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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 25 de julho de 2018

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano B


17º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Ano  B

Evangelho – Jo 6,1-15




·         Jesus multiplicou os pães e os peixes e alimentou uma multidão. Depois, na Última Ceia, Jesus se fez alimento para a nossa alma.
·         Jesus falou de si mesmo como o PÃO DESCIDO DO CÉU. E quem comesse desse pão teria a vida eterna garantida.


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O mesmo pão para todos, sinal de unidade
Há muitas páginas da Sagrada Escritura que falam da importância do pão. O pão é alimento universal, não há quem não participe dele nas suas refeições. Quando se fala de fome é sempre o pão que está a faltar. Daí que, a linguagem do pão seja um desafio muito belo para a reflexão que os cristãos podem fazer. Há duas leituras que falam expressamente do pão: os pães levados a Eliseu e os pães multiplicados por Jesus na montanha. Num e noutro caso todos comeram do pão e ficaram saciados (1ª leitura e Evangelho). A carta de são Paulo aos Efésios fala da unidade quando refere uma só fé, um só batismo, um só Deus que é Pai de todos. Poderia acrescentar-se o mesmo pão, em Eucaristia, como o mesmo alimento universal para todos os cristãos, também ele sinal de unidade (2ª leitura).
1. Os pães levados a Eliseu
Este episódio do Livro dos Reis, na sua simplicidade, contém lições maravilhosas: a generosidade do homem que levou pão fresco a Eliseu; a sensibilidade do profeta que se apercebeu de que muitos tinham fome; a confiança de quantos estavam com Eliseu e acreditaram que o pão, embora pouco, chegaria para todos. A alegria porque o pão chegou e a todos saciou. No Antigo Testamento, muitas vezes e de muitas formas, Deus sacia o Povo de Israel. Fala-se do maná no deserto (Ex 16, 4), fala-se dos pães da preposição (Mt. 12, 4), que eram destinados aos sacerdotes, fala-se hoje da oferta do pão a Eliseu, o que está sempre em causa é o dom de Deus que não esquece o seu povo.
2. A multiplicação dos pães
Várias vezes aparece no Evangelho o episódio da multiplicação dos pães. Em são João há uma relação estreita entre o “milagre” e o anúncio da eucaristia. O acontecimento, em si, pode explicar-se pela solidariedade e pela partilha. Muitos foram solidários com a multidão que seguia Jesus há três dias. Filipe e André até procuraram uma solução normal, que todos fossem às cidades comprar alimentos. Houve, porém, um “rapazito” que tinha levado 5 pães e dois peixes e foi capaz de os partilhar com todos. Provavelmente Jesus convidou muitos outros à partilha e os pães multiplicaram-se por encanto, chegando para todos e sobrando 12 cestos. Para além do poder de Jesus, há um milagre de solidariedade e de partilha. A multiplicação dos pães anunciará o pão vivo que desceu do céu, a Eucaristia que Jesus vai prometer e, mais tarde, irá instituir.
3. Desafio para a unidade
Todos os cristãos devem ser dignos da vocação a que foram chamados. Se o Senhor os chamou à verdade e ao bem, convida-os também à unidade: “empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, há uma só fé e um só Batismo, há um só Deus e Pai de todos”. Se todos comemos do mesmo pão, todos devemos estar unidos no mesmo Espírito. É a vocação à unidade. Esta, porém, não será possível sem algumas virtudes fundamentais que Paulo também refere: a humildade, a mansidão, a paciência, suportando-se todos uns aos outros com caridade, deixando-se apanhar pelo vínculo da paz.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”



Num mundo como o nosso em que as pessoas se resistem a repartir os bens da criação, o pão partilhado (1ª leitura) é sinal de solidariedade e fraternidade.
A partir deste 17º domingo até o domingo 21º, a leitura do evangelho, irá apresentando-nos diversos trechos do discurso de Jesus sobre “o pão da vida” segundo o evangelho de são João. Desta forma iremos descobrindo a mística que envolve a “Partilha do Pão” e percebendo a relação que existe entre esta gesto fraterno e a doutrina sobre a Eucaristia. O próprio Cristo é o pão partilhado que alimenta a unidade dos que professamos uma mesma fé (2ª leitura) ao mesmo tempo em que nos prepara para construir a unidade e a comunhão com todo ser humano.
Palavra de deus na Bíblia
Nesta leitura, aparece Eliseu recebendo, como “homem de Deus”, a oferta do “pão da primeira colheita”. Para o povo de Israel, o gesto de apresentar este tipo de oferta diante dos profetas era a ação de graças pelas colheitas e o reconhecimento de que a terra e seus frutos eram um dom de Deus. Eliseu, porém, sentindo a necessidade pela qual o povo estava passando, redireciona o sentido da oferta e manda que se distribua à comunidade apesar da desproporção entre a quantidade de pão disponível e a multidão necessitada. Era pouco para tanta gente, mas, todos dando e repartindo o pouco que cada um possuía, o povo ficou satisfeito e ainda teve de sobra.
Atualmente, enquanto as políticas de controle da natalidade tentam diminuir o número de comensais à mesa para resolver o problema da fome no mundo, a partilha dos bens da criação, que Deus deu para todos, é que pode “multiplicar” o pão disponível sem precisar excluir ninguém.
2ª leitura: Efésios 4,1-6
Estando na prisão, Paulo exorta os efésios à unidade e lhes suplica que vivam de acordo com a vocação à qual foram chamados (“peço que vocês se comportem de modo digno da vocação que receberam”) e se esforcem por manter viva a unidade, pois todos receberam o mesmo Batismo e a convicção de que Deus é Pai, deve leva-los a reconhecer o próximo como irmão.
