24 DOMINGO DO TEMPO COMUM
16 de Setembro
Evangelho – Mc 8,27-35
Quem é Ele? Quem é esse que até o mar e o vento
obedecem?
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“E VÓS, QUEM
DIZEIS QUE EU SOU?” Olivia Coutinho
24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 16 de Setembro de 2018
Evangelho de Mc8,27-35
Muitos de
nós, professamos a nossa fé em Jesus, mas não o conhecemos de fato, temos só o
conhecimento teórico.
O
Evangelho que a liturgia deste domingo nos convida a refletir chama a nossa
atenção, para algo fundamental na nossa vida: conhecer Jesus!Não tem como viver
a fé, sem conhecer Jesus, e não tem como
conhecê-Lo, sem nos tornarmos íntimos Dele! Sem uma intimidade profunda com
Jesus, ficamos na superficialidade da fé, sabendo quem é Ele teoricamente, e
não, pela a experiência com Ele!
No texto, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens ser
o Filho do Homem?” Jesus já sabia que muitos, mesmo sendo seus ouvintes, tinham
uma ideia equivocada a seu respeito, alguns o viam como um milagreiro, outros,
como alguém que fosse lhes oferece vida fácil... Os discípulos responderam:
“Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é
Jeremias ou algum dos profetas." Não satisfeito com o que o povo
pensava a seu respeito, demonstrando não conhecer o seu Messianismo,
Jesus vai mais além, faz essa mesma pergunta, à aqueles que conviviam
diretamente com Ele: os discípulos. “E vós, quem dizem que eu sou?” Esta
pergunta, silenciou os discípulos, pois desta vez, a resposta deles teria
que ser pessoal, e não, em nome do povo, o que é fácil, pois não compromete. Pedro
foi o único que respondeu, e respondeu com firmeza: “Tu és o Messias ”. Esta
resposta de Pedro agradou Jesus, pois Ele sabia, que esta sua afirmação,
era fruto da sua convivência com Ele.
Jesus proíbe severamente aos discípulos de revelar a sua
identidade, afinal, um povo que esperava por um Messias triunfalista com
poderes políticos, jamais aceitaria um Messias na condição de servo, alguém que
tivesse o olhar voltado para os pequenos! Jesus sabia, que Ele
não seria reconhecido como Filho de Deus, sem antes passar pela cruz.
Pedro reconhece Jesus como sendo o Filho de Deus, mas ele ainda
demonstrava não estar pronto para assumir o seu discipulado, pois ainda
caminhava na obscuridade, carregando consigo a mentalidade do mundo,
alimentando dentro de si, a ideia de um Messias glorioso, mas sem a cruz.
Jesus, que conhece o interior das pessoas, percebe de imediato a
dificuldade dos discípulos em aceitar o desafio da cruz. No desejo de fazê-los
compreender a importância de não fugir da cruz, Ele insiste em afirmar que
seria impossível segui-Lo, sem a cruz.
O seguimento a Jesus inclui à cruz, porque a nossa adesão a Ele,
nos levará a atitudes que contrariam os opositores do projeto de Deus.
Este episódio é um alerta para todos nós, que afirmamos conhecer
Jesus. Afirmar que conhece Jesus, é comprometedor, quem afirma
conhece-Lo, torna responsável pela a continuidade da sua missão.
Hoje, Jesus continua nos perguntando: “ E para você quem eu sou?
Saber quem é Jesus é muito mais do que saber que Ele é Deus! Saber quem é Jesus
implica em comprometimento com a sua causa, em dar continuidade a sua presença
aqui na terra, no cuidado com o que lhe é de mais precioso: a vida humana!
É pela fé que reconhecemos Jesus como o nosso Deus e Senhor, o que
não é fruto de nenhum esforço humano, e sim, do acolhimento ao dom da fé.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! –
Olívia Coutinho
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Anúncio da morte e
ressurreição de Cristo
Ao longo do ano, por várias vezes, os
cristãos são confrontados com o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus.
Aliás, acreditar na Ressurreição é o essencial da fé cristã. Mas não há
Ressurreição sem a Paixão e Morte. Jesus viveu o Mistério Pascal ao longo de
toda a sua vida. Como diz a carta aos Filipenses, “humilhou-se a si mesmo
tomando a forma de servo, obedecendo até à morte e a morte de cruz. Por isso
Deus O exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes” (Fil. 2,8-9).
O mistério de Jesus tem a sua síntese na sua Morte e Ressurreição. Esta
realidade essencial à Redenção foi anunciada por Isaías na alegoria do Servo de
Javé (1ª leitura). Quinhentos anos depois, Jesus, ao encarnar, vive o mistério
da incompreensão e da morte como fora anunciado pelo Servo de Javé. Com toda a
clareza Cristo o revela aos seus discípulos, embora estes o não entendam
(Evangelho). A liturgia deste domingo conclui-se com a Carta de S. Tiago que
afirma com toda a clareza que a fé sem obras é morta. As obras são a expressão
da Ressurreição que em todas as circunstâncias os cristãos provocam (2ª
leitura).
1. A alegoria do Servo de Javé
Muitas vezes e de muitos modos, ao
longo de todo o Antigo Testamento, se foi anunciando a chegada do Messias.
Durante o cativeiro da Babilônia, o Povo de Deus sentia mais a necessidade de
vir o Salvador. Chegou mesmo a pensar que o Messias era o imperador Ciro, rei
da Pérsia, uma vez que foi este que permitiu aos israelitas voltarem a
Jerusalém. A verdade do Messias é, porém, contada pelo profeta Isaías na
lindíssima alegoria do Servo de Javé. Ao ler-se este texto tem-se uma visão da
missão redentora do Messias. Tudo o que o profeta diz do Servo de Javé será
vivido por Jesus no seu sofrimento, na incompreensão dos seus concidadãos, e na
condenação à morte que irá sofrer. O novo Servo de Javé, Jesus Cristo, porém,
ressuscitará e, com Ele, tudo e todos vão ressuscitar.
2. “Quem dizem os homens que eu sou?”
(Mc. 8,27)
O caminho de Jesus com os discípulos
até Cesareia de Filipe coloca um problema fundamental. É o próprio Jesus que
quer saber o que pensam d’Ele os seus concidadãos. A resposta não se fez
esperar: “uns dizem que és João Baptista, outros Elias e outros ainda um
profeta.” Nestas três hipóteses aparecem imagens imperfeitas de Jesus. Jesus é
mais do que um essénio, um moralizador, como João Baptista; é mais do que um
homem cheio de poder, como Elias, arrastado ao céu num carro de fogo; é mais do
que um doutrinador falando ou não em nome de Deus como a grande maioria dos
profetas. Interrogado por Cristo, Pedro soube dizer, Tu és o Messias. Teve
então, Jesus a oportunidade de dizer que era um Messias diferente e ia sofrer a
morte, ressuscitando ao terceiro dia. Pedro não compreendeu, mas Jesus
pediu-lhe e aos discípulos que não falassem por agora, destas coisas a ninguém.
Só na intimidade do coração se compreende o mistério da Redenção operada por
Cristo com a sua Morte e a sua Ressurreição.
3. A fé sem obras é morta
Compreende-se a inserção deste texto
numa liturgia que fala claramente sobre a identidade de Jesus. Muitos cristãos
julgam-se seguidores de Cristo apenas porque O reconhecem pela fé, Filho de
Deus. É preciso compreender, porém, que a fé sem obras é morta, e que a
verdadeira ressurreição no tempo só acontece quando se fazem obras de boa
vontade, de partilha, e de solidariedade com os que mais precisam.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto
“Revista de
liturgia diária”
"Se alguém
quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga"
Domingo do Messias e Servo Sofredor.
Hoje Ele se revela a nós como o Messias Servo Sofredor. Celebrando a memória da
paixão e da ressurreição do Senhor em nossa caminhada, renovamos nossa
profissão de fé e acolhemos o convite à renúncia e ao seguimento radical do
Mestre nos caminhos que o conduzem à imolação e à revelação total como Messias
Servo e Sofredor.
Celebrando a memória da paixão e da
ressurreição do Senhor em nossa caminhada, renovamos nossa profissão de fé e
acolhemos o convite à renúncia e ao seguimento radical do Mestre nos caminhos
que o conduzem à imolação e à revelação total como Messias Servo Sofredor.
Primeira leitura -
Isaias 50,5-9ª
Este trecho da primeira leitura de hoje
está em consonância com o Evangelho desse domingo, em que Cristo, após a
profissão de fé de Pedro, revela que Ele terá que sofrer muito, ser rejeitado e
condenado à morte pelos chefes do povo.
O trecho de Isaias, proposto para a
leitura de hoje, é o terceiro dos conhecidos 4 poemas do Servo de Javé (Isaias
42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). E seu tema central é o sofrimento que o
Servo terá que suportar, não um sofrimento qualquer, mas um sofrimento
infligido por seus adversários.
O Servo mantém uma atitude constante e
dócil de escuta: "cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute
como discípulo". O versículo 5 insiste nesta atitude de escuta da mensagem
divina. Não reluta, nem foge como Jonas, mesmo diante das circunstâncias mais
duras e antipáticas de sua missão. O Servo aceita a vocação com a pesada carga
de ultrajes e sofrimentos, sem um movimento de revolta.
