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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 8 de maio de 2018

ASCENSÃO DO SENHOR, Ano B


ASCENSÃO DO SENHOR


13 de maio – Ano B

Evangelho Mc 16,15-20




         Jesus após cumprir a sua missão terrena, subiu para o Pai, mas antes deixou aos apóstolos a missão de continuar o seu trabalho.




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Unidos a cristo, continuar a pregação do evangelho
No sétimo domingo da Páscoa, a Igreja celebra a festa da Ascensão. São várias as narrativas que descrevem a partida de Jesus. Há algumas contradições entre elas. Não se sabe ao certo o lugar, nem se conhecem suficientemente as palavras de Jesus e muito menos se entende como é que Jesus é elevado ao céu. Todas as narrativas dos Evangelhos sinópticos são catequeses que se centram no testemunho a dar, na pregação a fazer e nos sinais da verdade do Evangelho. São Lucas põe na boca de Jesus estas palavras: “sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judéia e na Samaria e até aos confins da terra” (At. 1,8). São Marcos diz que Jesus convida os discípulos a colaborar com Ele na pregação e a batizar todos os convertidos (cf. Mc. 16,15). A concluir a liturgia da Palavra, depois das duas narrativas da Ascensão, são Paulo diz ser necessário ter o espírito da sabedoria e da paz, o que só é possível quando se está invadido da esperança que nos vem de Cristo Ressuscitado. Uma certeza é que Cristo é tudo em todos e em todas as coisas (cf. Cl. 1,16-20).
1. A narrativa de Lucas
É inicialmente apenas o anúncio de que Cristo subiu ao céu a partir de Betânia onde com os discípulos se encontrava. É o texto do Evangelho (Lc. 24,50). Nos Atos dos Apóstolos entra em pormenores de grande rigor: o diálogo com os discípulos, a dádiva do Espírito Santo, a exigência do testemunho evangélico, o envio por toda a terra. A missão dos discípulos é simples, é proclamar Jesus Ressuscitado (cf. At. 1,6-10). É depois deste diálogo que Jesus se eleva ao céu. Os anjos virão dizer aos discípulos que é necessário regressar à terra para a todos proclamar a Boa Nova do Evangelho.
2. A narrativa de Marcos
No seu Evangelho, Marcos sintetiza tudo numa palavra simples “Ide por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda a criatura, quem acreditar e for batizado será salvo” (Mc. 16,16). O Evangelho de Lucas tem depois três afirmações: que a pregação será confirmada com sinais maravilhosos, as curas; que Jesus partiu para a Casa do Pai, subindo ao céu; que os discípulos partiram para pregar o Evangelho. Na sua simplicidade Marcos dá a dimensão do que é evangelizar: estar em comunhão com Cristo Ressuscitado, dar testemunho de Cristo com sinais claros, anunciar o Evangelho em toda a parte.
3. Deus é tudo em todos
Paulo na sua Carta aos Efésios dá o fundamento da evangelização. Se todos os cristãos têm o dever de evangelizar, fazem-no animados pelo espírito da sabedoria e da paz. Na missão evangelizadora, os cristãos são conduzidos pela esperança a que foram chamados, para levarem a todos a redenção operada por Cristo. E, não são só os humanos que encontram um sentido novo para a vida, é o universo todo que se deixa possuir por Cristo. Pela força do Evangelho, Deus é tudo em todos (Ef. 1,23), mas Deus é também tudo em todas as coisas (Cl. 1,20).
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”

padre João Resina



Nesta festa da Ascensão do Senhor celebramos o final da missão de Jesus que, após a Ressurreição, ficara aparecendo-se aos discípulos para instruí-los e confirmá-los na fé mostrando que continuava vivo e presente entre eles e na futura Igreja que iria continuar sua missão evangelizadora pelo mundo afora.
1ª leitura: Atos dos Apóstolos 1,1-11
Ao descrever a Ascensão do Senhor aos céus, Lucas usa um gênero literário, frequente na época, para mostrar a confirmação da parte do Pai de tudo o que Jesus disse e realizou, apesar do aparente fracasso da cruz. Com isto, o evangelista quer dar a entender que tudo o que aconteceu com Jesus estava dentro do Plano de Deus.
A “ascensão” do Senhor é um modo de falar do seu retorno para dentro do mistério da vida de Deus, de onde Ele voltará no fim dos tempos (“Esse Jesus que foi tirado de vocês e levado para o céu, virá do mesmo modo”). Isso, porém, não e motivo para ficarmos passivos (“Homens da Galiléia, por que vocês estão aí parados, olhando para o céu?”), mas para levar-nos a agir participando na missão de evangelizar, pois a vinda gloriosa de Jesus se realizará através do testemunho que dermos d'Ele.
Agora, trata-se de cumprir a missão de “serem as minhas testemunhas... até os extremos da terra”. Encerra-se o tempo de Jesus, começa o tempo da Igreja. Recebendo o mesmo Espírito que guiou toda a missão de Jesus (“o Espírito Santo descerá sobre vocês”), os apóstolos estarão preparados para testemunhar Jesus, continuando o que ele começou a fazer e ensinar. Essa é a tarefa apostólica de todos nós, cristãos, que fazemos parte da comunidade de Jesus. Através de nosso testemunho, Jesus ressuscitado continua presente e atuante dentro da história.
2ª leitura: Efésios 1,17-23
Neste trecho da carta aos Efésios, Paulo inclui uma oração de súplica pelos cristãos de Éfeso, uma confissão de fé em Jesus ressuscitado e exaltado como Senhor e uma definição da Igreja como sendo o Corpo Místico de Cristo.
São três temas importantes na teologia de Paulo. A necessidade de receber a luz do Espírito Santo para compreender o mistério de Deus e como é “grandioso poder com que ele age em favor de nós que acreditamos”. O poder do Pai, manifestado em Cristo, “quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita no céu” e o fato de Jesus ser “Cabeça da Igreja” que é “o seu corpo” místico, de forma que todos os que fomos batizados e formamos a Igreja somos, com Cristo, uma unidade perfeita.
