3º DOMINGO DA PÁSCOA
Evangelho
Lc 24,35-48
Os dois discípulos de Emaús ao voltar para Jerusalém,
partilharam a experiência com o ressuscitado, explicando como o reconheceram na
hora da fração do pão. Continuar lendo
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“A PAZ ESTEJA CONVOSCO!”- Olivia Coutinho
3º
DOMINGO DA PÁSCOA
Dia
15 de Abril de 2018
Evangelho
de Lc24,35-48
Estamos vivendo o tempo Pascal, um tempo
forte, que nos abre à luz de Cristo, quando vivemos de maneira intensa as
alegrias da fé impregnados no amor do Cristo ressuscitado!
“O Mistério Pascal é de tal importância na
vida litúrgica da Igreja e na vida e atividade apostólica de todos os redimidos
pelo Sangue de Cristo, que a sua celebração se prolonga por cinquenta dias,
número cheio de significado, pois exprime a plenitude da salvação
definitivamente alcançada por Jesus Ressuscitado e por Ele oferecida aos
homens”.
A ressurreição de Jesus, é um
acontecimento tão marcante na vida do cristão, que não deve
ser vivido somente nestes dias em que a igreja nos oferece a oportunidade
de mergulharmos no mistério do amor do Pai através da riqueza da liturgia deste
tempo. Devemos atualizar este acontecimento no nosso dia, com as nossas
atitudes.
O evangelho deste terceiro Domingo da
Páscoa narra mais uma aparição de Jesus, o que aconteceu, no momento em que os
dois discípulos de Emaús comentavam com os demais, a experiência que
fizeram com o Cristo Ressuscitado, no caminho para Emaús. Enquanto
conversavam, Jesus aparece no meio deles e os saúda dizendo:” A paz
esteja convosco!” Assustados, eles chegam a pensar que se tratava de um
fantasma, um sinal de que ainda havia muitas dúvidas em seus corações! E mesmo
depois de terem vistos, as marcas da cruz nas mãos e nos pés de Jesus, os
discípulos continuavam com dificuldades em acreditar no que estavam vendo,
afinal, tudo aquilo que eles presenciavam, era grande demais para a compreensão
deles, que acabaram de ver Jesus morto numa cruz!
Mesmo diante a dificuldade dos discípulos
em compreender tudo aquilo, Jesus não os repreende, pelo o contrário, os
compreende, e numa atitude de amor, abre-lhes a mente, possibilitando-os
a entenderem as Escrituras, e a partir daí, se tornarem testemunhas de sua
ressurreição, fato que as autoridades queriam abafar.
Neste encontro com os discípulos, Jesus
transmitiu- lhes a sua paz! Foi a paz de Jesus que os fortaleceu, que os
libertou do medo que os mantinha presos! Esta mesma Paz, hoje chega a até a
nós, quem abraça esta paz, tem no olhar, o brilho do Ressuscitado!
Hoje, somos nós, os convocados a dar
testemunho da Ressurreição de Jesus, munidos da sua paz, podemos dar
testemunho desta verdade, em qualquer circunstancia sem medo das consequências.
A paz de Jesus é diferente da suposta paz
que o mundo nos oferece através de armas, a paz de Jesus, é fruto da sua
ressurreição, é a paz que veio da cruz, uma paz que nos aquieta e
ao mesmo tempo nos inquieta, que nos faz sair de nós mesmos para irmos ao
encontro do outro!
A paz do Cristo Ressuscitado, é o ponto de
partida da nossa caminhada de fé, quem vive verdadeiramente esta paz, não
se curva diante os desafios da missão.
A paz de Cristo é o cumprimento do cristão!
A paz de Cristo esteja com você: meu irmão
e minha imã!
Olívia Coutinho
PARA OUVIR ESTA
REFLEXÃO É SÓ CLICAR NA FOTO
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A festa da Páscoa não se esgota no
domingo da Ressurreição. A Páscoa celebra-se ao longo de 50 dias, terminando
apenas no domingo de Pentecostes. É um tempo privilegiado de alegria em que os
cristãos se revêem na surpresa da Ressurreição vivida pelos apóstolos. É também
um tempo para recordar a experiência das primeiras comunidades cristãs que se
foram constituindo na congregação de quantos, convertidos, queriam partilhar a
vida segundo os critérios do Evangelho. Alguns, na sociedade que pretende
voltar as costas ao Ressuscitado, quiseram reduzir a Páscoa à festa da
primavera. Na Páscoa, porém, não se celebra apenas a ressurreição da natureza
depois do inverno, celebra-se a Ressurreição de Cristo depois da morte,
celebra-se a ressurreição do mundo depois das trevas que, infelizmente,
persistem no tempo presente. A festa da Páscoa não é evocação do passado:
contém o dinamismo da construção do homem novo e do mundo novo, que a
Ressurreição de Cristo provoca e significa. É neste contexto que a liturgia
pascal convida os cristãos a acompanhar as pessoas que acreditaram no
Ressuscitado, chamando também os cristãos a uma vida comum semelhante à das
primeiras comunidades.
2. Os discípulos de Cristo não tinham
entendido as Escrituras nem mesmo tinham compreendido as palavras de Jesus que,
expressamente, falara da Ressurreição. Quando vêem Jesus morto no Calvário
entram numa terrível depressão. Todos choravam o Mestre mas não achavam
possível que voltasse à vida. A surpresa da Ressurreição apanhou-os a todos,
pelo que Cristo Ressuscitado acabou por tornar-se a referência absoluta das
suas vidas.
• Maria viu o sepulcro vazio e nem
sequer reconheceu Jesus. O jardineiro que lhe estava próximo tratou-a afinal
pelo seu nome e ela descobriu que este era o Mestre (Rabuni). Não pôde mais
parar. Correu a dizer aos discípulos que Jesus estava vivo.
• Pedro e João correm a confirmar o
dito daquela mulher. Encontram o sudário e as ligaduras arrumadas a um canto.
Tão lógica foi a Ressurreição que eles podem dizer que O viram e acreditaram.
• Os discípulos de Emaús faziam tristes
o caminho da desilusão. Criaram amizade com um viajante que ia a seu lado.
Convidaram este homem para ficar em sua casa. Sentaram-se à mesa,
reconheceram-n’O no partir do pão. Afinal o Senhor estava vivo.
• Os apóstolos no Cenáculo, ali juntos
com medo dos judeus, foram surpreendidos pela presença de Jesus que lhes disse:
“a paz esteja convosco”. Reconheceram as mãos e os pés feridos, bem como o
sinal da lança do centurião. Acreditando n’Ele aceitaram o Espírito para
realizar a missão do Evangelho. O Senhor foi claro “como o Pai me enviou,
também Eu vos envio” (Jo 20,21).