Nos versículos de 6 a 7 aparecem os
ultrajes a que é submetido o Servo: espancamentos, arrancamento da barba e
escarros no rosto. Eles exprimem sofrimentos físicos e profunda humilhação. A
barba, para os orientais, era o símbolo da dignidade social. Arrancá-la, além
de sofrimento físico, é um grande vexame. E escarrar no rosto constituía o
máximo da injúria (cf. Números 12,14; Jô. 30,10). O Servo não só não reage
violentamente, mas nem se quer desvia o rosto. Enfrenta as afrontas e ultrajes
com tranqüilidade e firmeza. Não se sente intimamente abalado ou desamparado
porque tem toda a sua confiança no Senhor, e tem certeza que Ele virá em seu
auxílio.
Nos versículos de 8 a 9, a esperança do
triunfo final é alimentada pela certeza da assistência divina. O Servo
está tão seguro desta proteção que pode desafiar seus adversários. O Servo tem
a absoluta certeza que o Senhor irá declará-lo inocente. Ninguém conseguirá
provar que o Servo é culpado. E por isso seus sofrimentos deverão encontrar
outra explicação. Esta aparece no quarto poema do Servo (Isaias 53,4-6.10).
O Canto encerra-se com uma nota de
triunfo. O Servo, protegido por Deus, ganha a causa. Seus adversários não só
não conseguem o seu plano contra o Servo, mas eles mesmos, é que são
condenados.
Assim, quando Cristo anuncia que vai
ter que sofrer muito, ser rejeitado e condenado à morte pelos chefes do povo,
está aplicando a si mesmo esta passagem do livro de Isaias.
Salmo responsorial
114/115,1-6.8-9
O Salmo 114/116 é um hino de ação de
graças. O Salmo começa com uma dedicação de amor a Deus: "Eu amo o Senhor,
porque ele me ouve...". É uma declaração espontânea e sincera de amor ao
Senhor que "ouviu a voz da súplica" (v. 1; cf. 2). "Morte "
e "angústia do além" (v. 3) tinham-se apresentado ao orante como
adversários fortes e vencedores, tendo por objetivo eliminá-lo. Agora que o
perigo foi ultrapassado (v. 8), torna-se espontâneo para ele louvar e dar
graças a Deus (vs. 5-6), "andando" à luz dos Seus preceitos (v. 9).
O Salmo é uma ação de graças a um Deus
que sempre liberta. O Salmista orante agradece a Deus, porque o livrou de todas
as desgraças: preso nas cordas da morte e nos laços do abismo, invadido pela
angústia e tristeza, chegou à beira da morte.
O rosto de Deus neste salmo é muito
interessante. "Todos os homens são mentirosos", mas em Deus pode-se
confiar, pois Ele escuta quando as pessoas o invocam (pode-se notar quanta
insistência se fala de Deus neste salmo. Por que pode se confiar Nele? Porque
ouve a voz suplicante (v. 2), inclina o ouvido (v. 2), salva (v. 6) e liberta
(v. 8). É o mesmo esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o
Deus deste salmo é o mesmo do êxodo e da Aliança. O salmista afirma que
"Deus é justo e clemente, o nosso Deus é compassivo. Deus protege os
simples" (vs. 5-6a).
Jesus libertou, perdoou e curou todos
os doentes que encontrou, vencendo até a própria morte. E por causa disso
muitos aprenderam a amar Javé e Jesus.
Na celebração deste domingo, cantemos
louvores ao Pai que em Jesus Cristo nos liberta da morte e dá vitória a todos
os que enfrentam as ameaças do mundo.
Andarei na presença de Deus, junto a Ele na terra
dos vivos.
Segunda leitura -
Tiago 2,14-18
O texto da liturgia de hoje aborda a
intenção central da carta de Tiago: o problema da relação entre fé e obras. A
fé sem as obras não conta, é morta, não salva ninguém (vs. 17 e 26). É como
árvore seca: não produz fruto. Já em 1,19-27 a apóstolo disse que não basta
escutar a Palavra sem praticá-la e, em 2,1-13, ficou estabelecido que não se
pode crer em Cristo e ao mesmo tempo discriminar pessoas.
Tiago não nega a fé, mas a supõe.
Contudo, sem as correspondentes obras, a fé não traz nenhum proveito no plano
da salvação, é ortodoxia teórica e convicção platônica. A fé teologal - adesão
total a Deus - por natureza tende as realizar-se. Um fiel que não vive de
acordo com a sua convicção, que não enquadra sua existência nos moldes do dom
divino, não combina com a pregação de Jesus: "Nem todo aquele que me diz:
Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Pai
que está nos céus" (Mateus 7,21). Inclusive, quem não pratica a sua fé, é
réu de castigo maior (Lucas 12,47).
Tiago ilustra sua doutrina com uma
parábola (vs. 15 a 16): o exemplo aduzido é chocante, desmascara o absurdo e a
vaidade de semelhante fé. A saudação de despedida e o conselho, na aparência
fraterna ("ide em paz... aquecei-vos... fartai-vos"), são hipócritas,
a negação do amor (2,8), o oposto da fé, uma mentira fraudulenta, porque,
embora se conheça a obrigação de quem crê e se a reconheça exteriormente, nada
é feito para colocá-la em prática. Diante disso, Tiago penetra no âmago da
questão, denunciando o egoísmo, a presunção, a hipocrisia face ao mandamento
por excelência.
Evangelho - Marcos
8,27-35
O Evangelho de Marcos é dividido em
duas partes. A primeira, no capítulo 8, versículo 30, tem como objetivo levar
ao reconhecimento de que Jesus é o Messias (cf. Marcos 1,1). A partir do
versículo 31, do capítulo 8, inicia-se a segunda parte que tem a finalidade de
explicar que tipo de Messias é Jesus.
Segundo Marcos, Jesus escolheu de
propósito este região pagã, romanizada para que os discípulos tomassem
consciência da sua missão messiânica, porque assim estavam longe do fanatismo
das multidões da Galiléia que identificavam o Messias como um revolucionário,
um libertador nacionalista e terreno. E pediu silêncio para evitar falsas
interpretações, porque os discípulos e menos ainda o povo compreendiam as
verdadeiras dimensões do messianismo de Jesus.
A imposição de um severo silêncio (v.
30) torna-se muito compreensível porque Jesus não podia revelar publicamente,
durante sua vida terrena e de maneira total, o mistério da sua identidade, antes
de ter demonstrado, por sua morte e ressurreição, o sentido real de todos os
seus títulos.
Após Jesus fazer o anúncio da sua
paixão, Pedro começou a repreendê-lo. Ele não compreende que a missão traz
consigo o sofrimento e a morte de Jesus. Pedro ainda está preso a um
messianismo terrestre e por isso recusará o primeiro ensinamento sobre o
Messias sofredor e advertirá mais uma vez Jesus, para que abandone o seu
caminho.
Diante dessa idéia errada de Pedro,
Jesus corrige a idéia de um falso messianismo. Ele volta-se para Pedro e lhe
disse: "Afasta-te, satanás, pois não sabes as coisas de Deus, mas as dos
homens" (v. 33). "Afasta-te satanás", Jesus estava vencendo mais
uma vez a tentação de um falso messianismo de sofrimento e de morte. Cristo
amadurecia conscientemente na sua idéia messiânica. Enquanto Pedro (satanás:
adversário), os discípulos e os homens (seus inimigos) se alinham contra o
plano salvador de Deus, Jesus escolheu seguir a vontade de Deus.
Jesus diz "se alguém me quer
seguir..." porque está dirigindo-se a pessoas livres e não obriga ninguém,
mas se alguém se decidir é para valer. Não convida só os discípulos, mas todos
para segui-lo.
Duas condições básicas, segundo Marcos,
são necessárias para o seguimento de Jesus: renunciar a si mesmo e tomar a
cruz. Portanto, renunciar quer dizer arriscar a própria vida por amor dos bens
escatológicos que já estão ao alcance das mãos. Tomar sua cruz aqui significa
arrepender-se e entregar-se totalmente a Deus; arriscar a própria vida na sua
Palavra; assumir os sofrimentos e as dificuldades da vida que terminam na
ressurreição; realizar, então, o plano de Deus, isto é, caminhar cada dia no
cumprimento dos próprios deveres buscando realizar o próprio ideal nos
acontecimentos; acompanhar o Cristo na caminhada da fé sem procurar desculpas e
justificativas. Este é o verdadeiro martírio, isto é, testemunha. Depois de
assumir tudo isso, o discípulo, então, segue o Mestre.
O versículo 35 explica e completa o
versículo anterior. Salvar a alma (tèn psychèn auto sósai) significa salvar a
vida, a própria pessoa (corresponde a néfesh: ser vivo, pessoa); portanto,
significa que há uma fase escatológica da existência humana que nenhum
sacrifício se torna excessivo para alcançá-la. Perder a vida por amor a Cristo
e por causa do Evangelho quer dizer em Marcos a presença e a identificação de
Cristo com a proclamação evangélica, a Boa-Nova da salvação messiânica.
Para testar o quanto o grupo dos
discípulos tinha assimilado e compreendido seus ensinamentos, sua pessoa e sua
missão, Jesus lança uma pergunta: "Quem dizem os homens que eu sou? Isto
é, o que pensam a meu respeito aqueles que não fazem parte do nosso
grupo?" A diversidade de pareceres reflete que a opinião pública, apesar
de perceber que Jesus é uma pessoa notável, não tem clareza sobre sua
identidade. Ele não é reconhecido como o Messias, Servo Sofredor. E Jesus
pergunta: "E vocês, quem dizem que eu sou?" em contraste com o que
falam os outros, Pedro, em seu nome e do grupo, responde: "Tu és o Messias".
