.
Pedro, tenta defender Jesus com as mesmas armas dos opressores, puxando a espada, mas Jesus o repreende, se entrega e toda resistência se desmorona (”Então todos fugiram, abandonando Jesus”). Agora, sim, Ele fica só de vez e começa, de fato, a sua Cruz.
Palavra de deus na vida
A oração de Jesus no Getsémani é a quinta-essência da oração. Por um lado, em quanto homem, reconhece diante do Pai que está apavorado com a perspectiva da morte; por outro, como Filho de Deus, aceita a vontade do Pai. Olhando este seu exemplo podemos sentir, na prática, a profundidade da oração que Ele nos ensinou: “Vocês devem rezar assim:,.. seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
A vontade de Deus é que deve prevalecer sempre; não a nossa. Mas, como evitar ficarmos com medo diante do sofrimento, da provação e da morte? Diremos, então: “Pai! Tudo é possível para ti! Afasta de mim este cálice!”. Mais do que um pedido, um desejo que não pretende se opor à vontade do Pai. Como Jesus, logo emendaremos: “Contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres”.
Quem teve de passar por momentos difíceis na vida e fez suas as palavras de Jesus, na oração, sabe o que é isso. É sentir o medo e a repulsa de beber o cálice amargo, mas sem ficar desesperado diante da provação e aceitando de antemão, com fé e confiança, a vontade do Pai. É reconhecer que nós não temos o controle de nossa vida e entregar as rédeas nas mãos de Deus para que Ele faça aquilo que (sabemos mas não entendemos) será o melhor.
Nada a ver com aquele ditado, aparentemente religioso, mas muito superficial, que à expressão “se Deus quiser...”, acrescenta: “... e Ele quer!”. Ora! Sabemos, sim, que Ele quer sempre o nosso bem. Mas não sabemos se será do nosso modo, no nosso tempo, conforme às nossas expectativas. Ele é quem sabe! Por isso, quando digo “se Deus quiser...”, nada tenho a acrescentar. Apenas me confio n'Ele e não tenho a mínima pretensão de torcer a vontade de Deus para o meu lado. Estou querendo (isso sim) que a minha vontade coincida com a vontade de Deus. Mais nada!
Pensando bem...
+ Mais do que as chicotadas, mais do que os pregos, mais do que a cruz, o que deve ter doído em Jesus é a solidão diante do Pai, a traição de Judas (um discípulo de confiança) e a covardia dos seus adversários, mandando prendê-lo escondido, à noite. Mais ainda, porém, deve ter sido carregar os pecados do mundo. Logo Ele, a pura santidade, se fez pecado para pagar em si mesmo o preço do nosso resgate.
+ Descobrimos, desta forma, até onde vai o amor de Deus por nós. A dor, o sofrimento e a cruz tem sentido quando se aceitam por amor, quando se vivem como forma de entrega pelas pessoas amadas. Cumpre-se o que disse o Senhor: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15,13).
padre Ciriaco Madrigal



"Bendito o que vem em nome do senhor"
Domingo de Ramos é a porta de entrada da Semana Santa. Com a celebração de hoje, entramos na "grande semana" ou mais conhecida "Semana Santa". Para as comunidades cristãs, esta semana maior sempre será um conforto com o problema do mal no mundo. Muito sofrimento. Além das catástrofes naturais, há no mundo muita opção de morte, desde a violência da guerra, o terrorismo, a violência urbana, a morte pela fome e a falta de justiça e paz, até a violência contra a própria natureza.
Durante esta semana somos levados a rever e rememorar os acontecimentos finais da vida de Jesus Cristo. O auge da Semana Santa é o tríduo pascal: quinta-feira santa, sexta-feira santa (ou da Paixão e morte de Jesus) e sábado santo (ou vigília pascal.
Evangelho da bênção: Mateus 11,1-10
O Evangelho faz parte da semana pascal do evangelista João. É um "texto sinótico" do quarto Evangelho, e pode ser comparado com Mateus 21,1-9. Nos sinóticos, a entrada de Jesus em Jerusalém (que é sua primeira visita aí) e a purificação do Templo formam um conjunto. Conforme João, Jesus já tinha ido várias vezes a Jerusalém (2,13; 5,1), e desde o capítulo 7 Ele se encontra ai quase permanentemente.
No texto de João, não encontramos a preparação da entrada em Jerusalém mediante a missão dos apóstolos para conseguir um jumentinho, como em Marcos 11,1-6. João coloca imediatamente em cena o povo que vai ao encontro de Jesus com ramos de palmeira, gritando a aclamação messiânica "Hosana", que significa "Salvai-nos" e faz parte do Salmo 118/117, "salmo pascal" (Hallel) (João 12,12-13; cf. Marcos 11,7-10). Ao "Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor", cumprimento do Salmo 118/117, João acrescenta algo que não está tal qual nos Evangelhos sinóticos: "o rei de Israel" (cf. Marcos 11,10). A partir deste termo, coloca em termos o motivo do jumentinho do rei messiânico, citando como Mateus 21,5, o texto de Zacarias 9,9-10. O mais característico do texto de João é o versículo 16, dizendo que, depois da glorificação (= morte e ressurreição) de Jesus os apóstolos se lembraram do fato e entenderam que foi um cumprimento das Sagradas escrituras. João gosta de insistir que as Escrituras só foram entendidas depois da morte (glorificação) de Jesus (2,17.22; 7,31; 20,9). É o Espírito que faz entender (cf. 14,26). É, portanto, na comunhão dos que são de Cristo, que se encontra o sentido das Escrituras. Ao mesmo tempo, isto explica porque os judeus não entenderam (no tempo de Jesus) nem entendem (no tempo de João) as Escrituras (cf. 5,39.46s).
