14º DOMINGO TEMPO COMUM
08
de Julho – Ano B
Evangelho
Mc 6,1-6
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O povo intrigado
perguntava: De onde vem a sabedoria dele?
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“ UM PROFETA SÓ NÃO É
ESTIMADO NA SUA PÁTRIA...” Olivia Coutinho
14º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 08 de Julho de 2018
Evangelho de Mc6,1- 6
O caminho do
profeta é um caminho marcado pela perseguição, pela rejeição e até mesmo
pela a incompreensão das pessoas que fazem parte do seu convívio!
O próprio Jesus,
o profeta maior de todos os tempos, passou por esta experiência, além de
rejeitado pelas autoridades políticas e religiosas, foi também
rejeitado pelos os seus conterrâneos, que o
menosprezaram, devido a sua origem, por Ele pertencer a uma família
pobre.
A cruz é certeira no caminho
do profeta, pois são muitos os que tentam calar a sua voz, o que é inútil, pois
nem a morte consegue calar a voz de um profeta! É justamente, depois
da morte do profeta, que a sua voz passa a ressoar com maior intensidade
ainda, chegando até mesmo, por onde ele não pisou.
O evangelho que a liturgia
de hoje nos convida a refletir, nos fala do retorno de Jesus à sua
cidade de origem: Nazaré. Em Nazaré, Jesus experimentou a dor da rejeição, uma
dor profunda, por essa rejeição ter partido dos seus conterrâneos, daqueles que
deveriam ser os primeiros a acolhe-lo!
Antes de saber que Jesus era
o enviado de Deus, o povo ficava maravilhado com as palavras que saiam de sua
boca, mas quando a identidade do Messias, anunciado pelos os profetas, começava
a ser revelada na pessoa Dele, aquela admiração, caiu por terra.
Aqueles que esperavam por um
Messias triunfalista com poderes políticos, que fosse defender seus interesses
pessoais, não quiseram aceitar um Messias de origem simples, que tinha o olhar
voltado para os pequenos, os pobres, os marginalizados.
Avaliando Jesus pela a sua
condição social, eles recusaram a mergulhar no mistério de Deus, ficando
somente no superficial, o mais importante, eles não quiseram ver: o Rosto
humano do Pai, se revelando no filho de um carpinteiro!
Os compatriotas de Jesus,
tiveram nas mãos, a chave da felicidade, mas não se deram conta desta
preciosidade, desperdiçando assim, a graça de Deus que chegou até a eles por
meio de um dos seus. Naquele lugar Jesus não pode realizar milagres,
fez somente algumas curas, não por retaliação, mas pela falta de fé daquele
povo que esperava pelo o extraordinário.
Será que nós também, não
temos atitudes semelhantes as atitudes dos conterrâneos de Jesus? Será que
estamos aceitando o recado de Deus, que chega até a nós, por meio das pessoas
mais simples?
Dificilmente reconhecemos a
sabedoria presente numa pessoa simples. Quantos de nós, fazemos pouco, daquele
ministro da palavra, que faz a celebração nas nossas comunidades com
tanto zelo pela palavra, só porque ele é de origem simples!
Por darmos credibilidade
somente ao que diz os “grandes,” deixamos escapar a mensagem que Jesus
quer nos passar através dos pequenos, dos simples, pois é Ele
quem fala pela boca de seus mensageiros.
É importante lembrarmos:
Jesus o Mestre de todos os mestres, o profeta Maior de todos os tempos,
serviu-se de meios humanos bem simples para anunciar o reino de Deus!
A rejeição a Jesus, não interrompeu o anúncio do
Reino, que continua, através dos incansáveis profetas de hoje, homens e
mulheres que se embrenham pelo O caminho da cruz, dispostos a dar a vida se
preciso for, pela causa do Reino.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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É difícil aceitar o
projeto de Deus
É são Paulo numa das suas cartas que
afirma querer o bem que não é capaz de fazer e odiar o mal que acaba por
realizar. Poderia dizer-se que esta é a síntese da Liturgia deste domingo, uma
vez que nos três textos aparece o projeto de Deus que, nas diversas
circunstâncias, os humanos não são capazes de levar a bom termo. É isto que
acontece com o profeta Ezequiel quando, ao chamá-lo, Deus lhe diz que é enviado
a um povo rebelde. De fato, o próprio Povo de Deus tinha muita dificuldade em
ser fiel ao que Deus lhe pedia (1ª leitura). Quando Jesus entra na sua cidade
de Nazaré, e se encontra com os seus concidadãos na sinagoga, todos se admiram
com a sua doutrina e com os milagres que fazia. Porém, não aceitavam as
orientações que Ele propunha. Isto levou Jesus a dizer que ninguém é profeta na
sua terra (Evangelho). Finalmente, até o próprio Paulo Apóstolo sente o
“aguilhão da carne”, isto é, as tendências para o mau agir, inclinações contra
as quais lutou a vida inteira para ser fiel ao projeto de Deus (2ª leitura).
1. Vocação e missão de Ezequiel
Ezequiel é chamado por Deus para
transmitir ao povo as suas mensagens. É a vocação do profeta, o que o levará a
falar em nome de Deus a um povo marcado por um grande sofrimento, mas também
com dificuldade de aceitar as exigências de Deus. A missão de Ezequiel não é
fácil porque vai dirigir-se a um povo rebelde. Aliás, quer no caminho do
deserto, depois da libertação do Egito, quer no tempo do cativeiro, na
Babilônia, foi sempre frequente o povo revoltar-se contra Deus. É a tentação do
regresso ao Egito ou a sensação de abandono como se Deus estivesse longe, é
sempre a rebeldia de um povo que quer Deus ao seu serviço. A missão
pacificadora de Ezequiel pretende reconquistar o Povo de Deus para o projeto do
seu único Senhor. Ezequiel será profeta da esperança mas com a dureza das
palavras essenciais para vencer a rebeldia do Povo.
2. Ninguém é profeta na sua terra
Em Nazaré, Jesus estava na sua terra.
Todos o conheciam. Tinham acompanhado a sua vida até aos 30 e tal anos. Conheciam
a sua família, a sua profissão, os seus amigos. Foi então uma surpresa vê-lo
falar na sinagoga. São Lucas no seu Evangelho dirá qual foi o tema do seu
discurso: o Espírito Santo ungiu-O para dar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc.
4,18). A mensagem é muito exigente, por isso, pela dificuldade em aceitá-la, os
cidadãos de Nazaré preferem calar o profeta, afastá-lo da cidade, porque a sua
palavra era incomoda. Jesus então, afastou-se apenas com um lamento “ninguém é
profeta na sua terra”. Curiosamente, nem milagres ali quis fazer. Seria sempre
incompreendido.
3. Um espinho na carne
Muito se tem discutido sobre o aguilhão
na carne de que fala são Paulo. Em última análise, ele, simplesmente,
reconhece-se como pecador. E é na sua luta contra o pecado que este seu grito
se situa. Paulo vai ao ponto de considerar as razões do seu sofrimento, as
fraquezas, as afrontas, as adversidades, as perseguições, as angústias, todo um
rol de coisas que o perturbam e que o não deixam entregar-se completamente ao
projeto que Deus reservara para si. Confia porém, sempre, quer na misericórdia
de Deus para perdoar, quer na força de Deus para o ajudar a vencer. A vida de
Paulo é, então, uma luta constante para atingir a perfeição sempre inacessível.
É neste contexto que Paulo acaba por dizer: “quando sou fraco, então é que sou
forte” (2 Cor. 12,10). A história de Paulo, como a história dos concidadãos de
Nazaré, ou a história do Povo de Israel, tudo revela a dificuldade do homem em
aceitar incondicionalmente e com alegria o projeto de Deus.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Neste domingo a Palavra de Deus
apresenta-nos um profeta sem futuro, um carpinteiro sem pai conhecido, e um
apóstolo que não se importa com suas fraquezas. Os três tem a missão de
anunciar os desígnios de Deus e denunciar a falta de correspondência da
humanidade para com o Criador. Pode dar certo uma coisa dessas?