Ele faz um ato de fé à messianidade de Jesus. Com esse ato de fé, Pedro corrige
as distorções a respeito de Jesus.
Todavia, é ainda uma profissão de fé
inicial, frágil e incipiente, embora autêntica, ponto de partida para o
seguimento de Jesus. A confissão plena de fé, o reconhecimento total da
identidade de Jesus, só acontecerá depois da ressurreição. Para evitar
mal-entendidos, Jesus proíbe severamente que falem em público de sua identidade
como Messias.
A palavra se faz
celebração
Ícone do Mistério Pascal
Embora a imagem da cruz recorde algo
como sofrimento e morte, seu uso na tradição cristã não se limita a estes
aspectos, embora os englobe e transfigure. Na verdade, a compreensão mais
antiga da cruz não tem a ver primeiramente com estes significados, mas com a
idéia de encontro entre o céu e a terra (divino e humano), tempo e espaço que
se cruzam, e outras realidades mais. Hoje, a cruz traz presente a totalidade do
Mistério Pascal de Jesus, que obviamente não consta só de sofrimento e morte.
É, portanto, anúncio da resposta de Jesus à pergunta sobre sua identidade
messiânica: o Filho do Homem deve sofrer, morrer e ressuscitar (cf. evangelho).
Neste sentido e seguimento a lógica do
evangelho deste domingo, a cruz revela o pensamento de Deus acerca do cosmo e
da história humana. Por isso é motivo de nos gloriarmos somente nela, conforme
canta o versículo da (aclamação ao evangelho deste domingo) e de enxergar o
mundo nela pregado.
A resposta da cruz
Então, conforme o costume antigo no que
diz respeito às primeiras imagens de Cristo, o que se "informa" com a
cruz é o significado da palavra, ação e pessoa de Jesus. Não é um retrato
cruento de seu sofrimento e morte, mas de sua oblação vitoriosa. Por isso as
primeiras cruzes de que temos notícias usadas no culto cristão traziam o Cristo
glorioso, com vestes sacerdotais e coroado, como é assim entre os orientais até
hoje. Por sua vez, retrata a profissão de fé da Igreja, que Pedro no Evangelho
deste domingo parece desconhecer. A cruz, portanto, recorda a identidade de
Jesus, que o Evangelho evidencia. Quando nos perguntarem quem é Jesus,
respondamos com a cruz.
Da palavra celebrada
ao cotidiano da vida
A Palavra de Deus, hoje dirigida a nós,
coloca-nos diante de uma opção: seguir a lógica da Cruz, do Messias Servo
Sofredor, ou a lógica do messias segundo os critérios humanos. O discernimento
entre a lógica da cruz (do Servo Sofredor) e da cultura dominante nem sempre é
fácil, especialmente num ambiente de grande esperança nacionalista: um ungido
virá para restabelecer o reinado definitivo do Deus de Israel, derrotando os
agressores, isto é, os romanos. Seria um Messias que resgatasse a dinastia de
Davi e libertasse Israel do Império Romano.
Jesus quer abrir os olhos e iluminar a
estrada do seguimento. A profissão de fé de Pedro e a anúncio da cruz e dos
critérios para o seguimento radical são abertos pela cura de um cego anônimo,
fora do povoado (8,22-26). Cegos eram os discípulos que "tinham olhos e
não enxergavam". Jesus os leva para o povoado de Cesaréia de Filipe para
ajudá-los a enxergar. Assim como o cego anônimo que tem visão distorcida,
Pedro, confessando que Jesus era o Messias, o Ungido (Cristo), é como o homem
de visão deficiente. Reconhece em Jesus o Messias, mas um Messias sem a cruz.
Pedro não aceita a cruz e repreende Jesus (8,32). Jesus reage e chama Pedro de
satanás (aquele que devia do caminho de Deus, opositor) (8,33). Como Pedro,
muita gente não queria a cruz, ou melhor, como os discípulos, não entendiam e
temiam a cruz.
Diante da fé autentica, porém frágil e
incipiente dos discípulos, Jesus não rompe com eles nem desiste de iniciá-los
no mistério do Servo Sofredor. Começa a falar abertamente sobre a cruz e sobre
a identidade e o futuro do Messias. Lembrando Isaias (primeira leitura), Ele
diz que vai ser submetido a duras provas por seus adversários, até a morte, mas
depois de três dias vencerá, isto é, ressuscitará (8,31).
Ao mesmo tempo em que critica a
incompreensão (cegueira) dos discípulos, Jesus corrige e aponta as atitudes de
quem deseja segui-lo de forma radical: negar a si mesmo, carregar a cruz,
perder a vida por causa de Jesus e do Evangelho e não envergonhar-se Dele e de
sua Palavra. É a partir da cruz que se pode entender e reconhecer:
"Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus" (Marcos 15,39).
Jesus proíbe severamente que eles
falassem a alguém a respeito dele (8,30). Qual seria o motiva da ordem do
silêncio? O povo não tinha condições de aceitar um condenado à cruz como o
Messias, pois havia assimilado a imagem distorcida do Messias glorioso: rei,
doutor, juiz, sacerdote. Ninguém lembrava do Messias Servidor e Sofredor
anunciado pelo profeta Isaias. Uma realidade só compreensível por quem
decidisse caminhar com Jesus na mesma estrada do compromisso com os pequenos
tendo em vista a realização do Reino. Só esses seriam capazes de aceitar o
Crucificado como o Messias. Só a convivência e a prática poderiam abrir o
entendimento da mensagem sobre a cruz .
Para andar na estrada com Jesus em
direção a Jerusalém, o seguidor (a) terá de confessar sua fé, fazendo-a
frutificar em ações. A fé é um dom precioso, a base da salvação, o dom da vida
nova e a garantia da vida eterna. Entretanto, esse dom, essa vida nova se
expressa e se sustenta pela prática das obras, por excelência, de amor, de
justiça, de fraternidade, de caridade e de paz. São essas obras que tornam
visível e acreditável a profissão de fé e, por isso, atestam a autenticidade do
seguimento de Jesus Cristo.
A fé traduzida em obras de
solidariedade também se insere na lógica da cruz. Sua realização não deve
servir como suporte para as ambições pessoais, para a afirmação própria ou de
um grupo, para impor-se perante os outros. As obras da fé requerem a renúncia
de si mesmo, a negação de toda vontade de poder, de êxito e de publicidade. As
obras da fé devem adotar meios pobres, modestos, sóbrios, não excessivamente
vistosos, caracterizando-se pela simplicidade evangélica. A fé desemboca
necessariamente na prática das obras de caridade, as quais se alimentam da fé professada
e celebrada.
Na celebração, esta palavra é dirigida
à comunidade reunida. A fé dos discípulos e de Pedro é a nossa fé inicial,
fraca, mas destinada a crescer pela força da Páscoa do Senhor. Temos sempre de
vencer a tentação do sucesso, do triunfo a qualquer preço. E podemos aprender a
viver de um jeito mais pascal os sofrimentos que se impõem sobre nós. Podemos
crescer em nossos fracassos e crises.
Ligando a palavra com
a ação eucarística
Celebrando a memória de seu sofrimento,
morte e ressurreição, Jesus nos associa à sua cruz redentora, apesar de nossas
cegueiras e fragilidades na prática das obras da fé. Hoje torna-se cada vez
mais pesada a cruz do testemunho autentico de fé e do seguimento. Em muitos
ambientes sociais, é pesada a cruz da identidade da fé católica; a cruz dos
conflitos familiares; a cruz das intrigas entre lideranças; a cruz da incerteza
e da carência de dignas condições de vida; a cruz da fome, do desemprego, da
falta de saúde, da exclusão.
Na ceia eucarística, tomamos parte na ceia
do Cordeiro que, morrendo, destruiu a morte e, ressurgindo, deu a vida nova a
todos. Jesus, Cordeiro conduzido ao matadouro, é o Messias não-violento. A
assembléia que se reúne para celebrar a eucaristia é, ela mesma, a reunião do
povo que por força da fé se empenha nas causas da não-violência e da concórdia
entre as pessoas. É o povo que o Cristo resgatou quando, por sua morte,
destruiu o muro que separava o povo pagão e o povo judeu e estabeleceu a
concórdia (cf. Efésios 2,14-18).
Participar da mesa do Senhor, comer o
pão e beber o cálice, Corpo e Sangue do Senhor, entregue por nós, é participar
do seu destino: do sofrimento, da morte na cruz e da glória da ressurreição.
"O cálice de bênção pelo qual damos graças é a comunhão no Sangue de
Cristo; e o pão que partimos é a comunhão no Corpo do Senhor" (Antífona de
comunhão).
São João Crisóstomo lembra aos fiéis de
Antioquia a unidade misteriosa existente entre a eucaristia celebrada e a
eucaristia vivida, e recomendada. "Não deixem o altar da eucaristia a não
ser para ir ao altar dos pobres. Pois o mesmo corpo de Cristo que servimos no
memorial de sua paixão e de sua ressurreição é o que temos agora de servir na
pessoa dos pobres. O altar é também o símbolo da mesa do festim, da
hospitalidade divina para o qual todos os homens são convidados. Enquanto na
eucaristia tudo recebemos ao comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, no altar
dos pobres temos de corresponder, de dividir o dom recebido, temos de fazer a
doação de nós mesmos" (cf. Corbon, J. Liturgia da fonte. São Paulo,
Paulinas, 1992.pg. 187).
padre Benedito
Mazeti
O Cristo dos desiludidos!