João retoma a idéia tradicional de que Jesus é o Rei messiânico, sentado num jumentinho, mas não no mesmo sentido que Mateus 21,5, pois João omite a menção de que este rei é suave o que se revela em Zacarias 9,9, no fato de ele montar num burrinho. Em outros termos, João não se interessa em descrever Jesus como o Rei humilde, mas como o "Rei de Israel", título que está presente no começo do seu Evangelho (João 1,49) e que voltará em outra discussão irônica no fim, quando Poncio Pilatos coloca na cruz de Cristo o título "Rei dos judeus" e não quer mais mudar o que escreveu. Também, na história do processo de Jesus, os judeus são apresentados como desistindo de suas ambições de ter um rei, um Messias: só César mesmo (João 19,15). Tudo isto nos leva a descobrir a intenção de João de destacar o título "Rei de Israel", o que significa a mesma coisa que Messias, mas no contexto do Quarto Evangelho soa um pouco mais polêmico, já que a Igreja está em discussão com os que se consideram Israel, mas já não são: o judaísmo rabínico.
O Evangelho de João não dá oportunidade para uma pregação sobre Jesus como rei humilde. Sim, como Messias, cumprindo as Escrituras a respeito do "Rei messiânico". Em comparação com Marcos, Mateus e Lucas, a cena perdeu muito de seu colorido popular. Tornou-se praticamente uma mera confissão de fé messiânica, mas confissão inconsciente, pois só mais tarde lembraram-se do sentido (João 12,16). Ora, mesmo os fariseus unem-se a esta confissão do messianismo de Jesus, reconhecendo que tudo que "todo mundo vai atrás dele" (João 12,19). Certamente, João quer ilustrar também, por estas palavras, a situação no seu tempo.
É sobretudo o lugar na liturgia que valoriza o presente Evangelho. É o começo da "Semana Santa". Fica claro o contraste entre o entusiasmo da multidão do domingo de Ramos e a traição na sexta-feira santa.
Num certo sentido, Domingo de Ramos é a festa de Cristo Rei. O Evangelho de João oferece perspectivas interessantes sobre este tema, sobretudo no capítulo 18 e 19. Torna claro que o Reino de Jesus não é "deste mundo" (João 19,36). O texto do capítulo 12 prepara este tema. No capítulo 12, Jesus é Clamado como Messias pelos judeus. Porém estamos ainda na primeira parte do Quarto Evangelho, o "livro dos Sinais", em que o "evento" de Jesus fica ambíguo e sujeito a mal entendidos, já que os próprios discípulos só entendem depois (João 12,16). No capítulo 19 estamos na segunda parte, o "livro da Exaltação". Aí, tudo se torna claro, Jesus é Rei e Messias, mas não no sentido em que o mundo o entende. Sexta-Feira Santa dá a luz para entender o Domingo de Ramos. Também "todo mundo vai atrás dele" (João 12,19), mas não no sentido em que o mundo entende isso.
O messianismo (realeza) de Jesus, celebrado no Domingo de Ramos, é a vitória sobre o mundo, pela cruz. A ressurreição de Lázaro, que, na visão de João, é a ocasião para a manifestação popular descrita em João 12,12 ss., é o anúncio da ressurreição daquele que é "Ressurreição e vida". É isto que se celebra na idéia do messianismo de Jesus: a "vida" que ele dá, como dom de Deus, na sua morte e ressurreição.
É evidente que este Evangelho dá uma base para desenvolvimento no sentido da superação do messianismo terrestre de qualquer espécie.
Outra opção para o Evangelho da bênção é Marcos 11,1-10, que é o evangelista do ano.
Primeira leitura: Isaias 50,4-7
O texto é do terceiro dos assim chamados "Cânticos do Servo de Javé". Pertence a um profeta chamado Dêutero-Isaias que compôs Isaias 40-55 e exerceu sua missão em meados do século VI a.C. entre os exilados da Babilônia. O poema abrange os versículos de 4-9. Nos versículos 5b-6 aparece a motivação típica (protesto de inocência) que prepara a súplica dos salmos de lamentação individual: "não fui rebelde, não me esquivei; aos que me feriam apresentei as minhas costas..." é preferível qualificar o poema como um salmo individual de confiança. De fato, a partir do versículo 7 se desenvolvem os dois motivos básicos de tais salmos: a afirmação de confiança e a certeza de ser atendido.
A lamentação individual no Antigo Testamento é própria de pessoa de bem em geral, que se consideram injustamente perseguidas. Entre elas aparecem, sobretudo os mediadores, ou porta-vozes da Palavra de Deus, como Moisés (cf. Números 11,10-15; Deuteronômio 18,15-19), Elias (1Reis 19,1-18) e Jeremias (17,17-18;20,7-17). Eles sofrem precisamente em conseqüência da ingrata missão de mediadores.
Antes de tudo o profeta se apresenta como um discípulo (v. 4a). Atento às palavras do Mestre, ele não guarda o conteúdo da mensagem para si, mas a transmite aos outros (cf. Jeremias 1,7; Ezequiel 2,3-3,4; Deuteronômio 18,18). Esta mensagem já não é uma palavra ameaçadora como nos profetas pré-exílicos, mas uma palavra libertadora, capaz de reconfortar os desanimados (cf. Isaias 40,6-11.27-31; 41,14; 42,1-7; Ezequiel 37,11). Como profeta ele está continuamente atento às palavras que recebe de Deus (cf. Jeremias 15,16: "Todas as manhãs ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo" (v. 4b). somente assim torna capaz de levar sua missão em frente sem desfalecer (v. 5). Como outros profetas (cf. Amós 7,10-17; Miquéias 2,6.10; Jeremias 20, 7-18) também o Dêutero-Isaias sofreu o desprezo e a perseguição (versículo 6) da parte de seus ouvintes no exílio, por causa da mensagem que proclamava. Presume-se que o motivo dessa reação da comunidade exílica contra o profeta tenha sido o seu universalismo, pois anunciava o reino messiânico também aos pagãos (cf. Isaias 45,14; 49,6). Mas como os justos perseguidos dos salmos de lamentação individual (cf. Salmo 5; 6; 22, etc.), ou como Jeremias (15,17, 17,13; 20,11), o profeta põe toda a sua confiança em Deus, que o fortifica (v. 7) e frustrará os insultos dos adversários (vs. 8-9).
