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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 3 de abril de 2018

2º DOMINGO DA PÁSCOA-B


  2º DOMINGO DA PÁSCOA

08 DE ABRIL DE 2018
ANO B

EVANGELHO - JO 20,19-31



Tomé representa todos aqueles e aquelas que mesmo vendo não acreditam, e continuam indiferentes...
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“COMO O PAI ME ENVIOU TAMBÉM EU VOS ENVIO.” – Olivia Coutinho

II DOMINGO DA PÁSCOA – DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA
Dia 08 de Abril de 2018
Evangelho de Jo20,19-31

Neste segundo Domingo da Páscoa, escolhido pela a Igreja, como o Domingo da Divina Misericórdia, somos chamados a renovar a nossa fé mediante o Cristo Ressuscitado, tornando-nos misericordiosos uns para com os outros, como Ele é misericordioso para conosco.
A misericórdia foi a centralidade da vida de Jesus, suas palavras, ações, expressavam  misericórdia! 
Misericórdia e perdão são duas palavras diferentes, mas na vida, elas estão interligadas, pois não existe perdão sem misericórdia e nem misericórdia sem perdão.
“A liturgia de hoje, nos apresenta a comunidade de Homens Novos, que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus, que é a Igreja! A missão da Igreja consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da ressurreição”.
“A paz esteja convosco.” Depois de dizer estas palavras para os discípulos, Jesus sopra sobre eles o Espírito Santo. Cheios do Espírito Santo, eles se libertam do medo que os aprisionava! A paz do Cristo Ressuscitado, não os isentaria da cruz, mas lhes daria força e coragem para que eles pudessem assumir o desafio da missão.
Ao soprar o Espírito Santo sobre os discípulos, Jesus faz recordar o sopro do Criador ao dar vida a criatura humana, gesto que Jesus Ressuscitado repete, como início de uma nova criação!
“Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhe será perdoados; a quem não perdoardes, eles lhe serão retidos. ”Jesus concede o poder de perdoar pecados, a um grupo específico de pessoas, que eram os apóstolos, e que hoje são os sacerdotes, os padres.
É Deus quem tem o poder de perdoar pecados, Jesus recebe este poder, e o concede à sua Igreja, através dos apóstolos, trata-se do sacramento da reconciliação. É importante entendermos: “pecados retidos” não significa uma condenação, e sim, um renovado apelo à conversão!
No sopro do Espírito Santo sobre os apóstolos, é expressa a criação renovada, é o Espírito Santo que recria a comunidade dos apóstolos e descerra suas portas para a missão! Os apóstolos, só conseguiram tomar atitudes corajosas para anunciar o evangelho, depois de receberam o Espírito Santo!
O Texto nos fala também da incredulidade de Tomé. Muitos, de nós, vemos Tomé, como um homem sem fé, o próprio Jesus o exortou dizendo: “Não sejas incrédulo, mas fiel”! Além do mais, ele não aderiu a fé quando os discípulos atestaram terem visto Jesus, Tomé não acreditou no testemunho deles, pretendendo uma constatação pessoal. Esta postura de Tomé simboliza todos os que precisam ver para crer. 
A figura de Tomé, à princípio, ficou manchada pelo o seu vacilo na fé, mas após o seu encontro com o Cristo Ressuscitado, ele se redime dando um grande testemunho de fé! Diante o Cristo  Ressuscitado, Tomé  faz  uma belíssima profissão de fé: “MEU SENHOR E MEU DEUS!” Profissão de fé, que muitos de nós, fazemos, nas celebrações Eucarísticas: "Meu Senhor e meu Deus!" 
Um simples vacilo na fé, não pode manchar uma pessoa, pois  todos nós estamos sujeito a passar por estes momentos de  fraqueza , o importante é fazer como Tomé, não permanecermos  na incredulidade.
“Bem-aventurados os que creram sem terem visto.” Mesmo antes da nossa existência, já estávamos incluídos nesta Bem aventurança, ou seja, somos felizes, porque cremos na ressurreição de Jesus, mesmo sem ter visto.
Com a ressurreição de Jesus, a vida divina entrou na vida humana, e assim, como as sementes são espalhadas pelo o vento, o anúncio da ressurreição de Jesus, espalhou por todos os rincões da terra como fagulhas de fogo a incendiar o coração da humanidade. 


"MEU SENHOR E MEU DEUS!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olivia Coutinho
PARA OUVIR ESTA REFLEXÃO É SÓ CLICAR  NESTE LINK:

Programa Refletindo o Evangelho 2º Domingo da Páscoa

Reflexão do Evangelho Dominical com Olívia Coutinho




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Confirmados na fé
Durante muitos séculos chamou-se a este domingo o domingo in Albis porque era neste dia que os catecúmenos que haviam recebido o batismo na noite pascal, deixavam as vestes brancas que desde então traziam consigo. É um domingo de confirmação na fé, em que cada um reafirma a sua adesão incondicional à Pessoa de Jesus Cristo Ressuscitado. Para afirmá-lo a Igreja escolheu o capítulo 20 do Evangelho de João, onde se conta a dúvida de Tomé e a forma como Jesus se lhe revelou ressuscitado. Na segunda visita ao Cenáculo, Jesus disse a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo mas crente” (Jo 20,27). Tomé, confirmado na fé, respondeu: “Meu Senhor e meu Deus”. Para um crente o mandamento único é o amor, é são João que no-lo diz na sua primeira carta. É fundamental acreditar no Ressuscitado que está presente em cada irmão. Daí que o amor ao próximo seja a lei do cristão, uma vez que em cada um reconhece-se a presença de Jesus Cristo (2ª leitura). Quando nos amamos uns aos outros, porém, estabelecemos comunidade, e somos “um só coração e uma só alma” (1ª leitura).
1. Meu Senhor e meu Deus
Por duas vezes Jesus visitou os discípulos no Cenáculo. Privilegiou-os com três dons: o dom da paz, repetindo várias vezes “a Paz esteja convosco”; o dom do Espírito Santo, impondo sobre eles as mãos; e o dom do perdão, não apenas a receber da ternura de Deus, mas na capacidade de o oferecer porque assim quis Jesus para os seus discípulos. Neste envolvimento tão belo houve um discípulo que duvidou. Provavelmente não se trata de Tomé, mas ele é o símbolo de todos os outros Apóstolos que também duvidaram. Até no Monte da Ascensão, diz S. Mateus, alguns ainda duvidavam. Tomé exigia não apenas ver, mas tocar as chagas do Ressuscitado. Oito dias depois , Jesus aparece de novo e interpela-O. Tomé disse não lhe ser preciso essa “evidência”, uma vez que já acreditava. A grande síntese, porém, da mensagem de Jesus, está na sua resposta “Felizes aqueles que acreditam sem terem visto” (Jo 20,29).
2. O mandamento do amor
A fé cristã revela-se pelo amor ao próximo. Na primeira carta de são João o apóstolo repete e muitas vezes “quem ama a Deus ame também o seu irmão” (cf. 1Jo 4,11), “quem diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é mentiroso” (1Jo 4,20), “como é que podes amar a Deus que não vês, se não és capaz de amar o teu irmão que vês?” (1Jo 4,20). Esta Carta de S. João é um hino ao amor fraterno. Quem acredita em Cristo Ressuscitado tem necessariamente que se deixar possuir pelo amor, para amar o próximo sem condições.
3. A comunidade cristã, sinal de ressurreição.
Os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos, quando contam os discursos de Pedro sobre a Ressurreição, terminam sempre com a descrição da vida das comunidades cristãs. Também acontece isto no capítulo 4 dos Atos. Pedro proclama Cristo Ressuscitado e os que acreditam, criam entre si uma relação tão estreita que “a multidão dos fieis são um só coração e uma só alma” (At. 4,32). O resultado lógico, depois, é a unidade e a comunhão. Estão unidos na oração, na fração do pão, na doutrina dos Apóstolos e até, na partilha generosa de bens. Não havia necessitados entre eles, porque, tudo o que tinham o punham em comum. A própria comunidade cristã tornou-se a expressão da Ressurreição.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