Pela fé, os cristãos são chamados a possuir uma sabedoria que supera qualquer outro conhecimento. Por isso, Paulo pede a Deus que nos “ilumine os olhos da mente”, para que sejamos capazes de perceber como Deus se manifestou em Jesus Cristo para vencer tudo aquilo que aprisiona a vida, e libertar a humanidade para uma esperança nova diante do futuro.
Evangelho: Marcos 16,15-20
O texto do evangelho que lemos nesta liturgia é um acréscimo ao Evangelho de Marcos através do qual os cristãos da primeira geração, provavelmente, quiseram completar o livro de Marcos com um resumo das aparições de Jesus e uma apresentação global da missão da Igreja. O texto, porém, conserva o pensamento de Marcos e sempre foi considerado como inspirado por Deus.
“E agora, o que faremos”?
Essa seria a pergunta dos discípulos quando viram Jesus desaparecer de sua frente. Levavam longo tempo convivendo com Ele, estavam marcados por sua personalidade extraordinária, era o líder indiscutível e o amigo verdadeiro sempre a tomar as decisões importantes. Com certeza achariam não ter tido tempo suficiente para aprender a viver sem Ele, mesmo depois daqueles 40 dias após a ressurreição.
Chegou, porém, a hora de enfrentar-se às próprias responsabilidades e vencer o medo à liberdade. É verdade que Ele tinha dito “eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28,29), mas, mesmo assim, agora teriam que se eles a tomar as decisões. Precisariam da luz e força do Espírito Santo para continuar a transmitir o Evangelho.
Palavra de Deus na vida
Sabemos que a palavra “Evangelho” significa “Boa notícia”. O Evangelho de Jesus é a grande notícia para todos. Sem ele, nossa vida não teria sentido, nem valor, nem intensidade. De tal forma isto é verdade que, sem Jesus e o Evangelho, certamente não seriamos os mesmos, não teríamos a mesma forma de agir, de relacionar-nos e de amar os irmãos... Esta é a Grande Notícia que precisa ser divulgada. É o desejo de Jesus: ”Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”.
É como se o Evangelho se comunicasse por contagio. Jesus nos convida a sair de nós mesmos e olhar para o nosso mundo. A nossa missão é mostrar, com palavras e com a vida, o modelo que nos deixou de humanidade, de misericórdia, de capacidade de serviço, de solidariedade e, sobretudo, de coerência entre aquilo que anunciamos e o que realmente praticamos. Para consegui-lo, precisamos que o Espírito de Jesus nos acompanha e esteja sempre ao nosso lado para nos orientar.
A Ascensão do Senhor é o começo de um novo modo de presença de Jesus. Sua ausência física abre um tempo novo. É o tempo do testemunho para que a humanidade inteira experimente a salvação de Deus. Para isso, é preciso pregar o Evangelho a todos os povos, em todas as línguas, nas diversas culturas, para todas as pessoas, para todas as idades e para todos os públicos sem distinção.
Quando o Evangelho é proclamado na Missa, o sacerdote diz “Palavra da Salvação” porque é aquilo que o Senhor disse, o que Ele nos comunicou e nos deixou como herança. É o que o Senhor quer que captemos, interiorizemos e vivamos. Se esta é a tarefa que o Senhor nos confiou, não podemos decepcioná-lo. É uma missão sem limite de tempo nem de lugar. Ele começou e nós, seus seguidores, teremos de continuar. A missão de Jesus, recebida do Pai, é agora a nossa missão.
Acreditar ou não acreditar no Evangelho, já é responsabilidade dos ouvintes (“Quem acreditar e for batizado, será salvo. Quem não acreditar, será condenado”) de forma que, independentemente dos frutos conseguidos, o discípulo de Jesus que anuncia fielmente o Evangelho pode ter a certeza de ter cumprido a sua missão.
Pensando bem...
Não podemos guardar a Boa Noticia só para nós. Por isso hoje é, também, o Dia mundial das comunicações sociais. Hoje, como ontem, o anúncio da Boa Nova há de ir acompanhado de sinais de vida e libertação. Somos enviados a anunciar o amor de Deus para que a ternura, a libertação, o aconchego e a compreensão que as pessoas sentiam quando se aproximavam de Jesus continue animando a vida das pessoas. É o que hoje o mondo precisa e espera encontrar em nós, seus discípulos.
Na festa da Ascensão do Senhor somos convidados a elevar o nosso olhar e colocar nosso coração nos ideais mais sublimes. Em Cristo Salvador toda a humanidade se eleva em sua dignidade quando segue àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
padre Ciriaco Madrigal


"Vós, que descentes até nós pelo caminho do amor,
pelo mesmo caminho, fazei-nos subir até vós"
Hoje é o domingo da Ascensão do Senhor. Chegamos, hoje, a um momento muito importante dentro do tempo pascal. É uma festa que tem o seu sentido dentro do espírito que caracteriza estes cinqüentas dias de Páscoa. É bom lembrar que estamos vivenciamos dias de Páscoa e não após a Páscoa.
O mistério da Ascensão do Senhor significa "elevação, subida" também para nós, seus discípulos e discípulas missionários que têm como meta a evangelização. Ele elevou-se ao céu, não para afastar-se de nossa humanidade, mas para dar a todos nós a certeza de que nos conduzirá à gloria da imortalidade.
A Ascensão do Senhor está intimamente ligada à sua Ressurreição. É parte integrante desse movimento de volta do Senhor ao Pai. Depois de passar pelo túnel da morte, Ele volta ao Pai, abrindo para todos nós a possibilidade de ingressar no Reino definitivo. Nesse dia a nossa frágil natureza humana penetra na glória de Deus. O Senhor sobe aos céus para nos tornar participantes de sua divindade. Enquanto contemplamos o mistério da volta do Senhor ao Pai, ficamos sabendo que nossa missão é testemunhá-Lo no coração das realidades humanas.
Celebrando a elevação de Jesus à direita do Pai, não comemoramos uma despedida, mas um novo modo de Ele estar presente. Aquele que percorreu os caminhos deste mundo anunciando a Boa-Nova da salvação, no amor e na doação, é glorificado. Junto ao Pai, como nosso eterno mediador, Jesus continuará a acompanhar os discípulos e discípulas e, por meio deles, propor à humanidade vida nova e definitiva.