Também Jesus está animado da mesma confiança dos profetas que sofreram por causa da mensagem que deviam anunciar. Inspirado na figura do Servo Sofredor, Ele entra resolvido em Jerusalém para levar a sua missão até o fim. Ali enfrentará toda espécie de desonra por causa de sua doutrina, na certeza do apoio divino que o levaria à vitória final.
Qual é o personagem que se esconde atrás do título "servo", tão rico de conteúdo para p pensamento cristão? É um dos problemas do Primeiro Testamento mais discutidos pelos entendidos. Tem-se formulado numerosas hipóteses de interpretação. Há três correntes maiores.
A primeira vê o Servo de Javé um indivíduo, distinto do povo (em Isaias 49,6 e 53,3-8 ele desempenha um papel junto ao povo, enquanto nas outras partes e Dêutero-Isaias a expressão "o Servo de Javé" indica o povo todo!). Mas não se chegou a um acordo a respeito desse personagem. Trata-se de uma figura do passado (Moisés; Davi ou um de seus descendentes); ou no futuro (o Messias; um rei glorioso dos fins dos tempos)? A dificuldade não vem de hoje. Ela já aparece no Novo Testamento: "De quem disse isto o profeta: de si mesmo ou de outro?" (Atos 8,32-35).
De qualquer modo unem-se na figura do Servo de Javé traços proféticos e reais. E ele é também salvador, sacerdote e vítima ao mesmo tempo que, pelos seus sofrimentos, "intercede pelos culpados" (Isaias 53,12). Ele tem uma missão missionária junto a todos os povos.
A segunda corrente dá à expressão "Servo de Javé" um sentido coletivo. Ele não vê no Servo um indivíduo, distinto do povo de Israel. É o povo que será luz das nações; que deverá sofrer a perseguição e a morte pela salvação dos povos. Admite-se que se trataria de um grupo pequeno de fiéis no meio do povo. Seria o pequeno resto que permanece fiel a Deus e que deve servir de testemunha aos demais membros do povo e às nações.
A terceira corrente as duas anteriores. Ele dá a expressão um sentido representativo. Usa-se o termo: personalidade corporativa. O Servo de Javé incorporaria na sua pessoa todo o povo, seu passado e o seu futuro. O profeta que escreveu os cantos teria projetado nele o verdadeiro Israel. O Novo Testamento proclama a realização destas expectativas em Jesus de Nazaré, na sua vida, paixão e morte, e ressurreição.
Salmo responsorial 21(22),8-9.17-18a.19-20.23-24
O Salmo é uma súplica a Deus numa hora de sofrimento e abandono. Salmo de grande intensidade, expressa em imagens vigorosas, em pedidos insistentes, e também numa esperança triunfante.
O limite do sofrimento é sentir o abandono de Deus, que parece não ouvir a oração. A gozação das pessoas redobra a dor do salmista, seu sentimento de abandono; contudo, são também um argumento para mover a Deus, ao qual os insultos atingem. Do extremo da dor passa para o a segurança da esperança: a salvação é certa, próxima, e já pode convidar a comunidade a unir-se com ele no louvor a Deus.
A lamentação e a prece de um inocente perseguido terminam em ação de graças pela libertação esperada (vs. 23-27 e adaptam-se à liturgia nacional pelo versículo 24 e o final universalista (vs. 28-32, em que a vinda do Reino de Deus no mundo inteiro aparece logo após as provações do servo fiel. Próximo do poema do Servo Sofredor (Isaias 52,13-53,12), este salmo, cujo início Cristo pronunciou sobre a cruz e no qual os evangelistas viram descritos diversos episódios da Paixão, é, portanto, messiânico, ao menos em sentido típico. É a súplica de uma pessoa num momento de intenso sofrimento e abandono, retomada por Jesus no momento angustiante de sua cruz, entreguemos ao Pai a nossa vida e a vida de tantos irmãos e irmãs que passam pelo vale do sofrimento e da morte.
O rosto de Deus no Salmo 21(22). Há uma relação íntima e pessoal entre o justo e Deus, a ponto de o justo chamá-lo de "meu Deus". Os antepassados confiavam em Deus e eram libertos (vs. 5-6). Por causa desse Deus da Aliança é que essa pessoa tem a coragem e a confiança de clamar. A imagem mais bela de Deus neste Salmo é, portanto, a do Deus que ouve o clamor do pobre injustiçado e o liberta, fazendo-o cantar hinos de louvor (versículos 23-27). Aparece de maneira clara o rosto de um Deus libertador.
De acordo com Marcos (15,34) e Mateus (27, 46), Jesus rezou este Salmo na cruz. Ele, portanto, é o justo inocente que clama confiante. E Deus lhe responde com a ressurreição. Jesus em toda a sua vida ouviu todos os clamores do povo e atendeu com misericórdia. Ele é, portanto, a resposta do Deus que ouve os clamores e liberta.
Segunda leitura: Filipenses 2,6-11
No contexto de uma exortação de Filipos Paulo cita um hino cristológico. Através desta citação sugere que as principais coordenadas da salvação operada através de Cristo marquem a existência cristã. Estas coordenadas aparecem na estrutura do hino.
Na glorificação (doxologia) "Jesus Cristo é o Senhor" em que culmina o hino, dirige-se a Jesus o nome que no Primeiro Testamento é reservado a Deus. Conforme o hino, Jesus, morto na cruz e depois exaltado, recebe de Deus e da comunidade o nome de "Javé". Antes Ele não tinha este nome. Ele era Deus preexistente. Assumindo a natureza humana poderia ter-se valido desta igualdade com Deus Pai. Ma ao tornar-se homem e inaugurar a Sua missão preferia apresentar-se á humanidade como servo de Deus e não como senhor do universo. Esta preferência não era somente de ordem subjetiva, mas de ordem objetiva. Ele revela que a pessoa humana se realiza mais na submissão a Deus do que no senhorio sobre o mundo e o universo. A soberania da pessoa humana só será plenamente humana se e na medida que ela for serviço de Deus. O fato que Jesus recebe o senhorio sobre o universo depois de Sua obediência até a morte revela que nela não há nada de usurpação.
