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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

domingo, 1 de abril de 2018

DOMINGO DA PÁSCOA -B


01 de abril – Ano B

Evangelho Jo 20,1-9

-JESUS RESSUSCITOU-José Salviano.

DOMINGO DA PÁSCOA


PRIMEIRA LEITURA - Pedro disse que eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: Inicialmente, Jesus só apareceu aos seus escolhidos. Porém, na estrada de Damasco, Jesus pareceu para uma multidão, e isso serviu para calar a boca daqueles que vivem dizendo. Viu? Jesus só apareceu aos da casa! Com um ar de desconfiança...

SALMO - Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia! Eterna, infinita, sem restrições, ou seja, é para todos os mortais. Porém, é bom que não abusemos dessa misericórdia, e nos esforcemos para andar sempre nos caminhos retos, para que possamos merecer a luz que ilumina os nossos passos, a fim de não cairmos nos buracos dessa estrada...

SEGUNDA LEITURA - Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Muitas vezes brigamos por coisas perecíveis, enquanto Deus está de mãos estendidas nos oferecendo sua graça, sua amizade, sua salvação para sempre.
        
Desde as guerras e brigas até um olhar envenenado de ódio que lançamos ao nosso irmão, todos os atos de violência, de agressão, são causados pela disputa de poder, de bens de consumo perecíveis, bens não duradouros desta vida limitada. Dizemos às vezes que lutamos, brigamos por nada. Nada de importante, nada que realmente valesse a pena. Porque tudo nessa vida é passageiro.
        
Meu irmão, minha irmã. No período da quaresma, especialmente na Semana Santa,  cada um de nós teve a oportunidade de parar e pensar: De onde eu vim? Para onde eu vou? 
        
Por menor que seja a fé do indivíduo, dá para perceber que viemos de Deus, e que o certo seria voltar para Deus. Essa é a lógica da existência, para quem tem o mínimo de bom censo. Porém, pode acontecer  que muitos neste momento, não estão preocupados em voltar para o Pai.

Caríssimos. Vamos nos esforçar para alcançar as coisas com a ajuda da FORÇA DO ALTO, vamos nos preocupar menos com as coisas terrenas.
  
EVANGELHO

        
Aquele mesmo Jesus que foi zombado por muitos no momento do seu martírio na cruz, está de volta, em uma vida gloriosa para nunca mais morrer.
        
Naqueles tempos, os judeus não acreditavam nas mulheres, por achar que elas eram mentirosas. Por isso elas além de serem desprezadas, não podiam ser testemunhas nos julgamentos. E até nisso Jesus remexe os valores corrompidos pelos líderes judaicos. Foi uma mulher quem primeiro testemunhou a ressurreição do Filho de Deus. E até hoje temos muitas mulheres testemunhando a ressurreição de Jesus nas inúmeras paróquias do mundo. São elas que muitas vezes desacompanhadas de seus respectivos maridos, estão na linha de frente das pastorais dando tudo de si pela permanência da Igreja, presença viva do ressuscitado no meio de nós.
        
Irmãos. Depois da ressurreição de Jesus Cristo, os apóstolos perderam o medo e se lançaram na obra de construção da Igreja viva. Aqueles amigos de todas as horas, que falharam na hora em que Jesus foi preso, que negaram serem amigos de Jesus, agora depois da ressurreição, ficaram transformados, em super-homens corajosos e destemidos e prontos para enfrentar tudo, pela causa do Reino de Deus, a enfrentar até a própria morte.  E ainda tem gente que duvida do poder de Deus!
        
Façamos o mesmo. Embebidos da força do ressuscitado, vamos levar ao mundo a mensagem de paz, de amor de vida que vai nortear a conduta dos nossos irmãos que estão sem esperanças, que já não encontram mais o sentido da vida, e infelizmente, muitos que já não estão acreditando mais em nada, tendo em vista tanta injustiça, que começa a acontecer lá no centro do poder, lá de onde não deveria ser, lá de onde deveria partir o bom exemplo!...
        
Caríssimos. A ressurreição não foi um ato de alucinação dos amigos de Jesus. Ela foi um fato real, e o mais forte acontecimento que alimenta a nossa fé. É a ressurreição de Jesus que nos dá força para continuar tentando ser melhor, e melhorar o mundo, começando em nossa família.         

Mas infelizmente o comércio se aproveita dessa data para vender mais. Para vender ovos de  chocolate e presentes. As escolas fazem festinhas com as crianças vestidas de coelhinhos... e ninguém explica o verdadeiro sentido da Páscoa. E o Cristo ressuscitado? Onde foi parar? Quem vai explicar para as crianças que a Páscoa não é apenas comer chocolate, mas sim, festejar o aniversário da ressurreição de Jesus, aquele que quer trazer o fim das brigas entre seus pais, a paz na sociedade, o fim do desemprego, da fome, da solidão, e de tudo aquilo que está matando cada um de nós aos poucos. O ressuscitado quer nos ressuscitar também. Quer nos libertar das amarras que nos prendem a uma escravidão sem explicação, e nos dar uma vida melhor!
        
Vivamos a Páscoa com muita alegria! Não fixemos a nossa mente  nas nossas dores físicas, nem nos deixemos ser dominados pelo medo da violência. Voltemos os nossos pensamentos dominantes para o poder de Deus que pelo seu amor ressuscitou o seu Filho amado, e hoje nos chama para a conversão.
        
O discípulo que chegou primeiro, vendo os sinais da ausência do corpo do Mestre no túmulo, logo entendeu que se tratava da ressurreição prometida por Ele. Então o  discípulo viu e acreditou.
        
Meu irmão, minha irmã. Acreditemos também nós. Pois a ressurreição de Jesus é o ponto básico, a pilastra que sustenta a nossa fé. Se para nós restam sombras de dúvidas sobre este fato histórico, a nossa fé está balançando. Não vejamos as aparições de Jesus como visões de um fantasma que vinha e desaparecia. Veremos As aparições de Jesus como provas incontestáveis da sua divindade.

Tenha fé. Convertei-vos e crede no Evangelho! Nem tudo está perdido!

Desejamos a todos um bom e santo domingo. José Salviano.


