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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 1 de maio de 2018

6º DOMINGO DA PÁSCOA-Ano B


6º DOMINGO DA PÁSCOA
06 de maio – Ano B

Evangelho Jo 15,9-17


Jesus nos aconselha a permanecermos em seu amor. Leia mais


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A mensagem de Cristo é para todos
Normalmente os grupos humanos fecham-se sobre si próprios, vivem de interesses, cultivam o proselitismo e excluem os que caminham por ideais diferentes. Desde o princípio que não foi assim com o Evangelho. Os gentios foram chamados à aventura cristã da mesma maneira que os judeus integrados nas primeiras comunidades. Compreender isto é a nota característica da liturgia de hoje e, por outro lado, é o desafio maior para a dinâmica pastoral da Igreja deste terceiro milênio. É paradigmático o encontro de Pedro com muitos gentios em Cesareia de Filipe, na casa de Cornélio. A aceitação deles fundou-se na certeza de que o Espírito estava com eles. Consequência: todos receberam o batismo (1ª leitura). São João vem dizer que não é possível entrar na aventura do Evangelho sem viver o amor fraterno. Deus amou-nos primeiro, Ele próprio é o amor, ao participar d’Ele todo o crente é chamar a amar (2ª leitura). Com uma simplicidade extraordinária, Jesus fala do amor do Pai que deu ao mundo o seu próprio Filho, fala do amor aos irmãos, como sinal do amor a Deus, fala das consequências: os que acreditam n’Ele não são servos, são amigos, podem pedir o que quiserem e darão sempre muito fruto (Evangelho).
1. A universalidade da salvação
A proposta cristã não se destina apenas a alguns, é para toda a humanidade. Curiosamente, desde o princípio que esta ideia marca a presença de Jesus no mundo. Há muitas epifanias, manifestações de Cristo, algumas delas reveladoras já da universalidade da mensagem cristã. É o caso da história dos reis magos, vindos de todos os lugares. Apesar disso, na Igreja nascente, havia muitos que consideravam a proposta de Jesus ser para os judeus, membros do Povo eleito. Acontece que, rapidamente, os cristãos da Igreja de Jerusalém compreenderam que a mensagem de Cristo é para todos. O primeiro episódio que revela claramente a universalidade da salvação é a estadia de Pedro na casa de Cornélio em Cesareia de Filipe. Naquela casa todos eram gentios, mas Pedro anunciou Cristo Ressuscitado com uma tal clareza que o Espírito pairou sobre todos. Todos abriram o coração à mensagem e a todos conferiu Pedro, o batismo. A proposta de salvação é universal.
2. A salvação passa pelo amor
Este capítulo 4 da primeira carta de são João deve ser lido na sua totalidade, centrando a reflexão numa verdade fundamental “Deus é amor” (1Jo 4,8). Devemos então, amar-nos uns aos outros, porque Deus nos amou primeiro. Deus deu-nos o seu Filho, devemos então dar-nos uns aos outros. É urgente centrar o testemunho do amor a Deus no amor aos irmãos. “Quem diz que ama a Deus e não ama os seus irmãos é mentiroso” (1Jo 4,20), como é possível amar a Deus que não se vê, se nem sequer se é capaz de amar o próximo que se vê?” (cf. 1Jo 4, 20) “Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4, 21). Estas expressões e muitas outras de S. João revelam a importância do amor fraterno, indispensável à salvação. Mas qualquer um pode descobrir esta dimensão universal do amor fraterno, e por aí descobrir a ternura de Deus.
3. Na comunidade, um amor fecundo
Há condições para viver o amor. Talvez a maior seja permanecer unido a Cristo e, logo depois, cumprir os mandamentos e celebrar a alegria que é dom do Espírito Santo. Daqui resultam quatro coisas: não sermos servos mas amigos, assumirmo-nos escolhidos por Cristo, darmos fruto e fruto em abundância e finalmente, podermos na oração, pedir o que quisermos.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



O único mandamento que Jesus nos deixou é o mandamento do amor (Evangelho). Ele resume toda a sua doutrina e é a fonte donde procede a nossa alegria e felicidade porque o amor procede de Deus (2ª leitura). Um Deus que nos ama e sempre toma a iniciativa, levando Pedro a perceber que não existem fronteiras para o amor de Deus (1ª leitura). Todos estão chamados a participar desse Dom supremo.
Neste domingo, a Palavra de Deus nos ilumina para que possamos perceber a necessidade de cultivar o amor em nossas relações interpessoais. Sem o amor, perderíamos o eixo de nossa existência e o sentido último de nossa vida.
1ª leitura: Atos dos Apóstolos 10,25-26.34-35.44-48
O texto desta 1ª leitura mostra-nos um dos maiores problemas que a Igreja primitiva teve que resolver. Os pagãos (que não pertenciam ao povo de Israel) deviam ser admitidos, ou não, na comunidade cristã?
Entre os cristãos chamados de “judaizantes”, havia uma oposição muito grande a que a Igreja se tornasse independente do judaísmo. Eles procediam principalmente da comunidade de Jerusalém. Já a comunidade de Antioquia, na Siria, era mais aberta a este respeito ao ponto de enviar Paulo e Barnabé como missionários entre os pagãos.
Lucas, neste relato, quer mostrar que a solução do problema, a ser resolvido mais tarde pelo Concílio de Jerusalém (Atos dos Apóstolos, 15), já estava sendo indicada por Deus a Pedro (“De fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas”). Não é questão de teorias ou de nomes: a prática é que mostra quem é que pode fazer parte do novo Povo de Deus (“Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença”)
A manifestação do Espírito Santo sobre os pagãos, antes mesmo de que fossem batizados, foi como um novo Pentecostes que abriu as portas para que a Igreja, de fato, se tornasse “católica” (do grego “católicos”, que significa “para todos”) ao ponto de Pedro perguntar: “Será que podemos negar a água do batismo a estas pessoas que receberam o Espírito Santo, da mesma forma que nós recebemos?”.
Todos os que praticam a vontade de Deus, ainda que de forma inconsciente e anônima, estão chamados a participar. É essa prática da justiça que a evangelização visa tornar realidade, fazer crescer e educar, mostrando tudo o que Deus realizou em favor dos homens através de Jesus Cristo.
2ª leitura: 1ª João 4,7-10
O apóstolo João insiste na primazia do amor. O centro da vida é a prática do amor. O amor abre a mente do ser humano para o conhecimento e a verdade porque “Deus é amor”. Um amor capaz de amar primeiro sem mérito nenhum nem contrapartida de nossa parte. Amor gratuito, de entrega total e suprema doação.