Ezequiel é enviado por Deus mesmo
sabendo que poderá fracassar, mas a missão do profeta independe do seu sucesso;
ela se realiza pelo simples fato de anunciar com clareza a verdade (1ª
leitura). Paulo, apesar de experimentar suas limitações, sentia-se fortalecido
e realizado por ter cumprido a sua missão (2ª leitura). Jesus é rejeitado pelos
seus conterrâneos pelo simples fato d'Ele ser uma pessoa comum (um carpinteiro)
que não fazia parte da instituição religiosa e sacerdotal, nem da classe
dominante (evangelho). Eis os meios que Deus usa para confundir o orgulho dos
grandes e manifestar a verdade!
1ª leitura: Ezequiel
2,2-5
Deus envia Ezequiel como profeta para
falar em seu nome mesmo sabendo que o povo de Israel (“esse povo rebelde... são
arrogantes e têm coração de pedra”) dificilmente aceitará sua mensagem. Será
rejeitado por denunciar a situação de pecado em que vive depois de ter
abandonado a Aliança com Deus. Sua mensagem irá incomodar as pessoas e, não
querendo converter-se, não a aceitarão.
De fato, o profeta entra em choque com
aqueles que se negam a escutar a Palavra que convida a deixar velhas seguranças
e mudar de caminho. Mas o sucesso pessoal de um profeta não é importante. Pelo
menos as pessoas ouvirão a Palavra da Verdade, fácil de entender porque provêm
de uma “criatura humana” e, por tanto, não haverá possibilidade de desculpa.
Saberão que Deus continua a estar presente e preocupado com seu povo,
recordando-lhe o caminho a seguir.
2ª leitura: 2
Coríntios 12,7-10
Para defender a legitimidade de sua
missão apostólica, Paulo cita suas experiências místicas, mas explicando que
isso não é motivo de orgulho para ele, pois reconhece que “um espinho na carne”
o atormenta. Não sabemos ao certo a que se refere Paulo falando assim. Tal vez
se tratasse de alguma doença ou alguma fraqueza moral a corrigir para não
perturbar sua vida pessoal e sua atividade apostólica.
O certo é que ele reconhece que por
mais que tenha pedido ao Senhor ver-se livre disso, seu pedido não foi aceito e
terá que continuar lutando, pois “para você basta a minha graça” lhe fez ver o
Senhor. Isto o levou a experimentar algo tão contraditório como que “é na
fraqueza que a força (de Deus) manifesta todo o seu poder”. Desenvolveu assim a
ideia de que o ideal não é viver sem contratempos nem problemas e, sim,
permanecer fieis a Cristo e ao Evangelho na luta de cada dia.
Evangelho: Marcos
6,1-6
Nazaré era uma cidadezinha pequena onde
todo mundo se conhecia. Lá, na sinagoga, Jesus ensinou de tal forma que todos
ficaram impressionados porque, além das palavras cheias de sabedoria, já tinha
realizado alguns milagres para os quais não encontravam explicação.
A resistência contra Jesus, porém, se
articula ao redor de cinco perguntas que não questionam a validade do seu
ensinamento e sim a sua pessoa:
1. A primeira pergunta julga a origem
de seus ensinamentos (“De onde vem tudo isso?”).
2. A segunda se refere ao conteúdo e
procedência dos ensinamentos (“Onde foi que arranjou tanta sabedoria?”).
3. A terceira julga os milagres (“E
esses milagres que são realizados pelas mãos dele?”).
4. A quarta julga sua condição social e
profissional (“Esse homem não é o carpinteiro?”).
5. A quinta julga sua origem familiar
(“o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas
irmãs não moram aqui conosco?”).
São perguntas que não procuram
resposta; apenas manifestam o bloqueio da mentalidade mesquinha de seus conterrâneos.
Simplesmente, por causa do preconceito, a origem humilde de Jesus não lhes
permite aceitar sua pessoa.
Ele não era nem sacerdote nem rabino;
como é que um homem do povo, pensava ser mais do que os outros? Não tinha feito
estudos na escola rabínica sobre a Lei de Moisés; com que autoridade pretendia
ensinar? Era verdade que os milagres não tinham explicação, mas ele não era
mais que o carpinteiro (aquele operário da construção que trabalhava a
madeira). Além disso, sua família, sem status social, era bem conhecida na
cidade. Parecia ser “filho de José”, mas (em Nazaré tudo se sabia) Ele era
apenas “filho de Maria” porque já estava grávida dele antes de morar com seu
esposo (um judeu sempre era “filho de seu pai”; se apenas era “filho de sua
mãe” não tinha destaque social).
Por essas e por outras, “ficaram
escandalizados por causa de Jesus”. Sua admiração inicial se transformou em
incompreensão e desconfiança. Não quiseram admitir que alguém como eles pudesse
realizar sinais da presença de Deus e tivesse sabedoria superior à dos
profissionais da religião. O que impediu a fé deles não foi mais que o
preconceito, somado à hipocrisia que sempre o acompanha.
Jesus “ficou admirado com a falta de fé
deles” e percebeu que não dava para fazer grande coisa na sua cidade porque o
milagre exige, como condição prévia, a fé da pessoa. Foi uma pena. Apesar de
que “muitos que o escutavam ficavam admirados”, a maior parte deles não
permitiu que fosse “estimado em sua própria pátria”.
O preconceito impede o raciocínio e sempre
põe tudo a perder!
Palavra de deus na
vida
Os habitantes de Nazaré haviam visto
Jesus crescer, brincar, ir à escola, trabalhar... Pensavam conhecê-lo bem; mas
o essencial d'Ele lhes era desconhecido. É muito parecido com o que acontece
hoje. Muitos o reconhecem como uma das grandes figuras da humanidade; um homem
extraordinário, lúcido, sábio, promotor da paz e da justiça, mas apenas um
homem. Conhecem o personagem, mas não se aproximam do mistério que há n'Ele.
Nós, também, podemos pensar que
conhecemos bem Jesus quando, na realidade, poderíamos perguntar-nos se
realmente o conhecemos; se, mais do que por suas palavras e suas obras, o
conhecemos por termos uma relação pessoal com Ele. Porque, para reconhecer
Jesus, não basta uma certa proximidade exterior. O pior para que a fé possa
vingar é acostumar-se a viver ao lado do mistério sem deixar-se penetrar por
ele. Dai que os que mais conheciam Jesus fossem os mais receosos em confiar
n'Ele.
Podemos ser aqueles “católicos de toda
a vida” que sabem tudo sobre Jesus, e até proclamam que é Filho de Deus, mas
continuamos sem abrir-nos à sua pessoa, sem estar à escuta da sua Palavra
sempre nova, sem descobrir os sinais de sua presença na vida de cada dia. Pode
parecer mais fácil buscar a Deus naquilo que é espetacular, mágico e
extraordinário do que onde realmente Ele está, que é, na simplicidade, no
cotidiano e no normal que faz parte da vida.
É preciso muito mais do que conhecer
Jesus por fora. É preciso entrar em contato com seu mistério para deixar-se
ensinar por Ele e segui-lo. É necessário ser discípulo, aprofundar nossas
raízes na pessoa de Jesus, conhecê-lo por dentro.
Pensando bem...
+ Será que pensamos conhecer Jesus e
saber quase tudo a respeito d’Ele?
+ Estamos abertos à sua Palavra e
cultivamos a amizade com Ele?
+ Somos capazes de escutar sua voz nos
pobres e marginalizados?
padre Ciriaco
Madrigal
"Apenas curou
alguns doentes, impondo-lhes as mãos"
Domingo do profeta Jesus na sinagoga de
Nazaré. O domingo é nossa Páscoa semanal em que celebramos a festa da vida que
vence a morte. Celebramos a fé naquele que se encarnou no seio de Maria, fez-se
homem, sofreu, foi morto, sepultado e ressuscitou. Entramos em comunhão com
Ele, assumindo nossa história humana com todos os riscos: indiferença e
rejeição, injúrias, perseguições e angústias.