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Ressuscitou, está vivo
1. O essencial da fé cristã está em acreditar que Jesus ressuscitou. Na 1ª carta aos Coríntios, Paulo di-lo expressamente. Naquela comunidade havia quem não acreditasse na Ressurreição. Era a cultura helénica que o não admitia. Mas o Apóstolo escreve com toda a clareza: “Se não há ressurreição, Cristo não ressuscitou e, então, a vossa fé é vã, a nossa pregação não tem sentido e nós somos os mais infelizes de todos os homens” (1Cor. 15,14-19). Acrescentou, porém, logo depois: “Mas Ele ressuscitou e, como Ele ressuscitou, todos vamos ressuscitar”. É um texto magnífico em que Paulo afirma a sua fé no Ressuscitado. Há três maneiras de confirmar a Ressurreição do Senhor Jesus.
• O sepulcro vazio. Foi Maria Madalena que encontrou o sepulcro vazio; foi dizê-lo a Pedro; Pedro e João correram ao sepulcro e não estava ali o corpo do Senhor. As ligaduras e o sudário estavam dobrados, com uma arrumação invulgar. Assim sendo, compreende-se que as teses do roubo, do tremor de terra ou do sono dos guardas, nada podem significar. O lugar do túmulo vazio é um espaço tranquilo, onde Jesus aparece a Maria, que O confunde com o jardineiro.
• As aparições do Ressuscitado. Por onze vezes Jesus apareceu aos seus discípulos. No Cenáculo, no Lago Tiberíades, no Monte da Ascensão e até a Paulo, no caminho de Damasco. Ao verem surgir Jesus, todos ficaram surpreendidos, porque não se recordavam do que Jesus dissera, que ao terceiro dia havia de ressuscitar. Eles são testemunhas muito concretas de que Jesus os surpreendeu com a Ressurreição. Afinal, Ele voltara à vida.
• O testemunho dos Apóstolos. Sobretudo Pedro e Paulo têm discursos extraordinários a proclamar a Ressurreição de Jesus. As narrativas são de extrema clareza, mas o mais importante é que eles dão o seu testemunho, até quando no sinédrio os ameaçam com sentenças de morte. Pedro chega mesmo a dizer que nada e ninguém o pode fazer calar. Os Apóstolos darão a vida pelo Ressuscitado. Ele está vivo. O testemunho dos Apóstolos levará muitos à conversão. E porque Jesus ressuscitou, milhões e milhões de cristãos, ao longo dos séculos, irão afirmando a sua fé, oferecendo a sua vida por Cristo e identificando com Cristo Ressuscitado os seus projetos de renovação do mundo.
2. A Ressurreição de Cristo não é um acontecimento do passado. Poderá colocar-se a questão de como fazê-la presente no mundo de hoje. É fácil dizer que se tem fé em Cristo Ressuscitado. Mas como se manifesta, qual o testemunho dos cristãos, como revelar a Ressurreição aos não crentes? Muitas vezes os cristãos perdem-se em palavras, para dizer que acreditam em Cristo Ressuscitado, mas tal é insuficiente. No princípio do séc. XIX, na Sorbonne, em Paris, havia um grupo de cristãos que discutiam os problemas da fé na grande cidade, então coração da Europa. Um dia, um colega muito crítico para com os grupos de católicos, pergunta a Frederico de Ozanam o que é que os católicos faziam, eles que tanto falavam? Interpelado, assim, Ozanam entendeu que só a ação social revelava a força do Evangelho. Criou então as Conferências de Caridade, hoje chamadas Conferências de são Vicente de Paulo. A grande questão, para revelar o Ressuscitado, é precisamente esta: “o que temos de fazer?”
• Vencer a solidão de quantos ficaram sozinhos na vida: pessoas de idade, homens e mulheres que enviuvaram, doentes que se perdem nos corredores das urgências, os sem-abrigo que não têm mesmo ninguém.
• Acompanhar muitos que estão altamente dependentes: crianças que perderam os pais ou foram abandonadas, jovens que se deixaram apanhar pela droga ou pelo álcool, doentes em fase terminal.
Repartir o pão ou outros bens com os mais pobres: algum vizinho em dificuldade, uma família em que o pai e a mãe caíram no desemprego, muitos que não conseguem sequer pagar as despesas da casa.
• Dar algum tempo a muitos que estão em ansiedade e angústia: colegas de trabalho, amigos que sofrem algum problema ou, até simplesmente, os pais, os avós, os filhos ou os netos.
• Exercer o voluntariado no Centro Social ou noutra organização de apoio a casos concretos, bem estruturados.
• Dedicar um tempo razoável à oração, à leitura do Evangelho, à visita ao Santíssimo Sacramento, à reza do rosário, sempre pensando nos outros e nas suas grandes ou pequenas preocupações.
• Privilegiar o silêncio e a contemplação do Senhor Ressuscitado, procurando reler páginas que contam a aparição de Jesus, nas mais diversas situações da vida. Ele hoje continua a aparecer-nos, a revelar-se, a dar-se a conhecer. Encontrá-l’O e conversar com Ele é exercício espiritual de grande intimidade.
A Ressurreição do Senhor não é um acontecimento de há 2.000 anos. A Ressurreição continua, nos inúmeros gestos que, por Cristo, vamos repetindo. Não é apenas uma nova Encarnação, é uma nova Ressurreição.
3. O Tempo Pascal deve ser também, na Comunidade Paroquial do Campo Grande, um tempo de alegria, de criatividade e de compromisso.
• A alegria está no coração de cada um, porque Jesus ressuscitou. Ele venceu a morte e quer que todos sejam capazes de vencer as inúmeras mortes que marcam a vida quotidiana de muita gente.
• A criatividade é elemento indispensável à ação pastoral da comunidade. Não basta repetir o que sempre se fez, é preciso descobrir os novos métodos e as novas expressões de evangelização. Com um sentido de descoberta é essencial encontrar os caminhos novos que levam, mesmo aos não crentes, a força de Jesus Ressuscitado.
• O compromisso é o sinal de responsabilidade de quantos querem fazer, da sua vida toda, processo eficaz de evangelização, de anúncio do Ressuscitado. Há inúmeras pessoas à espera do Senhor. Cada um tem de saber revelá-l’O.
Não basta dizer “Boas Festas” lembrando a Páscoa de Jesus. É preciso fazer a Páscoa, a passagem de um tempo de dificuldade em tempo de esperança.
4. A todos os membros da Comunidade Paroquial do Campo Grande, desejamos as melhores alegrias pascais. Que Jesus Ressuscitado entre no coração de cada um. Tudo será novo.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