De fato, Deus Pai torna-se conhecido pelos homens no ato de entregar o seu Filho ao mundo por amor. O Filho é conhecido, também, pela entrega de si mesmo, no amor, até o fim. O Espírito Santo gera em nós o amor ao Pai e ao Filho. Um amor que, para além do puramente emocional, é a razão de ser da existência.
A fé na Trindade Santa, por sua vez, se expressa no amor concreto aos irmãos. Daí a reafirmação que João faz do mandamento do Senhor: “Amados, amemo-nos uns aos outros”; pois seria uma incoerência muito grande afirmar uma fé em Deus que não correspondesse à prática do amor.
Evangelho: João 15,9-17
O evangelho de hoje está marcado pela ternura de Jesus para com todos os seres humanos. A frase: “Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês” é muito mais que uma comparação de semelhança. Jesus nos ama com o mesmo amor com que o Pai O ama. A relação entre o amor do Pai para com o Filho, o amor do Filho aos seus discípulos e o amor dos discípulos entre sí é tão profunda que, no fundo, se trata de um mesmo amor. Daí a necessidade de que esse amor seja permanente (“permaneçam no meu amor”) como permanente é o amor de Deus por nós.
Esta permanência no amor pode se verificar pela comunhão de nossa vontade com a vontade dele (“Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando”). Ela se expressa pela prática de um único mandamento: “amem-se uns aos outros”. Um amor muito exigente, por certo, (“como eu amei vocês”) que será sempre um ideal a ser perseguido, mesmo sabendo que nunca será plenamente alcançado (“Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos”). Mas os ideais de vida têm que ser suficientemente elevados para levar-nos à superação de nossas limitações e “para que minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa”. E isto, não como servos que obedecem a seu senhor, mas numa adesão livre, como amigos de verdade.
Palavra de Deus na vida
Amar e ser amado são as necessidades básicas que o ser humano leva dentro de si. O que alegra nossa vida é o amor. O mais doloso é o desamor, a falta de amor.
No entanto, nenhuma palavra como “Amar” tem sido tão inflacionada, desvalorizada, manipulada, prostituída, sequestrada ou confundida com o próprio egoísmo. Cada um de nós nos referimos a realidades muito diversas e a momentos diferentes de uma mesma realidade quando pronunciamos a palavra Amor.
Para além do afeto (“Filia”) ou da atração sensual (“Eros”), o evangelho de são João fala de um amor maior que não se reduz ao sentimento nem à atração por alguém, nem à experiência gratificante e prazerosa que podemos receber dos outros, mas inclui uma atitude de entrega em favor de alguém (“Ágape”) sem transformá-lo em objeto de uso pessoal. É o amor gratuito, criativo, generoso, sem limite, que leva ao dom de si mesmo, maduro e pleno.
Quem se compromete com as necessidades e aspirações dos outros está perto de Deus, “conhece a Deus”, “dá fruto”. Pode que não seja “católico” mas “conhece a Deus”. Quem não ama, mesmo que seja “católico” praticante, “não conhece a Deus, porque Deus é amor”. É o que Jesus indica quando acrescenta: “amem-se...assim como eu amei vocês”. Esse é o nosso modelo e nossa referência: amar como Jesus ama.
Difícil de atingir? Sim; e muito. Tão difícil como chegar perto da perfeição. Mas, por ser um ideal alto demais, o amor cristão é tarefa a cumprir muito além das relações de poder senhor-servo, poderoso-débil, homem-mulher; criando uma nova forma de vida como a indicada por Jesus (“Eu já não chamo vocês de empregados, pois o empregado não sabe o que seu patrão faz; eu chamo vocês de amigos”).
Ser cristão é ser amigo de Jesus. A amizade supõe comunicação, partilha alegre na tarefa comum, sentir como sendo nossos os objetivos e sentimentos de quem amamos. O amor não é uma questão de obediência ou dever a ser cumprido. É a resposta agradecida e alegre ao amor incondicional de Deus. Ao dizer-nos “amem-se uns aos outros”, Jesus nos indica a direção. O Pai nos ama, não para que o amemos, mas para que nos amemos, não para que correspondamos ao amor d'Ele, mas para que prolonguemos seu amor em direção aos irmãos.
Pensando bem...
No há maior alegria do que sentir-se amado incondicionalmente e ser capaz de amar de maneira incondicional. Se amarmos só àqueles que nos amam, que correspondem ao nosso amor, que, de alguma forma, nos gratificam, podemos nos questionar até que ponto estamos dispostos a chegar à doação desinteressada de nos mesmos, que é a perfeição do amor.
padre Ciriaco Madrigal



"Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei"
Hoje é o domingo do mandamento novo. Este é o sexto domingo da Páscoa, o domingo que antecede a festa da Ascensão do Senhor, momento em que nos aproximamos da festa de Pentecostes, que concluirá o tempo pascal, celebrado desde o domingo da ressurreição.
Neste domingo, comemoramos o dia das mães, as quais têm em Maria sua referência maior de doação, de presença silenciosa e amorosa na vida dos filhos, quer nos momentos amenos (como na bodas de Caná), quer no sofrimento profundo (como em pé diante da cruz), quer na glória (como na Ascensão e na Assunção. Nesta celebração da Páscoa do Senhor, queremos, unidos à Igreja universal, rezar por todas as mulheres que, pelo dom de gerarem a vida, foram chamadas a participar da obra criadora de Deus.
Celebramos neste domingo a Páscoa de Jesus que anuncia um mandamento novo e se manifesta em todas as pessoas e grupos que se deixam conduzir pelo Espírito da verdade e continuam a missão de Jesus.
Primeira leitura: Atos 10,25-27.34-35.44-48
Cornélio pertencia ao povo pagão, e o povo judeu era proibido de se misturar com os pagãos, considerados impuros. O texto revela que essas barreiras culturais são rompidas a partir do momento em que a comunidade cristã faz a experiência da ressurreição do Senhor. Vamos acolher o que o Senhor nos propõe por meio desta leitura.
