.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

24 DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano B

24 DOMINGO DO TEMPO COMUM

16 de Setembro

 

Evangelho – Mc 8,27-35

 

Quem é Ele?  Quem é esse que até o mar e o vento obedecem? 
·        Continuar lendo

 

====================================================================
“E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?”  Olivia Coutinho

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 16 de Setembro de 2018

Evangelho de Mc8,27-35

Muitos de nós, professamos a nossa fé em Jesus, mas não o conhecemos de fato, temos só o conhecimento teórico.
O Evangelho que a liturgia deste domingo nos convida a refletir chama a nossa atenção, para algo fundamental na nossa vida: conhecer Jesus!Não tem como viver a fé, sem conhecer Jesus, e não tem como conhecê-Lo, sem nos tornarmos íntimos Dele! Sem uma intimidade profunda com Jesus, ficamos na superficialidade da fé, sabendo quem é Ele teoricamente, e não, pela a experiência com Ele!

No texto, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Jesus já sabia que muitos, mesmo sendo seus ouvintes, tinham uma ideia equivocada a seu respeito, alguns o viam como um milagreiro, outros, como alguém que fosse lhes oferece vida fácil... Os discípulos responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas." Não satisfeito com o que o  povo pensava a seu respeito, demonstrando  não conhecer o seu Messianismo, Jesus vai mais além, faz essa mesma pergunta, à aqueles que conviviam diretamente com Ele: os discípulos. “E vós, quem dizem que eu sou?” Esta pergunta, silenciou os discípulos, pois desta vez, a resposta deles  teria que ser pessoal, e não, em nome do povo, o que é fácil, pois não compromete. Pedro foi o único que respondeu, e respondeu com firmeza: “Tu és o Messias ”. Esta resposta de Pedro agradou Jesus, pois Ele  sabia, que esta sua afirmação,  era fruto da sua convivência com Ele.

Jesus proíbe severamente aos discípulos de revelar a sua identidade, afinal, um povo que esperava por um Messias triunfalista com poderes políticos, jamais aceitaria um Messias na condição de servo, alguém que tivesse o olhar voltado para os pequenos! Jesus  sabia,  que Ele  não seria reconhecido como Filho de Deus, sem antes passar pela cruz.

Pedro reconhece Jesus como sendo o Filho de Deus, mas ele ainda demonstrava não estar pronto para assumir o seu discipulado, pois  ainda caminhava na obscuridade, carregando consigo a mentalidade do mundo, alimentando dentro de si, a ideia de um Messias glorioso, mas sem a cruz.

Jesus, que conhece o interior das pessoas, percebe de imediato a dificuldade dos discípulos em aceitar o desafio da cruz. No desejo de fazê-los compreender a importância de não fugir da cruz, Ele insiste em afirmar que seria impossível segui-Lo, sem a cruz.

O seguimento a Jesus inclui à cruz, porque a nossa adesão a Ele, nos levará a atitudes que contrariam os opositores do projeto de Deus.

Este episódio é um alerta para todos nós, que afirmamos conhecer Jesus. Afirmar que conhece Jesus, é comprometedor, quem afirma  conhece-Lo, torna responsável pela a continuidade da sua missão.

Hoje, Jesus continua nos perguntando: “ E para você quem eu sou? Saber quem é Jesus é muito mais do que saber que Ele é Deus! Saber quem é Jesus implica em comprometimento com a sua causa, em dar continuidade a sua presença aqui na terra, no cuidado com o que lhe é de mais precioso: a vida humana!

É pela fé que reconhecemos Jesus como o nosso Deus e Senhor, o que não é fruto de nenhum esforço humano, e sim, do acolhimento ao dom da fé.


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:




===================================================================


Anúncio da morte e ressurreição de Cristo
Ao longo do ano, por várias vezes, os cristãos são confrontados com o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus. Aliás, acreditar na Ressurreição é o essencial da fé cristã. Mas não há Ressurreição sem a Paixão e Morte. Jesus viveu o Mistério Pascal ao longo de toda a sua vida. Como diz a carta aos Filipenses, “humilhou-se a si mesmo tomando a forma de servo, obedecendo até à morte e a morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes” (Fil. 2,8-9). O mistério de Jesus tem a sua síntese na sua Morte e Ressurreição. Esta realidade essencial à Redenção foi anunciada por Isaías na alegoria do Servo de Javé (1ª leitura). Quinhentos anos depois, Jesus, ao encarnar, vive o mistério da incompreensão e da morte como fora anunciado pelo Servo de Javé. Com toda a clareza Cristo o revela aos seus discípulos, embora estes o não entendam (Evangelho). A liturgia deste domingo conclui-se com a Carta de S. Tiago que afirma com toda a clareza que a fé sem obras é morta. As obras são a expressão da Ressurreição que em todas as circunstâncias os cristãos provocam (2ª leitura).
1. A alegoria do Servo de Javé
Muitas vezes e de muitos modos, ao longo de todo o Antigo Testamento, se foi anunciando a chegada do Messias. Durante o cativeiro da Babilônia, o Povo de Deus sentia mais a necessidade de vir o Salvador. Chegou mesmo a pensar que o Messias era o imperador Ciro, rei da Pérsia, uma vez que foi este que permitiu aos israelitas voltarem a Jerusalém. A verdade do Messias é, porém, contada pelo profeta Isaías na lindíssima alegoria do Servo de Javé. Ao ler-se este texto tem-se uma visão da missão redentora do Messias. Tudo o que o profeta diz do Servo de Javé será vivido por Jesus no seu sofrimento, na incompreensão dos seus concidadãos, e na condenação à morte que irá sofrer. O novo Servo de Javé, Jesus Cristo, porém, ressuscitará e, com Ele, tudo e todos vão ressuscitar.
2. “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc. 8,27)
O caminho de Jesus com os discípulos até Cesareia de Filipe coloca um problema fundamental. É o próprio Jesus que quer saber o que pensam d’Ele os seus concidadãos. A resposta não se fez esperar: “uns dizem que és João Baptista, outros Elias e outros ainda um profeta.” Nestas três hipóteses aparecem imagens imperfeitas de Jesus. Jesus é mais do que um essénio, um moralizador, como João Baptista; é mais do que um homem cheio de poder, como Elias, arrastado ao céu num carro de fogo; é mais do que um doutrinador falando ou não em nome de Deus como a grande maioria dos profetas. Interrogado por Cristo, Pedro soube dizer, Tu és o Messias. Teve então, Jesus a oportunidade de dizer que era um Messias diferente e ia sofrer a morte, ressuscitando ao terceiro dia. Pedro não compreendeu, mas Jesus pediu-lhe e aos discípulos que não falassem por agora, destas coisas a ninguém. Só na intimidade do coração se compreende o mistério da Redenção operada por Cristo com a sua Morte e a sua Ressurreição.
3. A fé sem obras é morta
Compreende-se a inserção deste texto numa liturgia que fala claramente sobre a identidade de Jesus. Muitos cristãos julgam-se seguidores de Cristo apenas porque O reconhecem pela fé, Filho de Deus. É preciso compreender, porém, que a fé sem obras é morta, e que a verdadeira ressurreição no tempo só acontece quando se fazem obras de boa vontade, de partilha, e de solidariedade com os que mais precisam.
monsenhor Vitor Feytor Pinto
“Revista de liturgia diária”



"Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga"
Domingo do Messias e Servo Sofredor. Hoje Ele se revela a nós como o Messias Servo Sofredor. Celebrando a memória da paixão e da ressurreição do Senhor em nossa caminhada, renovamos nossa profissão de fé e acolhemos o convite à renúncia e ao seguimento radical do Mestre nos caminhos que o conduzem à imolação e à revelação total como Messias Servo e Sofredor.
Celebrando a memória da paixão e da ressurreição do Senhor em nossa caminhada, renovamos nossa profissão de fé e acolhemos o convite à renúncia e ao seguimento radical do Mestre nos caminhos que o conduzem à imolação e à revelação total como Messias Servo Sofredor.
Primeira leitura - Isaias 50,5-9ª
Este trecho da primeira leitura de hoje está em consonância com o Evangelho desse domingo, em que Cristo, após a profissão de fé de Pedro, revela que Ele terá que sofrer muito, ser rejeitado e condenado à morte pelos chefes do povo.
O trecho de Isaias, proposto para a leitura de hoje, é o terceiro dos conhecidos 4 poemas do Servo de Javé (Isaias 42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). E seu tema central é o sofrimento que o Servo terá que suportar, não um sofrimento qualquer, mas um sofrimento infligido por seus adversários.
O Servo mantém uma atitude constante e dócil de escuta: "cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo". O versículo 5 insiste nesta atitude de escuta da mensagem divina. Não reluta, nem foge como Jonas, mesmo diante das circunstâncias mais duras e antipáticas de sua missão. O Servo aceita a vocação com a pesada carga de ultrajes e sofrimentos, sem um movimento de revolta.
Nos versículos de 6 a 7 aparecem os ultrajes a que é submetido o Servo: espancamentos, arrancamento da barba e escarros no rosto. Eles exprimem sofrimentos físicos e profunda humilhação. A barba, para os orientais, era o símbolo da dignidade social. Arrancá-la, além de sofrimento físico, é um grande vexame. E escarrar no rosto constituía o máximo da injúria (cf. Números 12,14; Jô. 30,10). O Servo não só não reage violentamente, mas nem se quer desvia o rosto. Enfrenta as afrontas e ultrajes com tranqüilidade e firmeza. Não se sente intimamente abalado ou desamparado porque tem toda a sua confiança no Senhor, e tem certeza que Ele virá em seu auxílio.
Nos versículos de 8 a 9, a esperança do triunfo final é alimentada pela certeza da  assistência divina. O Servo está tão seguro desta proteção que pode desafiar seus adversários. O Servo tem a absoluta certeza que o Senhor irá declará-lo inocente. Ninguém conseguirá provar que o Servo é culpado. E por isso seus sofrimentos deverão encontrar outra explicação. Esta aparece no quarto poema do Servo (Isaias 53,4-6.10).
O Canto encerra-se com uma nota de triunfo. O Servo, protegido por Deus, ganha a causa. Seus adversários não só não conseguem o seu plano contra o Servo, mas eles mesmos, é que são condenados.
Assim, quando Cristo anuncia que vai ter que sofrer muito, ser rejeitado e condenado à morte pelos chefes do povo, está aplicando a si mesmo esta passagem do livro de Isaias.
Salmo responsorial 114/115,1-6.8-9
O Salmo 114/116 é um hino de ação de graças. O Salmo começa com uma dedicação de amor a Deus: "Eu amo o Senhor, porque ele me ouve...". É uma declaração espontânea e sincera de amor ao Senhor que "ouviu a voz da súplica" (v. 1; cf. 2). "Morte " e "angústia do além" (v. 3) tinham-se apresentado ao orante como adversários fortes e vencedores, tendo por objetivo eliminá-lo. Agora que o perigo foi ultrapassado (v. 8), torna-se espontâneo para ele louvar e dar graças a Deus (vs. 5-6), "andando" à luz dos Seus preceitos (v. 9).
O Salmo é uma ação de graças a um Deus que sempre liberta. O Salmista orante agradece a Deus, porque o livrou de todas as desgraças: preso nas cordas da morte e nos laços do abismo, invadido pela angústia e tristeza, chegou à beira da morte.
O rosto de Deus neste salmo é muito interessante. "Todos os homens são mentirosos", mas em Deus pode-se confiar, pois Ele escuta quando as pessoas o invocam (pode-se notar quanta insistência se fala de Deus neste salmo. Por que pode se confiar Nele? Porque ouve a voz suplicante (v. 2), inclina o ouvido (v. 2), salva (v. 6) e liberta (v. 8). É o mesmo esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o Deus deste salmo é o mesmo do êxodo e da Aliança. O salmista afirma que "Deus é justo e clemente, o nosso Deus é compassivo. Deus protege os simples" (vs. 5-6a).
Jesus libertou, perdoou e curou todos os doentes que encontrou, vencendo até a própria morte. E por causa disso muitos aprenderam a amar Javé e Jesus.
Na celebração deste domingo, cantemos louvores ao Pai que em Jesus Cristo nos liberta da morte e dá vitória a todos os que enfrentam as ameaças do mundo.
Andarei na presença de Deus, junto a Ele na terra dos vivos.
Segunda leitura - Tiago 2,14-18
O texto da liturgia de hoje aborda a intenção central da carta de Tiago: o problema da relação entre fé e obras. A fé sem as obras não conta, é morta, não salva ninguém (vs. 17 e 26). É como árvore seca: não produz fruto. Já em 1,19-27 a apóstolo disse que não basta escutar a Palavra sem praticá-la e, em 2,1-13, ficou estabelecido que não se pode crer em Cristo e ao mesmo tempo discriminar pessoas.
Tiago não nega a fé, mas a supõe. Contudo, sem as correspondentes obras, a fé não traz nenhum proveito no plano da salvação, é ortodoxia teórica e convicção platônica. A fé teologal - adesão total a Deus - por natureza tende as realizar-se. Um fiel que não vive de acordo com a sua convicção, que não enquadra sua existência nos moldes do dom divino, não combina com a pregação de Jesus: "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus" (Mateus 7,21). Inclusive, quem não pratica a sua fé, é réu de castigo maior (Lucas 12,47).
Tiago ilustra sua doutrina com uma parábola (vs. 15 a 16): o exemplo aduzido é chocante, desmascara o absurdo e a vaidade de semelhante fé. A saudação de despedida e o conselho, na aparência fraterna ("ide em paz... aquecei-vos... fartai-vos"), são hipócritas, a negação do amor (2,8), o oposto da fé, uma mentira fraudulenta, porque, embora se conheça a obrigação de quem crê e se a reconheça exteriormente, nada é feito para colocá-la em prática. Diante disso, Tiago penetra no âmago da questão, denunciando o egoísmo, a presunção, a hipocrisia face ao mandamento por excelência.
Evangelho - Marcos 8,27-35
O Evangelho de Marcos é dividido em duas partes. A primeira, no capítulo 8, versículo 30, tem como objetivo levar ao reconhecimento de que Jesus é o Messias (cf. Marcos 1,1). A partir do versículo 31, do capítulo 8, inicia-se a segunda parte que tem a finalidade de explicar que tipo de Messias é Jesus.
Segundo Marcos, Jesus escolheu de propósito este região pagã, romanizada para que os discípulos tomassem consciência da sua missão messiânica, porque assim estavam longe do fanatismo das multidões da Galiléia que identificavam o Messias como um revolucionário, um libertador nacionalista e terreno. E pediu silêncio para evitar falsas interpretações, porque os discípulos e menos ainda o povo compreendiam as verdadeiras dimensões do messianismo de Jesus.
A imposição de um severo silêncio (v. 30) torna-se muito compreensível porque Jesus não podia revelar publicamente, durante sua vida terrena e de maneira total, o mistério da sua identidade, antes de ter demonstrado, por sua morte e ressurreição, o sentido real de todos os seus títulos.
Após Jesus fazer o anúncio da sua paixão, Pedro começou a repreendê-lo. Ele não compreende que a missão traz consigo o sofrimento e a morte de Jesus. Pedro ainda está preso a um messianismo terrestre e por isso recusará o primeiro ensinamento sobre o Messias sofredor e advertirá mais uma vez Jesus, para que abandone o seu caminho.
Diante dessa idéia errada de Pedro, Jesus corrige a idéia de um falso messianismo. Ele volta-se para Pedro e lhe disse: "Afasta-te, satanás, pois não sabes as coisas de Deus, mas as dos homens" (v. 33). "Afasta-te satanás", Jesus estava vencendo mais uma vez a tentação de um falso messianismo de sofrimento e de morte. Cristo amadurecia conscientemente na sua idéia messiânica. Enquanto Pedro (satanás: adversário), os discípulos e os homens (seus inimigos) se alinham contra o plano salvador de Deus, Jesus escolheu seguir a vontade de Deus.
Jesus diz "se alguém me quer seguir..." porque está dirigindo-se a pessoas livres e não obriga ninguém, mas se alguém se decidir é para valer. Não convida só os discípulos, mas todos para segui-lo.
Duas condições básicas, segundo Marcos, são necessárias para o seguimento de Jesus: renunciar a si mesmo e tomar a cruz. Portanto, renunciar quer dizer arriscar a própria vida por amor dos bens escatológicos que já estão ao alcance das mãos. Tomar sua cruz aqui significa arrepender-se e entregar-se totalmente a Deus; arriscar a própria vida na sua Palavra; assumir os sofrimentos e as dificuldades da vida que terminam na ressurreição; realizar, então, o plano de Deus, isto é, caminhar cada dia no cumprimento dos próprios deveres buscando realizar o próprio ideal nos acontecimentos; acompanhar o Cristo na caminhada da fé sem procurar desculpas e justificativas. Este é o verdadeiro martírio, isto é, testemunha. Depois de assumir tudo isso, o discípulo, então, segue o Mestre.
O versículo 35 explica e completa o versículo anterior. Salvar a alma (tèn psychèn auto sósai) significa salvar a vida, a própria pessoa (corresponde a néfesh: ser vivo, pessoa); portanto, significa que há uma fase escatológica da existência humana que nenhum sacrifício se torna excessivo para alcançá-la. Perder a vida por amor a Cristo e por causa do Evangelho quer dizer em Marcos a presença e a identificação de Cristo com a proclamação evangélica, a Boa-Nova da salvação messiânica.
Para testar o quanto o grupo dos discípulos tinha assimilado e compreendido seus ensinamentos, sua pessoa e sua missão, Jesus lança uma pergunta: "Quem dizem os homens que eu sou? Isto é, o que pensam a meu respeito aqueles que não fazem parte do nosso grupo?" A diversidade de pareceres reflete que a opinião pública, apesar de perceber que Jesus é uma pessoa notável, não tem clareza sobre sua identidade. Ele não é reconhecido como o Messias, Servo Sofredor. E Jesus pergunta: "E vocês, quem dizem que eu sou?" em contraste com o que falam os outros, Pedro, em seu nome e do grupo, responde: "Tu és o Messias". Ele faz um ato de fé à messianidade de Jesus. Com esse ato de fé, Pedro corrige as distorções a respeito de Jesus.
Todavia, é ainda uma profissão de fé inicial, frágil e incipiente, embora autêntica, ponto de partida para o seguimento de Jesus. A confissão plena de fé, o reconhecimento total da identidade de Jesus, só acontecerá depois da ressurreição. Para evitar mal-entendidos, Jesus proíbe severamente que falem em público de sua identidade como Messias.
A palavra se faz celebração
Ícone do Mistério Pascal
Embora a imagem da cruz recorde algo como sofrimento e morte, seu uso na tradição cristã não se limita a estes aspectos, embora os englobe e transfigure. Na verdade, a compreensão mais antiga da cruz não tem a ver primeiramente com estes significados, mas com a idéia de encontro entre o céu e a terra (divino e humano), tempo e espaço que se cruzam, e outras realidades mais. Hoje, a cruz traz presente a totalidade do Mistério Pascal de Jesus, que obviamente não consta só de sofrimento e morte. É, portanto, anúncio da resposta de Jesus à pergunta sobre sua identidade messiânica: o Filho do Homem deve sofrer, morrer e ressuscitar (cf. evangelho).
Neste sentido e seguimento a lógica do evangelho deste domingo, a cruz revela o pensamento de Deus acerca do cosmo e da história humana. Por isso é motivo de nos gloriarmos somente nela, conforme canta o versículo da (aclamação ao evangelho deste domingo) e de enxergar o mundo nela pregado.
A resposta da cruz
Então, conforme o costume antigo no que diz respeito às primeiras imagens de Cristo, o que se "informa" com a cruz é o significado da palavra, ação e pessoa de Jesus. Não é um retrato cruento de seu sofrimento e morte, mas de sua oblação vitoriosa. Por isso as primeiras cruzes de que temos notícias usadas no culto cristão traziam o Cristo glorioso, com vestes sacerdotais e coroado, como é assim entre os orientais até hoje. Por sua vez, retrata a profissão de fé da Igreja, que Pedro no Evangelho deste domingo parece desconhecer. A cruz, portanto, recorda a identidade de Jesus, que o Evangelho evidencia. Quando nos perguntarem quem é Jesus, respondamos com a cruz.
Da palavra celebrada ao cotidiano da vida
A Palavra de Deus, hoje dirigida a nós, coloca-nos diante de uma opção: seguir a lógica da Cruz, do Messias Servo Sofredor, ou a lógica do messias segundo os critérios humanos. O discernimento entre a lógica da cruz (do Servo Sofredor) e da cultura dominante nem sempre é fácil, especialmente num ambiente de grande esperança nacionalista: um ungido virá para restabelecer o reinado definitivo do Deus de Israel, derrotando os agressores, isto é, os romanos. Seria um Messias que resgatasse a dinastia de Davi e libertasse Israel do Império Romano.
Jesus quer abrir os olhos e iluminar a estrada do seguimento. A profissão de fé de Pedro e a anúncio da cruz e dos critérios para o seguimento radical são abertos pela cura de um cego anônimo, fora do povoado (8,22-26). Cegos eram os discípulos que "tinham olhos e não enxergavam". Jesus os leva para o povoado de Cesaréia de Filipe para ajudá-los a enxergar. Assim como o cego anônimo que tem visão distorcida, Pedro, confessando que Jesus era o Messias, o Ungido (Cristo), é como o homem de visão deficiente. Reconhece em Jesus o Messias, mas um Messias sem a cruz. Pedro não aceita a cruz e repreende Jesus (8,32). Jesus reage e chama Pedro de satanás (aquele que devia do caminho de Deus, opositor) (8,33). Como Pedro, muita gente não queria a cruz, ou melhor, como os discípulos, não entendiam e temiam a cruz.
Diante da fé autentica, porém frágil e incipiente dos discípulos, Jesus não rompe com eles nem desiste de iniciá-los no mistério do Servo Sofredor. Começa a falar abertamente sobre a cruz e sobre a identidade e o futuro do Messias. Lembrando Isaias (primeira leitura), Ele diz que vai ser submetido a duras provas por seus adversários, até a morte, mas depois de três dias vencerá, isto é, ressuscitará (8,31).
Ao mesmo tempo em que critica a incompreensão (cegueira) dos discípulos, Jesus corrige e aponta as atitudes de quem deseja segui-lo de forma radical: negar a si mesmo, carregar a cruz, perder a vida por causa de Jesus e do Evangelho e não envergonhar-se Dele e de sua Palavra. É a partir da cruz que se pode entender e reconhecer: "Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus" (Marcos 15,39).
Jesus proíbe severamente que eles falassem a alguém a respeito dele (8,30). Qual seria o motiva da ordem do silêncio? O povo não tinha condições de aceitar um condenado à cruz como o Messias, pois havia assimilado a imagem distorcida do Messias glorioso: rei, doutor, juiz, sacerdote. Ninguém lembrava do Messias Servidor e Sofredor anunciado pelo profeta Isaias. Uma realidade só compreensível por quem decidisse caminhar com Jesus na mesma estrada do compromisso com os pequenos tendo em vista a realização do Reino. Só esses seriam capazes de aceitar o Crucificado como o Messias. Só a convivência e a prática poderiam abrir o entendimento da mensagem sobre a cruz .
Para andar na estrada com Jesus em direção a Jerusalém, o seguidor (a) terá de confessar sua fé, fazendo-a frutificar em ações. A fé é um dom precioso, a base da salvação, o dom da vida nova e a garantia da vida eterna. Entretanto, esse dom, essa vida nova se expressa e se sustenta pela prática das obras, por excelência, de amor, de justiça, de fraternidade, de caridade e de paz. São essas obras que tornam visível e acreditável a profissão de fé e, por isso, atestam a autenticidade do seguimento de Jesus Cristo.
A fé traduzida em obras de solidariedade também se insere na lógica da cruz. Sua realização não deve servir como suporte para as ambições pessoais, para a afirmação própria ou de um grupo, para impor-se perante os outros. As obras da fé requerem a renúncia de si mesmo, a negação de toda vontade de poder, de êxito e de publicidade. As obras da fé devem adotar meios pobres, modestos, sóbrios, não excessivamente vistosos, caracterizando-se pela simplicidade evangélica. A fé desemboca necessariamente na prática das obras de caridade, as quais se alimentam da fé professada e celebrada.
Na celebração, esta palavra é dirigida à comunidade reunida. A fé dos discípulos e de Pedro é a nossa fé inicial, fraca, mas destinada a crescer pela força da Páscoa do Senhor. Temos sempre de vencer a tentação do sucesso, do triunfo a qualquer preço. E podemos aprender a viver de um jeito mais pascal os sofrimentos que se impõem sobre nós. Podemos crescer em nossos fracassos e crises.
Ligando a palavra com a ação eucarística
Celebrando a memória de seu sofrimento, morte e ressurreição, Jesus nos associa à sua cruz redentora, apesar de nossas cegueiras e fragilidades na prática das obras da fé. Hoje torna-se cada vez mais pesada a cruz do testemunho autentico de fé e do seguimento. Em muitos ambientes sociais, é pesada a cruz da identidade da fé católica; a cruz dos conflitos familiares; a cruz das intrigas entre lideranças; a cruz da incerteza e da carência de dignas condições de vida; a cruz da fome, do desemprego, da falta de saúde, da exclusão.
Na ceia eucarística, tomamos parte na ceia do Cordeiro que, morrendo, destruiu a morte e, ressurgindo, deu a vida nova a todos. Jesus, Cordeiro conduzido ao matadouro, é o Messias não-violento. A assembléia que se reúne para celebrar a eucaristia é, ela mesma, a reunião do povo que por força da fé se empenha nas causas da não-violência e da concórdia entre as pessoas. É o povo que o Cristo resgatou quando, por sua morte, destruiu o muro que separava o povo pagão e o povo judeu e estabeleceu a concórdia (cf. Efésios 2,14-18).
Participar da mesa do Senhor, comer o pão e beber o cálice, Corpo e Sangue do Senhor, entregue por nós, é participar do seu destino: do sofrimento, da morte na cruz e da glória da ressurreição. "O cálice de bênção pelo qual damos graças é a comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é a comunhão no Corpo do Senhor" (Antífona de comunhão).
São João Crisóstomo lembra aos fiéis de Antioquia a unidade misteriosa existente entre a eucaristia celebrada e a eucaristia vivida, e recomendada. "Não deixem o altar da eucaristia a não ser para ir ao altar dos pobres. Pois o mesmo corpo de Cristo que servimos no memorial de sua paixão e de sua ressurreição é o que temos agora de servir na pessoa dos pobres. O altar é também o símbolo da mesa do festim, da hospitalidade divina para o qual todos os homens são convidados. Enquanto na eucaristia tudo recebemos ao comungar o Corpo e o Sangue de Cristo, no altar dos pobres temos de corresponder, de dividir o dom recebido, temos de fazer a doação de nós mesmos" (cf. Corbon, J. Liturgia da fonte. São Paulo, Paulinas, 1992.pg. 187).
padre Benedito Mazeti