• Tomé não estava na comunidade, por
isso levantou todas as dúvidas. Ao regressar à comunidade, uma vez mais Jesus
apareceu. Porque Tomé viu, acreditou. E Jesus poderá dizer-lhe que mais felizes
são os que acreditam sem terem visto. Todos continuaram a hesitar. Por isso
Jesus os advertiu de que só na fé da Sua Ressurreição poderiam ir por todo o
mundo anunciar o Evangelho a toda a criatura. Tinham uma garantia, Jesus
estaria com eles até ao fim do mundo.
• Paulo, anos mais tarde, ele que era
perseguidor, também ficou rendido à presença de Cristo Ressuscitado. Perante
esta realidade que o surpreendeu só soube dizer “Senhor, que queres que eu
faça” (At. 22,10).
Qualquer destas pessoas pode ser um de
nós; surpreendidos tantas vezes por Jesus, para conseguir deitar fora o homem
velho e construir o homem novo à semelhança do Ressuscitado. Se os discípulos
mudaram radicalmente a sua vida, passando da tristeza à alegria, da dúvida à
certeza, do medo à coragem, só, porque tiveram a certeza da Ressurreição,
também cada um de nós pode fazer caminho semelhante celebrando nas atitudes a
Ressurreição de Cristo.
3. A vida das primeiras comunidades, na
leitura dos Atos dos Apóstolos, é recordada na Liturgia destas semanas pascais.
De fato, a maneira como viviam os cristãos estava marcada por uma dinâmica
comunitária de extraordinário significado. “Estavam todos unidos na doutrina
dos apóstolos, na fração do pão e nas orações” (At. 2,42), chegando mesmo a pôr
tudo em comum. Quem olha para vida destas comunidades cristãs reconhece nelas 5
características que deviam ser constantes nas comunidades cristãs de todos os
tempos.
• Tinham um só coração e uma só alma, o
que quer dizer que viviam em profunda comunhão fraterna, servindo-se uns aos
outros e tratando-se como irmãos.
• Tinham a vida em comum, pois para
eles havia uma só fé, um só batismo, um só Deus que é Pai de todos. A
diversidade de carismas e de funções enriquecia a vida comum que fazia parte da
sua vocação cristã.
• Davam testemunho de Cristo em toda a
parte, não tendo medo das dificuldades das perseguições e das prisões. Eles
sabiam que não tinham que pensar o que dizer diante dos juízes porque o Espírito
Santo estaria com eles.
• Tinham a simpatia de todo o povo, a
sua forma de estar era de tal natureza que toda a gente os admirava. Daqui
resultava, então, que muitos se convertiam aderindo à mesma fé.
• Partilhavam os bens de tal maneira
que não havia necessitados entre eles. Chegavam a vender as terras e a pôr o
dinheiro aos pés dos Apóstolos para com este ser possível ajudar os mais pobres
nas suas dificuldades.
Neste tempo litúrgico lêem-se
diariamente os Atos dos Apóstolos. É uma experiência de Igreja que era urgente
retomar. Quando se vê nos noticiários que dois milhões de portugueses deixaram
de ser católicos sente-se que é necessário refontalizar a fé cristã, voltando
às fontes das comunidades cristãs. Pelo testemunho da Ressurreição ter-se-ia a simpatia
de todo o povo e muitos iriam acreditar.
4. Cada comunidade cristã é uma parcela
do Povo de Deus, tendo dele as mesmas características. O Concílio veio
dizer-nos que a Igreja, Povo de Deus, tem 4 características. São estas que
podem tornar-nos simpáticos como cristãos. Termos Cristo Ressuscitado como
referência única e fonte da nossa alegria; promovermos na cidade a dignidade e
liberdade de todos os homens, reconhecidos como filhos de Deus; termos como
única lei o amor vivido até às últimas consequências, no perdão e na
reconciliação até à unidade; e tendo como objetivo gerar a comunidade de gente
feliz. Neste tempo pascal convido todos os cristãos da comunidade paroquial a
vivermos com maior intensidade a vida de ressuscitados.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Vocês são
testemunhas disso
A liturgia deste 3º domingo de Páscoa
mostra-nos de que forma o testemunho de vida dos cristãos deve levar as pessoas
ao conhecimento de Jesus Ressuscitado e à conversão. É assim que Pedro, depois
de curar um aleijado à porta do templo, fala da morte e ressurreição de Jesus e
exorta à conversão (1ª leitura). Por outro lado, João apresenta Cristo como
aquele que remiu a humanidade toda do pecado e intercede por nós junto ao Pai
(2ª leitura). Finalmente, Jesus mostra o sentido da sua morte na cruz
(evangelho) e abre a mente dos discípulos para entenderem as Escrituras.
1ª leitura: Atos dos
Apóstolos 3,13-15.17-19
Nesta primeira leitura, podemos
perceber como os apóstolos respondem à missão encomendada pelo Senhor
Ressuscitado. O discurso de Pedro vem motivado pela reação do povo e do próprio
aleijado que tinha sido curado. Pedro faz questão de mostrar que tudo foi feito
pelo poder de Jesus e aproveita a oportunidade para anunciar a Ressurreição do
Senhor, convidando à conversão e concluindo: “E disso nós somos testemunhas”. O
centro do texto é a salvação oferecida em nome de Jesus.
Quem é Jesus? Olhando o Antigo
Testamento a comunidade dos discípulos reconhece e anuncia Jesus como o Messias
e o Servo de Deus, anunciado pelos profetas, que veio para transformar
radicalmente a condição humana, realizando o projeto de Deus e restaurando
todas as coisas. De agora em diante, a ação de Deus em favor dos homens só se
realiza por meio de Jesus.
2ª leitura: 1João
2,1-5ª
Demonstramos conhecer e amar a Deus
quando fazemos a sua vontade. A vontade de Deus foi revelada e concretizada
através de Nosso Senhor Jesus Cristo e consiste na prática do mandamento do
amor pelo qual salmos do egoísmo e do isolamento, que geram morte, para
vivermos as relações fraternas que geram vida.
Para João, fé e vida têm que estar
intimamente unidas no dia-a-dia dos cristãos. Se a nossa vida não for coerente
com a fé que professamos, estaremos vivendo na mentira. Esta é a verdade nua e
crua que São João expressa na sua carta.