Hoje somos chamados a passar da morte
para a vida, comprometendo-nos a agir com mais generosidade para realizar a
vontade do Pai na terra, tão bem como no céu.
Celebramos a Páscoa de Jesus que
experimentou a rejeição em sua própria terra, de seu próprio povo e, hoje,
continua rejeitado na vida de tantas pessoas marginalizadas e excluídas da vida
social, política e até de nossas comunidades.
Recebemos, ó Deus, a tua misericórdia
no meio da tua casa. Teu louvor se estende, com o teu nome, até os confins da
terra. Toda a justiça se encontra em tuas mãos (Salmo 48,10-11), antífona do
canto de abertura de hoje.
Primeira leitura -
Ezequiel 2,2-5
"Que ouçam ou não, saberão que há
um profeta entre eles". A primeira leitura faz parte da longa narrativa da
vocação de Ezequiel (capítulos de 1 a 3). Dominado pela magnífica visão da
glória divina, o profeta estava prostrado por terra. Ma a voz de Deus lhe ordena
que se ponha de pé para ouvir o encargo da missão (2,1). Ezequiel sente-se
invadido e dominado pela força do Espírito de Deus (cf. 3,12.24; 8,3; 11,1), à
medida dos juízes (Juízes 14,6.19; 15,14) ou dos antigos profetas, Elias (1Reis
18,12; 2Reis 2,16) e Eliseu (2Reis 2,15). Como os profetas que vieram antes de
Ezequiel, ele tem consciência clara de ser um enviado de Deus.
Diante de um povo insensível, rebelde,
"cabeça dura e coração de pedra (2,4), Ezequiel deverá se apresentar como
encarregado de uma missão divina ("tu lhes dirás") a ser autenticada
com a fórmula "oráculo do Senhor Deus".
Esta leitura nos mostra que Deus sempre
envia profetas para nos chamar à conversão, mesmo quando não queremos
escutá-los. A atividade de Ezequiel pode ser situada entre 593-571 a.C.,
período de dificuldades e sofrimentos para o povo de Deus exilado na Babilônia.
Em ambiente difícil e hostil, ele precisa manter lucidez profética. Sua missão
é dramática: está junto ao povo, mas não deve dizer palavras agradáveis. É chamado
de "filho do homem", o que significa que pertence à frágil raça
humana. Ele nada mais é que um homem, um servo.
Ezequiel caído, prostrado como todo
povo exilado, recebe o espírito de profecia que o põe de pé e lhe permite
discernir em meio a situações difíceis e obscuras o que Deus fala. Gostando ou
não, deve ser porta-voz de Deus no meio do povo. Profeta não é diplomata. Sua
missão tem duplo sabor: experimenta a doçura do mel que brota da Palavra de
Deus, mas esta mesma Palavra lhe causa a amargura. Deve proclamá-la, sendo
aceita ou não, oportuna ou inoportunamente, mesmo rejeitado.
Ser profeta é por em risco a própria
vida. Para ele não há previsão de elogios e aplausos. O exílio da Babilônia não
foi fruto do acaso, como não o é a miséria, a dependência e a opressão em que
vive o povo hoje. O sofrimento de muitos era responsabilidade da elite que
também se encontrava na Babilônia: a "nação de rebeldes, filhos de cabeça
dura e coração de pedra" (2,4). Ela se torna surda aos apelos que Deus faz
por meio de Ezequiel. Mesmo sem ser ouvido, o profeta é um sinal de que Deus
não abandona seu povo.
Ezequiel, a exemplo dos demais
profetas, tem certeza de ser um enviado de Deus. Quando fala não o faz por
interesse pessoal, mas por imperativo divino. Como outros profetas foi por isso
rejeitado e incompreendido (Ezequiel 33,30-33; cf. Isaias 6,9s; 28,9-22;
Jeremias 11,19-21), pois a pretensão de falar em nome de Deus é sempre vista
com desconfiança por parte das pessoas. Teve que denunciar o pecado e anunciar
o castigo (Ezequiel 4-24), e depois reanimar o povo abatido (Ezequiel 37), na
certeza de que o Senhor estava com ele. Teve que lutar sozinho contra a
correnteza da opinião pública, acostumada a ouvir as palavras agradáveis dos
falsos profetas, anunciadores de uma segurança ilusória (Ezequiel 13). Só com o
passar do tempo, quando os fatos históricos dessem razão (Ezequiel 24,25-27;
33,21-22) para Ezequiel, é que o povo "ficaria sabendo que houve um
profeta entre eles" (2,5).
Como aconteceu com Ezequiel e outros profetas,
haveria de acontecer com Jesus. Também Ele foi investido pelo Espírito no
momento do seu batismo no Jordão para anunciar a Boa-Nova do Reino. Os
primeiros a rejeitá-Lo foram seus próprios conterrâneos de Nazaré (cf. Marcos
6,1-6). Somente após a sua morte e ressurreição é que a figura de Jesus de
Nazaré seria reabilitada.
Salmo responsorial
122/123,1-4
Este salmo data, sem dúvida, dos tempos
que se seguiram à volta do Exílio da Babilônia ou da época de Neemias, quando a
comunidade renascente era alvo do desprezo e dos ataques pagãos (cf. Neemias
2,19; 3,36). É uma súplica coletiva. É o povo todo ("os nosso olhos",
"de nós") que clama ("compaixão de nós", "estamos
fartos", "nossa vida"). Clamando a Deus, pedindo compaixão
diante de algo que atingiu toda a comunidade.
O rosto de Deus no salmo 122/123. Deus
aparece em dois momentos. É apresentado como Senhor do povo, mas um Senhor que,
em lugar de dar ordens mudas, atende com respostas de compaixão, traduzida em
liberdade e vida. Sua característica mais importante neste Salmo é, de
fato, a compaixão pelo povo, farto de miséria e desprezo dos grandes.
Lucas é o evangelista que gosta de
apresentar Jesus e o Pai compadecendo-se (Lucas 7,13; 15,20). Se no Salmo o
povo não reclama inocência, confessando a própria culpa com o olhar que pede
compaixão, Jesus se apresenta como Aquele que conhece o que há dentro das
pessoas e, por isso, perdoa pecados (Lucas 7,36-50; Marcos 2,5). Jesus atendeu
a todos os clamores, de uma pessoa ou de várias. Não tratou os seus como
servos, mas como amigos (João 15,14-15).
O Salmo 122/123 é expressão do povo
cheio de sofrimento e de desprezo. Contudo, em vez de abaixar a cabeça e o
olhar, está com os olhos fixos em Deus, até que dele se compadeça. É uma oração
coletiva de pedido de socorro.
Cantando este salmo na liturgia desse
Domingo, apresentemos ao Senhor o sofrimento de todos os oprimidos da América
Latina e do mundo.
Segunda leitura - 2
Coríntios 12,7-10
Talvez ninguém recebeu tantos dons
extraordinários como Paulo. Em vez de revelar o seu mundo divino, detém-se em
seu mundo humano e fraco. No versículo 5 ele distingue dentro dele dois homens:
- o cristão que é divino e se apóia na união vital com Cristo, e - o humano,
com suas debilidades. Afirma que poderia gabar-se das revelações divinas, mas
prefere se engrandecer de suas fraquezas, que são coisas próprias (vs. 5-6).
Além disso, declara algo importante: perante seus privilégios, para não cair na
soberba, como contrapeso, foi-lhe posto um como espinho na carne. Segundo os exegetas,
tal "espinho na carne" seria uma referência a uma enfermidade
corporal que o fazia sofrer de modo exagerado, física e moralmente,
impedindo-lhe o bom desempenho de sua missão apostólica; muito se escreveu e
pouco se pode afirmar sobre a natureza dessa doença: febre? oftalmia? ataques
de nervos? Parece tratar-se da mesma doença de Gálatas 4,13-14. Padres da
Igreja, seguidos por modernos, julgam ver ai claramente as perseguições que
Paulo passou. Há quem sugere que o "espinho na carne" significa
até as tentações da carne. Todas são posições justificáveis.