O Cristo dos desiludidos!
Com certeza esse evangelho do 24º domingo do tempo comum, traz em nosso coração essa pergunta tão inquietante: O que significa perder a vida por causa de Jesus e do seu evangelho? Quem é Jesus, e o que significa a afirmativa de que é preciso “Perder para ganhar”?
Nos primeiros três séculos da Igreja primitiva, quando o cristianismo não estava atrelado ao Império, tivemos centenas de mártires que derramaram seu sangue na arena, por causa do testemunho. Nas comunidades de Marcos a perseguição do império romano era muito intensa e os que eram pegos e não renunciavam a fé em Jesus, eram presos e acabavam também mortos. Na América Latina não foram poucos os mártires, que tombaram defendendo o direito e a justiça do povo sofrido e injustiçado.
Será que é deles que o evangelho está falando, no sentido literal? Será que não podemos aplicar hoje ás pessoas de nossas comunidades essa expressão, de que elas também perdem a vida por causa de Cristo e do seu evangelho? Em certo sentido, é muito válido dizer que nossos agentes de pastorais, perdem a vida, quando se dedicam a tantos trabalhos estafantes, muitos até nem vivem mais para si mesmo, mas organizam suas vidas a partir da comunidade, e fazem isso com muita alegria e seriedade. Deixar de lado os interesses pessoais, para dedicar-se ao trabalho pastoral, sem dúvida é também perder a vida.
Entretanto, não é apenas isso, porque muitas vezes recebemos algo em troca, e nesse caso, se ganhamos e não estamos perdendo, o evangelho não se aplica, ainda que haja uma roupagem de trabalho pastoral, mas é só roupagem, pois no fundo a gente se apega ao cargo, ao poder, que sempre nos fascina, nas comunidades há certos coordenadores que “mandam” até mais que o padre, e o poder satisfaz ao nosso “ego”.
Jesus havia se dado conta de que a visão sobre o seu Messianismo, era equivocada. Com o objetivo de fazer a necessária correção, fez uma prova oral com seus discípulos, primeiro eles são indagados sobre o que o povão pensa a respeito dele, e ao saber que o povo o confundia com João Batista, Elias ou um dos profetas, parece que Jesus não demonstrou nenhuma preocupação, e foi direto ao assunto que mais lhe interessava: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. A resposta de Pedro foi corretíssima “Tu és o Messias!”. A questão é saber, de que Messias Pedro estava falando. Por isso, em seguida, Jesus revela o sentido do seu messianismo, que irá se consolidar no sofrimento, na rejeição, na morte e ressurreição.
Na visão de Pedro, no Messianismo de Jesus tudo vai dar certo e as coisas vão se resolver, as contas irão fechar, pois Jesus irá por ordem na casa, com o seu poder divino. Ninguém irá resisti-lo... Não é essa a ilusão que toma conta do coração de muitos cristãos em nossas comunidades? O Jesus do “tudo certo”, do “mar de rosas”, da “doce paz, da saúde, da prosperidade”, o Jesus da reviravolta, que só me dá vitória em cima de vitória, o Jesus que sempre me tira dos “enroscos” da vida. Esse não é o Jesus do Evangelho, mas o Cristo dos desiludidos!
Encontrar sempre respostas prontas, caminhos largos, problemas resolvidos, portas abertas, nunca foi e nem será uma característica do cristianismo. Anunciar um Jesus assim é trair o projeto de Deus, é falsificar o evangelho, é ser Satanás, aquele que se opõe ao Reino do Céu. Infelizmente na pós-modernidade, muitas igrejas, sem raiz, sem história e nem tradição, idealizaram um Jesus produto do consumo, um Cristo que só abençoa os ricos e poderosos. Nessa teologia de fundo de quintal, os dois últimos versículos do evangelho desse domingo, são deixados de lado, pois não falam a linguagem da pós modernidade. Quem irá, nos dias de hoje, fazer marketing de um projeto que implique renúncia, cruz e sofrimento? Um projeto cuja proposta de Salvação seja pautada pelo desprezo á própria vida, deixando de lado até interesses particulares.
Proposta de Salvação que não fale em vitória, em sucesso, em prosperidade, não dá IBOPE, não lota templo, não dá audiência. Qualquer marqueteiro da atualidade teria a mesma reação de Pedro e repreenderia Jesus... Onde já se viu, começar um projeto prenunciando o fracasso da cruz?
O Messianismo de Jesus vislumbra sim, um mundo totalmente novo, mas ele não descarta a aspereza do caminho, as pedras do calvário, os penhascos, os espinhos, a ousadia de um sonho, que vai se construindo com os pés no chão da história, vivendo já no coração os valores desse reino que virá. O autêntico discípulo é aquele que, vislumbrando esse reino, descobre-o presente em Jesus que caminha com a sua igreja, e passa a viver cada minuto, hora e dia, apenas em função desse projeto, menosprezando todo e qualquer valor ou ideologia, que o mundo possa oferecer, porque crê sinceramente que nada é maior ou mais importante do que Cristo e a Boa Nova do Evangelho. É exatamente assim que o quadro se reverte, e a perda se transforma em ganho, como ensina o evangelho...
diácono José da Cruz