Para alcançar esta unidade recomenda: “Sejam humildes, amáveis, pacientes e suportem-se uns aos outros no amor”, estimando e reconhecendo os diversos dons que Deus concedeu a cada um. Para tanto é preciso afastar-se de toda forma de dominação e ambição e crescer na humildade, que exerce um papel importante lá onde a unidade está ameaçada por quanto afasta a possibilidade de discórdias e evita o sentimento de superioridade.
Se, de fato, professamos uma mesma fé e formamos um só corpo, unido pelo Espírito cuja cabeça é Cristo, o aspecto central da vida cristã é a unidade que supera as divisões humanas. Uma unidade sempre ameaçada e sempre em construção. Daí a necessidade de manter entre nós os “laços de paz”, a fim de que a ação de Deus em Jesus Cristo possa unificar toda a nossa realidade.
Evangelho: João 6,1-15
Lá, no alto da montanha, Jesus “sentou-se”. Em Israel, os mestres ensinavam sentados em sinal de autoridade. Era seguindo este costume que Jesus costumava sentar-se quando tinha algo importante a ensinar como aconteceu quando lhe trouxeram a mulher adúltera (ver João 8,2) ou quando explicou aos discípulos o significado do lava pés (ver João 13,12). Neste caso, Jesus, está querendo iniciar um novo tempo, uma nova Aliança com Deus como plenitude da Antiga Aliança. Por isso João afirma, de propósito, que “estava próxima a Páscoa, festa dos judeus”, como introduzindo a nova Páscoa que se aproxima: a Páscoa cristã.
Isto nos leva a entender que o “milagre da multiplicação dos pães”, que narra o evangelho de hoje, foi muito mais do que um meio de saciar a fome ocasional daquele povo e, por certo, nada teve a ver com uma demonstração de mágica.
A pergunta de Jesus é provocadora: «Onde vamos comprar pão para eles comerem?». As contas de Filipe não batem: «Nem meio ano de salário bastaria para dar um pedaço para cada um». Pelo cálculo matemático, não tem como... André, porém, comenta que um rapaz está disposto a oferecer tudo o que tem: “cinco pães de cevada e dois peixes”. Para ele sozinho até que era muito, mas “o que é isso para tanta gente?”. Pensando bem, ele não vai resolver o problema. Também não dá..!
O evangelista não o diz, mas tudo indica que Jesus e o rapaz, acharam outra forma de calcular. Trocaram o cálculo matemático pelo cálculo da solidariedade. Que tal se todos colocassem seus cinco pães e dois peixes em comum..? Milagre..! “Todos comeram o quanto queriam” e ainda recolheram “doze cestos com as sobras dos cinco pães”. Incrível..! A solução do problema estava guardada na mochila de cada um!
Desta forma, Jesus mostra que a solidariedade e a partilha são sinais do amor de Deus e asseguram a possibilidade de subsistência e dignidade para todos. A garantia de subsistência não está no muito que poucos possuem (e guardam para si), mas no pouco que cada um tem, quando repartido entre todos.
A garantia de vida digna não se encontra num líder que resolva os problemas (“Jesus percebeu que iam pegá-lo para fazê-lo rei... ele se retirou..., para a montanha”), mas no serviço de cada um, organizando a sociedade em vista do bem de todos.
Palavra de deus na vida
A atitude generosa do rapaz que ofereceu seus pães e peixes é que fez a diferença. Jesus não poderia abrir os olhos daquele povo para que descobrisse o “milagre” de multiplicar o pão através da partilha se ninguém tivesse aberto a mochila e colocado em comum tudo o que tinha.
Nossos “pães e peixes” é tudo aquilo que temos: são nossas idéias e projetos, nossos bens e recursos materiais, nossas capacidades, nossas qualidades e nosso tempo. Pode parecer pouco para consertar o mundo, mas, se estivermos a fim de partilhar, o Senhor vai receber isso em suas mãos, multiplicando-o e fazendo-nos tomar consciência de que tudo o que temos é dom de Deus. Descobriremos, então, a nossa capacidade de criar vida ao nosso redor e fazer chegar “pão e peixe” a todas as mesas multiplicando a alegria, a liberdade e a fraternidade.
A nossa sociedade está programada para produzir e consumir. Não para distribuir e partilhar. Por isso há tanto desperdiço e tanta fome ao mesmo tempo. Precisamos abrir esta estrutura desumana, rompendo com o egoísmo coletivo que leva à acumulação compulsiva e ajudando as pessoas a abrir o coração de modo a ver Jesus nos mais pobres e necessitados, adiantando-nos às suas necessidades.
Com esta atitude poderemos celebrar a verdadeira Eucaristia colocando sobre o altar a nossa vida para receber, em troca, o Pão da Vida.
Pensando bem...
+ Jesus nos ensina que o sinal distintivo do Reino de Deus é a atitude de partilha. Se todo o dinheiro do mundo não fosse suficiente para comprar o alimento necessário para todos os que passam fome, o problema se solucionaria pela partilha.
A dinâmica do mundo capitalista está justamente no dinheiro. Pensamos que sem dinheiro nada pode se fazer e tentamos transformar tudo em dinheiro (tanto os recursos naturais, quanto os recursos humanos e os valores, como o amor, a amizade, o serviço, a justiça, a fraternidade e até mesmo a fé). No mundo capitalista nada se dá de graça, tudo tem seu preço, tudo se comercializa. Esquecemos, porém, que o mais importante de tudo, a vida, nos é dada por pura gratuidade, como dom de Deus.