Primeira leitura - Atos 1,1-11
Lucas liga os Atos dos Apóstolos ao Evangelho que ele mesmo escreveu por um breve resumo (Atos 1,1-3). Neste resumo ele refere-se também às aparições de Jesus ressuscitado (versículo 3) e à Ascensão (v. 2c) já contadas no fim do Evangelho. Os outros evangelhos não falam que Jesus tinha aparecido durante quarenta dias. Com isso Lucas esboça as etapas da história da salvação: o tempo de Jesus "desde o começo do seu trabalho até o dia em que foi levado para o céu"; o tempo anterior a esta etapa que abrange a história do "povo de Israel" e que é o tempo da promessa e da esperança; o tempo posterior ao tempo de Jesus, que vai da ascensão até a volta no fim do mundo, é o tempo da Igreja.
Lucas atribui ao próprio Jesus ressuscitado a inauguração dos "Atos dos Apóstolos", isto é, do tempo e da história da Igreja. Para ele é de suma importância que seu segundo livro não comece com os discípulos desamparados e desorientados (cf. Lucas 24,17-21), mas com o Senhor ressuscitado que os procura e ensina durante quarenta dias sobre "o Reino de Deus" (v. 3; cf. o valor simbólico do número quarenta!). A ressurreição não é somente um fim glorioso da carreira terrestre de Jesus, mas ao mesmo tempo o fundamento salvador da Igreja. A missão salvadora dos apóstolos e da Igreja está intimamente ligada ao Jesus terrestre e glorificado, à Sua Palavra e à Sua obra (ao Seu "fazer e ensinar": Atos 1,1), ao Seu poder e à Sua missão.
Na versão dos Atos dos Apóstolos, a Ascensão aparece antes de tudo com a inauguração da missão da Igreja no mundo. Os quarenta dias (versículo 3) fixados por Lucas como a duração da estadia do Ressuscitado sobre a terra devem ser compreendidos no sentido de um último tempo de preparação (o número quarenta designa sempre um período de espera na Escritura): são uma medida proporcional e não cronológica. Com isso a ressurreição não constitui um limite, mas a preliminar de uma nova etapa do Reino: a sessão de Cristo à direita do Pai e a missão da Igreja pelo mundo afora. A esse respeito, é muito significativa a observação sobre os anjos convidando os apóstolos a não ficarem com os olhos fixos no céu (cf. v. 11).
 A imagem da nuvem não deve ser tomada num sentido material. Para Lucas, a nuvem é apenas o sinal da presença divina, como o foi sobre a Tenda de reunião e no templo de Jerusalém. De forma alguma trata-se de um fenômeno metereológico, mas de um acontecimento teológico: a entrada de Jesus de Nazaré na glória do Pai, e a certeza de sua presença no mundo. Jesus ressuscitado é, de agora em diante, o lugar da presença de Deus no mundo, o único lugar sagrado da nova humanidade.
A idéia de separação e de ruptura ainda reforçada pela afirmação de que não cabe aos homens conhecerem o fim de sua história (v. 7) e pelo apelo dos apóstolos ao realismo do qual queriam fugir (v. 11). Sem dúvida Lucas quer mostrar que Cristo só pode separar-se de pessoas que só pensam no estabelecimento imediata do Reino (v. 6) e que só está presente naqueles que aceitam o longo caminhar que passa pela missão e pelo serviço a favor da humanidade (v. 8). Quer mostrar também que, para começar sua missão, é preciso que a Igreja rompa com Cristo carnal. Não podemos mais, de agora em diante, nos unir a Cristo a não ser por intermédio dos apóstolos revestidos do Espírito de Cristo. É, pois, uma maneira de ver a Igreja que se esforça depois da insistência de Lucas sobre a separação entre Jesus e os cristãos.
A efusão do Espírito Santo (v. 5) ainda não é o fim nem o início do fim dos tempos e do pleno desabrochar do Reino. O Reino não somente abrangerá o povo de Israel, mas todos os povos. A preocupação para conhecer o fim dos tempos é, pois, substituída pela preocupação de levar o Evangelho "até os confins do mundo" (cf. Marcos 13,10; Mateus 24,14). Lucas não nega a segunda vinda em glória (v. 11c), mas não toca mais no problema da preocupação com a data da mesma.
Salmo responsorial - 46/47,2-3.6-9
No princípio, este Salmo acompanhava a Arca da Aliança na procissão para o Templo de Jerusalém. A entronização no Templo evocava o senhorio de Deus sobre Israel, sobre todos os povos e sobre todo o universo. A aplicação litúrgica à realeza universal de Cristo é legítima.
É o primeiro Salmo que celebra a realeza do Senhor. Recorda quatro vezes que o Senhor é Rei (vs. 3.7.8.9) não sé de Israel, mas do mundo inteiro (vs. 3.8.9). A palavra Deus aparece sete vezes. Freqüentemente esse número significa totalidade, Deus, portanto, é o rei de toda a terra.
O rosto de Deus no Salmo 46/47. Deus Altíssimo é terrível e grande rei sobre toda a terra (v. 3), submetendo nações e povos. O Salmo engrandece a realeza de Deus sobre toda a terra.
Olhando para Jesus, o salmo 46/47 adquire rumo e cores novas. Jesus mudou completamente o sentido da realeza, dando nova orientação ao exercício do poder. Ele é rei universal, mas sua subida foi para a cruz, para dar vida a todos (João 10,10). E é a partir da cruz que atrai todos para si, como réu universal (João 12,32). Como grão de trigo que morre para produzir fruto (João 12,24), ressuscita e volta ao Pai, tornando-se caminho para a humanidade que procura a vida (João 14,6).
Cantemos, neste salmo, o poder do Senhor que se revela em Jesus Cristo, conduzindo o mundo inteiro no seu plano de amor para que todos tenham vida em plenitude.
Segunda leitura - Efésios 1,17-23
A sabedoria que Paulo pede a Deus para seus correspondentes (v. 17) é este dom sobrenatural já conhecido dos sábios do Antigo Testamento (cf. Provérbios 3,13-18), mas consideravelmente ampliado na sua definição cristã: ela não é somente a prática da lei, o conhecimento da vontade divina sobre o mundo; não é mais uma explicação do mundo, mas a revelação do destino de um homem (v. 17) e da herança da glória que dela resulta (Efésios 1,14), tão contrastante com a miséria da existência humana (Romanos 8,20); enfim, ela é a descoberta do poder de Deus, já manifestado na ressurreição de Cristo (v. 20), garantia de nossa própria transfiguração.
