15º DOMINGO DO TEMPO COMUM
16 de Julho de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt
13,1-23
Cada um de nós recebe a
semente da palavra de Deus de acordo com o seu mundo interior. Uns são
indiferentes, nem a ouvem, não se importam, apenas ignoram. Alguém precisa
dizer a esses, que Jesus disse que quem não crer, já está condenado! Continuar lendo
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“O SEMEADOR SAIU PARA SEMEAR...” Olívia Coutinho
15º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 16 de Julho de 2017
Evangelho de Mt13,1-23
A palavra de Deus é fonte de vida, é semente que trás dentro de si,
uma força capaz de romper barreiras, de quebrar paradigmas!
Do coração de
Jesus, foram lançadas as primeiras sementes no mundo, sementes, que
passaram a se multiplicarem de geração em geração!
Hoje, Jesus
continua lançando sementes no mundo, através do coração daqueles que se
dispõe a trabalhar na sua Messe!
Mesmo em meio a
tantos opositores, a palavra de
Deus, ainda encontra terrenos férteis, onde ela possa germinar e produzir
frutos, o que está faltando, são os semeadores!
O evangelho que
a liturgia de hoje nos convida a refletir, chama a nossa
atenção sobre a importância de nos tornarmos, tanto terra boa, quanto
semeadores do Reino, afinal, é nossa missão, fazer cresce, o Reino dos céus
aqui na terra!
O texto diz que Jesus,
dirigindo-se à multidão, fala da importância do acolhimento à palavra de Deus,
comparando-a com uma semente lançada na terra!
Movido pelo o compromisso assumido com o Pai, de implantar o seu
Reino aqui na terra, o Mestre de todos os mestres, serviu-se de meios humanos
bem simples para fazer a ligação entre o humano e o Divino, no sentido de
reconstruir a aliança firmada entres eles, uma aliança, que fora quebrada
pelo o pecado.
De um modo simples, Jesus fazia comparações do Reino, com as coisas
presentes no cotidiano dos pequenos. Com esta pedagogia, Ele falava
diante de todos, para aqueles que queriam entender, para os que estavam de
fato, abertos para acolher a sua mensagem. E assim, Jesus ia fazendo um passeio
amoroso no coração dos pequenos, que entendiam facilmente a sua
linguagem, que era a linguagem do amor!
Uma parábola, tanto pode revelar, como esconder, vai depender da
forma de ouvi-la! Para os pequenos, elas revelavam os Mistérios do Reino,
já para os “grandes” as parábolas de Jesus, não diziam nada, não passavam de
meras historinhas, eles não as assimilavam com a vida,
Esta forma diferente de ensinar provocou uma curiosidade nos
discípulos, que perguntaram a Jesus: “Porque tu falas ao povo em parábolas?”
Jesus respondeu: “Porque a vós, foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino
dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e
terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem.
É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e
ouvindo, eles não escutam, nem compreendem”... Com esta explicação, Jesus diz
aos discípulos, que no meio da multidão que o cercava, estavam misturados os
que buscavam os seus ensinamentos e os que queriam apenas confrontá-lo, e era
através das parábolas, que Ele falava com os que estavam realmente
interessados em acolher e viver os seus ensinamentos. O que não era caso
dos Fariseus e mestres da lei. Esses, tinham o coração fechado, por isto não
entendiam a mensagem oculta nas parábolas de Jesus.
A todo aquele que crê em Jesus, que está aberto para acolher a sua
mensagem, é dado a graça de conhecer os mistérios do Reino!
O crescimento
de um Reino de amor de paz e de justiça, tão sonhado por Deus, depende de cada
um de nós, da nossa disposição em nos tornarmos semeadores, isto é:
propagadores da palavra de Deus!
A todo
instante, Jesus nos chama a sermos semeadores da palavra de Deus, há muita
terra fértil, corações sedentos por esta semente! Mas é importante lembrarmos: a
palavra que espalhamos, (semente) não é nossa, é de Deus, portanto, quem deve
destacar, é o dono desta palavra, e não nós!
