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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 5 de junho de 2018

10º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano B





10º DOMINGO TEMPO COMUM

Ano B

Evangelho Mc 3,20-35


Deus é amor e bondade infinita, portanto Ele perdoa todos os nossos pecados? Sim. Com exceção de um.    Continuar lendo


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“... QUEM BLASFEMAR CONTRA O ESPÍRITO SANTO NUNCA SERÁ PERDOADO...”  Olivia Coutinho
10º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 10 de Junho de 2018

Evangelho de Mc3,20-35

O mundo continua rejeitando a proposta de Jesus, não querendo  enxergar a verdade que liberta, preferindo permanecer na escuridão do pecado.
Numa sociedade indiferente a Deus, a vida é fragmentada, não existe unidade, não há relação humana, o que há mesmo, é um amontoado de pessoas, sem ideais, cada uma vivendo pra si, se contentando com  prazeres momentâneos.
Como seguidores de Jesus, temos que estar sempre atentos, para não nos contaminarmos com esta postura contrária ao valores do evangelho, o contratestemunho, que pode nos levar a perder a noção do que é pecado, nos convencendo, de que  o errado é que é o certo.  
A todo instante, Jesus nos  chama à conversão, para atendermos a  este seu apelo,  precisamos estar abertos a ação do Espírito Santo, pois é o Espírito Santo, que fala à nossa consciência, nos  conscientizando dos nossos erros e simultaneamente, da nossa necessidade de conversão.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, nos mostra que os Mestres da lei, mesmo tendo testemunhado os milagres realizados por Jesus, não quiseram enxergá-lo com o Messias, o Filho de Deus.
Dispostos a denegrir a imagem de Jesus diante o povo,  eles chegaram ao ponto de dizer que Jesus estava possuído pelo o poder do mal, confundindo até mesmo os seus  familiares, que quiseram agarrá-lo, pensando que Ele estivesse mesmo fora de si.
Ao dizer que Jesus estava possuído por Belzebu, os mestres da lei que haviam vindo de Jerusalém, com o único objetivo de  investigar Jesus, cometeram  uma ofensa gravíssima à Deus, o  pecado contra o Espírito Santo, que é o pecado da negação.
Como podemos perceber, Jesus enfrentou muitos desafios para colocar em prática o projeto de Deus, pois foram muitos, os adversários deste projeto de vida nova para todos!
Jesus era humano e Divino, mas em toda situação que lhe exigia uma tomada de posição, era sempre o seu lado Divino que prevalecia. Podemos perceber isso claramente na parte final do evangelho, quando, ao ser informado que a sua mãe e seus irmãos, ou seja, os seus familiares, queriam lhe falar, Ele não afastou da multidão para atendê-los, não interrompeu a sua missão Divina junto àqueles que o Pai lhe confiara, para atender a sua família de sangue, demonstrando assim, uma atenção igualitária para com todos!
"Todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe"! Com essas palavras, Jesus não desconsiderou os seus irmãos (parentes) e muito menos a sua Mãe, pelo contrário, Ele a elevou, pois ninguém mais do que Maria, fazia a vontade do Pai!
Maria se colocou como serva de Deus, desde o anuncio de que ela seria a mãe De Jesus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça em mim, segundo a Sua vontade"!
Para termos discernimento sobre tudo que nos é apresentado como valores, precisamos estar abertos ao Espírito Santo, pois é o Espírito Santo que nos fará perceber a diferença entre o certo e o errado, entre o que é de Deus, e o que não é Dele.
Fechar-se a ação do Espírito Santo, é fechar-se à graça De Deus, não podemos dar este prazer aos opositores do projeto  de Deus, que estão sempre à espreita,  prontos para nos pegar, em  nossas fraquezas.
Precisamos ter o cuidado de não nos deixar contaminar pela pior de todas as cegueiras: a cegueira de quem não quer enxergar a verdade, para não ter que mudar a sua conduta.
Jesus venceu todos os obstáculos para dar continuidade ao seu ministério, nós também, se ligados a Ele, haveremos de vencer todas as barreiras, para dar continuidade a sua missão, que a partir da sua morte e ressurreição, passou a ser nossa.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Entre o pecado e a graça
Neste domingo, a liturgia regressa ao tempo comum. Por maravilhosa coincidência é-nos proposto assumir a fragilidade humana, como aconteceu com o primeiro par no Jardim da Criação e, ao mesmo tempo, aceitar a extraordinária generosidade de Deus que perdoa no tempo e oferece depois uma eternidade feliz. Estes três aspectos estão presentes nas leituras. O pecado de Adão provocou uma rupturas entre Deus e o homem, não porque Deus o abandonasse mas porque aquele se escondera no jardim (1ª leitura). Mas o Senhor não se cansa de procurar o homem e envia mesmo o Seu próprio Filho para restabelecer a relação entre Deus e a humanidade. No diálogo que Jesus estabelece com os seus e com os que o procuram, Jesus outra coisa não diz senão que é essencial, aceitar a vontade de Deus. Esta verdade é tão exigente que Jesus referindo-se a Maria chega a dizer que a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus (Evangelho). A liturgia completa-se com um texto lindíssimo da 2ª carta de são Paulo aos Coríntios em que os cristãos são convidados a ressuscitar com Cristo, com a garantia de que  ressuscitarão também para  uma morada eterna (2ª leitura).
1. A perda da comunhão
A criação é descrita no livro do Gênesis como um extraordinário mistério da comunhão. No princípio Deus disse ao par humano: crescei, multiplicai-vos, dominai a terra (Gn. 1,28). A harmonia da criação porém, foi contrariada pelo homem. Deus pedira um sinal de comunhão, não comer da árvore da vida. o homem não respeitou este sinal e quebrou a comunhão com Deus, com os outros, e com todos os seres. Na linguagem simbólica, Adão foge de Deus, Adão acusa a mulher, a mulher acusa a serpente, a serpente não tem como defender-se. A ruptura foi completa. Não há mais comunhão. Os sinais desta ruptura estão na interpelação de Deus à serpente: vais rastejar e comer do pó da terra; estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela, e ela esmagará a tua cabeça” (Gn. 3,14). Nesta descrição compreende-se que ao pecado de Adão sucede da parte de Deus a promessa de um Redentor.
2. O essencial da mensagem, a vontade de Deus
Jesus percorreu os caminhos da Galileia e da Judeia anunciando o Reino. Para lhe pertencer há uma condição, aceitar a vontade de Deus. Quando Cristo proclama a Boa Nova as multidões dividem-se: se há muitos que seguem Jesus sem condições, há alguns que O criticam ferozmente, porque O consideram alguém que subleva o povo. Jesus proclama o perdão de Deus dizendo, porém, que ninguém pode pecar contra o Espírito, isto é, que ninguém pode contrariar o amor que Deus tem pela Humanidade. Muitos vão compreender e vão segui-l’O. A certeza que o essencial é a vontade de Deus está num pequeno pormenor deste Evangelho: Maria e os seus familiares queriam falar a Jesus. A sua resposta, porém, é desconcertante, “a minha mãe e os meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Mc. 3,35). Esta expressão não deixa de ser elogio para Maria, porque ela escutou a vontade de Deus e viveu-a até ao fim.
3. O Homem para a eternidade
A liturgia de hoje completa-se com o texto de são Paulo aos Coríntios. Nele sublinham-se duas atitudes do cristão: acreditar e proclamar. Se o desafio da fé é acreditar na Ressurreição de Cristo, a responsabilidade do cristão é proclamar essa Ressurreição em todas as situações da vida. Paulo fala do homem interior e do homem exterior, aquele que crê e se santifica, e aquele que proclama e se torna Apóstolo. A vida humana, porém, continuará sempre limitada porque o essencial é a vida verdadeira que está prometida. É com esta certeza que termina a 2ª leitura de hoje “a vida não acaba, apenas se transforma, e desfeita a tenda do exílio terrestre adquirimos no céu uma habitação eterna” (2Cor. 5,1).
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”