Com certeza esse
evangelho do 24º domingo do tempo comum, traz em nosso coração essa pergunta
tão inquietante: O que significa perder a vida por causa de Jesus e do seu
evangelho? Quem é Jesus, e o que significa a afirmativa de que é preciso
“Perder para ganhar”?
Nos primeiros três
séculos da Igreja primitiva, quando o cristianismo não estava atrelado ao
Império, tivemos centenas de mártires que derramaram seu sangue na arena, por
causa do testemunho. Nas comunidades de Marcos a perseguição do império romano
era muito intensa e os que eram pegos e não renunciavam a fé em Jesus, eram
presos e acabavam também mortos. Na América Latina não foram poucos os
mártires, que tombaram defendendo o direito e a justiça do povo sofrido e
injustiçado.
Será que é deles que
o evangelho está falando, no sentido literal? Será que não podemos aplicar hoje
ás pessoas de nossas comunidades essa expressão, de que elas também perdem a
vida por causa de Cristo e do seu evangelho? Em certo sentido, é muito válido
dizer que nossos agentes de pastorais, perdem a vida, quando se dedicam a
tantos trabalhos estafantes, muitos até nem vivem mais para si mesmo, mas
organizam suas vidas a partir da comunidade, e fazem isso com muita alegria e
seriedade. Deixar de lado os interesses pessoais, para dedicar-se ao trabalho
pastoral, sem dúvida é também perder a vida.
Entretanto, não é
apenas isso, porque muitas vezes recebemos algo em troca, e nesse caso, se
ganhamos e não estamos perdendo, o evangelho não se aplica, ainda que haja uma
roupagem de trabalho pastoral, mas é só roupagem, pois no fundo a gente se
apega ao cargo, ao poder, que sempre nos fascina, nas comunidades há certos
coordenadores que “mandam” até mais que o padre, e o poder satisfaz ao nosso
“ego”.
Jesus havia se dado
conta de que a visão sobre o seu Messianismo, era equivocada. Com o objetivo de
fazer a necessária correção, fez uma prova oral com seus discípulos, primeiro
eles são indagados sobre o que o povão pensa a respeito dele, e ao saber que o
povo o confundia com João Batista, Elias ou um dos profetas, parece que Jesus
não demonstrou nenhuma preocupação, e foi direto ao assunto que mais lhe
interessava: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. A resposta de Pedro foi
corretíssima “Tu és o Messias!”. A questão é saber, de que Messias Pedro estava
falando. Por isso, em seguida, Jesus revela o sentido do seu messianismo, que
irá se consolidar no sofrimento, na rejeição, na morte e ressurreição.
Na visão de Pedro, no
Messianismo de Jesus tudo vai dar certo e as coisas vão se resolver, as contas
irão fechar, pois Jesus irá por ordem na casa, com o seu poder divino. Ninguém
irá resisti-lo... Não é essa a ilusão que toma conta do coração de muitos
cristãos em nossas comunidades? O Jesus do “tudo certo”, do “mar de rosas”, da
“doce paz, da saúde, da prosperidade”, o Jesus da reviravolta, que só me dá
vitória em cima de vitória, o Jesus que sempre me tira dos “enroscos” da vida.
Esse não é o Jesus do Evangelho, mas o Cristo dos desiludidos!
Encontrar sempre
respostas prontas, caminhos largos, problemas resolvidos, portas abertas, nunca
foi e nem será uma característica do cristianismo. Anunciar um Jesus assim é
trair o projeto de Deus, é falsificar o evangelho, é ser Satanás, aquele que se
opõe ao Reino do Céu. Infelizmente na pós-modernidade, muitas igrejas, sem
raiz, sem história e nem tradição, idealizaram um Jesus produto do consumo, um
Cristo que só abençoa os ricos e poderosos. Nessa teologia de fundo de quintal,
os dois últimos versículos do evangelho desse domingo, são deixados de lado,
pois não falam a linguagem da pós modernidade. Quem irá, nos dias de hoje,
fazer marketing de um projeto que implique renúncia, cruz e sofrimento? Um
projeto cuja proposta de Salvação seja pautada pelo desprezo á própria vida,
deixando de lado até interesses particulares.
Proposta de Salvação
que não fale em vitória, em sucesso, em prosperidade, não dá IBOPE, não lota
templo, não dá audiência. Qualquer marqueteiro da atualidade teria a mesma
reação de Pedro e repreenderia Jesus... Onde já se viu, começar um projeto
prenunciando o fracasso da cruz?
O Messianismo de
Jesus vislumbra sim, um mundo totalmente novo, mas ele não descarta a aspereza
do caminho, as pedras do calvário, os penhascos, os espinhos, a ousadia de um
sonho, que vai se construindo com os pés no chão da história, vivendo já no
coração os valores desse reino que virá. O autêntico discípulo é aquele que,
vislumbrando esse reino, descobre-o presente em Jesus que caminha com a sua
igreja, e passa a viver cada minuto, hora e dia, apenas em função desse
projeto, menosprezando todo e qualquer valor ou ideologia, que o mundo possa
oferecer, porque crê sinceramente que nada é maior ou mais importante do que
Cristo e a Boa Nova do Evangelho. É exatamente assim que o quadro se reverte, e
a perda se transforma em ganho, como ensina o evangelho...
diácono José da Cruz
1 – "O que tu és
fala tão alto que mal consigo ouvir o que tu dizes". É uma frase que
escutei, em "Técnicas de comunicação", há uma dúzia de anos e
pertencerá a Ralph Waldo Emerson. Imediatamente nos diz que somos mais do que
aquilo que dizemos. Por vezes não precisamos de falar para que as nossas
atitudes, postura, os nossos gestos digam, falem, gritem por nós! Positiva e
negativamente. Podemos dizer uma coisa com os lábios e com a expressividade do
corpo dizer outra diferente. As palavras são importantes, aproximam-nos,
humanizam-nos, aprofundam os laços que nos unem. Todavia, as palavras podem
atraiçoar o que queremos comunicar ou, desde logo, o que somos. Uma pessoa pode
dizer um disparate e isso não definir a pessoa, ela é o que diz, mas é muito
mais do que as palavras que profere, é o que é também pelas palavras que não
diz, pelos silêncios, pelos gestos que faz!
A segunda leitura, da
Epístola de São Tiago, lembra-nos precisamente como expressar, como dizer, como
transparecer, como testemunhar Jesus, como tornar visível a fé professada, como
mostrar a nossa ligação ao Deus de Jesus Cristo. A fé é o ponto de partida. É
pela fé que Deus vem até nós, é a fé que nos permite ver Deus em Jesus e ver
Deus no nosso semelhante. Mas não é uma fé (somente) minha, exclusiva,
intimista, de trazer por casa, feita à minha medida, mas a fé em Jesus, a fé de
Jesus, vivida em comunidade. Quando alguém diz "eu cá tenho a minha
fé", das duas uma, ou está a desculpar-se por andar arredado da vida
comunitária, ou não faz a mínima ideia do que significa ser cristão (talvez
possa ser crente, mas crente todos somos e cremos em tantas coisas que nem ao
diabo lembra!).
A fé é acolhimento
pessoal, encontro com Jesus, morto e ressuscitado, mas vive-se na relação
concreta com o outro, na comunidade e na caridade. São muito significativas a
palavras do apóstolo: “De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem
obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem
que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide
em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo,
de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está
completamente morta”.
Tiago clarifica bem a
fé cristã. Se O seguimos, se O amamos, se acreditamos n'Ele, então imitemo-l'O,
na opção preferencial pelos mais pobres. "Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e
eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te
mostrarei a minha fé".
2 – São Tiago
ajuda-nos a responder à pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Agora é Pedro que responde, inspirado pelo Pai, em seu e nosso nome: «Tu és o
Messias».
Estamos ainda numa
fase muito precoce do discipulado. Depois desta confissão de fé vamos perceber
que os discípulos ainda não perceberam o que significa seguir Jesus. As
disputas entre eles far-se-ão notar, mesmo que em surdina. Hão de ouvir Jesus a
dizer-lhes que quem quiser ser o primeiro será o último e o servo de todos.
Regressemos ao
Evangelho. Jesus segue com os Seus discípulos para as povoações de Cesareia de
Filipe. São Marcos dá-nos conta da missão evangelizadora de Jesus, mostrando-O
em movimento, por aldeias e cidades, na Judeia e na Galileia, e em outras
terras mais distante, algumas fora da "fronteira" religiosa do
judaísmo. O caminho, para Jesus, não é apenas um meio de passagem de uma a
outra povoação, é também lugar de encontro, de diálogo e de ensino. Ele caminha
connosco, vem ao nosso encontro onde quer que nos encontremos para se tornar Ele
mesmo o Caminho que nos conduz ao Pai.
Há ocasiões em que
Jesus os deixa os discípulos falar sozinhos ou murmurar e só em casa lhes
responde ou os repreende ou lhes explica alguma parábola. Hoje é durante o
caminho que Jesus lhes pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». E a
resposta é imediata: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos
profetas». Quer a pergunta quer a resposta não nos implicam, pois apontam para
o que os outros dizem e pensam. É uma sondagem sobre a opinião pública. Mas logo
Jesus lhes arremessa com outra pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
3 – Esta questão é
mais pessoal. Cabe a cada um responder a Jesus. Não esqueçamos que a fé tem
sempre duas dimensões, a pessoal e a comunitária. Não é uma fé abstrata, da
multidão, é uma fé que resulta de um encontro, cada um de nós com Jesus, e que
implica a conversão ao Seu evangelho. Obviamente, se professamos a fé em Jesus
Cristo, pessoalmente, seremos impelidos para a comunidade, para junto daqueles
que professam a mesma fé, adoram o mesmo Pai, se alimentam do mesmo Espírito!