Como
semeadores, tenhamos a simplicidade de um agricultor, o agricultor
não almeja em ser conhecido, e muito menos, ter algum prestígio, a
sua alegria está em constatar, que a semente brotou.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook
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Saiu o semeador a semear a sua semente
Palavra, semente,
comunicação de Deus! Os fiéis judeus do Antigo Testamento e os discípulos de
Jesus do Testamento definitivo colocam a Palavra bem no centro de sua aventura
espiritual. Escrevemos Palavra com p maiúsculo, para significar esse
desejo intenso de Deus de comunicar-se com os seus. O Deus do Antigo Testamento
foi mostrando seu desígnio e seus projetos através dos profetas, por meio
de homens e mulheres inspirados pelo Alto. Discursos, eventos e exortações
foram sendo o modo da comunicação de um Deus desejoso de mostrar sua face e seu
bem querer aos seres que havia criado.
Belamente a primeira
leitura fala da força da Palavra, da comunicação de Deus aos seus. “Assim
como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e
fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a
alimentação, assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim
vazia; antes realizará tudo que for da minha vontade e produzirá os efeitos que
pretendi, ao enviá-la”.
O Senhor
quer fazer aliança com o homem, quer revelar aquilo que existe de sonhos em seu
eternos desígnios. A Palavra vem e faz os seus efeitos... É claro, o homem tem
que acolher as visitas do Senhor... Belíssima a caminhada de alguém que, ao
longo do tempo da vida, se abriu ao Senhor. Maria, a Mãe do Senhor, pôde dizer:
“ O Senhor fez em mim maravilhas...”.
As visitas da Palavra
não cessam de se fazer. E a Semente-Palavra realiza maravilhas na terra boa,
nessas histórias pessoais de homens e de mulheres que deixam os mortos enterrar
os mortos, que fazem mais mil passos com os que lhe pedem mil, que vivem
da generosidade. A Palavra realiza maravilhas nessas comunidades concretas,
nessas células do Reino, onde as pessoas colocam em primeiríssimo lugar os interesses
do Senhor e as enormes necessidades de justiça dos jogados à beira do
caminho. A Semente que cai em terra boa produz resultados abundantes.
Há sementes que
caem à beira do caminho, em terra batida e sem água, outras são lançadas em
pessoas empedernidas, que se fecham em suas posições, que não abrem as portas
do amanhã, que não sabem fazer a leitura dos sinais dos tempos, pessoas e
comunidades cristãs que buscam as aparências e a superficialidade.
Pessoas enredadas nos espinheiros que esmagam os desejos e os desígnios de
Deus.
Não se trata apenas
de ouvir ou de ler as páginas das Escrituras. Trata-se de se ter ao lado
também, como se dizia antigamente, o jornal do dia para que a Escritura nos
ensine a ouvir a voz de Deus nos sinais dos tempos. Nada de fundamentalismo da
Palavra, mas detectar uma presença de Deus nos acontecimentos pessoais,
comunitários e sociais. A Palavra precisa interferir na vida do homem de
hoje.
frei Almir Ribeiro Guimarães
A semente da
Palavra
Ouvimos hoje a parábola do semeador, ou
melhor, das aventuras da semente que é a Palavra de Deus, a palavra da pregação
cristã (evangelho). Descreve o que acontece com a semente da Palavra em várias
circunstâncias, com diversos tipos de pessoas; e, conforme o caso, o resultado
é diferente. Resultado bom mesmo, que corresponda à fecundidade que a Palavra
de Deus por si mesma tem (cf. 1ª leitura), só há quando ela cai em terra boa,
isto é, em alguém que, ao ouvir a palavra, a deixa penetrar, a absorve, a
assimila no seu próprio pensar e sentir (pois tudo isso significa a expressão
“entende” em Mt. 13,23).