Paróquia Campo Grande

O homem dividido entre dois reinos
A liturgia de hoje é linda, ela nos leva a meditar ir até à Igreja primitiva, quando os primeiros cristão se reuniam, organizavam-se em comunidades, à celebração assídua da palavra, e a fração do pão. (Eucaristia)
Os primeiros textos dos Evangelhos, as cartas de exortação dos Apóstolos, eram dirigidas às comunidades cristãs, espalhadas nas províncias do vasto império romano, para alicerçar a fé do povo de Deus, no ressuscitado.
O Novo Testamento, nasceu desta forma; ao longo dos anos de caminhadas cristãs, foram formando os primeiros textos, as "Epístolas, os Sinóticos, e o de São João."
 Existem outros livros chamados Apócrifos, que a Igreja não acolheu no Cânon, por serem duvidosos, e não estar de acordo com a revelação e a tradição dos Apóstolos, isto é da Santa Mãe Igreja.
 O texto do Evangelho deste Domingo nos oferece um dos melhores exemplos, e nos dá uma ideia de como nasceram as Sagradas Escrituras.
Quem organizou e guardou por longos Seculos, as sagradas Escrituras foi a Igreja Católica. Eram imensas bibliotecas para serem compiladas, por ser em pergaminhos, papiros ou tijolos de argilas etc. (Foi são Jeronimo um sacerdote Católico que fez a tradução da bíblia para o latim entre os seculos IV e V a pedido do Papa Dâmaso I, a tradução conhecida por vulgata)
A Boa Noticia, foram nascendo de recordações vivas pessoais comunitárias, de dito e fatos de Jesus, reunidos nem sempre numa ordem cronológica ( A ordem em que foram efetivamente ditos e feitos ) mas, via de regra, por associação de ideias e temas.
Os escritos foram chegando nas reuniões e celebração da fração do pão, ditados pelos Apóstolos e discípulos testemunhas vivas oculares, que conviveram, caminharam com Jesus, viram-no, ouviram seus ensinamentos, suas pregações.
Agora lembrados pelo Espírito Santo, os discípulos, podem exortar a Igreja caminhante, com as palavras do divino Mestre. Jesus falou aos discípulos: 25 "Eu tenho dito estas coisas enquanto estou convosco.
26 Mas o defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito." 13 "Quando vier, o Espírito da Verdade, vos guiará em toda a verdade. 14 Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo quanto tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. (Jo 14,25-26; Jo 16,13)
 O primeiro Evangelho foi escrito por João Marcos, que foi companheiro de Paulo, na primeira viagem missionária na Antioquia, depois ele ficou com Pedro em Roma.
Os Evangelho não foram escrito com intenção de redigir uma "história," ou de escrever uma "biografia" de Jesus, mas com o objetivo de alimentar a fé dos primeiros cristãos.
Por isso os textos dos Evangelhos são verdadeiros, de sentidos profundos do que qualquer história profana. Ele foi escrito realmente com o "dedo de Deus," isto é, com o Espírito Santo, o qual conhece não somente os segredos de Deus, mas também os segredos do homem e sua história. (1Cor. 2,11)
A primeira leitura deste Domingo, nos leva meditar os mistérios  de Deus, os primórdios tempos, a história do homem e o paraíso, onde deixaram ser enganados pela voz do maligno.
O livre arbítrio do ser humano, preferiram  a escolha do mal, o homem se retraiu à bondade do criador, levado pelas insidias do maligno, perderam a graça de filhos Deus.
O pecado original, para nós pobres mortais pecadores, é um mistério profundo, pois as Sagradas Escrituras narra-nos, que  o pecado começou no céu. Os anjos apóstatas abandonaram seus tronos e foram precipitados no abismo.
"São anjos decaídos por terem recusado livremente a servir a Deus e a seu desígnio. Sua opção contra Deus é definitiva, para eles não tem salvação. Eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus." (CIC 414 ) (Is. 14,12-14; 2Pd. 2,4; Ez. 28,12-15; Ap. 12,10; Lc. 22,31; Mt. 25,41)
O pecado original trouxe ao homem, consequências graves e desastrosas, a morte e a perca da filiação de filhos de Deus. Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes...Foi a inveja do Diabo que a morte entrou no mundo. (Sb. 1,13;2,24)
 A Boa Noticia é: Deus na sua infinita misericórdia perguntou: "Adão onde estás..?" Ele está sempre perguntando a cada um de nós - Onde você esta meu filho..?
 Então no seu infinito amor de misericórdia, enviou seu Filho a este mundo para nos salvar da morte eterna. Deus está sempre nos procurando e perguntando: Meus filhos onde estão vocês..? Enviei meu Filho amado ouvi-o..!
 Por isso que Nosso Senhor diz no Evangelho: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? São aqueles que fazem a vontade de Deus, esses são meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mc 3,35)
Isso quer dizer para nós que, quem crê Nele, a sua fé é mais importante que os próprios vínculos de sangue. A verdadeira família de Jesus é aquela que faz constantemente a vontade de Deus.
No antigo Israel, era costume determinar pela raça, pelo sangue e pela linhagem de descendência quem era "puro ou impuro," quem era judeu ou pagão. ( Marcos dirige o texto do Evangelho, às Igrejas primitivas. Este costumes tinha que ser quebrantado, abolidos do meio cristão, e nas  estruturas familiares. ) Por isso Jesus ao libertar as pessoas de todo e qualquer mal, é acusado pelos mestres da lei de ter ligação com o próprio mal.
Na bíblia a palavra Satanás vem do hebraico, no sentido de "adversário, opositor e malvado, aquele que divide," e  na tradução grega, quase sempre foi traduzida por diábolos, no sentido de acusar, caluniar, falsificar, enganar.
E exatamente isso que os judeus mestres da lei acusam Jesus, pois sabem que as suas palavras trás vida nova, liberta o povo da opressão da lei. Por isso, eles o acusam e o caluniam por inveja e maldade.
 Usam da intervenção de alguns parentes, movidos pelos dissuasivos mestres da lei, desviar Jesus de seu ministério. A acusação de coluio com Satanás e as palavras de Nosso Senhor, ao dizer aos doutores da lei: Como pode satanás expulsar a si mesmo?
 Então Satanás está contra si mesmo, como pode Satanás expulsar a Satanás nos mostra o choque entre o forte e o mais forte. ( Mc 3,22-26 ) A mensagem de hoje é também "uma mensagem para a vida eterna."
 A batalha decisiva entre dois reinos, aconteceu com Cristo, mas a guerra não se acabou; a antiga serpente continua a armar ciladas ao calcanhar de sua linhagem, que é seu corpo, seus membros, nós..! (Gn. 3,15)
Agora Satanás é expulso de nossa habitação, pelo nosso batismo, e nossa renuncia ao mal, e nós tornamos co-herdeiro de Deus em Cristo Jesus.
Mas o espírito imundo, procura brechas continuamente para reentrar em nossas vidas, para fazer-nos perder nossa salvação, conquistada por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto este tempo é para nós de vigilância e decisão.  Irmãozinhos..! A diferença entre agora e antes de Cristo, é que agora nós podemos vencer, ou melhor "vencer de virada;" antes - sob a lei- não! (1Pd. 5,8-11)
Mas para vencer é preciso suar, é preciso participar na luta e na vitória de Jesus, tomando nossa cruz no dia a dia e seguindo-o. Completar o que falta à vitória de Jesus, completar o que faltou em Cristo na cruz ..! (Lc. 9,23; Mt. 16,24; Mc. 8,34)
Deus manifesta-nos, o seu amor em seu filho Jesus Cristo, dialoga com o ser humano, vai a procura dele, chama-o e pergunta-lhe com ternura: Onde está você..? Seu amor fiel oferece a toda a criatura um futuro de esperança e de salvação.
Opor a Ele é recusar sua salvação é um pecado contra o Espírito Santo (Mc. 3,29). De fato sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna." (2Cor. 5,1).