"Jesus é Javé". Esta confissão de fé ou glorificação (doxologia) não é uma divinização ou deificação indevida que existia no mundo no mundo greco-romano, em que reis e imperadores se deixavam idolatrar como deuses. Não era uma blasfêmia para os primeiros cristãos e não o é para nós, porque nela se professa que se procura a salvação em alguém que deu honra a Deus e recebeu honra de Deus. "Esvaziou-se (ou: aniquilou-se) a si mesmo... feito obediente até a morte da cruz". Na confissão de fé "Jesus é Javé" professamos que Deus deu razão a Jesus e que nós também Lhe damos razão. Isto não é blasfêmia, porque nisso também professamos que a realização plena da pessoa humana existe na dependência absoluta de Deus antes, durante e depois da morte; e que, por isso, pode-se arriscar a vida pela glória de Deus.
Evangelho: Marcos 14,1-15,47 ou 15,1-39 (mais breve)
A narração da Paixão segundo o evangelista Marcos é a mais antiga versão de que dispomos e a base daquilo que encontramos também nos outros evangelhos sinóticos.
Marcos não disfarça o terrível paradoxo do sofrimento do Senhor. Já em 1Coríntios 11,23 a noite da paixão chama-se "a noite em que foi entregue". Toda a narração da Paixão de Marcos está sob o signo da traiçoeira entrega. Por Judas Iscariotes Jesus é entregue ao Sinédrio (Marcos 14,10.11.18.21.42.44); pelo Sinédrio é entregue a Poncio Pilatos (Marcos 15,1.10); por Pilatos é entregue aos soldados (Marcos 15,15: dez vezes usa-se o verbo paradidomai!). Os soldados O entregam à morte (Marcos 15,25). Por fim, Deus mesmo O entrega à sua própria sorte, morrendo com um grito de abandono nos lábios (Marcos 15,34). Em Marcos 14,41 o evangelista resume todas estas afirmações na frase: "Ele é entregue em mãos dos pecadores (Marcos 14,41).
Jesus padeceu sozinho. Não foi compreendido por ninguém e abandonado por todos, inclusive pelos Seus discípulos. São justamente estes que põem em movimento este processo crescente de abandono, de entrega e traição: Judas O trai, Pedro O renega e todos O abandonam. No Getsêmani, durante a hora mais escura da paixão, os discípulos dormem (Marcos 14,37-40), seus discípulos fogem na hora de sua prisão (Marcos 14,50) e, para ridicularizar esta fuga, Marcos dá um interesse particular ao episódio do moço fugindo nu (Marcos 14,41-52), evangelho mais longo. O isolamento de Cristo é assinalado no decorrer da sessão do Sinédrio: quando encontram falsas testemunhas contra ele (Marcos 14,56-60), quando Pedro proclama seu contra-testemunho (Marcos 14,62-71), só resta uma única testemunha para testemunhar "duas vezes" (Marcos 14,72, próprio de Marcos), como queria a lei judaica a favor de Jesus: o pobre galo! O isolamento de Jesus é portanto total. Seus discípulos permanecem "à distância" (Marcos 15,40).
Marcos também ressalta o silêncio de Cristo no decorrer de seu processo (Marcos 14,61; 15,3-4). Contrário a Lucas e a João, Marcos só assinalará uma única palavra de Jesus Crucificado, fiel à sua proposta de realçar o "segredo messiânico" (Marcos 5,43; 7,24; 9,30). Por este silêncio, Jesus quer marcar a distância que separa sua missão real daquilo que as pessoas esperam, o mistério de sua pessoa, dos títulos que Lhe são atribuídos.
O tema do isolamento silencioso de Jesus Cristo é o eco da maneira pela qual Marcos defende a dignidade messiânica de Jesus no seio dos mais escandalosos insultos. A oposição do rei dos judeus e de um agitador homicida, a ridícula entronização real de Jesus na sala do corpo da guarda, as zombarias em volta da cruz isolam Jesus em sua pretensão messiânica. Mas assim que Ele chegou ao extremo deste isolamento, até na morte, foi reconhecido como "Filho de Deus" (Marcos 15,39) numa profissão de fé que por si só aniquila todas as zombarias da multidão, e um grupo de discípulos se constitui (Marcos 15,40-43), que não estará distanciado de Cristo, mas em breve formará sua Igreja.
Sabemos hoje porque os discípulos se escandalizaram e fugiram. Era, porque a sorte de Jesus não correspondia às expectativas judaico-nacionalistas e terrestre-messiânicas por eles compartilhadas com a grande massa do povo.
Cada evangelista tem um modo todo próprio de apresentar esta narração da Paixão e Morte de Jesus: Marcos caracteriza a Paixão por um realismo trágico: Cristo morre em silêncio e morre na solidão e aparentemente abandonado pelo Pai. Mateus compara o Mistério da Nova Aliança inaugurada por Cristo com a Antiga Aliança concluída com Moisés. Lucas parece insistir mais na Cruz como fator de conversão. Mateus apresenta o Cristo á luz da fé e O vê em relação à Igreja; Marcos frisa o desconcerto produzido pelos acontecimentos referentes a Jesus e a seus discípulos; Lucas acentua a ligação entre os discípulos, aqueles que querem seguir a Jesus e a sua Cruz. João é mais teológico. Numa perspectiva diferente de Mateus, Marcos e Lucas, a morte de Jesus aparece como manifestação de sua verdadeira realeza, que consiste em dar a vida. Para João, na Paixão e Morte de Jesus tudo acontece porque Jesus quis. As Escrituras deviam encontrar sua realização em Jesus. Portanto, Jesus morreu quando quis, quando achou que sua missão estava cumprida. Para João, quem morre na cruz é o Rei Jesus, isto é, o Rei Messias.