Para Paulo, somente a fraqueza exterior
desvenda a natureza profunda de sua missão. Por isso, prefere ver a garantia
desta última nos mensageiros de Satanás e no espinho da carne (vs. 7-9), que
provavelmente também simboliza a inimizade dos falsos irmãos (sentido desta
expressão está em Números 33,55; Josué 23,13; Ezequiel 28,24).
O verbo "esbofetear"
significa humilhação, desprezo, visando prevenir da vaidade. Paulo pediu por
bem três vezes ao Senhor - como Jesus no Getsêmani (cf. Mateus 26,44) - que lhe
tirasse o vexame (v. 8). Ele ora "ao Senhor", a Jesus glorioso, cheio
de poder sobre as potencias do mal (Mateus 12,29; Colossenses 2,15). Assim
Paulo e a Igreja rezam a Cristo, coisa pacífica para nós hoje. Porém nem sempre
foi assim: nos primórdios da cristandade, a oração era dirigida de preferência
a Deus Pai, sem excluir Jesus Cristo, por isso que os cristãos são os que
invocam o Nome do Senhor Jesus Cristo (Atos 9,14) e a Igreja é a comunidade dos
que suplicam ao Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 1,2).
Esta leitura mostra-nos o que ampara o
discípulo de Jesus em sua missão. Paulo experimenta um "espinho na
carne"; conflitos que quem segue Jesus encontra e enfrenta dentro e ao
redor de si mesmo. Por dentro a pessoa se sente repleta de fraqueza e de
necessidades. Por outro lado, já os conflitos que vem de fora: "fraquezas,
injúrias, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo".
"A você, basta a minha
graça". Nasce, assim, uma espiritualidade do conflito, uma mística que
descobre Deus não no sucesso, mas justamente no aparente fracasso de pessoas e
projetos, pois o próprio Deus se manifestou vitorioso no suposto fracasso de
Jesus na cruz. É uma presença que é graça, força, dinamismo. "Quando sou
fraco, então é que sou forte", porque o que o amparo na missão é a graça
de Deus.
Evangelho - Marcos
6,1-6
Na passagem de uma viagem missionária,
Jesus passa por Nazaré, a cidade de sua família. Toma a palavra no dia de
sábado na sinagoga, segundo as regras admitidas então para a homilia da segunda
leitura (Lucas 4,16-30), mas só recebe desprezo e recusa.
Na época, a liturgia da sinagoga estava
centrada em duas leituras. A primeira, tirada da lei (Pentateuco), era lida e
comentada por um doutor da lei; a segunda, de origem mais tardia, devia ser
tirada dos profetas e podia ser lida e comentada por qualquer pessoa que
tivesse pelo menos trinta anos de idade. Ora, Jesus acaba de celebrar seu
trigésimo aniversário e, por isso, reivindica o direito de ler e comentar a
segunda leitura. Portanto, seu primeiro discurso público é uma homilia
litúrgica (cf. Lucas 4,16-30).
Sua própria família recusa-lhe
confiança que Ele reclama (v. 4; cf. João 6,44, a referencia aos seus parentes
é própria de Marco).
Os judeus indicam aqui Jesus com o
termo de "filho de Maria" (v. 3), modo de falar que faz
referencia a um nascimento ilegítimo. Maria teve que sofrer estes enganos
(cf. o sentido a ser dado talvez a Lucas 2,35) e freqüentemente ausentou-se de
Nazaré, precisamente no momento de sua gravidez (Lucas 1,56); Mateus 2,21-22).
Ser Mãe do Messias não é apenas um privilégio: Maria aprende a carregar a
injúria como Jesus aprende a carregar a cruz.
O evangelista apresenta uma teologia da
missão da comunidade e da Igreja à qual ele pertence e para a qual ele escreve.
A atividade missionária da década de sessenta e setenta depois de Cristo é
revista e interpretada à luz da pregação e da sorte de Jesus. O evangelista
mostra que Jesus continua presente na pregação do Evangelho em todos os tempos.
"Ficaram espantados".
Significa ferir, chocar, espantar e até ficar fora de si. Isto significa que a
figura de Jesus e a doutrina dele questionam a assembléia e exigem uma tomada
de posição. Pode ser uma posição a favor ou contra Ele, mas exclui-se uma
atitude neutra.
Ora, a própria liberdade da fé supõe a ambigüidade da personalidade de Jesus. E esta ambigüidade não se separa pelo fato de que Ele é Deus e homem ao mesmo tempo. A sua humanidade esconde e ao mesmo tempo revela a sua divindade. Marcos em sua teologia quer dizer assim: quanto mais a divindade se esconde por trás da humanidade de Jesus tanto mais ela se revela.
Ora, a própria liberdade da fé supõe a ambigüidade da personalidade de Jesus. E esta ambigüidade não se separa pelo fato de que Ele é Deus e homem ao mesmo tempo. A sua humanidade esconde e ao mesmo tempo revela a sua divindade. Marcos em sua teologia quer dizer assim: quanto mais a divindade se esconde por trás da humanidade de Jesus tanto mais ela se revela.
O que o evangelista fez para o seu
tempo e ambiente é tarefa contínua da Igreja: rever sua caminhada e sua missão
à luz do Evangelho e da memória de Jesus. A religião cristã não consiste em
construir e manter uma fachada que enfeita o nosso mundo com recintos sagrados
e sinais religiosos e cristãos, nem em varias o ritmo da vida com certas
celebrações esotéricas e manifestações públicas religiosas que deixam o próprio
mundo, isto é, as pessoas e sua história sem serem atingidos com celebrações
alienantes (cf. Mateus 7,21-23; Lucas 13,25-27; 6,46 e textos do Primeiro
Testamento como Jeremias e contexto).
Na teologia que Marcos desenvolve entre
1,21-27 e 6,1-6 ele esmiúça bem claramente o que vem a ser a religião cristã. É
entrar no processo histórico que Jesus inaugurou; é participar da sorte Dele e
entrar no seu caminho, que é o do divino no humano, do sagrado no profano, do
transcendente no imanente; em outras palavras é o caminho de encontrar o Reino
de Deus na história e da "santificação" do mundo e das pessoas.
No início da missão na Galiléia, Jesus
foi aceito com entusiasmo pela multidão que o ouvia e acolhia a Boa-Nova,
principalmente entre os pobres e doentes. Mas ao mesmo tempo sofreu rejeição em
sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos
esperavam um Messias forte e dominador e não podiam imaginá-lo simples
carpinteiro e filho de Maria. É o símbolo da não aceitação de um povo que mata
os profetas enviados por Deus.
Jesus vai a Nazaré e ensina na
sinagoga. É uma visita marcada pela admiração. No início, quem se admira são os
ouvintes. Porém, tal admiração não os leva à fé em Jesus, e sim à rejeição,
pois vêem Nele "uma pedra de tropeço". No final desse Evangelho, é
Jesus quem se surpreende com a falta de fé do povo, o que impede a realização
de milagres. Fora do contexto da fé, um milagre perde o sentido. O poder da fé
não se limita a curas, mas à chegada e à manifestação do Reino de Deus.
O que é extraordinário em Jesus-Messias
é o fato de em nada ser diferente da pessoa humana comum: é justamente sua
encarnação. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, inseriu-se na história
de seu povo, onde aprendeu e cresceu em humanidade. "Pois ele mesmo foi
provado em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hebreus 4,15b)
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
A Palavra de Deus, neste domingo, nos
faz um apelo: não depositar a nossa confiança nos grandes. Também não
precisamos ter medo de nossa pequenez e fraqueza. Na trajetória de Jesus, o
maior fracasso se transforma em vitória e ressurreição. Junto a Ele há lugar
para os fracos. Em Cristo somos fortes. Como nos diz Paulo na segunda leitura,
podemos descobrir que a nossa força pode estar escondida em nossa própria
fraqueza.