1. Os discípulos estavam desiludidos. Tinham andado com Jesus quase quatro anos, julgavam que Ele seria quem vinha para restaurar o Reino de Israel e, afinal, Ele fora condenado à morte, e à morte na cruz. Judas tinha-O traído, Pedro acabara por negá-l’O, todos os outros haviam fugido. Era a desilusão geral. Depositado no sepulcro de José de Arimatéia, a aventura daquele “profeta” tinha chegado ao fim. Mesmo nestas circunstâncias restou a Jesus a ternura das mulheres que, domingo, foram de manhã cedo ao sepulcro para lançarem no túmulo alguns perfumes, a última homenagem que queriam prestar-Lhe. Aconteceu, porém, que o sepulcro estava vazio. A pedra tinha sido rolada, o sudário e as vestes estavam dobradas em cantos diferentes, e, de Jesus não havia notícia. Apareceu-lhes um mensageiro que lhes disse “Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui: ressuscitou” (Lc. 24, 6).
É então que os seus mais próximos, que haviam perdido a esperança, se aperceberam do grande acontecimento. Ao terceiro dia Jesus ressuscitou, como havia prometido.
• Maria julgou que tinham roubado o corpo do Senhor. Perguntou ao jardineiro onde o pusera. E este disse-lhe: “Maria”, ao que ela respondeu: “Rabuni”. Reconheceu que Jesus estava vivo a falar com ela.
• Pedro e João correram ao sepulcro e confirmaram o que Maria lhes dissera, indo, logo de seguida, dar aos irmãos a boa notícia de que Jesus estava vivo.
• Os onze discípulos reuniram-se no Cenáculo pela tardinha e Jesus entrou para lhes dizer “a paz esteja convosco, recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados estes ser-lhes-ão perdoados” (Jo. 20,22-23). Com alegria compreenderam que o Reino do perdão e do amor estava a começar.
• Os companheiros de Emaús, possuídos de tristeza, nem sequer tinham reconhecido Aquele homem que os acompanhava. Foi à mesa, ao partir do pão, que se deram conta que Ele era o Senhor. Foram, de corrida, juntar-se a todos no Cenáculo, partilhando a certeza da Ressurreição.
• Os pescadores de Tiberíades julgavam ver na praia um outro trabalhador da faina. Afinal, João e Pedro, possuídos de esperança, acabaram por ver n’Ele o próprio Jesus, comendo os pães e os peixes assados na brasa, naquela praia diferente.
• Os 500 irmãos, no monte das Oliveiras, escutaram conversas de despedida. A mensagem de Jesus era simples “Não olheis para o céu, olhai antes para o mundo que é urgente salvar”.
• Até Saulo, o perseguidor, na estrada de Damasco, foi surpreendido por Jesus Ressuscitado. Ele que não acreditava compreendeu que Jesus estava vivo e mudou radicalmente a sua vida. Tornou-se apóstolo.
A Ressurreição de Jesus venceu a desilusão dos Apóstolos. No mundo de hoje há imensos homens e mulheres carregados de desilusão. A Ressurreição de Cristo é um grito de esperança, como Cristo ressuscitou tudo e todos vamos ressuscitar.
2. A Ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa fé. Quem lê a Primeira Carta de são Paulo aos Coríntios encontra um capítulo dedicado à Ressurreição de Jesus. É o capítulo 15. Com uma linguagem muito simples, Paulo interpela aqueles que não acreditam na Ressurreição, dizendo: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou, e, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, a nossa pregação não tem sentido, somos os mais infelizes dos homens”. Paulo acrescenta logo depois “Mas Ele ressuscitou.” De alguma maneira o Apóstolo Paulo quer dissipar todas as nossas dúvidas, por muito grandes que elas sejam. Vale a pena perguntar porque duvidamos tantas vezes. As dúvidas que temos justificam-se. É, porém, necessário ultrapassá-las.
• São fruto da razão que quer explicar tudo, quando há inúmeras coisas que não podem compreender-se senão à luz da fé, da adesão incondicional à Pessoa de Jesus.
• São resultado de um ambiente agnóstico e, às vezes, hostil. Os cristãos sofrem imensas pressões que os levam a hesitar mesmo nas verdades essenciais da fé.
• São conseqüência das nossas crises, com inúmeros problemas por resolver, com sofrimento acumulado, que leva a considerar que se foi abandonado por Deus.
• São a expressão da nossa atitude espiritual que, em plena oração, se fica perplexo perante o mistério de Deus que transmite um amor que é difícil compreender.
Até os grandes santos tiveram dúvidas. Teresa de Ávila, Teresa de Calcutá, Inácio de Loyola, Francisco Xavier, todos nos revelaram as suas dúvidas, mas em todos prevaleceu sempre a fé na Ressurreição, o fundamento de toda a vida cristã.
3. Os cristãos são-no na medida em que vivem como ressuscitados. A Ressurreição de Cristo invade a vida do cristão. Paulo pôde mesmo dizer “Já não sou eu que vivo, é Ele que vive em mim” (Gl. 2,20), acrescentando mais tarde “O meu viver é Cristo” (cf. Gl. 2,20). Quando acreditamos na Ressurreição a nossa vida está “encharcada” de Cristo, isto é, o Senhor possui-nos com a sua alegria, e permite-nos transmitir aos outros a mesma alegria da Ressurreição. As conseqüências na vida de todos os dias são maravilhosas:
• Somos homens e mulheres de esperança, com a certeza de que nada e ninguém nos pode vencer. Mesmo passando pela provação, somos capazes de a ultrapassar para sentirmo-nos com Cristo verdadeiramente ressuscitados.
• Sabemos não estar sós nas nossas dores. Em todas as situações, também na pobreza, na doença, na solidão, o Senhor que é a Vida, dá dimensão nova à nossa própria vida, porque é fonte de alegria constante.
• Acreditamos que a morte não é o fim, porque “a vida não acaba apenas se transforma, e desfeita a morada do exílio terrestre adquirimos no Céu uma habitação eterna” (2Cor. 5,1). Como Cristo ressuscitou, todos ressuscitamos.
• Participamos já da Ressurreição de Jesus. Em tudo temos capacidade de passar da morte à vida, do pecado à graça, do sofrimento à esperança, da angústia à serenidade e à paz, da perplexidade à alegria sem fronteiras. Tudo isto é ressuscitar.
A grande síntese da vida cristã é a Ressurreição de Jesus. A ela se refere todo o nosso viver humano, seja na família ou na sociedade, no trabalho ou na comunidade cristã, sempre.
padre João Resina



"Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram"
Domingo do túmulo vazio. Ainda estamos sentindo em nosso coração, o ressoar festivo do aleluia pascal que, ontem à noite, quebrou o silêncio que vivemos após a morte do Senhor.
Maria Madalena encontrou o túmulo vazio. O Mestre não estava lá. Podemos afirmar com toda a certeza, "ele está no meio de nós".Esta é a grande alegria que recebemos neste domingo, a descoberta do túmulo vazio e, mais do que isto, o encontro de Jesus ressuscitado, a certeza de sua presença viva no meio de nós, domingo da Páscoa da ressurreição do Senhor.
É esta certeza que, com muita fé, celebramos hoje, inaugurando, assim, os cinqüenta dias do Tempo Pascal, que culminarão com a festa de Pentecostes, quando o Espírito do Ressuscitado será derramado sobre nós.
Primiera leitura - Atos 10,34a.37-43
Neste capítulo, Lucas narra como Pedro, após misteriosa visão (10,9 ss.), se dirige aos pagãos, Cornélio e sua família, admitindo-os na comunidade cristã pelo "batismo", mas com reclamações da parte dos judeus-cristãos (Atos 11,1-3). A partir do versículo 34 nos é oferecido o primeiro discurso que Pedro faz perante um auditório não-judeu, "anunciando a salvação". A cena empolga e a autoridade de Pedro de impõe.
É o resumo do discurso que Pedro faz diante de Cornélio de Cesaréia e de sua família para conduzi-los à conversão e ao Batismo.
Naquele tempo, não era comum um judeu ir à casa de um pagão (não-judeu). Pedro, tendo ido à casa de Cornélio, um oficial romano que se convertera, teve que explicar aos demais discípulos sua atitude. Ao fazer isso, ele anuncia o núcleo central da nossa fé cristã que acolhemos ouvindo a leitura.
Os discursos missionários dos Atos são diferentes daqueles discursos dirigidos aos judeus (Atos 2,14-36; 3,12-26; 4,9-12; 5,29-32; 10,34-43; 13,16-42) ou aos pagãos (Atos 14,15-17; 17,22-31; cf. 1Timóteo 1,9-10).
Na exortação se diz com realce que, diante de Deus, todos as pessoas são iguais (versículo 34s; cf. Gálatas 3,26 ss.). Jesus em várias ocasiões e de vários modos dissera que todos os povos fariam parte de seu Reino (Mateus 8,11; Marcos 16,15s; João 10,16; Atos 1,8).
Já no Primeiro Testamento, havia profecias que diziam a respeito da universalidade da salvação, segundo as quais judeus e pagãos formariam um só Povo sob o Messias (Isaias 2,2ss; 49,1-6; Joel 2,28; Amós 9,12; Miquéias 4,1). Os judeus conheciam estas profecias, mas porém, as interpretavam do seu modo, dizendo que os pagãos deveriam sujeitar-se à circuncisão, à Lei judaica. Para um judeu era, pois, certo que todo o não-circuncidado, embora simpatizante do judaísmo, como era ao caso de Cornélio (Atos 10,2.22), se considerasse impuro, indigno de sentar à mesma mesa.
A leitura diz que "Cristo" é o mesmo que "Ungido", "Messias". Não se trata de unção propriamente dita, como no caso dos sacerdotes, profetas e reis (Êxodo 28,41; Levítico 8,12; 1 Samuel 10,1; 1 Reis 19,16), mas de escolha divina para certa missão, acompanhada de graças especiais (2Samuel 12,7; Isaias 61,1; Salmo 44,8). Deus "ungiu" a Jesus quando o constituiu Messias. Esta "unção" em substância deu-se já na Encarnação, porém manifestou-se publicamente no batismo (João 1,31-34) e, mais ainda, na ressurreição (Atos 13,33).
Jesus de Nazaré é o verdadeiro benfeitor e único salvador, o Senhor de todos. Em seu primeiro discurso aos judeus, Pedro declarou que Jesus Cristo fora constituído "Senhor e Messias" (Atos 2,36). Agora (Atos 10,42) o proclama "juiz dos vivos e dos mortos", expressão mais adequada para um ambiente pagão (Atos 17,31). A expressão vivos e mortos (cf. 2 Timóteo 4,1; 1 Pedro 4,5) passará para o símbolo o Creio que recitamos na celebração.
Uma questão importantíssima do discurso de Pedro é sobre a paixão e a ressurreição é a referência ao terceiro dia tão freqüente na catequese primitiva e ainda inscrita em nosso Creio. De fato é uma referência indireta a Oséias 1,2 (em que o termo "levantar" é, em grego, o mesmo significado de ressurreição).
Pedro quer dizer que a ressurreição dos mortos, prevista pelos profetas para preparar o povo dos últimos tempos, começou desde a ressurreição de Cristo.
Salmo responsorial 117/118,1-2.16ab-17.22-23(+ 24)
É uma oração coletiva de ação de graças. Este salmo encerra o Hallel (cf. Salmo 113-117). Um invitatório (vv. 1-4) precede o hino de ação de graças posto nos lábios da comunidade personificada, vv. 19s-25s, recitadas por diversos grupos quando a procissão entrava no Templo de Jerusalém. A Igreja da graças ao Senhor que ressuscita Jesus e nos faça participar da sua Páscoa.
A "pedra angular" (ou "pedra cumeeira"; cf. Jeremias 51,26), que se pode tornar "pedra de tropeço", é tema messiânico (Isaias 8,14; 28,16; Zacarias 3,9; 4,7; 8,6) e designará o Cristo (Mateus 21,42p; Atos 4,11; Romanos 9,33; 1 Pedro 2,4s; cf. Efésios 2,20; 1 Coríntios 3,11). Na tradição cristã, este versículo é aplicado ao dia da ressurreição de Cristo e utilizado na liturgia pascal.
À aclamação ritual do versículo 25 (em hebraico hoshi'ah na) Ah! Javé, dá-nos a salvação!"), que significa Hosana, que os sacerdotes respondiam com esta bênção que foi retomada pela multidão no dia de ramos. Ela entrou para o canto do Santo da missa romana (Hosana nas alturas).
O rosto de Deus no Salmo 117/118. A primeira coisa que chama a atenção é a freqüência com que aparecem o nome "Javé" (Senhor) e a expressão "em nome de Javé". Sabemos que o nome de Deus no Primeiro Testamento é Javé, e esse nome está ,ligado à libertação do Egito. O nome dele recorda libertação, Aliança e posse da terra. Entende-se, portanto, por que o Salmo afirma que o amor dele é para sempre. Amor e fidelidade são as duas características fundamentais de Javé na Aliança com Israel. Aqui está o rosto de Deus: que ouve, alivia, anda junto do povo. A recordação da "direita" faz pensar na primeira "maravilha" de Deus, a libertação do Egito.
Jesus é a expressão máxima do amor de Deus. Com Jesus aprendemos que Deus é amor (1 João 4,8), e Jesus foi capaz de mostrar esse amor para todos, dando a vida como conseqüência disso (João 13,1). A liturgia cristã leu este Salmo à luz da morte e ressurreição de Jesus. A carta aos Efésios (1,3-14) nos ajuda a cantar a Deus, por causa de Jesus, um louvor universal.
No salmo 117/118, somos convidados a dar graças ao Senhor que ressuscita Jesus e nos faz participar de sua Páscoa. A tradição cristã, aplica ao dia da ressurreição de Cristo e é utilizado na liturgia pascal.
Segunda leitura - Colossenses 3,1-4
Paulo faz uma exposição sobre a liberdade cristã em confronto com as práticas alienantes do paganismo e da heresia (Colosseses 2,16; 3,4) mostrando que o cristão que morreu com Cristo está fora do alcance das práticas humanas de salvação (v. 3). Paulo mostra como a vida com Cristo (vs. 1-2) leva a um comportamento novo do cristão no mundo.
Se a vida do cristão vier de baixo, isto é, do mundo, ela se embaraça nas mil e uma prescrições da "religião", seja ela a religião judaica ou religião pagã, e também do materialismo. Mas se a vida do cristão vier do alto, isto é, do mundo em que Cristo vive presente, essa vida, é "dada" ao cristão, como por uma ressurreição, e ele não tem mais que se preocupar em fazê-la viver por meio de técnicas terrestres de salvação, pois ela não cessa de ser dada "do alto".
São Paulo quer dizer que esta ruptura com a vida terrestre já é realizada pelo cristão, porque ele está morto para o mundo, como Cristo, por seu batismo.
A experiência da fé consiste, então, em descobrir que não vivemos mais por nós mesmos, mas que Cristo, é nossa vida em plenitude. Dizer sim a Cristo é viver das "coisas do alto", isto é, de uma vida que é de fato a nossa, mas que é vivida a todo momento da nossa existência como recebida do próprio Cristo Ressuscitado. É viver como Ressuscitado, isto é, na experiência de uma vida que nos é a todo momento dada do alto. Querer ser completamente autônomo seria apoiar-se nas coisas "de baixo" e seria aceitar a morte.
A linha de pensamento que passa ao longo da unidade literária de Colossenses 2,8-3,4 começa, pois na condição pré-batismal, passa pelo evento batismal e atinge a eternidade. Apesar de ainda estarem na terra os cristãos já não pertencem mais ao mundo, mas já estão unidos com o Cristo glorificado que está sentado à direita de Deus. Por Ele e com Ele pertencem ao mundo celestial, porque é a vida do Cristo ressuscitado que os anima para dar foca na caminhada.
Seqüência da Páscoa. A seqüência pascal é um hino ao Cristo, Cordeiro Pascal, que enfrentou a morte e a venceu. Vejam: Cantai, cristãos, afinal... ou: Ó cristãos, vinde ofertai... Ofício Divino das comunidades.
Evangelho - João 20,1-9
O Evangelho de João terminou originalmente com a conclusão de 20,30-31. O capítulo 21 foi acrescentado posteriormente junto com uma nova conclusão (21,24-25). Não se exclui que as tradições contidas em João 21 tenham pertencido à mesma "escola" de pregadores ou ao mesmo grupo de comunidades cristãs que forneceram ao evangelista João as demais tradições aproveitadas no quarto Evangelho. Mesmo assim, João 20 há de ser entendido e explicado, primeiro, independentemente do conteúdo do capítulo 21.
No capítulo 20 o evangelista aproveitou de tradições que já existiam. Mas ele as remanejou de tal maneira que o novo conjunto literário formasse a cobertura transluzente de todo o resto do Evangelho. Neste capítulo 20 o evangelista quis sugerir o que seja a fé pascal, quais são os seus componentes principais, como se chegar a ela e quem são seus protagonistas.
A ida de Maria Madalena ao túmulo é imagem plena da fidelidade. Sozinha, ela jamais conseguiria retirar a pedra. Mesmo sabendo disso, foi até lá e encontrou a pedra já retirada da entrada do túmulo onde haviam colocado Jesus. Sua fidelidade garantiu-lhe a graça de ver o túmulo vazio. Mesmo assim, ela custou a entender o que havia acontecido. Seu primeiro pensamento foi de que alguém havia retirado dali o corpo de Jesus, por isso foi em busca de auxílio. São, então, os dois discípulos que constatam as faixas e os panos no chão. Esses foram os sinais para que todos compreendessem a Escritura que anunciava que Jesus iria ressuscitar dos mortos. Ela vai ao encontro de Jesus no primeiro dia da semana, de madrugada, quando ainda estava escuro. Somente os olhos do (a) verdadeiro (a) discípulos (as) sabem ver e decifrar o significado do túmulo vazio e dos tecidos deixados no chão.
A cena do sepulcro vazio serve de ligação entre a Narração da Paixão e Morte e a Narração da Ressurreição. O Evangelista não podia terminar o seu Evangelho sem destacar mais uma vez, e agora no contexto da ressurreição, o papel especial que competia a dois dos "doze apóstolos", a saber, a Pedro e ao "outro discípulo que Jesus amava" (ambos mencionados quatro vezes), seja durante a vida terrestre de Jesus (cf. 13,6-9.22-25; 19, 26.35; etc.), seja na Igreja pós-pascal.
O túmulo está vazio, mas as faixas que envolvem o corpo de Cristo se encontram no chão (vs. 5-8), o que exclui a hipótese de roubo. Por isso, os apóstolos "começam a crer" (versículo 8: "ele acreditou"): o corpo não pode ser transportado para um outro túmulo; Jesus teria ressuscitado? A resposta a essa pergunta se acha na Escritura principalmente em Oséias 6,2; salmo 15/16,10, cuja chave os apóstolos ainda não possuem nesse momento (v. 9).