Pontos altos da narração da Paixão de Marcos são as perguntas do sumo sacerdote, chefe do Sinédrio: "És o Messias, o Filho de Deus bendito?" (Marcos 14,61) e de Pilatos: "Tu és o rei dos judeus?" (Marcos 15,2.9.12). Nos dois casos Jesus responde afirmativamente a estas perguntas. Mas estas respostas, em vez de levarem a reconhecimento e respeito, provocam a mais infame gozação (Marcos 14,65; 15,16-20). Da parte dos romanos, Jesus é desprezado em favor de um assassino e tratado como e executado com "delinqüentes comuns". Da parte dos judeus repetem-se em forma de escárnios as falsas acusações alegadas no processo diante do Sinédrio: a destruição e reconstrução do templo (Marcos 14,58 e 15,29-30) e a dignidade messiânica (Marcos 14,61-62 e 15,31-32). Duas vezes Jesus é desafiado para mostrar a veracidade de Suas pretensões, descendo da Cruz (Marcos 15,30.32). O verdadeiro motivo de sua eliminação está ai: não conseguiram conviver com um Homem que veio libertar e salvar pra valer. O seu último grito é a oração do salmo 22/21: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Não é um grito de revolta, gritou pelo Pai porque confiou. Aqui a Cruz passa a ser anúncio. Faz rasgar o véu do templo que não mais abrigará a presença de Deus, e abre os olhos e os lábios do primeiro homem que, no Evangelho de Marcos, profere pronuncia a confissão cristã da fé: "Na verdade este homem era o filho de Deus". Por sinal, este homem é um pagão e de alguma maneira cúmplice da execução de Jesus.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
A partir da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, os acontecimentos vão afunilando. Depois de três anos de missão, de anúncio do Reino de Deus, de muitos contatos, curas, milagres e pregações, o projeto de Jesus entra num confronto decisivo.
Por um lado, o povo que foi tantas vezes por ele ajudado, que percebeu nele uma saída de vida, aclama-O, cheio de profunda esperança, como aquele que haveria de cumprir as promessas de Deus, como aquele que seria o "vingador dos pobres".
Por outro lado, as elites dominantes, em parceria com o Império Romano, cheias de privilégios, detentoras de altos rendimentos, donas de todo o poder político, econômico e religioso, não aceitam essa liderança e tramam a morte do Justo.
É o que percebemos no domingos de Ramos da Paixão do Senhor, portal da Semana Santa: um processo rapidíssimo, uma traição, um beijo falso, um julgamento sob pressão, um juiz covarde, a condenação de Jesus à morte. O povo se frustra, desanima. Parece que não adianta lutar, que as coisas têm de ser assim mesmo. Parece que tudo termina por aí: os pobres sempre mais pobres, as violências crescendo, a injustiça aumentando e tirando a paz do mundo e os inocentes morrendo.
Mas não é bem assim. Com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Bom Deus nos mostra o caminho da salvação, que passa pela cruz, porque Ele respeita a liberdade humana, gananciosa e cheia de pecados. Foi o caminho que Deus escolheu com a Encarnação de Jesus. Realizou um esvaziamento (kenose) de si mesmo no serviço, no lava-pés. Assumiu sobre si nossas dores. Enfrentou o sofrimento e a perseguição dos poderosos. Historicamente, essa opção de Deus também resultou em violência: a morte do Filho de Deus, o Justo e santo, numa cruz.
Contraditoriamente, porém, dessa cruz, instrumento de morte, brotou a vida, a ressurreição, a semente do novo, a proposta da Igreja das comunidades fraternas. No mundo em que vivemos, afundado na ganância e no pecado, a salvação passa por esse processo de morte-vida. O mistério do mal (do sofrimento do justo, do inocente; das traições das infidelidades e violências) só começa a ter um princípio de explicação quando se olha para a cruz de Jesus. Parece que até Deus fica impotente diante do grito do Justo, diante do sofrimento de Jó, diante do Cristo pendente da cruz ("Não é possível que passe de mim este cálice?"; "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?").
A Palavra se faz celebração
Palmas: Sinais da Vitória
A tradição ortodoxa conhece, segundo a liturgia de são João Crisóstomo um tropário chamado de apolitikion, rezado logo após um pequeno refrão de abertura. Trata-se da Oração Principal da Festa. Para o domingo de Ramos o tropário diz: ó Deus, antes da tua paixão, dando-nos uma garantia da ressurreição geral, ressuscitaste Lázaro dos mortos. Por isso, nós também, como filhos dos hebreus, levamos os símbolos da vitória, clamando: Ó vencedor da morte, Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor!" Em nossa liturgia ocidental, o rito de Ramos começa com uma antífona que coincide com o final desse tropário oriental: Saudemos com hosanas o Filho de Davi! Bendito o que nos vem em nome do Senhor! Jesus, rei de Israel, Hosana nas alturas! A exortação que se segue, preparando a bênção dos ramos, articula a rememoração da entrada em Jerusalém com a nossa participação na ressurreição.
O tropário oriental, porém, nos apresenta este nexo de maneira mais clara e além disso nos dá a chave para celebrarmos os mistérios da Semana Santa, cujo domingo de Ramos é abertura: "ó vencedor morte, Hosana nas alturas!" Com os olhos pascais é que a liturgia nos convida a adentrar nos ritos que se seguem durante esta semana. Nosso olhar atravessa o sofrimento e foca a atenção na Páscoa.