Mas, entre o ideal e a realidade, João
(já velho e paternal) mostra-se compreensivo com seus “filhinhos” escrevendo
que, caso se desviarem do bom caminho, saibam reconhecer seus pecados (porque
reconhecer o pecado é o primeiro passo para livrar-se dele pela conversão) e
confiem em Jesus Cristo que pagou pelos todos os nossos pecados e é o nosso
defensor junto ao Pai. É uma boa reflexão para avançar na vida cristã.
Evangelho: Lucas
24,35-48
Lucas escreve o seu Evangelho
principalmente para os cristãos de cultura grega pouco inclinada a acreditar na
ressurreição. Por isso faz questão de narrar que Jesus manda comprovar não ser
um fantasma (“Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês
podem ver que eu tenho”) e até come na frente deles para mostrar que a
Ressurreição não é fruto da imaginação dos discípulos.
No entanto, mesmo sendo real, o corpo
ressuscitado de Jesus não está mais sujeito às leis físicas: Ele aparece e
desaparece estando as portas fechadas. Definitivamente, o Jesus físico que
morreu na cruz (o Jesus histórico), a pesar de ser Ele mesmo, foi transformado
pela Ressurreição. Agora é Jesus Ressuscitado (o Jesus da fé) que vive e se
manifesta num corpo glorioso na plenitude do seu ser.
Lucas reconhece que os discípulos só
chegaram a entender o alcance da Ressurreição à luz de uma nova compreensão das
Escrituras (“Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras”),
segundo as quais “O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia”.
O corpo físico de Jesus está superado. Trata-se, agora, de descobrir a presença
do Jesus da fé que abre a comunidade para o futuro e envia os discípulos a dar
testemunho da sua Ressurreição e da Salvação, pois “no seu nome serão anunciados
a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.
A missão dos cristãos nasce da leitura
das Escrituras através das quais descobrem Jesus (no seu mistério de vida,
morte e ressurreição) como sendo o centro e o significado último da vida. Essa
missão é a continuação na história do anúncio de Jesus a todos os povos, e está
chamada a provocar a transformação da sociedade em favor dos pobres e
oprimidos.
A conversão e o perdão acontecem ao
percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história.
Palavra de Deus na
vida
Como os discípulos, nós também nos
reunimos “no primeiro dia da semana” (na “primeira-feira” = no “Dominicus
dies” = no domingo ou “Dia do Senhor”). Eles começaram esse tipo de
reuniões dominicais (que nós chamamos de “missa”) para celebrar permanentemente
a Ressurreição do Senhor.
Nessa reunião semanal é que Jesus
Ressuscitado se faz presente pela sua Palavra e pela Eucaristia (tanto para
eles como para nós). A nossa participação é necessária porque não podemos
compreender as Escrituras se o Senhor Ressuscitado não abrir constantemente o
nosso entendimento para uma compreensão sempre renovada da sua morte e
ressurreição e da extensão universal do perdão e da paz que Ele nos oferece. Só
assim poderemos ser verdadeira Igreja, comunidade cristã missionária aberta ao
mundo, que aceita o convite do Senhor (“vocês são testemunhas disso”) não para
transmitir apenas doutrina mas, sobretudo, experiência de vida e de fé.
Transmitir a nossa fé junto com a nossa
experiência de vida (que é onde essa fé se revela) é importante e necessário.
Mas não devemos esquecer que o verdadeiro testemunho cristão que podemos e
devemos dar aos outros não sai apenas da nossa boca, para ser ouvido; sai,
sobretudo, da nossa vida, para ser facilmente percebido por todos aqueles que
convivem conosco.
Em tempos passados era comum alguém dar
uma palestra sobre temas da vida cristã e, no meio dela, incluir um
“testemunho”. O palestrante contava algum fato “edificante” de sua vida e muita
gente ficava animada e entusiasmada com as suas palavras. Mas eram fatos do
passado, que podiam decepcionar se não se dessem, também, no presente. Eram
fatos contados pelo protagonista, muitas vezes arranjados com uma boa dose de
imaginação. O testemunho verdadeiro é muito mais que isso. Trata-se de um fato
presente que não precisa ser contado porque está sendo visto e percebido pelas
pessoas. Aí está toda a sua força: um exemplo de vida vale mais do que mil
palavras por bonitas que elas sejam.
Graças a Deus, exemplos-testemunhos de
vida não nos faltam. Geralmente acontecem na simplicidade e no silêncio. É só
estar abertos e dispostos a valorizar o ser humano para descobri-los..!
padre Ciriaco
Madrigal
"Vós sereis
testemunhas de tudo isso"
Celebramos o domingo do encontro dos
discípulos com o Senhor ressuscitado. No dia em que celebramos o terceiro
domingo da Páscoa, voltamo-nos ao Senhor da vida. Confirmados na fé pelos
sinais sensíveis e instruídos pelas palavras da Escritura, podemos perceber a
sua presença viva no meio da comunidade dizendo: "A paz esteja
convosco".
Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que
se manifesta ressuscitado na caminhada dos discípulos, na fração do pão e em
todas as pessoas e grupos que promovem a partilha e ajudam a criar laços de
comunhão.
O tempo pascal é o período no qual a
comunidade se situa no horizonte da ressurreição e da vida nova de Jesus. A
vitória de Jesus desencadeia a ressurreição de toda a humanidade e a recriação
do universo.
Primeira leitura -
Atos 3,12.13.15.17-19
É o segundo discurso missionário de
Pedro perante o povo israelita. Pedro em seu discurso diminui a culpa dos
judeus porque agiram por ignorância a respeito do mistério divino de Cristo, de
sua missão (Atos 3,17), pensando que tratar-se de um blasfemo e transgressor da
Lei. Sem perceber, contribuíram para o cumprimento das profecias que se
referiam ao Messias sofredor (Isaias 52,13-53,12; Salmo 21,2-19). "Pela
boca de todos os profetas"... Os profetas formam um todo, uma unidade. Não
significa dizer que o sofrimento de Jesus se encontra em todos e em cada um
deles. Assim fez Jesus em Lucas 24,26s, Atos 10,43; assim fez Pedro (1 Pedro
1,11). É o tradicional argumento das profecias. De maneira parecida falou Paulo
em Antioquia da Pisídia Atos 13,27; cf. Romanos 10,3; 1 Coríntios 2,7s; 1,23s),
inclusive aplicando a si tal ignorância para desculpar-se da antiga falta
de fé (1 Timóteo 1,13).
A comunidade primitiva finalmente
descobre Jesus Cristo como o instrumento inocente e sofrendo pela multidão,
graças ao qual Deus realiza seu projeto de salvação.