A ressurreição do Senhor Jesus Cristo marca para todos os cristãos um novo estilo de vida. Quem é batizado não pode mais levar a vida que levava antes. Há necessidade de correspondermos de uma maneira diferente às exigências do Evangelho que o Senhor nos deixou.
Foi isso que os primeiros cristãos nos ensinaram. A partir do momento em que eles abraçavam a fé sentiam necessidade de testemunhar essa mesma fé através de gestos bem concretos. Eles não andavam em manifestações ou em procissões de rua para manifestar ao mundo a sua fé. O testemunho deles era um testemunho de vida.
O maior e o melhor testemunho era a Comunhão de bens:
 “Todos os crentes viviam perfeitamente unidos: eram como um só coração e uma só alma. Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham tudo em comum.  Os apóstolos falavam com grande autoridade acerca da ressurreição do Senhor Jesus e Deus abençoava-os bastante. Nenhum dos crentes passava necessidade, porque os que tinham campos ou casas vendiam tudo e entregavam aos apóstolos o dinheiro da venda, para eles repartirem por cada um conforme as suas necessidades (At. 4,32-35).
Eles compreendiam que os bens deste mundo só estão ao nosso serviço para nos ajudar a levar uma vida digna e, quando há gente que leva uma vida indigna de um ser humano por não ter sequer o necessário para a sua subsistência, nós temos obrigação de repartir com quem não tem. Este foi, sem dúvida, o maior e o melhor testemunho. Os mais pobres podiam contar com a ajuda dos restantes, pois ninguém chamava seu ao que lhe pertencia. Entre eles tudo era comum. De fato, nós esquecemo-nos muitas vezes de que o que sobra da nossa mesa faz falta na mesa de alguém. Por isso não temos o direito de esbanjar bens ou alimentos, de que tanta gente é carenciada e, quando chegar a altura de repartirmos devemos ser os primeiros a abrir os cordões à bolsa e ajudarmos quem precisa.
Isto é que é o verdadeiro cristianismo. Se acreditamos e amamos a Deus, que não vemos, temos ainda mais obrigação de amar essas pessoas privadas de tudo e às vezes privadas de carinho e de amor. “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é filho de Deus. E todo aquele que ama um pai ama igualmente os seus filhos.
 Nós sabemos que amamos os filhos de Deus se amarmos a Deus e cumprirmos os seus mandamentos. O amor de Deus consiste em cumprirmos os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são um peso, porque todo o que nasce de Deus vence o mundo. E a vitória sobre o mundo é a nossa fé.” (1 João 5, 1-5)
Com a ressurreição, começou um novo modo de ver Cristo. Os Apóstolos viram-no com uma figura humana, andaram com Ele, comeram com Ele e viram-nO morto e ressuscitado. Nós não precisamos de ver ou tocar Jesus, como S. Tomé de que nos fala o Evangelho de hoje. Ele precisou de ver e tocar em Jesus para ter a certeza de que Ele tinha ressuscitado.
Nós, não, porque nós vemos o Invisível nas coisas visíveis. Vemos Deus nas criaturas.Vemos Jesus no pão e no vinho consagrados e também nos outros sacramentos. Nós vemos Jesus em qualquer pessoa, porque todas as pessoas são a imagem real do próprio Cristo. Por isso,  crer em Jesus deve levar-nos a atitudes bem concretas do reconhecimento da presença d’Ele nos irmãos e pormos em prática aquele mandamento de amor que ele nos deixou na véspera da Sua morte: “amem-se uns aos outros. Assim como eu vos amei, é preciso que vocês se amem também uns aos outros.” (Jo 13,34)
padre João Resina