Jesus fica admirado com a falta de fé
das pessoas de sua terra, as quais não acreditam que Deus possa falar através
de pessoas simples. A Palavra de Deus se reveste de roupagem humana e vem a nós
com o auxílio da história e de pessoas frágeis, enviadas por Ele. A fraqueza
humana dos enviados por Deus cria um espaço de liberdade; quem ouve pode
decidir a favor ou contra. Às vezes, gostaríamos que Deus se revelasse mediante
atos maravilhosos e assim evitaríamos o trabalho de discernir quando e por meio
de quem Deus se revela.
Jesus se fez servo e, por isso, entra
em choque com os que preferem o privilégio e o poder. A encarnação continua nos
questionado.
Jesus de Nazaré foi motivo de escândalo
para os que O viram com os olhos humanos. A quem não quer crer, Ele nada
revela, não faz milagre nenhum. Mas a nós, reunidos na fé, Ele se revela em
toda a profundidade. A celebração é momento de assumir diante de Deus as nossas
fraquezas, acreditando que só o que é assumido, pode ser transformado.
A missão profética se insere numa
realidade de conflitos. Hoje as fraquezas e necessidades que batem à porta de
quem se dedica ao trabalho pelo Reino de Deus são o medo, diferentes modelo de
igreja, insegurança, despreparo, falta de recursos materiais e humanos. Como
transformar a fraqueza, a ponto de ser nela que a força de Deus se mostra
perfeita?
O documento de Puebla nos fala do
"potencial evangelizador dos pobres". O que podem nos dizer os
pobres, os deficientes de nosso país? Aceitamos a revelação de Deus vinda na
fraqueza de nossos irmãos e irmãs, na simplicidade do dia-a-dia?
A Palavra se faz
celebração
A escola de Nazaré
O anúncio de Jesus continua hoje na
celebração, isto é, a Palavra se faz celebração. Ele nos reúne, apesar de nossa
cabeça dura e nossas limitações, para acolher com fé a sua mensagem. Dirige-nos
sua Palavra e nos ensina, ainda que estejamos pouco abertos para acolher a sua
Palavra de vida. Coloca-nos ao redor de sua mesa, mesmo que nossos olhos ainda
estejam um tanto obscurecidos para reconhecer sua presença ao partir o pão. Nos
sinais do pão e do vinho encontramos a verdadeira metáfora da rejeição de Nazaré,
narrada pelo Evangelho: como pode um alimento tão cotidiano, tão simples nos
transportar à comunhão com a divindade do Filho de Deus? Como um fruto trivial,
esmagado e dado como bebida, tantas vezes apreciado nas mesas por puro prazer,
leva-nos a realizar a nova e eterna Aliança? Os sinais da fé que nos reúnem são
igualmente desacreditáveis. E, de fato, para muitos o são... Mas a fé cristã,
que só pode ser compreendida segundo a dinâmica sacramental da salvação, em que
Deus se dá a conhecer ao modo humano (simples, simbólico, frágil), indica-nos
esse caminho: "é pela humanidade que Ele nos salva" (Constituição
Conciliar Sacrossanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia nº 5. Sem olhar
para Nazaré e para a escola que o pequeno vilarejo significou na vida de Jesus,
não entenderemos o valor da sua humanidade para a nossa salvação. O saudoso
Papa Paulo VI o compreendeu: "Nazaré é a escola onde se começa a
compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a
escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso,
dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus.
Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo. Aqui se aprende o método
que nos permitirá compreender quem ó o Cristo. Aqui se descobre a necessidade
de observar o quadro de sua permanência entre nós: ... tudo de que Jesus se
serviu para revelar-se ao mundo.
A nossa Nazaré
Se quisermos entender quem é Jesus,
façamos o caminho inverso daquele palmilhado por seus conterrâneos. Olhemos
para a "nossa Nazaré", na qual o Cristo sempre se revela. Nazaré é
hoje o nosso lugar, a nossa vida, a nossa cruz. Aqui Jesus se esconde a retorna
para nos buscar. A fé vivida na comunidade tem a ver com essa experiência de
Jesus, com esse lugar que Ele deseja ocupar. O lugar dos pequenos e dos frágeis
que, segundo a norma da fé, não mais nos entristece, mas nos alegra. Com o
Apóstolo Paulo, comprazendo-nos "nas fraquezas, nas injúrias, nas
necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas", assim encontraremos
o caminho trilhado por Jesus e encontraremos sua força.
Ligando a Palavra com
a ação eucarística
A Palavra de Deus hoje nos convida a
renovar nossa adesão a Jesus, consagrando-nos mais generosamente à cauda do
Reino de Deus.
Esta nossa profissão de fé nos leva a
confirmar que seguimos aquele que foi rejeitado por ser trabalhador, filho de
Maria, uma pessoa comum de seu tempo, vindo de uma aldeia e, por isso, motivo
de desprezo e rejeição.
Movidos por essa fé, nos reunimos em
assembléia celebrante onde, pela sua Palavra, Jesus nos leva a assumir nossa
evidente fragilidade sem precisar mascará-la com falsa grandeza e a buscar em
sua graça a nossa força. Hoje, particularmente, nossas preces precisam
expressar esta realidade.
Acima de qualquer expectativa humana, o
Senhor manifesta sua grandeza na singeleza do pão e do vinho, frutos da terra e
do nosso trabalho. Na simplicidade da partilha entre nós, ele nos confirma no
seu caminho. É em nossa fraqueza que Deus continua manifestando sua força.
padre Benedito
Mazeti
"Nazaré das nossas ilusões"
É bonito quando vemos
alguém famoso causando admiração, outro dia em uma festa de casamento, que
acontecia em um belo salão, adentrou um artista de grande talento, contratado
pela noiva, representando o Elvis Presley e era de se espantar em ver como os
seus trejeitos, lembravam realmente o rei do rock, todos os convidados se
aproximaram para umas fotos, as mulheres queriam acompanhá-lo na dança ousada,
e até os homens se admiravam e a sua presença inusitada, surpreendeu a todos.
Quando Jesus chegou a
sua “terrinha” de Nazaré, acompanhado dos discípulos, deve ter causado um
verdadeiro “rebuliço”, pois a fama de suas pregações e milagres já tinha
chegado por ali, e no sábado, como todo piedoso judeu, foi á celebração da
palavra da comunidade, onde qualquer pessoa adulta poderia partilhar o
ensinamento sobre a Palavra e Jesus, usando desse direito, começou a pregar á
sua gente fazendo a homilia.
O povinho da terra
nunca tinha ouvido uma pregação feita com tanta sabedoria, que superava o
ensinamento dos Mestres da Lei e Fariseus, imaginemos que na comunidade, algum
ministro da palavra pregue melhor do que o padre... E com o estudo teológico
acessível aos leigos, isso hoje não seria novidade. Aquilo que causa muita
admiração, também logo acabará despertando inveja e ciúmes.
Basta que olhemos
para os nossos trabalhos pastorais, onde o carisma das pessoas não deveria
jamais perturbar o coração de ninguém, ao contrário, deveria motivar um hino de
louvor, por Deus ter dado a alguém um carisma tão belo, colocado a serviço da
comunidade. Mas logo surgem os questionamentos maldosos: Como é que ele faz
isso? Onde aprendeu? Quem o ensinou, de onde é que vem todo esse saber? Será
que o padre o autorizou? (esta última coloquei por minha conta) E a admiração,
contaminada por sentimentos de inveja, vai logo se transformando em
desconfiança aumentando o questionamento: “Quem ele pensa que é para falar
assim com a gente? Será que ele não se enxerga? E ainda tem gente que o aplaude...”
Os que não gostam muito do padre, logo vão afirmar que o sujeito faz parte da
sua “panelinha”, ou então, irão inventar alguma coisa para que o padre “corte a
asinha” do tal.