O apelo para o arrependimento e para a
conversão (versículo 19) está em função da parusia (v. 20s), e eles são
necessários para merecer a Bênção de Deus por meio de Jesus Cristo e o perdão
dos pecados. Sinal deles é o batismo. A conversão supõe uma transformação
interior da pessoa: para os pagãos é voltar-se sinceramente ao verdadeiro Deus
e abandonar os ídolos (1 Tessalonicenses 1,9; Gálatas 4,9; Atos 14,15; 15,19;
26,18-20), para os judeus é aceitar Jesus como Senhor (Atos 9,35; 1 Coríntios
3,16). Já no Primeiro Testamento há referencias à conversão. A novidade na
proclamação da Igreja consiste no entrelaçamento da conversão radical e do
perdão com a obra salvadora de Jesus Cristo. Aderindo a Cristo pela fé e pelo
batismo efetua-se a justificação portadora da salvação. A remissão dos pecados
e o fato de conseguir a salvação estão vinculadas ao sacrifício expiatório de
Cristo (Lucas 22,19s).
Mas, assim como o Senhor só atingiu sua
glorificação pela morte, as pessoas também - a mais concretamente os habitantes
de Jerusalém, responsáveis pela morte de Jesus Cristo - só poderão alcançar e
regeneração universal passando pela conversão (versículos 19 e 26),
reconhecendo Jesus como Senhor (cf. Atos 2,38; 5,31; 17,30) e assegurando assim
o perdão de seus pecados (cf. Atos 2,38; 10,43; 13,38-39).
Do ponto de vista bíblico e teológico,
a ressurreição de Cristo não aparece apenas como uma volta à vida neste mundo,
até mesmo a uma vida melhor, mas, graças às citações bíblicas trazidas para
prová-la, como uma real entronização messiânica (Atos 10,38: unção; 13,33:
filiação; 3,13: glorificação).
A referência da ressurreição às
Escrituras indica que não podemos separá-la do modo pelo qual as pessoas
concretas procuram o sentido da vida e esperam que Deus o revelaste, e do modo
pelo qual Cristo cumpriu sua vocação messiânica na terra. A ressurreição de
Jesus de Nazaré é o núcleo da fé cristã porque desvenda a identidade do Messias
esperado: um homem fiel à sua condição humana até à morte, mas cuja vontade de
ser parceiro de Deus revela sua qualidade de Filho Único, capaz de colocar no
lugar um reino humano-divino.
Apoiando a ressurreição de Cristo nas
Escrituras de sua cultura judaica, Pedro dá o exemplo da busca que a fé cristã
deveria fazer dentro de cada cultura humana. Este trabalho foi bem feito pelo
povo judeu dentro de sua cultura, graças à sucessão prodigiosa de seus
profetas, do Messias e dos apóstolos. Mas o esforço deve ser tentado dentro de
cada cultura. Certamente, a caminhada da reflexão judaica será sempre um
exemplo e, até certo ponto, uma norma a seguir. Mas acontece que ele não é exclusivo
e que o querigma apostólico algum dia poderia ser exposto numa argumentação e
num vocabulário engajados numa cultura "pagã". Paulo tentou esse
esforço no universo da cultura grega; ele está sempre por fazer.
Salmo responsorial -
4,2.4.7.9
Salmo de confiança e gratidão para com
Deus, do qual unicamente vem a felicidade. Apesar de apresentar elementos de
súplica (vs. 2b.7b), trata-se de um salmo de confiança individual. Uma pessoa
envolvida numa tensão social professa sua confiança em Deus (v. 9b). O v. 9 o
apresenta como prece da tarde. O versículo 7b fala a respeito da luz da
face de Deus que sempre está em nosso favor. "Levanta sobre nós a luz da
tua face". Expressão bíblica, freqüente nos salmos, da benevolência de
Deus. A "face" é o aspecto exterior de uma coisa (Salmo 104,30;
Gênesis 2,6) ou de uma pessoa, tornando visíveis seus pensamentos (Gênesis
4,5;31,2). Ela pode, portanto, designar a personalidade ("minha face"
= eu: Salmo 42,6; 43,5) e a presença de modo especial a propósito de Deus
dirigindo-se as pessoas.
O rosto de Deus no Salmo 4. Deus é o
aliado que deu a terra ao povo para que pudesse ter vida. Por ser o Deus da
Aliança, Ele livra da angústia, faz maravilhas e escuta o clamor, mostrando a
luz da sua face e salvando os que suplicam. Finalmente, é o Deus no qual o
salmista põe toda a sua confiança, o Deus no qual pode confiar sem temer
decepções.
No Novo Testamento Jesus é a certeza do
Deus fiel no qual as pessoas podem confiar. Além do que foi dito a esse
respeito no Salmo 3, é oportuno recordar a afirmação de Jesus em João 14,6:
"Eu sou a Verdade". Na Bíblia, "verdade" significa
estabilidade, firmeza, algo que permanece sem se alterar. Em outras palavras,
Jesus é a encarnação do Deus fiel em nossa história e caminhada, e Ele veio
para que todos tenham vida.
Na oração deste salmo expressemos nossa
confiança no Deus de nossos pais, que nos defende e nos salva por Jesus Cristo,
vencedor do pecado e autor da vida. E que a luz da sua ressurreição brilhe em
nossas vidas.
Segunda leitura -
1João 2,1-5
Ao iniciar a carta, João dá um
testemunho ilustre e pessoal sobre Jesus Cristo. Como Deus é luz, o cristão
deve caminhar na luz, fazendo o bem e rompendo com o mal. Com o resultado da
sua morte e ressurreição de Ele nos purificou com seu Sangue, mas é necessário
purificar-se continuamente (isto contra os hereges e gnósticos que se diziam
impecáveis). Dizer que não tem pecado é enganar-se a si mesmo, é faltar com a
verdade. A auto-suficiência gera o auto-engano. Se pretendermos ser impecáveis,
nos seduzimos e enganamos. Ninguém pode dizer-se livre do pecado. A
universalidade dele está no Primeiro Testamento (1 Reis 8,46; Jó 4,17; 15,14;
Provérbios 20,9; Eclesiastes 7,20; Eclesiástico 19,17; Salmo 142,2) e no Novo
Testamento (Mateus 6,12; Romanos 3,9-18; 1 Coríntios 4,4; Tiago 3,2).
Em vez de iludir-se com os pecados,
melhor reconhecê-los e confessá-los (1 João 1,9). Como Tiago (5,16), também
João aqui parece referir-se a uma prática de confissão em uso entre os judeus
e, depois, entre os cristãos (Marcos 1,5; Didaqué 4,14; 14,1).