Neste 2º domingo de Páscoa, iremos constatar como Jesus vence o medo, a covardia e a incredulidade dos discípulos. Foi a fé no Senhor Ressuscitado que levou a primeira comunidade cristã a realizar uma experiência única de vida em comum (1ª leitura). A fé em Cristo, vivenciada (na prática) até as últimas consequências, é uma exigência do nosso batismo (2ª leitura). Foi retornando à convivência com a comunidade dos discípulos que Tomé, não somente conseguiu reconhecer Jesus Ressuscitado, mas esta experiência o levou a professar a fé na divindade de Cristo (evangelho), sendo o primeiro no Novo Testamento a identificar Jesus com o próprio Deus.
1ª leitura: Atos dos Apóstolos 4,32-35
A presente leitura nos narra uma experiência única na história da Igreja. A ressurreição de Jesus realizou uma mudança tão profunda no coração dos discípulos que transformou as relações entre eles de tal forma que, superando a ambição pelos bens materiais, os pobres passaram a ser o centro da comunidade cristã (”Entre eles ninguém passava necessidade, pois.... era distribuído a cada um conforme a sua necessidade”).
Desta forma os fieis transmitiam, não uma doutrina teórica, mas uma forma prática de viver a fé no Ressuscitado capaz de fazer com que tivessem “um só coração e uma só alma”. Bastou chegar ao ponto de que “ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía” para que o milagre da partilha acontecesse, pois “tudo era posto em comum entre eles”.
Até aí, tudo bem; mas se tudo era de todos, como dividir para cobrir as necessidades de cada um em particular? Nesse ponto também inovaram, de modo que não era o direito a uma posse (à qual já haviam renunciado) o que orientava a partilha, mas a necessidade de cada um, de forma que “era distribuído (não de forma igual para todos, mas...) a cada um conforme a sua necessidade”. Este era o segredo para “ninguém passar necessidade”. Sendo tudo comum, eliminava-se o contraste e a distância entre ricos e pobres e estavam sendo lançadas as bases de toda uma “revolução” capaz de gerar uma nova forma de convivência entre as pessoas.
Sem dúvida, este modelo de comunhão de vida e de bens é que impressionava os não cristãos e, deste modo, “com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus”. A comunidade cristã ia crescendo pela “grande aceitação” que este espírito de comunhão gerava nas pessoas.
2ª leitura: 1 João 5,1-6
A segunda leitura destaca de forma especial a eficácia da fé (“Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus... todo aquele que nasceu de Deus venceu o mundo”). Vencer o mundo supõe viver a fé sem cair na ilusão de pensar que se tem fé, sem mudar e vida. Quem crê em Deus tem que “observar os seus mandamentos”, Só esta fé faz dos cristãos vencedores do mundo e a fé se transforma em força vitoriosa. Aquela comunidade que “era um só coração e uma só alma”, precisava ter uma visão como esta em meio a um mundo hostil.
O texto faz parte da catequese do apóstolo João para os novos cristãos que tinham sido batizados na Páscoa. Nela destaca a relação que existe entre acreditar em Jesus e nascer de Deus pelo Batismo. É esta condição de filhos de Deus que dá aos novos cristãos a capacidade de vencer “o mundo”, onde impera o egoísmo, a mentira e a morte; e o faz, através da força da fé porque “esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé”. O testemunho de fé no modo de vida do cristão é a forma como a presença de Jesus se torna visível no meio do mundo.
Por se isso fosse pouco, é o próprio Espírito que nos faz recordar, compreender e viver o testemunho de Jesus “aquele que veio pela água e pelo sangue” desde seu Batismo (água) até a sua morte (sangue). Neste sentido quem acredita que Jesus é o Filho de Deus, já é um vencedor.
Evangelho: João 20,19-31
Depois da morte de Jesus, a comunidade dos apóstolos ficou com medo, indefesa e insegura pelas represálias que a instituição judaica poderia tomar contra ela. Não bastava saber, por Maria Madalena, que o sepulcro estava vazio; só a presença do Senhor poderia dar-lhes segurança em meio a um mundo hostil.
Eis que “Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.». A sua saudação lhes devolve a paz que haviam perdido. Suas mãos e seu lado, provas da sua paixão e morte, são agora o sinal do seu amor e da sua vitória: o que está vivo diante deles é o mesmo que morreu na cruz. Antes tinham medo da morte às mãos dos judeus; agora sabem que ninguém poderá tirar-lhes a vida que Ele dá.
Com a sua presença Jesus lhes comunica o seu Espírito, dando-lhes a força necessária para enfrentar o mundo e libertar o ser humano da injustiça, do desamor e da morte. Com este fim os envia ao mundo, um mundo que os odiará como odiou a Ele. A missão da comunidade cristã não será outra que a de perdoar os pecados para dar vida e libertar de tudo o que, na sociedade, é contra a vida como consequência do pecado.
Mas nem todos acreditam. Tomé, aquele que disse estar pronto para acompanhar Jesus até a morte (João 11,16), é o que agora se resiste a crer no testemunho dos outros discípulos. Não lhe basta ver a comunidade transformada pelo Espírito recebido. Ele não consegue aceitar que Aquele que eles dizem ter visto seja o mesmo que morreu na cruz. Exige uma prova individual e extraordinária («Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.»). Não está preparado para buscar Jesus Ressuscitado e glorioso; ele ainda quer o mesmo Jesus físico e material do passado. A incredulidade de Tomé é a atitude dos que caminham por conta própria, não aceitam o testemunho da comunidade de fé e, ainda por cima, tem a ousadia de exigir provas para crer.
Jesus, porém, se revela a Tomé “uma semana depois” (isto é, no “primeiro dia da semana de novo, o Domingo para nós). Só assim é que Tomé reconhece Jesus Ressuscitado e, sem chegar a tocar em Jesus, vai além dos seus companheiros: ele faz a mais bela profissão de fé («Meu Senhor e meu Deus!»). Com estas palavras reconhece o seu Senhor como aquele que tem em si a plenitude da divindade.
A sua atitude incrédula merece uma repreensão por parte de Jesus na forma de uma última bem-aventurança dirigida a todos os que, nesta vida, não poderemos vê-lo nem tocá-lo e teremos, portanto, que procurá-lo na comunidade cristã, sentindo nela sua presença sempre viva. De agora em diante a presença do Senhor Ressuscitado não se descobre buscando experiências individuais, mas na vida da comunidade cristã que vive da mesma fé, está unida pelo mesmo amor e procura estar a serviço do ser humano, como a primeira comunidade de Jerusalém, hoje apresentada na 1ª leitura.
Palavra de deus na vida
Como não descobrir, neste evangelho a importância de celebrar a Ressurreição do Senhor, no Domingo (o “primeiro dia da semana”), junto com a comunidade cristã? Foi no dia seguinte ao Sábado (“o primeiro dia da semana”) que o Senhor se manifestou, ressuscitado e glorioso, aos discípulos. Daí que a “primeira-feira” recebeu o nome de “Domingo” (”Dominicus dies” = “o dia do Senhor”).
No primeiro Domingo, Tomé estava ausente da comunidade, mas “uma semana depois”, sim, estava e teve que aprender que, para encontrar o Senhor, precisamos da Igreja (da comunidade cristã) porque é nela que o Senhor Ressuscitado se faz presente. O povo judeu celebrava a Páscoa uma vez por ano. Os que fazemos parte do “novo Povo de Deus” a celebramos cada Domingo e nos encontramos com o Senhor na Eucaristia para renovar a nossa vida. Não tem essa de “eu rezo em casa”. Quem quiser praticar a religião por conta própria fica por fora, como Tomé, e não consegue descobrir a presença d'Aquele que disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles.» (Mateus 18,20).
No entanto, é preciso frisar que o apóstolo Tomé não é bem aquele incréu que a tradição costuma apresentar, por causa das palavras de Jesus: ”Não seja incrédulo, mas tenha fé”. Na realidade, ele já tinha mostrado uma grande fidelidade quando, diante da decisão de Jesus de enfrentar o perigo para visitar o túmulo de Lázaro, animou seus companheiros dizendo: «Vamos nós também para morrermos com ele.» (João 11,16). Além de aceitar o que Jesus falara, estava disposto a arriscar a própria vida. Não era tão incrédulo assim..! Por outro lado, quando Jesus lhes falou de ir embora, Tomé respondeu: «Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?» (João 14,5). Foi o único que teve a sinceridade de dizer o que pensava..!
O problema de Tomé foi que queria ver para acreditar e isso não é fé: é apenas a constatação de um fato, como parece indicar Jesus (“Você acreditou porque viu?”). Ter fé é algo muito mais profundo do que isso. Exige uma maior entrega a Deus. Leva consigo uma atitude de renuncia ao orgulho intelectual daquele que pretende “ver para crer”, quando a maior parte das coisas que aceitamos e conhecemos não podem ser vistas com os nossos olhos.
No fundo, nas coisas de Deus, aquele que “crê” adquire uma visão muito mais ampla e complementar para pode ver melhor a realidade. A atitude humilde daquele que “crê para poder ver” é que recebe a última bem-aventurança do Senhor: “Felizes os que acreditaram sem ter visto”.
Pensando bem...
+ O envio dos apóstolos, que o evangelho de hoje nos apresenta, não é outra coisa que a Missão de Jesus que irá ter continuidade, agora, através dos discípulos (“Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”). É uma missão de reconciliação com Deus e de perdão dos pecados. Portanto é algo que só o Espírito Santificador vai realizar (“Recebam o Espírito Santo”) fazendo deles seus instrumentos. Terão a responsabilidade de julgar sobre a aceitação ou recusa do amor de Deus (“Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados”), e deverão decidir sobre a libertação ou condenação das pessoas diante do julgamento do Senhor. Esta é a missão da igreja.
+ Jesus Ressuscitado tem uma forma especial de saudação: «A paz esteja com vocês». A paz que vem da vida renovada pela ressurreição e que envolve todo o ser num equilíbrio perfeito, numa harmonia completa dos homens entre si e da humanidade com Deus. Essa deve ser a paz que nos desejamos uns aos outros quando, antes de recebermos a Santa Comunhão, manifestamos com estas mesmas palavras que estamos, ou queremos estar, em plena comunhão com Deus e com os irmãos.
padre Ciriaco Madrigal