1 – "O que tu és fala tão alto que mal consigo ouvir o que tu dizes". É uma frase que escutei, em "Técnicas de comunicação", há uma dúzia de anos e pertencerá a Ralph Waldo Emerson. Imediatamente nos diz que somos mais do que aquilo que dizemos. Por vezes não precisamos de falar para que as nossas atitudes, postura, os nossos gestos digam, falem, gritem por nós! Positiva e negativamente. Podemos dizer uma coisa com os lábios e com a expressividade do corpo dizer outra diferente. As palavras são importantes, aproximam-nos, humanizam-nos, aprofundam os laços que nos unem. Todavia, as palavras podem atraiçoar o que queremos comunicar ou, desde logo, o que somos. Uma pessoa pode dizer um disparate e isso não definir a pessoa, ela é o que diz, mas é muito mais do que as palavras que profere, é o que é também pelas palavras que não diz, pelos silêncios, pelos gestos que faz!
A segunda leitura, da Epístola de São Tiago, lembra-nos precisamente como expressar, como dizer, como transparecer, como testemunhar Jesus, como tornar visível a fé professada, como mostrar a nossa ligação ao Deus de Jesus Cristo. A fé é o ponto de partida. É pela fé que Deus vem até nós, é a fé que nos permite ver Deus em Jesus e ver Deus no nosso semelhante. Mas não é uma fé (somente) minha, exclusiva, intimista, de trazer por casa, feita à minha medida, mas a fé em Jesus, a fé de Jesus, vivida em comunidade. Quando alguém diz "eu cá tenho a minha fé", das duas uma, ou está a desculpar-se por andar arredado da vida comunitária, ou não faz a mínima ideia do que significa ser cristão (talvez possa ser crente, mas crente todos somos e cremos em tantas coisas que nem ao diabo lembra!).
A fé é acolhimento pessoal, encontro com Jesus, morto e ressuscitado, mas vive-se na relação concreta com o outro, na comunidade e na caridade. São muito significativas a palavras do apóstolo: “De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta”.
Tiago clarifica bem a fé cristã. Se O seguimos, se O amamos, se acreditamos n'Ele, então imitemo-l'O, na opção preferencial pelos mais pobres. "Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé".
2 – São Tiago ajuda-nos a responder à pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Agora é Pedro que responde, inspirado pelo Pai, em seu e nosso nome: «Tu és o Messias».
Estamos ainda numa fase muito precoce do discipulado. Depois desta confissão de fé vamos perceber que os discípulos ainda não perceberam o que significa seguir Jesus. As disputas entre eles far-se-ão notar, mesmo que em surdina. Hão de ouvir Jesus a dizer-lhes que quem quiser ser o primeiro será o último e o servo de todos.
Regressemos ao Evangelho. Jesus segue com os Seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. São Marcos dá-nos conta da missão evangelizadora de Jesus, mostrando-O em movimento, por aldeias e cidades, na Judeia e na Galileia, e em outras terras mais distante, algumas fora da "fronteira" religiosa do judaísmo. O caminho, para Jesus, não é apenas um meio de passagem de uma a outra povoação, é também lugar de encontro, de diálogo e de ensino. Ele caminha connosco, vem ao nosso encontro onde quer que nos encontremos para se tornar Ele mesmo o Caminho que nos conduz ao Pai.
Há ocasiões em que Jesus os deixa os discípulos falar sozinhos ou murmurar e só em casa lhes responde ou os repreende ou lhes explica alguma parábola. Hoje é durante o caminho que Jesus lhes pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». E a resposta é imediata: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Quer a pergunta quer a resposta não nos implicam, pois apontam para o que os outros dizem e pensam. É uma sondagem sobre a opinião pública. Mas logo Jesus lhes arremessa com outra pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
3 – Esta questão é mais pessoal. Cabe a cada um responder a Jesus. Não esqueçamos que a fé tem sempre duas dimensões, a pessoal e a comunitária. Não é uma fé abstrata, da multidão, é uma fé que resulta de um encontro, cada um de nós com Jesus, e que implica a conversão ao Seu evangelho. Obviamente, se professamos a fé em Jesus Cristo, pessoalmente, seremos impelidos para a comunidade, para junto daqueles que professam a mesma fé, adoram o mesmo Pai, se alimentam do mesmo Espírito!
Pedro toma a dianteira e responde firme: Tu és o Messias. Partindo daqui, Jesus clarifica as coordenadas da Sua missão e as consequências decorrentes das Suas opções, dizendo-lhes que se aproximam tempos conturbados em que o Filho do Homem, o Messias, vai sofrer muito, vai ser rejeitado pelas autoridades (religiosas) e vai ser morto. E, três dias depois, ressuscitará. Depois de notícias preocupantes, já não sobra espaço no nosso coração para escutarmos o que há de positivo!
Perante a clareza com que Jesus fala na Sua morte, Pedro volta a intervir, já não diante dos outros apóstolos, mas à parte, repreendendo-O por dizer tais coisas. É a vez de Jesus o confrontar com os seus interesses: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens».
Para Pedro era inconcebível que o Messias, o Filho de Deus, pudesse sofrer às mãos dos homens. De repente, parece que os seus planos começam a ficar estragados e as expetativas colocados no Mestre parecem não fazer sentido. Contudo, é preciso, ainda assim, remediar a situação e evitar que Jesus diga aquelas coisas, pois isso vai afastar a multidão. É o medo de Pedro, e o nosso também, mas não a postura de Jesus, o Mestre da Sensibilidade.
4 – Seguimos Jesus porque nos deixamos encontrar por Ele e a Ele nos convertemos de todo o coração, sabendo que a nossa vida não fica mais facilitada por isso, quando muito a nossa vida fica absorvida na d’Ele, até à eternidade. Se O seguimos, sujeitamo-nos ao que Ele Se sujeitou, a ser injuriado, preso, maltratado e até morto.
Vale para os discípulos presentes e futuros. No diálogo anterior Jesus voltou-Se sobretudo para os discípulos, agora dirige-se a todos, à multidão com os seus discípulos dentro: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».
Pontos nos “is”, tudo em pratos limpos. O seguimento exige tudo de nós, a nossa vida por inteiro, com as suas dificuldades, contratempos, sonhos e projetos, conquistas e fracassos. É pegar na nossa cruz, na certeza que o que se ganha é o que se investe no cuidado e no serviço aos outros, gastando-se totalmente, como faz Jesus, até ao último fôlego, até ao último suspiro. Agora entende-se melhor a pergunta feita por Jesus a cada um de nós. Sabendo o que nos espera se O seguirmos, até que ponto estamos dispostos a testemuhá-l’O e a transparecê-l’O na nossa vida? Pedro professa a fé em Jesus, o Cristo! Tiago revela que a fé se diz (também) com a vida, com as obras. Melhor, a fé que nos une a Jesus Cristo, e em Jesus ao Pai, pelo Espírito Santo, é a mesma fé que nos irmana e nos compromete com todos.
Nem sempre será como desejaríamos. Vale para todos. Nesses momentos façamos também como Jesus, procuremos a sabedoria e a ousadia na oração. «Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração» (coleta).
5 – O profeta Isaías antecipa o mistério da entrega do Messias que está para vir! Palavras que, a posteriori, encaixam em Jesus: «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra e sei que não ficarei desiludido. O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?»
Este é um texto lido na proximidade da Páscoa, precisamente por apontar Jesus como o Servo sofredor, o Cordeiro inocente levado ao matadouro, explicitando os contornos da Sua oferenda pascal. Por um lado, a fidelidade ao projeto de amor, apesar da violência com que é tratado e, por outro, a certeza que Deus virá em Seu auxílio também em momentos de extremo sofrimento. O salmo permite a mesma leitura: «Apertaram-me os laços da morte, caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor. Então invoquei o Senhor: ‘Senhor, salvai a minha alma’. O Senhor guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me».
Hoje cabe-nos, a cada um, enfrentando os seus medos e contratempos, falar de Jesus, dizer Jesus em palavras e obras, anunciar Jesus a todos os que encontrarmos na nossa vida, com audácia, alegria e generosidade.