+ O milagre do evangelho de hoje não está tanto na multiplicação do alimento quanto no que aconteceu no interior dos que seguiam Jesus. Certamente sentiram-se tocados pela palavra do Senhor e, deixando de lado o egoísmo, cada um ofereceu o pouco que tinha. Então se maravilharam quando viram que o alimento não só se multiplicava, mas sobrava. Compreenderam, então, que o povo passa fome, não tanto pela pobreza, mas pelo egoísmo daqueles que, satisfeitos com o que têm, não se importavam como os que passavam necessidade.
+ Com que “pão” alimento eu a minha vida: com o da acumulação egoísta ou com o da abertura para o outro na partilha?
padre Ciriaco Madrigal




"Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca"
Domingo da multiplicação dos pães. A partir deste domingo, interrompendo a seqüência do Evangelho de Marcos, a liturgia nos propõe, por cindo domingos, o capítulo 6 do Evangelho de João, com a narrativa da multiplicação dos pães e o discurso sobre o Pão da Vida.
A multiplicação dos pães não é apenas uma imagem da Eucaristia, mas também do banquete messiânico no final dos tempos, quando todos serão saciados e a morte, vencida. Este é o verdadeiro sentido da missão de Jesus.
Neste domingo, celebramos Jesus ressuscitado, pão que alimenta, dá sentido a nossa vida e é proposta de saciedade para tido tipo de fome que angustia a humanidade.
Unimos ao memorial da Páscoa de Jesus e a ação solidária de todas as pessoas e grupos que se empenham fraternalmente na luta contra a fome e a miséria crescente do povo, desafiando o sistema de acumulação que domina nosso mundo.
Acolhemos com carinho todas as pessoas, mas hoje, especialmente a presença dos avós em nossa celebração.
Primeira leitura - 2Reis 4,42-44
A intenção da narrativa desta leitura é a de revelar que Eliseu não foi inferior a Elias, em carisma e em poder. Como na missão profética de Elias relatava uma multiplicação de pães (1 Reis 17,1-15), era preciso que um milagre semelhante pudesse ser atribuído a Eliseu. É a finalidade da breve passagem lida hoje na liturgia.
Multiplicando os pães, Elias estava principalmente atento à miséria dos pobres; a multiplicação feita por Eliseu retém, por seu lado, a abundância de pães, a importância dos restos e o caráter prodigioso do acontecimento (vs. 43-44).
Eliseu deu uma ordem ao servo: "Dá os pães a estes homens... Ma o servo respondeu: Como poderei dar de comer a cem pessoas com isto". Em seguida o servo "lhes deu e comeram".  "Eis o que diz o Senhor: Comerão e ainda sobrarás". Esta ordem dada por Eliseu ao servo não era mera palavra humana de um homem qualquer, mas uma palavra cheia de vigor do homem de Deus Eliseu (v. 42a).
Segundo os especialistas da Bíblia, é certo que a multiplicação dos pães feita por Elias e Eliseu influenciou a redação das narrações evangélicas sobre a multiplicação dos pães de Jesus. Qual era a intenção desta referencia e alusões a 2 Reis 4,42-44? A resposta é simples. Jesus veio para cumprir a Lei os profetas. Era, pois, conveniente mostrar que Ele autenticava sua missão através de sinais que os profetas fizeram. O evangelista João acentua esta perspectiva, anotando a exclamação do povo: "Este é verdadeiramente o Profeta que há de vir ao mundo!" (João 6,14).
A atividade profética de Eliseu teve lugar no Reino do Norte. No seu tempo, muitos pobres, para sobreviverem, submetiam-se a dívidas com os latifundiários, vendendo seu trabalho por nada. Eliseu homem de Deus, ajuda o povo a se organizar para sair de tal situação. A libertação não é um favor.
A multiplicação dos pães sacia cem pessoas, com vinte pãezinhos de cevada, lembrando a fartura do maná, no tempo de Moisés. Embora à primeira vista pareça não ser suficiente para tanta gente, quando partilhado, satisfaz a todos e ainda sobra.
Fartura, abundância, alimento à vontade são frutos da partilha, a qual é sinal da realização do projeto de Deus, da chegada do tempo messiânico que se realiza em Jesus Cristo.
Salmo responsorial 144/145,10-11.15-18
É um hino de louvor à grandeza de Deus, abrindo o grande louvor final do livro. É um hino de louvor de uma pessoa que convida outras a fazer o mesmo. O contexto é público e o motivo do louvor são as obras de Deus na história do povo. De fato, daqui até o fim, todos os salmos são desse tipo.
O convite começa na primeira pessoa do singular. Domina o tema do Reino de Deus. O tema comum é a misericórdia de Deus. O Salmo 144/145, diante da beleza da criação, que é reflexo da magnitude e perfeição do Criador, bendiz o nome do Senhor. Afirma que o Senhor é misericórdia, piedade, amor, paciência e compaixão. O Senhor ama a todos e é bom para com todos: sua ternura abraça toda a criatura. Vale a pena retomar as afirmações do Salmo a respeito de Deus, pois resumem e expressam muito bem o que a liturgia toda proclama.
O salmo destaca como é o rosto de Deus. Os títulos dado a Javé sintetizam o rosto de Deus neste salmo: grande, piedoso, bom, fiel, amoroso e justo. Um Deus que se interessa pelas pessoas e se aproxima com o seu rosto. "Sua ternura abraça toda a criatura" (v. 9). Um Deus aliado que faz justiça, defendendo os oprimidos da ganância dos injustos. Aparece também como Criador e doador de vida para todos.