Todos somos pecadores, mesmo depois da
justificação. Negar que não é pecador é tratar a Deus de mentiroso (versículo
10), já que a Escritura a toda hora afirma que o que o ser humano é pecador.
Quem não se reconhece como pecador, priva-se da luz que lhe que vem da Palavra
de Deus, única a dizer a verdade e a nos libertar.
A universalidade do pecado é
conseqüência da fragilidade humana. Isso não é motivo para pessimismos ou
desesperos. João, falando ao círculo íntimo dos cristãos, nota-se o diminutivo
de afeto: "meus filhinhos", previne de que não se peque, mas, se
acontecer, sugere a esperança: Jesus Cristo o Justo, é nosso intercessor e
defensor junto a Deus Pai. (1 João 2,1), advogando nossa causa, como vítima de
nossos pecados. O cristão, ciente de sua fraqueza, deve recorrer constantemente
a tal Advogado e a seu Sangue propiciatório.
Jesus, ainda em vida, prometera este
outro defensor junto ao Pai, o Paráclito (João 14,16), sinal de que Ele o era
também. A doutrina consoladora da intercessão de Cristo nos céus fazia parte da
catequese primitiva (Romanos 8,34; Hebreus 4,14ss; 7,24s; 9,24; 1 Timóteo 2,5).
Fácil é pecar, porém, consola saber que há um intercessor, poderoso e amigo;
logo, não se trata de um juiz severo, mas de um Pai amável, que escuta seu
Filho, quando suplica por nós sem cessar.
Portanto, todos podem salvar-se
contanto que saibam aproveitar do perdão que é oferecido (1João 4,14; João
3,16-21; 4,42; 12,47; 1Timóteo 2,4ss). João responde aos gnósticos, que
admitiam a eficácia redentora de Cristo só para os bons. Para ser filho de Deus
não basta fugir do pecado, mas é preciso guardar seus mandamentos,
particularmente o do amor (1,5 ss.). Este é o critério dos verdadeiros
conhecedores de Deus (contra os gnósticos). Não é suficiente conhecer a Deus em
teoria, como os filósofos. É preciso também conhecer a Deus fazendo
experiência, mediante uma fé viva, que envolva a pessoa toda para uni-lo a Deus
para que produza muitos frutos, tornando-se assim norma de vida. "Conhecer"
significa "saber" e também "saborear algo" ou "estar
unido a Ele" (cf. 2 Coríntios 13,6; Gálatas 4,9). Conhecer a Deus á
participar de sua vida, é estar em comunhão com Ele.
Pretender conhecer a Deus sem a prática
dos preceitos é ser mentiroso (v. 4), é como aquele que está nas trevas e
pretende estar em plena luz (1João 1,6). João se refere aos falsos doutores que
ostentavam sua ciência (gnosis), mas faltavam aos mais elementares deveres da
vida cristã.
O falso cristão (1 João 2,5) difere do
verdadeiro. Aquele que é verdadeiro cristão cumpre e guarda a Palavra divina. A
caridade, em quem guarda a Palavra de Deus, é bem mais perfeita do que naquele
que só observa alguns preceitos. Deus ama primeiro, confere ao ser humano a
capacidade de amar a Deus e ao próximo. Na caridade da pessoa se unem o
elemento divino e o humano: o amor de Deus para a pessoa e o amor da pessoa
para Deus.
Evangelho - Lucas
24,35-48
Lucas apresenta a aparição de Cristo
aos discípulos de Emaús como a segunda do dia de Páscoa. Com efeito, ele
descreve narra as aparições do Ressuscitado como manifestações sucessivas aos
três principais grupos de discípulos de Cristo: às mulheres (Lucas 24,1-12),
aos discípulos, e finalmente aos Onze (Lucas 24,36-39).
O rito pelo qual Cristo se faz
reconhecer é o da "fração do pão" (v. 30), refeição fraternal das
primeiras comunidades cristãs (Atos 2,42.46; 20,7.11). Enfim a narrativa
termina com uma profissão de fé, (v. 34) que já é a dos primeiros cristãos.
A ressurreição de Jesus não é uma
simples reanimação como a de Lázaro: o corpo de Jesus ressuscitado entrou num
modo de existência diferente do modo terrestre: empregando a linguagem mítica
judaica, Ele está "sentado à direita do Pai". Jesus ressuscitado tem
um corpo, mas este corpo é totalmente diferente do que Ele tinha durante sua
vida terrestre. Tudo isso significa simplesmente que não podemos conhecer o
Cristo ressuscitado do mesmo modo que o Jesus terrestre e que esse novo
conhecimento põe em jogo nossa liberdade
São João afirma que Ele mostra aos discípulos
as "mãos e o lado". Isto significa que o Ressuscitado é o Crucificado
e o Crucificado é o Ressuscitado, isto é, era a mesma pessoa e não um espírito
de luz (João 20,20; 25-27). No Evangelho de São Lucas Jesus aparece após a
ressurreição e mostra aos seus discípulos "as mãos e os pés" e os
introduz na plenitude da mensagem da Páscoa. Tanto em São João como em São
Lucas, trata-se das chagas da crucificação que o Cristo ressuscitado mostra a
eles.
Lucas quer mostrar que a presença
permanente de Cristo ressuscitado pode verificar-se na Palavra e na catequese,
na fração do pão e na profissão de fé, elementos fundamentais da assembléia
litúrgica.
A fé na ressurreição de Cristo não
termina no próprio fato da ressurreição, mas também atinge o modo pelo qual
Cristo prolonga sua existência de ressuscitado entre nós.
Lucas insiste no fato de que Cristo
deixa-se tocar (atitude da qual João 20,19-31 ressalta mais a pobreza) e, além
disso, observa que o Ressuscitado come diante deles, mais do que com eles. A
narrativa mostra que a ressurreição é um fato real e não uma simples
sobrevivência espiritual do Senhor.
Muitas vezes ficamos surpresos quando
os textos mencionam a questão do pecado em muitas narrativas das aparições (v.
47; cf. Marcos 16,15-16; João 20,23; 1 João 2,1-2 e o apelo à conversão nos
discursos apostólicos). No clima cultural judaico, esta associação entre
remissão dos pecados e ressurreição não se separa: se a morte é considerada
como o castigo do pecado (Gênesis 3,19) é normal que a ressurreição seja o
sinal da abolição do pecado. O Ressuscitado é que encarrega os apóstolos
com a missão de pregar a todos os povos a penitência e o perdão dos pecados em
Seu Nome (v. 47).