1 – A epístola de São Tiago, segunda leitura, lavra a ligação íntima e fundamental entre a fé e a vida. O apóstolo exemplifica com situações concretas, reais e exequíveis.
A religião e a fé em Cristo Jesus compromete-nos com as pessoas que vivem à nossa beira. Assim, o serviço aos mais desfavorecidos (aos órfãos e às viúvas) é inevitável na vivência autêntica da fé, assim como a “não acessão” de pessoas. Hoje, o apóstolo remete para mais uma situação classificadora. Vale a pena ler atentamente: 
“De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhe disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé”.
A fé autêntica, a que recebemos de Jesus Cristo, conduz-nos aos outros. Todos somos irmãos. Somos todos filhos de Deus. Quando mais estivermos vinculados a Deus, na oração, na escuta e reflexão da palavra de Deus, tanto mais estaremos ligados e comprometidos com aqueles que Deus colocou na nossa vida, para os servirmos como irmãos, para os acolhermos como presença de Deus.
2 – Tudo começa n'Ele. A nossa vida. A nossa fé. A nossa conversão. Em Jesus Cristo, Deus vem ao nosso encontro, entra na nossa história, abre-nos as portas do Céu, reconcilia-nos com Ele, com os outros, com o mundo. Jesus clarifica o CAMINHO para Deus, precisamente com o serviço caritativo aos outros. Não vamos sós. Não estamos sós. Não nos salvamos sozinhos. Ele precede-nos. Dá o exemplo. Vive conosco no meio de nós. Atrai-nos com as palavras e com o pão, com a voz e com a Sua vida feita oração ao Pai e oferenda à humanidade.
Não há compromisso social puro, autêntico, libertador, se antes não se der um encontro transformador com Jesus Cristo. A fé é DOM recebido, acolhido e aprofundado na partilha. A fé há de levar-nos a imitá-l'O, pelo que nos compromete nas obras, como expressão, visualização, e comprovação da nossa adesão firme a Jesus e ao Seu Evangelho de caridade.
Tudo se inicia em Jesus. Ele desce de Deus e traz-nos Deus. Mas não Se impõe. Cabe-nos acolher a nossa vocação, o Seu chamamento. Cabe-nos escolher o caminho que nos guia ao CAMINHO. Cabe-nos, livremente, aceitar a salvação que Ele nos dá, deixarmos que a nossa vida se transforme por inteiro, interior e exteriormente, e sermos portadores desta boa notícia em nós, pelas palavras, pela profissão de fé, pela vida, pelas obras que resultam da nossa conversão a Jesus e do amor que nos habita, pelo Seu Santo Espírito.
3 – É nesta lógica que Jesus exige de nós uma clara decisão. Não Se impõe mas propõe um caminho. Confronta-nos com a nossa escolha. Ainda que sejamos peregrinos, em conversão permanente, somos impelidos a responder por nós e com a nossa vida.
Pergunta-nos Jesus, como o fez aos discípulos daquele tempo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Não basta a opinião dos outros. Não vale responder com o que ouvimos dizer, ou com a opinião corrente. Jesus pergunta-lhes e pergunta-nos: «Quem dizem os homens que Eu sou?» As respostas podem ser variadas: João Baptista; Elias; um dos profetas…
Mas chega um momento em que se tornam insuficientes as respostas dos outros, precisamos de responder por nós. Quem é Jesus para mim? Que importância tem na minha vida? De que forma influencia as minhas escolhas na minha relação com os outros, com o mundo e comigo mesmo? Toca a minha alma? Mobiliza-me para a comunhão e para a comunidade? Posso dizer com Pedro: «Tu és o Messias», o enviado de Deus? És Deus para mim? És a minha salvação, a minha vida, o meu conforto e o meu descanso? És a minha bússola, o meu norte?
É a nós que Jesus interroga – E vós quem dizeis que Eu sou? –. Que resposta dar? Não assobiemos para o lado como se não fosse nada conosco. É conosco que Jesus está a falar. “Deixai fazer, deixai ir, deixar passar” (laissez faire, laissez aller, laissez passer), pode valer para a economia de mercado, na não (ou na pouca) intervenção do Estado, e que pelos vistos não está a ter grande sucesso, mas definitivamente não vale na economia da Salvação. Deus age, vem, coloca-Se à nossa disposição e pede-nos uma resposta ao Seu projeto de salvação, conta conosco.
4 – Jesus conta conosco mas não contemos com a vida facilitada. Aliás, sublinhe-se desde logo, quem segue um caminho de honestidade e de trabalho cedo descobrirá escolhos e inimigos. Não se pode agradar a toda a gente. «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».
Jesus anuncia tempos conturbados: o Filho do homem terá sofrer muito, será rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos escribas; será morto e ressuscitará três dias depois. O sucesso da Sua missão não se vê claramente. Com clareza vê-se que o prosseguimento da Sua missão, do Seu amor, O levará muito rapidamente à morte.
A contestação de Pedro é expressiva. Depois da sua confissão de fé, não entende que o desfecho não seja de todo positivo e atraente. É o fim das expectativas dos discípulos. E eles que pensavam que o reino de Deus seria imposto sem baixas e sem sofrimento, sem custo e sem esforço! E afinal vai custar pelo menos a vida do Mestre.
E para que não restem dúvidas, as palavras de Jesus a Pedro são classificadoras: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens»...
5 – Perante as palavras de Jesus, não cabem respostas evasivas. Importa responder com a nossa vida. O caminho pode apresentar dificuldades, mas Ele está do nosso lado. E se está por nós, ninguém nos poderá separar do Seu amor. No sofrimento, na doença, na fragilidade, o que precisamos, muitas vezes, não é que sofram por nós ou nos tirem todas as dores, ou anulem a nossa sensibilidade, mas que possamos contar com um olhar confiante e confidente e nos garantam que não estamos sós, que não nos abandonam, que nos compreendem e que sabem da nossa vulnerabilidade e a aceitam como caminho.
A Palavra de Deus não promete vida fácil, mas promete a presença permanente de Deus. O Seu olhar não se desviará do nosso, como na Cruz não se desprendeu da Mãe e não se desprendeu do Pai e não se desprendeu de nós. Por isso Ele nos dá Maria por Mãe, para que no seu olhar maternal descubramos e encontremos o olhar confiante e confidente de Deus e a certeza que nem a morte destruirá a nossa vida. Como rezamos com o salmo: “Livrou da morte a minha alma, das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés. Andarei na presença do Senhor, sobre a terra dos vivos... O Senhor guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me”.
Ou como visualiza o profeta Isaías:
“O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado… O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?”
A certeza que Deus vem salvar-nos, anima-nos a caminhar, conforta-nos, atrai-nos, puxa-nos para a frente e para cima. Compromete-nos. Abre-nos a Céu. Ilumina o nosso esforço e o nosso olhar. Não nos deixa desistir.
padre Manuel Gonçalves