Lucas depois de narrar a conversão do apóstolo Paulo, destinado à missão entre os povos pagãos, aponta um fato novo: a abertura de Pedro para os pagãos, ao ver que o dom do Espírito Santo se difundia também sobre estes. Com efeito, Atos 10,9-23 relata a visão de Pedro em Jope e sua ida a Cesaréia com alguns "irmãos" para a casa de Cornélio. Aconteceu a ação conjunta do humano e do divino: o Espírito Santo interfere na vida de ambos, os quais são importantes para a execução do plano de Deus. É a Igreja que, conduzida ao Espírito Santo, percorre o caminho de Jope até Cesaréia (50 km.), a fim de constatar a obra divina. Neste contexto dá-se o maravilhoso encontro Pedro-Cornélio, cena que comprova a vocação e atuação de Paulo: evangelizar os pagãos. Impressiona em Cornélio o desejo de salvação. É todo o paganismo que deseja pela mensagem da salvação. Cornélio aguardava, cercado de muitas pessoas - amigos e parentes - como ele tementes a Deus e à procura da verdade. Sabe-se que no meio do paganismo havia gente sincera e de ótima espiritualidade, preparada para o Evangelho, mais talvez do que o judaísmo atrasado e teimoso. A esse respeito disse Jesus: "Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé" (Mateus 8,10b).
Pedro, não aceitando a insistência do centurião Cornélio, aponta para o exemplo que a Igreja deverá seguir: voltar sempre ao gesto humilde e sem pretensões de Pedro. O culto à pessoa e às honras facilmente encobre o caminho que Jesus trilhou - o da cruz, o da humilhação, o da "quenose",isto é, do esvaziamento (cf. Filipenses 2,5-11).
Pedro, esclarece por visão, falando ao grupo, assegura que perante Deus nada é impuro. Cornélio e os seus estão de ouvidos atentos às palavras de Pedro, que assim falou: "Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda a nação lhe é agradável aquele O temer e fizer o que é justo" (v. 34s). Aqui está o anúncio da salvação, perante um auditório não-israelita; é uma pregação missionária diferente dos anteriores (a judeus), onde se omitem os argumentos bíblicos embora não faltem recordações do Primeiro Testamento. A estrutura literária é pobre, por Pedro não saber fluentemente o grego e Lucas, dando importância à narrativa, não quer corrigir. O conteúdo essencial é a atividade salvadora de Jesus de Nazaré e a confirmação de sua missão por obras, em especial pela ressurreição. Os apóstolos são enviados do mesmo Jesus e devem apontar o caminho da salvação pela ligação intima com Cristo pela fé.
"Deus não faz distinção de pessoas" (v. 34) é uma referência a 1 Samuel 16,7, texto que se refere à eleição de Davi; "o homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração". É uma convicção que Pedro adquiriu agora, graças à visão de Jope (10,9-16), ilustrada pelo caso-Cornélio. Na teoria ele admitia que em Deus não há distinção de pessoas (cf. 2,38; 3,26; Isaias 2,2ss; 49,1-6; Joel 2,28; Amós 9,12; Miquéias 4,1). Contudo, no contexto, Pedro, como todo bom judeu, não conseguiu disfarçar totalmente de um favoritismo por Israel. Na história da salvação, quando Deus a oferece, não adota critérios humanos: para Ele não valem a posição social, a descendência, a raça, o povo, a diversidade de religião. O que vale é o temor de Deus e a prática da justiça.
As palavras de Pedro foram confirmadas pelo testemunho do Espírito Santo (vs. 44-48), o qual enquanto Pedro falava, foi derramado também sobre os pagãos. Na história de Cornélio se verifica o cumprimento do plano divino: o encontro de Pedro com o centurião de Cesaréia marca a importância do novo rumo que a obra da salvação assume. Como em Pentecostes, quando o Senhor ressuscitado, para justificar o início da obra salvadora da Igreja, se manifestou na vinda do Espírito Santo e no dom das línguas, - agora também se verifica na casa de Cornélio, em Cesaréia, um novo Pentecostes, como sinal de uma nova etapa: o início da evangelização dos pagãos. É o Pentecostes dos pagãos.
Em Cesaréia, como em Jerusalém, homens - amigos, familiares, servos de Cornélio - são arrebatados pelo Espírito Santo e glorificam a Deus. Ainda não são batizados, apenas foram cativados pela mensagem salvadora proclamada por Pedro. São sinceros, abertos e dispostos. Aqui está o valor que a Palavra de Deus possui para a salvação! A Palavra é sumamente eficaz se é dirigida por quem tem fé e se é acolhida por quem é disponível e aberto. Tudo é obra do Espírito Santo. Será que a nossa pregação favorece a vinda do Espírito Santo sobre os ouvintes? O Pentecostes de Cesaréia é um sinal de que a Igreja e Pedro estão certos, quando se dirigem à casa de tantos outros "Cornélios". Os companheiros de Pedro, judeu-cristãos, puderam testemunhar admirados que o dom do Espírito Santo se difundia também sobre os pagãos, sem que passassem pela Lei de Moisés.
Pedro o chefe dos apóstolos reconheceu o sinal do Espírito Santo e, aos poucos, foi se libertando da mesquinhez da mentalidade judaica. A salvação é para todos. Se Deus concedeu o batismo no Espírito Santo, como pode a Igreja negar o batismo com água a estes pagãos? Podemos notar uma pergunta igual do etíope a Filipe (Atos 8,36). E ordenou que todos fossem batizados "em nome de Jesus Cristo". Os apóstolos em geral não batizam. Delegam os outros (cf. 1 Coríntios 1,14-17). O batismo "em nome de Jesus Cristo" é expressão que indica o batismo cristão com fórmula Trinitária (cf. Didaqué, 8,1-3). É o único caso em que o Espírito Santo é derramado antes do batismo. Deus quer convencer de que não é preciso passar pelo judaísmo para pertencer à Igreja e receber o Espírito Santo. Se Pedro manda que todos sejam batizados, após receberem o Espírito Santo, é porque os quer agregar à comunidade cristã. O "ficou com eles alguns dias" (v. 48) é símbolo de que a Igreja foi ao encontro dos pagãos.
Portanto, Pedro derrubou a muro de separação que, em cada cidade do Oriente, levantava-se entre a comunidade judaica e os pagãos.
Mas nós cristãos do século XXI não paramos de reconstruir este muro cada vez que esquecemos de viver nosso Pentecostes e estabelecemos proibições ou leis para defendermos direitos ou uma filosofia superada.
Hoje, novamente, foi levantado o muro, em cada cidade, entre os cristãos e a imensa "massa pagã" moderna. Onde está Pedro para encontrar os indiferentes de dentro e de fora, para partilhar a sede de Deus e a generosidade da investigação em muitos meios descrentes, para reensinar o diálogo, para fazer-se ouvir (escutando-as) em todas as culturas e em todas as mentalidades, para, em seguida, relativizar valores próprios e válidos, mas sem significação decisiva? Porque não podemos exigir do outro que se converta a ordem de seus valores, senão depois de termos feito nossa própria conversão.