Texto elaborado da:
- homilia de Raniero Cantalamessa extraido de sua obra "O Verbo se faz carne” ano "b" 10º domingo do tempo comum "O homem dividido entre dois reinos" - pg 373-376
- Deus conosco dia a dia ano "b" 10º domingo do tempo comum - pg 45-48
- comentário na pg 121 pe. Francisco Abertin
- Bíblia: Ave Maria.



"Aqui estão minha mãe e meus irmãos"
Domingo dos verdadeiros parentes de Jesus. A Igreja professa sua fé em Deus, fonte de todo o bem. Como explicar, então, e conviver com a existência do mal?
A liturgia deste domingo enfrenta esta questão e responde com a própria Palavra de Deus: "Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.
Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta na vida de todas as pessoas e grupos que fazem o que é agradável a Deus.
Antífona de entrada: O Senhor é minha luz e minha salvação: a quem poderei eu temer? O Senhor é o baluarte de minha vida: perante quem tremerei? Meus opressores e inimigos, são eles que vacilam e sucumbem (Salmo 26/27,1-2).
Primeira leitura: Gênesis 3,9-15
Depois do pecado, Deus não acaba o diálogo com o homem: vai à procura dele, chama-o e fala com ele (vs. 8-9). O "homem", envergonhado  e amedrontado (v. 10), procura lançar as culpas sobre a "mulher" (v. 12) e esta sobre a "serpente" (v. 13) que é a única a ser amaldiçoada por Deus (v. 14).
Adão e Eva, antes amigos de Deus, agora se escondem. É o lado psicológico do pecado: o escrúpulo, o medo, a insegurança, o sentimento de culpa. Para designar o desequilíbrio emocional, resultante do pecado, o autor sagrado apresenta o casal com vergonha de comparecer nus diante do Senhor, com quem antes conversavam tão familiarmente, apesar da nudez. Ao sentimento de pudor une-se ao de remorso. Romperam-se as relações e Deus, juiz universal, pede contas, insinuando, porém, desde o início, como Criador e Pai que vai reatá-las, embora fora do paraíso. Ao pecado segue-se o julgamento divino, salientando-se a astúcia da Serpente. A proibição e respectiva ameaça foi dada diretamente a Adão. É a ele que Deus se dirige em primeiro lugar poucas palavras "onde estás"? Adão tenta justificar-se, culpando, traindo sua esposa e, afinal, responsabilizando o próprio por lhe ter dado uma companheira tão frágil e tentadora. Inclusive parece querer diminuir sua culpa, dizendo que aceitaria da companheira apenas uma fruta. "Eis a soberba! Não aceita o pecado. Em lugar de humilde confissão, a desordem, a confusão"! (santo Agostinho, PL 34,449).
O Senhor, então, se dirige à Mulher que, por sua vez, acusa a Serpente. A desculpa dela é mais procedente, pois reconhece ter sido ludibriada pelo maligno. O juiz divino leva em conta essa diminuição, sem porém isentar a Mulher do pecado. É a história do homem: peca, não aceita, busca pretextos, culpa os outros, vai à procura de atenuantes... mas Deus lhe pedirás contas.
A Serpente é um ser inteligente e maldoso, que encarna o espírito do mal e conhece o preceito divino, instigando o homem a desobedecer-lhe. E, nessa desobediência, o livro sagrado vê a causa de todo mal. A cobra é talvez o animal que mais repugnância e aversão instintiva provoca. Com certeza é um bicho "maldito"; ela sempre foi num réptil por natureza, mas o autor sagrado, teologizando, vê nessa atitude e no "comer o pó" uma humilhação, um indício de abatimento e derrota, ao passo que o caminhar ereto é sinal de realeza; os ofídios, isto é, os animais que se assemelham à Serpente, não se nutrem de pó, como pensavam os antigos (Isaias 65,23.25; Salmo 71/72,9; Miquéias 7,17). "Comer o pó" simboliza a derrota da Serpente, não como simples animal, embora divinizado na cultura cananéia, mas como símbolo do mal, autor como Adão e Eva, do pecado.
A serpente foi escolhida pelo autor sagrado para desempenhar o papel de tentador. As razões são várias. No Oriente próximo principalmente no culto cananeu, com efeito, a serpente representa a divindade da fecundidade, tanto a dos campos quanto a das mulheres. E muitas mulheres, em Israel como nas nações vizinhas, de boa vontade recorriam ao culto da serpente pra garantir um casamento fecundo. Aos olhos de Israel era o símbolo de toda a iniqüidade e a origem principal da apostasia e superstição. Por isso a serpente pode simbolizar a narração da queda como quem atua como adversário de Deus. Chama-se "o mais astuto de todos os animais", simbolizando a ciência secreta divinizada e da magia.
A descendência da Serpente, em sentido coletivo, é o conjunto das forças do mal que, aliadas à Serpente, lutam contra Deus. Paralelamente à descendência da Mulher, como coletividade, seriam as forças do bem que promovem o Reino de Deus e lutam contra seus inimigos, vencendo todos eles (cf. Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab), primeira leitura proclamada na solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
A maldição da Serpente esclarece uma constante do Primeiro Testamento. Quando Deus pune o homem, a condenação jamais é absoluta: um futuro permanece possível. De certo modo, esse relato destaca que Deus sempre se põe ao lado do ser humano. No momento mesmo em que amaldiçoa a Serpente, Deus abre o caminho para a esperança. Segundo Gênesis 2,8, as maldiçoes jamais têm a última palavra. Elas podem acumular-se uma após a outra (Gênesis 3,14-20; 4,11-14; 6,5-7.10), mas a bênção termina sempre por triunfar (Gênesis 8,21) e por orientar o sentido da história.
Jesus Cristo, e somente Ele, pode conhecer o bem e o mal e passar da vida à morte, mas à maneira de um Deus que triunfa sobre a morte por sua vida que ninguém pode tomar, e que vence o mal por um perdão sem medida.
A todas as pessoas que conhecem, depois de Adão, a morte e a vida, o bem e o mal, a Eucaristia oferece o fruto da árvore da vida que Adão não pode comer (v. 22), a fim de que um pouco de vida divina neles lhes permitem justificar o mal e vencer a morte.
Salmo responsorial 129/130,1-8
Salmo penitencial De profundis é utilizado na liturgia dos fiéis defuntos, não como lamentação, mas antes como expressão de confiança e de esperança. Também quem está mergulhado na sombra da morte ou passando por uma situação muito difícil, espera do Senhor "misericórdia, redenção" e vida (cf. v. 7). O Salmo 129/130 é uma súplica individual, com convite à assembléia. Sete vezes é invocado o nome do Senhor no breve salmo.
A profundeza é temível para os israelitas, incompreensível, semelhante à morte e o Xeol. De sua profundidade humana o homem grita, e seu grito sobe até o céu A profundidade radical é o pecado, que distancia a pessoa humana de Deus, e o envolve em escuridão. Só de Deus pode vir o perdão, por isso a pessoa humana deve respeitar a Deus com respeito sagrado. Em sua ignorância e obscuridade o ser humano pode atravessar a obscuridade com seu grito; depois aguarda a resposta. Como a aurora devolve a luz, assim Deus enviará seu favor.