Paulo se detém um pouco na contemplação deste poder divino. Este poder não é mais somente o que Deus revelou para criar a terra e impor-lhe suas vontades (Jó 38): ele inverte mesmo estas leis, pois é capaz de mudar um crucificado em Senhor ressuscitado (v. 21a) e de organizar, desde já, as estruturas do mundo que virá (v. 21b). Neste sentido, a sabedoria é uma esperança (v. 18), pois é confiança na ação de Deus de Jesus Cristo no mundo.
Mas o poder de Deus não reserva apenas para o futuro a manifestação de seu vigor: desde agora, tudo é realizado por ele, que colocou Cristo como cabeça de todos os homens e mulheres no mistério mesmo da Igreja, sua plenitude (vs. 22-23). Paulo pediu para os cristãos da comunidade de Éfeso o dom da sabedoria, a fim de que eles compreendessem com prioridade como a Igreja é sinal deste poder de Deus desvendado em Jesus Cristo. Com efeito, é um privilégio extraordinário para a Igreja ter por chefe o Senhor do universo e ser seu corpo.
Os cristãos têm a esperança de participar na glória de Cristo, porque Ele venceu todas as barreiras e poderes contrários que possam ameaçar a plena realização desta vocação (Efésios 1,21-22a). Porque os cristãos pertencem à Igreja, que é tão repleta de Cristo e de Seu Espírito que pode ser chamada Seu Corpo de que Ele é a cabeça. Desta cabeça, através do Corpo que é a Igreja, a plenitude de Deus há de se expandir sobre tudo que existe, para que, reunindo tudo em Cristo como cabeça, se realize a plenitude dos tempos ou da história (cf. Efésios 1,10).
Evangelho - Marcos 16,15-20
Os discípulos são enviados a pregar. Tanto aqui em Marcos com em Mateus 28,16-20 e Lucas 24,47, o mandato apostólico acompanha a aparição pascal do Senhor Ressuscitado. Os milagres que acompanharão a pregação revelam uma experiência da Igreja missionária: a dos carismas. As curas, as maravilhas ai citados acontecem também nos Atos dos Apóstolos. São eles: expulsar demônios, falar novas línguas, manusear ou caminhar sobre serpentes e beber veneno sem ser afetado (cf. Lucas 10,19). Beber veneno, pegar em serpentes, etc..., são símbolos da extraordinária força e coragem dos discípulos de Cristo na sua missão evangélica. Na autorização fica claro o universalismo cristão entre os pagãos, universalismo que em Marcos prova ser coisa pacífica em Roma, em comunidade formada de ex-pagãos, aliás em germe em Marcos 7,27 e 13,10. A cura material dos enfermos pela unção com óleo tornou-se um sinal do poder sobre as enfermidades dado aos apóstolos, é Jesus que opta pelos que sofrem. Os carismas não são diretamente para confirmar a fé que está sendo anunciada, mas um dom aos crentes, embora com valor de defesa secundário.
"Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus, foi levado ao céu e sentou-se à direita de Deus". Sentar-se à direita de Deus é expressão semita e significa estar na mesma esfera divina e participar de seu poder divino.
Este expressão à direita de Deus vem do uso que a Igreja primitiva fez dos salmos 117/118,16 para convencer os judeus da Ressurreição de Cristo com provas das Sagradas Escrituras (cf. Atos 4,11; 1Pedro 2,7; Mateus 21,9.42; 23,39; Lucas 13,35; Hebreus 13,6). Esta citação é principalmente reproduzida num contexto de exaltação do Servo sofredor.
Mas sentar á direita de Deus pode ter uma significação messiânica, inspirando-se, então, no Salmo 109/110, outro salmo freqüente na catequese da Igreja primitiva que afirmava assim, que a obra messiânica de Jesus não terminava com a sua morte, mas tomava, ao contrário, um novo impulso para além desta morte (Mateus 22,44; 26,64; Atos 7,55-56; Romanos 8,34; 1 Pedro 3,22).
Enfim, este tema provavelmente tem ressonâncias sacerdotais, a julgarmos pela abundância das referencias a Ele feitas pela carta aos hebreus (Hebreus 1,3.13; 1,8.10.12; 12,2; 13,6). A atitude do sacerdote é a atitude de pé. Estar sentado, para Cristo, significa, pois, que seu ato sacerdotal terminou e que Ele foi do agrado de Deus. Não há mais, então, sacrifício válido sobre a terra: o culto se tornou caduco pelo sacerdócio de Jesus.
Não basta conhecer o Evangelho. É necessário incorporar-se no Reino pelo batismo. "Batizar" do grego (baptízo) não é apenas "submergir-se" (bápto), senão também "lavar"/purificar" (Lucas 11,38; Marcos 7,14). Além de pregar o Evangelho, é preciso batizar, para que as pessoas se purifiquem, produzindo um "novo nascimento" espiritual (João 3,5s). Para Paulo, o batismo leva o cristão a con-viver com Cristo, a incorporar-se a Ele (Romanos 6,8). O banho batismal deve fazer-se em nome das Três Pessoas Divinas, a Santíssima Trindade (Mateus 28,19). Batizar "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo - o que sugere uma purificação e uma consagração do fiel à Trindade. "Em nome de" expressa também autoridade.
Da palavra celebrada ao cotidiano da vida
Não podemos esquecer que a ascensão de Cristo está intimamente ligada com a sua Ressurreição. É parte integrante desse movimento de volta do Cristo ao Pai. Depois de passar pelo túnel da morte, Ele volta ao Pai, abrindo para nós a possibilidade de ingressar no Reino definitivo. Neste dia a nossa frágil natureza humana penetra na glória de Deus. Cristo sobe aos céus para nos tornar participantes de sua divindade. Enquanto contemplamos o mistério da volta de Cristo ao Pai, precisamos tomar consciência que nossa missão é testemunhá-lo no coração no coração das realidades humanas.