Fator de identidade cristã
1ª leitura: Isaías 50, 5-9
Entrega e decisão a Deus e aos seus
1. Estamos perante um dos famosos cantos do Servo de Iavé (cf. Is. 42; 49; 52-53), um dos momentos teológicos mais altos do Antigo Testamento, de todos os pontos de vista. Pertencem à segunda parte do livro de Isaías, ao chamado Deutero-Isaías (40-55), em que aparece aquele misterioso personagem que encontra o sentido para a sua missão, apoiando-se na Palavra de Deus. Se, na primeira parte do livro da consolação se pensava que o imperador Ciro (imperador persa) seria o eleito de Deus por libertar o seu povo, (pois assinou o decreto de regresso à Babilônia), a partir do momento em que aparece a figura do Servo, já não será necessário apoiar-se num rei ou imperador humano para a liberdade que Deus oferece ao seu povo. As ressonâncias destes famosos "cantos do Servo" são evidentes no Novo Testamento.
2. Por isso mesmo, a fidelidade a Deus, a escuta atenta da sua Palavra, para além de todas as afrontas que deve sofrer, tornam evidentes o mistério da dor como capacidade que se deve ter face a toda a violência. Os perfis destes personagens não estão definidos, nem é claro se se fala de um indivíduo ou do próprio povo que tem de se manter atento à Palavra de Deus. Mas os cristãos souberam aplicá-lo a Cristo, porque encontraram neste descrição do Servo uma semelhança inigualável com a vida de Jesus – o que, para o judaísmo oficial e a sua teologia não podia ser messiânico, para os cristãos, depois da paixão e ressurreição, prenuncia o Messias que conseguiu carregar aos ombros os sofrimentos do povo e do mundo inteiro.
2ª leitura: Epístola de Tiago 2,14-18
Fé verdadeira e compromisso cristão
1. A segunda leitura (epístola de são Tiago 2,14-18) confronta-nos de novo com a parenesis ou práxis da vida cristã. Estamos perante uma das passagens mais determinantes deste documento em que se viu uma polêmica com a teologia da fé de Paulo. Disse-se que é a parte mais importante da carta, porque se quer demonstrar que, na vida cristã, a fé sem obras não leva a lado nenhum. Isto é absolutamente irrenunciável, e a ninguém, e muito menos a Paulo se lhe poderia passar pela cabeça qualquer coisa assim como "crê e peca muito". Esta falácia não é de Lutero, mas da lenda dos mal pensantes. Crer é confiar verdadeiramente no Deus da graça. Mas é possível que alguns quisessem pôr Paulo à prova nalguma comunidade cristã e este escrito posterior procura colocar as coisas no seu lugar.
2.O confronto não é entre Tiago e Paulo, mas entre interpretações que provocam equívocos. Paulo, é verdade, colocou a fé em Jesus Cristo como princípio de salvação, e isso é axiomático (elementar e decisivo) no cristianismo perante a Lei judaica; porque a salvação não pode vir senão de Jesus Cristo, em nenhum caso da Lei e dos seus preceitos (isto também é elementarmente cristão). Mas a fé leva aos compromissos mais radicais, por causa da graça da salvação. Pelo contrário, o cristianismo seria absurdo, porque o cristianismo não é uma ideologia, mas uma práxis verdadeira para transformar o coração dos homens.
Evangelho: Marcos: 8,27-35
Seguir Jesus com a nossa cruz
1. O Evangelho apresenta-nos um momento determinante da vida de Jesus no qual Ele tem de explicar aos seus e aos que continuavam com Ele as razões da sua identidade para O seguirem: para onde vão? A quem seguem? O texto do Evangelho tem, pois, quatro momentos muito precisos: a intenção de Jesus e a confissão messiânica de Pedro, em nome dos discípulos (vv. 27-30); o primeiro anúncio da paixão (v. 31); a repreensão de Jesus a Pedro e aos discípulos por pretenderem um messianismo que não se enquadra no projeto de Deus (vv. 32-33), que Jesus assume até às últimas consequências, como o próprio Servo de Iavé, e, finalmente, as afirmações feitas sobre a decisão de seguirem Jesus (vv. 34-37). Este é um dos momentos mais altos da narração do Evangelho de Marcos. Consumou-se a crise na Galileia e a decisão de seguir Jesus revela-se abertamente na sua radicalidade. A Galileia foi um crisol…agora estão à prova os que ficaram e cujas carências são manifestas nesta confissão messiânica. Por isso as palavras sobre a opção de seguirem Jesus são para toda a gente e não só para os seus discípulos. É o momento de começar o caminho para Jerusalém, com tudo o que isso significa para Jesus no seu projeto do anúncio do Reino.
2 Pedro considera que confessá-l'O como Messias seria o mais acertado, mas o Jesus de Marcos não aceita um título que pode prestar-se a equívocos. Ele, o Messias, era esperado por todos os grupos e todos acreditavam que seria o libertador político do povo. Jesus sabe que nem o seu caminho nem as suas opções são políticas, porque não estão aí os fundamentos do Reino de Deus que Ele pregou. Por isso, para esclarecer o assunto faz o primeiro anúncio da paixão. Deste modo deixará claro que o seu messianismo, pelo menos, não seria como o esperavam os judeus e, ao mesmo tempo, os seus discípulos deviam aprender a esperar outra coisa. Já Jesus via claramente que a sua vida em Deus devia passar pela morte. Não porque Deus quisesse ou desejasse essa morte. O Deus Abbá não podia querer isso. Mas os homens não deram outra alternativa a Jesus, em nome do seu Deus.
3.A repreensão de Jesus a Pedro, uma das mais duras do Evangelho, porque a sua mentalidade é igual à de todos os homens e não à da vontade de Deus, é bastante significativa. Jesus ensina-lhes que o seu papel messiânico é dar a vida pelos outros, perdê-la na cruz. É isso que pede aos que o seguem, porque neste mundo triunfar é uma obsessão; mas perder a vida para que os outros vivam só de Deus se aprende, porque Ele Se entrega sem medida. O triunfo cristão consiste em saber entregar-se aos outros. Não sabemos se Jesus pôde falar directamente da cruz ou estas afirmações estão um pouco retocadas por causa do que ocorreu em Jerusalém com a morte histórica de Jesus, sendo crucificado sob Pôncio Pilatos que decidiu aquele tipo de morte. Mas Jesus já contava com a morte, não via outra saída.
4. Por isso, nos escritos, a cruz é a própria vida. A nossa própria vida, a nossa maneira de sentir o amor e a graça, o perdão e a misericórdia, a ternura e a confiança na Verdade e em Deus como Pai. Isto é "uma cruz" neste mundo de poder e de ignomínia. A cruz não é um madeiro, embora para os cristãos seja um sinal muito sagrado. A cruz está na vida: em amar os que nos odeiam; em perdoar perante a vingança. Esta é uma cruz porque o mundo quer que seja uma cruz, não apenas um madeiro. A cruz da nossa vida, a nossa cruz ("tome a sua cruz" diz Jesus) sem pretender ser o que não devemos sem nos vangloriarmos a nós mesmos. A cruz é a vida para os que sabem perder, para os que sabem apostar. Por esta razão se pode dizer em sentido cristão "levar a nossa cruz" e não devemos envergonharmos por isso. Não porque o nosso Deus queira o sofrimento… mas o sofrimento dos que lhe dão sentido à sua vida, diante do mundo, vem a ser o sinal de identidade daqueles que verdadeiramente seguem Jesus.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro



E vós, quem dizeis que eu sou?
“A liturgia nos convida a dar nosso testemunho a respeito de quem é Jesus. Ele quer ouvir o que pensamos e dizemos dele. Não bastam as respostas dos outros; cabe a cada um dar a sua resposta pessoal por meio de uma fé viva e operante. Queremos seguir nosso mestre na fidelidade e empenhar a vida pela causa do evangelho.”
Quem é Jesus para mim? Qual o lugar que Ele tem ocupado em minha vida? Tenho caminhado segundo sua Palavra? Tenho carregado minha cruz e seguido Jesus?

