22º DOMINGO TEMPO
COMUM-Ano B
02 de Setembro
Evangelho – Mc 7,1-8.14-15.21-23
· -22º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano B-José Salviano
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Neste dia de hoje, como estamos nós?
Puros, ou impuros? Como está a nossa alma? Limpa de todo pecado, ou cheia de
impurezas do pecado? E se eu ou você
morrêssemos hoje? Para onde iríamos? Para o Céu, ou para o inferno?
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“ESCUTAI TODOS E COMPREENDEI.” Olivia Coutinho
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 02 de Setembro de 2018
Evangelho de Mc 7,1-8.14-15.21-23
Estamos iniciando o Mês da Bíblia, tempo em que a Igreja nos convida a abrirmos mais vezes, este livro sagrado, para que possamos nos aprofundar mais na palavra de Deus, palavra que orienta, que liberta, que aponta caminhos!
Numa comunidade cristã, que alimenta a sua intimidade com a Bíblia, sempre haverá inovações, avanços significativos, tanto na catequese, quanto na liturgia, como também, no cotidiano das pessoas, pois através da leitura profunda da Bíblia, todos vão se inteirando do querer de Deus.
Quem não procura inteirar-se do querer de Deus, vive na superficialidade, presos nas tradições, cumprindo preceitos, rituais vazios que não chegam ao coração de Deus.
Quantos de nós, perdemos a oportunidade de viver uma intimidade profunda com Deus, por estarmos presos em pormenores, em coisas insignificantes que não nos deixa enxergar o belo da vida!
Temos a tendência de ficar observando o outro, pena, que esta nossa observância, se direciona mais para o ponto fraco das pessoas, o que não nos deixa enxergar, o que há de bom no seu interior! Devido a esse nosso olhar malicioso, vamos perdendo a capacidade de ver além das aparências, de ter uma percepção profunda dos fatos, das pessoas, ainda não aprendemos a ter um olhar de contemplação, um olhar que vai além do que os olhos físicos alcançam, um olhar que nos faz enxergar a pessoa na sua essência!
Enquanto estamos nos ocupando em procurar defeito no outro, deixamos de cuidar do nosso interior, de sermos criteriosos nas nossas escolhas e assim vamos dando espaço para o que não é de Deus, abraçando tudo o que o mundo nos oferece...
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, fala de um questionamento maldoso dos fariseus e mestres da lei, dirigido à Jesus. "Porque os teus discípulos não seguem as tradições dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?."
Fariseus e mestres da Lei, se misturavam à multidão que cercava Jesus, disfarçados de ouvintes Dele, com o objetivo de investiga-lo. Eles queriam saber, qual o tipo de ensinamento que Jesus estava passando para os discípulos e se Ele estava incitando o povo, a não observância das Leis. Havia chegado ao conhecimento destas autoridades, que os ensinamentos de Jesus, não enquadravam com os padrões religiosos estabelecidos por eles.
Para os fariseus e mestres da lei, religião, era observar as tradições antigas, cumprir preceitos, normas, rituais, que nada acrescentava ao ser humano, como lavar as mãos antes de comer, tomar banho depois de chegar da rua, a maneira correta de lavar copos, jarras, vasilhas... Atrás de uma aparente pureza, eles escondiam a dureza dos seus corações, cumpriam rigorosamente as tradições antigas, mas deixavam o principal, eles não viviam o amor e a fidelidade a Deus, não agiam com misericórdia, suas atitudes eram totalmente contrárias à vida.
O texto nos leva a um questionamento a respeito da nossa fé e da nossa vivencia do dia a dia: Estamos sendo coerentes entre o que falamos e o que vivemos?
É importante lembrarmos: Deus não nos olha externamente, para Ele não importa a nossa cor, a nossa posição social, nossa cultura e nem mesmo a nossa religião, para Deus, o importante, é o que cultivamos de bom no nosso interior, ou seja: a pureza do coração, pois é do coração puro que brotam os mais belos gestos de amor!
De nada adianta nossos atos externos se eles não retratam o que somos interiormente. Aos olhos de Deus, a prática exterior, só tem sentido, se for uma expressão do que realmente cremos e vivemos do contrário, são práticas vazias, que nada significam, pois mostram o que na verdade não somos.
O que nos distingue como seguidores de Jesus, não são as nossas muitas palavras bonitas, e sim, a nossa vivencia no amor!
Deixemo-nos impregnar no amor de Jesus, um amor que liberta, que inclui, que nos torna sinal vivo da sua presença no mundo.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! Olivia Coutinho
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Deixais
de lado o mandamento de Deus,
para
vos prenderdes à tradição dos homens.
A fidelidade ao
querer de Deus
A liturgia deste
domingo põe o cristão perante a Lei de Deus. De fato, Deus, no seu amor, dá uma
série de normas que têm como objetivo fazer o homem feliz. O livro do
Deuteronômio, chamado assim por ser a segunda lei, contém em si uma série de
regras que por demasiadas, constituem fonte de uma certa angústia para o
crente. As mais de 600 normas do livro do Deuteronômio criam a perplexidade de
cada um se interrogar sobre se está ou não a cumprir a Lei. Talvez por isso
Deus tenha querido simplificar a sua Lei reduzindo-a aos Dez Mandamentos
confiados a Moisés no monte Sinai. Se as mais de 600 normas eram pesadas, os
Dez Mandamentos confiados a Moisés são mais simples. A grande síntese da Lei de
Deus, porém, foi Jesus que a ofereceu com o chamado Mandamento Novo “que vos
ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei”. Na liturgia de hoje, as normas
do Deuteronômio tornam grande o Povo de Israel perante os outros povos, Israel
é assim uma grande nação (1ª leitura). É preciso no entanto, superar os
critérios farisaicos uma vez que “não é o homem feito para o sábado, mas é o
sábado que é feito para o homem”. O farisaísmo não era libertador, não revelava
o Deus do amor (Evangelho). Por isso são Tiago ao escrever a sua Carta às
comunidades cristãs privilegia as atitudes concretas de caridade sobretudo para
os mais pobres e para os que mais sofrem, os órfãos e as viúvas (2ª leitura).
1. Observar a Lei de
Deus
Cumprir a Lei é uma
forma de amar. Esta porém, não pode ser tão complicada que se torne difícil
compreendê-la, aceitá-la e vivê-la. Era este o problema da segunda lei, o
Deuteronômio. Demasiado complexa, com pormenores às vezes quase ridículos. No
entanto, a fé num Deus que oferecia regras de comportamento era, para os
israelitas, motivo de prestígio perante todos os outros povos. Dizia-se de
Israel, é uma grande nação com um grande Deus e preceitos de justiça.
2. Vencer o
farisaísmo
Os judeus fizeram
duma prática higiênica, lavar as mãos, um rito religioso. Isto era muito
frequente nos povos primitivos em que tudo era dependente do querer de Deus.
Jesus veio instaurar a liberdade. Para Ele lavar as mãos é apenas uma atitude
higiênica. É claro que os fariseus condenavam o fato dos discípulos de Jesus
comerem sem lavar as mãos. As práticas farisaicas deviam ser vencidas, por isso
Jesus, ao falar de outra prática higiênica, o que se deve ou não comer, pôde
dizer que o que faz mal não é o que entra pela boca, mas aquilo que, pela boca,
sai do coração. “O que sai do homem é que faz o homem impuro”. Nesta conversa
simples entre Jesus e os fariseus, redifine-se o que é essencial no cumprimento
da lei. A fidelidade à lei é um sinal do amor que está no coração.