Demos graças ao Senhor porque Ele sempre se aproxima de nós e sempre nos dá provas do seu amor. Que Ele nos ajude a buscar de novo a sua face. Com o Salmo 144, louvemos a fidelidade de Deus, traduzida em suas obras amorosas: ele ampara, endireita, dá alimento, estende a mão e sacia. Ao cantar este salmo em nossas celebrações, renovemos a nossa confiança no Deus que quer vida e fartura para o seu povo.
Segunda leitura - Efésios 4,1-6
O apóstolo Paulo tem diante de si um dos três problemas que ameaçavam a Igreja nascente, a discórdia (vs. 1-3), os outros dois eram as divisões dos ministérios (vs. 7-11) e as heresias (versículos 14s). A esses perigos Paulo opõe a unidade em Cristo (vs. 4-6) como único modo de superar discórdias e ciúmes (v. 12s) e heresias (v. 16), assim ele faz uma advertência mais longa sobre a união dos membros da Igreja na caridade e na paz.
A nossa conduta é decorrência normal de uma opção de fé. Dogma e vida, fé a ação estão permanentemente unidos. Assim na vida concreta da comunidade deve-se manifestar a fé.
Paulo prisioneiro, por ter andado segundo sua vocação de Apóstolo, anunciando Jesus Cristo, exorta os que estão livres a orientarem suas vidas segundo o chamado que tiveram. Assim sendo, o cristão foi chamado, escolhido e predestinado por Deus para ser seu filho (Efésios 1,4s), por isso deve andar de modo especial (cf. Atos 14,16).
Passa-se a indicar, então, qual o modo de se trilhar o novo caminho: humildade, mansidão, generosidade e paciência. Como vemos, são virtudes concretas do bem viver, da vida em comum, que têm por base a humildade, que não é esporádica, mas um constante renunciar a ser o primeiro, a mandar, a fazer prevalecer a sua própria opinião e que se caracteriza pelo servir, isto é, procurar o desprezível, agir de maneira discreta sem dar na vista, deixar morrer o seu eu. Como o Cristo, entrar num processo de Kenosis, isto é, de esvaziamento.
Humildade provém do latim humilis, que por sua vez deriva de húmus (= terra) Humildade é, pois, o que está ao nível do solo e se move perto da terra. Algo que corresponde exatamente à nossa pequenez e condição de criatura, parte pequena do cosmos. Humilde é aquele que com sabedoria e realismo reconhece a distância que o separa do seu criador. Por isso, "humildade é caminhar na verdade" (santa Teresa).
Ser generoso, longânime é repartir o que se tem (Atos 2,44s; 4,32.34s). Tudo isso no amor, que faz um suportar o outro. Afinal de contas todos foram unidos num único povo por Cristo (Efésios 2,14) e devem se aceitar e amar como são. Vivendo na paz, dom de Deus que frutifica pelo esforço de cada pessoa humana, realizarão concretamente na vida a união que possuem no Espírito, fonte de unidade.
Não resta dúvida que este leitura é uma exortação à unidade. Paulo, na prisão suplica aos efésios que vivam de acordo com a vocação a que foram chamados e se esforcem para manter a unidade, já que receberam um mesmo batismo. O reconhecimento da paternidade de Deus nos leva a admitir que os "demais" são nossos irmãos.
A unidade é a essência da Igreja: um corpo, um espírito, um Senhor, uma fé, um batismo, um só Deus e Pai de todos. E para manter essa unidade é preciso: humildade, paciência e suportar-se mutuamente na caridade. A humildade e a modéstia desempenham papel muito importante onde a unidade é ameaçada. A mansidão, o espírito pacífico e a docilidade são comportamentos que distanciam toda espécie de rixa, evitam a agressividade e o sentimento de superioridade. A paciência é um sinal essencial do amor e torna possível a unidade e a paz. É o Espírito que cria e conserva a unidade.
Paulo descreve essa fonte de unidade em três partes, cada uma com três elementos: o Espírito que anima o Corpo de Cristo e a esperança que ele faz nascer (v. 4); o Senhor ressuscitado, a fé que o professa e o batismo que dele faz participar (v. 5); enfim, o Pai, acima de todos, por todos e em todos (v. 6).
Portanto, trata-se de uma fórmula trinitária: com efeito, é na vida comum das três pessoas divinas que reside o segredo da unidade na comunidade e a unidade das pessoas. Mas a fórmula menciona o Pai em terceiro lugar, em vez do primeiro (cf. Efésios 1,3-14), porque a unidade que se trata se faz progressivamente pela ascensão da humanidade, com o Espírito e Cristo, até o próprio Pai.
Para mostrar de que modo a vida divina faz a unidade com a humanidade mas também a da pessoa, Paulo estabelece uma relação entre cada virtude teologal e cada pessoa da Trindade; o Espírito sustenta a esperança (1 Coríntios 12,13; Efésios 2,18; Romanos 8,26-27), Cristo chama à fé (Romanos 10,8-17) e o Pai está "em todos" para neles fazer nascer amor e comunhão (2 Coríntios 13,13; Filipenses 2,1).
No entanto, a Trindade confere seu verdadeiro sentido a todo processo de amor, pois ela realiza a unidade perfeita entre pessoas que não deixam de ser perfeitamente distintas. Não é com essa unidade que toda pessoa sonha, em seu encontro de amor com o outro?