Versículos de 27 a 30
“Jesus saiu com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe, e pelo caminho perguntou-lhes: Quem dizem os homens que eu sou?  Responderam-lhe os discípulos: João Batista; outros, Elias; outros, um dos profetas.  Então perguntou-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Pedro: Tu és o Cristo. E ordenou-lhes severamente que a ninguém dissessem nada a respeito dele”.
“Quem dizem os homens que eu sou?”- O Beato João Paulo II disse assim: “Qual é o significado deste diálogo? Porque é que Jesus quer ouvir o que os homens pensam d’Ele? Porque deseja saber o que pensam d’Ele os seus discípulos? Jesus quer que os discípulos tomem consciência do que está escondido na sua mente e no seu coração e que exprimam a sua convicção. Ao mesmo tempo, porém, Ele sabe que o juízo que vão manifestar não será apenas obra deles, porque no mesmo há-de revelar-se aquilo que o Pai derramou nos seus corações com a graça da fé”.
“Então perguntou-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou?” -O beato João Paulo II disse que “a pergunta brota do próprio coração de Jesus. Aquele que abre o próprio coração, quer que a pessoa que está à Sua frente não responda apenas com a mente. A pergunta proveniente do coração de Jesus deve tocar os nossos corações! Quem sou Eu para vós? O que represento Eu para vós? Conheceis-Me verdadeiramente? Sois as minhas testemunhas? Amais-Me?”E a nossa resposta ao Senhor é a mesma de Pedro? Cremos no Senhor Jesus em seu poder e misericórdia? Cremos que Ele nos ama ao ponto de ter morrido na cruz para o perdão de nossos pecados?Cremos que Jesus é o único Caminho pra se chegar à morada celeste? “ Quem é Jesus para mim? Qual o lugar que Ele tem ocupado em minha vida? É de Deus, o Senhor ,redentor da humanidade ? Tenho caminhado segundo sua Palavra?
“Respondeu Pedro: Tu és o Cristo” - O beato João Paulo II disse que “Cristo vê na alma de Simão. Parece que admira a obra nela realizada pelo Pai, mediante o Espírito Santo: eis que, confessando a verdade revelada sobre a filiação divina do Seu Mestre, Simão torna-se participante do divino Conhecimento, daquela imperscrutável Ciência que o Pai tem do Filho, tal como o Filho a tem do Pai”.
O papa Bento XVI também ensinou: “Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e também de nós, crentes de todos os tempos”.

Versículos de 31 a 33
“E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muito, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse depois de três dias. E falava-lhes abertamente dessas coisas. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo.  Mas, voltando-se ele, olhou para os seus discípulos e repreendeu a Pedro: Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens”. 
“Era necessário que o Filho do homem padecesse muito”- O Papa Bento XVI disse que “no Evangelho de hoje, Jesus explica aos seus discípulos que deverá «ir a Jerusalém e sofrer muito por parte dos anciãos e dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar» (Mt 16, 21). Tudo parece inverter-se no coração dos discípulos! Como é possível que «Cristo, o Filho de Deus vivo» (v. 16), possa sofrer até à morte?”
O Catecismo (571 e 572) ensina: “O desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Hb. 9,26) pela morte redentora do seu Filho Jesus Cristo. «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto, para entrar na sua glória?» (Lc 24, 26). Os sofrimentos de Jesus tomaram a sua forma histórica concreta, pelo fato de Ele ter sido «rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas» (Mc 8, 31), que «O entregaram aos pagãos para ser escarnecido, flagelado e crucificado”.
Jesus repreendeu a Pedro - O papa Bento XVI também disse: “Perto de Cesareia de Filipe, Pedro não quisera aceitar que Jesus tivesse de sofrer e ser crucificado: não era conciliável com a sua imagem de Deus e do Messias… É evidente a divergência entre o desígnio de amor do Pai, que chega até ao dom do Filho Unigênito na cruz para salvar a humanidade, e as expectativas, os desejos, os projetos dos discípulos… Pensar segundo o mundo significa pôr Deus de lado, não aceitar o seu projeto de amor, impedir-lhe quase de realizar o seu querer sábio. Por isso Jesus diz a Pedro uma palavra particularmente dura: «Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo”.

Versículos de 34 a 35
“Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.  Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á”. 
O beato João Paulo II disse:  “Vós sabeis que aderir a Cristo é uma opção exigente. Jesus não fala por acaso de “cruz”. Contudo, Ele esclarece imediatamente:  “após mim”. É esta a grande palavra:  não carregamos sozinhos a cruz. Diante de nós caminha Ele, abrindo-nos a estrada com a luz do seu exemplo e com a força do seu amor…Carregar a cruz seguindo Cristo significa estar dispostos a fazer qualquer sacrifício por amor a Ele. Significa não pôr nada nem ninguém antes d’Ele, nem mesmo as pessoas mais queridas, nem sequer a própria vida”.
Santo Agostinho:  “De fato, ninguém pode atravessar o mar do século presente, se não é levado pela cruz de Cristo… Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará”.
O papa Bento XVI ensinou: “O cristão segue o Senhor quando aceita com amor a própria cruz, que aos olhos do mundo parece uma derrota e uma «perda da vida» (cf. vv. 25-26), sabendo que não a carrega sozinho, mas com Jesus, partilhando o seu mesmo caminho de doação”. Seguir a Cristo é doar-se. Seguir a Cristo é renunciar a si. Seguir a Cristo é dizer como são Paulo:  “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”.
Conclusão
Concluímos com as palavras do beato João Paulo II: “No supremo «sim» de Maria resplandece a esperança confiante no misterioso futuro, iniciado com a morte do Filho crucificado. As expressões com que Jesus, no caminho rumo a Jerusalém, ensinava aos discípulos «que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias» (Mc. 8,31), ressoam-lhe no coração na hora dramática do Calvário, suscitando a expectativa e o desejo da ressurreição”.
Jane Amábile



O texto do Evangelho do 24º domingo do tempo comum apresenta-nos o primeiro anúncio feito aos discípulos da paixão e morte de Jesus e a tentativa de Pedro de eliminar a cruz e o ensinamento de Jesus acerca das consequências da cruz para a vida dos seus discípulos.
Pedro não entende a proposta de Jesus sobre a cruz e o sofrimento. Ele aceitava Jesus Messias mas não um Messias sofredor. Estava condicionado pela propaganda do governo da época que falava do Messias mas só em termos de rei glorioso. Pedro parecia um cego. Não via nada e queria que Jesus fosse como ele desejava e imaginava. Hoje também nós acreditamos em Jesus mas nem todos o entendemos do mesmo modo. Quem é Jesus para mim? Qual é hoje a imagem mais difundida que as pessoas têm de Jesus? Há hoje uma propaganda que pretende interferir no nosso modo de ver Jesus? Quem sou eu para Jesus?
Contexto de ontem e de hoje
De Marcos 8,27 até Marcos 10,45 há uma longa instrução de Jesus dirigida aos seus discípulos. Tanto no início como no final desta instrução, Marcos coloca a cura de dois cegos: 8,22-26 e Marcos 10,46-52. No início a cura do cego não foi fácil e Jesus teve que o curar em duas fases. Também foi difícil a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que explicar longamente o significado da cruz para que os seus discípulos a aceitassem a realidade, porque era a cruz que provocava a sua cegueira. A cura do cego Bartimeu é fruto da fé em Jesus. Este acontecimento sugere o ideal do discípulo: acreditar em Jesus e aceitá-lo como é, e não como eu o quero ou o imagino.
Nos anos 70, quando Marcos escreve, a situação da comunidade não era fácil. Havia muito sofrimento, as cruzes eram muitas. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero decretara a primeira perseguição, causando a morte a muitos cristãos. No ano 70, na Palestina, Jerusalém era destruída pelos romanos. Noutros países a tensão entre judeus convertidos e judeus não convertidos começava a aparecer e crescia. Mas a a dificuldade maior era a cruz de Jesus. Os judeus pensavam que um crucificado não podia ser o Messias tão esperado por todos, porque a lei afirmava que aquele que fosse crucificado deveria ser considerado como um maldito de Deus (Dt. 21,22-23).
Comentário do texto
Marcos 8,22-26: cura do cego.
Levam a Jesus um cego e pedem que o cure. Jesus cura-o mas a cura não acontece logo de imediato. Primeiro Jesus condu-lo para fora da aldeia, coloca-lhe saliva nos olhos, impõe-lhe as mãos e diz-lhe: “Vês algo?” O homem respondeu: “Vejo homens que se parecem como árvores que andam!” Via só uma parte. O que eram árvores via como pessoas e o que eram pessoas via como árvores. Só numa segunda tentativa é que Jesus cura o cego e proíbe-o de entrar na aldeia. Jesus não quer uma propaganda fácil. Esta descrição da cura do cego é uma introdução à instrução que será dada depois aos discípulos, porque na realidade eram cegos. E a cegueira dos discípulos é curada por Jesus mas não logo de início. Eles aceitam Jesus como Messias, mas só como Messias glorioso. Viam só uma parte. Não queriam o compromisso da cruz. Trocavam as árvores por pessoas!