“Como o pai me enviou, também eu vos envio”
Hoje é o domingo da profissão de fé de Tomé. Há uma semana celebramos o Páscoa da Ressurreição. Nós batizados, fomos sepultados na morte com Cristo e ressuscitamos com ele. Neste tempo pascal, somos fortalecidos pela Palavra de Deus e pela Eucaristia a fim de darmos testemunho de Jesus ressuscitado, seja pela nossa vida pessoal, pela participação comunitária, seja pela atuação transformadora da sociedade.
Hoje também é o domingo da Divina Misericórdia, instituído por João Paulo II, no dia 30 de abril de 2000, damos graças ao Senhor por seu eterno amor por nós, sempre disposto a nos perdoar, quando o nosso coração arrependido volta-se para Ele. Como Tomé, dizemos: “Meu Senhor e meu Deus” (João 20,28).
Celebramos a Páscoa de Jesus que se manifesta na comunidade dos discípulos e discípulas e em todas as pessoas e grupos que promovem a reconciliação no meio de nós.
Primeira leitura: Atos 4,32-35
É mais uma descrição da comunidade cristã primitiva e de sua ação social em favor dos crentes. Lucas já fizera, em tos 2,42-47, um belo retrato da vida íntima da comunidade cristã de Jerusalém: escutando o ensino dos apóstolos, vivendo unidos na caridade, prestando culto público e sacramental. Com expressões encantadoras torna a insistir na missão fraterna de todos os fiéis que, por sinal, punham tudo em comum (v. 32). Atos 2,42-47 está em perfeita relação com Atos 4,32-37 e forma trilogia com tos 5,12-16; o autor de Atos (Lucas) tenta evidenciar a obra do Espírito Santo na comunidade. Em conseqüência, não havia necessitados. A ausência de carentes é exagerada. A comunidade de Jerusalém sempre foi pobre (Atos 6,1; 11,27-30); provam-se as coletas de São Paulo por ela. A renúncia dos bens brotava da fé e da esperança no Senhor.
“Um só coração e uma só alma” (v. 32) exprime unidade interior de pensamento e afeto, pretendendo num sincero amor ao próximo. É a explosão espontânea do amor fraterno, sem preceitos nem imposições, mas provocado pela vivência da salvação e pelo exemplo de Cristo. Não esquecer que a comunidade era sobretudo de coração e de alma (Atos 4,32; cf. Filipenses 1,27 João 17,11.21). O “coração” para os povos semitas conota mais a inteligência, ao passo que “alma” se refere antes à vida afetiva. A fé e o amor comum são verdadeiro princípio da pobreza do espírito. O objeto do testemunho corajoso dos apóstolos é a ressurreição de Cristo. Efeito desse testemunho é o carisma dos milagres, que o vinha confirmar. “Em todos eles era grande a graça” (versículo 33) pode ser a simpatia do povo ou o favor junto a Deus. Deus se revela através da vida dos apóstolos e primeiros cristãos.
Como eles o fizeram, será que nossa vida agora revela a situação de uma nova criação? Como sentimos hoje a verdade da salvação? Algo apenas externo ou de um passado distante? Estamos capacitados para captar a intensidade da fé dos inícios da Igreja? Somos, como eles então, um espetáculo ao mundo de hoje?
A Igreja de hoje não pode reproduzir as mesmas características das comunidades primitivas: uma volta à instrução dos apóstolos seria às vezes arcaísmo, (ultrapassado) uma restauração das formas litúrgicas seria judaísmo, e o gosto pelo maravilhoso um anacronismo (confusão de data quanto a acontecimentos ou pessoas). Em vez disso, a Igreja deve pesquisar se seu ensinamento ainda se baseia no mistério pascal, se a fé no Cristo ressuscitado inspira a luta dos cristãos do século XXI na luta em favor da justiça social e contra o mal e a doença, se a caridade para com os pobres é realmente sinal da solidariedade espiritual de todos os homens em Cristo (Atos 4,32), enfim, se suas celebrações litúrgicas permitem e seus membros viverem na fé e na esperança, até a volta do Senhor. Não devemos evangelizar utilizando métodos do passado. É preciso fazer uma releitura da Bíblia para não cairmos num fundamentalismo como fazer certos movimentos. Os resumos dos Atos dos Apóstolos idealizam a vida da comunidade primitiva e dela retêm os elementos judaicos; mas eles permanecem, contudo, um precioso material de revisão de vida.
Salmo responsorial 118/117,2-4.16ab-18.22-24
É uma oração coletiva de ação de graças. Este salmo encerra o Hallel (cf. Salmo 113-117). Um invitatório (vv. 1-4) precede o hino de ação de graças posto nos lábios da comunidade personificada, vv. 19s-25s, recitadas por diversos grupos quando a procissão entrava no Templo de Jerusalém. A Igreja da graças ao Senhor que ressuscita Jesus e nos faça participar da sua Páscoa.
A “pedra angular” (ou “pedra cumeeira”; cf. Jeremias 51,26), que se pode tornar “pedra de tropeço”, é tema messiânico (Isaias 8,14; 28,16; Zacarias 3,9; 4,7; 8,6) e designará o Cristo (Mateus 21,42p; Atos 4,11; Romanos 9,33; 1 Pedro 2,4s; cf. Efésios 2,20; 1 Coríntios 3,11). Na tradição cristã, este versículo é aplicado ao dia da ressurreição de Cristo e utilizado na liturgia pascal.
À aclamação ritual do versículo 25 (“em hebraico hoshi’ah na) Ah! Javé, dá-nos a salvação!”), que significa Hosana, que os sacerdotes respondiam com esta bênção que foi retomada pela multidão no dia de ramos. Ela entrou para o canto do Santo da Missa Romana(Hosana nas alturas).
O rosto de Deus no Salmo 117/118. A primeira coisa que chama a atenção é a freqüência com que aparecem o nome “Javé” (Senhor) e a expressão “em nome de Javé”. Sabemos que o nome de Deus no Primeiro Testamento é Javé, e esse nome está ligado à libertação do Egito. O nome dele recorda libertação, Aliança e posse da terra. Entende-se, portanto, por que o Salmo afirma que o amor dele é para sempre. Amor e fidelidade são as duas características fundamentais de Javé na Aliança com Israel. Aqui está o rosto de Deus: que ouve, alivia, anda junto do povo. A recordação da “direita” faz pensar na primeira “maravilha” de Deus, a libertação do Egito.
Jesus é a expressão máxima do amor de Deus. Com Jesus aprendemos que Deus é amor (1 João 4,8), e Jesus foi capaz de mostrar esse amor para todos, dando a vida como conseqüência disso (João 13,1). A liturgia cristã leu este Salmo à luz da morte e ressurreição de Jesus. A Carta aos Efésios (1,3-14) nos ajuda a cantar a Deus, por causa de Jesus, um louvor universal.
No Salmo 117/118, somos convidados a dar graças ao Senhor que ressuscita Jesus e nos faz participar de sua Páscoa. A tradição cristã, aplica ao dia da ressurreição de Cristo e é utilizado na liturgia pascal.
Segunda leitura: 1 João 5,1-6
O tema central desta parte, desde 1 João 4,7, é o amor. São João sugere que tal amor não é imposição arbitrária, mas exigência da natureza divina, já que Deus é amor. A prática da caridade provará a filiação divina dos cristãos. Aqui está a mais alta concepção do Ágape, segundo João, para quem o amor é participação da vida divina, procede de Deus como de sua fonte, é efeito de nosso novo nascimento, é germe divino recebido no batismo (1 João 4,7). Sem o amor fraterno não pode existir conhecimento autêntico de Deus, porque Deus é amor. O mistério da Encarnação é plena manifestação do amor de Deus (1 João 4,9) e não há verdadeiro amor sem união e comunhão com Deus, o qual leva a uma grande confiança filial.