A teologia da Ascensão, mais ainda que a da Ressurreição, exige que se supere adequadamente a sua representação sensível. Antes de tudo é preciso saber que ela se insere no Mistério Pascal. Pode-se dizer que a Páscoa é um movimento dotado de três momentos: o primeiro, a Ressurreição em sentido restrito, consiste na superação do Poder da Morte e, portanto, na dissolução deste, o que, em termos afirmativos, pode conceber-se como Nova Criação. Isto aparece claramente no segundo movimento, consiste na manifestação do Senhor Ressuscitado: a Vida que então brota manifesta-se divina e, com isto, põe em questão a sua própria visibilidade (cf. João 20,19-28). Esta se supera na Ascensão, mas esta superação é apenas um aspecto deste terceiro momento do Mistério Pascal: o essencial deste é revelar a Vida Divina, agora humanizada, de volta ao Pai e, portanto, reintegrando a todos nós na esfera originária do Divino e, agora, não mais como intenção, mas segundo a forma efetiva que lhe é dada pela Ressurreição. É como terceiro momento do Mistério Pascal e, portanto, na unidade deste, que a Ascensão deve ser compreendida.
Quem é fiel ao projeto do Pai, vai ser "elevado", isto é, terá vida plena e glorificada junto à Trindade. Quem percorre o mesmo "caminho" de Jesus subirá, como Ele, á vida plena. A Igreja tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou? O nosso testemunho tem transformado a realidade que nos rodeia? É relativamente freqüente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu e só louvar do que se comprometerem na transformação do mundo. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos seres humanos, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os seres humanos, particularmente com aqueles que sofrem?
a) A oração. Que significa abrir o coração a Jesus ressuscitado e estreita os nossos laços amorosos com Ele. Isso requer duas atitudes que, em nossa vida, encontram a sua síntese: uma atitude de oração e uma atitude de ação. Deus não é a nossa subjetividade ou uma sensação psicológica. Deus é uma pessoa e, como tal, entramos em relação com Ele assim como nos relacionamos com as pessoas a quem amamos: conversando, criando laços, partilhando intimidade. Eis a prática da oração. A oração é o nosso momento de diálogo e abertura com Cristo. Quando rezamos, deixamos que o Espírito dilate o nosso coração para que possamos, aí dentro, apreender, na fé, a presença inexplicável de Deus. Por isso, o cristão que não reza é como um marido que não dialoga com sua esposa. Aos poucos, um se fecha ao outro, e a relação vai esvaziando-se. Quando rezamos, somos como a terra que, sob a chuva, se abre para fecundar a semente. Como diz Maria, nessa abertura orante, Deus realiza em nós maravilhas...
b) A ação. A atitude da ação é conseqüência, também causa, da nossa atitude de oração. Esta nos torna mais sensíveis à presença do Senhor ressuscitado em tudo que é a negação do "céu" e se nos apresenta como sinal do "inferno": a fome, a tortura, o desemprego, o egoísmo, a indiferença pelas pessoas, as doenças sem tratamento, as guerras, o terrorismo e tantos outros males que assolam a humanidade. É aí que o Senhor quer ser encontrado, servido e amado, para que possamos transformar esse "inferno", fruto do pecado estruturado e historizado no sistema capitalista, em "céu", ou seja, em realidade justa, livre e verdadeira.
 Há uma definição de inferno dada pelo escritor russo Dostoievski, que permanece atual: "O inferno é a ausência de amor". Amar não é apenas querer bem uma pessoa. É querer bem todas as pessoas, principalmente estes que mais necessitam do nosso amor, da nossa doação, da nossa luta: os trabalhadores oprimidos por uma ordem social que procura preservar a divisão dos homens e mulheres em diferentes classes sociais. Se, de alguma forma, nos voltamos para as causas dos trabalhadores ou, como tais, assumimos as aspirações de nossa classe, estamos fazendo o que Jesus fez: subindo da terra ao céu, isto é, superando os sinais de pecado, as forças da morte e implantando essa realidade nova e justa que é o pré anuncio do Reino que está prometido pelo Pai. Portanto há em nossa vida um movimento de "ascensão", todas as vezes que procuramos quebrar as barreiras do pecado, da injustiça, da morte, para que as pessoas tenham a vida e a vida em abundância, como diz Jesus no Evangelho de João (10,10).
 Na carta aos Efésios é dito que Jesus "está acima de todas as autoridades que existem neste mundo". Eis o grande desafio lançado pela Igreja primitiva: obedecer antes a Deus que aos homens. Para nós, cristãos, as determinações humanas são válidas na medida em que não contrariam as exigências de nossa fé e os imperativos de nossa caridade. Não podemos obedecer uma autoridade que pretende ser mais sábia que Deus e mais poderosa que o Cristo Senhor. A presença ressuscitada de Jesus aparece, hoje, nos sinais de justiça, de liberdade, de amor, que vemos em cada pessoa, nos movimentos sociais que lutam por uma justa reforma agrária e pão, liberdade, por terra nos centros urbanos, por moradia...
Como ouvimos na segunda leitura, dizer que fazemos parte do "corpo de Cristo" significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que, nessa comunhão, recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos e irmãs, membros do mesmo "corpo" alimentados pela mesma vida. Paulo implora aos cristãos de Éfeso a graça do conhecimento do mistério de Deus. Participando deste segredo, saibamos perceber a riqueza da nossa fé comprometida com a comunidade e também com as lutas sociais.
É oportuno citar uma homilia de Santo Agostinho, bispo do século V, para a festa de hoje:
Hoje, nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba também com Ele o nosso coração. Ouçamos as palavras do Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres" (Colossenses 3,1-2). Assim como ele subiu sem se afastar de nós, também nós subimos com Ele, embora não se tenha realizado ainda em nosso corpo o que nos está prometido. Cristo já foi levado ao mais alto dos céus; contudo continua sofrendo na terra através das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Dou testemunho dessa verdade quando se fez ouvir lá no céu: Saulo, Saulo, por que me persegues?" (Atos 9,4). E ainda: "Eu estava com fome e me destes de comer" (Mateus 25,35).
Cristo está no céu, mas também está conosco. Nós, mesmo permanecendo na terra, estamos também com Ele. Por sua divindade, por seu poder e por seu amor Ele está conosco. Embora não possamos realizar isso pela divindade, como Ele, ao menos podemos realizar pelo amor que temos pra com Ele.
Existe a unidade entre Cristo, nossa cabeça, e nós, seu corpo. Ninguém senão Ele poderia realizar esta unidade que nos identifica com Ele mesmo, pois tornou-se Filho do Homem por nossa causa, e nós, por meio Dele, nos tornamos filhos de Deus.