O sentido das palmas nas mãos, segundo, segundo este tropário, vai na mesma direção: "Levamos os símbolos da vitória". A liturgia, portanto, já nos ritos iniciais, interpreta a paixão e ressurreição do Senhor e nela nos envolve como participantes desse mistério central da nossa fé. Um outro tropário, que vem logo em seguida diz: "Fomos sepultados contigo pelo batismo, ó Cristo Deus, e pela tua Ressurreição, merecemos a vida eterna. Por isso a ti cantamos em alta voz: Hosana nas alturas".  Esta referencia ao batismo é interessantíssima se entendermos que a Quaresma tem forte conotação batismal e que a Vigília Pascal renova os iniciados as suas promessas de ser seguidores e seguidoras (e fiéis missionários e missionárias) do Servo Sofredor, recebido e proclamado hoje pelas multidões Rei e, ainda, segundo a liturgia Oriental manifestação de Deus que a nós se revelou.
Ligando a palavra com a ação eucarística
Seguindo os passos de Jesus, fazemos memória de sua entrada em Jerusalém para realizar o mistério de sua morte e ressurreição e que chamamos de "mistério pascal". Com os ramos nas mãos, aclamamos Jesus como o verdadeiro Messias, nos associamos à sua cruz para podermos participar de sua ressurreição e vida (exortação inicial). Demos graças, porque só assim nosso sofrimento e nossa morte têm sentido, e na comunhão do seu corpo glorioso já participamos da vida nova, ultrapassando a morte.
Damos graças ao Pai que hoje nos apresenta, em Jesus, o sentido que buscamos para nosso sofrimento e morte. Ao comungar seu corpo glorioso, participamos desde já da vida que vence definitivamente a morte.
O simbolismo dos ramos
O simbolismo da "arvore" é muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a "árvore do conhecimento do bem e do mal" e a "árvore da vida" (Gênesis 2,9; Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o povo de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal de que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de seu fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a saúde, carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis, profetas e sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma "oliveira selvagem" que foi enxertada na oliveira boa, Israel (Romanos 11,16-24).
Os ramos desta procissão são uma metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação vida-morte-vida. As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a morte, pois esses ramos secarão; mas elas também os "doam" para servir ao Senhor da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós como alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa forma, então, eles "morrem" para que nós tenhamos vida!
padre Benedito Mazeti



1 – A vida não é a preto e branco. Afirmação já muito batida. Melhor, que a vida não seja cinzenta! São diferentes as cores e as matizes dos nossos dias. Como o tempo, também na nossa vida, há dias de sol e dias nublosos, dias de chuva e dias preguiçosos.
A celebração do domingo de Ramos apresenta um quadro completo, fazendo-nos visualizar, através de momentos e de intervenientes variados, diversas faces da nossa existência.
Há uma multidão de gente pobre e humilde, trabalhadora e cheia de fé, que acompanha Jesus, da Galileia para Jerusalém, do mundo para a cidade santa. A multidão gera alvoroço. Há um murmúrio que se eleva, aclamando e reconhecendo Jesus como o Messias, o Filho de David, o Rei de Israel, o Bendito que vem em Nome do Senhor.
À Sua passagem depõem capas e ramos, para que o chão de Jesus seja macio e, sobretudo, como reconhecimento da Sua realeza. É um Rei sem coroa e sem exército, sem pompa nem circunstância. Não vem armado nem ostenta riqueza. Não vem no alto de um cavalo de combate, mas quase com os pés no chão, num jumentinho, filho de uma jumenta (cf. Mc. 11,1-10).
A voz sobe de tom e o entusiasmo à volta de Jesus faz-nos olhar na Sua direção.
Os discípulos estão misturados entre aquela multidão. Passam despercebidos. Seguem no mesmo passo ligeiro, empolgados com tão grande manifestação de afeto para com o Seu Mestre e Senhor. Jesus já os tinha precavido dos tempos que lá vinham. Mas, por alguns momentos, eles esquecem o anúncio da paixão e os sinais que evidenciam o perigo iminente.
2 – Algumas horas depois, o empolgamento dará lugar ao desencanto, a festa cederá à tristeza, a confiança será substituída pela desilusão.
Belíssimo o hino que Paulo recolhe na Epístola aos Filipenses e que resume, de forma sublime, todo o mistério da salvação, o abaixamento de Cristo por amor, a Sua filiação e identidade divina, a Sua identificação com a fragilidade e finitude humanas, a glorificação que se realiza através do mistério da entrega na Cruz, o Nome que é elevado acima de todos os nomes, sentando-Se à direita do Pai, de onde nos atrai com a Sua luz, com o Seu olhar: «Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio... tornou-Se semelhante aos homens... humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai».
3 – «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?». Início do salmo que hoje cantamos e que encontramos nos lábios de Jesus, e no Seu coração, dirigindo o Seu clamor e a Sua confiança para Deus Pai. A oração continua: «Todos os que me vêem escarnecem de mim, / estendem os meus lábios e meneiam a cabeça: / Confiou no Senhor, Ele que o livre, / Ele que o salve, se é meu amigo. / Matilhas de cães me rodearam, / cercou-me um bando de malfeitores. / Trespassaram as minhas mãos e os meus pés, / posso contar todos os meus ossos. / Repartiram entre si as minhas vestes / e deitaram sortes sobre a minha túnica. / Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim, / sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?». O final da vida de Jesus ou o início de um tempo novo? As palavras que soam mais alto são as que sugerem revolta, protesto, acusação! Quantas situações na nossa vida em que nos apetece gritar bem alto: Meu Deus, meu Deus, porquê, porquê a mim? Porquê logo neste momento da minha vida?
O salmo inicia com uma pergunta que pouco a pouco dá lugar a uma súplica confiante: nestes momentos difíceis da minha vida, Senhor, não me abandoneis, pois sois a minha força. É a súplica de um filho a um pai ou a uma mãe. Mais que protesto é um pedido. O fim que se aproxima, aproxima-nos uns dos outros, aproxima-nos de Jesus. «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Diz o centurião, mesmo que à procura do significado das palavras que acabou por dizer. No último suspiro, Jesus entrega-Se por nós, entrega-nos ao Pai.