Como nós cristãos vemos grupos da nossa Igreja e outros grupos que não pertencem à nossa Igreja lutarem por terra, justiça e pão e paz? Será que na maioria das vezes não o vemos com preconceito, fora da lei e querem tomar o que temos?
Salmo responsorial 97/98,1-4
É um hino escatológico, inspirado no fim do livro do profeta Isaias e muito próximo do Salmo 96/95. "Com trombetas e o som da corneta aclamai o rei, o Senhor!". Se referem aos cantos do Reino. Estes toques, que acompanhavam em Israel a vinda dos reis (2 Samuel 15,10; 1 Reis 1,34), acompanham a entronização do rei, o Senhor (Salmo 47,6) para quem eles haviam ressoado no monte Sinai (Êxodo 19,16).
O rosto de Deus deste Salmo é muito parecido com o dos salmos 95/96 e 96/97. Destacam-se, contudo, sete ações de Deus. Juntas, dão uma visão ampla de Deus experimentado neste Salmo: ele fez maravilhas, sua direita e seu braço santo lhe deram vitória, fez conhecer sua vitória, revelou sua justiça, lembrou-se de seu amor e fidelidade, vem para governar e governará. Os versículos da liturgia de hoje destacam cindo dessas ações de Deus. A primeira "fez maravilhas" é a porta de entrada: estamos diante do Deus libertador, o mesmo libertador dos tempos passados (Êxodo). A expressão "amor e fidelidade" (versículo 3a) recorda que esse Deus é o parceiro de Israel na Aliança. Mas é também o aliado de todos os povos e de todo o universo em vista da justiça e da retidão. É um Deus ligado à história e comprometido com a justiça. Seu governo fará surgir o Reino.
No Novo Testamento, Jesus se apresentou anunciando a proximidade do Reino (Marcos 1,15; Mateus 4,17). Para Mateus, o reino vai acontecendo à medida que for implantada uma nova justiça, superior à dos doutores da Lei e fariseus (1,15; 5,20; 6,33). Todos os evangelhos gostam de apresentar Jesus como Messias, o Ungido do Pai para a implantação do Reino, que fez surgir nova sociedade e nova história.
Bendigamos ao Senhor nosso Deus, que estendeu a salvação a todas as nações não fazendo distinção de povos nações e culturas. Cantemos com alegria o louvor deste salmo ao nosso Deus que nos deu vida e salvação em Jesus Cristo, nosso Deus e nosso Salvador que quer a salvação de todos os povos.
Segunda leitura: 1João 4,7-10
No texto de hoje o apóstolo João, bruscamente, do tema da fé, volta à tecla do preceito universal do amor o ágape (1 João 3,11.23; 2,15), com o seu costumeiro apelo, carregado de afeto: "Filhinhos"! Assunto central desta seção é a preferência, que não é uma obrigação arbitrária, mas uma exigência da natureza, porque Deus é amor (1 João 4,16). O amor é uma participação da vida de Deus, é uma realidade que procede dele, é "ser de Deus" (1 João 5,19). O amor vem a ser o critério de como distinguir O amor é uma participação da vida de Deus, é uma realidade que procede dele, é "ser os bons dos maus, os de Deus e os do mundo: quem está voltado para o materialismo odeia o caridade porque não tem o coração livre , quem está voltado para Deus ama o próximo.
O amor autêntico tem sua origem em Deus como a sua fonte: quem ama irrestritamente, nasceu de Deus (v. 7; 2,29; 5,1), é filho de Deus, está animado de sua graça (1 João 3,9). O amor fraterno é efeito de nosso novo nascimento sobrenatural, isto é, o batismo. Fazendo-nos participantes de sua vida e natureza, Deus fez-nos também participantes de sua caridade. O amor mútuo não surge por conveniência moral ou atitude de perfeição ideal. É antes um movimento de vida que resulta da nova natureza, a divina (1 João 5,19; 4,4; 4,2s.6; 3,10). O amor é fruto do germe divino recebido no batismo. Em Romanos 5,5, Paulo afirma que é o Espírito Santo quem ama dentro de nós. Entretanto o apóstolo João esclarece: o próprio cristão é que ama a si mesmo, em virtude de sua filiação divina, com a qual pode amar definitivamente. A caridade verifica ao cristão a possibilidade de entrar em comunhão com Deus e conhecê-Lo - conhecimento que vai ligado com o amor fraterno. Quem ama, conhece a Deus, revela Deus, é de Deus e está em comunhão com Ele. Amor e conhecimento crescem lado a lado e se complementam (1 João 2,3-11). Para conhecer a Deus e permanecer Nele é preciso amá-Lo. "Conhecer" na Bíblia é possuir aquilo que se conhece, é estar em comunhão com Ele. Os três atos são: nascer, conhecer e amar, estão intimamente ligados.
O conhecimento de Deus em João não é apenas raciocínio; pressupõe uma relação íntima e pessoal com Deus, proveniente de experiência viva e amorosa. Só quem ama pode conhecer a realidade íntima das pessoas e coisas; quem não ama, não chega a isto. Só quem ouve a Palavra e a põe em prática pode afirmar que conhece a Deus. Tal conhecimento se torna perfeito pela obediência e fidelidade (Oséias 4,6; 6,6). Sem caridade fraterna não há conhecimento pleno de Deus, porque Deus é amor. Esta é a melhor e a mais completa definição de Deus e o ponto alto da Revelação.
As Bem-Aventuranças (sermão da montanha) publica o amor do Pai, generoso até com os pecadores e inimigos (Mateus 5,43-48; Lucas 15,7-10; Mateus 9,13). A vida de Cristo é vida de amor, bondade e paciência, dando a vida em resgate dos que ama: é o auge do amor (Romanos 5,8; 8,32; 8,39). O amor para João não é apenas um distintivo ou um símbolo, mas é a própria natureza divina. Dizendo-se que Deus é amor, é tudo. O amor não é só uma das atividades de Deus. Toda a sua atividade é amor, tudo o que Ele faz é por amor. O Primeiro Testamento é uma história do amor divino: criação, revelação, aliança, redenção, proveniência, misericórdia, paciência (Gênesis 1,28-30; Êxodo 33,18s; Oséias 11, Jeremias 3,12; Salmo 135; Salmo 144,8).