Participamos do mistério Trinitário entrando num tipo de comunhão com todas as pessoas, onde cada um só pode ser feliz em relação com todos. Ligando cada virtude teologal a cada pessoa da Trindade, Paulo afirma que a pessoa humana partilha da vida trinitária na medida em que vive sua vida como um dom de Deus, adquirido em Jesus Cristo que veio estabelecer a paz e a unidade.
Sem a Trindade, todo o nosso empreendimento de unidade é destinado ao fracasso, quer ele divida as individualidades, quer aglutine as personalidades. Na relação com a Trindade, pelo contrário, cada pessoa pode ser verdadeiramente ela mesma.
Evangelho: João 6,1-15
João tem muitas vezes o hábito de relatar um acontecimento e fazê-lo seguir de um discurso que explicita seus temas.
Basta compararmos a versão da multiplicação dos pães em são João com a de Mateus, Marcos e Lucas, para localizar essas características e esses temas. Enquanto que nos outros três evangelhos, a multiplicação se situa no fim de um dia de pregação, em São João, ela ocupa todo o lugar, a ponto de deixar a impressão de que a multidão vem para comer. Jesus se apresenta de início, na versão de São João, preocupado em dar de comer (v. 5), enquanto que, nos outros evangelhos, ele só dá de comer depois de ter percebido que nenhuma solução era possível (Mateus 15,32-33).
A multiplicação dos pães é o quarto sinal do Evangelho de João, sinal central dentre os sete que simbolizam toda a ação de Jesus. Este sinal é apresentado seis vezes nos quatro evangelhos.
È fundamental notar que Jesus se encontra na Galiléia, região de trabalhadores pobres, mantida por latifundiários que moram na corte de Herodes. A Páscoa dos judeus está próxima, mas o povo prefere não ir a Jerusalém, e seguir Jesus; libertam-se, assim, do poder explorador concentrado no templo de Jerusalém.
Jesus é o verdadeiro libertador que conduz à Páscoa autentica: é o novo Moisés, que sobe ao monte e é rodeado por muita gente que deseja escutá-lo. Às vezes vinham de longe, atraídos pela fama dos sinais que realizava. Jesus aproveita um desses momentos para ensinar a partilha, característica fundamental de seu projeto. Começa interpelando os discípulos como solucionar o problema da fome do povo.
É a mesma situação apresentada na primeira leitura. Pão de cevada era comida modesta, de pobres ou gente simples, e o único alimento que tinham para partilhar naquele momento.
Jesus não dá esmola; Ele ajuda as pessoas a repartir o que têm, mesmo que seja cinco pães e dois peixes... Há uma grande diferença entre dar esmola e o ato de repartir. A solidariedade, o partilhar gera irmandade, trazem a alegria da salvação a todos. A esmola o paternalismo podem produzir desigualdade, descontentamento, divisão, dependência, humilhação.
Jesus encarna a generosidade de Deus. O povo come o quanto precisa e ainda sobram doze cestos. Doze é número simbólico que, às vezes, se refere à organização do povo. Mas o que se torna claro é que não se deve desperdiçar o dom de Deus.
O primeiro tema com o qual João da uma colorida no relato é o do maná do deserto e, de um modo mais geral, o da experiência do deserto. A conversa inicial entre Cristo e Filipe lembra a que se passa entre Deus e Moisés, antes que Deus multiplicasse, até que todos ficassem saciados, a carne reclamada pelo povo (Números 11,21-23).
O cuidado dispensado pelos apóstolos, especialmente designados para isto (contrariamente à versão de Mateus, Marcos e Lucas), com o recolhimento dos restos (v. 13), tende a mostrar que, ao contrário do maná que logo apodrecia (Êxodo 16,16-21), o pão de Jesus é imperecível (João 6,27.51) e, consequentemente, sinal de eternidade.
O segundo tema da narrativa é o da refeição escatológica. A questão colocada por Jesus, no versículo 5, faz imediatamente pensar em Isaias 55,1-3; 65,13. O fato de que o pão abençoado por Jesus seja um pão de cevada, o pão dos pobres (detalhe ressaltado apenas por João), reforça a idéia de que o banquete oferecido por Jesus satisfaz plenamente os "pobres de Javé" com a plenitude messiânica.
Outro detalhe importante é notar que Cristo se antecipa mais na narrativa de João do que nas narrativas dos outros três evangelhos: ele próprio fornece a matéria prima, dirige o diálogo inicial (vs. 5-10) pronuncia a bênção da mesa e distribui o pão (v. 11). Nos outros três evangelhos, Jesus manda os apóstolos saciarem o povo (idéia de missão) e em João o próprio Jesus distribui a pão. Portanto, trata-se realmente de um relato destinado a revelar a pessoa de Jesus, isto é, a refeição é destinada a conduzir os discípulos até o mistério de sua pessoa.
Mas o povo entende a multiplicação dos pães numa mentalidade de messianismo político; não entende a referência do sinal. Nos versículos 14-15 se anuncia a palavra de Jesus diante de Pilatos: "sou rei, mas meu reino não é deste mundo". Este é o sentido profundo da ambigüidade de João: sob os sinais matérias esconde-se uma realidade espiritual, que só se revela a quem procura Jesus na fé em sua palavra; e este recebe o verdadeiro alimento messiânico.
Jesus saciou concretamente pessoas que tinham fome e, se revelou o pão da vida eterna, ele o fez a partir de uma realidade terrestre. O pão que ele fornece não é somente o símbolo do pão sobrenatural: não é possível revelar o pão da vida eterna sem se engajar verdadeiramente nas tarefas de solidariedade humana: o amor dos pobres, assim como o dos inimigos, é o teste por excelência da qualidade da caridade. Reconhecer aos pobres o direito de receber o pão da vida é engajar-se até o fim das exigências do amor e traduzir por uma nova multiplicação dos pães em escala universal, o gesto empreendido por Cristo.