Tudo isso reflete as condições da
pregação da Igreja das origens e de sempre. A palavra divina é eficaz e fecunda
como a chuva que fertiliza o chão (1ª leitura, sublinhada pelo salmo
responsorial). Mas o ouvinte tem que colaborar. Deus não força ninguém, ele se
deixa acolher. Se alguém não o acolhe, ou acolhe mal, de modo superficial...
nada feito, não cria vínculo com Deus. Aí está o mistério da liberdade da alma
humana. No evangelho, reflete-se a preocupação das primeiras gerações cristãs
com a incredulidade.
Por que alguns entendem, outros não? A
uns é dado conhecer os mistérios do Reino, outros não chegam a abrir a casca da
parábola (Mt. 13,11). É como nos negócios: quem tem, ganha crédito e pode
negociar mais; quem não tem, perde ainda o pouco que tem. Trata-se da fé. Os
judeus farisaicos achavam que possuíam algo: seu refinado conhecimento da Lei.
Mas, para compreender a mensagem da graça de Deus, esse “algo” era nada.
Entretanto, aos que tinham a fé, a abertura de um coração simples e humilde, a
esses foi dado conhecer o mistério do Reino.
Tal situação não contraria o plano de
Deus. Mesmo a incredulidade das pessoas, Deus a tem levado em conta no seu
projeto. É o que experimentou o profeta Isaías. Mt. 13,14-15 cita Is. 6,9-10
(os primeiros cristãos citavam muito esta passagem para explicar o mistério da
incredulidade: cf. Jo 12,40; At. 28,26s). O ser humano é livre para ser
incrédulo. E tão grande é o plano de Deus, que ele consegue até incluir essa
incredulidade... Segue, então, mais uma felicitação para os simples e pequenos,
que podem enxergar o que muitos profetas quiseram ver e não viram (13,16s; cf.
ev. dom. pass.).
E os incrédulos, será que eles não
conhecerão a salvação? Paulo, em Rm. 9-l1, se debate com este problema e só
sabe responder que ninguém conhece o abismo do pensamento e da sabedoria de
Deus (Rm. 1 1,33ss). Nem mesmo a incredulidade à mensagem cristã é prova de
rejeição de Deus. Só Deus sabe quem poderá agüentar sua eterna companhia e quem
não. Mas, de toda maneira, os que não conseguem acolher e fazer frutificar
apalavra, não têm a felicidade e o privilégio de ser, desde já, o
povo-testemunha de Deus. Talvez se salvem, mas não podem realmente cantar as
grandes obras do Senhor e reconhecer seu reino em Jesus Cristo. Ora, que há de
mais bonito que isso?
A 2ª leitura desta liturgia continua o
tema da vivificação pelo Espírito, a vida nova em Cristo. No contexto
imediatamente anterior, Paulo acaba de dizer que recebemos o Espírito do
Cristo, que clama em nós: “Abbá, Pai”; o Espírito que nos transforma em filhos
adotivos de Deus, co-herdeiros com Cristo, chamados para a glória com ele (Em
8,14-17). Mas ainda não se revelou em nós esta glória, embora já tenhamos
recebido o Espírito como primícia. Por isso, nós e toda a criação estamos
ansiando por essa plenitude, como uma mulher em dores de parto (cf. Jo 16,21):
o filho está aí, mas até que ele se manifeste, ela tem que passar pelo trabalho
de parto. É essa a situação nossa e de nosso mundo, que é solidário conosco.
Como um eco do evangelho, a oração
sobre as oferendas e a oração final falam do crescimento da fé e da salvação em
nós. Trata-sede realizar o feliz encontro de uma semente “garantida” (a
palavra) com uma terra boa, acolhedora e generosa. Neste contexto, pode-se
rezar o prefácio comum II (Cristo, Palavra enviada pelo Pai). Na pregação
diga-se concretamente quais são, na pessoa e na estrutura da sociedade, os
obstáculos que impedem a boa acolhida ou o crescimento da semente da palavra.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
O Evangelho de hoje começa com uma grande multidão reunida entorno de
Jesus. As pessoas se sentem, por vezes, chamadas a ouvi-Lo e, em outras,
simplesmente curiosas.