Contando os últimos dias da presença de Jesus entre os seus, Lucas quer chamar a atenção para a última palavra de Jesus. Escutando-a, sejamos enviados tal como os apóstolos.
O mistério da Ascensão do Senhor nos mergulha no mistério da Aliança que existe entre o céu e a terra, entre o divino e o humano. Santo Agostinho diz que "Jesus Cristo não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afastou de nós quando subiu novamente ao céu". Ele, por sua misericórdia, mergulhou até o fundo da nossa condição humana e, depois, subiu ao céu levando a humanidade consigo, fazendo-nos participar desse mistério da Ascensão.
A assembléia eucarística da Ascensão aprofunda a fé na divindade do Senhor Jesus. Mas é uma fé de companheiro de Deus: ela colabora com ele na espiritualização do universo, não sem lentidão e despojamento, pois este projeto só pode ser realizado em plenitude para depois da morte. A eucaristia também é o meio através do qual a Igreja se encontra com seu Senhor na oração de intercessão que Ele que não desiste de formular para todos os seres humanos diante do trono de seu Pai.
A palavra se faz celebração
O assentimento do Pai
Festejar a "volta" de Jesus para o Pai, longe de nos entristecer, alegra-nos, pois se trata da festa do assentimento do Pai à experiência terrena de Jesus. É uma espécie de pronunciamento de Deus acerca do itinerário pascal de Jesus, reconhecendo-lhe finalmente como Filho com toda pompa e circunstância (isto literalmente, o que é óbvio pelas narrativas lucanas). No âmbito da experiência ritual, podemos perceber que a fazemos em toda Eucaristia, quando nosso coração a Deus se eleva, tornando-se coração filial, pois só a partir de tal posição (de filhos no Filho) podemos dar graças a Deus: Corações ao alto! Nosso coração está em Deus! A experiência da ascensão nos alcança cada vez que fazemos a Eucaristia (a anáfora): "Assim, o que na vida do nosso Redentor era visível passou aos ritos sacramentais".
Ressurreição e Ascensão
Em toda celebração Eucarística fazemos memória da Ascensão do Senhor. Na maioria das orações Eucarísticas ela é recordada explícita ou implicitamente. A Ascensão junto com o Pentecostes são facetas de um só acontecimento que é a Páscoa de Jesus. Nós o desmembramos para melhor celebrar cada aspecto.
No caso da Ascensão, o aspecto nos é clarificado pela oração depois da comunhão, que retoma o significado do diálogo invitatório da oração eucarística: "Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis viver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós nossa humanidade".
A experiência litúrgica da assembléia consta, toda ela, progressivamente, de pôr o coração em Deus no sentido de decidir e agir de seu lugar, da sua direita, pois em Jesus já estamos eternamente ao lado do Pai. A Eucaristia celebrada pela comunidade é fundamental para assegurar que estamos, porém, agindo conforme o coração de Deus que nos visita em seu filho Ressuscitado (cf. Benedictus, como canto de comunhão para o tempo pascal). O itinerário quaresmal transformou o nosso coração de pedra em coração de carne, coração de filhos no Filho!
Ligando a palavra com a ação eucarística
Ao celebrarmos a memória da Ascensão de Jesus aos céus, entramos no sentido mais profundo da sua ressurreição e da missão que Ele nos confiou. Paulo nos diz que o Pai exaltou Jesus como Senhor do céu e da terra. Deus fez dele a plenitude de tudo o que existe. Nele, todos os elementos do universo encontram unidade e sentido.
 Neste sentido, agradecendo a Deus essa elevação sagrada de todo o universo com Jesus, recebemos de Deus a confirmação de que nós todos, seres humanos, fomos, com Ele, introduzidos na intimidade definitiva de Deus. Com Maria e os apóstolos, aguardamos a força do alto, conforme a promessa de Jesus. Fazemos isso em comunhão com todas as Igrejas cristãs, iniciando, hoje, a novena de Pentecostes e a Semana de oração pela unidade dos cristãos.
Atentos às orações litúrgicas da festa de hoje, veneramos ai, presentes em forma de oração, o que significa a festa da Ascensão do Senhor: "já é nossa vitória"; "comunhão de dons entre o céu e a terra" (sobre as oferendas); "subiu para tornar-nos participantes da sua divindade" (prefácio II); "no céu está a nossa humanidade" (após a comunhão); e "subiu para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade" (prefácio I).
Para nós, ministros e assembléia, esta festa significa afirmar que somos membros de seu corpo, chamados na esperança a participar de sua glória (coleta).
Celebramos, portanto, com os corações voltados para o alto (após a comunhão), transbordando de alegria pascal (prefácio I).
padre Benedito Mazeti



"Novo homem"
Meu grupo imaginário de debatedores do evangelho aspirantes a teólogos, se reuniu para refletir o evangelho desse domingo, festa da Ascensão do Senhor. O Mota, que é o homem encarregado de comprar as hóstias e partículas da paróquia deu início a conversa. “Bom, nessa não caio mais, a apoteótica subida de Jesus ao céu é coisa secundária, os holofotes estão voltados para os discípulos, que recebem a missão, que será acompanhada de sinais prodigiosos”. Certo? Nem mal havia perguntado, o Ernesto, aquele que é líder em uma empresa, retrucou: “Epa! Se é festa da ascensão, a cena principal é Jesus subindo ao céu, pode conferir, vamos ver aqui...” O grupo abriu o Novo Testamento e a Dona Maria, empregada doméstica, observou “Olha, acho que esqueceram de avisar o Marcos que esse domingo é a festa da ascensão, tem três ou quatro palavras dizendo que Jesus foi elevado ao céu e mais nada”
E antes que o grupo esquentasse ainda mais a conversa, eu convidei todos a lerem o capítulo 16 , onde está inserido esse evangelho. A constatação foi a que eu já esperava “Se a ascensão fosse uma prova final, os coitados dos discípulos tomariam zero e seriam reprovados...” - comentou a catequista Roseli. De fato, o quadro que Marcos descreve, antes desse evangelho é meio tenebroso, as mulheres cheias de medo não disseram nada a ninguém, embora tivessem recebido do jovem vestido de branco, a missão de anunciar aos discípulos, Maria de Magdala até que anunciou aos discípulos, mas eles estavam aflitos e choravam, ouviram dizer que Jesus estava vivo, porque ela o tinha visto, mas não acreditaram. Quanto aqueles dois na estrada de Emaús, demorou para “cair a ficha” e perceber que Jesus caminhava com eles, daí foram anunciar ao restante, mas eles duvidaram. Quando Jesus se manifestou aos onze censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, por não darem crédito ao anúncio. “É isso aí, tomaram a maior esfrega, foi bem feito!” – concluiu o Ernesto.  “Eu é que não seria louco de confiar uma missão tão importante a um grupo desse!” – exclamou o Mota decepcionado.