A Eucaristia distribui o pão da vida em abundancia e em todas as dimensões, mistério da pessoa de Cristo, sinal da escatologia, sacramento da Páscoa. Mas só existe verdadeira recepção desse pão da vida no despojamento e numa disponibilidade absoluta, que faz de cada participante um irmão dos mais pobres entre as pessoas.
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
A fome é uma questão que atinge a todos nós. Jesus se deparou com a fome, assim como seus discípulos, a Igreja primitiva e também atinge a humanidade até hoje. O desequilíbrio entre nações ricas e a multidão de pobres é assustador. Como cristãos somos seguidores de Jesus, que, a partir da realidade de seu tempo, saciou concretamente pessoas que tinham fome e se revelou como pão.
Com os critérios da sociedade torna-se impossível saciar a fome dos pobres. O poder público lida com grandes somas, mas nunca direciona esses recursos para resolver o problema do povo. É preciso mobilizar e descobrir a força que se encontra no meio dos pobres. Jesus usa os pães dos pobres (menino), sem criar dependência do dinheiro.
Quantas vezes vemos grupos que se organizam com um mínimo de estrutura. Cooperativas surgem do nada e se desenvolvem com o esforço suado dos seus membros. Em vez da confiança no dinheiro, aposta-se na eficácia da solidariedade que se apóia na partilha generosa, que faz crescer em dignidade e autonomia. Ao contrário, há projetos que se sustentam com muito dinheiro. O risco do monopólio e da dominação de uns sobre os outros, nestes casos, é muito maior e nem sempre os resultados são proporcionais aos recursos empregados; nem sempre os resultados são de partilha e compaixão.
A revelação de Jesus como pão só se realiza no compromisso com a solidariedade, a partilha e o engajamento em uma nova "multiplicação de pães", em escala nacional e mundial. Compete a nós a sétima multiplicação de pães, para ser plena.
Se o povo passa fome, não é tanto pela pobreza em si, mas pelo fechamento de quem não se importa com os demais. A partilha marcou profundamente as primeiras comunidades cristãs. Ao partir o pão, descobre-se a presença nova do Ressuscitado!
A salvação trazida por Jesus atinge a nossa vida em todas as suas necessidades; é total, não deixa ninguém com fome. Por isso, nossa atuação e responsabilidade com as questões sociais, econômicas e políticas são sinais da salvação que Deus quer realizar, hoje, através da nossa ação.
Ao multiplicar os pães, Jesus nos oferece critérios evangélicos fundamentais para vivermos a fraternidade, a partilha e a solidariedade. É repartindo e sendo solidários que vamos realizar o projeto de Jesus, banquete de fartura e de alegria entre irmãos que se amam. O dinheiro, a terra, os bens ou servem para criar a fraternidade ou acabam dividindo e matando as pessoas.
Jesus ensina que a dinâmica do Reino é a arte de repartir. Todo o dinheiro do mundo não seria suficiente para comprar alimento necessário para os que estão passando fome... o problema não se soluciona comprando, mas repartindo.
A dinâmica do mundo capitalista é precisamente o dinheiro. Cremos que sem dinheiro nada podemos fazer. Convertemos tudo em moeda. No mundo puramente capitalista, não há espaço para a gratuidade. Tudo tem seu preço! Nós já nos esquecemos de que a vida nos é dada por pura gratuidade de Deus.
Na celebração, comendo o pão à mesa do Senhor, realiza-se para a assembléia reunida em nome do Senhor o milagre da multiplicação dos pães e chama-se à missão para vencer a fome no mundo. Acolhemos Jesus como aquele que se põe a serviço e nos ensina o caminho de Deus.
A Palavra se faz celebração
Deus nos alimenta com fartura
O salmista convida ao louvor a Deus, que alimenta seu povo: "Que vossas obras todas vos celebrem, Senhor, e vossos fiéis vos bendigam... em vós esperam os olhos de todos e no tempo certo vós lhes dais o alimento". O refrão constata a generosidade de Deus revelada na pessoa do Messias: "Saciai os vossos filhos, ó Senhor!" No Evangelho, Jesus, com autoridade e soberania, mata a fome daqueles que estão na busca de meros sinais. As pessoas são acomodadas na grama. Jesus não pede ajuda aos discípulos para a tarefa da distribuição do alimento. Toma-os, dá graças ao Pai e os reparte com fartura. Este gesto nos remete à "fração do pão" sob ação de graças, remete-nos à Eucaristia: "característica da assembléia cristã dos primeiros tempos - refeição ao mesmo tempo fraterna e messiânica", como afirma Johan Konings em sua obra sobre o Evangelho de João.
A mesa da Palavra e a mesa da eucaristia
Para a Eucaristia vamos famintos do Pão da Palavra e do Pão da Eucaristia. A assembléia se serve de duas mesas, indo para casa com o coração saciado de Deus. No entanto, convém estar atentos à Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, que afirma que a sagrada liturgia não é a única atividade da Igreja, "pois, antes de ter acesso à liturgia é preciso ser conduzido à fé e se converter". A participação ativa e frutuosa na liturgia deve ter reflexos na espiritualidade cristã. O Catecismo da Igreja Católica nos inspira ao compromisso com os pobres: "Para recebermos na verdade o Corpo e o Sangue de Cristo entregues por nós, devemos reconhecer Cristo nos mais pobres, seus irmãos" (cf. Mateus 25,40). A realização do milagre da multiplicação dos pães no banquete eucarístico nos desafia a partilhar e a lutar por novas formas de convivência, nas quais o pão cotidiano, por nós compartilhado, é sinal da vida em abundância que se encontra no Cristo, Pão para a vida do mundo!