3. A lei em Jesus
Cristo é o Amor
Vale a pena ler
integralmente a Carta de são Tiago. Ela está dominada pelo verdadeiro sentido
da fé. Quem acredita em Jesus Cristo não tem alternativa, tem de expressar a
sua fé em atitudes concretas de caridade. Com razão Tiago diz que “a fé sem
obras é morta”. Esta fé vivida na caridade supõe o maior respeito para com
Deus, a aceitação incondicional da Palavra, o serviço ao próximo sem condições,
inclusivamente não julgar, não condenar, não desprezar. A fé supõe o amor como
lei fundamental.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Neste domingo,
inicio do mês da Bíblia, a Liturgia da Palavra volta à leitura contínua do
Evangelho de Marcos. Veremos que a base da vida cristã está no acolhimento da
Palavra de Deus, pois ela tem a força de transformar o interior da pessoa
humana e modelar nela um estilo de vida marcado pela sabedoria e pela justiça
(1ª leitura). Tiago concretiza tudo isso quando afirma que a religião pura e
sem mancha é vivenciada pelo amor ao próximo (2ª leitura). Jesus, por sua vez,
apresenta o valor que a consciência tem como raiz do comportamento humano
(evangelho) ao afirmar que é do coração que brota a qualidade moral de nossos
atos e não das aparências do nosso comportamento nem das influências que
possamos receber do mundo exterior.
1ª
leitura: Deuteronômio 4,1-2.6-8
O livro do
Deuteronômio é um conjunto de estatutos e normas que visam levar a uma prática
de vida de acordo com a Aliança com Deus, dentro da terra prometida. Para
motivar o povo, Moisés faz uma reflexão sobre o sentido da obediência a Deus e
de sua ação salvadora ao longo da história.
Aquele que tem fé
deve perceber isto, descobrindo “um Deus tão próximo” dele e sentindo a
necessidade de agradecer tantos dons gratuitos que do Senhor recebeu. Desta
forma, a Lei de Deus não será vista como uma imposição que vem de fora, mas
estará em consonância com um coração que quer agradar a Deus como resposta de
fidelidade e o levará a viver segundo a sabedoria e a justiça de acordo com o
projeto do Senhor. É deste modo que devemos amar a Lei de Deus para sentir que
ela é o caminho certo na nossa realização pessoal.
2ª
leitura: Tiago 1, 17-18.21b-22.27
Tiago parte do
princípio de que todo bem procede de Deus. Ele não é apenas o autor do bem, mas
de tudo aquilo que leva ao bem. Portanto jamais conduziria alguém ao sofrimento
e à morte, pois o seu projeto é a vida e a vida em plenitude. Esta vida nova é
comunicada pela “Palavra da Verdade”, que é o Evangelho.
A preocupação de são
Tiago, nesta sua carta, é que a fé seja levada à prática com atos concretos em
todos os campos da vida e não fique em pura aparência sem conteúdos nem
exigências éticas. Por isso chama a atenção para a essência da vida cristã que
é ouvir a Palavra do Evangelho, sim, mas também aceitá-la e colocá-la em
prática (“Sejam praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes”).
É ilusão pensar que
a fé se resuma em afirmações ouvidas e decoradas ou em práticas costumeiras.
Ela é compromisso que leva a tomar atitudes bem concretas como “socorrer os
órfãos e as viúvas..., e manter-se livre da corrupção do mundo”, pois o amor,
que é a essência do Evangelho, é a resposta solidária diante de qualquer
situação de necessidade.
Evangelho:
Marcos 7,1-8.14-15.21-23
O evangelho de hoje
relata a polêmica provocada pelo modo de agir dos discípulos, contrário à
tradição da “pureza legal” imposta pelos chefes dos judeus.
As prescrições do
judaísmo sobre a “pureza” de pessoas, objetos e animais se fundamentavam na
idéia de que, quando o ser humano se aproxima de Deus, tem que se purificar de
tudo aquilo que possa estar em desacordo com a pureza e a santidade. Para isto
criaram um conjunto de normas e obrigações externas que não eram observadas
pelos discípulos de Jesus e, por isso, os fariseus os criticavam.
Os fariseus tinham
um conceito de religiosidade fundamentado na obrigatoriedade de leis morais e,
portanto, recheado de proibições que cerceavam a vida pessoal e impediam a
pessoa de ser livre. Grande parte de nossos contemporâneos ainda hoje entende a
religião como um catálogo de proibições mantido por formalismos e rituais, mais
como “um freio” do que como um projeto de vida. É a mentalidade dos fariseus!
Jesus contradiz essa
mentalidade e desmascara a atitude hipócrita que está por trás destas práticas
supostamente “religiosas”. Com isso, estava mexendo em algo muito sério: estava
abolindo a lei da pureza legal, cuja interpretação era o fundamento de uma
sociedade injusta, baseada em tabus que criavam e cultivavam a discriminação,
gerando privilegiados e marginalizados, opressores e oprimidos, puros e
impuros.
Diante de uma
religiosidade sempre na defensiva perante o mundo exterior, Jesus coloca em
destaque uma questão que nos conduz até o coração do cristianismo: a salvação é
um dom gratuito de Deus que vem a nós pela fé em Cristo e não pelo cumprimento
material de práticas e costumes “religiosos”.
Os fariseus e
doutores da Lei não poderiam aceitar alguém subvertendo tudo desse jeito. Jesus
estava se tornando perigoso para seu modo de pensar e agir!
Palavra
de Deus na vida
Ao ler o evangelho
de hoje, temos que reconhecer que, frequentemente, nos deixamos levar por um
certo moralismo feito de normas e prescrições exteriores e esquecemos que “o
que vem de fora e entra numa pessoa, não a torna impura; as coisas que saem de
dentro da pessoa é que a tornam impura” porque é da consciência humana que
brota o bem e o mal e não do mundo exterior. Ela é o fundamento da verdadeira
moralidade.
A tentação não
produz o mal. Uma certa tendência ao mal já está dentro do ser humano. A
tentação só faz que acordar esse mal adormecido se, antes, já foi acolhido no
coração. Quando alguém vê pecado em tudo, o que acontece é que está projetando
sobre os outros a malícia que abriga em sua mente.. A vida é sempre da cor dos
óculos com que olhamos para ela, como escreve São Paulo (“Tudo é puro para os
puros; mas nada é puro para os impuros... , porque a mente e a consciência
deles estão corrompidas” (Carta a Tito 1,15) como que explicando aquelas outras
palavras do Senhor: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. (Mateus
5,8)). Neste sentido, as normas externas de comportamento podem ser hipócritas,
como acusa Jesus neste evangelho, se servirem mais para acobertar do que para
santificar.
Por outro lado, é
bom perceber que a religiosidade unicamente exterior é sempre um perigo em
todas as suas formas quando são apenas “sociais” (Missas, batizados,
casamentos, bênçãos e funerais). Isto pode reduzir a prática religiosa a um
fato sociológico e esconder o verdadeiro sentido do cristianismo como estilo de
vida, marcadamente vivencial, que pratica uma religião como resposta de fé,
através do testemunho de vida, muito além do que simplesmente rezar e ir à
Missa.
A Palavra de Deus
hoje é um convite para voltarmos á sinceridade mais profunda. Nos introduz no
interior de nossa consciência; ali onde surgem os pensamentos e as intenções,
onde nossa liberdade decide o que queremos ser e o que queremos fazer, onde se
incuba nosso projeto verdadeiro de vida, onde unificamos ou desintegramos nossa
identidade e coerência pessoais.