É preciso descobrir o rosto de Deus neste Salmo como o "aliado" do povo. O esquema do Êxodo (clamor, descida de Deus e libertação, resgate ou redenção) está bem presente neste Salmo. Deus se mostra, mais uma vez, o Deus da Aliança (a palavra "redenção" recorda o resgate de escravos. Mas há outros aspectos igualmente interessantes. Atingindo as profundidades da própria alma, o ser humano descobre sua fraqueza e miséria totais. Aí, então, clama. E o clamor se torna a expressão da alam e da vida. Prestando atenção no clamor, Deus desce para ver o que há em nossas profundezas. Surpreendentemente, Ele deixa de investigar as culpas da pessoa ou do povo, e se apresenta como aliado que se compadece. Sua resposta é perdão (v. 4a), a graça e a redenção (v. 7b). Ao invés de infundir medo por meio de castigos, infunde respeito ao pecador por meio do perdão (v. 4).
A palavra "redenção" ecoou profundamente em Jesus. Em Mateus 1,21 se diz que Jesus irá salvar (isto é, redimir) seu povo dos seus pecados. Além disso, o episódio de Marcos 2,1-12 apresenta Jesus perdoando os pecados do paralítico. Cura-o pela raiz, devolvendo-lhe liberdade e vida.
A liturgia cristã ama este canto penitencial e está também no Ritual das Exéquias. Embora a Igreja e cada um dos cristãos tenham sido tocados já pela luz de Cristo, vivem na profundeza do mundo, e pecam. A redenção abundante de Cristo vai se realizando continuamente, muna expectativa contínua de redenção definitiva.
Embora tenhamos sido tocados pela luz de Cristo, vivemos ao mesmo tempo a pobreza de nossa condição humana. Com este salmo, gritamos a Deus, das profundezas de nosso pecado, contemplando a salvação que vai se realizando em nós gratuitamente.
Segunda leitura: 2 Coríntios 4,13-5,1
A fé descrita por Paulo ilumina o ver e o sentir, o falar e o rezar, a mente e o coração, o dia-a-dia e a esperança das pessoas. "Acreditamos e por isso falamos" (2 Coríntios 4,13), estamos convictos de que "Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar" (2 Coríntios 4,14); "Tudo é por vossa causa", "tudo é graça" (cf. 2 Coríntios 4,15), "por isso não desanimamos" (4,16). A fé cristã consiste em "olhar para as coisas invisíveis" (cf. 2 Coríntios 4,18), as que o Senhor constrói para nós (2 Coríntios 5,1).
Paulo sabe ler com fé a sua situação triste e atribulada. Sabe que a "glória", a "ressurreição e a redenção" passam através do sofrimento e da morte (cf. 2 Coríntios 4,7). O destino do Apóstolo segue as pisadas do destino de Jesus. A fé faz ver as coisas invisíveis aos olhos humanos (2 Coríntios 4,18), a fé consiste em ver as coisas como Deus as vê. A lente divina que permite ver o que é invisível: Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Da fé, consiste em ver tudo e todos à luz de Jesus Cristo, nascem as outras duas virtudes teologais: a caridade/graça, que se torna força para suportar as provações e "hino de louvor" para glória de Deus (2 Coríntios 4,15); e a esperança/certeza de saber que nem tudo em nós é corruptível (2 Coríntios 4,16) mas, pelo contrário, Deus está a construir para nós uma "habitação eterna" (2 Coríntios 5,1).
Esse texto de Paulo mostra, então, a ressurreição do cristão como algo de futuro, excluindo que ela já tenha acontecido no batismo (cf. Colossenses 3,1-2,12), como significando um tempo cronológico no passado.
A parte física, corruptível do homem pode se consumir e sua força vital ser aniquilada, o homem interior, espiritual criado em nós no batismo, porém, é imortal, animado pela fé e o Espírito Santo. Cada dia de novo recriado pela força do amor de Deus, ele assume a imagem de seu Criador (cf. Colossenses 3,10) torna-se criatura. A esperança é portanto maior que as tribulações, pois a força interior da graça levará à vida da glória, à salvação definitiva, tornando nosso corpo ação do Espírito Santo que o realimenta.
Hoje Paulo diria: se o nosso homem biológico caminha para a ruína, o nosso homem psicológico e espiritual se renova a cada momento da nossa caminhada cristã para o Reino definitivo.
A eucaristia alimenta sem cessar a reconciliação da esperança teologal com a esperança humana. Com efeito, ela convida os cristãos à construção do Reino e purifica-os de seu egoísmo, colocando-os em condições para o mais lúcido exercício de seus recursos. Mas convida os cristãos ao mesmo tempo a mobilizar estes recursos, assim transfigurados, para a construção de uma cidade humana onde ele testemunhará, o mais possível, a vitória cotidiana sobre a morte e sobre o ódio.
Evangelho: Marcos 3,20-35
Em toda a primeira parte do Evangelho de Marcos (capítulos 1-8) surge uma pergunta que salta de página em página: quem é Jesus? Quem é esta pessoa que fala com autoridade e atua com poder? As suas palavras sacodem e fascinam, os Seus milagres colocam interrogações. Coloca medo o poder que demonstra até sobre os espíritos maus. Os discípulos têm dificuldade em compreender, mas permanecem junto do Mestre, a multidão oscila entre entusiasmo e curiosidade; mas no texto de hoje os escribas e os fariseus procuram desacreditá-Lo, apresentando-O como possuidor de um poder diabólico (cf. vs. 22-30). Os parentes, preocupados, procuram levá-Lo para casa (v. 21).
Com argumentos convincentes (vs. 23-27) e libertando os endemoniados (cf. Marcos 1,23-27), Jesus procura dar a entender que Ele é, mas sem encorajar falsas interpretações da Sua condição messiânica. São palavras dramáticas as que dirige a quem impugna a verdade conhecida (vs. 28-29), e mostram-se duras até as palavras dirigidas aos parentes (vs. 33-35). A fé é mais importante do que os próprios vínculos de sangue.
O pecado contra o Espírito Santo. A resposta de Jesus é um dos textos que melhor acentua a força de perdão presente em Deus. O discurso começa com a palavra hebraica "amen" (= "em verdade") que tem um sentido afirmativo reforçado. O Cristo diz "aos homens tudo será perdoado, os pecados e até as blasfêmias" (v. 28). Impossível perdoar mais!
Porém, diante de tanta bondade de Deus, há entretanto o famoso pecado contra o Espírito Santo que parece abrir uma exceção. O que significa exatamente? Conforme o contexto imediato, é o seguinte: quem atribuir, de má fé, às forças do mal o bem gerado por Jesus Cristo exclui-se a si mesmo do plano salvador de Deus. Não é Deus que recusa o perdão, é o pecador que recusa em acolher a salvação oferecida gratuitamente pelo Pai através do Espírito Santo que age em Jesus. É a própria pessoa que se fecha, radical e voluntariamente, por causa da cegueira e dureza de coração (Marcos 3,5). Tal recusa de conversão impede o perdão. Nisto entendemos a blasfêmia contra o Espírito Santo ou, em outras palavras, o pecado eterno (v. 29).
Os vs. de 31-35 relatam o verdadeiro parentesco de Jesus. Os três sinóticos contam este episódio, seja antes do ensino em parábolas (Mateus/Marcos, seja depois, Lucas).