Lucas acentua muito que em Jesus mesmo
está a origem da pregação da Igreja pós-pascal. Isto quer dizer, ele destaca
que a corrente de tradição que vive na Igreja não começou com os apóstolos, mas
com o próprio Senhor ressuscitado (cf. Gálatas 1,1.11.15 ss.). Foi o Senhor
ressuscitado que abriu a inteligência dos discípulos para que compreendessem as
Escrituras (v. 45). A interpretação adequada das Escrituras não era pois uma
questão de teologia, mas de revelação. Nem o Jesus mortal conseguiu abrir os
olhos dos discípulos mais íntimos para a Sua verdadeira missão. Foi o Senhor
ressuscitado que lhes revelou o sentido da Cruz (versículo 46). Não existe
prova mais clara de que a fé no Messias de Deus exige mudança de mentalidade e
perdão dos pecados (v. 47). A revelação de Deus em Jesus revela de um modo
assustador a incapacidade e indignidade do ser humano diante do divino. Mas ela
não foi dada para condenar e sim para salvar o mundo. Jesus é o Salvador de
todas as nações (v. 47b). Para que a salvação alcance realmente a todas elas,
Ele encarrega os apóstolos de serem testemunhas desta Boa Nova (v. 48).
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
Com a sua aparição, hoje, Jesus dá uma
base "racional" à fé dos discípulos, mas esta não é o fruto lógico da
razão mas da experiência pascal e do encontro em profundidade com Cristo,
que lhes dá uma segurança absoluta e indispensável, tanto que condicionará toda
a sua vida e a nossa hoje também.
Não existe a menor dúvida de que sentir
a presença e a ação de Deus traz uma alegria e uma satisfação muito grande.
Muitas páginas da Sagrada Escritura são um grito de alegria, um testemunho
alegre desta experiência. O último versículo do Salmo responsorial diz:
"Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor
Deus, dais segurança à minha vida!" (Salmo 4,9). O Criador, conhecendo a
sua criatura, também usa esse meio para fazer as pessoas crerem e aderirem ao
seu projeto, porém não é o suficiente.
Temos, também, as "dúvidas de
compreender". Quando falamos de acesso a informações sobre os mais
diferentes assuntos, inclusive religiosos, vivemos numa época privilegiada.
Para permanecermos no nosso tema, o acesso a explicações sobre a razão da nossa
fé não nos falta. Como também não faltam informações sobre outras tantas
crenças diferentes da fé católica. Tal pluralidade religiosa e as múltiplas
interpretações dos mesmos fatos levantam uma série de interrogações. A
interpretação da Igreja Católica é a mais adequada? As novas e muitas
interpretações aprofundam ou levam à negação do que aprendi?
As dúvidas provocadas pela pluralidade
são oportunidades para que Cristo possa abrir "a inteligência dos
discípulos para entenderem as Escrituras" (Lucas 24,45). Quando alguém
duvida do que crê, mostra que já foi iniciado. A partir dessa iniciação, pode
dispor-se para ser conduzido a uma compreensão mais aprofundada. Os discípulos
tinham ouvido, diversas vezes, sobre o que deveria acontecer com o Messias.
Será que as explicações dadas não tinham sido suficientes ainda? Ou melhor,
faltava uma oportunidade para desestabilizar ou para colocar em crise o que tinham
ouvido? O contexto criado permitiu que o Mestre retomasse os ensinamentos para
serem assimilados e colocasse uma base, que poderíamos denominar de
"racional", para a fé dos seus discípulos.
Confessar: "eu não sei se ainda
creio", apresenta-se como uma oportunidade muito favorável. A partir dessa
dúvida de fé, o Cristo ressuscitado pode renovar a fé dos seus seguidores.
"A fé é uma posse antecipada do
que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem"
(Hebreus 11,1). A fé é uma certeza. Uma certeza marcada por uma faixa de
incerteza, de risco, de indefinível, não-demonstrável para a nossa inteligência
e os sentidos. Crer é usar a razão para entregar-se, confiar. É aceitar Deus
através da sua Palavra. É experiência pascal e encontro em profundidade com o
Ressuscitado.
Crer é viver toda a nossa vida com
espírito pascal, isto é, como ressurreição perene e nascimento constante para a
vida nova em Deus (1 Pedro 1,3). Crer é atrever-se, como os apóstolos e os
primeiros cristãos, convertermo-nos radicalmente, mudando o rumo de nossa vida
e dando a razão de nossa esperança, apesar da dúvida do egoísmo, da injustiça e
do desamor, da vulgaridade e da morte. Porque a conversão, como o crer, é
tarefa de todo o tempo, inclusive o pascal. Confirmados e reanimados na fé,
Jesus nos diz: "Vós sereis testemunhas de tudo isso" (Lucas 24,48).
A Palavra se faz
celebração
A celebração é o lugar do encontro com
Cristo, onde reunidos fazemos a experiência da sua presença animadora. É ele
quem revela o sentido das Escrituras e parte o pão para nós, nos enviando para
o testemunho. É ele quem nos revela o sentido dos cantos litúrgicos, dos
símbolos, dos sinais, da Oração Eucarística e das outras orações. Repetimos,
seguindo o mesmo caminho dos discípulos de Emaús o confronto entre a Lei, os
profetas e os Salmos. Verificamos em Jesus a plenitude da revelação pela escuta
atenta e piedosa do Evangelho. Por Ele somos arrancados dos nossos desânimos e
das nossas incompreensões frente o sofrimento e a dor. Nele robustecemos nossa
filiação divina pela oração, pela obediência da Palavra de Deus, pela atitude
solidária e amorosa com os irmãos. A vida nova vai tomando lugar em nós, até
que Cristo seja tudo, em todos. Quando comungamos o Corpo e Sangue do Senhor, a
vida de Deus circula dentro de nós, isto é, a eternidade entra na nossa vida.
Ligando a Palavra a
ação eucarística
A Eucaristia é uma oportunidade ímpar
de encontrarmo-nos, de modo festivo e comunitário, com o Cristo ressuscitado.
Na oração do dia (coleta), rezamos: "Ó Deus, que o vosso povo sempre
exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com
alegria a condição de filhos de Deus espere com plena confiança o dia da
ressurreição". A comunidade exulta de alegria e por isso eleva ao Deus da
vida a sua ação de graças na Oração Eucarística.
A renovação espiritual que acontece faz
a Igreja festejar, pois "sois a causa de tão grande júbilo", diz-nos
a oração sobre as oferendas. A alegria e a festa são a tonalidade predominante
da liturgia deste domingo.