Na vida pratica
cuidamos pouco da nossa vida interior: exaltamos a aparência física, a
“fachada” externa, mas cuidamos muito pouco de cultivar a nossa consciência, a
sabedoria, os valores que dão sentido à vida. E assim nos tornamos
superficiais, confundindo o “bom” com o que dá prazer, o “justo”com o que nos
interessa e acabamos criando certas máscaras que ocultam o nosso vazio
interior. Precisamos entrar dentro de nós e rever nossas convicções mais
profundas; perguntar ao nosso coração o que ele quer da vida, como se sente
diante dos irmãos mais necessitados.
PENSANDO BEM...
+ Como fazer para
que a nossa religiosidade não esteja tão contaminada pelo egoísmo infantil que
nos leva a praticar muitos rituais para ganhar o favor de Deus?
+ Como evitar que
costumes e a tradições sejam sustento da prática religiosa?
+ Cuidamos da pureza
do nosso coração como cuidamos da nossa aparência exterior?
padre Ciriaco
Madrigal
"Este
povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim"
Domingo da pureza do
coração. Neste domingo, fazemos memória da Páscoa de Jesus Cristo que se
manifesta em todos aqueles batizados que tornam sua vida, pela prática da
caridade e da justiça, um culto agradável a Deus.
A celebração deste
domingo nos mostra que o culto que agrada ao Senhor é aquele que brota da
Aliança (relação) sincera com Deus e que se expressa em ações solidárias
efetivas em favor dos irmãos e irmãs. É a liturgia da caridade mais do que da
observância exterior da lei. "Escuta, Israel, as leis que te ensino para
que as pratiques" (Deuteronômio 4,1). A nossa tentação é seguir a tradição
dos homens, abandonando os mandamentos de Deus, e, para justificar tudo,
promover atos de culto majestosos. "Este povo me honra com os lábios, mas
o coração dele está longe de mim" (Marcos 7,6 e Isaias 29,13).
Primeira
leitura: Deuteronômio 4,1-2.6-8
O capítulo 4 do
livro do Deuteronômio foi escrito no tempo em que os israelitas sofriam as
conseqüências do exílio da Babilônia. Como exilados estão longe de sua pátria,
distante dos familiares e amigos, impossibilitados de viver intensamente a sua
fé no Senhor da história e expressá-la no culto com liberdade já que são
forçados a morar em terras estrangeiras, dominados pelo imperialismo e religião
dos babilônicos. É fácil de compreender que estes exilados israelitas estavam
profundamente chocados com tudo que experimentavam e viam, apesar de terem sido
freqüentemente alertados, principalmente pelos seus profetas. Muitos caíram num
fatalismo nocivo, e outros, não raramente, negavam a fé no Senhor juntando-se à
maneira de viver dos pagãos babilônicos.
Talvez agora eles
dessem mais ouvidos às palavras dos seus líderes do que quando estavam na
Palestina. E o apelo aos exilados se refere a um assunto por demais conhecido,
isto é, a escutar as normas e as leis que Deus ensina para que as coloquem em
prática.
Mas, se as normas e
leis forem cumpridas, Israel poderá tomar uma segunda vez posse do país que o
Senhor, o Deus dos antepassados de Israel, dá e nele poderá viver em paz.
A estas normas e
leis os israelitas não devem acrescentar nada e nem delas tirar algo, mas
simplesmente guardá-las como o Senhor as prescreveu (versículo 2). Apenas a sua
obediência fiel possibilitará a volta dos israelitas à sua pátria. O Senhor
então poderá realizar um segundo êxodo, desta vez da opressão do Império
Babilônico.
Os exilados de
Israel são convidados a prestar atenção: "Escuta, Israel"! Talvez
assim no exílio, dessem maior atenção à escuta e à pratica das normas e leis
que o Senhor os ensinou. Os israelitas são convidados a retornar ao Senhor
(conversão) pela observância da Lei. O senhor está próximo; mora com seu povo.
Ele poderá suscitar um novo êxodo.
Salmo
responsorial: 14(15),1-5
Este Salmo traça um
compendio de moral a ser observado, cf. os preceitos dos dez mandamentos Êxodo
20,1ss. O Templo de Jerusalém toma por vezes o nome de "tenda", à
imagem do antigo santuário do deserto que relembrava todos os anos a festa das
Tendas (Êxodo 23,14ss). Trata-se de uma liturgia, à semelhança do Salmo 23/24,
muito parecido com este. Chama-se assim porque há nele um fragmento de um rito
muito antigo, uma liturgia da qual temos pouco conhecimento. Supõe-se que os
romeiros, indo a Jerusalém para as festas anuais, fossem acolhidos por um
sacerdote na entrada do Templo. Ao peregrino perguntavam ao recepcionista:
"Quais são as condições para entrar no espaço do Templo e aí ficar durante
os dias da festa?" (As grandes festas duravam 8 dias). O sacerdote
respondia, expondo as exigências (cf. Salmo 23/24). Alguns estudiosos dão a
este Salmo o nome de liturgia da porta.
O versículo 4 do
Salmo fala que o justo não deve compactuar com os ímpios, mas honrar os que são
fiéis ao Senhor. A expressão freqüente nos salmos, é sinônimo de: fiel,
piedoso, devoto.
O rosto de Deus
neste salmo é muito interessante. De acordo com o salmo, Deus mora no Templo de
Jerusalém e aí recebe seus hóspedes. Portanto, um Deus acolhedor. É um Deus
fortemente ligado às exigências do êxodo, quando Javé tirou os hebreus do Egito
e a eles se aliou para que se criassem na terra da promessa uma nova realidade
marcada pela igualdade, justiça e solidariedade.
Deus não pede nada
para si: nem ofertas, nem sacrifícios, nem oblações, nem holocaustos. Nada. É
como se Ele dissesse a cada um: "Você quer ser meu hóspede, meu amigo?
Acolha o outro, seja amigo dele na integridade, na verdade, na justiça e na
solidariedade". Deus não quer nada para si. Se quisermos dar-Lhe algo, é
aos outros que precisamos doar e doar-nos (cf. Mateus 25, 31-46).
Jesus assumiu
plenamente este salmo, Veja, por exemplo, o que diz do Templo como lugar de
religião opressora (João 2,13-22), da questão do puro x impuro (Marcos 7,1-23),
da ganância dos fariseus (Lucas 11,37-44); veja, também, em Lucas 10,29-37,
como o samaritano - tido por herege - tem uma atitude religiosa perfeita.
Respondendo à
Palavra do nosso Deus que acabamos de escutar, peçamos a ele que venha a nós e
nos converta totalmente ao seu amor e á sua justiça.
Segunda
leitura: Tiago 1,17-18.21b-22.27
No versículo 17, da
leitura desse domingo, Tiago, a título de ilustração, apela para imagens dos
astros: Deus é pai das luzes em sentido próprio e alegórico, criando e
ordenando as luminárias do firmamento (imagem do bem) para dissipar as trevas
(imagem do mal). Deus sendo o Criador de todas as coisas, está acima de
qualquer ordem terrestre. Ele é imutável e perfeito e em seu agir não pode ser
autor do mal e da imperfeição.
Assim como Deus
criou o mundo por um ato livre de sua vontade (versículo 18), assim também como
salvador bondoso, nos regenerou para uma vida inteiramente gratuita, sem
qualquer mérito nosso.