O cristão deve amar a Deus porque Ele nos amou primeiro (1 João 4,19). Pretender amar a Deus, sem amar aos irmãos e irmãs, é mentira. Como pode amar-se o Deus invisível se não se ama o próximo que se vê? Amar é cumprir os preceitos de Deus, os quais se resumem em amar o próximo. É claro, devemos amar antes de tudo a Deus. Contudo, no plano divino, é impossível amá-Lo sem amar o próximo.
João fala que crer na divindade de Cristo é nascer de Deus (1 João 1,a), é amar a seus irmãos, filhos do mesmo Pai (1 João 1-b2), é observar os mandamentos (v. 3) e vencer o mundo (v. 4). A partir de 5,14 anuncia que a fé é a raiz, o pressuposto da caridade fraterna, a qual não pode existir sem o verdadeiro amor. Fé e caridade andam juntas: onde existe fé, há legítimo renascimento espiritual, dando lugar ao amor.
A fé, critério de filiação divina (João 1,12), confessa que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (1 João 5,1), o que significa acreditar na divindade e na Encarnação de Jesus (1 João 2,22; 4,2s; João 11,27; 20,31). Crer na divindade de Cristo é sinal de que se nasceu de Deus. Sem fé não há filiação divina nem caridade. Impossível amar a Deus, autor de nossa geração espiritual, e odiar aqueles que Ele regenerou. O amor que temos a Deus atinge também seus filhos e filhas. Odiar os irmãos é não possuir a vida eterna (1 João 3,15). Crer em Deus é amar a seus filhos e filhas porque são irmãos. João suscita três testemunhos como exigia a lei judaica (Deuteronômio 17,6; 19,15; Números 35,30, para autenticá-la: a fé, o amor a Deus e aos irmãos (vs. 1-2) e a obediência aos mandamentos (v. 3).
João fala de três testemunhos ou “sinais” que vêm por sua vez, confirmar essa vitória pascal de Cristo: a água, o sangue e o espírito (versículo 6). A água e o sangue representam toda a grandeza dos sacramentos e atestam que Jesus está realmente morto (João 19,34); o Espírito testemunha que o Senhor está realmente ressuscitado: ele próprio não restitui a vida em Cristo (Atos 2,33).
Portanto, amar o Pai inclui amar também todos os que dele nasceram, os cristãos. Deus mora de maneira permanente e pessoalmente nos cristãos. Assim a fé dá origem, em nós, a novas relações de fraternidade, uma espécie de parentesco espiritual. Em 1João 4,20 o amor fraterno é critério do amor a Deus. Aqui 1João 5,2 é o amor de Deus que é critério do amor ao próximo. São inseparáveis, se complementam mutuamente, por isso há um só autêntico amor: o amor (ágape) com que Deus se ama e nos ama. A ausência ou presença de um marcará a existência ou não do outro.
A religião do Primeiro Testamento se apoiava no temor, a do Novo testamento, no amor. Jesus censurou nos fariseus porque impunham fardos pesados (Mateus 23,4). A lei antiga era pesada porque conscientizava do pecado e não dava forças para superá-lo (Romanos 7).
Evangelho: João 20,19-31
Os domingos de Páscoa trazem, sobretudo nos evangelhos, o “material pascal”, as aparições de Jesus ressuscitado. Nesta coleção situa-se também João 20,19-31. A liturgia até conserva um certo realismo histórico, pois a segunda metade desta leitura situa-se “oito dias depois”, isto é, no segundo domingo depois da morte de Cristo (João 20,26). Quando se trata de estabelecer um relacionamento com a primeira leitura, pode-se pensar no tema “reunião”. Mais evidente, é o laço com a segunda leitura: crer sem ver (João 20,29; cf 1Pedro 1,8).
O capítulo 20 de João descreve os últimos sinais que Jesus realizou. Todos os sinais anteriores preparam e culminam nestes. Estes últimos sinais realizaram-se no primeiro dia (v. 19) e no segundo (v. 26) dos “primeiros dias da semana” ou “domingos” (cf. Apocalipse 1,10): “dia do Senhor”. É importante captar a intenção do evangelista. Ele escreveu no fim do primeiro século. Durante várias décadas as comunidades cristãs se reuniam no primeiro dia da semana para celebrar a Eucaristia e comemorar a ressurreição do Senhor Jesus (Atos 20,7-12; 1 Coríntios 16,2). O evangelista ensina que a celebração dominical tem as suas raízes na reunião vespertina no “primeiro dia da semana” em que Jesus ressurgiu do sepulcro e subiu para seu Pai, e na repetição desta reunião oito dias depois. Essas reuniões de Jesus ressuscitado com os Seus discípulos são a inauguração das assembléias semanais das comunidades cristãs de todos os tempos. Todas elas são assembléias ao redor do Senhor ressuscitado, em que Ele está realmente presente como naquelas primeiras assembléias. Naqueles dois primeiros domingos Jesus veio ainda de modo visível, depois de modo invisível. “Felizes, porém, os que crêem sem O ver” (João 20,29). Hoje Ele está presente de maneira invisível, mas não menos real.
O sentido da celebração litúrgica semanal é dado em três etapas, marcadas pela antiga saudação litúrgica “A paz esteja com vocês”, que se repete três vezes, como uma espécie de “antífona” (vs. 19.21.26). Na primeira etapa (v. 20), sublinha-se a “presença real” de Jesus apesar das portas fechadas. O fato de Jesus mostrar as mãos e o lado significa que é o próprio Jesus morto e ressuscitado que está presente, não somente nesta primeira reunião do Senhor ressuscitado com os seus discípulos, mas também em todas as demais assembléias litúrgicas.
Na segunda etapa (vs. 21-23), destaca-se a fundação da Igreja que se realiza em três atos: a comunicação da missão (v. 21b), do Espírito Santo (v. 22) e do poder de perdoar e reter os pecados (v. 23). Esta fundação da Igreja nestes três atos é obra do Senhor morto e ressuscitado realizada no primeiro dos “primeiros dias da semana”. Ela não se repete, mas se renova e atualiza em cada celebração eucarística dominical em que se celebra a “memória” da mesma.
Na terceira etapa (vs. 26-29 preparada por versículos) realça-se que em todas as celebrações eucarísticas do “primeiro dia da semana” o Senhor morto e ressuscitado está tão presente como na segunda celebração deste dia, em que Tomé podia pôr o dedo no lugar das chagas. É a fé dos fiéis de todos os tempos que Jesus declara bem-aventurada com as palavras: “Felizes os que crêem sem Me ver!” Esta fé expressa-se na confissão litúrgica “Meu Senhor e meu Deus!” Ela não é fé de segunda categoria. É a mesma fé e a mesma comunhão com o Senhor. O Vivo contato com o Senhor é diferente, mas não menos real.
Jesus não esquece de ninguém: vem também para encontrar-se com o apóstolo Tomé, o homem de pouca fé, e capacita-o a pronunciar a confissão mais plena de todo o Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28).