Os discípulos não tinham poderes sobrenaturais, Jesus não confiou a missão a super-homens, o texto anterior nos mostra isso, e aí é que está o bonito da história, nós também muitas vezes temos dúvidas, não acreditamos, e diante de certos acontecimentos, demora para “cair a nossa ficha”, por isso a ascensão de Jesus marca o início da missão da  Igreja,  e daí a gente começa a se ver nesse evangelho, e principalmente no relato de Lucas em Atos, primeira leitura, quando vivenciamos uma fé da magia e ficamos olhando para o céu, esperando que Jesus volte para consertar tudo o que está errado.
“Olha, confesso que estou meio boiando” – comentou o Mota. “se é a Festa da Ascensão, ou em outras palavras, é a festa da subida de Jesus ao céu, é a sua volta para o Pai, como então descartarmos aquilo que no evangelho parece essencial?”, perguntou a esperta Roseli. De alguém que subiu na vida., a gente afirma que está em ascensão, na encarnação Jesus desceu, e esvaziando-se de si mesmo rebaixou-se á condição de escravo ao morrer na cruz, mas estando no fundo do poço, como podemos dizer, ele fez da condição humana o ponto de apoio para subir e alcançar a glória no mais alto do céu.
E assim, a natureza humana tão frágil e decaída, dominada pelo mal, se vê resgatada em sua dignidade maior, porque o Divino vem ao encontro do humano e se entrelaça na comunhão. Em Jesus toda a humanidade sobe, porque o céu se abre, o ser humano atinge a sua plenitude resgatando o paraíso do Eden que havia perdido. “Então esse “Sobe e Desce” de Jesus, nos evangelhos é apenas uma força de expressão?” – perguntou o Ernesto.
Na verdade Jesus nunca saiu do lado do Pai, mas também nunca nos deixou, esse entrelaçamento do Divino e humano, por livre iniciativa de Deus, é o mistério do Verbo encarnado, onde uma pessoa histórica e real, Jesus de Nazaré, dá um novo significado á vida do homem, trazendo aquele paraíso que perdemos, aqui dentro de nós e podemos falar sem medo, que festa da ascensão é a nova criação que agora se concretiza e se realiza em toda a humanidade, através de Jesus de Nazaré.
O anúncio do evangelho é exatamente essa Boa Nova, de que todo o homem é em Cristo nova Criatura, redimida, liberta e salva, destinada á comunhão plena com Deus em seu paraíso, e desta vez não há o perigo de sermos ludibriados pela serpente, fomos vacinados com a graça de Deus que recebemos no santo batismo.
O mundo inteiro precisa saber dessa Boa Nova, é essa precisamente a missão primária da nossa Igreja, acreditar que o anúncio é verdadeiro, e ser batizado, é condição essencial para quem quer passar por essa renovação espiritual que chamamos de salvação, onde somos configurados a Cristo e com ele já estamos no céu, mesmo ainda estando a caminho, por esta vida terrena. Se ele é a cabeça e nós os membros, não há como duvidar disso, pois o corpo forma uma unidade da qual a nossa Igreja é a expressão mais fiel. É por esta razão que o Senhor age com o discípulo, e confirma a palavra, por meio dos sinais, atestando a sua autenticidade, mesmo vindo de homens tão frágeis como todos nós. É a chancela, o carimbo de aprovação, que o Espírito imprime em nossa missão.
diácono José da Cruz



1 – "Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também (Jo 14,1-3).
O amor tende a permanecer, como refletíamos no domingo passado. Quem ama quer estar com a pessoa amada até ao fim da vida. Mais, quereria permanecer com ela até ao fim dos tempos. O amor de Deus para conosco, dá-nos um rosto, uma pessoa de carne e osso, Jesus Cristo. Espelhando o amor de Deus Pai logo Jesus Se predispõe a fazer tudo para nos inserir no projeto de amor divino, até a dar a vida por nós. Antes de partir, contudo, Jesus assegura o Seu permanecer até ao fim. Na Última Ceia deixa-nos o memorial da Sua morte e ressurreição, e depois da Ressurreição dá-nos o Espírito Santo, para que o Espírito O torne presente até à vida eterna. É a garantia das Suas palavras.
A desilusão dá lugar à alegria e à esperança. Jesus apresenta-Se vivo no meio dos seus discípulos, cumprindo a promessa. Diz-nos São Lucas, nos Atos dos Apóstolos: "Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus... recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos".
Jesus recorda-lhes as palavras que lhes havia dito anteriormente sobre o reino de Deus e sobre a missão que lhes caberá em sorte. Não promete ausência de dificuldades, mas a Sua permanência, podem, podemos, contar com Ele, não nos deixa órfãos, dá-nos com abundância o Seu Espírito de amor. Liga-nos, não por telemóvel ou pela internet, mas pela Palavra e pelos sacramentos que nos deixa e pelas pessoas que coloca na nossa vida.
2 – Em forma de bênção, e de súplica, o apóstolo são Paulo, na segunda leitura que escutamos, pede ao Pai que nos dê o Espírito para reconhecermos Jesus e O acolhermos na nossa vida quotidiana.
Atentemos às palavras do apóstolo: "O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos".
Só no Espírito Santo poderemos abranger a grandeza do mistério que Deus nos revelou por Jesus Cristo, a beleza da nossa filiação divina, da nossa fraternidade cristã, da nossa atração para a eternidade onde se encontra a nossa natureza humana, na humana natureza de Jesus Cristo. Com a Sua ressurreição/ascensão aos Céus, Jesus elevou-nos consigo. Somos Igreja, Corpo de Cristo. Ele a cabeça, nós os membros; Ele o Bom pastor, nós o rebanho; Ele a verdadeira vide, nós os ramos.