Pedro toma a
dianteira e responde firme: Tu és o Messias. Partindo daqui, Jesus clarifica as
coordenadas da Sua missão e as consequências decorrentes das Suas opções,
dizendo-lhes que se aproximam tempos conturbados em que o Filho do Homem, o
Messias, vai sofrer muito, vai ser rejeitado pelas autoridades (religiosas) e
vai ser morto. E, três dias depois, ressuscitará. Depois de notícias
preocupantes, já não sobra espaço no nosso coração para escutarmos o que há de
positivo!
Perante a clareza com
que Jesus fala na Sua morte, Pedro volta a intervir, já não diante dos outros
apóstolos, mas à parte, repreendendo-O por dizer tais coisas. É a vez de Jesus
o confrontar com os seus interesses: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes
as coisas de Deus, mas só as dos homens».
Para Pedro era
inconcebível que o Messias, o Filho de Deus, pudesse sofrer às mãos dos homens.
De repente, parece que os seus planos começam a ficar estragados e as
expetativas colocados no Mestre parecem não fazer sentido. Contudo, é preciso,
ainda assim, remediar a situação e evitar que Jesus diga aquelas coisas, pois
isso vai afastar a multidão. É o medo de Pedro, e o nosso também, mas não a
postura de Jesus, o Mestre da Sensibilidade.
4 – Seguimos Jesus
porque nos deixamos encontrar por Ele e a Ele nos convertemos de todo o
coração, sabendo que a nossa vida não fica mais facilitada por isso, quando
muito a nossa vida fica absorvida na d’Ele, até à eternidade. Se O seguimos,
sujeitamo-nos ao que Ele Se sujeitou, a ser injuriado, preso, maltratado e até
morto.
Vale para os
discípulos presentes e futuros. No diálogo anterior Jesus voltou-Se sobretudo
para os discípulos, agora dirige-se a todos, à multidão com os seus discípulos
dentro: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e
siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder
a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».
Pontos nos “is”, tudo
em pratos limpos. O seguimento exige tudo de nós, a nossa vida por inteiro, com
as suas dificuldades, contratempos, sonhos e projetos, conquistas e fracassos.
É pegar na nossa cruz, na certeza que o que se ganha é o que se investe no
cuidado e no serviço aos outros, gastando-se totalmente, como faz Jesus, até ao
último fôlego, até ao último suspiro. Agora entende-se melhor a pergunta feita
por Jesus a cada um de nós. Sabendo o que nos espera se O seguirmos, até que
ponto estamos dispostos a testemuhá-l’O e a transparecê-l’O na nossa vida?
Pedro professa a fé em Jesus, o Cristo! Tiago revela que a fé se diz (também)
com a vida, com as obras. Melhor, a fé que nos une a Jesus Cristo, e em Jesus
ao Pai, pelo Espírito Santo, é a mesma fé que nos irmana e nos compromete com
todos.
Nem sempre será como
desejaríamos. Vale para todos. Nesses momentos façamos também como Jesus,
procuremos a sabedoria e a ousadia na oração. «Deus, Criador e Senhor de todas
as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos
do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração» (coleta).
5 – O profeta Isaías
antecipa o mistério da entrega do Messias que está para vir! Palavras que, a
posteriori, encaixam em Jesus: «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não
resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a
face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me
insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não
fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra e sei que não ficarei
desiludido. O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?»
Este é um texto lido
na proximidade da Páscoa, precisamente por apontar Jesus como o Servo sofredor,
o Cordeiro inocente levado ao matadouro, explicitando os contornos da Sua oferenda
pascal. Por um lado, a fidelidade ao projeto de amor, apesar da violência com
que é tratado e, por outro, a certeza que Deus virá em Seu auxílio também em
momentos de extremo sofrimento. O salmo permite a mesma leitura: «Apertaram-me
os laços da morte, caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na
dor. Então invoquei o Senhor: ‘Senhor, salvai a minha alma’. O Senhor guarda os
simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me».
Hoje cabe-nos, a cada
um, enfrentando os seus medos e contratempos, falar de Jesus, dizer Jesus em
palavras e obras, anunciar Jesus a todos os que encontrarmos na nossa vida, com
audácia, alegria e generosidade.
1 – A epístola de São
Tiago, segunda leitura, lavra a ligação íntima e fundamental entre a fé e a
vida. O apóstolo exemplifica com situações concretas, reais e exequíveis.
A religião e a fé em
Cristo Jesus compromete-nos com as pessoas que vivem à nossa beira. Assim, o
serviço aos mais desfavorecidos (aos órfãos e às viúvas) é inevitável na
vivência autêntica da fé, assim como a “não acessão” de pessoas. Hoje, o
apóstolo remete para mais uma situação classificadora. Vale a pena ler
atentamente:
“De que serve a
alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação?
Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada
dia, e um de vós lhe disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem
lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras?
Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens
a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras,
te mostrarei a minha fé”.
A fé autêntica, a que
recebemos de Jesus Cristo, conduz-nos aos outros. Todos somos irmãos. Somos
todos filhos de Deus. Quando mais estivermos vinculados a Deus, na oração, na
escuta e reflexão da palavra de Deus, tanto mais estaremos ligados e
comprometidos com aqueles que Deus colocou na nossa vida, para os servirmos
como irmãos, para os acolhermos como presença de Deus.
2 – Tudo começa
n'Ele. A nossa vida. A nossa fé. A nossa conversão. Em Jesus Cristo, Deus vem
ao nosso encontro, entra na nossa história, abre-nos as portas do Céu,
reconcilia-nos com Ele, com os outros, com o mundo. Jesus clarifica o CAMINHO
para Deus, precisamente com o serviço caritativo aos outros. Não vamos sós. Não
estamos sós. Não nos salvamos sozinhos. Ele precede-nos. Dá o exemplo. Vive
conosco no meio de nós. Atrai-nos com as palavras e com o pão, com a voz e com
a Sua vida feita oração ao Pai e oferenda à humanidade.
Não há compromisso
social puro, autêntico, libertador, se antes não se der um encontro
transformador com Jesus Cristo. A fé é DOM recebido, acolhido e aprofundado na
partilha. A fé há de levar-nos a imitá-l'O, pelo que nos compromete nas obras,
como expressão, visualização, e comprovação da nossa adesão firme a Jesus e ao
Seu Evangelho de caridade.
Tudo se inicia em
Jesus. Ele desce de Deus e traz-nos Deus. Mas não Se impõe. Cabe-nos acolher a
nossa vocação, o Seu chamamento. Cabe-nos escolher o caminho que nos guia ao
CAMINHO. Cabe-nos, livremente, aceitar a salvação que Ele nos dá, deixarmos que
a nossa vida se transforme por inteiro, interior e exteriormente, e sermos
portadores desta boa notícia em nós, pelas palavras, pela profissão de fé, pela
vida, pelas obras que resultam da nossa conversão a Jesus e do amor que nos
habita, pelo Seu Santo Espírito.
3 – É nesta lógica
que Jesus exige de nós uma clara decisão. Não Se impõe mas propõe um caminho.
Confronta-nos com a nossa escolha. Ainda que sejamos peregrinos, em conversão
permanente, somos impelidos a responder por nós e com a nossa vida.
Pergunta-nos Jesus,
como o fez aos discípulos daquele tempo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Não basta a opinião
dos outros. Não vale responder com o que ouvimos dizer, ou com a opinião
corrente. Jesus pergunta-lhes e pergunta-nos: «Quem dizem os homens que Eu sou?»
As respostas podem ser variadas: João Baptista; Elias; um dos profetas…
Mas chega um momento
em que se tornam insuficientes as respostas dos outros, precisamos de responder
por nós. Quem é Jesus para mim? Que importância tem na minha vida? De que forma
influencia as minhas escolhas na minha relação com os outros, com o mundo e
comigo mesmo? Toca a minha alma? Mobiliza-me para a comunhão e para a
comunidade? Posso dizer com Pedro: «Tu és o Messias», o enviado de Deus? És
Deus para mim? És a minha salvação, a minha vida, o meu conforto e o meu
descanso? És a minha bússola, o meu norte?
É a nós que Jesus
interroga – E vós quem dizeis que Eu sou? –. Que resposta dar? Não assobiemos
para o lado como se não fosse nada conosco. É conosco que Jesus está a falar.
“Deixai fazer, deixai ir, deixar passar” (laissez faire, laissez aller, laissez
passer), pode valer para a economia de mercado, na não (ou na pouca)
intervenção do Estado, e que pelos vistos não está a ter grande sucesso, mas
definitivamente não vale na economia da Salvação. Deus age, vem, coloca-Se à
nossa disposição e pede-nos uma resposta ao Seu projeto de salvação, conta
conosco.
4 – Jesus conta
conosco mas não contemos com a vida facilitada. Aliás, sublinhe-se desde logo,
quem segue um caminho de honestidade e de trabalho cedo descobrirá escolhos e
inimigos. Não se pode agradar a toda a gente. «Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar
a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á».
Jesus anuncia tempos
conturbados: o Filho do homem terá sofrer muito, será rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos-sacerdotes e pelos escribas; será morto e ressuscitará três dias
depois. O sucesso da Sua missão não se vê claramente. Com clareza vê-se que o
prosseguimento da Sua missão, do Seu amor, O levará muito rapidamente à morte.