Uma comunidade fortalecida na fé,
formada por pessoas que vivem no agora a certeza da ressurreição, a alegria da
vida eterna, contagia o mundo com seu testemunho.
Os cristãos, libertados dos fantasmas
que preocupam e geram dúvidas, dizem ao mundo que sobre eles brilha a face do
Senhor ressuscitado.
padre Benedito
Mazeti
1 – "Vós sois as
testemunhas de todas estas coisas". Vimos e não podemos calar a nossa
alegria por encontrarmos Cristo Jesus no meio de nós, vivo, ressuscitado. Ele
que dera a Sua vida até ao derramamento de sangue, até à morte cruenta numa
cruz, por amor – podia "livrar-se" dos sofrimentos e prosseguir a sua
vida comodamente; escolheu amar, em todas as circunstâncias –, está de volta ao
mundo dos vivos.
Amar exige muitas
vezes sofrer, gastar as energias a favor de quem se ama, dar-se por inteiro,
feliz por premiar o destinatário do amor. Amar pode levar à morte, para da
morte livrar o(a) amado(a). Exemplo paradigmático, o da mãe pelo filho, que
sofreria e morreria em vez dele, não por querer sofrer ou morrer, mas para
salvar o seu amor maior!
No caminho de Emaús,
dois discípulos são surpreendidos por um estranho, que não é assim não
estranho. Jesus vai conosco, percorre os nossos caminhos, envolve-Se nos nossos
sonhos e projetos, mas nem sempre O reconhecemos. Há momentos, porém, que é
impossível não O ver. Os discípulos reconhecem-n'O ao partir do pão. Vão
rapidamente comunicar o sucedido ao grupo dos Apóstolos.
Ainda tentavam conter
o entusiasmo e já Jesus Se apresenta no meio deles e lhes diz: «A paz esteja
convosco». A surpresa é evidente. Jesus questiona: «Porque estais perturbados e
porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e
os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem
ossos, como vedes que Eu tenho». De novo a dúvida, a hesitação. Será que
estamos acordados, não será um sonho, uma ilusão?
Para que não haja dúvidas, Jesus come também uma posta de peixe assado – não é
um fantasma –, e explica com a Sagrada Escritura: “Está escrito que o Messias
havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser
pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações,
começando por Jerusalém".
2 – "Nós somos
testemunhas disso".
A ressurreição e os
encontros com o Ressuscitado alteram por completo a vida dos Seus seguidores.
Antes, na vida pública de Jesus, na pregação, no anúncio do Evangelho, na
passagem de uma a outra povoação, eles são discípulos, freqüentam a escola,
acompanham-n'O, vão ver onde mora e como mora, aprendem a Sua postura. Com a
Sua morte, dá-se um grande vazio e uma enorme incerteza. Mas, três dias depois,
eis que Jesus Lhes aparece. E então tudo muda. E, embora não deixem de ser
discípulos, agora são Apóstolos, enviados, anunciadores do Evangelho. Então,
eles, e agora nós. Ele está vivo e somos nós hoje o Seu olhar, a Sua voz, as
Suas mãos, a Sua vida. Somos discípulos e apóstolos, aprendizes e testemunhas.
O temoroso e
hesitante Pedro aparece fortalecido com o Espírito do Ressuscitado,
dirigindo-se resolutamente ao povo: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o
Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e
negastes… matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos
testemunhas disso. Agora, irmãos… arrependei-vos e convertei-vos, para que os
vossos pecados sejam perdoados».
A vida não vai parar.
É tempo de arrepiar caminho, deixando no passado o que é passado,
convertendo-se de todo o coração, para que os pecados sejam perdoados, e se
inicie a vida nova de ressuscitados pela água e pelo Espírito Santo, em que
fomos enxertados em Cristo Jesus e no Seu Corpo que é a Igreja, no dia do nosso
batismo.
3 – "Vós sois as
testemunhas de todas estas coisas".
Viveram com Jesus
durante três anos, aprendendo os Seus gestos, a Sua postura, a Sua forma de
estar e de Se relacionar com Deus e com as pessoas, tornaram-se Seus amigos.
Passaram bons e maus momentos juntos. Partilharam dificuldades e dissabores,
saborearam momentos de grande envolvência. Viram o Seu Mestre aclamado, como
Rei. Mas para a morte ninguém está preparado. Também eles não estavam
preparados para acompanhar o caminho "descendente" d'Aquele que havia
de trazer a glória e o sucesso. Jesus vai ao fundo, morre!
Mas não será o fim.
Levanta-Se do túmulo, cheio de luz, de amor, de VIDA nova. Nem a pesada pedra
trava tamanha força, tamanha revolução. Está de novo no meio deles, no meio de
nós. E conSigo introduz-nos numa vida nova, dá-nos o Espírito Santo, envia-nos
para o mundo, para toda a parte. Hoje somos nós as testemunhas de todas estas
coisas, do Seu projeto de amor e salvação, e também nós beneficiários da Sua
entrega.
E agora que nos
tornamos filhos e herdeiros em Cristo, é bom que Lhe permaneçamos fiéis para
podermos desfrutar da alegria, da graça e do bem que d'Ele recebemos.
São incisivas as
palavras de são João: "Meus filhos, escrevo-vos isto, para que não
pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado
junto do Pai... Se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor de Deus é
perfeito". Guardar os mandamentos do Senhor, permanecer na Sua presença,
para que em nós transpareça o Seu rosto, para sermos testemunhas credíveis para
os nossos coetâneos.
padre Manuel Gonçalves
Vós sereis testemunhas
de tudo isto
1ª leitura: At.
3,13-19
Anunciar que o
Crucificado está vivo. Sem medo!
1. A primeira leitura de hoje é o
segundo discurso de Pedro, tirado dos Atos dos Apóstolos, e o segundo discurso
kerygmático, depois do Pentecostes, porque "proclama" com clareza a
força da mensagem pascal: a morte e Ressurreição de Jesus. A ocasião é a cura
extraordinária de um coxo, alguém que está impedido de andar, como se o
evangelista Lucas, que tanto interesse pôs no caminho, na sequência dos fatos, nos
quisesse dizer que a Ressurreição de Jesus torna possível que todas as
impossibilidades (físicas, psíquicas e morais) não sejam impedimento algum para
seguir o caminho novo que é estreado especialmente a quando da Ressurreição de
Jesus.