Em Marcos, a chegada da mãe e dos "irmãos" (= os primos) de Jesus (cf. Mateus 12,46) constitui uma seqüência direta aos vs. 20-21. Jesus está pregando na casa de André e de Simão. Por causa da multidão, Maria e os outros familiares não podem falar pessoalmente com Jesus. Por causa disto, mandam alguém avisá-Lo de sua presença.
É um fato muito banal do qual Jesus vai aproveitar-se para mostrar que veio reunir todas as pessoas numa só família. A dureza aparente da sua resposta desaparece se considerarmos que Jesus está falando não com os membros da sua família, mas sim à multidão. Em termos atuais, Jesus diria que sua família não se restringe aos vínculos do sangue: reúne todos aqueles que fazem a vontade de Deus (parentes espirituais), o Pai de todos os homens e de todas as mulheres. Com efeito, o Espírito que o Filho veio trazer é um espírito de comunhão e participação no próprio Amor de Deus que se exerce soberanamente perdoando a todos. É só acreditar e agir de maneira conseqüente.
O ser humano foi criado livre: portanto, não pode ser o joguete de outras criaturas, mesmo espirituais. Foi isto que Cristo veio revelar libertando-se desta solidariedade cósmica que o envolvia como homem, e libertando seus irmãos do domínio das potencias do mal.
Esperando a clara manifestação desta vitória, o cristão se encontra envolvido por duas solidariedades opostas: ora ele cede ao pecado, e mergulha na primeira; ora escuta a Palavra e obedece a ela, e elabora, assim, a solidariedade do novo Reino.
Esta escuta da Palavra toma corpo na liturgia da Palavra e colocá-la em prática, na obediência, constitui o conteúdo do sacrifício espiritual oferecido na Eucaristia que contém os nutrientes para alimentar a nossa fé em nossa caminhada tão cheia de perigos.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
No Evangelho, os adversários de Jesus querem dizer que Jesus também tem uma inclinação para o mal, isto é, esta "ambivalência" que parece ser natural no ser humano: o bem e o mal. Ao dizer que ele está "possuído" por Belzebu, indagam sob qual inspiração Jesus age. Quem está por trás de seu trabalho, uma vez quer a mentalidade judaica via os demônios como seres pessoais, capazes de se relacionar com o homem e a mulher e influenciá-lo? Aqui encontramos a conexão com a primeira leitura. Adão e Eva se deixaram induzir pela palavra da Serpente, imagem usada no relato do Gênesis para personificar o mal. Jesus deixa claro na parábola para nós e, sobretudo, na conclusão da narrativa evangélica, que age sob o impulso/inspiração de Deus: "quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Jesus age como o "Novo Adão", o ser humano totalmente novo, livre da inclinação para o mal porque é ciente de sua origem: o próprio Deus. Os cristãos, pela fé, sabem que estão ao lado de Jesus. Sabem que Ele - o Cristo Senhor - corresponde a seu "homem interior", que sustenta suas atitudes em obediência à fé. Ressuscitados com Jesus, os cristãos têm a consciência de serem homens e mulheres pascais, cuja postura não pode ser quebrada pela inclinação ao mal, uma vez que esta foi definitivamente vencida.
A mensagem da liturgia da Palavra está cheia de esperança. Jesus é o redentor e o salvador de todos e de cada um, de cada pecado e de todos os pecados. Há um só obstáculo capaz de se opor à ação universal e redentora de Cristo: a recusa em reconhecê-Lo como Redentor, ou então não reconhecer a nossa necessidade Dele. Este é o pecado contra o Espírito Santo. Só a fé nos consente reconhecer o nosso pecado e nos dá a possibilidade da salvação.
A celebração é momento de firmar os passos neste caminho, de escutar a Palavra de Deus e discernir a sua vontade sobre nós, de nos confiar no Espírito Santo que suscita em nós o desejo de amar e servir.
A Palavra se faz celebração
A liturgia expulsa de nós a inclinação para o mal
A celebração cristã do Dia do Senhor alimenta este "homem interior" em nós. Anima e mantém nossa atitude de fidelidade à vontade de Deus. Por isso, pedir inspiração que guie nossas ações é a única súplica admissível nesta celebração dominical. A liturgia exorciza, expulsa de nós toda e qualquer inclinação para o mal. É animador perceber como esta noção vai sendo amadurecida nos ritos e  nas preces da celebração dominical: a oração sobre as oferendas reza: "vede nossa disposição em vos servir e acolhei a nossa oferenda para que este sacrifício vos seja agradável e nos faça crescer na caridade". De fato ao nos reconhecermos como povo convocado por Deus e reunido no Espírito de Cristo, somos curados da influência do "príncipe deste mundo", pois ele perde o trono e é incapacitado como possível líder de nossos atos. É o próprio Senhor quem nos guia e preside: "Ó Deus, que curai os nossos males, agi em nós por esta Eucaristia, libertando-nos das más inclinações e orientando para o bem a nossa vida" (Oração depois da comunhão).
Avaliar nossa caminhada de fé
Ao regressar para nossas casas, para o convívio com os familiares, parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho é preciso verificar o que nos inspira a estar com eles. Quem, de fato, conduz nossos atos, estabelece nossas posturas e direciona nosso coração? Este é um exercício permanente que devemos fazer, revisando nosso caminhar. Conscientes de quem somos e do que queremos da vida, não nos dobremos à maldade! Não nos escondamos atrás de justificativas que fazem da maldade algo necessário ou irremediável, não façamos da mentira uma verdade.
Ligando a Palavra com a ação eucarística
Muitas vezes vamos a uma celebração e não conseguimos avaliar a importância dela na nossa vida, o quanto ela faz a comunidade crescer do ponto de vista espiritual, psicológico. Não percebemos a dimensão missionária da liturgia que nos envia ao mundo. Isso porque vamos às celebrações por devoção, para conseguir alcançar graças, cura, solucionar problemas e só.
A celebração é o momento culminante da nossa vida, o kairós, de firmar nosso compromisso com Jesus, com a Igreja missionária. Mas é preciso acolher a Palavra de Deus, deixar que ela nos converta e transforme a nossa a nossa vida para fazer a vontade do Pai e servir aos irmãos e irmãs, sobretudo os doentes, os pobres, os abandonados. A celebração ao mesmo tempo que faz memória de Jesus, renova para nós a mesma compaixão que Ele teve das pessoas. Atualiza para a comunidade e cada um de nós, a prática de Jesus.
A força do Pai e do Filho Jesus, não estão na ostentação do poder econômico e político, mas na fraqueza daqueles que se organizam para um mundo melhor para vencer os males.
Reunidos em comunidade em torno da mesa da Palavra e do Altar, para celebrar a Divina Liturgia, peçamos ao Pai, no Filho e na unidade do Espírito Santo a mesma prece do salmista de hoje: "No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra".
padre Benedito Mazeti