Jesus deve ter
sentido uma frustração muito grande, quando percebeu sentimentos tão mesquinhos
em meio á comunidade onde cresceu e fez a sua catequese. Duvidavam da sua
sabedoria, e talvez para provocá-lo, queriam que ele resolvesse algum problema
da comunidade, “Se ele endireitar a comunidade, daí eu acredito”. Às vezes
também nos iludimos quando queremos que alguém que fala “certos milagres”,
talvez o cooperador, o coordenador do grupo, o catequista, o ministro da
palavra, quem sabe o coitado do Diácono ou o Padre, que têm autoridade. Penso
que na sinagoga de Nazaré foi mais ou menos assim que os fatos ocorreram,
queriam jogar tudo nas costas de alguém, e como Jesus tinha fama de ser o
Messias...
As pessoas, quando
enxergam algo de extraordinário no carisma de alguém, começam a fazer do
sujeito uma referência importante, acham que a sua oração é especial, que um
toque de sua mão poderosa pode realizar curas prodigiosas, e em pouco tempo, a
propaganda é tanta, que o tal não pode mais sair as ruas que é logo procurado
para resolver os mais complicados problemas, inclusive de relacionamento entre
as pessoas, apaziguar casais brigados, aconselhar jovens, e assim a sua palavra
se torna poderosa e em conseqüência passa a ter poder religioso paralelo, e se
na comunidade não houver um espaço para ele atuar, terão de criar um, pois ele
precisa ser o centro das atenções.
Jesus não quis formar
um grupo só para ele, para bater de frente com os Doutores da lei, escribas e
fariseus, e como ele pertencia a uma das famílias do local, a ponto de sua mãe
e seus irmãos serem de todos conhecidos, começaram a vê-lo como um vulgar, que
nada de extraordinário tinha feito em Nazaré, para que merecesse toda aquela
fama.
Na verdade, Jesus não
quis assumir o papel de “Salvador da Pátria”, diferente de muitos cristãos, que
se julgam o máximo naquilo que fazem, e pensam que sem eles, a comunidade
estaria perdida. Essa rejeição á ele, suas obras e ensinamentos, iria se
ampliar e lhe traria conseqüências muito trágicas na cruz do calvário, tudo
porque suas palavras anunciavam um reino novo, que exigia uma total renovação e
mudança de vida.
Quando a pregação que
ouvimos, serve para o vizinho, ou para o marido ou a esposa, ou quem sabe para
os filhos, ou para o chefe ou o colega de trabalho, prestamos muita atenção e
vibramos, só em pensar que aquelas verdades atingem em cheio a pessoa em quem
pensamos. Porém, quando a pregação toca o nosso coração e nos motiva a mudar o
nosso jeito de pensar ou de agir, temos duas reações, ou reconhecemos a
legitimidade da palavra e abrimos o nosso interior, para uma conversão sincera,
ou então rejeitamos o pregador e passamos a querer vê-lo pelas costas.
Na sinagoga de Nazaré
foi assim, e nas nossas comunidades, não é muito diferente. Quem prega mudanças
de mentalidade e conduta, vai sempre arrumar uma bela de uma encrenca. Enfim, o
Jesus que há dentro de nós, criado pelas nossas fantasias, ou fruto de nossas
ideologias sociais ou políticas, não coincide com esse Jesus, Profeta de
Nazaré, Ungido de Deus. E o pior, é que projetamos tudo isso nas pessoas que
lideram a comunidade, nos cooperadores, nos coordenadores, nos ministros, nas
catequistas, nos padres e diáconos e assim vai. Um dia, basta um
desentendimento mais sério e o nosso Jesus idealizado “vai pro espaço” com a
pastoral e o movimento.
Quanto mais somos
realistas em nossa fé, mais nos adequamos á comunidade aceitando-a como ela é,
quanto mais nos iludimos com o Jesus da nossa fantasia, mais difícil será
vivermos em comunidade, aceitando as pessoas do jeito que elas são. Daí, como
em Nazaré, nenhum milagre acontece, por causa dessa fé infantil e ilusória...
diácono José da Cruz
1 – O profeta, pela
sua missão, está exposto à crítica, ao boato e à perseguição. Hoje como ontem.
Foi assim com os profetas de Israel, com João Batista e com Jesus Cristo, e com
todos aqueles que ao longo do tempo "carregaram", com alegria e criatividade,
o compromisso de viver segundo os ideais da palavra de Deus, promovendo a
justiça, a honestidade, a coerência de vida, anunciando, em palavras e em
obras, novos tempos, denunciando situações anquilosadas, pecaminosas,
destrutivas da sociedade.
Ontem como hoje,
junto dos mais próximos ou dos mais distantes, ora acarinhados e adulados, ora
perseguidos e denegridos no seu bom nome, sob pressão, ameaça e chantagem, mas
sempre vigilantes e fiéis à verdade, à justiça e ao bem, conscientes de serem
portadores das boas notícias de Deus.
Na primeira leitura,
o profeta Ezequiel fala-nos da sua vocação. É chamado por Deus e enviado a um
povo rebelde, que, em terra estrangeira, no exílio, se afasta cada vez mais dos
desígnios de Deus. "O Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então
Alguém que me dizia: «Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um
povo rebelde que se revoltou contra Mim»".
A sua missão não é
nada compensadora, e nada fácil, humanamente falando. Tenta a todo o custa
relembrar ao povo a sua identidade, denunciando os desvios e acalentando a
esperança de regresso à terra da promessa.
2 – Por vezes é entre
os nossos que somos mais mal-amados e incompreendidos. Na hora de chamar a
atenção somos mais tímidos e comedidos em contextos de amizade, de família, de
camaradagem, ora pela grande cumplicidade, ora pelo medo de colocarmos tensão
no relacionamento com aqueles com quem contamos. Sublinhe-se, porém, que em
muitas situações também nos tornamos mais repentinos, mais espontâneos, menos
tolerantes para com aqueles que vivem à nossa beira.
Em sentido inverso,
aqueles que se sentem mais próximos poderão pedir/exigir o que sabem não ser
exigível por ninguém. Veja-se, como exemplo, as “cunhas” a que (quase) todos
recorrem, a troca de influências (muitas vezes decente e honesta).
Ezequiel é enviado
para o povo de onde é originário. O fato de alertar para os desvios criar-lhe-á
dissabores entre os próprios familiares. Jesus vai experimentar o desconforto
entre os seus. Na expectativa, porque O conhecem de pequenino, e porque pensam
merecer e exigir mais, bloqueiam a mente e o coração a qualquer novidade.
“Jesus dirigiu-Se à
sua terra... «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, Filho
de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas
irmãs aqui entre nós?»... Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua
terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer
milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”.
Jesus, contudo, não
deixa de pregar a Palavra de Deus e curar os doentes. Também em Nazaré, Ele
quer deixar uma marca de bem, de divino, de milagre, também na sua terra Ele
desafia, propõe, também aí Ele leva Deus.
3 – O Mestre dos
Mestres regressa a casa, física e espiritualmente. É de casa que parte, pois é
em casa que aprende a ser gente, a relacionar-se social e religiosamente, a
desenvolver os laços de profunda interdependência, no diálogo tranquilo e
afável, na partilha espontânea, na convivência inocente e apaziguadora, na
solidariedade alegre para com os mais pobres que passam, na ligação inevitável
à terra e à natureza.
É em casa que
começamos a ser cristãos e onde primeiro se verifica a autenticidade da nossa
fé. É em família e com a família. São as primeiras pessoas que Deus nos deu (e
nos dá) para amar, para servir, para acolher, para defender, para abençoar,
para proteger, para nos deixarmos enriquecer com a sua presença. É em casa.
Primeiro coração, primeiro amor: a família. Conceito só compreendido e
extensível à família cristã, à família de Deus, se antes se compreende e se
experimenta, em casa, a ternura, a afabilidade e a bondade.