Contudo, é no Novo Testamento que o amor se revelou mais plenamente nos mistérios da Encarnação (João 3,16), da Redenção e da Graça, quando o amor da Santíssima Trindade é irradiado sobre todas as pessoas. O amor do cristão, em conseqüência, é participação do amor de Deus. Então podemos concluir que o Cristianismo é a religião do amor. O amor a Deus e ao próximo são da mesma natureza, porque a essência de Deus é amor - revelação suprema do Novo Testamento
Nos vs. de 9 a 10, aponta-se a Encarnação como revelação e manifestação surpreendente do amor divino, quando este se tornou evidente e palpável na vinda do Filho Unigênito, Único e bem amado para salvar-nos. É o texto de João que melhor expressa a epifania (manifestação) da caridade. Para João, a Encarnação é um fato que já se realizou, porém, se perpetua, é de permanente atualidade (João 14,23). A Encarnação para o Pai é missão, delegação, envio. O Enviado possui missão especial: falar e agir em nome do Pai, representá-Lo junto às pessoas. Portanto, é o Pai que se revela amor; não mandou qualquer um, mas o seu próprio Filho, Unigênito, muito amado. Isto prova o quanto Deus nos ama, pois mão duvidou em sacrificá-Lo por nós. Se O mandou a este mundo, é para que os seus filhos e filhas pudessem unir-se a Ele (João 1,4; 5,26; 1João 1,2), ter a vida da graça e da glória. Os três grandes mistérios da Nova Aliança - encarnação, redenção, graça - resumem o Evangelho. Paulo e João os entendem como concebidos e realizados pelo infinito amor de Deus.
O versículo 10 ostenta a maravilha do amor cristão: não fomos nós que o amamos. Ele nos amou primeiro, nos enviando seu Filho para perdoar nossos pecados. Nosso amor foi apenas uma resposta a quem nos amou desde sempre. O amor de Deus se manifestou misericordioso, desinteressado, gratuito, generoso. Não nos amou a título de reciprocidade, mas espontaneamente, porque sua natureza é amor. Se Ele põe à morte até seu Filho amado é porque deseja atrair a si os que querem se salvar. Nos Odes de Salomão (século II) há a seguinte reflexão: "Não teria sabido amar o Senhor, se Ele não me tivesse amado primeiro" (3,3).
Evangelho: João 15,9-17
Este trecho da liturgia de hoje é tirado do segundo discurso após a Ceia e serve de transição entre a parábola da vinha (João 15,1-8) e a declaração da amizade feita por Jesus para aqueles que, até então, eram apenas seus "discípulos" (João 15,14-17). O que significa que o tema central desta narrativa é a permanente união dos discípulos com Jesus ("permanecer" volta três vezes nos vs. 9 e 10) como meio de salvaguardá-la.
O raciocínio de Cristo é claro: o Pai amou o Filho que permaneceu neste amor guardando seu mandamento. Mas Cristo amou as pessoas com este mesmo amor do Pai de que desfrutava e no qual os cristãos por sua vez, podem permanecer guardando o mandamento de seu Mestre.
Portanto Cristo insiste sobre a ligação que se estabelece entre o amor e a obediência. Enquanto não reconhecer a união amorosa das vontades, o amor é imperfeito. Somente a mútua obediência é o critério de um amor que se tornou adulto. O amor é, ao mesmo tempo, a mais profunda atividade espiritual, pois realiza a comunhão espiritual e a mais fundamental partilha no cerne mesmo da alteridade. O amor realiza ainda outra maravilha: aquele que ama transforma-se naquele que ele ama. Neste sentido, Cristo pode dizer: "permanecei em meu amor como eu permaneço no amor do Pai" (versículos 9-10).
Enfim, o amor é solidário com a alegria (versículo 11), porque não suporta nenhuma frustração. Resiste à separação, vence todos os obstáculos, mas nada pode contra aqueles que o reivindicam como um direito, só que querem obtê-lo trapaceando com o que são ou confundindo os gestos do amor com o próprio amor. O amor é, portanto, de alegria quando nasce da liberdade total.
As idéias concentram-se em volta do v. 11, sobre a alegria completa. Pois a união de Jesus e os discípulos tem como resultado ser ouvido pelo Pai já que Ele é glorificado pelo fruto desta união: fruto que é a caridade conforme o amor que o Pai manifestou no Filho, e que é o conteúdo da "Palavra" na qual os discípulos devem "permanecer".
O núcleo central da unidade é, portanto, a comunicação da verdadeira alegria, que é a conseqüência da observância da Palavra (mandamento) do Senhor, ou seja, do amor fraterno.
Enquanto os vs. 7-8 relacionam o "permanecer em Cristo" com a importância da oração para a glória do Pai, os vs. 9-10 explicam o que significa concretamente este "permanecer": é o permanecer no amor. Jesus começa pela fonte: o Pai. Ele amou primeiro (cf. 1 João 4,10). Cristo, Palavra do Pai, amou também: a todos nós. E somos convocados para ficarmos no seu amor. Amor de Cristo: isto é, que vem do Cristo, através de sua Palavra, seu mandamento. Como Jesus ficou no amor do Pai, guardando sua Palavra, assim, o cristão deve ficar no amor de Cristo, guardando sua Palavra. Aparece, aqui, que "amor" em João não é uma coisa sentimental, mas a mesma coisa que Paulo chamaria de "obediência" (Filipenses 2,6-12). Obediência no sentido de estar à escuta, estar atento. É união de vida, não uma sensação sentimental, mas um dispor nossa mente e atividade para o plano do Pai. É entregar sua vida. Nisto está a alegria, a "realização" de Jesus, e Ele nos ensina este segredo para que a nossa alegria seja completa: esta é a idéia central do texto da celebração deste 6º Domingo da Páscoa. Aqui, devemos recordar o começo do discurso sobre a videira: a Palavra de Cristo nos purifica, isto é, nos poda e nos torna fecundos (João 15,2-3). É a obediência à mensagem de Cristo que nos permite uma verdadeira "realização", nos dá uma personalidade definida, faz com que sejamos alguém na vida.
A nossa identidade é sermos aqueles que pertencem à caridade, feita conforme o espírito de Cristo. Buscar realização e contentamento numa outra direção é contrário à nossa identidade. E trata-se de uma caridade que não nos pertence. Muitas pessoas enganam-se neste ponto. Festejam à vontade, baladas, gastam o supérfluo, e depois fazem caridade dando as sobras da mesa e os trocadinhos do bolso para a "negrada, para essa gente" como dizem por ai... Exploram seus empregados e depois fazem caridade aos filhos dos mesmos (que têm tão lindos olhos cheios de agradecimento...)  Isto não é o que Cristo nos diz. Ele quer que a nossa caridade permaneça fiel à sua Palavra, que é a de Deus. A caridade não é uma mera fantasia, mas uma obediência a um preceito. Não somos nós que inventamos. Nos colocamos a serviço do apelo que vem a nós, muitas vezes, num modo e numa aparência que não nos agrada nada.