1 – Respondeu-lhes Jesus «Quem é minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua vota, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».
É de todos conhecida esta reação de Jesus àqueles que O interpelaram sobre a presença de Maria e dos seus familiares mais próximos. Estranha-se esta passagem, até porque Maria e os seus familiares muitas vezes O acompanhavam sem que isso tenha suscitado admiração. Por outro lado, compreende-se numa situação que sugere que Jesus estava passando das marcas e que alguém tivesse advertido a Sua Mãe e os familiares que poderiam ter alguma influência para levar Jesus para casa, para não provocar mais problemas.
Aliás o contexto é esse mesmo. Jesus chama as pessoas e fala-lhes em parábolas como resposta a acusações de que estaria possuído por algum espírito demoníaco:
«Como pode Satanás expulsar Satanás?» Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
Numa e noutra indicação, Jesus deixa um apelo à unidade, desafiando-nos a alargar o conceito de família, para lá das paredes da nossa casa física.
Tal como um reino, também a família só sobrevive se os seus membros não estiverem permanentemente uns contra os outros. Por outro lado, a família biológica, fundamental ao crescimento da pessoa, há de dar lugar à família dos filhos de Deus. Jesus aponta para uma identidade que quebre fronteiras e nos projete no Coração de Deus.
2 – A família é a célula primária e fundamental de uma sociedade adulta, democrática, saudável, é essencial na comunicação da vida e dos valores, no cultivo da liberdade e da solidariedade (entre pessoas e entre as diversas gerações), na inserção positiva e estruturação da social.
Quando a família é descaracterizada, todo o tecido social se ressente. A casa, a família, é o tempo, o lugar e o alfobre da vida em qualidade. Nela cada pessoa aprende a falar, a ler o seu semelhante, a reconhecer a sua identidade, na abertura aos outros e ao Totalmente Outro (expressão de E. Levinas), ou melhor, ao Totalmente Próximo (expressão de Gongalez Faus).
A urgência e a grandeza da família é para Jesus uma certeza inabalável. Na casa de Nazaré, Jesus descobre-se filho, relaciona-se no seio da vida familiar reconhecendo-se irmão com familiares e vizinhos, aprende a ser pessoa em relação, com os mais próximos mas também com as pessoas que vêm de outros lugares, das pessoas que passam para pedir abrigo, esmola, proteção. A sensibilidade de Jesus resulta da vivência em família, na atenção ao próximo, na riqueza da caridade e na importância do trabalho honesto e dedicado.
É também da sua casa paterna/materna que Jesus é introduzido na casa de Deus, na religião judaica, com os seus ritmos e com as suas tradições. É por ter da família uma visão por demais positiva que Jesus concebe uma família mais alargada.
A sua mãe, os seus irmãos, a sua família, são todos aqueles e aquelas que procuram viver em sintonia com Deus, com a Sua vontade. Como em outra passagem, Jesus deixa claro: mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática. E não bastam as palavras, não basta dizer "Senhor, Senhor", é preciso traduzir em obras o que se professa com os lábios, para assim integrar o reino de Deus.
3 – A pessoa é um ser em relação. Das muitas definições que se encontram sobre a pessoa, esta é das mais expressivas para nos dizer da solidariedade específica e inolvidável do ser humano. Obviamente, que não se pode reduzir a vida e a pessoa à sua capacidade de relação, com o grave perigo de suprimir a vida do ser humano a quem não se reconheça capacidade relacional, ainda que a relação exista para lá das aparências biológicas. A pessoa é um ser único e irrepetível, é filho/a de Deus, desde a concepção à morte (natural).
Desde o início que estamos "condenados" a relacionar-nos com os outros, em família, com o mundo, a natureza, com o mundo espiritual, na nossa vida interior e o apelo em nós inscrito à transcendência. Mais uma vez a valoração da família humana, na qual aprendemos a ser pessoas e a nos relacionarmos saudavelmente com outros, e da família que integramos pela fé. A nossa vida limitada ao tempo e ao mundo terrenos reduziria a nossa esperança a pó, a nada, ao vazio, ao ocaso, fazendo-nos cair em depressão definitiva, ou num cinismo selvagem.
São Paulo, num texto bem conhecido, ilustra a nossa vocação à transcendência, à vida espiritual, ao sobrenatural:
"Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele... Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, em peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens".
Em relação com os outros, na nossa fragilidade e limitação humanas, por vezes desviámo-nos da vontade de Deus, contornámos o caminho que nos levará à morada eterna, obra de Deus. Desde o início, o ser humano se confrontou com a sua liberdade. A falta de solidariedade em família, ou na comunidade, leva à ruína, é o pecado que nos condena à solidão e ao conflito (infernal), e promove a desculpa e a acusação:
Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?» Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi».
O projeto original é salvo pelo amor, pelo regresso à família de Deus, pela adesão à vontade divina, para que prevaleça em nós a obra de Deus, até à eternidade.
padre Manuel Gonçalves