O apóstolo Tiago se
refere à Palavra da Verdade. A Palavra da Verdade - que no Salmo 118,43 é a lei
de Moisés e no Novo Testamento é a pregação do Evangelho (1 Coríntios 4,15;
1Pedro 1,3; Efésios 1,13) - torna-se o agente da salvação e filiação divina
para quem acata a fé da Igreja na redenção operada por Jesus Cristo e vive em
comunhão com ela. Tiago exprime a obra salvadora de Deus com um termo raro:
"apokýein" que é igual a dar à luz). A Palavra da Verdade (=
Evangelho) é como que o princípio materno, por meio do qual Deus "dá à
luz) o homem quando disposto, conferindo-lhe vida nova. Não se trata do
batismo, mas da mensagem salvadora da fé. O batismo, depois, efetua e consuma
esse renascimento mediante a fé na Palavra, uma como nova criação (2Coríntios
5,17; Gálatas 6,15; Efésios 2,10; João 1,12s; 3,3-8).
Somos primícias de
suas criaturas. "Como que primícias (versículo 18) indica o fim básico do
novo nascimento: o cristão torna-se fruto primeiro, antes dos demais ou a parte
melhor, - a criatura mais sublime (cf. Romanos 16,5; 1Coríntios 16,15). A dignidade
dos filhos de Deus implica nos renascidos em responsabilidade: viver a Palavra
da Verdade pela fé atuante. Tiago, antes de explicar normas cristãs, estabelece
como fundamento o fato de termos renascido em Deus, filhos de Deus, primícias
do mundo remido.
Mais que uma
doutrina, a Palavra constitui uma misteriosa presença de Deus entre aqueles que
a ouvem: Ela está "plantada" nos nas pessoas, ao mesmo tempo, que é
acolhida por ele (versículo 21). Semelhante a uma semente, a Palavra
encontra em si mesma sua própria eficácia (cf. Mateus 13), sob a condição de
não se deparar com obstáculos e de ser semeada em terreno fértil.
A Palavra da Verdade
é a vida divina nas pessoas, "guardá-la não poderá, portanto, consistir em
enterrá-la com um tesouro: ela deve desabrochar-se na vida da Trindade, dirão
mais tarde os escritos do Novo Testamento (João 8,51-55; 14,21-24; 17,6-19;
1João 2,5; 5,2-3);deve frutificar em obras (versículos 22-27; cf. Mateus
7,21-26).
Mas Deus julga a
eficácia de sua Palavra na pessoa humana pelas "obras" que ela produz
(Tobias 12,9; Jó 34,10-11; Jeremias 17,10; 31,29-30) e que constituem a
religião pura e sem mancha.
Trata-se de receber
com mansidão a Palavra da Verdade, formulada pela pregação da Igreja e
professada no batismo, a qual produz, mas não sem o concurso humano, mansidão,
amabilidade, cortesia, humildade e confiança - uma vida nova. É o que
profetizara Jeremias (31,33b): "Porei minha lei no fundo de seu ser e a
escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo".
"Receber a Palavra" na Bíblia é aceitá-la, compreendê-la obedecê-la.
Exemplo disso é a atitude de Cristo para com o Pai. É preciso aceitar a
salvação oferecida por Deus, como nos ensina Jesus Cristo. A "vida pela
Palavra" é a integração autentica da verdadeira vida cristã de sempre, -
Palavra que tem poder de salvar, contanto que seja cumprida, como fez Maria. É
viver o que se crê. Ilude-se aquele que ouve, aceita com prazer a Palavra, sem
colocá-la em prática.
Uma religião sem as
boas obras que é a santificação própria e caridade ao próximo é insignificante.
Para uma piedade autêntica não bastam práticas externas e ritualismo frios. É
preciso, além da integridade moral (coração puro), uma vida ativa nas obras de
caridade fraterna e de misericórdia. Na Bíblia os carentes proverbiais são as
viúvas e os órfãos. A tese de Tiago é: não existe santificação própria sem
caridade, nem caridade sem santificação própria.
O apóstolo Tiago
afirma com toda convicção que os cristãos foram gerados para uma vida nova pelo
anúncio "da Palavra da Verdade" que vem de Deus. São as primícias do
mundo redimido. Essa ação de Deus requer resposta, pede cooperação que se
traduz num novo modo de viver: "Sejam praticantes da Palavra, e não apenas
ouvintes, iludindo a si mesmos" (versículo 22), exercendo a verdadeira
religião: "Socorrer os órfãos e as viúvas em aflição e manter-se livre da
corrupção" (Versículo 27).
Evangelho:
Marcos 7,1-8.14-15.21-23
Por causa da
polêmica sobre o que torna a pessoa humana pura ou impura, Marcos prepara a
viagem de Jesus para além das fronteiras do território de Israel. Na
mentalidade do judaísmo, Israel era uma nação pura e santa; era o povo
consagrado por Deus (cf. Deuteronômio 7.6). Os demais povos eram impuros.
Israel devia ser uma nação pura e santa e viver numa terra pura e santa,
distinguindo-se por esta pureza e santidade dos outros povos, dos pagãos. Na
religião do judaísmo tardio, a exigência da pureza a respeito do culto começou
a predominar demais sobre a dimensão interior da religião.
Pode-se se perguntar
em que medida todo o povo judeu acompanhou este processo. Os costumes descritos
nos versículos 3-4 dizem respeito somente aos sacerdotes ou também ou também ao
povo judeu? Seja como for, a importância dada à pureza legal trouxe
internamente uma discriminação infeliz. Para os fariseus era impuro quem
pertencia ao "povo da roça" (o "am há-arez"), os saduceus,
os samaritanos e os pagãos. Para os essênios e os habitantes de Qumrãm também
os fariseus eram impuros e eles retiraram-se de Jerusalém e do Templo, porque
achavam que tanto Jerusalém como o Templo estavam profanados porque eram
servidos por sacerdotes impuros. Para eles a sua comunidade no deserto era o
novo "santuário de Deus".
Ora, Jesus fez o
contrário. Para Ele a questão da pureza ou da impureza das leis não tem a menor
importância mesmo. Ele senta-se a mesa dom pecadores e publicanos, tidos como
impuros. Não exige deles uma purificação com ritos; não mostra reserva nem
receio de ser contagiado pelo contato com eles. Ele fala com leprosos e toca
neles; permite que a mulher com fluxo de sangue, impura no mais alto grau,
toque n'Nele; e não chama a atenção dela por ser impura e nem de que foi sido
contaminado por ela pelo toque da mão dela (cf. Marcos 5,25-34 e 6,56).
Na discussão com os
fariseus trata-se claramente do problema desta atitude de Jesus. A réplica de
Jesus é veemente. Ele censura os fariseus de hipócritas e desmascara o
legalismo dos mesmos mediante uma denuncia profética: a religião de vocês é
invenção humana. Jesus bate de frente citando um trecho do profeta Isaias:
"Bem profetizou Isaias a vosso respeito, hipócritas, como está escrito:
'Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim" (cf.
Isaias 29,13). Ao sistema deles Jesus apresenta uma nova proposta: "Bem-Aventurados
os puros de coração, porque verão a Deus" (cf. Mateus 5,8). Não é uma
coisa exterior que faz a pessoa ser impura, nem são ritos externos que o
purificam. A impureza vem do coração (consciência) e é o coração puro que faz o
sacrifício agradável a Deus.