Depois da frase central do versículo 11, o tema é aprofundado na ordem contrária. O versículo 12 deixa claro agora, o "permanecer no amor de Cristo" com o sendo o amor mútuo conforme o modelo do amor de Cristo. E este modelo é claro: é a doação da vida pelos "amigos" (ou por quem se ama) versículo 13. Como já dissemos, porém, amor e amizade não é coisa sentimental. É união da vontade: fazer o que o Senhor manda, guardar sua Palavra. Isto faz parte da lógica do amor. Se o mandamento de Jesus é o amor, quem não o observar não participa do Seu amor.
Agora a idéia de que os discípulos são amigos, significa que são "gente de casa". Eles sabem o que o Senhor faz, participam na realização de sua vida. Este saber recebe aqui a categoria de revelação. O que Jesus nos ensina, vem do Pai. Traduzindo em termos existenciais: o mandamento do amor não é opcional, mas a expressão do Absoluto da nossa existência.  A iniciativa vem de Deus, através de Jesus Cristo. Ninguém se constitui apóstolo a si mesmo. Aliás, não seria possível, pois a Palavra de Deus, que trazemos "como em vasos de argila", nos transcende. Atraídos pelo amor convidativo de Cristo, o cristão se coloca a serviço desta iniciativa divina.
Função na liturgia
Como no domingo anterior, também neste 6º domingo da Páscoa a relação entre a segunda leitura e o Evangelho é evidente. O cristão permanece no amor que vem de Deus (pois Deus é amor), 1 João 4,8), e que se manifestou em Jesus Cristo. Nesta forma de amor concreto, o cristão pode se dirigir a Deus com confiança: não lhe faltará nada que for preciso para viver esta união vital. Sua vida será uma glorificação (honra e manifestação) de Deus mesmo. E esta será a sua alegria.
A liturgia deverá ser conduzida de tal modo, que sensibilize a assembléia para o que se pode chamar a existência pascal do cristão. É uma existência diferente da natural, carnal. É unida com a do Ressuscitado. Seu critério não é a satisfação dos desejos ou projetos imediatos da vida natural como pregam as seitas, mas a plena alegria de permanecer no Deus-Amor e de revelá-Lo pela caridade vivida em ações.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
Como lembramos no início, em nosso cotidiano usamos muitas e freqüentes expressões com as palavras "amor/amar", quase sempre relacionada a algo prazeroso, embora, às vezes, destituído de sentido.
Bastante diferente é a concepção de amor/amar proposta por Cristo: "Como meu Pai me amou, assim também vos amei. Permanecei no meu amor". Tal concepção é retomada por São João em sua primeira carta: "Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus".
Na eucaristia, alimentamo-nos do amor de Deus; ela é a fonte da qual nos fortalecemos para permanecer no amor de Cristo, atitude, ás vezes, tão difícil, em meio às tribulações do dia-a-dia.
Esse verdadeiro amor vindo do Pai pelo Filho e confirmado no Espírito Santo, é amor doação, amor entrega. Amor que dá sentido ao que somos, ao que fazemos, à realidade em que estamos inseridos. Ele está centrado na relação com Deus e com o próximo e não confinado dentro de nós mesmos. Na concepção divina, o amor não se reduz ao que nos é agradável. Certamente, também é isso, mas não apenas isso. O exemplo de Cristo é bastante claro. Ao entregar-se por nós na cruz, Ele manifestou a radicalidade do amor que se fez oblação absoluta, o que só foi possível porque Jesus compreendeu a grandeza do amor do Pai por Ele. Muitas vezes, fraquejamos na vivência do amor cristão porque "esquecemos" que o amor de nosso Deus, fiel e justo, é infinito.
Estamos nós, de fato, cumprindo o indicado por São João: "Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus"? O amor que expressamos aos familiares, aos amigos, aos colegas de trabalho, às tantas pessoas que entram e saem diariamente de nossa vida, contém a dimensão do amor que vem de Deus ou é apenas um sentimento, uma sensação humana? Procuramos ao celebrar a eucaristia, estar bem com os irmãos e irmãs ou somos incoerentes e deixamos tal dimensão de lado, avaliando somente o amor a Deus (conforme nosso entendimento humano)? Alguém já disse que a cruz é um dos símbolos do amor cristão, porque traça, na vertical, a ligação com o Pai e, na horizontal, a ligação com os irmãos.
Cristo sentia-se infinitamente amado pelo Pai, mesmo nos momentos mais duros, pois esse amor dava sentido também ao sofrimento. Precisamos deixar pulsar em nosso coração o legítimo amor que vem do Pai e que a tudo dá sentido, só assim nos sentiremos como Jesus, infinita e permanentemente amados do Pai, e podemos ser, no mundo, sacramento desse amor. Só assim produziremos e distribuiremos bons frutos, missão para a qual fomos chamados e designados.
 Não somos "filhos de Deus" porque um dia fomos batizados; mas sim porque um dia optamos, dia-a-dia, a acolher essa vida que Ele nos oferece, porque vivemos em comunhão com Ele e porque damos testemunho desse Deus que é amor através dos nossos gestos.
 O amor de Deus, o amor tão humano de Deus, é para nós termômetro do amor. Quem é de Deus, ama. Quem nasceu de Deus, ama. Quem "conhece" a Deus, ama. Ama a quem? O texto da leitura de hoje é muito claro: ama o próximo. "Amemo-nos uns aos outros" (1João 4,7). Se o amor de Deus se manifestou no amor às pessoas, também o amor das pessoas deve manifestar-se no amor aos semelhantes.
 É assim que faz quem "conhece" a Deus. "Conhecer" na teologia de São João não é só tomar conhecimento de alguma coisa, estar informado sobre alguma coisa. "Conhecer" é mais: é saber por experiência. Por isso, quem "conhece" a Deus, faz como Deus faz. Seu amor é como o amor de Deus: é amor às pessoas. Essa atitude pertence de tal forma ao conhecimento de Deus que, quem não ama, não conhece a Deus.