A narração mostra, pois, o itinerário dos apóstolos até a fé na ressurreição. Pensam primeiramente num roubo, depois, averiguando que sua hipótese não explica o acontecimento (a presença das faixas), eles "começam a crer". Mas o caminho só poderá ser percorrido completamente com o auxílio das Escrituras. Em outras palavras, não se espera dos apóstolos apenas o relato de um acontecimento, mas o testemunho de uma fé que necessariamente deve apoiar-se nas Escrituras. Não se pode esquecer que Ele cumpriu as escrituras (v. 9) que sua ressurreição constitui a causa essencial da fé cristã.
Não é a vocação de Pedro ir muito depressa (v. 4). Ele deixa que discípulos mais ardorosos tomem a iniciativa. Acontece, no entanto, que cabe a Pedro e a seus sucessores tomar a responsabilidade de entrar primeiro no túmulo, e constatar o caráter caduco de tudo o que está submetido à morte.
É necessária a prova do túmulo vazio para que nasça a fé. É preciso que Pedro perca sua segurança artificial para ter a ousadia de entrar, ele também, no vazio. É preciso que toda a Igreja tenha a coragem de entrar no "túmulo de Deus" que constitui o mundo moderno. A fé está no extremo do vazio.
Os dois discípulos corriam juntos, mas um correu mais do que o outro, chegou primeiro e acreditou. Este era, exatamente, o "discípulo amado", representando todo aquele que coloca o amor à frente, como prioridade, e pelo amor reconhece primeiro a quem ama. Crê pelo amor, antes da razão, antes de ver, e, crendo, vê pelos olhos da fé que antecipam a verdade, dispensam as comprovações.
Eles ultrapassaram a escuridão, o grande vazio, o grande tempo da desesperança, pior que a dor de acompanhar a Paixão e Morte do Mestre. Sair deste tempo é, pois, o momento supremo, o grande dia de suas vidas, o grande dia da vida de todos os que professam a fé em Jesus Cristo, "o grande dia que o Senhor fez para nós!". Por isso,, no Salmo responsorial 117/118 de ação de graças, que o (a) salmista entoa por todos os cristãos, elevemos nosso louvor a Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos.
Nas missas da noite, (vespertina) proclama-se o Lucas 24,13-35, discípulos de Emaús.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
O trecho do evangelho de hoje proclamado na liturgia pode ser chamado de o "Evangelho da corrida". Começa indicando o tempo, primeiro dia da semana: nova criação nascida da morte e ressurreição de Jesus Cristo! Maria Madalena incapaz de aceitar a morte de Jesus, vai em busca do amado, do amigo, do mestre. É madrugada, mas ainda há trevas, isto é, ela está mergulhada nas trevas da sexta-feira santa. O sol é uma esperança e certeza na madrugada. Mas as trevas da dor, da saudade, da ausência ainda persistem. Indo ao túmulo, Maria Madalena sintetiza as buscas da comunidade cristã, ansiosa de vida e amor. Maria ao sinal da pedra retirada, corre para anunciar que Jesus não estava no túmulo. Pedro e o discípulo que Jesus amava correm após o chamado de madalena.
Corridas de buscas e anúncios. É o processo da vida: "terminar a carreira guardar a fé". Não se trata de competição, mas acúmulo de desejos. Quem ama, corre mais para encontrar a pessoa amada. Pedro entra no túmulo e vê, apenas, faixas de linho e o véu que cobria o rosto de Jesus. São dois símbolos importantes e belíssimos. As faixas de linho serviam para enrolar o morto. Era, mais ou menos, a veste mortuária, que indicava o desaparecimento da vida. Essas faixas estavam jogadas no chão, indicando que foram abandonadas. O mesmo pode ser constatado com o véu que cobria o rosto de Jesus. Este, em vez de jogado no chão, estava dobrado. O véu era colocado nos mortos e significava a impossibilidade de o morto ser vivo entre os vivos. Servia para esconder o rosto, que não mais poderia ver, nem poderia ser visto. As vestes da morte não vestiam mais Jesus. A prova era clara: panos no chão e véu mortuário dobrado eram inúteis para Jesus. Esses foram os primeiros símbolos da ressurreição de Jesus.
O discípulo amado chega primeiro, vê as faixas de linho, não entra; aguarda Pedro, vê e acredita. O texto não diz que Pedro tenha acreditado; o discípulo amado, sim, acreditou! Esta é uma diferença certamente determinada pelo amor, pela ligação afetiva com Jesus. O amor é fundamental para reconhecer o Ressuscitado em túmulos vazios, em pedras retiradas...
O túmulo não é lugar da morte; mais parece um quarto arrumado, lugar do encontro como Senhor com sua esposa, a comunidade. O túmulo é também lugar de reconciliação entre Pedro e Jesus. Ele o negara três vezes, e não teve oportunidade de se aproximar do mestre antes de morrer. O discípulo amado fez questão de não entrar para dar oportunidade a Pedro para uma reconciliação.
É muito significativo que a primeira testemunha da ressurreição seja uma mulher, Maria Madalena, discípula e amiga de Jesus, então missionária e apóstola. Nisto os evangelistas estão de pleno acordo: as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus foram mulheres de seu grupo que levaram a alegre notícia aos apóstolos. É ressurreição, é Páscoa quando curamos o nosso machismo para compreendermos, enfim, que na Igreja de Jesus Cristo todas as pessoas, homens e mulheres, somos iguais. Aqui Maria Madalena está no jardim como a nova Eva que procura o Esposo. No jardim do Éden a antiga Eva não contribuiu com a vida, para o encontro. Maria madalena a nova Eva vai ao encontro da vida e anuncia a nova criação
Só a ressurreição de Jesus pode dar sentido à nossa vida. Sem ela, vã é a nossa fé. Com a fé na ressurreição tudo ganha sentido: o compromisso por um mundo mais justo e humano e o serviço aos pobres, aos necessitados, aos crucificados e sepultados de hoje. É lá no túmulo que quem ama vê e acredita na ressurreição de Jesus e na ressurreição de todos os que são condenados à morte pelo jeito injusto que a sociedade está organizada. Para quem tem fé, o túmulo está vazio de um corpo morto, mas pleno de sinais de vida; é sementeira de ressurreição. Só encontramos o Ressuscitado se tivermos coragem de correr ao "túmulo" e de lá voltarmos, correndo como Maria Madalena, para anunciar a vida, a nova criação, o novo céu e a nova terra.
Pedro nos dá o testemunho vivo da ressurreição que celebramos hoje, dizendo que comeram e beberam com Jesus, depois que ele ressuscitou dos mortos. Comer e beber é próprio de quem está vivo, isto nos dá clareza de que Jesus não era apenas "espírito de luz" quando apareceu aos discípulos, após sua morte e ressurreição.
Paulo, escrevendo da prisão para os colossenses, recomenda a todos um grande esforço para "alcançarmos as coisas do alto" (Colossesnses 3,1), a salvação de que Jesus nos trouxe, correspondendo, com nossas atitudes e nossa vida, ao seguimento do Senhor. Alcançar a salvação tem relação direta com a nossa fé.
Abrindo-nos ao plano de Deus, ressuscitamos também nós a cada dia, e sentimos, verdadeiramente, a presença de Jesus ressuscitado em nossas vidas. Alimentando-nos no pão da sua Palavra e da Eucaristia, servindo a mesa do irmão, sentimo-Lo ressuscitado, vivo, no meio de nós
Como seus discípulos e discípulas, também nós, a quem foi anunciada esta grande alegria, somos convidados a transmiti-la continuando a missão dos apóstolos.
A Palavra se faz celebração
Celebrar a Páscoa na sinceridade
O versículo da aclamação ao Santo Evangelho sugere que celebremos a Páscoa na sinceridade e na verdade. Isto é, em nossa vida deve se operar uma transformação, uma mudança. A esta conversão do coração, leia-se do discernimento a respeito dos caminhos a seguir na vida, a Quaresma se encarregou de nos propiciar o tempo possível para a esta mudança de vida. Agora, no Tempo da Páscoa, partindo da consciência de nossa condição mortal e de nos sentirmos muitas vezes distantes e abandonados por Deus (Quaresma) damos o salto qualitativo de nos congraçarmos por sua presença fiel e ativa.
Na eucologia deste domingo, a Páscoa de Cristo aparece unida a nossa páscoa. A oração depois da comunhão nos traz um bom exemplo disso: "Guardai, ó Deus, a vossa Igreja sob a vossa constante proteção para que, renovados pelos sacramentos pascais, cheguemos à luz da ressurreição". Um escrito antigo atribuído a Nicodemos, traz uma interessante passagem sobre a ressurreição de Cristo, que nos pode ser proveitosa: "E porque vos admirais que Jesus tenha ressuscitado? O admirável não é isto. O admirável que Ele devolveu a vida a um grande numero". Interessante notar que no Evangelho de Mateus aparece uma afirmação semelhante, vinculada à morte de Cristo na cruz: "os sepulcros se abriram e muitos cadáveres de santos ressuscitaram. E, quando ele ressuscitou, saíram dos sepulcros e apareceram a muitos na cidade santa" (Mateus 27,52-53).
A liturgia é sacramento pascal
A liturgia, como sacramento pascal, faz-nos participantes da morte-ressurreição de Cristo. E como tal, faz-nos aparecer diante do mundo como homens e mulheres que saíram do túmulo, passaram pela morte e mediante a ela, ressuscitaram. Esta experiência se dá no seio da Igreja que ora, escutando a Palavra de Deus - o ambão é tido como a pedra do sepulcro de onde se anuncia a Ressurreição (monumentum paschale) e em muitos lugares ele é esculpido ou ornado com imagens do Cristo ressuscitado.
A partir da escuta da Palavra e depois, do pão e do vinho eucaristizados (ou seja, sobre os quais foi feita a ação de graças), nossos olhos se abrem e nossos sentidos movidos pela fé enxergam para além da morte a vida; para além da ausência, a presença. E como dirá Santo Agostinho sobre o Corpo e Sangue de Cristo: "Por conseguinte [...] a misteriosa realidade do que sois está posta sobre a mesa do altar". Isso porque: Cristo Ressuscitou e nós com ele.
Ligando a palavra com a ação eucarística
Na celebração da eucaristia, fazemos memória da Páscoa do Senhor. Nesta celebração pascal se constrói e se manifesta a Igreja, pois a Eucaristia é o centro no qual se congrega a comunidade eclesial. Nela, nós nos encontramos com o Cristo vivo, ressuscitado. Ele entregou sua vida por nós pela morte e ressurreição e continua entregando sua vida em alimento no pão e no vinho, que são partilhados entre todos.
A nossa fé cristã afirma que a Igreja, o povo convocado, faz a eucaristia, e que a eucaristia faz a Igreja. Cada vez que celebramos a Eucaristia a Igreja está se reconstituindo, se reconstruindo. Volta a encontrar seu centro, que é dar a vida. Dispõe-se a entregar para os outros e assim se reconstitui como povo que tem uma missão no meio dos pobres. É a decisão renovada de dar a vida nas lutas humanas e nos projetos humanos que transforma este mundo. É povo que se transforma em presença real de Cristo, que se entregou por amor. É a conseqüência do "amém" proclamado ao comungar.
É impossível celebrar autenticamente a Eucaristia sem adquirir consciência de ser povo enviado e povo que se renova para cumprir melhor a missão que Deus nos mostra na história.
Cada vez que nos reunimos para celebrar, renovamos a Aliança selada pelo sangue de Jesus, o templo vivo do Pai. A comunidade reunida no amor de Cristo continua, com a presença do Ressuscitado e do seu Espírito, a tarefa de levar adiante a Aliança da salvação até que Deus seja tudo em todos.
Como Maria Madalena e os discípulos, na oração eucarística, anunciamos sua morte e ressurreição: "Anunciamos, Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!"
padre Benedito Mazeti