A força regeneradora e libertadora do reino
1ª leitura: Gênesis (3,9-15)
O egoísmo do pecado
1. Esta leitura (usada na festa da Imaculada Conceição) é a manifestação teológica de um autor chamado javista que se limita a pôr por escrito toda a tradição religiosa de séculos, em ambientes culturais diversos, sobre a culpabilidade da humanidade: Adão e Eva. Hoje já é claramente aceite que não é necessário entender tudo isto como se se tratasse de um só casal humano. Os simbolismos do relato permitem-nos tudo isso e mais, uma vez que cientificamente o monogenismo não resiste a uma análise coerente. O pecado, pois, entorpece-nos, envolve-nos, fascina-nos, inunda-nos numa liberdade desmesurada, até que vemos que estamos com as mãos vazias, nus, e sem nada do que pensávamos que íamos conseguir fora dos planos de Deus. Então começam as culpabilidades: a mulher, o ser fraco perante o forte, como sucedeu em quase todas as culturas. E, pelo meio, aparece o mito da serpente, como símbolo de uma inteligência superior a nós mesmos, ou de uma força obscura que pode conosco, que não é divina, mas que o parece.
2. O mal foi sempre descrito miticamente. Mas, na realidade, o mal somos nós que o fazemos e o projetamos para aquele que está na nossa frente, especialmente se é mais frágil, segundo a única visão cultural equivocada. Quem poderá libertar-nos disto? Sempre se viu neste texto uma promessa de Deus; uma promessa para que possamos perceber que podemos vencer o mal, sem o projetarmos sobre o outro, se soubermos amar e valorizar quem está ao nosso lado; neste caso, o homem à mulher e a mulher ao homem, e, assim sucessivamente, grupos familiares, povos, raças. Todos somos chamados a amar o bem e a transmiti-lo… mas, desgraçadamente, os nossos caminhos separam-se. Só Deus pode garantir-nos o melhor e devemos tê-lo em conta, acolhê-l'O, obedecer-Lhe e procurá-l'O sempre.
2ª leitura: 2Cor. (4,13-5,1)
A morte vai-se transformando em vida
1. O tema "escatológico" que Paulo desenvolve neste momento da 2Cor. é de verdadeira transcendência. O apóstolo está mais aberto que nunca à sua própria morte e já não está preocupado com a "Parusia" (como se pode verificar em 1Ts. e em 1Cor.), porque sente que a sua vida como pessoa e como apóstolo se vai gastando a pouco e pouco. Por isso, não vai recorrer a um desenvolvimento filosófico, mas à sua experiência pessoal que todo o crente deve ter com Jesus Cristo, com a sua morte e a sua Ressurreição. Mas, mais ainda, o "emissário" do Evangelho deve estar na disposição de viver esta vida em Cristo: entregar-se à morte, para que os outros vivam deste Evangelho. Assim é dito clara e manifestamente em 4,12: "deste modo, a morte acontece (energeit) em nós e em vós a vida". Isto significa que enquanto o apóstolo, por causa do Evangelho, vai gastando a sua vida, nessa medida semeia vida na comunidade que acolhe aquela mensagem. Paulo expressou esta identificação com Cristo noutros momentos, como em Gl. 2,20 ou em Fl. 3,7-11. Mas o fato de agora apoiar o seu ministério no kerygma: morte e ressurreição de Jesus, é porque serve extraordinariamente à metáfora paradoxal do "vaso de barro" e do "tesouro". O pregador do Evangelho experimenta, portanto, pessoalmente, a doutrina da salvação na sua dupla dimensão de morte e de vida. Não se pode viver senão morrendo, da mesma maneira que Cristo não pôde ressuscitar ou "ser ressuscitado", sem passar pela debilidade da morte. Se todos os cristãos, pois, tivessem que acolher esta experiência soteriológica de identificação com Cristo, não seria, por isso, o apóstolo menos responsável por este ministério.
2. Daí que o apóstolo associe a sua sorte e salvação à da comunidade. É o que vai expressar, além disso, com o apoio de uma fórmula de ressurreição: "Aquele que ressuscitou (egeíras) Jesus nos ressuscitará (egeirei) com Jesus e nos apresentará juntamente convosco" (4,14). Esta fórmula primitiva de tom apocalíptico, sem dúvida, parece retocada por Paulo naquela última parte ao unir o seu futuro ao da comunidade. Isto mesmo se confirma com acrescentos em 4,15, uma vez que viveu e vive esta experiência pessoal-apostólica para que a comunidade possa louvar a Deus. É uma das páginas escatológicas de Paulo, provavelmente a mais distanciada do início. De 1Ts. 4 e inclusive de 1Cor. 15, e a que mais deu que falar em torno dos conceitos escatológicos da vida depois da morte, juntamente com Fl. 1,22-25. A consciência da nékrôsis, ou seja, da afirmação da experiência da morte, sob a imagem da casa e do vestido, é um contributo substancial vivido como pessoa e como apóstolo. As duas coisas, portanto, são inseparáveis. Devemos esforçar-nos por ler aqui uma convicção de Paulo de que já não é necessária a Parusia como em 1Ts. 4,15. No horizonte da sua vida e com todos os sofrimentos, a doença, a sua missão perspectiva-se para o futuro, não somente do ponto de vista existencial, mas verdadeiramente escatológico.