Seria outro engano e
hipocrisia a partir disso entender a pureza do coração como uma pureza moral.
Jesus quer dizer que puro é aquele que é sincero, que é verdadeiro em seu
coração. E sincero precisamente ao reconhecer a sua culpa. Pureza evangélica é
sinceridade, é a verdade. Como aquele publicano era puro de coração - e não
inocente! - e voltou justificado para casa depois de ter reconhecido que era
pecador: "Meu Deus, tem piedade de mim, porque sou pecador" (Lucas
18,13; cf. 23,39-43).
Por sua atitude
Jesus derruba as fronteiras entre o profano e o sagrado, o mundo dividido em
coisas e costumes uns santos outros profanos, uns divinos outros diabólicos.
Jesus põe fim a tudo isso, à separação entre o profano e o sagrado como vendo
de fora, Ele pode procurar e acolher os pecadores. Salvando a pessoa humana dos
conceitos farisaicos do sagrado e desmascarando-os como invenções humanas em
que Deus não tem parte, Jesus abre o coração humano pra o verdadeiro Reino de
Deus. Com isso também, Jesus devolve a todas as pessoas a soberania sobre o
mundo. Neste sentido Marcos 7,19b: "Jesus declara puro todo alimento"
soa como uma recriação do mundo, comparável à criação do mundo pela Palavra de
Deus: "Deus viu que tudo era muito bom" (Gênesis 1,31). A maldade vem
da pessoa humana, do seu interior (Marcos 7,21-22). A salvação desta maldade
vem de Deus como uma graça e não da observância de ritos vazios, de costumes,
de enclausuramento em recintos sagrados, vestes sagradas etc.
No entender dos
fariseus, a pureza se alcançava pela observância escrupulosa da Lei, a qual
expressava a vontade de Deus. A pureza, quando perdida, era recuperada pela
prática ritual externa, do larar as mãos, das sucessivas abluções etc. Essa
ritualidade legal acaba se sobrepondo à dimensão interior da relação com Deus.
Jesus não dá
importância à questão da pureza legal. A observância da pureza legal e
religiosa, como não "sentar-se à mesa sem lavar as mãos", reclamada
pelos fariseus e doutores da lei, discriminava e cegava para as realidades bem
mais importantes do que a discussão entre o impuro e o puro. Por isso mesmo,
Jesus não exigiu tal prática aos seus discípulos e continuou indo ao encontro
dos considerados "impuros" da sociedade e partilhando da mesa com
eles. Centrando a religião muito mais na pessoa humana do que na lei,
orienta-se nitidamente para um messianismo depurado e dando mais importância
aos gestos de fraternidade que às práticas rituais (Mateus 15,18-20).
Diante da inquietude
dos fariseus diante da não-observância da lei da pureza, Jesus censura a
hipocrisia dos seus seguidores e desmascara o legalismo deles. Engana-se quem
pensa que o que separa a pessoa de Deus vem de fora e que sua relação se
restabelece graças à pratica ritual exterior. A impureza vem de dentro, isto é,
do coração humano. Como também é do coração que brota o culto agradável a Deus.
Todo o homem é sagrado e toda criatura de Deus é boa em si mesma e pode ser
benéfica para o ser humano. Com isso Jesus destaca a dimensão positiva da
criação e do ser humano.
Por isso, o cristão
examina sua consciência, não para nela descobrir e analisar o bem e o mal, mas
antes de tudo para nela encontrar a Palavra de Deus e a pessoa de Jesus Cristo
vivendo nele e para ele (1Coríntios 4,3-4). A Eucaristia lembra-lhe a cada dia
a presença de Cristo nele e o desperta para suas exigências.
Da
Palavra celebrada ao cotidiano da vida
O enfoque da Palavra
de Deus deste domingo é muito atual. Chama a atenção para a novidade da vida
cristã. O que de verdade caracteriza a relação dos cristãos como Senhor? Uns
afirmam ser a observância rigorosa dos dez mandamentos e das normas da Igreja;
outros acrescentam a efetiva freqüência nas celebrações litúrgicas. Para
outros, ainda, o importante mesmo é a prática da caridade, da solidariedade
para com os sofredores.
A vida cristã
resulta da aliança entre a Palavra de Deus escutada, a prática coerente da vida
e a ação transformadora de tudo o que prejudica o testemunho de fé. O dinamismo
da vida cristã brota da conjunção da Lei e da Palavra. A Lei (na perspectiva
bíblica) se configura como Palavra de Deus - comunicação que atinge o ouvinte
em seu interior e em seu coração, gerando uma nova prática. Nessa perspectiva,
a Lei não é uma norma exterior à qual a pessoa se ajusta, mas sim uma realidade
de vida, uma força que age, transforma, desenvolve e abre ao novo a partir de
dentro, do seu interior.
Na vida cristã é
inconcebível a escuta descomprometida da Palavra de Deus. A Palavra de Deus
escutada é semente boa que cai em terreno fértil e produz abundantemente. Ela
ilumina a conduta das pessoas, imprime sentido e orientação nova vida das
pessoas. É Palavra morta aquele que, confinada ao âmbito do culto, se
cristaliza na prática religiosa e não chega às realidades do dia a dia da vida.
Podemos dizer que escutamos e entendemos a Palavra quando a traduzimos em ações
de caridade, em gestos de solidariedade e em comportamentos éticos de justiça.
Escutar a Palavra e ficar alienado do concreto da vida se converte em
formalismo vazio e ilusório. A Palavra que não gera um real compromisso é
Palavra que condena, em vez de fazer "sentir que Deus está próximo de
nós".
Outra questão, hoje,
se levanta: em que consiste a verdadeira religião ou a autêntica prática
religiosa? São Tiago afirma ser o "socorro dado aos órfãos e às viúvas em
aflição e manter-se livre da corrupção". Para os fariseus, resume-se na
observância escrupulosa dos preceitos da lei. Jesus garante-nos que a relação
com Deus passa, necessariamente, pela atenção ao próximo. Não são suficientes
boas práticas religiosas e litúrgicas; é preciso prolongar o serviço do templo
(o culto dado a Deus na igreja) à liturgia da solidariedade, da fraternidade,
da misericórdia, da justiça, da paz, de melhores condições de vida, celebrado
ao longo do caminho da vida.
Deus não se satisfaz
com uma prática religiosa de fachada ou com o culto de belas aparências. Para
Deus não interessam, de forma alguma, a pureza exterior, os formalismos, as
solenes celebrações feitas de inclinações e prostrações, com grande número de
coroinhas, lampadários, incenso... Deus despreza esse tipo de culto e abomina
os cristãos de "máscara": obedientes e piedosos no aspecto, mas
negligentes na verdadeira e única liturgia que lhe agrada: o amor ao próximo,
que vem de Deus mesmo e se resume na doação, na caridade, o mais sublime dos
dons (cf. 1 Coríntios 13,13). Uma bonita celebração só é válida quando ela se
concretiza no dia a dia da vida.
É preciso, assim,
distinguir dois momentos complementares, às vezes chamados de
liturgia-celebração (liturgia em sentido restrito) e liturgia-vida (liturgia em
sentido amplo, também chamada de liturgia da história). Somos chamados a fazer
de toda a nossa vida uma liturgia em sentido amplo, decorrente da liturgia
enquanto celebração do mistério cristão. Uma não existe sem a outra.