4 – Umas horas antes, os discípulos tomam consciência que o desenlace da vida de Jesus não vai ser como esperavam. Apercebem-se pela gravidade com que Jesus os olha e pela solenidade com que lhes fala. Há que deixar tudo em pratos limpos, que nada (de importante) fique por dizer, mesmo que só mais tarde, à luz da ressurreição, seja compreensível.
Como judeus, Jesus e os discípulos vão celebrar a Páscoa, recordando a libertação da escravidão para a liberdade da terra prometida. O ambiente começa a agitar-se. Em Betânia, à mesa, nova oportunidade para Jesus assentar o estômago aos seus discípulos. "Veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço". Os discípulos percebem o desperdício mas não a abundância do arrependimento e do amor. Também não percebem, mas Jesus lembra-lhes, que aquela unção antecipa a unção de um corpo que daqui a algumas horas estará no sepulcro.
Novo golpe. Ao cair da tarde, quando as trevas se adensam, diz-lhes Jesus: «Um de vós, que está comigo à mesa, há de entregar-Me». Como é possível num grupo de amigos, que se consideram irmãos, alguém possa sequer pensar em trair Jesus!
Logo depois, Jesus antecipa a Sua morte e a Sua ressurreição. «Tomai: isto é o meu Corpo... Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens... Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».
Mas antes desse DIA NOVO, a noite prolonga-se no abandono, na traição, na negação. «Todos vós Me abandonareis». Já no horto das Oliveiras, a oração intensa de Jesus. Os discípulos que dormem de cansaço e de medo. A prisão. O discípulo de confiança, Judas, que entrega o Mestre com um beijo. Os açoites, as injúrias e agressões, acusações e falsas testemunhas. Parece que vale tudo para condenar um homem. A negação de Pedro, a passagem de um a outro tribunal, uma outra multidão, cheia de si ou iludida por vãs promessas e por vis mentiras. No Sinédrio, e diante de Pilatos, que se deixa vencer pelo medo e pela ameaça, pois não se vê a perder o seu posto! O julgamento apressado e a fácil condenação à morte. A cruz pesada demais para um homem só, de tal que requisitam Simão de Cirene para ajudar. No alto da Cruz, Jesus olha para nós e puxa o nosso olhar para o Céu. Está rodeado de dois salteadores, como se fora um deles! E mesmo crucificado, a morrer, é insultado.
Já desfalecido, solta forte grito e morre. A afirmação do Centurião mostra a estupefação diante da valentia com que aquele homem frágil enfrentou todos os que escarneciam d'Ele e a violência com que o faziam. O Seu corpo morto está uma lástima, está irreconhecível.
Mas ainda há lugar para a generosidade. «José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado». Um último gesto de cuidado.
5 – Isaías, o profeta do Advento e da Quaresma, dá-nos a chave de leitura para percebermos melhor a vida e a missão do Messias que vem de Deus, como o Emanuel, Deus conosco, Príncipe da Paz, para instaurar um reino de conciliação, de justiça e de paz.
«O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam».
O Messias, qual Servo sofredor, cordeiro inocente levado ao matadouro, vem para trazer uma palavra de alento, não respondendo à violência com violência, mas com serviço e perdão. Aí está o retrato de Jesus, o retrato do Ungido (= Messias) de Deus.



1 – "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz" (2ª leitura).
Este belíssimo hino, recolhido por São Paulo na sua missiva aos Filipenses, faz uma apresentação detalhada, sintética, clarividente, expressiva, da vida e missão de Jesus. A Sua condição inicial, que dá origem e alimenta o hoje do Seu compromisso, o trajeto de oblação, de entrega, de kénose (abaixamento), de amor pela humanidade. O amor por nós leva-O a assumir a nossa identidade e a nossa finitude.
O mistério da Sua paixão, da Sua morte como oferenda, pleniza o Seu projeto de caridade a favor de todo o povo. Não apenas a favor dos amigos, ou dos bons, mas em benefício de todos, bons e maus, amigos e estranhos, judeus, gregos ou troianos.
Vem de Deus, para habitar conosco, na história e no tempo. A divindade humaniza-se, o Universal particulariza-se num determinado período da história e num espaço civilizacional concreto. Faz-Se homem, para que descubramos por Ele e com Ele o caminho de regresso a Deus Pai, descobrindo a nossa origem, o nosso alimento e o nosso fim: Deus.
Toda a Sua vida é serviço e doação. Assume-nos por inteiro. Identifica-Se homem. Em tudo igual a nós, exceto no pecado. Não Se alheia da obra criada por Seu amor. Por amor vem. Por amor permanece. Por amor dá a Sua vida. Por amor elevar-nos-á às alturas da glória, até Deus, Seu e nosso Pai.
2 – Nas concepções tradicionais da religião, Deus mantém-se distante, alheado como Juiz impenetrável, impassível, pronto a irritar-se e a castigar, à espera das oferendas, sacrifícios e súplicas da humanidade, vergada à Sua onipotência.
Com Cristo Jesus, é Deus Quem procura a humanidade, imiscuindo-Se na nossa história. Deus está onde está a humanidade. As alegrias e as tristezas, as lutas e as esperanças, o sofrimento e a festa, a morte e a vida, que nos envolvem na nossa existência terrena e mortal, integram a história de Jesus, em todo o seu esplendor.
A liturgia deste domingo é particularmente feliz. A SEMANA SANTA conduz-nos do sucesso e da fama à morte infame, numa cruz, para logo nos encher com a LUZ da Páscoa, em que nada ficará igual, e até o túmulo se encherá de luz e de vida nova.
Visualizamos a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém. É acompanhado por uma multidão imensa, que O aclama como Rei, filho de David, deixando entrever o reconhecimento do Messias prometido e esperado. É sol de pouca dura.