Marcos 8,27-30 - VER a descoberta da realidade.
Jesus pergunta: “Quem dizem as pessoas que eu sou?”. Eles respondem indicando as diversas opiniões das pessoas: “João Baptista”, “Elias, ou um dos profetas”. Jesus quer a resposta deles: “E vós quem dizeis que eu sou?” Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Messias!” Ou seja: “O Senhor a quem as pessoas esperam”. Jesus está de acordo com Pedro mas proíbe-o de falar disto. Qual a razão da proibição? Porque, cada um a seu modo, esperava a vinda do Messias, segundo a classe e a posição social que ocupava: alguns esperavam-no como rei, outros como sacerdote, doutor, guerreiro, juiz ou profeta. Parecia que ninguém o esperava como o Messias servo anunciado por Isaías (Is. 42,1-9).

Marcos 8,31-33 - JULGAR: esclarecimento da situação e primeiro anúncio da paixão.
Jesus começa a ensinar que Ele é o Messias servo anunciado por Isaías, e que será preso e morto no exercício da sua missão de justiça (Is. 49,4-9; 53,1-12). Pedro fica cheio de medo e chamando Jesus à parte desaconselha-o a seguir por essa via. E Jesus responde a Pedro:“Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens”. Pedro pensava que tinha dado a resposta certa. Embora tenha pronunciado a palavra justa contudo ao dizer “Tu és o Cristo” mas não dá a esta palavra o significado justo. Pedro não entende Jesus. É como o cego de Betsaida. Trocava as pessoas por árvores. A resposta de Jesus foi duríssima. Chama a Pedro de Satanás. Satanás é uma palavra hebraica que significa acusador; aquele que afasta os outros do caminho de Deus, da sua missão. Literalmente Jesus diz: “Coloca-te atrás!”. Ou seja, Pedro deve caminhar atrás de Jesus, deve seguir Jesus e aceitar a trajetória ou a direção indicada por Jesus. Mas Pedro queria ser ele a indicar a direção. Queria um Messias à sua medida e ao seu desejo.

Marcos 8,34-37 - AGIR: condições para o seguimento.
Jesus tira conclusões que são válidas para hoje mesmo: “Quem quiser vir após mim tome a sua cruz e siga-me!”. Naquele tempo a cruz era a pena de morte com que o império romano sentenciava os condenados. Tomar a cruz e carregá-la no seguimento de Jesus significava aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. Indicava uma ruptura radical e total. Como diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “Quanto a mim, jamais me gloriarei a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gal. 6,14). A cruz não é fatalismo nem sequer uma exigência do Pai. A cruz é a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus para revelar a Boa Notícia de que Deus é Pai e, por tanto, todos devem ser aceites e tratados como irmãos. Por causa deste anúncio revolucionário, foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova maior de amor: dar a vida pelo próprio irmão!
Ampliando conhecimentos: a instrução dada aos discípulos 
Entre as curas dos cegos (Mc. 8,22-26 e Mc. 10,46-52), encontra-se uma longa instrução de Jesus dada aos seus discípulos para os ajudar a entender o significado da cruz e as consequências para a vida (Mc. 8,27 a 10,45). Parece um documento, uma espécie de catecismo, feito pelo próprio Jesus. Fala da cruz na vida do discípulo. É uma espécie de esquema de instrução:
Mc. 8,22-26: cura de um cego.
Mc. 8,27-38: primeiro anúncio da Paixão.
Mc. 9,1-29: instrução sobre o Messias servo.
Mc. 9,30-37: segundo anúncio da Paixão.
Mc 9,38 a 10,31: instruções sobre a conversão.
Mc. 10,32-45: terceiro anúncio da Paixão.
Mc. 10,46-52: cura de um cego.
Como se vê, a instrução é composta por três anúncios da Paixão. O primeiro é Mc. 8,27-38, o segundo Mc. 9,30-37 e o terceiro Mc. 10,32-45. Entre o primeiro e o segundo há uma série de instruções que aclaram a conversão que deve acontecer na vida dos que aceitam Jesus como Messias servo (Mc. 9,38 a 10,31). O conjunto da instrução tem como pano de fundo a caminhada da Galileia até Jerusalém, desde o lago até à cruz. Jesus caminha para Jerusalém (Mc. 8,27; 9,30.33; 10,1.17.32), onde encontrará a cruz. Em cada um destes três anúncios, Jesus fala da sua paixão, morte e ressurreição como fazendo parte do seu projeto: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e depois ser morto e, três dias depois ressuscitará” (Mc. 8,31; 9,31; 10,33).
Cada um destes três anúncios da paixão é acompanhado por gestos e palavras de incompreensão por parte dos discípulos. No primeiro, Pedro não quer a cruz e critica Jesus (Mc. 8,32). No segundo, os discípulos não entendem Jesus, têm medo e querem ser grandes (Mc. 9,3-34). No terceiro, têm medo e procuram promoções (Mc. 10,35-37). E isto porque nas comunidades para as quais Marcos escreve o seu Evangelho havia muitas pessoas como Pedro: não queriam a cruz! Eram como os discípulos: não entendiam a cruz, tinham medo e queriam ser os maiores; viviam no temor e queriam ser promovidos. Cada um destes três anúncios deixa uma palavra de orientação por parte de Jesus, criticando a falta de compreensão dos discípulos e ensinando como deve ser o seu comportamento. Assim, no primeiro anúncio, Jesus exige dos que querem segui-lo, carregar a cruz atrás dele, perder a vida por amor a Ele e ao seu evangelho, não se envergonhar d'Ele nem da sua palavra (Mc. 8,34-38). No segundo, exige que se façam servos de todos, receber as crianças, os pequenos, como se fosse ao próprio Jesus (Mc. 9,35-37). No terceiro, exige beber o cálice que Ele beberá, não imitar os poderosos que exploram os demais, mas imitar o Filho do Homem que não veio para ser servido mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (Mc. 10,35-45)
A compreensão total do seguimento de Jesus não se obtém através da instrução teórica mas pelo empenhamento prático, caminhando com Ele pelo caminho do serviço, da Galileia até Jerusalém. Quem insista em manter a ideia de Pedro, ou seja, a do Messias glorioso sem a cruz, não entenderá nem assumirá o comportamento do verdadeiro discípulo. Continuará cego, trocando as pessoas pelas árvores (Mc. 8,24). Porque sem a cruz é impossível entender quem é Jesus e o que significa seguir Jesus.
O caminho do seguimento é o caminho da dedicação, do abandono, do serviço, da disponibilidade, da aceitação, da dor, sabendo que haverá ressurreição. A cruz não é um acidente de percurso mas faz parte do caminho. No mundo organizado a partir do egoísmo, o amor e o serviço não podem existir senão crucificados. Quem dá a vida pelos outros, incomoda aqueles que vivem agarrados aos privilégios, e sofre.
Palavra para o caminho
Seguir Jesus não é obrigatório. É uma decisão livre de cada um. Porém temos de levar a sério Jesus. Se quisermos segui-lo na sua tarefa apaixonante de fazer um mundo mais humano, digno e feliz, temos de estar dispostos a duas coisas. Primeiro, renunciar a projetos ou planos que se opõem ao reino de Deus. Segundo, aceitar os sofrimentos que nos podem vir por seguir Jesus e identificar-nos com a sua causa. Nós cristãos temos de responder, com sinceridade, a esta pergunta interpeladora de Jesus: “e vós, quem dizeis que eu sou?”. Ibn Arabi escreveu que “aquele que foi tomado por essa enfermidade chamada Jesus, já não se pode curar”.
Quantos cristãos poderiam, hoje, intuir, a partir de sua experiência pessoal, a verdade que encerram estas palavras?



Ordem do carmo

Nenhum comentário:

Postar um comentário