A Palavra se faz celebração
O perigo da religião individualista
 Nossa vida é pontilhada de expressões que usam palavras amor/amar. Quantas vezes observamos, nos carros, adesivos com a frase "eu amo esta ou aquela cidade"? Quantas vezes ouvimos exclamações do tipo "que amor de decoração!"; "que amor de roupa!"; "esta criança é um amor!"; "obrigado, por ter feito isso, você é um amor!"? Certas músicas religiosas produzidas hoje também vão nessa linha. Quantas vezes ouvimos "eu amo você meu Jesus"; "te olhar, te tocar e ver meu Deus como és lindo!". Acabam sendo músicas de consumo e que não revelam a densidade do mistério celebrado. A música ritual, isto é, a música litúrgica é reveladora do Mistério celebrado e não tanto pela beleza, pela estética. A música ritual é sinal do mistério porque ela é portadora da memória de Jesus Cristo
Essas expressões e outras tantas semelhantes revelam um "amor" muito próprio de nossa sociedade egocêntrica e subjetivista. Eu amo tal cidade porque ela foi fonte de prazer para mim; a decoração é um amor porque proporciona uma sensação agradável. A criança e o amigo tornam-se "amor" porque oferecem algo bom para mim, algo que me faz bem.
Amor doação
O individualismo não é coisa da religião, isto é, do cristianismo, mas do nosso tempo, da nossa cultura individualista e egocêntrica. Então os movimentos da Igreja, e muitos compositores não estão imunes do individualismo pregado pela nossa cultura moderna. Mas é preciso ter consciência da dimensão social do cristianismo e lutar contra essa cultura egocêntrica que penetrou nos cristãos.
Em contra posição a isso tudo, Jesus propõe-nos o amor doação, entrega, oblação do qual ele mesmo foi modelo e mestre. Não nos propõe um amor individualista tipo "eu te amei", mas ao contrário dizendo: "Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei". Não esta na hora de redescobrirmos essa dimensão social do cristianismo?
padre Benedito Mazeti



1 – «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor».
Crescemos e amadurecemos imitando os outros no nosso comportamento, na nossa aprendizagem, nos nossos gestos, de tal forma que o convívio que se prolonga no tempo acentua as parecenças até mesmo no timbre de voz. Com facilidade confundimos, ao telefone, a voz de dois irmãos, ou da mãe e da filha, ou do pai e do filho. Há filhos que caminham como os pais, têm os mesmos tiques ou trejeitos e imitam-nos no vestir. Pouco disponíveis para escutar os conselhos, repreensões ou sermões, mas prontos para repetir a postura dos pais. Se em casa se fala muito alto, na escola os filhos reproduzirão a mesma sonoridade. Se há palavrões em família, não será muito diferente na escola. Nem tudo é linear. Há crianças de famílias desestruturadas que têm comportamentos exemplares e crianças de famílias bem estruturadas com comportamentos perturbadores quando longe dos pais. Refira-se, a propósito, que hoje em dia a postura mimética é mais abrangente, imitam-se os colegas da sala de aula, os atores de determinada série de televisão, os amigos lá da rua. A televisão e a Internet, meios privilegiados de difusão, facilmente globalizam gestos, formas de vestir e de pensar.
E como cristãos, quem é que imitamos? A maioria? O que está na moda?
Os valores que defendemos, na medida em que estamos inseridos numa cultura globalizada, nem sempre são concordes com a fé professada. Recordo os milhares de jovens que aplaudiam o Papa João Paulo II, nos EUA, na sua última viagem apostólica àquele país. Quando lhes perguntavam sobre valores, da vida, da dignidade da pessoa humana desde a conceção à morte natural, as respostas eram curiosas: gostavam do Papa – figura mundial – mas não das ideias que defendia.
Temos um modelo a seguir e a imitar: Jesus Cristo. Como o Pai me ama, também Eu vos amo. Dou a vida por vós. Amai-vos uns aos outros como EU vos amo.
2 – As palavras movem, os testemunhos arrastam. Como sublinhava o Papa Paulo VI, o nosso tempo mais que mestres quer testemunhas, ou mestres que sejam testemunhas. Jesus dá-nos o exemplo. É a referência da nossa vida, dos nossos gestos. Não temos que imitar mais ninguém, em absoluto. Devemos ser referência uns para os outros, mas na medida em que transparecemos Jesus Cristo e o Seu evangelho de verdade e de caridade. Como nos dirá São Paulo: sede meus imitadores como eu sou imitador de Cristo.
O plano original de Deus aponta para uma imitação libertadora, como família, revendo-nos uns nos outros. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Da mesma carne, do mesmo sangue, com a mesma origem. Saímos das mãos de Deus e do Seu coração. Auxiliares uns dos outros. O pecado surge não por sermos diferentes, mas por queremos excluir os outros da nossa vida e colocar-nos diante deles como senhores absolutos do mundo.
A Encarnação de Deus, em Jesus Cristo, e o Seu mistério pascal, paixão, morte e ressurreição, invertem o caminho para nos colocarem novamente na senda de Deus, orientando-nos uns para os outros, assumindo-nos como irmãos, como família. Ele entrega a Sua vida por nós. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos». Para termos vida em abundância. «Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei». Jesus trata-nos como irmãos, como amigos. «Vós sois meus amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai».
A amizade leva-nos à proximidade (e vice-versa) e à identificação. Identificamo-nos com os nossos amigos, de quem aceitamos conselhos, recomendações, a quem pedimos opinião. «Fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros». Como ramos unidos à videira, também nós daremos muitos frutos se unidos a Cristo, se d'Ele nos alimentarmos.
3 – É mentiroso todo aquele que diz amar a Deus e odiar o seu semelhante. É uma afirmação que decorre da Palavra de Deus e da vivência da fé. Se Deus é Pai de todos, todos somos irmãos. Não podemos rezar o Pai-nosso em comum e depois cada um ir à sua vida, com as suas preocupações, mesmo que honestas e defensáveis. Não. O Pai-nosso não é apenas uma oração que Jesus nos ensina, é um desafio e um compromisso. Reconhecemo-nos diante de Deus como irmãos, dispondo-nos a acolher o Seu reino e a Sua vontade em todo o mundo.
Com efeito, diz-nos o apóstolo são João, na segunda leitura, «amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para conosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados».
O amor ao próximo não é uma opção. Se seguimos Cristo é para O imitarmos, acolhendo a Sua palavra. Somos discípulos missionários. Embrenhamo-nos no Evangelho e transparecemo-lo através da nossa vida, até que possamos dizer o mesmo que o apóstolo Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20), «Para mim, viver é Cristo» (Fil 1, 21).
Jesus dá a Sua vida por nós. Nesta entrega é visível que Deus nos ama primeiro para que também nós possamos amar-nos uns aos outros. É no amor que conheceremos a Deus e n'Ele permaneceremos.