Jesus levou 34 anos a
crescer, junto de José e de Maria, e dos seus parentes. Só na idade madura está
pronto para alargar a família e para nos ensinar a transpor as fronteiras da
nossa, para constituirmos família com os outros que se encontram nas
vizinhanças. Em 3 anos, tão curto e tão profícuo tempo, Jesus colocará em ação
toda a Sua experiência, criatividade, toda a bagagem que construiu e
tornando-Se "semeador" de sonhos, de vida nova, de salvação. É um
vendaval. Arrasta multidões. A fama vai à frente. Na sua terra, talvez não se
surpreendam, já O conheciam, não vêem diferente, é o filho do carpinteiro. Não
se abrem ao ideal, às surpresas de Deus. Mas é Deus Quem Ele anuncia, Quem Ele
comunica.
4 – Na nosso frágil e
belo peregrinar, não cessemos de ser profetas, propondo o bem que venha de
Deus, e acolhendo dos outros o que de Deus nos podem ofertar.
São Paulo
empresta-nos palavras de confiança (e desafio):
"Ele disse-me:
«Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu
poder». Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que
habite em mim o poder de Cristo. Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas,
nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo,
porque, quando sou fraco, então é que sou forte".
Sem Deus, nada. Com
Deus, tudo, e até as fraquezas se converterão em fonte de vida e de salvação,
em oportunidade para que Deus reluza através da nossa pobreza.
"Levanto os
olhos para Vós, para Vós que habitais no Céu, como os olhos do servo se fixam
nas mãos do seu senhor. Como os olhos da serva se fixam nas mãos da sua
senhora, assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus, até que
tenha piedade de nós" (Salmo).
Nas cercanias ou nos
desertos da nossa vida, confiemos: Deus será a mão que nos segura e nos
levanta, o olhar que nos envolve, a nossa esperança, a Luz que nos salva, a
terra firme que pisamos, o porto seguro, o nosso abrigo. Como crianças que se
deixam guiar pela voz e pelo olhar da/o mãe/pai, em passos hesitantes ou em
passos experimentados, assim nós nos deixemos conduzir pela Sua Palavra e pelo
Seu amor.
padre Manuel Gonçalves
O espírito do
verdadeiro profeta
1ª leitura: Ezequiel
2,2-5
O profeta, o homem
sem medo
1. A primeira leitura deste domingo foi
tirada de Ezequiel e é uma espécie de relato da vocação profética. É assim o
caso de outros profetas de grande caráter (Isaías, 6 no templo; Jeremias, 1),
porque se deve fazer uma distinção muito clara entre os verdadeiros e os falsos
profetas. Na Bíblia, o verdadeiro profeta é aquele que recebe o Espírito do
Senhor. Por isto mesmo, o profeta não se vende a ninguém, nem aos reis nem aos
poderosos, porque o seu coração, a sua alma e a sua palavra pertencem ao Senhor
que os chamou para esta missão. Por esta razão, sabemos que os verdadeiros
profetas foram todos perseguidos. É provável que padecessem de uma
"patologia espiritual" que não é senão viver a verdade e da verdade a
que estão abertos.
2. O povo "rebelde" habitua-se
aos falsos profetas e vive enganado, porque a verdade brilha pela sua ausência.
Por esta razão é tão dura a missão do verdadeiro profeta. Talvez para entender
o que significa uma vocação profética, que é uma experiência que parte em mil
pedaços a vida de um homem fiel a Deus, devemos estar atentos ao que se lhes é
exigido, mais do que a qualquer outra pessoa. Não falam por falar, nem por
causa das suas ideias, mas porque a força misteriosa do Espírito os impele para
mais além do que é a tradição e o hábito do que deve fazer-se Por isso, o
profeta é pois, o que ateia a Palavra do Senhor.
2ª leitura: 2
Coríntios 12,7-10
A força da fraqueza
1. A segunda leitura é, provavelmente,
uma das confissões mais humanas do grande Paulo de Tarso. Faz parte da que é conhecida
como a carta das lágrimas (conforme o que podemos inferir de 2Cor. 2,1-4;
7,8-12). É uma descrição retórica, mas real. Está a referir-se ao
"aguilhão (skolops, qualquer coisa afiada e pungente) na sua carne",
toda uma expressão que confundiu muita gente; muitos pensam que é uma doença. É
a tese mais comum, de uma doença crônica que já tinha desde os primeiros tempos
da missão (cf. Gl. 4,13-15). Mas não se poderia rejeitar um sentido simbólico,
o que apontaria talvez para os adversários que põem em dúvida a sua missão
apostólica, uma vez que fala de um "agente de Satanás", ainda que
seja verdade que, na antiguidade, o diabo protegia os remédios de todos os
males, reais ou imaginários. Será qualquer coisa biológica ou psicológica? Em
todo o caso, Paulo quer exprimir que aparenta ser "fraco" perante os
adversários, que estão cheios de razões. Quer combater, através do Evangelho
que ele próprio anuncia, com a sua experiência de fragilidade e as fraquezas
que os outros vêem nele e que ele próprio sente.
2. Para isso, o apóstolo recorre, como
medicina, à graça de Deus: "basta-te a minha graça (charis), porque a
força manifesta-se na fraqueza (astheneia)" (v. 9), uma das expressões
mais conseguidas e definitivas da teologia de Paulo. A graça leva-o a auto-afirmar-se,
não na destruição, nem na vã glória, mas em aceitar-se como é, quem é, e o que
Deus lhe pede. Paulo constrói, em síntese, uma pequena e bela teologia da cruz.
É como se dissesse que o nosso Deus é mais Deus quanto menos arrogantemente ele
se revela. O Deus da cruz, que é o Deus da fragilidade face aos poderosos, é o
único Deus ao qual vale a pena confiarmo-nos. É esta a mística apostólica e
cristã que Paulo confessa nesta bela passagem. É como quando Jesus disse:
"quem quiser salvar a sua vida para si, há-de perdê-la" (cf. Mc.
8,35). É um desafio ao poder do mundo e de quantos atuam daquela maneira no
próprio seio da comunidade.
Evangelho: Marcos
6,1-6
Nazaré: ninguém é
profeta na sua terra
1. O texto do Evangelho de Marcos é a
versão primitiva da presença de Jesus na sua terra, Nazaré, depois de ter
percorrido a Galileia pregando o Evangelho. Lá é o filho do carpinteiro, de
Maria, são conhecidos os seus familiares mais próximos: de onde lhe vem o que
diz e o que faz? Lucas, por seu lado, fez desta cena em Nazaré o começo mais
determinante da atividade de Jesus (cf. Lc. 4,14ss). Já sabemos que o provérbio
do profeta enjeitado entre os seus é próprio de todas as culturas. Desde logo,
Jesus não estudou para ser rabino, não tem autoridade (exousía) para tal, como
já se viu em Mc. 2, 21ss. Mas precisamente, a autoridade de um profeta não é
explicada institucionalmente, antes quando se reconhece no que tem o Espírito
de Deus.
2. O texto fala de sabedoria, porque
exatamente a sabedoria é um dos aspectos mais apreciados no mundo bíblico. A
sabedoria não se aprende, não se ensina, vive-se e transmite-se como
experiência de vida. Por sua vez, esta mesma sabedoria leva o profeta a dizer e
fazer o que os poderosos não podem proibir. No Evangelho de são Marcos este é
um momento que origina uma crise na vida de Jesus com o seu povo, pois torna-se
evidente " a falta de fé" (apistía). Não realiza milagres, diz o
texto de Marcos, porque embora os fizesse não acreditariam. Sem fé, o reino que
Ele pregava não pode experimentar-se. Na narrativa do Evangelho este é um dos
momentos de crise na Galileia. Por isso, o Evangelho de hoje não é simplesmente
um texto que narra a passagem de Jesus pela sua aldeia, onde tinha sido criado.
Nazaré, tal como em Lucas, não representa apenas a povoação da sua infância: é
todo o povo de Israel que havia muito tempo, séculos, não tinha ouvido um
profeta. E agora que isto sucede, a sua mensagem cai no vazio. Não querem um
profeta, mas desejam um milagre simples e fácil.