Jesus refere-se ao
coração como fonte das ações; como espaço onde amadurecem as convicções,
articulam-se as decisões fundamentais e definem-se as orientações da vida. Ele
alerta para uma impureza maior e muito mais prejudicial do que aquela da
não-observância de certos rituais: a impureza que brota do íntimo do coração
humano. O que evidencia se determinada ação ou atitude é boa ou má não é sua
conformidade ou não com a Lei, mas se ela promove ou não a vida humana.
Há também o perigo
da impureza que parte daquilo que deixamos de fazer, como: a caridade que não
praticamos, a justiça com a qual não nos importamos, o perdão que negamos ou
que não cultivamos, a solidariedade que não nos move a gestos concretos. Talvez
sejamos bons cristãos pela prática de preceitos, buscando uma vida tranqüila,
rotineira, sem grandes novidades, levando uma vida apagada, sem sonhos,
profecias, gratuidades, nem motivos para a solidariedade. Esquecemos com toda
facilidade que a vida é caminhada, missão e promoção humana.
Leis
para viver e possuir a terra
Em nosso país a
questão fundiária tanto no campo como na cidade ainda é uma questão muito séria
que temos que discutir muito. Por isso quero dedicar esse trecho a esta questão
social que está ai diante de nossos olhos e que muitas vezes preferimos
ignorar.
A primeira leitura
nos fala dos mandamentos como condição para viver bem e entrar na posse da
terra que Deus quer dar a seu povo. É possível que, ao ouvir este texto, seja
mais fácil pensar que viver bem e possuir a terra seja uma espécie de prêmio
que Deus dá a quem é obediente. Mas para que precisaria Deus da nossa
obediência? Seria Deus, parecido com certos políticos que distribuem favores
para seus cabos eleitorais, seus seguidores?
O texto da primeira
leitura deste domingo aponta em outra direção. Recomenda seguir as leis de Deus
porque elas são sábias. Leis sábias são as que têm como resultado um melhor
funcionamento da vida. É nisso que Deus está interessado. Ele que a criação
dando certo. O prêmio maior não vem de fora, vem do próprio jeito de viver
recomendado por Deus, que traz mais felicidade pra todos. Jesus diz que os
mansos possuirão a terra... (Mateus 5,4) e vemos os violentos fazendo guerra
para ter o domínio de mais terras, mais lucros, mais poder, e esquecem que
deste mundo não levamos nada. Mas vemos também que nenhuma guerra produz, nem
mesmo para os vencedores, um bem maior do que o que viria com a vivência da
paz.
A
Palavra se faz celebração
A força da Palavra
de Deus
As tradições
humanas, por mais enraizadas e cultivadas que o sejam, podem processualmente
ser abandonadas, conforme o surgimento de novas necessidades e realidades
históricas, culturas. Sem um exercício de discernimento, amparado pela oração e
escuta da Palavra de Deus que é "viva, eficaz e mais penetrante que
qualquer espada de dois gumes" (Hebreus 4,12), é difícil separar o
essencial do acessório, no campo da Liturgia, da Pastoral, da Espiritualidade e
da Moral.
Viver a religião não
é apenas crer numa doutrina, mas ser bom, generoso e compassivo, especialmente
com os humildes. E podemos afirmar: a palavra "amor" dispensa
adjetivos. Não existe "amor cristão". Amor é amor, em todas as
religiões e culturas. Dá mais trabalho amar de verdade que repetir ritos sem
vida. A impureza do outro não me contamina. Eu o torno "puro" quando
o amo com seus pecados e o "lavo" com gestos de acolhimento e
ternura, na esperança de que alguém também me purifique.
A lei maior é o amor
Muitos católicos,
ainda hoje, parecem ser mais preocupados com o cumprimento de certas normas
universais, impossíveis de ser levadas a sério em certas culturas ou situações
especiais. O que deve nos mover é o sentido interior das normas e leis e nossa
lei maior é o amor. Não podemos nos conformar em viver a superficialidade de
uma religião perdida em regras e prescrições. É necessário ampliar os
horizontes da fé. As tradições humanas sempre poderão ser mudadas. Só a Lei do
Deus da Aliança é imutável. A verdadeira religião consiste na prática serena e
eficaz da Palavra de Deus. Jesus Cristo sempre precisará desse tipo de
discípulo e missionário.
Ligando
a Palavra com a ação eucarística
A eucaristia,
memorial do sacrifício de Cristo na cruz, expressão máxima do amor e do culto
agradável a Deus, lança intensa luz sobre nossa convivência de cristãos no
mundo de hoje, sobre o compromisso cristão da solidariedade, em um mundo
marcado pela desigualdade social, pelas divisões, incompreensões e exclusões
sociais.
E Eucaristia não é
apenas expressão de comunhão na vida da Igreja; é também projeto de
solidariedade para a humanidade toda. A Igreja renova continuamente na
celebração eucarística, a sua consciência de ser "sinal e
instrumento" tanto da íntima união com Deus quanto da unidade de todo o
ser humano. O cristão que participa da Eucaristia aprende a fazer-se promotor
de comunhão, de paz, de solidariedade, em todos os momentos da vida.
Jesus reparte
conosco o pão de seu Corpo e do seu Sangue e nos pede que façamos o mesmo. Por
isso é essencial ao espírito da celebração eucarística o gesto de solidariedade
para com os pobres e esquecidos (cf. carta de Tiago). Entre nós, a exemplo da
tradição cristã, realiza-se a coleta de dons. Muitas comunidades socorrem os
pobres, os necessitados. Ou o "pão é repartido" ou não temos verdadeira
eucaristia. A partilha e a prática da solidariedade são conseqüência da
vivencia da eucaristia.
padre Benedito
Mazeti
1
– «Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem que ao entrar
nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do
interior do homem é que saem as más intenções: imoralidades, roubos,
assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e
são eles que o tornam impuro».
Jesus
é perentório: não são as circunstâncias que nos circundam que moralizam as
nossas ações, mas o nosso interior, as nossas escolhas. É célebre a expressão
de Ortega Y Gasset: somos nós e as nossas circunstâncias. Verdade
seja dita que tudo à nossa volta nos influencia, positiva e/ou negativamente. A
nossa disposição altera-se se está sol ou chuva., se dormimos bem ou mal, se alguém
nos chateou momentos antes, se o pequeno-almoço não nos caiu bem. Uma
infinidade de circunstâncias pode alterar o nosso humor e fazer precipitar
alguma atitude ou palavra. E ninguém se livra das circunstâncias.
Contudo,
as circunstâncias exteriores não fazem o carácter de uma pessoa. Somos mais que
as nossas circunstâncias. Por outro lado, as nossas limitações colocam-nos em
linha com as possibilidades de errar e/ou pecar. Por outro e como seres
racionais, somos responsáveis por controlar/humanizar o que dizemos e o que
fazemos. Um exemplo caricato: algumas pessoas bebem uns copos ou uns shots para
depois dizerem "umas verdades" ou fazerem "umas maldades".
Têm desculpa porque beberam?! Que não bebam!
2
– A questão levantada por alguns fariseus e alguns escribas (doutores da Lei)
não tem qualquer conotação moral, pelo menos para nós. À primeira vista não
passa de uma questão de higiene. Lavar as mãos antes de comer é uma
recomendação para todos. Os discípulos de Jesus devem ser exímios em tudo o que
os torne mais saudáveis e mais humanos.
Para
os judeus trata-se de uma tradição e de uma prática religiosa. Ao longo do
tempo, os 10 mandamentos deram lugar a uma "catrefada" de preceitos.