Ligando a Palavra com a ação eucarística
Necessitados de força, de coragem, de sentido para a vida e de perseverança, participamos da ceia do Senhor onde se realiza entre nós a multiplicação dos pães.
Jesus, o Pão da vida, sacia nossa fome com a Palavra que nos revela o sentido da vida e com a ceia eucarística, sacramento da salvação, sinal e antecipação do banquete sem fim a que somos destinados.
Ele nos convida a abrir nossas mãos e nosso coração "que para tudo guardar se fecham" para gestos de partilha e solidariedade, a fim de vencermos nossas dificuldades, a fome e a miséria do mundo.
A eucaristia é o pão que sacia a necessidade que temos de alimento para conservar a vida, ter coragem perseverança e segurança; o pão que nos dá forças para superar as atribulações que existem e atormentam nossa vida. É a segurança de que Deus nos ama, e a certeza da Ressurreição; é Deus-conosco.
padre Benedito Mazeti



"Jesus, o pão dos pobres"
Convoquei meu grupo de “teólogos” para refletir esse evangelho da multiplicação dos pães, pois com o evangelista João, todo cuidado é pouco, já que o seu escrito é rebuscado e nem sempre o ensinamento é o que parece. O “Mota”, que é aposentado na área administrativa e auxilia a nossa secretaria, abriu um enorme sorriso quando viu o texto “Está na cara que Jesus faz uma dura crítica ao capitalismo, é preciso repartir o pouco que se tem, para matar a fome de todos, sempre soube que esse Jesus é dos nossos....” concluiu Mota, que defende de unhas e dentes o socialismo, e briga quando se fala sobre a CEBs. Neste momento, o João Ernesto que trabalha de encarregado em uma grande empresa, balançou a cabeça e respondeu “Olhe, se for prá discutir nessa visão, eu desisto, o Mota pensa que só ele sabe de tudo”. Calma pessoal... Não vamos censurar o Mota, pois esse evangelho realmente nos faz a olhar questão da fome, e se não tocarmos nesse ponto, estaremos sendo omissos - comentei, tentando apaziguar os ânimos dos debatedores que começaram bastante exaltados.
Em uma visão bem simples, parece que o evangelho ensina que Jesus estando por perto, ninguém vai passar fome. “Ué, mas não é isso? Tinha só cinco pães e dois peixes, não ia dar nem pro cheiro, daí Jesus deu a bênção e mandou servir, todos comeram a vontade e ainda sobrou...” – exclamou Maneco, ao que Dona Maria, a doméstica, aparteou “Gente, isso me lembra dum ditado popular, o pouco com Deus é muito, mas o muito sem Deus é nada”.
“Vocês ficam brabos quando eu falo em CEBs, mas é um trabalho onde se valoriza muito a partilha e a comunhão de vida, exatamente como Jesus ensinou.” – retrucou Mota com mais calma, sem intenção de disparar farpas.
“Eu sei Mota, todos aqui sabem disso, mas é que você fala como se a CEBs representasse a salvação do mundo, e isso não é verdade” respondeu Roseli, nossa catequista, que continuou “A CEBs é uma eclesiologia, uma maneira de ver as coisas, mas não é a única, no cristianismo existe uma essência que é o eixo de tudo, perguntemos, por exemplo, qual a missão de Jesus entre nós, será que foi para resolver o problema da fome que ele veio? E se foi, por que não resolveu?”.
Roseli é muito inteligente e sabe como provocar o grupo, um rei que tivesse o poder de multiplicar os alimentos e saciar a fome de uma multidão, estava de bom tamanho para aquele povo, aliás, no final do evangelho é exatamente isso que quiseram fazer, mas Jesus “pulou fora”. A Salvação que ele oferece não se restringe a deixar o homem com a “barriga cheia”, saciado da fome material. É muito mais que isso!
“Mas a vida plena que ele veio nos dar, como diz em João, supõe o homem em sua totalidade, inclusive com suas necessidades vitais onde a fome é uma delas” - argumentou Mota. “Está certo, mas temos outras necessidades que não se encontram por aí em supermercados, como os alimentos.”. - retrucou Roseli.
“Esse João é um danado, escreveu uma coisa, mas no fundo está querendo dizer outra” – comentou o Maneco em sua simplicidade, acertando na “mosca”. Os milagres narrados por João são “iscas” para nos convencer de algo que está por trás de cada um deles.
O homem sempre terá necessidade de algo que lhe é essencial, e que somente Jesus de Nazaré poderá lhe oferecer. Todos os problemas humanos, consequentes do pecado, poderão de fato ser resolvidos, se o homem se dispuser a receber a Salvação que Jesus oferece, então é exatamente nesse sentido que está o ensinamento da multiplicação dos pães e peixes, Jesus apresenta o problema, Filipe alega que não têm recursos para resolvê-lo, o irmão de Simão Pedro diz que há um recurso, mas que ele é insuficiente em relação as necessidades da multidão. Na vida em comunidade acabamos sendo influenciados pela sociedade consumista que se move a partir do valor econômico, onde sempre é preciso ter “muito” para poder ser feliz, se esse conceito fosse verdadeiro, apenas uma minoria da população, considerada rica, seria feliz, mas sabemos que ao contrário, há pessoas pobres, muito felizes com a v ida que têm, enquanto por outro lado, há ricos infelizes, que às vezes recorrem até ao suicídio, insatisfeitos com o que são e têm. Isso mostra o quanto tal premissa é enganosa e falsa.