Os primeiros versículos (19-23) descrevem o mesmo fato que Lucas 24,36-43 narra sobre a as aparições do Senhor Ressuscitado. Jesus aparece, transformado; passa através de portas fechadas. João é mais claro do que Lucas, que apenas diz que Jesus esta de repente no meio; João menciona que as portas estavam fechadas por medo dos judeus, um motivo bem do evangelista (cf. 7,13; 19,38), refletindo talvez a situação dos cristãos no fim do século I (perseguição, exclusão da sinagoga, etc. cf. 9,22; 12,42s). João dá um sentido profundo ao tema da alegria.
Agora após a ressurreição, Cristo não é mais um homem comum como os outros, pois atravessa as paredes; mas não é um espírito de luz, pois podemos ver e tocar suas mãos e seu lado (versículo 20). Portanto, sua ressurreição conferiu-lhe um novo modo de existência corporal. João insiste tanto quanto Lucas sobre a demonstração: ele substitui as mãos e os pés pelo lado de Jesus. Isto demonstra claramente que a figura corpórea de Cristo não era a mesma de antes da ressurreição. Jesus agora possui um corpo real, pois não é um espírito; só que o seu corpo já não é material, é glorioso, “corpo espiritual”, diríamos com São Paulo, corpo imaterial capaz de atravessar muros e portas fechadas.
São João afirma que Ele mostra aos discípulos as mãos e o lado. Isto significa que o Ressuscitado é o Crucificado e o Crucificado é o Ressuscitado, isto é, era a mesma pessoa e não um espírito de luz (João 20,20; 25-27).
Jesus se dirige aos discípulos com um voto de paz. Repete esse voto por três vezes nesta narração (vs. 19.21.26). É a hora em que se realizam as promessas feitas por Jesus na sua Despedida: os seus hão de revê-Lo(14,19; 16,16ss) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11) e lhes dá a sua paz (14,27). A alegria e a paz formam um contraste claro com o medo em face dos judeus, que marca o início da cena. Realiza-se a promessa: “Tende coragem, eu venci o mundo” (16,33; cf. 16,11).
O dom do Espírito Santo também faz parte da realização das promessas da Despedida. João desconhece a separação temporal da Ressurreição do dom do Espírito Santo, característica de Lucas (Lucas 24,49; Atos 1,4; 2,1ss). Na concepção de João o dom do Espírito Santo depende somente do exercício do senhorio de Jesus, isto é, da sua glorificação, que coincide com a “morte-ressurreição”, a “exaltação” de Jesus. Aqui mostra-se o sentido profundo de chamar o Jesus ressuscitado de “Senhor”. A ressurreição é exercício do senhorio de Jesus Cristo sobre no céu e na terra.
O dom do Espírito Santo é uma missão para os que o recebem, prolongamento da própria missão de Jesus (v. 22; cf. 17,18). Jesus “sopra” sobre eles o Espírito (= “sopro”) Santo, para que perdoem ou retenham os pecados. Terão, portanto, a missão de tirar o pecado do mundo, exatamente como Jesus (cf. 1,29-36). Se o fizerem, será válido; se não fizerem, também (v. 23). Mas, isto não significa que poderão julgar de maneira arbitrária. Significa que eles têm o poder de santificação pelo Espírito Renovador (cf. Salmo 51/50,12-14; Ezequiel 11,19; 36,25-27; também Salmo 104/103,30).
Portanto, por sua ressurreição, Cristo tornou-se o Homem novo, animado pelo sopro que presidirá os últimos tempos e purificará a humanidade. Conferindo a seus discípulos o poder de perdoar os pecados, o Senhor não institui apenas um sacramento de penitência; Ele divide seu triunfo sobre o mal e o pecado.
A segunda parte da narrativa (versículos 24-29) é introduzida por uma transição, contém uma lição sobre a fé. Tomé quer apalpar o Ressuscitado, antes de crer. Jesus concedeu.
Os versículos 30-31 é a fórmula de conclusão do texto apóia-se no episódio de Tomé e estende a significação deste sobre o Evangelho inteiro. Tomé pode ver para crer.
Ver e não ver Jesus. A situação normal dos discípulos depois da exaltação de Jesus, é não vê-Lo (João 14,19; 16,10; 16,16ss). Para ver o Jesus novamente, somente na união escatológica e definitiva. Portanto, não é preciso ver Jesus para crer e estar unido com Ele. Crer sem ver é a beatitude dos cristãos (João 20,29).
Contudo, Jesus quis dar a Tomé uma visão para que ele acreditasse (João 20,26-28). Enquanto para os outros discípulos Ele mostrou seu lado aberto para anunciar a efusão do Espírito Santo, a Tomé mostra suas chagas para que acredite. Isto significa que existe uma maneira de ver que é útil, talvez necessária para a fé; pois com a mesma intenção o evangelista visualiza os “sinais” de Jesus para que os cristãos acreditem (João 20,30s).
Mas para chegar à fé pela visão, é preciso ver de uma maneira bem específica. Muitos viram sinais, e não creram (João 12,37), alguns até por medo (João 12,42s). Jesus sugere até que se pode ver sem ver nada: a multidão que participou da multiplicação dos pães encheu a barriga, mas não viu o sinal (João 6,26) e pede mais um (João 6,30)! E os fariseus, que constataram em processo a cura do cego de nascimento, mas não acreditaram, são chamados de “cegos” porque dizem que vêem (João 9,41). Mesmo vendo a ressurreição de Lázaro, não acreditaram.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
O Evangelho narra a aparição de Jesus ressuscitado á comunidade reunida. É fundamental voltarmos o nosso olhar para o momento que Jesus escolheu: a comunidade reunida! A comunidade cristã reunida deve aparecer como sinal de Cristo ressuscitado. “a paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (João 20,21). Isto mostra que a Igreja já nasceu missionária.
Na tarde do primeiro dia da semana, os discípulos estavam reunidos, de portas fechadas, quando o Senhor apareceu, ressuscitado. Era Ele mesmo. Fez questão de mostrar em seu corpo as marcas da paixão, para que ninguém tivesse dúvidas. Do lado dos discípulos, havia o medo, a incredulidade, a tristeza. Do lado de Jesus, a paz, a reconciliação e uma força capaz de provocar uma nova atitude no meio da comunidade.
Podemos perceber claramente que ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência, fator de unidade. A comunidade está reunida em volta dele, pois Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.
Jesus passa para os discípulos a missão que recebeu do Pai, dando-lhes o dom do Espírito Santo e a graça de oferecer o perdão.
Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos em sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gênesis 2,7, o qual diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus. Com um “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem como o Mestre dar-se generosamente aos outros. É esse Espírito que constitui e anima nossas comunidades cristãs.
Jesus aparece-lhes não só para que dessem testemunho de sua ressurreição, mas também para dar-lhes o Espírito Santo e enviar-lhes em missão.
Pensemos no nosso hoje: se ouvíssemos de outros: “Vimos o Senhor!”, sem o testemunho narrado no Evangelho, será que nossa atitude seria muito diferente da de Tomé? Ele precisou ver para crer, por isso, arrependido, professa sua fé em Jesus Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!” (João 20,28). É na vida da nossa comunidade (na sua liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que encontramos as provas de que Jesus está vivo.