Paulo não fala de forma dualista, nem apenas do homem interior, mas de todo o seu ser, de toda a sua pessoa.
Evangelho: Marcos (3,20-35)
Face ao "demoníaco" a família dos filhos de Deus.
1. De entre as curas de Jesus, vale a pena falar da "desdemonização" como chave do anúncio da presença do Reino. Mas isto, hoje, não pode ser abordado simplesmente como "expulsão dos demônios", fenômeno de "exorcistas" que tanta curiosidade provoca às vezes, mas da libertação da mente e do coração de que sofria e padecia todo aquele que estava sob a influência do demônio, de Belzebu, como personalização de tudo aquilo. A cultura da doença no judaísmo e, especialmente na Galileia, tinha estes tons tão dramáticos de pessoas perturbadas. O drama é que tudo isto era encarado como um castigo e um abandono de Deus.
É neste ponto que Jesus atua com o seu ato "desdemonizador". E se o Reino de Deus não se reduz simplesmente a um conceito, mas que é uma força que transforma, Jesus liberta todas estas pessoas estigmatizadas pelos vizinhos e devem ser as primeiras a experimentar a misericórdia de Deus.
2. Por isso, a acusação de que Jesus atua em nome de Belzebu é negar-Lhe todo o pão e o sal do Reino que anuncia e da sua misericórdia. A parábola é, portanto, sintomática: não pode atuar em nome de Belzebu e expulsá-lo. Tem de ser em nome de uma força maior, mas é isso o que não querem aceitar. Não há poderes mágicos nem ocultos, mas uma palavra de vida, de aproximação, de misericórdia, de gratuidade em nome do mesmo Deus que negam a estes desgraçados. É uma terapia psicológica, mas mais que isso, teológica, e espiritual a que os seus adversários não podem resistir. Não é preciso entrar nos termos técnicos dessas doenças da mente, porque o eram também do coração. Na realidade, era então tanto uma doença cultural como religiosa, que Jesus não estava disposto a aceitar perante a sua mensagem evangélica de alegria e de amor.
3. Aquela acusação que quer dar a entender o redator do Evangelho, é justamente o que vem a ser a blasfêmia contra o Espírito Santo. Tratava-se, sem dúvida, de uma "afirmação" de Jesus independente que agora, aqui, assume todo o seu sentido: acusá-l'O de estar a pactuar com Satanás, porque libertar os "endemoninhados" é faltar a toda a verdade. É colocá-l'O do lado das trevas, quando vem trazer a luz; é alinhá-l'O ao lado dos cobardes, quando vem a ser a mesma força salvadora e libertadora de Deus; é inseri-l'O no âmbito de uma cultura malsã de Satanás, quando tudo experimenta e o faz em nome de Deus e da sua bondade. É este o pecado contra o Espírito.
4. A cena que lemos de Marcos, é rematada com aquela dose de maldade até ao ponto de pretenderem responsabilizar a própria família de Jesus para que arranje remédio para o assunto: "A sua mãe e os seus irmãos" vieram para O levar e convencê-l'O a deixar aquele caminho. É uma notícia concisa, dura, realista, sem dúvida. Que uma parte da família não O apoiasse na sua atividade de profeta itinerante, não deve surpreender-nos; é um dos pontos que hoje são assumidos na aproximação à vida histórica de Jesus. A sociedade galileia tinha as suas próprias identidades socioculturais e, nestes casos, não se perdoa nem a uma pessoa nem à sua família. Mas Jesus responde como tinha de responder. Sem renunciar à Mãe nem aos irmãos, estende a sua família a todos os doentes e desvalidos que encontraram na sua "terapia espiritual" uma família nova que os acolha e zele por eles. São os seguidores do Reino de Deus que, libertando-se dessa inaceitável cultura demoníaca, sentem, de verdade, que Deus está com eles nos seus sofrimentos.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro






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