1 – A morte de Jesus surpreende os seus discípulos, e muitos dos judeus que O seguiam, que esperavam d'Ele a salvação de Israel, que como Messias haveria de iniciar novos tempos, uma realeza que devolveria o esplendor a todo o povo de Israel, como povo eleito, como povo da Aliança. Esperava-se que "impusesse" a onipotência de Deus. Nada disso aconteceu. Aquele Jesus, que toma consciência da Sua filiação divina, não passa de mais um fracassado da história. Tantas palavras, tantos gestos e milagres, e tem o mesmo destino de outros profetas, de outros desgraçados, de outro injustiçados pelas sociedades do seu tempo.
Com a morte, advém a dispersão dos apóstolos e de todos aqueles que andavam com Ele. Já antes se mantinham à distância. O que mais se aproxima é Pedro, que vai até ao pátio, para junto dos soldados, mas logo que alguém o interpela nega a sua identificação com o Mestre dos Mestres. A primeira igreja dorme quando o seu Senhor clama a Deus, reza em brados de agonia. Dorme quando se aproximam os que O levarão ao Calvário e o seu discípulo de confiança, que O entrega com um gesto de intimidade, um beijo.
Mas mais surpreendente é a ressurreição. Se a morte cala todos os que seguem Jesus; a Sua ressurreição deixa sem palavras os que fazem a experiência de encontro com Jesus ressuscitado. A morte é escandalosa, Jesus morre abandonado por todos, "sem Deus". Ele que Se apresentara como Filho, agora sente a angústia da morte. Sente o desalento de morrer sozinho. Só num derradeiro momento, Se entrega às mãos d'Aquele que o pode livrar da morte eterna e que O ressuscitará. 
Diga-se, no entanto, que a postura de Jesus, como a de muitos profetas, não deixa antever nada de bom. Jesus tem consciência que para se manter fiel a Deus e à Sua missão, dificilmente sobrevirá por muito tempo. Assim aconteceu com os profetas de Israel.
A ressurreição é algo de novo, de diferente, que não cabe nos nossos (pré) conceitos humanos, nos limites da nossa história e do nosso tempo. E nem o anúncio da ressurreição que Jesus faz aos seus discípulos abre para qualquer esperança. A ressurreição, para os que a professam, é para a vida futura, para o fim dos tempos. Mas eis que com Jesus chega o fim do tempo, o fim do mundo como o conhecemos. Ele ressuscita e aparece aos seus discípulos. A "igreja" acorda. Surpreende-se. Reúne-se à volta do Seu Mestre e Senhor. Forma-se como comunidade, comunidade nova, convocada pela vida nova de Cristo Jesus.
2 – Passado o sábado, surge o primeiro dia da nova criação, o domingo (Dies Domini: Dia do Senhor). Os amigos de Jesus voltam ao lugar da morte, voltam ao passado, para se reencontrarem na proximidade física com o corpo do Mestre, mas são abalroados pelos acontecimentos. Os "rumores" têm fundamento, o corpo de Jesus não está no sepulcro, não pode estar, não é possível, o que é que aconteceu, onde puseram o Seu corpo sem vida?
Maria Madalena, e certamente outras Marias e outras mulheres, vai venerar o seu Senhor, vai chorar para junto da Sua sepultura. Com o sábado, dia sagrado, nem deu para fazer convenientemente o luto pelo amigo que morreu. Não é a mesma coisa, mas há algum conforto junto do corpo daqueles que partiram para sempre, a memória dos tempos passados em convivência. Como muitas pessoas sentem a necessidade urgente de ir ao cemitério, para chorar, para se sentirem próximas dos seus entes amados, também Maria Madalena, agradecida por tudo o que Jesus fez por ela, ao curá-la das suas enfermidades, tornando mais belos e fáceis os seus dias. Maria Madalena não encontra forma de agradecer convenientemente. A sua vida perdera encanto, por uma doença grave – sete demônios. A riqueza material não lhe aliviava o sofrimento atroz. Jesus cura-a e ela coloca, como outras mulheres e outros senhores, os seus bens ao serviço de Jesus e dos seus discípulos. Mas não apenas os bens, vai também ela servi-los. E agora que Ele morreu, sente que não agradeceu o suficiente.
"No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou".
Chega Maria, chega Pedro, chegamos nós – o discípulo amado –, e encontramos o túmulo vazio. E agora, que fazer? Ardia cá dentro a esperança que tudo não tivesse passado de um sonho, mas Ele morreu, o seu Corpo foi entregue para ser depositado, a pedra rolou pesada no sepulcro escavado na rocha! Não queríamos acreditar, mas aconteceu mesmo. Agora com o túmulo vazio, o que pensar? Terá acontecido o que Ele tinha prometido, ressuscitar e encontrar-Se com os Seus?
Debruçamo-nos para ver o lugar da morte, e encontramos o túmulo vazio, com os sinais de uma presença, ou melhor, de uma ausência, não se encontra lá ninguém, só as roupas que O embrulharam na morte. Acreditam, não há sinais de assalto, de roubo, tudo está direitinho. Houve tempo para deixar tudo muito bem arrumado.
3 – Vai ser uma longa jornada. Se a via crucis (via sacra, caminho da cruz) atravessa uma semana, a via lucis (também via sacra, caminho da luz), atravessa os Céus, traz-nos um novo dia e estará por muitas semanas, muitos meses, muitos anos. A Igreja que germina aos pés da cruz, nasce iluminada pela LUZ da ressurreição. Com efeito, a cruz só vale para nós na medida em que a Luz no-la mostra como sinal de amor, de dádiva até ao fim. O que nos salva não é, de modo nenhum, o sofrimento de Jesus Cristo, o que nos salva, verdadeiramente, é o Seu amor por nós. Ainda que o amor envolva o sofrimento. Quem ama, de verdade, arrisca-se a sofrer. Jesus arrisca sofrer por amor. É o amor que O liga a Deus, é o amor que O liga à humanidade, é o amor que nos liga uns ao outros para nos tornarmos comunidade.
O encontro com o Ressuscitado provoca o anúncio da vida nova, o testemunho. Não se pode calar aquele que vive, que festeja, que tem motivos para sorrir. A festa é "barulhenta". Não há festa que não envolva pessoas, que não envolva música e dança, que não envolva partilha e comunhão. Ninguém faz festa sozinho. Precisamos dos outros para chorarmos, para que as nossas lágrimas tenham algum sentido. Precisamos dos outros para fazer festa. Como a mulher que encontra a dracma perdida e chama as amigas para festejar com elas, gastando tudo o que encontrou. Ou como o pastor que encontrou a ovelha perdida, depois de tanto procurar, e salta, grita, rejubila.
Obviamente, a festa também acontece cá dentro, mas não cabe em nós. Uma boa notícia sabe melhor quando partilhada. A ressurreição é um acontecimento tão surpreendente que não cabe nas palavras dos discípulos, não cabe em casa, ainda que seja em casa que a festa se inicie. Há que espalhar por outros a alegria da vida nova.
"Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n'O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d'Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados»".
4 – A nova terra e os novos céus, aguardados e prometidos pelos profetas e concretizados pela Ressurreição de Cristo Jesus, não se encontram assim tão visíveis. A missão dos cristãos é fazer com que a ressurreição de Cristo, e a comunhão nesta ressurreição, pelo batismo e pelos outros sacramentos, seja luminosa para a história e para o mundo. Com a ressurreição todos os recantos deveriam ficar iluminados pela esperança, pela paz, pela vida nova, pelo encontro com o divino.
Porém, ao longo da história da Igreja, como na atualidade, os sinais de morte, de desistência, de destruição, de crise, continuam a imperar. Podemos perguntar-nos onde está a eficiência da Ressurreição de Jesus Cristo? Onde está a vida nova que engendramos (que Deus engendra em nós) a partir do batismo? Teremos, talvez, que morrer ainda, de morrer primeiro, de morrer para muitos vícios e seguranças pessoais, de morrer para muitas tradições e costumes, e manias. Não há Páscoa se não houver morte. Não há vida nova, se a vida "anterior" continuar a reinar nos gestos e nas palavras que deveriam ligar-nos aos outros.
As duas missivas do apóstolo são Paulo propostas como alternativa para a segunda leitura deste domingo, são por demais provocadoras: "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória".
É urgente aspirar às coisas do alto. Morremos e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, Ele atrai-nos, deixemo-nos atrair.
"Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade".
Se nos fosse possível manteríamos o melhor de dois mundos, o do passado, da morte, do velho, do tradicional, e o da vida nova, da esperança, da ressurreição, da adesão a Cristo Jesus. É um risco que sai caro, acabamos por nem viver num mundo nem em outro. Como seria possível colocar vinho novo em odres velhos? Pergunta-se Jesus. Para vinho novo, vasilhames novos, não se vá perder uma e outra coisa, os odres e o vinho. Se a vida é nova, vivamos como novas criaturas, de Deus e para Deus, compartilhando com os outros o melhor de nós mesmos, o Deus que nos habita.
padre Manuel Gonçalves