Nossa fé precisa ser, realmente, incondicional para que reconheçamos o Senhor. Mesmo sem podermos tocar em suas mãos e em seu peito aberto, é possível vê-Lo na Palavra anunciada e num simples pedaço de pão, porque Ele mesmo disse que ali estaria, se reunidos celebrássemos sua memória. Se estivéssemos, porém, ausentes da comunidade, do Espírito de amor e partilha que Ele nos propõe, poderemos ser o Tomé de hoje, incapazes de crer. Fora da comunidade, da fé e da vivência segundo o Espírito de Deus, dizer que Ele está vivo no meio de nós pode fazer-nos parecer meros visionários aos olhos de quem não crê.
Hoje também, é preciso acreditar antes de ver, pois é a fé que abre nossos olhos à presença de Jesus, a seus sinais e a sua graça.
Este é nosso desejo, todos “queremos ver Jesus, tal qual expresso no Projeto Nacional de Evangelização: “Ver Jesus é o anseio mais profundo do coração humano, mesmo sem o saber”. “Em Jesus Cristo, Deus manifesta-se aos que o procuram e lhes oferece a vida em plenitude” (PQVJ. P.5). E contudo, podemos dizer que vemos, nós também: a realidade do Cristo glorioso, no Espírito.
Nós somos agora o “espaço” da salvação de Deus, do qual podem brotar equilíbrio e vida plena paras todos. Tornando-nos missionários da reconciliação pelo exercício do perdão. Isso, com certeza, é paz, justiça, saúde e vida para todos. “Como o Pai me enviou, também eu envio vocês”, disse Jesus. Daí a importância de vivermos em comunidade, a exemplo das primeiras comunidades cristãs, perseverantes na escuta da Palavra, na comunhão fraterna (caridade, solidariedade, ajuda mútua, partilha de bens, serviço à vida), na fração do pão (Eucaristia como memorial de Jesus) e nas orações diárias como alimento da fé.
A nossa celebração de cada domingo faz memória desta presença viva de Jesus ressuscitado. Hoje, esta presença não é visível como naquele domingo em que Tomé podia por o dedo em suas chagas. Agora, Ele se manifesta invisível, contudo não menos real. Ele entra em nossas assembléias na situação concreta de cada comunidade e de cada pessoa, vem ao encontro de nossa frágil fé, cheia de medo, cheia de dúvidas… E nós ouvindo-O dizer “Bem-Aventurados os creram sem ter visto”, fazemos a confissão amorosa da nossa fé esperando receber também o dom do Espírito Santo e a força para sermos testemunhas de sua ressurreição.
Contemplamos o Senhor ressuscitado com as mãos feridas pela morte. A ressurreição é a vitória sobre o mal, não sua negação ou fuga. Que Ele nos ajude a superar a cultura individualista e a cultura da morte e a viver o tempo novo da ressurreição.
A Palavra se faz celebração
Apoiado no Evangelho de hoje, o cerne da divina liturgia é a fé no Ressuscitado. Essa fé pascal se desdobra em todos os domingos do Ano Litúrgico, condensada na profissão de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. Reunimo-nos para celebrar nossa Páscoa, sabemos que o Mestre está vivo, mas nosso encontro se dá no horizonte mistagógico dos que crêem, mesmo sem ver. O que vemos e sentimos despreza a lógica daquilo que é palpável. A celebração da Eucaristia não é outra coisa senão a ritualização do Mistério Pascal do Senhor. As portas da comunidade da Ressurreição estão escancaradas. A assembléia celebrante não agrega membros de uma sociedade secreta, reunidos para uma festa privada. Daí não se admitir missas especiais e particulares, que sinalizam privilégios e benefícios, nem mesmo missa especial de Natal para satisfazer certas famílias privilegiadas.
A Páscoa não se presta a ser desfrute individual, uma alegria subjetiva pela qual cada fiel ressuscita com “seu” Jesus privatizado. Os desdobramentos da festa pascal são missionários e evangelizadores. A bem-aventurança do Senhor é clara. Ela recai sobre os que não se contentam em crer sem a necessidade de tocá-lo. Isso basta. Nossa única segurança é o anúncio de que Ele está vivo, trazendo-nos paz e convidando-nos ao perdão mútuo. Mesmo não apalpando suas feridas, cremos Nele e em sua capacidade de nos agregar como irmãos, na celebração da vida que mata a morte. Ele se faz presente no centro da comunidade reunida, em torno da Palavra e da Eucaristia, vivificando-a com o sopro do Espírito Santo. Não se trata de presença física, mas sacramental e mistério. A dinâmica do rito nos envolve e nos inebria, através de gestos e símbolos, na bem-aventurança de crer, mesmo sem ver. Para nadar na contramão do caminho de Tomé, não se precisa ter uma fé irrepreensível e pura. As dúvidas, de vez em quando, assolam a nossa vida. Como ficamos então, diante do desafio de crer sem duvidar? A fé no Ressuscitado não comporta arrogância dos que se vangloriam de nunca terem questionado os desígnios de Deus, mas requer abandono e entrega, testemunho e ajuda uns dos outros. Ninguém cresce na fé sozinho. Em comunidade, reunidos todos os domingos, humildemente pedimos: Nós cremos, Senhor, mas aumentai a nossa fé (Marcos 9, 14-29).
Ligando a Palavra com a ação eucarística
A Eucaristia é o momento da paz. Em cada Eucaristia, Cristo nos dá a sua paz e quer que a atualizemos para nossos irmãos e irmãs. A paz de Cristo é a paz do Ressuscitado. É diferente da paz do mundo que quer a paz à custa de armas.
Nesta Eucaristia, apresentemos a Cristo a cegueira do mundo, para que Ele a ilumine. Apresentemos o ódio do mundo, para que Ele o converta em amor. Apresentemos o sofrimento de tantos inocentes, para Ele os console.
Na eucaristia o Senhor nos une num só coração e numa só alma e, na mesa eucarística, partilha seu corpo e seu sangue como alimento. Ele nos dá a sua paz ao perdoar nossos pecados e nos convoca a sermos suas testemunhas, fortalecidos pela presença do Espírito Santo.
A exemplo das primeiras comunidades cristãs que se reuniam nas casas para a oração e a partilha do pão, também nós, hoje, nos reunimos para celebrar a Eucaristia, no primeiro dia da semana.
Assim como os discípulos ouviram o Senhor ressuscitado, na liturgia da Palavra, quando são proclamadas as leituras, é Jesus que nos fala novamente. Após escutarmos e refletirmos a Palavra na homilia, como Tomé, fazemos nossa profissão de fé com o Credo.
Através do ministro que preside a assembléia eucarística, na liturgia eucarística, quando temos Jesus presente no pão e no vinho, é Ele mesmo que nos diz, como outrora aos discípulos: “A paz do Senhor esteja sempre convosco”.
Depois de comungarmos o próprio Jesus que se dá a nós em alimento, com a bênção de Deus Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo, somos enviados em missão, tal qual os discípulos, que de Jesus receberam a missão confiada a Ele pelo Pai. A cada celebração litúrgica, esta missão nos é confiada novamente, e a cada celebração damos graças a Deus, “porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia”.
Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas que encontramos Jesus ressuscitado, mas sim no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une is irmãos e irmãs em comunidade de vida.
padre Benedito Mazeti