A contestação de
Pedro é expressiva. Depois da sua confissão de fé, não entende que o desfecho
não seja de todo positivo e atraente. É o fim das expectativas dos discípulos.
E eles que pensavam que o reino de Deus seria imposto sem baixas e sem
sofrimento, sem custo e sem esforço! E afinal vai custar pelo menos a vida do
Mestre.
E para que não restem
dúvidas, as palavras de Jesus a Pedro são classificadoras: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens»...
5 – Perante as
palavras de Jesus, não cabem respostas evasivas. Importa responder com a nossa
vida. O caminho pode apresentar dificuldades, mas Ele está do nosso lado. E se
está por nós, ninguém nos poderá separar do Seu amor. No sofrimento, na doença,
na fragilidade, o que precisamos, muitas vezes, não é que sofram por nós ou nos
tirem todas as dores, ou anulem a nossa sensibilidade, mas que possamos contar
com um olhar confiante e confidente e nos garantam que não estamos sós, que não
nos abandonam, que nos compreendem e que sabem da nossa vulnerabilidade e a
aceitam como caminho.
A Palavra de Deus não
promete vida fácil, mas promete a presença permanente de Deus. O Seu olhar não
se desviará do nosso, como na Cruz não se desprendeu da Mãe e não se desprendeu
do Pai e não se desprendeu de nós. Por isso Ele nos dá Maria por Mãe, para que
no seu olhar maternal descubramos e encontremos o olhar confiante e confidente
de Deus e a certeza que nem a morte destruirá a nossa vida. Como rezamos com o
salmo: “Livrou da morte a minha alma, das lágrimas os meus olhos, da queda os
meus pés. Andarei na presença do Senhor, sobre a terra dos vivos... O Senhor
guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me”.
Ou como visualiza o
profeta Isaías:
“O Senhor Deus
abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas
àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu
rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e
por isso não fiquei envergonhado… O meu advogado está perto de mim. Pretende
alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário?
Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?”
A certeza que Deus
vem salvar-nos, anima-nos a caminhar, conforta-nos, atrai-nos, puxa-nos para a
frente e para cima. Compromete-nos. Abre-nos a Céu. Ilumina o nosso esforço e o
nosso olhar. Não nos deixa desistir.
padre Manuel Gonçalves
Fator de identidade
cristã
1ª leitura: Isaías
50, 5-9
Entrega e decisão a
Deus e aos seus
1. Estamos perante um dos famosos
cantos do Servo de Iavé (cf. Is. 42; 49; 52-53), um dos momentos teológicos
mais altos do Antigo Testamento, de todos os pontos de vista. Pertencem à
segunda parte do livro de Isaías, ao chamado Deutero-Isaías (40-55), em que
aparece aquele misterioso personagem que encontra o sentido para a sua missão,
apoiando-se na Palavra de Deus. Se, na primeira parte do livro da consolação se
pensava que o imperador Ciro (imperador persa) seria o eleito de Deus por
libertar o seu povo, (pois assinou o decreto de regresso à Babilônia), a partir
do momento em que aparece a figura do Servo, já não será necessário apoiar-se
num rei ou imperador humano para a liberdade que Deus oferece ao seu povo. As
ressonâncias destes famosos "cantos do Servo" são evidentes no Novo
Testamento.
2. Por isso mesmo, a fidelidade a Deus,
a escuta atenta da sua Palavra, para além de todas as afrontas que deve sofrer,
tornam evidentes o mistério da dor como capacidade que se deve ter face a toda
a violência. Os perfis destes personagens não estão definidos, nem é claro se
se fala de um indivíduo ou do próprio povo que tem de se manter atento à
Palavra de Deus. Mas os cristãos souberam aplicá-lo a Cristo, porque encontraram
neste descrição do Servo uma semelhança inigualável com a vida de Jesus – o
que, para o judaísmo oficial e a sua teologia não podia ser messiânico, para os
cristãos, depois da paixão e ressurreição, prenuncia o Messias que conseguiu
carregar aos ombros os sofrimentos do povo e do mundo inteiro.
2ª leitura: Epístola
de Tiago 2,14-18
Fé verdadeira e
compromisso cristão
1. A segunda leitura (epístola de são
Tiago 2,14-18) confronta-nos de novo com a parenesis ou práxis da vida cristã.
Estamos perante uma das passagens mais determinantes deste documento em que se
viu uma polêmica com a teologia da fé de Paulo. Disse-se que é a parte mais
importante da carta, porque se quer demonstrar que, na vida cristã, a fé sem
obras não leva a lado nenhum. Isto é absolutamente irrenunciável, e a ninguém,
e muito menos a Paulo se lhe poderia passar pela cabeça qualquer coisa assim
como "crê e peca muito". Esta falácia não é de Lutero, mas da lenda
dos mal pensantes. Crer é confiar verdadeiramente no Deus da graça. Mas é
possível que alguns quisessem pôr Paulo à prova nalguma comunidade cristã e
este escrito posterior procura colocar as coisas no seu lugar.
2.O confronto não é entre Tiago e
Paulo, mas entre interpretações que provocam equívocos. Paulo, é verdade,
colocou a fé em Jesus Cristo como princípio de salvação, e isso é axiomático
(elementar e decisivo) no cristianismo perante a Lei judaica; porque a salvação
não pode vir senão de Jesus Cristo, em nenhum caso da Lei e dos seus preceitos
(isto também é elementarmente cristão). Mas a fé leva aos compromissos mais
radicais, por causa da graça da salvação. Pelo contrário, o cristianismo seria
absurdo, porque o cristianismo não é uma ideologia, mas uma práxis verdadeira
para transformar o coração dos homens.
Evangelho: Marcos:
8,27-35
Seguir Jesus com a
nossa cruz
1. O Evangelho apresenta-nos um momento
determinante da vida de Jesus no qual Ele tem de explicar aos seus e aos que
continuavam com Ele as razões da sua identidade para O seguirem: para onde vão?
A quem seguem? O texto do Evangelho tem, pois, quatro momentos muito precisos:
a intenção de Jesus e a confissão messiânica de Pedro, em nome dos discípulos
(vv. 27-30); o primeiro anúncio da paixão (v. 31); a repreensão de Jesus a
Pedro e aos discípulos por pretenderem um messianismo que não se enquadra no
projeto de Deus (vv. 32-33), que Jesus assume até às últimas consequências,
como o próprio Servo de Iavé, e, finalmente, as afirmações feitas sobre a
decisão de seguirem Jesus (vv. 34-37). Este é um dos momentos mais altos da
narração do Evangelho de Marcos. Consumou-se a crise na Galileia e a decisão de
seguir Jesus revela-se abertamente na sua radicalidade. A Galileia foi um
crisol…agora estão à prova os que ficaram e cujas carências são manifestas
nesta confissão messiânica. Por isso as palavras sobre a opção de seguirem
Jesus são para toda a gente e não só para os seus discípulos. É o momento de
começar o caminho para Jerusalém, com tudo o que isso significa para Jesus no
seu projeto do anúncio do Reino.
2 Pedro considera que confessá-l'O como
Messias seria o mais acertado, mas o Jesus de Marcos não aceita um título que
pode prestar-se a equívocos. Ele, o Messias, era esperado por todos os grupos e
todos acreditavam que seria o libertador político do povo. Jesus sabe que nem o
seu caminho nem as suas opções são políticas, porque não estão aí os
fundamentos do Reino de Deus que Ele pregou. Por isso, para esclarecer o
assunto faz o primeiro anúncio da paixão. Deste modo deixará claro que o seu
messianismo, pelo menos, não seria como o esperavam os judeus e, ao mesmo
tempo, os seus discípulos deviam aprender a esperar outra coisa. Já Jesus via
claramente que a sua vida em Deus devia passar pela morte. Não porque Deus
quisesse ou desejasse essa morte. O Deus Abbá não podia querer isso. Mas os
homens não deram outra alternativa a Jesus, em nome do seu Deus.
3.A repreensão de Jesus a Pedro, uma
das mais duras do Evangelho, porque a sua mentalidade é igual à de todos os
homens e não à da vontade de Deus, é bastante significativa. Jesus ensina-lhes
que o seu papel messiânico é dar a vida pelos outros, perdê-la na cruz. É isso
que pede aos que o seguem, porque neste mundo triunfar é uma obsessão; mas
perder a vida para que os outros vivam só de Deus se aprende, porque Ele Se
entrega sem medida. O triunfo cristão consiste em saber entregar-se aos outros.
Não sabemos se Jesus pôde falar directamente da cruz ou estas afirmações estão
um pouco retocadas por causa do que ocorreu em Jerusalém com a morte histórica
de Jesus, sendo crucificado sob Pôncio Pilatos que decidiu aquele tipo de
morte. Mas Jesus já contava com a morte, não via outra saída.
4. Por isso, nos escritos, a cruz é a
própria vida. A nossa própria vida, a nossa maneira de sentir o amor e a graça,
o perdão e a misericórdia, a ternura e a confiança na Verdade e em Deus como
Pai. Isto é "uma cruz" neste mundo de poder e de ignomínia. A cruz não
é um madeiro, embora para os cristãos seja um sinal muito sagrado. A cruz está
na vida: em amar os que nos odeiam; em perdoar perante a vingança. Esta é uma
cruz porque o mundo quer que seja uma cruz, não apenas um madeiro. A cruz da
nossa vida, a nossa cruz ("tome a sua cruz" diz Jesus) sem pretender
ser o que não devemos sem nos vangloriarmos a nós mesmos. A cruz é a vida para
os que sabem perder, para os que sabem apostar. Por esta razão se pode dizer em
sentido cristão "levar a nossa cruz" e não devemos envergonharmos por
isso. Não porque o nosso Deus queira o sofrimento… mas o sofrimento dos que lhe
dão sentido à sua vida, diante do mundo, vem a ser o sinal de identidade
daqueles que verdadeiramente seguem Jesus.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
E vós, quem dizeis
que eu sou?