Quase tudo é revestido de preceito religioso. As leis habitualmente tem uma
punição associada. No judaísmo as leis tem uma leitura religiosa, como garantia
para ser cumpridas.
“Os
fariseus e os judeus em geral não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes
se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por
tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre".
As
questões legais sobre a pureza cultual escraviza as pessoas. As mulheres eram
as mais sacrificadas, pois todos os meses tinham dias em que eram consideradas
impuras e que não podiam conviver socialmente e muito menos aproximar-se do
Templo. Após o parto, a mulher tinha que ir ao Templo para se purificar. A sua
impureza cultural estende-se a todos os que com ela convivem diretamente. Faz
impressão hoje avaliar assim uma tradição. Não nos passa pela cabeça que um
acontecimento "natural" possa excluir, ainda que momentaneamente, as
pessoas do convívio social e muito menos da prática religiosa.
3
– Lavar ou não lavar as mãos antes das refeições?! É uma regra simples de
higiene e de saúde. Os discípulos comem sem lavar as mãos! Quando muito poderia
provocar algum retraimento ou asco daqueles que estavam à mesa com eles.
Percebe-se
bem que foi um pretexto, mais um, para alguns fariseus e escribas insinuarem
acerca da conduta de Jesus e dos seus discípulos. Mesmo que fosse apenas uma
questão higiénica, ao dizerem-Lhe que os discípulos não tinham esse cuidado,
estariam a dizer-Lhe que eram uns foras-da-lei, uns maltrapilhos desleixados,
que não faziam esforço para se integrarem na sociedade. E se são assim tão
descuidados e não convivem bem em sociedade, como se pode esperar alguma coisa
do Seu Mestre, que vê e nada diz, nada faz?
Se
pensarmos que só no séculos XIX é que alguns médicos começaram a lavar e a
recomendar lavar as mãos por ocasião dos partos, dá para perceber como os
judeus, também nesta questão, estavam muito à frente, sendo cuidadosos com a
saúde.
Acrescente-se
outra nota de reflexão: ao entrarmos nas nossas Igrejas fazemos a ablução com a
água benta. Partimos do dia-a-dia para evocar a nossa ligação à Deus,
reconhecendo a nossa indigência e acolhendo a misericórdia de Deus. Também os
judeus como os muçulmanos têm alguns gestos que acentuam o limite que os faz entrar
num espaço sagrado. As abluções são comuns a diferentes religiões, antes de
entrar no templo ou de ler os Escritos sagrados.
4
– «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem
sem lavar as mãos?» Jesus não se faz rogado e diz-lhes: «Bem
profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo
honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que
Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós
deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos
homens».
Em
diversas ocasiões, Jesus chamará à atenção para zelos que não convertem,
preceitos que não humanizam, leis que não aproximam e que já perderam o
sentido. Quantas vezes nos agarramos a tradições anquilosadas? Sempre foi
assim, assim será sempre! E o porquê desta ou daquela tradição? Seja na Igreja
ou na sociedade, um dos critérios para validar uma tradição é a bondade da
mesma, e se aproxima pessoas e as humaniza.
Na
parábola do Bom Samaritano (cf. Lc. 10, 25-37), Jesus coloca em causa a pureza
cultual que esquece a caridade. O sacerdote e o levita que veem aquele homem
meio-morto estendido na estrada e não o ajudam porque ficavam impuros ao
tocarem-lhe. Para eles o mais importante era a pureza cultual, mesmo
abandonando uma pessoa de carne e osso, lugar-tenente de Deus.
5
– A lei tem a preocupação de regular comportamentos, protegendo as pessoas da
lei do mais forte. A perspetiva será sempre proteger os mais frágeis.
Moisés
comunica ao Povo os preceitos de Deus, para que o povo viva como
povo: «Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer
e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o
Senhor, Deus de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem
suprimireis coisa alguma... eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência
aos olhos dos povos».
A
Lei tem um rosto e um fundamento. Moisés relembra que a Lei é sobretudo a
presença próxima e amistosa de Deus: «Qual é, na verdade, a grande nação
que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso
Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e
decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?».
A
justiça dos preceitos assenta precisamente na proximidade de Deus.
6
– A segunda leitura, de são Tiago, que ora iniciamos, vai mostrar-nos com
clareza a plenitude da Lei, o amor concretizado em obras, no compromisso com os
mais desprotegidos. A fundamentação é a aventada já anteriormente: Deus.
Diz-nos
o apóstolo: "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descem
do Pai das luzes… Foi Ele que nos gerou pela palavra da verdade… Sede
cumpridores da palavra e não apenas ouvintes… A religião pura e sem mancha, aos
olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas
tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo".
É Deus que nos gera
pela palavra da verdade. Mais importante que conhecer a palavra, em nós
plantada, é praticá-la. São Tiago dá exemplos concretos: visitar os órfãos e as
viúvas nas suas tripulações não se deixando arrastar pela corrente, qual
"maria vai com as outras". Naquele tempo, as viúvas e os órfãos
constituíam o grupo mais frágil, mais exposto, mais desfavorecido. Faziam parte
das periferias existenciais com as quais os cristãos têm de estar
comprometidos.
2 ª REFLEXÃO
1
– “Os olhos também comem”, dizemos quando falamos de um prato. A refeição pode
estar bem confecionada e saborosa, mas se a apresentação for descuidada pode
provocar um certo fastio. Certo. Por outro lado, se a apresentação for cuidada
acentuará o apetite. Quando provarmos verificaremos se a apresentação
corresponde ao sabor ou se, pelo contrário, “as aparências iludem”. Em última
análise, o ideal é que o conteúdo corresponda ao aspeto. Se não corresponder,
que preferíamos, que a apresentação da comida fosse boa e o sabor intragável,
ou que o sabor fosse agradável apesar do aspeto menos conseguido?
Feita
esta ambientação, fixemo-nos no Evangelho, de novo com são Marcos, no momento
em que Jesus responde a alguns fariseus e escribas:
«Bem
profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo
honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que
Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós
deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos
homens... Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O
que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior dos homens é que saem
os maus pensamentos: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças,
injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos
estes vícios saem lá de dentro e tornam o homem impuro».
Uma
leitura atenta permite-nos ver com clareza a prioridade de Jesus. As tradições,
os usos e costumes, só são verdadeiramente relevantes se promovem as pessoas e
se as implicam interiormente, colocando-as ao serviço dos outros. O que nos
salva ou condena é o que nasce e cresce no nosso interior, o que nos leva a
agir no bem ou no mal.
As
circunstâncias que nos rodeiam podem favorecer ou prejudicar as nossas opções,
mas somos sempre nós a responder pelas nossas atitudes e pelos nossos atos.
2
– Jesus envolve-nos no Seu projeto salvador, como convite e desafio, como
proposta, nunca como imposição. Deus chama-nos, conta connosco, mas respeita a
nossa liberdade e consequentemente as nossas escolhas. Como refletíamos no
domingo passado, é como os pais, que querem o melhor para nós, mas, se nos amam
verdadeiramente, respeitam as nossas escolhas fundamentais, mesmo quando sabem
que nos vamos magoar. Deus respeita a nossa decisão, mesmo quando nos desviamos
dos Seus mandamentos.
Não
cessa, porém, de nos apontar o CAMINHO, pelos profetas, pelos acontecimentos de
cada tempo, pelas pessoas que coloca à nossa beira, por Jesus, o CAMINHO, a
verdade e a vida. Podemos recusar, podemos distrair-nos, podemos seguir outros
atalhos, podemos titubear. Ele mantem-Se e o Seu projeto de vida também.