Eis o dia que o senhor fez exultemos e alegremo-nos
A Igreja celebra hoje o dia mais importante da história, porque com a Ressurreição de Jesus se abre uma nova história, uma nova esperança para todos os homens. Se é verdade que a morte de Jesus é o começo, porque a sua morte é redentora, a Ressurreição mostra o que o Calvário significa; assim, a Páscoa cristã apressa o nosso destino. Do mesmo modo, também a nossa morte é o começo de algo novo, que se revela na nossa própria Ressurreição.
1ª leitura: At. 10,34.37-42
A história de Jesus resolve-se na Ressurreição
1. A primeira leitura deste dia corresponde ao discurso de Pedro perante a família de Cornélio (At. 10,34.37-42), uma família pagã (de tementes a Deus, simpatizantes do judaísmo mas não "prosélitos", porque não aceitavam a circuncisão) que, com a sua conversão vem a ser o primeiro elo de uma abertura decisiva no projeto universal da salvação de todos os homens. Esta narrativa é conhecida no livro dos Atos dos Apóstolos como o "Pentecostes pagão" com a diferença do que está relatado nos Atos 2, e centrado nos judeus de todo o mundo de então.
2. Pedro teve de passar por uma experiência traumática em Jope para comer comida impura que lhe foi mostrada numa visão (At. 10,1-33) tal como o entendeu Lucas. Vejamos que a iniciativa em todo este relato é "divina", do Espírito, porque é Ele que verdadeiramente conduz a comunidade de Jesus ressuscitado.
3. O apóstolo Pedro vive, no entanto, do seu judaísmo, do seu mundo, da sua ortodoxia e tem de ir a casa de uns pagãos, com o objetivo de anunciar a salvação de Deus. Na realidade, é o Espírito que o conduz, Ele que se adianta a Pedro e às suas decisões; trata-se do Espírito do Ressuscitado que vai mais além do que toda a ortodoxia religiosa. Com esta narrativa pretende-se, pois, salientar a necessidade que têm os discípulos judeo-cristãos palestinianos de romper com tradições que os atavam ao judaísmo, de tal maneira que não podiam assumir a liberdade nova da sua fé, como sucedeu com os "helenistas". O que tinha sido anunciado no Pentecostes (At. 2) tinha de ser posto em prática.
4. O objetivo do discurso de Pedro é expor perante uma família pagã a novidade do caminho que os cristãos iniciaram depois da Ressurreição.
5. O texto da Leitura é, antes de mais, uma recapitulação da vida de Jesus e da comunidade primitiva com Ele, através do que está registrado nos Evangelhos e nos Actos dos Apóstolos. A pregação na Galileia e em Jerusalém, a morte e a ressurreição, bem como as experiências pascais nas quais os discípulos "convivem" com Ele numa referência explícita às Eucaristias da comunidade primitiva. Porque foi na experiência da Eucaristia que os discípulos puderam experimentar a força da Ressurreição do crucificado.
6. É um discurso de tipo kerigmático, (i. é. profético), que tem o seu eixo no anúncio pascal: morte e ressurreição do Senhor.
2ª leitura: Col. 3,1-4
A nossa vida está na vida de Cristo
1. A carta aos Colossenses 3,1-4 é, sem dúvida, um texto batismal, ou seja, nasceu na ou para a liturgia batismal, que tinha o seu momento central na noite pascal, quando os primeiros catecúmenos recebiam o batismo em nome de Cristo, embora esta liturgia não estivesse ainda muito desenvolvida.
2. O texto tira as ilações: os cristãos têm de acreditar e aceitar o mistério pascal, i.é. passar da morte à vida, do mundo de cá de baixo para o mundo de cima. Pelo batismo, incorporamo-nos, portanto, na vida de Cristo e ficamos na esteira do seu futuro.
3. Mas não é apenas futuro. O batismo introduziu-nos já na Ressurreição. No batismo usa-se um verbo composto, de grande expressividade na teologia paulina "syn-ergeirô", "ressuscitar com". Quero dizer, a Ressurreição de Jesus já está operante nos cristãos e, como tal, eles devem viver, o que é confirmado pelos versículos seguintes de 3,5ss. É muito importante salientar que os acontecimentos escatológicos da nossa fé, sendo o mais importante a Ressurreição como vida nova, deve adiantar-se na nossa vida histórica. Devemos viver como ressuscitados no meio das misérias deste mundo.
4. O autor da Carta aos Colossenses, um discípulo muito próximo de Paulo, embora isto não seja aqui determinante, escolheu um texto baptismal que, de certa forma, exprime a mística do batismo cristão que encontramos em Rom 6, 4-8. No nosso texto de Colossenses mostra-se, de maneira mais explícita do que em Romanos, que com o batismo aumenta a força da ressurreição na vida cristã e não é qualquer coisa só para o fim dos tempos.
5. É muito importante salientar este aspecto na leitura que fazemos, já que acreditar na Ressurreição não supõe uma atitude estática em que contemplamos passivamente. Se é verdade que isso não nos desculpa de amar e transformar a história, devemos saber que o nosso futuro não está em nos consumirmos na debilidade do histórico e do que nos prende a este mundo. A nossa esperança aponta para mais alto, para a vida com Deus, que é o Único que pode fazer-nos eternos.
Evangelho: Jo 20,1-9
O amor vence a morte: a experiência do verdadeiro discípulo
1. O texto de Jo 20,1-9, que todos os anos é proclamado neste dia de Páscoa, propõe-nos acompanhar Maria Madalena ao sepulcro, que é todo um símbolo da morte e do seu silêncio humano; incita-nos ao assombro e à perplexidade de que o Senhor não está no sepulcro; não pode estar ali quem entregou a vida para sempre. No sepulcro não há vida e Ele tinha-Se apresentado como a ressurreição e a vida (Jo 11,25). Maria Madalena descobre a ressurreição, mas não pode, porém, interpretá-la. Em João isto é gratuito, pelo simbolismo de oferecer a primazia ao "discípulo amado" e a Pedro. Mas não esqueçamos que ela receberá no mesmo texto de Jo 20,11ss uma missão extraordinária, se bem que tenha passado por um processo de já não "ver" Jesus ressuscitado como o Jesus que tinha conhecido, senão reconhecendo-O de outra maneira mais íntima e pessoal. Mas esta mulher, é, desde logo, testemunho da Ressurreição.
2. A figura simbólica e fascinante do "discípulo amado" é verdadeiramente chave na teologia do quarto Evangelho. Este corre com Pedro, inclusivamente, corre mais que ele, depois de receber a notícia da Ressurreição. É, antes de mais, "discípulo" e, por isso, é conveniente não o identificar, sem mais, com um personagem histórico concreto, como é costume fazer-se. Ele espera até que passe o desconcerto de Pedro, e com a intimidade que conseguiu com o Senhor por meio da fé, faz-nos compreender que a Ressurreição é como o infinito; que as ligaduras que envolviam Jesus já não o podem prender a este mundo, a esta história. Que a sua presença entre nós deve ser de outra maneira absolutamente diferente e renovada.
3. É verdade que a fé na Ressurreição nos propõe uma qualidade de vida que nada tem a ver com a procura que fazemos entre nós, com propostas de tipo social e econômico. Trata-se de uma qualidade teologicamente íntima que nos leva mais além que toda a miséria e de toda a morte absurda. A morte não deveria ser absurda, mas se o é para alguém, então se nos propõe, desde a fé mais profunda que Deus nos destinou viver com Ele. Recusar esta dinâmica de ressurreição seria como negar-se a viver para sempre. Não só seria recusar o mistério do Deus que nos deu a vida, como do Deus que há-de melhorar a sua criação numa vida nova para cada um de nós.
4. Por isso, acreditar na ressurreição é crer no Deus da vida. E não apenas isto, é crer também em nós mesmos e na verdadeira possibilidade que temos de ser alguém em Deus. Porque aqui, nós nunca fomos nada, melhor, quase nada, para o que nos espera além deste mundo. Não é possível enganarmo-nos, aqui nada nem ninguém se pode realizar plenamente, em nenhuma dimensão da nossa própria existência. Mais além está a vida verdadeira; a ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce já para sempre. Não é uma fantasia de nostalgias irrealizadas. O desejo ardente do nosso coração de vivermos para sempre tem na ressurreição de Jesus a resposta adequada por parte de Deus. A morte foi vencida, está consumada, foi transformada em vida por meio de Deus que Jesus defendeu até à morte.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro



O último grito de Jesus
Jesus, mesmo antes de entregar a sua alma nas mãos do Pai quis dar um grande grito. Com isto quis dizer, como o explica são Tomás de Aquino, que o seu corpo estava ainda em pleno vigor e que era livremente que Ele devolvia a alma. Mas de onde vinha aquele vigor extraordinário, aquela vitalidade infinita? Vinha, certamente, da união hipostática. Mas de que maneira se realizava ela? A sua fonte estava na visão beatífica, mas esta irradiava o seu corpo por intermédio do amor. E este amor divino irradiava humanamente em Jesus na e pela união a Maria, reprodução temporal na carne da sua unidade eterna com o Pai.
A cruz de Jesus vai manifestar-nos a superabundante plenitude desta fonte mística que está na origem de toda a vida afetiva e, devemos dizê-lo, de toda a vida humana do Salvador. A pregação de Jesus é como um rio de água viva que brota desta nascente e se alastra por todo o mundo.
A Paixão de Jesus - que é o culminar desta pregação como martírio e que a ultrapassa e a prolonga como sacrifício - vai revelar-nos a superabundância extraordinária da fonte. Além disso, a Paixão de Jesus revela o primado do amor sobre a vida e sobre a morte. Esta supremacia do amor que se tinha realizado no momento da concepção de Jesus, tinha permanecido como um mistério escondido de que apenas Maria tinha conhecimento.
Na cruz, este mistério atinge a sua realização suprema. Maria continua lá, desempenhando um papel essencial, mas esse mistério oculto vai ser revelado a toda a terra.
Thomas philippe, O.P.
tradução de Maria Madalena


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