Ainda ressoam os cânticos, os clamores, e já Jesus Se senta à volta da mesa, mais discretamente, quase silenciosamente. Estão lá apenas os mais íntimos. Como não nos revermos também nesta passagem. Quando as coisas correm bem, todos nos rodeiam e aplaudem, mas quando é necessário trabalhar, esforço e dedicação, com quantos dos nossos amigos poderemos contar?!
A Ceia pascal é um interregno. Uma pausa para o café. Para descansar. Para ganhar coragem. Para sentir mais próxima a presença dos amigos e sentir o conforto dos mais chegados, preparando-os para a despedida, deixando-lhes as recomendações finais, como um testamento, um compromisso para a vida. Vou partir, mas a minha presença será ainda mais íntima, mais profunda, mais firme. Ainda a Ceia não terminou e já cheira a morte, a traição. O medo e a ansiedade começam a tomar conta dos discípulos. Sente-se aquele tremor no estômago e as pernas não querem obedecer. O vinho parece ter produzido efeito. Nem todos ficam para enfrentar as dificuldades maiores.
3 – Em poucas horas, Jesus experimenta a euforia de uma multidão em festa e de uma multidão furiosa pedindo a Sua cabeça. No triunfo está lá toda a gente. Olhamos para o lado e vemos que não falta ninguém. Também lá nos queremos. Sentimo-nos confortáveis, pertencemos ali, aquele é o nosso povo, a nossa gente, e apesar dos encontrões, não desarmamos, deixamo-nos levar pelo entusiasmo.
A vida tem altos e baixos e nos momentos do sofrimento, do suor e das lágrimas, nem todos estamos disponíveis. A casa é um espaço mais pequeno. Onde pulsa a vida, o espaço é mais íntimo, facilita o encontro, coração a coração, é mais afetivo, permite o abraço, o choro e o riso desbragado, a casa é o outro em quem coloco a minha vida, é o outro que me acolhe como irmão. Se pudéssemos ficaríamos em casa para sempre. Esta começa a desfazer-se quando alguém abandona o círculo familiar. Judas é o primeiro a sair. Saem os outros, para o Jardim das Oliveiras. A casa não pode ser profanada, há de ser o lugar do reencontro, da vida nova, da vida ressuscitada, quando de novo todos se reconhecerem como irmãos.
Aqueles que contam acompanham Jesus. Mas ainda não estão amadurecidos o suficiente na sua fé. Maior é o medo. Quando nos sentimos ameaçados na nossa vida biológica, as reações passam pela paralisia, como em sonhos, não conseguimos mexer-nos, ou fugimos rapidamente para nos libertarmos do perigo iminente. Assim acontece com os discípulos. Adormecem, tal é a ansiedade, enquanto o seu Mestre reza, roga a Deus, transpira gotas de sangue, é a Sua hora. Levar o amor até ao fim, mesmo que isso custe a própria vida (biológica), é o alimento, a vontade de Jesus. Numa hora desta, só Deus Lhe pode valer, só Deus Lhe pode dar ânimo (alma) para prosseguir.
É a vida. Agora que era tão útil a presença dos seus amigos mais íntimos, todos correm rapidamente para não serem "agarrados" por aquela onda de ódio e violência. Mantêm-se à distância. Com medo, com "pena" do Mestre, mas afastados o suficiente para preservarem as suas vidas.
4 – Como não nos revermos nesta SEMANA SANTA de Jesus?! Transpira suor, sangue e lágrimas. Prossegue no limite do desfalecimento. Clama em altos brados. Leva as forças ao limite, por amor. É paixão. Redentora. Homem e Deus envolvidos na mesma história.
Quantos pais não "morrem" todos os dias pelos filhos? E por causa deles. Canseiras, preocupações, trabalho, lágrimas. A vida até ao esgotamento! Onde parece que não há mais ânimo, lá se encontram argumentos para prosseguir. O amor supera as limitações físicas. Quantos não são testados, todos os dias, até ao limite da sua coragem – uma doença repentina, a falta de trabalho e de pão para a mesa, o sofrimento e a doença crônica de um familiar, o conflito que se agudiza dentro de portas, ou o ambiente desastroso com os colegas de trabalho –, uma via crucis sem solução à vista, um calvário que perdura no tempo, sem sinais esperançosos, sem abertura no céu enublado de lágrimas, de cansaço, de derrota.
Jesus não passa ao largo das nossas lutas. Não desvia o olhar. Enfrenta conosco as angústias da sobrevivência. "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido" (1.ª Leitura).
Está (quase) sozinho. Os apóstolos tornaram-se apóstatas. À distância. Sua Mãe e algumas mulheres, que sabem o que é sofrer, o que é sofrer por amor, o que é dar a vida pelos filhos e verem os filhos morrer (repentinamente ou aos poucos), elas não desviam o olhar. É doloroso. É a vida. Faz parte da vida. Dali ninguém as tira. Nem a força bruta dos soldados em fúria, nem a multidão cega pela gritaria. Elas que estavam na primeira hora permanecerão até à última hora, até ao suspiro final. 
"O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém" (Evangelho).
5 – Regressemos a nossas casas. O espetáculo terminou. Jesus morreu. Morreu por amor. Morreu por nós. Morreu para nos salvar. Morreu para nos mostrar que o amor há de ser mais forte, mais firme, mais "violento" e revolucionário que todas as forças do mal e da morte.
Aguardemos. Com Maria, a Quem Ele nos confia, e com as outras mulheres, voltemos ao lugar onde pulsa a vida, nas suas lutas e nas suas festas, a casa, a nossas casas. Façamos luto. Não deixemos, porém, que o medo e a angústia tomem conta da nossa alma (do nosso ânimo), rezemos com Ela, vigilantes, firmes na esperança, confiantes na promessa de Deus. Não temamos a noite. O SOL esconde-se por entre as lágrimas, os nossos olhos ficam nublosos, mas a LUZ há de ser tão intensa que prevalecerá para além das nossas dores e da nossa treva. A caminho da Páscoa!
padre Manuel Gonçalves


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