“A liturgia nos convida a dar nosso
testemunho a respeito de quem é Jesus. Ele quer ouvir o que pensamos e dizemos
dele. Não bastam as respostas dos outros; cabe a cada um dar a sua resposta
pessoal por meio de uma fé viva e operante. Queremos seguir nosso mestre na
fidelidade e empenhar a vida pela causa do evangelho.”
Quem é Jesus para mim? Qual o lugar que
Ele tem ocupado em minha vida? Tenho caminhado segundo sua Palavra? Tenho
carregado minha cruz e seguido Jesus?
Versículos de 27 a 30
“Jesus saiu com os seus discípulos para
as aldeias de Cesaréia de Filipe, e pelo caminho perguntou-lhes: Quem dizem os
homens que eu sou? Responderam-lhe os discípulos: João Batista; outros,
Elias; outros, um dos profetas. Então perguntou-lhes Jesus: E vós, quem
dizeis que eu sou? Respondeu Pedro: Tu és o Cristo. E ordenou-lhes severamente
que a ninguém dissessem nada a respeito dele”.
“Quem dizem os homens que eu sou?”- O
Beato João Paulo II disse assim: “Qual é o significado deste diálogo? Porque é
que Jesus quer ouvir o que os homens pensam d’Ele? Porque deseja saber o que
pensam d’Ele os seus discípulos? Jesus quer que os discípulos tomem consciência
do que está escondido na sua mente e no seu coração e que exprimam a sua
convicção. Ao mesmo tempo, porém, Ele sabe que o juízo que vão manifestar não
será apenas obra deles, porque no mesmo há-de revelar-se aquilo que o Pai
derramou nos seus corações com a graça da fé”.
“Então perguntou-lhes Jesus: E vós,
quem dizeis que eu sou?” -O beato João Paulo II disse que “a pergunta brota do
próprio coração de Jesus. Aquele que abre o próprio coração, quer que a pessoa
que está à Sua frente não responda apenas com a mente. A pergunta proveniente
do coração de Jesus deve tocar os nossos corações! Quem sou Eu para vós? O que
represento Eu para vós? Conheceis-Me verdadeiramente? Sois as minhas
testemunhas? Amais-Me?”E a nossa resposta ao Senhor é a mesma de Pedro? Cremos
no Senhor Jesus em seu poder e misericórdia? Cremos que Ele nos ama ao ponto de
ter morrido na cruz para o perdão de nossos pecados?Cremos que Jesus é o único
Caminho pra se chegar à morada celeste? “ Quem é Jesus para mim? Qual o lugar
que Ele tem ocupado em minha vida? É de Deus, o Senhor ,redentor da humanidade
? Tenho caminhado segundo sua Palavra?
“Respondeu Pedro: Tu és o Cristo” - O
beato João Paulo II disse que “Cristo vê na alma de Simão. Parece que admira a
obra nela realizada pelo Pai, mediante o Espírito Santo: eis que, confessando a
verdade revelada sobre a filiação divina do Seu Mestre, Simão torna-se
participante do divino Conhecimento, daquela imperscrutável Ciência que o Pai
tem do Filho, tal como o Filho a tem do Pai”.
O papa Bento XVI também ensinou:
“Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé
cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e
também de nós, crentes de todos os tempos”.
Versículos de 31 a 33
“E começou a ensinar-lhes que era
necessário que o Filho do homem padecesse muito, fosse rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse
depois de três dias. E falava-lhes abertamente dessas coisas. Pedro, tomando-o
à parte, começou a repreendê-lo. Mas, voltando-se ele, olhou para os seus
discípulos e repreendeu a Pedro: Afasta-te de mim, Satanás, porque teus
sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens”.
“Era necessário que o Filho do homem
padecesse muito”- O Papa Bento XVI disse que “no Evangelho de hoje, Jesus
explica aos seus discípulos que deverá «ir a Jerusalém e sofrer muito por parte
dos anciãos e dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e, ao
terceiro dia, ressuscitar» (Mt 16, 21). Tudo parece inverter-se no coração dos
discípulos! Como é possível que «Cristo, o Filho de Deus vivo» (v. 16), possa
sofrer até à morte?”
O Catecismo (571 e 572) ensina: “O
desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Hb. 9,26) pela morte
redentora do seu Filho Jesus Cristo. «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto,
para entrar na sua glória?» (Lc 24, 26). Os sofrimentos de Jesus tomaram a sua
forma histórica concreta, pelo fato de Ele ter sido «rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas» (Mc 8, 31), que «O entregaram aos
pagãos para ser escarnecido, flagelado e crucificado”.
Jesus repreendeu a Pedro - O papa Bento
XVI também disse: “Perto de Cesareia de Filipe, Pedro não quisera aceitar que
Jesus tivesse de sofrer e ser crucificado: não era conciliável com a sua imagem
de Deus e do Messias… É evidente a divergência entre o desígnio de amor do Pai,
que chega até ao dom do Filho Unigênito na cruz para salvar a humanidade, e as
expectativas, os desejos, os projetos dos discípulos… Pensar segundo o mundo
significa pôr Deus de lado, não aceitar o seu projeto de amor, impedir-lhe
quase de realizar o seu querer sábio. Por isso Jesus diz a Pedro uma palavra
particularmente dura: «Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo”.
Versículos de 34 a 35
“Em seguida, convocando a multidão
juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir,
renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser
salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do
Evangelho, salvá-la-á”.
O beato João Paulo II
disse: “Vós sabeis que aderir a Cristo é uma opção exigente. Jesus
não fala por acaso de “cruz”. Contudo, Ele esclarece imediatamente: “após
mim”. É esta a grande palavra: não carregamos sozinhos a cruz. Diante de
nós caminha Ele, abrindo-nos a estrada com a luz do seu exemplo e com a força
do seu amor…Carregar a cruz seguindo Cristo significa estar dispostos a fazer
qualquer sacrifício por amor a Ele. Significa não pôr nada nem ninguém antes
d’Ele, nem mesmo as pessoas mais queridas, nem sequer a própria vida”.
Santo Agostinho: “De fato,
ninguém pode atravessar o mar do século presente, se não é levado pela cruz de
Cristo… Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará”.
O papa Bento XVI ensinou: “O cristão
segue o Senhor quando aceita com amor a própria cruz, que aos olhos do mundo
parece uma derrota e uma «perda da vida» (cf. vv. 25-26), sabendo que não a
carrega sozinho, mas com Jesus, partilhando o seu mesmo caminho de doação”.
Seguir a Cristo é doar-se. Seguir a Cristo é renunciar a si. Seguir a Cristo é
dizer como são Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em
mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me
amou e se entregou por mim”.
Conclusão
Concluímos com as palavras do beato
João Paulo II: “No supremo «sim» de Maria resplandece a esperança confiante no
misterioso futuro, iniciado com a morte do Filho crucificado. As expressões com
que Jesus, no caminho rumo a Jerusalém, ensinava aos discípulos «que o Filho do
Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos
sacerdotes e pelos escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias»
(Mc. 8,31), ressoam-lhe no coração na hora dramática do Calvário, suscitando a
expectativa e o desejo da ressurreição”.
Jane Amábile
O texto do Evangelho do 24º domingo do
tempo comum apresenta-nos o primeiro anúncio feito aos discípulos da paixão e
morte de Jesus e a tentativa de Pedro de eliminar a cruz e o ensinamento de
Jesus acerca das consequências da cruz para a vida dos seus discípulos.
Pedro não entende a proposta de Jesus
sobre a cruz e o sofrimento. Ele aceitava Jesus Messias mas não um Messias
sofredor. Estava condicionado pela propaganda do governo da época que falava do
Messias mas só em termos de rei glorioso. Pedro parecia um cego. Não via nada e
queria que Jesus fosse como ele desejava e imaginava. Hoje também nós
acreditamos em Jesus mas nem todos o entendemos do mesmo modo. Quem é Jesus
para mim? Qual é hoje a imagem mais difundida que as pessoas têm de Jesus? Há
hoje uma propaganda que pretende interferir no nosso modo de ver Jesus? Quem
sou eu para Jesus?
Contexto de ontem e de hoje
De Marcos 8,27 até Marcos 10,45 há uma
longa instrução de Jesus dirigida aos seus discípulos. Tanto no início como no
final desta instrução, Marcos coloca a cura de dois cegos: 8,22-26 e Marcos
10,46-52. No início a cura do cego não foi fácil e Jesus teve que o curar em
duas fases. Também foi difícil a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que
explicar longamente o significado da cruz para que os seus discípulos a
aceitassem a realidade, porque era a cruz que provocava a sua cegueira. A cura
do cego Bartimeu é fruto da fé em Jesus. Este acontecimento sugere o ideal do
discípulo: acreditar em Jesus e aceitá-lo como é, e não como eu o quero ou o
imagino.