1 – Oito dias depois das primeiras aparições de Jesus aos discípulos:
"Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto»".
Ficará para sempre a confissão de fé de Tomé: "Meu Senhor e Meu Deus". Diante de Jesus ressuscitado não são necessárias muitas palavras. A experiência de encontro é tão forte e sublime que leva à contemplação, ao êxtase. Com Tomé, também nós rezamos, repetimos (em silêncio), professamos a nossa fé, num dos momentos mais extraordinários, o mistério da fé por excelência, o da CONSAGRAÇÃO, quando o Pão e o Vinho dão lugar à pessoa de Jesus Cristo, PÃO divino, o lugar à adoração. Somos privilegiados, não O vimos fisicamente, mas participámos deste milagre maior: "felizes os que acreditam sem terem visto".
A cada passo evocamos a memória do apóstolo: crer como Tomé, ver para crer. A dúvida do Apóstolo é compreensível, uma vez que a RESSURREIÇÃO é um acontecimento inaudito, novo, extraordinário, que sai fora do humanamente expectável. Veja-se o caso dos discípulos de Emaús (evangelho de são Lucas), que tendo ouvido dizer que Ele ressuscitara, pois as mulheres encontraram o túmulo vazio (como podem constatar também alguns discípulos) e apareceram-lhes uns anjos, estão tristes, ainda não acreditam, até Jesus Se manifestar na fração do pão. Do mesmo jeito, o demais apóstolos, acreditam porque veem, e não porque outros o testemunharam.
"Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos»".
Também a eles Jesus mostra o lado e as mãos, repetindo a saudação, para que não restem dúvidas que estão perante o Mestre dos Mestres.
2 – A ressurreição de Jesus Cristo revoluciona a história da humanidade. E, nesta perspectiva, é um acontecimento histórico. Nada será como dantes. Não só divide a história ao meio, o antes e o depois de Cristo (a era cristã inicia-se na referência ao nascimento de Jesus, mas este só é reconhecido a partir da Páscoa, e dos encontros com o Ressuscitado, de contrário Jesus seria mais um profeta caído em desgraça e esquecido), como influencia (continua a influenciar) a cultura, a sociedade, a política, a economia, a religião. É uma revolução a partir do interior do homem, mas efetiva, que se espalha de Jerusalém para o mundo inteiro, ou pelo menos para meio mundo, e cuja perseguição não só não desmobiliza mas apressa a evangelização. Expulsos de casa, expulsos da cidade, levam Cristo para outras casas e cidades.
A casa do medo há de incendiar-se com a alegria do Ressuscitado. A vida nova invade toda a casa, como quando os raios de sol, num alegre dia de primavera, inundam todos os compartimentos com uma claridade tal que o olhar tem de se apurar (para resistir!).
É em casa que a vida acontece. E é à volta de uma mesa que se solidificam e estreitam os laços que unem e caraterizam a família. Na última das Ceias encontram-se lá todos. O ambiente é de festa, mas cedo fica carregado com o anúncio de Jesus. É um testamento. Vai partir. Não mais se sentará à mesa com os seus, a não ser noutra Páscoa. A família aprende a superar as dificuldades. A casa começa a desmoronar-se quando alguém se levanta da mesa e abandona a casa. É o que acontece com Judas. Não voltará a entrar em casa, a sentar-se à mesa com os companheiros e com o Mestre, não voltará à convivência com os amigos. Nem tudo estava perdido. Pedro volta. Os outros discípulos hão de voltar também.
A casa torna-se refúgio, casa de medo e desolação, de solidão e choro, casa onde se faz luto. A casa resguarda-nos dos olhares de condenação e de escárnio, protege-nos das más-línguas. É em casa que os discípulos se fecham e se apoiam uns aos outros, lamentando o sucedido, as portas e as janelas estão fechadas. A luz espreita pelas frinchas. Reina o medo e a tristeza. Jesus vem e coloca-se no meio deles. A casa ganha nova vida. Jesus ilumina toda a casa. Melhor, inunda de alegria os seus discípulos. Passa a ser casa de esperança, de festa, arejada com a presença do Ressuscitado, o cheiro a mofo desaparece rapidamente. Abrem-se as portas. Começa a revolução. A partir de dentro. A partir de casa.
A casa não é apenas o espaço físico, a habitação, é o outro, a casa são as pessoas que a constituem. Quando alguém regressa a casa, um filho desavindo, um pai ou uma mãe fora em trabalho, uma filha que estivera longo tempo hospitalizada, surge vida nova. O regresso de Jesus a casa, à convivência dos seus, provoca nova vida. "Família e nova evangelização", é a temática proposta para o ano pastoral a decorrer na Diocese de Lamego. Nada mais incisivo: é a partir de casa, da família, que a evangelização há efetivar a adesão firme a Jesus Cristo, mudança no coração, para mudar o mundo.
3 – A comunidade inicia em casa a verdadeira ressurreição, vida nova. Abrem-se as portas para o mundo. Os discípulos fizeram um longo caminho. Deus caminhou com eles. Jesus fez-Se casa para eles. É a Luz da ressurreição que finalmente lhes abre o entendimento.
Há vida nova. Jesus está de volta. Os discípulos saem da letargia em que tinham caído com a Sua morte. E com eles se faz a primeira comunidade cristã, que vai aumentando de dia para dia.
O acontecimento – Ressurreição de Jesus – dá origem a uma postura nova, que assume e espelha a postura de Jesus Cristo e responde ao Seu mandato de amor e de comunhão.
"A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade".
Eis o modo como as primeiras comunidades assumem viver e anunciar a Ressurreição em Cristo Jesus. Continuam a ser modelo para as comunidades do nosso tempo.
4 – Hoje como ontem, não estamos sós. E não devemos estar sós, se Deus nos criou para vivermos uns com os outros e uns para os outros, em comunidade, ajudando-nos como irmãos, vivendo com os outros como em família, como em casa, protegendo, dialogando, partilhando, comendo do mesmo pão, alimentando-nos da mesma vida, da mesma vontade de viver, acolhendo e acolchoando as dores uns dos outros, solidificando a confiança e a segurança.
Deus amou-nos primeiro. Enviou-nos o Seu Filho. Ama-nos, em todos os momentos da nossa vida. A referência para nos amarmos como irmãos é o amor de Deus. E amamos a Deus sempre que seguimos o Seu projeto de amor, de vida nova, de reconciliação e de paz.
"Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade".
padre Manuel Gonçalves





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