3 – O Espírito de Deus é-nos dado para nos transfigurar, para nos tornar verdadeiramente filhos de Deus, irmãos em Jesus Cristo. Mas existe nesta dádiva também uma dimensão instrumental, rejeitando toda e qualquer forma de egoísmo e vanglória.
O Espírito Santo e os dons que com Ele recebemos, movem-nos para o bem, para a verdade, e para a caridade. Não são para auto regozijo, mas para que em nós e por nós brilhe o esplendor da misericórdia divina. Destarte, recusam-se as falsas contemplações de Deus, como se pode constatar na primeira leitura e no Evangelho deste domingo.
Ao narrar a Ascensão de Jesus, o autor dos Atos dos Apóstolos vinca com insistência a necessidade, melhor, a urgência de ir ao encontro de Jesus no mundo real e concreto das pessoas. 
Alguns dos seus contemporâneos esperavam a manifestação gloriosa de Jesus, descomprometendo-se com o mundo e com os outros. A narração da Ascensão mostra como Jesus Se esconde por detrás das nuvens, para que a tentação de pasmar diante do Céu se ultrapasse pela missão.
"E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu»".
Com a mesma clareza, o Evangelho de são Marcos revela-nos que a ascensão de Jesus dá lugar, sem tempos de espera, à missão dos apóstolos: "Jesus apareceu aos onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado...» E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam".
Hoje, aqui e agora, os apóstolos somos nós. Não nos fixemos nas nuvens, mas em Deus a Quem podemos encontrar nas pessoas que fazem parte da nossa família e da nossa comunidade, e da sociedade do nosso mundo.
padre Manuel Gonçalves



Ide por todo o mundo e proclamai o evangelho a toda a criatura
1ª leitura: Atos dos Apóstolos 1, 1-11
A Ascensão
1. Esta é a primeira leitura da festa do Senhor que nos descreve este acontecimento, quase inexplicável, conhecido como a "Ascensão", um termo que foi entendido como complemento de algo que ocorre na Ressurreição de Jesus; como se durante quarenta dias Jesus Ressuscitado tivesse passado agradavelmente o tempo, neste mundo. Para quê? Na visão particular de Lucas, o autor dos Actos, para consolidar a fé dos seus discípulos com o objectivo de os tornar fortalecidos na missão apostólica que os deveria levar até aos confins da terra, pregando e fazendo discípulos.
2. Na realidade, a Ascensão não é algo diferente da Ressurreição, porque é na Ressurreição que Jesus recebe o poder e a glória de Senhor do Universo. Pela mesma razão, no livro dos Actos, vem a significar o final de uma etapa de experiências muito especiais do Senhor Ressuscitado: Agora é o momento de a Igreja poder empreender uma nova tarefa na qual será guiada pelo Espírito. Pela mesma razão, chega ao fim o tempo litúrgico da Ressurreição, como podemos verificar na festa de hoje, embora não signifique que o Senhor se desinteresse de nós e deste mundo. A cena dos discípulos que olham para o céu vendo como o seu Senhor desaparece, evoca, para Lucas, a necessidade de olhar para o mundo, para a história, para a transformar, porque esse Senhor  ajudará sempre os seus, através do seu Espírito para cuja festa nos preparamos desde já hoje.
3. É um texto que também, numa pedagogia muito particular, quer realçar uma "ruptura" com os seus, com os que tiveram de refazer a sua vida depois dos acontecimentos da Páscoa, para lhes fazer compreender o papel que têm de desempenhar neste mundo e nesta história. Embora seja verdade que falamos de "Ascensão" em termos cristológicos, não podemos esquecer que a Ascensão aponta para a eclesiologia da tarefa de pregar e anunciar a salvação a todos os homens. É bem verdade que há uma promessa, a ajuda da força do alto onde Ele se infunde para levar avante este compromisso. Talvez essa seja a razão pela qual Lucas se tenha visto na obrigação de desdobrar o mistério da Ressurreição e da Ascensão com aqueles "quarenta dias" que são mais um tempo teológico que cronológico. É um tempo para nos enchermos da força da Páscoa e, depois, com a ajuda do Espírito, lançarmo-nos na missão.
2ª leitura: Efésios 4,1-13
A nossa vocação cristã
1. A segunda leitura mostra-nos uma das chaves da comunidade cristã: a unidade no Espírito de uma mesma fé e de uma mesma esperança e, consequentemente, do amor. Esta passagem tem um cunho baptismal, litúrgico, no qual os novos cristãos são instruídos sobre a sua decisão de receber o baptismo para fazerem parte do "Corpo de Cristo", da Igreja, que tem a sua força no Espírito. A Carta fala-nos da vocação a que fomos chamados na Igreja, que é um dos temas dominantes deste documento do Novo Testamento.
2. A aclamação e doxologia de "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" ressoa, ainda, nos nossos cânticos como um dos textos mais bem formulados do cristianismo primitivo. A Igreja de que estamos a falar está em Cristo por meio dos apóstolos e dos profetas, que são ministérios de evangelização. Na Igreja, pois, recebemos o Evangelho, nela conhecemos o Senhor da nossa vida e nela devemos viver a experiência da salvação neste mundo.
Evangelho: Marcos (16, 15-20)
O Evangelho de hoje é uma espécie de síntese do que sucedeu a Jesus a partir da Ressurreição, síntese que alguém acrescentou ao Evangelho de Marcos quando já estava terminado. Isto é hoje claramente reconhecido pelo seu estilo e, inclusive, pela sua teologia. Fala da Ascensão segundo o que escutámos no texto dos Actos. Mas o que verdadeiramente chama à atenção deste Evangelho é a incumbência da missão do Ressuscitado aos seus Apóstolos para que façam discípulos em todas as partes do mundo. Esta missão é descrita da mesma maneira que Jesus a pôs em prática no mesmo Evangelho de Marcos. Ele é, portanto, o modelo da nossa pregação e dos nossos compromissos cristãos. O Reino, agora, torna-se presente quando os seus discípulos se empenham, como Jesus, em vencer o mal deste mundo e em tornar realidade a libertação de todas as situações angustiosas da vida por meio do Evangelho.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro










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