Nos anos 70, quando Marcos escreve, a
situação da comunidade não era fácil. Havia muito sofrimento, as cruzes eram
muitas. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero decretara a primeira perseguição,
causando a morte a muitos cristãos. No ano 70, na Palestina, Jerusalém era
destruída pelos romanos. Noutros países a tensão entre judeus convertidos e
judeus não convertidos começava a aparecer e crescia. Mas a a dificuldade maior
era a cruz de Jesus. Os judeus pensavam que um crucificado não podia ser o
Messias tão esperado por todos, porque a lei afirmava que aquele que fosse
crucificado deveria ser considerado como um maldito de Deus (Dt. 21,22-23).
Comentário do texto
Marcos 8,22-26: cura do cego.
Levam a Jesus um cego e pedem que o
cure. Jesus cura-o mas a cura não acontece logo de imediato. Primeiro Jesus
condu-lo para fora da aldeia, coloca-lhe saliva nos olhos, impõe-lhe as mãos e
diz-lhe: “Vês algo?” O homem respondeu: “Vejo homens que se parecem como
árvores que andam!” Via só uma parte. O que eram árvores via como pessoas e o
que eram pessoas via como árvores. Só numa segunda tentativa é que Jesus cura o
cego e proíbe-o de entrar na aldeia. Jesus não quer uma propaganda fácil. Esta
descrição da cura do cego é uma introdução à instrução que será dada depois aos
discípulos, porque na realidade eram cegos. E a cegueira dos discípulos é
curada por Jesus mas não logo de início. Eles aceitam Jesus como Messias, mas
só como Messias glorioso. Viam só uma parte. Não queriam o compromisso da cruz.
Trocavam as árvores por pessoas!
Marcos 8,27-30 - VER a descoberta
da realidade.
Jesus pergunta: “Quem dizem as pessoas
que eu sou?”. Eles respondem indicando as diversas opiniões das pessoas: “João
Baptista”, “Elias, ou um dos profetas”. Jesus quer a resposta deles: “E vós
quem dizeis que eu sou?” Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Messias!” Ou seja:
“O Senhor a quem as pessoas esperam”. Jesus está de acordo com Pedro mas
proíbe-o de falar disto. Qual a razão da proibição? Porque, cada um a seu modo,
esperava a vinda do Messias, segundo a classe e a posição social que ocupava:
alguns esperavam-no como rei, outros como sacerdote, doutor, guerreiro, juiz ou
profeta. Parecia que ninguém o esperava como o Messias servo anunciado por
Isaías (Is. 42,1-9).
Marcos 8,31-33 - JULGAR: esclarecimento
da situação e primeiro anúncio da paixão.
Jesus começa a ensinar que Ele é o
Messias servo anunciado por Isaías, e que será preso e morto no exercício da
sua missão de justiça (Is. 49,4-9; 53,1-12). Pedro fica cheio de medo e
chamando Jesus à parte desaconselha-o a seguir por essa via. E Jesus responde a
Pedro:“Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os
de Deus, mas os dos homens”. Pedro pensava que tinha dado a resposta certa.
Embora tenha pronunciado a palavra justa contudo ao dizer “Tu és o Cristo” mas
não dá a esta palavra o significado justo. Pedro não entende Jesus. É como o
cego de Betsaida. Trocava as pessoas por árvores. A resposta de Jesus foi
duríssima. Chama a Pedro de Satanás. Satanás é uma palavra hebraica que
significa acusador; aquele que afasta os outros do caminho de Deus, da sua
missão. Literalmente Jesus diz: “Coloca-te atrás!”. Ou seja, Pedro deve
caminhar atrás de Jesus, deve seguir Jesus e aceitar a trajetória ou a direção
indicada por Jesus. Mas Pedro queria ser ele a indicar a direção. Queria um
Messias à sua medida e ao seu desejo.
Marcos 8,34-37 - AGIR: condições para o
seguimento.
Jesus tira conclusões que são válidas
para hoje mesmo: “Quem quiser vir após mim tome a sua cruz e siga-me!”. Naquele
tempo a cruz era a pena de morte com que o império romano sentenciava os
condenados. Tomar a cruz e carregá-la no seguimento de Jesus significava
aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça.
Indicava uma ruptura radical e total. Como diz São Paulo na Carta aos Gálatas:
“Quanto a mim, jamais me gloriarei a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus
Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gal.
6,14). A cruz não é fatalismo nem sequer uma exigência do Pai. A cruz é a
consequência do compromisso livremente assumido por Jesus para revelar a Boa
Notícia de que Deus é Pai e, por tanto, todos devem ser aceites e tratados como
irmãos. Por causa deste anúncio revolucionário, foi perseguido e não teve medo
de dar a sua vida. Prova maior de amor: dar a vida pelo próprio irmão!
Ampliando conhecimentos: a instrução
dada aos discípulos
Entre as curas dos cegos (Mc. 8,22-26 e
Mc. 10,46-52), encontra-se uma longa instrução de Jesus dada aos seus
discípulos para os ajudar a entender o significado da cruz e as consequências
para a vida (Mc. 8,27 a 10,45). Parece um documento, uma espécie de catecismo,
feito pelo próprio Jesus. Fala da cruz na vida do discípulo. É uma espécie de
esquema de instrução:
Mc. 8,22-26: cura de um cego.
Mc. 8,27-38: primeiro anúncio da
Paixão.
Mc. 9,1-29: instrução sobre o Messias
servo.
Mc. 9,30-37: segundo anúncio da Paixão.
Mc 9,38 a 10,31: instruções sobre a
conversão.
Mc. 10,32-45: terceiro anúncio da
Paixão.
Mc. 10,46-52: cura de um cego.
Como se vê, a instrução é composta por
três anúncios da Paixão. O primeiro é Mc. 8,27-38, o segundo Mc. 9,30-37 e o
terceiro Mc. 10,32-45. Entre o primeiro e o segundo há uma série de instruções
que aclaram a conversão que deve acontecer na vida dos que aceitam Jesus como
Messias servo (Mc. 9,38 a 10,31). O conjunto da instrução tem como pano de
fundo a caminhada da Galileia até Jerusalém, desde o lago até à cruz. Jesus
caminha para Jerusalém (Mc. 8,27; 9,30.33; 10,1.17.32), onde encontrará a cruz.
Em cada um destes três anúncios, Jesus fala da sua paixão, morte e ressurreição
como fazendo parte do seu projeto: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser
rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e depois ser
morto e, três dias depois ressuscitará” (Mc. 8,31; 9,31; 10,33).
Cada um destes três anúncios da paixão
é acompanhado por gestos e palavras de incompreensão por parte dos discípulos.
No primeiro, Pedro não quer a cruz e critica Jesus (Mc. 8,32). No segundo, os
discípulos não entendem Jesus, têm medo e querem ser grandes (Mc. 9,3-34). No
terceiro, têm medo e procuram promoções (Mc. 10,35-37). E isto porque nas
comunidades para as quais Marcos escreve o seu Evangelho havia muitas pessoas
como Pedro: não queriam a cruz! Eram como os discípulos: não entendiam a cruz,
tinham medo e queriam ser os maiores; viviam no temor e queriam ser promovidos.
Cada um destes três anúncios deixa uma palavra de orientação por parte de Jesus,
criticando a falta de compreensão dos discípulos e ensinando como deve ser o
seu comportamento. Assim, no primeiro anúncio, Jesus exige dos que querem
segui-lo, carregar a cruz atrás dele, perder a vida por amor a Ele e ao seu
evangelho, não se envergonhar d'Ele nem da sua palavra (Mc. 8,34-38). No
segundo, exige que se façam servos de todos, receber as crianças, os pequenos,
como se fosse ao próprio Jesus (Mc. 9,35-37). No terceiro, exige beber o cálice
que Ele beberá, não imitar os poderosos que exploram os demais, mas imitar o
Filho do Homem que não veio para ser servido mas para servir e dar a vida em
resgate de muitos (Mc. 10,35-45)
A compreensão total do seguimento de
Jesus não se obtém através da instrução teórica mas pelo empenhamento prático,
caminhando com Ele pelo caminho do serviço, da Galileia até Jerusalém. Quem
insista em manter a ideia de Pedro, ou seja, a do Messias glorioso sem a cruz,
não entenderá nem assumirá o comportamento do verdadeiro discípulo. Continuará
cego, trocando as pessoas pelas árvores (Mc. 8,24). Porque sem a cruz é
impossível entender quem é Jesus e o que significa seguir Jesus.
O caminho do seguimento é o caminho da
dedicação, do abandono, do serviço, da disponibilidade, da aceitação, da dor,
sabendo que haverá ressurreição. A cruz não é um acidente de percurso mas faz
parte do caminho. No mundo organizado a partir do egoísmo, o amor e o serviço
não podem existir senão crucificados. Quem dá a vida pelos outros, incomoda
aqueles que vivem agarrados aos privilégios, e sofre.
Palavra para o
caminho
Seguir Jesus não é obrigatório. É uma
decisão livre de cada um. Porém temos de levar a sério Jesus. Se quisermos
segui-lo na sua tarefa apaixonante de fazer um mundo mais humano, digno e
feliz, temos de estar dispostos a duas coisas. Primeiro, renunciar a
projetos ou planos que se opõem ao reino de Deus. Segundo, aceitar os
sofrimentos que nos podem vir por seguir Jesus e identificar-nos com a sua
causa. Nós cristãos temos de responder, com sinceridade, a esta pergunta
interpeladora de Jesus: “e vós, quem dizeis que eu sou?”. Ibn
Arabi escreveu que “aquele que foi tomado por essa enfermidade
chamada Jesus, já não se pode curar”.
Quantos cristãos poderiam, hoje,
intuir, a partir de sua experiência pessoal, a verdade que encerram estas
palavras?
Ordem do carmo
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