2. Pedro, pois, o primeiro dos
apóstolos, está encarregado deste tipo de discursos oficiais em Jerusalém para
ir espalhando a constância necessária, porque agora não terão medo de seguir
Jesus, o crucificado, nem perante as autoridades judaicas, nem romanas. Pelo
contrário, devem anunciá-l'O perante o povo, para mostrar que estão com este
Crucificado que é capaz de dar um sentido novo à sua existência. É um discurso
no qual salienta que o Deus dos "pais", o Deus da Aliança, o Deus de
Israel é Ele que faz isso e não outro deus qualquer. Que se quisessem ser fiéis
às promessas de Deus, o único caminho seria o de Jesus morto e ressuscitado.
2ª leitura: 1 João
2,1-5
A morte redentora
face ao mundo
1. A segunda leitura, tal como no
domingo passado, insiste nos mandamentos de Jesus para vencer o pecado. A
comunidade joanina enfrenta o "pecado do mundo", sente-se
constrangida, e o autor coloca perante os seus olhos a morte redentora de Jesus
como possibilidade excepcional da vitória sobre o "pecado do mundo".
2. É verdade que não devemos entender a
expiação de Jesus num sentido jurídico, como uma necessidade metafísica para
que Deus se sinta satisfeito, uma vez que Deus não precisa da morte do seu
Filho. Mas a sua morte é um sacrifício por nós, porque nela está a força que
vence o mundo e o pecado do mundo, o pecado no qual se estrutura a história da
humanidade e que os cristãos devem vencer com a força da morte redentora de
Jesus.
Evangelho: Lucas
24,35-48
Uma nova experiência
com o Ressuscitado
1. A leitura do texto lucano quer ligar,
à sua maneira, à do domingo passado (o Evangelho de Tomé), uma vez que todo o
capítulo de Lucas é uma pedagogia das experiências decisivas da presença do
Vivente, Jesus Crucificado, na comunidade. Ele que é mencionado na cena do
reconhecimento que os discípulos de Emaús fizeram ao partir o pão,
transforma-se numa sugestiva introdução para dar a entender que o Ressuscitado
se "apresenta" em determinados momentos entre os seus com uma força
irresistível. O relato de hoje é difícil, porque nele se trabalha com elementos
dialéticos: Jesus não é um fantasma, mostra as suas feridas, come com eles…,
mas não pode deixar-Se tocar como uma imagem; passa através das portas
fechadas. Há uma apologética da Ressurreição de Jesus: o Ressuscitado é a mesma
pessoa, mas não tem a mesma "corporeidade". A Ressurreição não é uma
"idéia" ou uma invenção dos seus discípulos.
2. Esta forma semiótica, simbólica, de
apresentar as coisas pretende afirmar uma realidade profunda: o Senhor está
vivo; as experiências que tem com os discípulos (embora exageradas pela
polêmica apologética de que os cristãos tinham inventado tudo isto) fascina-os,
não para as conceberem em termos de fantasia sobre a Ressurreição, mas para os
convencer de que agora a eles cabe prosseguir a sua causa, anunciar a salvação
e o perdão dos pecados. Acreditar na Ressurreição de Jesus sem estas
consequências seria como crer em coisas de espíritos. Não se trata disso,
porém, mas de acreditar na realidade profunda de que o Crucificado está vivo, e
agora os envia a todos os homens.
3. Não podemos esquecer que as
aparições pertencem ao mundo do divino, e não ao das realidades terrestres.
Pela mesma razão, a apresentação de um relato tão "empirista" como
este de Lucas requer uma verdadeira interpretação. O divino, é verdade, pode
acomodar-se às exigências da corporeidade histórica - e assim, o experimentam
os discípulos. Mas tal não significa que o Ressuscitado dê, de novo, um salto a
esta vida ou a esta história. Se fosse assim não podíamos estar a falar de
"ressurreição", porque isso seria como ultrapassar os limites da
"carne e do sangue" que não podem herdar o reino de Deus (Cf.1Cor.
15,50). Nós, homens, podemos aplicar ao divino as nossas pré-concepções
antropológicas. É claro que houve experiências reais, mas o Ressuscitado não
regressou à corporeidade desta vida para ser visto pelos seus. O texto é muito
cauteloso ao dizer que Jesus é o mesmo, mas a sua vida tem outra corporeidade;
não a de um fantasma, antes a de quem está acima da "carne e do
sangue".
4. Atualmente, estão explicados no
Evangelho a realidade e o sentido das aparições do Ressuscitado e devemos ter a
coragem para "pregar e proclamar" que as aparições de Jesus aos seus
não podem ser entendidas como um regresso a esta vida para que os seus
discípulos O reconheçam. Tornou-Se presente de outra maneira e eles tiveram a
experiência tal como eram e sentiam. É isto que se passa nestas experiências
extraordinárias em que Deus intervém. Jesus não podia comer, porque um
ressuscitado, se pudesse comer, não teria ressuscitado verdadeiramente. Os
alimentos falados no nosso texto fazem referência ao alimento eucarístico,
recordando o que Jesus tinha feito com eles, agora notam a sua presença nova.
Em definitivo, a "corporeidade" das aparições de Jesus aos seus discípulos
não é material ou física, antes reclama de uma realidade nova como expressão da
pessoa que tem uma vida nova e que se relaciona também com os seus e estes com
o Ressuscitado - que é o que vale a pena acima de qualquer outra coisa.
fray Miguel de Burgos
Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Na dúvida
Quando Jesus aparecia diante dos
discípulos, conseguia convencê-los menos mostrando-lhes o seu corpo do que
insuflando o dom que lhes oferecia.
Como sabemos, quando veio vê-los,
portas fechadas, ficou de pé diante deles; ficaram perturbados e amedrontados,
julgando estarem a ver um espírito. (Jo. 20,26; Lc. 24, 36-37); mas Ele soprou
sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo (Jo. 20,22). Depois enviou-lhes do
céu o mesmo Espírito, mas para efeito de um outro dom. Estes dons foram para
eles os testemunhos e as provas indubitáveis da sua Ressurreição e do seu
regresso à vida.
Com efeito, é o Espírito que
testemunha, primeiro no coração dos santos, depois na sua boca, que Cristo é a
Verdade (Jo. 5,6), a verdadeira ressurreição e a vida. É por isso que os
Apóstolos que primeiro estavam na dúvida mesmo depois de terem visto o seu
corpo vivo, deram com grande coragem, testemunho da sua Ressurreição (Act.
4,33) quando tiveram a experiência do Espírito vivificante.
É, pois, muito mais vantajoso conceber
Jesus no nosso coração que vê-lO com os próprios olhos ou ouvi-lo falar.
beato Guerric
d'Igny
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