3. Jesus continua a ser o filho do
carpinteiro e de Maria, mas tem o espírito dos profetas. Efetivamente, os
profetas são chamados de entre o povo simples, são arrancados de suas casas,
das suas profissões habituais e rapidamente vêem que as suas vidas têm de tomar
outro rumo. Os seus, os mais próximos, às vezes nem sequer os reconhecem. Tudo
mudou para eles, profetas, a ponto de a missão para a qual foram escolhidos ser
a mais difícil que se possa imaginar. É verdade que o Jesus taumaturgo popular
e exorcista é, e continuará a ser, um dos temas mais debatidos sobre o Jesus
histórico. Provavelmente, houve excessos na hora de apresentar estes aspectos
dos Evangelhos, sendo, como é, uma questão que exige critérios comprovados. Mas
no caso presente do texto de Marcos, não podemos negar que se quer fazer uma
"crítica" (já naquele tempo das comunidades primitivas) à corrente
que considera Jesus como um simples taumaturgo e exorcista. É o profeta do
Reino de Deus que chega a todas as pessoas que a este aspiravam. Nisto, Jesus
como profeta, colocava em jogo a sua vida, tal como os profetas do Antigo
Testamento.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Um profeta só é
desprezado na sua pátria, entre os seus parentes…
Jesus foi rejeitado em sua própria
terra por ser trabalhador e filho de Maria, mulher simples da aldeia de Nazaré.
Hoje continua sendo rejeitado em tantas pessoas empobrecidas e excluídas da
vida social. Celebrando a sua páscoa, somos convidados a aceitar o fato de que
Deus nos fala por meio dos simples, fracos e pobres.
Jesus foi para a sua pátria.
O beato João Paulo II disse que foi em
Nazaré que Jesus “passou a maior parte da sua existência terrena. Com a sua
operosidade silenciosa na oficina de José, Jesus ofereceu a mais elevada
demonstração da dignidade do trabalho. O Evangelho hodierno narra que os
habitantes de Nazaré, seus conterrâneos, O receberam com admiração,
perguntando-se uns aos outros: “De onde [lhe] vêm esta sabedoria e estes
milagres? Este homem não é o filho do carpinteiro?” (Mt. 13,54-55).
“Começou a ensinar na Sinagoga”
O Papa Bento XVI dirige essa
oração a Maria Santíssima: “Apesar de toda a grandeza e alegria do início
da atividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar
a verdade da palavra sobre o « sinal de contradição » ( Lc 4,28s). Assim, vistes
o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente
afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o
Salvador do mundo, o herdeiro de Davi, o Filho de Deus morrer como um falido,
exposto ao escárnio, entre os malfeitores”.
“Que sabedoria é essa que lhe foi dada”
O papa Bento XVI ensina que Jesus “é a
Sabedoria encarnada, o Logos criador que encontra a sua alegria em habitar
entre os filhos dos homens, no meio dos quais armou a sua tenda (Jo 1,14).
N’Ele aprouve a Deus pôr “toda a plenitude” (Cl. 1,19)”.
A Palavra diz: ”É por sua graça que
estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria,
justiça, santificação e redenção.” (1Cor. 1, 30)
O Papa Bento XVI disse também que a
Sabedoria “é o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; é o
Verbo que, como lemos no Prólogo de João, “no princípio Ele estava com Deus”,
aliás, “era Deus” que com o Pai e o Espírito Santo criou todas as coisas e que
“se fez carne” para nos revelar aquele Deus que ninguém pode ver”. ( Jo
1,2-3.14.18).
“Como se operam por suas mãos tão
grandes milagres?”
O Catecismo (547 ) ensina: “Jesus
acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (At.
2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n’Ele. Comprovam que Ele é
o Messias anunciado”.
Monsenhor Jonas Abib disse que “Jesus
fez milagres em muitas cidades, exceto em Sua terra, Nazaré, porque o povo não
acreditava. Jesus tinha as sementes, mas não encontrou em Sua cidade um campo
preparado para o plantio, tudo o que queria fazer não pôde por causa da
incredulidade dos nazarenos. Quando eles viram os milagres que Jesus estava
fazendo em todos os outros lugares, perguntaram-se: “Não é Ele o filho do
carpinteiro José, o filho de Maria?”.
O Beato João Paulo II disse assim:
“Também a vida pública de Jesus reserva provas para a fé de Maria. Por um lado,
causa-lhe alegria saber que a pregação e os milagres de Jesus suscitavam em
muitos admiração e consenso. Por outro, vê com tristeza a oposição sempre mais
enérgica da parte dos Fariseus, dos doutores da Lei, da hierarquia sacerdotal”.
“Não é Ele o filho do carpinteiro…?”
O papa Bento XVI disse: “Tornando-se em
tudo semelhante a nós, o próprio Filho de Deus dedicou-se durante muitos anos as
atividades manuais, a ponto de ser conhecido como o “filho do carpinteiro” (Mt
13, 55).
Jesus também sofreu por todas as vezes
que fomos rejeitados por causa de nossa profissão, de nossa condição social ou
de qualquer outra forma de preconceito, peçamos ao Senhor que nos cure e nos
restaure. A Palavra diz: “Porque, diante de Deus, não há distinção de pessoas”.
(Rm. 2,11)
Um profeta só é desprezado na sua
pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa”
Maria sofre pelo desprezo das pessoas
de sua própria terra ao seu amado Filho – O beato João Paulo II disse que “a
Virgem pôde muitas vezes conhecer as críticas, insultos e ameaças dirigidos a
Jesus. Também em Nazaré, várias vezes foi ferida pela incredulidade de parentes
e conhecidos, que tentavam instrumentalizar Jesus (Jo. 7,2-5) ou interromper a
Sua missão (Mc. 3, 21)”.
Temos entre nossos parentes e
conhecidos pessoas de muita sabedoria de vida, especialmente os mais idosos.
Precisamos ouvi-los e lhes dar atenção para evitarmos tomar atitudes erradas em
nossas vidas. Padre Bantu disse assim: “Muitas vezes fechamos os nossos ouvidos
para acolher o conselho, a advertência e o ensino daqueles que são nossos
parentes, familiares, vizinhos ou conhecidos”.
“Não pôde fazer ali milagre algum”
O beato João Paulo II disse sobre a fé
de Maria no poder de Jesus de fazer o milagre nas Bodas de Caná, mesmo que
nenhum milagre tenha sido realizado pelo Filho em Nazaré, sua terra: “A escolha
de Maria, que teria podido, talvez, providenciar noutro lugar o vinho necessário,
manifesta a coragem da sua fé porque, até àquele momento, Jesus não tinha
realizado algum milagre, nem em Nazaré, nem na vida pública”. Maria Santíssima
confiou, esperou e acreditou em Jesus e o Senhor realizou o milagre. O Senhor
quer realizar muitos milagres em nosso favor; basta crer, confiar e esperar.
O Catecismo (548) ensina: “Os sinais
realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou. Convidam a crer n’Ele. Aos
que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem”. A fé é a porta que
abrimos para o Senhor fazer milagres em nossa vida.
E o papa Bento XVI ensinou: “A Deus nós
pedimos tantas curas de problemas, de necessidades concretas, e é justo que
seja assim, mas aquilo que devemos pedir com insistência é uma fé sempre maior,
para que o Senhor renove a nossa vida, e uma firme confiança no seu amor, na
sua providência, que não nos abandona”.
Conclusão.
Concluímos essa reflexão com as
palavras do Beato João Paulo II: “Contemplai Jesus de Nazaré, por alguns,
acolhido e por outros, ridicularizado, desprezado e rejeitado: Ele é o Salvador
de todos. Adorai a Cristo, nosso Redentor, que nos resgata e liberta do pecado
e da morte: é o Deus vivo, fonte da Vida”.
Jane Amábile
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