Na
primeira leitura, Moisés faz a proposta de Deus a todo o povo:
«Agora
escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em
prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus
de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis
coisa alguma, mas guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus, tal como eu
vo-los prescrevo... Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão
perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O
invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos
como esta lei que hoje vos apresento?»
É
uma lei justa e equilibrada. Ainda hoje os Mandamentos são uma referência
fundamental para os Direitos humanos, no reconhecimento da origem comum da
humanidade, na certeza que só o respeito por determinados valores, como o
direito à vida, à dignidade, ao bom nome, à verdade e à justiça, à alimentação
e à habitação, à saúde e à cultura, nos levam à construção de um mundo justo
onde todos tenham lugar.
3
– Com o tempo a Lei traduz-se em práticas, costumes e tradições, algumas das
quais se tornam obsoletas. Jesus vem para nos libertar de tudo o que escraviza.
Também de leis/tradições que passam a valer mais que as pessoas e a submetê-las
abusivamente em superstições, ameaças, diabolizações. O medo e a ameaça, o
desconhecido e as práticas mágicas, retiram às pessoas a capacidade de pensar e
decidir por si mesmas.
A Lei
de Moisés é levada à plenitude por Jesus Cristo, pela LEI da CARIDADE, pela
Graça de Deus que nos habita e que nos atrai para Ele. Se o cumprimento da lei
for apenas o cumprimento de uma tradição, sem influência na minha, na nossa,
vida, sem ligação ao mundo real e humano, torna-se vazia e despojada de
sentido. Se ainda assim é obrigatória e me é imposta, não pela sua justiça ou
utilidade e sentido, mas por forças que pretendem manter o estatuto, o poder e
o controlo, mais injusta e desnecessária se torna.
Daí
a insistência de Jesus na conversão interior, que leve ao compromisso com os
outros. A lei ajuda-me a clarificar o meu lugar no mundo e a minha relação com
os outros. Cada um de nós, contudo, vale mais. A lei é para nós. É para nos
aproximar. A mais perfeita das leis é o AMOR, lei inscrita desde sempre no
nosso coração.
“Ama
e faz o que quiseres”, como nos diz Santo Agostinho, cuja memória celebramos no
passado dia 28 de agosto, expressa a certeza que o amor nos liberta e nos
compromete positivamente com os demais. Hoje, na segunda leitura, o apóstolo
São Tiago mostra-nos como é possível viver na lógica do Deus de Jesus Cristo:
“A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em
visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do
contágio do mundo”. O amor a Deus vive-se e visualiza-se no amor ao próximo.
Quanto mais nos envolvemos com os outros, para neles encontrarmos Deus, mais a
nossa fé será uma verdadeira graça que nos devolve ao Pai.
padre Manuel Gonçalves
“Ó Deus de bondade,
vós nos reunistes para aprendermos que o essencial é ser fiéis aos
vossos mandamentos, cumprindo a vossa vontade. Dai-nos sabedoria, para
distinguirmos o que é mais importante para nossa vida de cristãos, e um coração
novo e generoso, incapaz de apegar-se à falsa segurança de um culto
vazio. Derramai sobre nós o vosso amor e estreitai os laços que nos unem
convosco e com os irmãos e irmãs. Por Cristo, nosso Senhor.” (Círculo bíblico)
Versículos de 1 a
4: “Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham se reunido
em torno dele. E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as
mãos impuras, isto é, sem as lavar. (Com efeito, os fariseus e todos os judeus,
apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as
mãos; e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há
muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os
jarros e os pratos de metal.)”
Não devemos ver a
ordem moral e ética somente como algo externo – O Beato João Paulo II disse que
a “tradição jurídico-religiosa da Antiga Aliança, formou-se um modo errôneo de
entender a pureza moral . Esta era muitas vezes entendida de modo
exclusivamente exterior e «material». O que é certo é que se difundiu uma
tendência explícita para tal interpretação. Cristo opõe-se a ela de modo
radical: nada torna o homem impuro, daquilo que vem do «exterior», nenhuma
imundície «material» torna o homem impuro no sentido moral, ou seja interior”.
A Palavra diz:
“lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos.
Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o
oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Pois bem, justifiquemo-nos,
diz o Senhor. Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a
neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! Se fordes
dóceis e obedientes, provareis os melhores frutos da terra…” (Is. 1,16-19)
Versículos de 5 a
8: “Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus
discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos
impuras? Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós,
hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu
coração está longe de mim. Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam
doutrinas e preceitos humanos (29,13). Deixando o mandamento de Deus, vos
apegais à tradição dos homens”.
É necessário
renunciar à impureza do coração para se obter a paz – fruto da obediência aos
mandamentos- O Beato João Paulo II disse: “Queridos Irmãos e Irmãs, sem a
renovação interior e sem o empenho de derrotar o mal e o pecado no coração, e
sobretudo sem o amor, o homem não conquistará a paz interior… A paz interior,
no coração do homem e na vida da sociedade, provém da ordem moral, da ordem
ética, do cumprimento dos mandamentos de Deus”.
“Deixando o
mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens” – O beato João Paulo II
disse: “Os Mandamentos são uma condição fundamental e indispensável para que o
homem possa realizar a vocação da sua vida: alcançar o fim pelo qual vive na
terra. Esta é a primeira e essencial resposta de Cristo, d’Aquele que “é luz e
salvação” do homem: “Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”.
O beato João Paulo
II explicou: “Nenhuma ablução, nem mesmo ritual, é capaz de originar a pureza
moral. Esta tem a sua fonte exclusiva no interior do homem: provém do coração”.
O papa Bento XVI
disse que “para poder tornar-nos puros, temos necessidade que em nós nasça a
nostalgia da vida pura, da verdade autêntica, do que não está contaminado pela
corrupção, de ser homens sem manchas”.
“Para o homem de
coração puro, tudo se transforma em mensagem divina”, disse são João da Cruz.
Versículos de
14 a 15: “Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: Ouvi-me todos, e
entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas
o que sai do homem, isso é que mancha o homem”.
O papa Bento XVI
disse que “a injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas;
tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa
conivência com o mal.”
O Espírito Santo é a
verdadeira água que purifica o coração humano - A Palavra diz:
“Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas
imundícies e de todas as vossas abominações. Dar-vos-ei um coração novo e em
vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e
dar-vos-ei um coração de carne. Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com
que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos” (Ez. 36,
25-27)
Versículos de 21 a
23: “Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus
pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças,
perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e
insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o
homem”.
A Palavra diz:
“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).
Viver a pureza aqui
na terra nos prepara para a visão de Deus no céu – O beato João Paulo II disse:
“A pureza do coração prepara para a visão de Deus face a face nas dimensões da
felicidade eterna. Acontece isto, porque já na vida temporal os puros de
coração são capazes de entrever em toda a criação o que é de Deus. São capazes,
num certo sentido, de revelar o valor divino, a dimensão divina, a beleza
divina de toda a criação”.
Conclusão
Concluímos com o
ensinamento do Catecismo da Igreja (1853): “A raiz do pecado está no coração do
homem, em sua livre vontade, segundo o ensinamento do Senhor: “Com efeito, é do
coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios, prostituições,
roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas as coisas que tomam o homem
impuro” (Mt 15,19-20). No coração reside também a caridade, princípio das obras
boas e puras, que o pecado fere”.
Jane Amábile
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