O acúmulo de bens financeiros e patrimoniais nas mãos de poucos, é no fundo uma tremenda ilusão, primeiro porque alimentam a mentira de que, com o dinheiro e a riqueza a gente tem tudo, e em segundo, porque da noite para o dia toda essa fortuna pode ir água abaixo se mal administrada, basta ver os grandes impérios econômicos que ruíram, e no demais, no final da vida, o rico irá descobrir que a morte o espera, para separá-lo eternamente de todos os seus bens, daí toda a sua riqueza de nada valerá.
Já os que são saciados pelo amor de Deus, manifestado na salvação que Jesus traz, podem esperar muito mais, os doze cestos que sobraram prenunciam a vida plena do novo povo de Deus, que se tornará perene -no exato momento em que, ao término da existência terrena, tudo parece ser um trágico fim. Sou então obrigado a concordar com a Dona Maria, que nos dizia lá no início da reflexão “O pouco com Deus é muito, e ainda sobra para a vida nova que Jesus nos deu, mas o “muito” que esta vida nos oferece, é nada, se a humanidade teimar em menosprezar a Salvação, da qual somente Jesus, o Filho de Deus, é portador.
diácono José da Cruz




1 – “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido”.
Trocamos de evangelista por uns domingos, mas não de Evangelho: Jesus Cristo. Ele é a Boa Notícia de Deus, que entra no mundo, na história e no tempo. Vem habitar no meio de nós, fazer a Sua tenda em nós. Como temos refletido, não está alheado do que é verdadeiramente humano, entranha-se no mundo, suja as mãos, insere-se na realidade temporal.
No regresso dos discípulos, dá-lhes oportunidade para descansarem e comerem, ainda que logo atenda uma multidão que deles se abeira, com fome de sentido, são como ovelhas sem Pastor. Jesus compadece-Se e ensina-lhes muitas coisas.
No evangelho proposto para hoje, de São João, o cenário é em tudo semelhante quanto à atitude de Jesus:
“Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: “Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?”.
Jesus ergue o olhar para as pessoas, perscruta no interior das mesmas, tem compaixão daquela gente, antecipa-Se às suas necessidades, às mais básicas e a partir daqui há de desafiá-las a um alimento maior, a um sentido novo para a vida, como veremos no próximo domingo, na continuação do Evangelho. Para já o pão, depois o pão e o sentido para a vida.
2 – O milagre da multiplicação é uma exigência e há de ser um compromisso para os dias de carestia que atravessamos. Quando o pouco se partilha, é possível que chegue para mais pessoas, ou que chegue para todos. Multiplica-se o que é partilhado. O que retemos para nós vai desaparecendo, corroendo-se com a traça. É como os produtos com prazo de validade. Guardamos e quando nos apercebemos nem para nós nem para os outros.
Não é uma questão contabilística – dois pães de cevada e dois peixes – mas de fé, de fé em Deus, na abertura aos outros. A nós não nos são pedidos milagres “extraordinários”, mas compromissos com os meios e os dons que temos. Levantemos os olhos para as pessoas que se aproximam. Antecipemo-nos às suas necessidades, como Jesus, não primeiramente com pressa em dar razões, acalentar a esperança, mas antes pressa na caridade e na partilha, para que a multiplicação aconteça. O mundo em que vivemos tem alimentos de sobra para todas as pessoas que o habitam e no entanto há meio mundo a morrer à fome ou a viver uma vida abaixo de cão.
Quantos Lázaros pelo mundo à espera das migalhas que sobejam nas nossas mesas, à nossa espera. Nem só de pão vive o homem – Jesus di-lo claramente na continuação do evangelho –, mas também vive do pão. Não vivemos para comer, mas comemos para viver.
3 – Deus conta conosco, com os nossos cinco pães e dois peixes. O pão de cada dia, que Deus nos dá, não cai diretamente do céu, mas multiplica-se a partir da terra, do trabalho, do esforço humano, com a bênção de Deus. Ele não nos pede o impossível, mas o que está ao nosso alcance e então o milagre surge e acontece o (que parecia) impossível. Deus proverá ao resto. E não é pouco. É tudo na nossa vida. Age em nós e através de nós.
Na primeira leitura, Eliseu dá uma ordem semelhante àquela que Jesus haveria de dar aos seus discípulos: dai-lhes vós de comer. Todos têm um papel a desempenhar.
“Veio um homem da povoação de Baal-Salisa e trouxe a Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita. Eram vinte pães de cevada e trigo novo no seu alforje. Eliseu disse: «Dá-os a comer a essa gente». O servo respondeu: «Como posso com isto dar de comer a cem pessoas?». Eliseu insistiu: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há de sobrar’». Deu-lhos e eles comeram, e ainda sobrou, segundo a palavra do Senhor”.
O impossível torna-se acessível, pela fé, pela presença e pela graça de Deus, que vem até nós e que nos encontra e nos transforma. Olhos nos olhos, em Jesus Cristo, Deus abaixa-Se para encontrar a nossa face, lava-nos os pés e a alma, torna-nos Seus filhos. Abraça-nos, enleva-nos, promove-nos, agora somos do dia e da Luz.
Vale a pena ater-nos às palavras do Apóstolo, uma vez mais:
“Eu, prisioneiro pela causa do Senhor, recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados: procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra”.
padre Manuel Gonçalves




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