4 – O sol quando nasce é para todos. Como lembra a Sagrada Escritura, Deus faz chover sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45). A salvação que nos é dada em Jesus Cristo, no mistério pascal que celebramos em cada Eucaristia, não é prerrogativa de um ou outro grupo, de um ou outro iluminado. É para todos, independentemente da origem, do caminho percorrido, da raça, da cor, ou da nacionalidade. A única condição é amar, deixar-se plasmar pelo Espírito de Deus.
Ao longo da história da Igreja, este Corpo de Cristo a que pertencemos pelo Batismo, como membros de que Ele é a Cabeça e o garante, viveu os dramas das diferentes épocas, culturas e sensibilidades, procurando, através dos mais humildes e dos mais santos, aproximar-Se de Jesus, identificar-se com Ele, manter-se fiel ao Evangelho. Logo no início surgem dissensões. As pessoas têm opiniões próprias que precisam de moldar ao proceder de Jesus, libertando-se das arestas de cada um, para sermos MAIS em Cristo.
Os apóstolos, nomeadamente Pedro, compreendem que a Páscoa não é benefício dos judeus, mas terá que chegar a todos. A conversão de Cornélio, oficial romano, é um desafio para o qual, aparentemente, a primeira comunidade não estava preparada, ainda que o envio de Jesus seja a todo o mundo, a todas as nações. «Na verdade, diz Pedro, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável».
O Senhor opera maravilhas a favor de todos os povos. «Todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus».
5 – O salmista ajuda-nos a rezar e a agradecer: «O Senhor deu a conhecer a salvação, revelou aos olhos das nações a sua justiça. Recordou-Se da sua bondade e fidelidade em favor da casa de Israel. Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai».


1 – Amar e permanecer. A liturgia da palavra deste e dos domingos anteriores relaciona duas faces da mesma moeda, uma opção de vida. Amar exige permanecer, ir ao encontro, ficar, fazer festa, alegrar-se, conviver, partilhar o que vai na alma, comungar projetos e sonhos. Permanecer porque se ama. Quem ama não quer partir. Quem ama atrai para si aquele/aquela que ama, aproxi ma-se. Não se distancia. Não desvia o olhar. Muito menos o coração. Quer estar bem juntinho. Olhos nos olhos. Lado a lado. Frente a frente. Quem ama quer que o amor dure para sempre, seja eterno, ou pelo menos até que a morte separe. E mesmo nos tempos que correm, efémeros, apressados, em mudança constante, ao sabor das modas, ainda há amores eternos, ou que querem ser eternos.
Jesus vem de Deus, da eternidade, para ficar. Vem por amor. Não parte. Pelo menos não parte sem antes assegurar a Sua presença até à eternidade. Dá a vida porque ama. Entrega a Sua vida àqueles que ama. Deixa a Sua palavra. Ressuscita, mas permanece pela memória, pelo mistério, pelos sacramentos. Doravante não O veremos fisicamente, mas vê-l’O-emos na Palavra dita em Seu nome, nos Sacramentos através dos quais pelo Espírito Santo estará entre nós, e ve-l’O-emos em cada pessoa, em cada olhar, em cada gesto de amor e de ternura.
Como não evocar as palavras de Jesus nos momentos finais da Sua vida terrena: vou para o Pai para vos preparar um lugar, quero que onde Eu estou vós estejais também, vou e vós sabeis o caminho, Eu sou o caminho para chegar ao Pai, vou mas não vos deixarei órfãos, enviar-vos-ei o espírito Santo, fazei isto em memória de mim, sempre que vos reunirdes em meu nome Eu estarei no meio de vós, até ao fim do mundo, não temais.
Hoje o Evangelho é por demais explícito. Vale a pena deter-nos nas palavras de Jesus: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos… fui Eu que vos escolhi para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça… O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».
2 – As palavras de Jesus não deixam dúvidas. Ele ama-nos com o mesmo amor com que Deus Pai O ama. Beneficiamos do amor de Deus cumprindo o Seu mandamento: amar como Ele nos amou.
O apóstolo são João assume o desafio de Jesus e clarifica-o para a comunidade cristã: "Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para conosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados".
O amor que não é partilhado morre. A partilha enriquece-nos. Quando partilhamos riquezas materiais, poderemos ficar com menos coisas. Quando partilhamos a alegria, a fé, a esperança, o amor, mais aumentam em nós. Quanto mais nos damos, mais recebemos. Por outro lado, o amor não é nosso, o amor vem de Deus. Deus é Amor. Ele amou-nos primeiro. Deu-nos o Seu Filho Unigênito, que entregou a vida em nosso favor. Como seus seguidores, vivamos o mesmo amor, partilhemos a Sua vida com os nossos irmãos, os membros da nossa família e da nossa comunidade e de outras famílias e comunidades.
Aquele que ama, vem de Deus. O amor que há em nós é o reflexo de Deus em nós, é a Sua marca, é o código genético que nos identifica como irmãos em Jesus Cristo, filhos amados de Deus. Nisto sabemos que permanecemos em Deus, se amamos como Jesus nos amou.
3 – O amor floresce à medida que é partilhado. Longe da vista, longe do coração. O que não é visto não é lembrado. O que não é lembrado é esquecido. O amor precisa de ser lembrado, constantemente. Não há maior amor do que Aquele que dá a vida pelos amigos. Jesus dá a vida por nós. É a nossa maior alegria, sabermo-nos merecedores de tamanha dádiva. O amor não nos silencia, ainda que faltem as palavras para tão grande mistério! A alegria que nos inunda transborda. O amor não se fecha, não isola. O amor liberta-nos para o encontro com o outro, com os outros.
Esta é a grande descoberta dos discípulos. O medo encerra-os dentro de quatro paredes. O amor abre-lhes a mente, o coração, dá-lhes coragem, desperta-os para a pregação, para o anúncio do Evangelho, para comunicar a alegria do encontro com Jesus ressuscitado. Há um enorme desejo de mostrar aos outros como Deus operou em nós maravilhas e a grandeza com que nos ama.
Assim se espalha a boa notícia. Pedro dá testemunho. O Espírito Santo garante a permanência no amor de Deus, na vida nova que nos é dada em Jesus Cristo. Sem exceções. Todos são chamados ao amor de Deus. Todos são convocados para viverem ao jeito de Jesus, para viverem a vida nova da graça, da salvação.
“Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus…» Pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles”.
padre Manuel Gonçalves


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