Jesus não fala claramente. Ele usa parábolas e passa a mensagem através
de comparações com fatos corriqueiros da vida daquelas pessoas simples, para
facilitar a compreensão.
A parábola desse Evangelho é conhecida como a “Parábola do Semeador”,
onde Jesus é o semeador generoso que não esconde a semente que é a Sua Palavra,
e mostra que ela cai nos mais diferentes tipos de solo, pois Seu chamado é para
todos. Essas sementes possuem em si o germe da vida, que germinará ou não,
dependendo do cuidado com terreno onde foi semeada.
A forma como Jesus falava ao povo intrigava seus discípulos que O
questionaram: “Por que é que o Senhor usa comparações para falar com eles?”
Jesus então explica que eles, seus discípulos, são capazes de entender o
que Ele diz por que estão comprometidos com a Sua pessoa. E os outros não
entendem porque estão fascinados pelas tentações provocadas pela injustiça e
pela falta de amor ao próximo.
Só há uma maneira de compreender os mistérios do Reino: tornando-se
discípulo de Jesus. Só quem O aceita como o Messias é que O reconhece e vê o
projeto de Deus se realizando.
Quem não adere a Jesus e à sua prática, se torna insensível no ouvir, no
ver e no compreender, que têm suas raízes mais profundas na insensibilidade do
coração, no fechar os olhos e ouvidos para as necessidades dos outros,
culminando na incompreensão.
O tipo de cristão ideal é identificado com o terreno bom. Ele ouve a
Palavra, compreende e a coloca em prática.
Pequeninos
do Senhor
A eficácia da palavra
A parábola evangélica ilustra a benevolência do Pai, no seu desejo de
salvar a todos, sem distinção. Ninguém está, de antemão, excluído da salvação.
Tudo dependerá da disposição e do empenho com que se acolhe a comunicação do
Pai.
A semente caída à beira do caminho ilustra a atitude de quem se relaciona
com o Pai, de maneira superficial e leviana. A que caiu em terreno pedregoso é
símbolo de um coração impermeável aos apelos divinos. A que caiu entre os
espinhos aponta para os corações preocupados com múltiplas tarefas, a ponto de
faltar-lhes tempo para um diálogo amoroso com o Pai. Enfim, a semente lançada
em terra fértil simboliza quem se abre para acolher a Palavra de Deus e se
deixa transformar por ela.
A eficácia da Palavra de Deus no coração humano revela-se no modo de
viver de quem a acolhe. Somente o testemunho de uma vida pautada no amor e na
justiça é um indicativo seguro de que a Palavra está produzindo frutos. O
percentual - cem, sessenta ou trinta - dependerá do maior ou menor enraizamento
da Palavra na vida do discípulo do Reino. Isto irá ser diferente, de pessoa
para pessoa. O importante é que a semente não se perca e produza os frutos
esperados. O espaço para a generosidade fica sempre aberto. A eficácia da
Palavra não tem limites.
padre Jaldemir
Vitório
Dar frutos significa acolher a palavra
Esta parábola do semeador que semeia a
semente em terrenos diversos, inicia uma série de sete parábolas de Jesus.
Mateus reuniu-as na forma de um discurso de Jesus, esclarecedor do mistério do
Reino dos Céus. A parábola, pela simplicidade das imagens a que recorre, é uma
forma literária eficiente para a compreensão das palavras de Jesus. São também
sugestivas para moverem os ouvintes a se comprometer com o Reino que lhes é
revelado através destas palavras. É a palavra do Pai que é comunicada e não volta
sem produzir frutos. Na parábola de hoje relacionam-se o semeador, a semente, e
os diferentes tipos de terrenos. Facilmente se compreende que os tipos de
terrenos correspondem às diversas maneiras como a semente (a palavra de Jesus)
é recebida. Depois da narrativa da parábola, Mateus apresenta o porque falar em
parábolas.
Diante da simplicidade da parábola e de
sua compreensão, a explicação do porque da parábola deixa certa perplexidade.
Mateus ainda apresenta um rígido e discriminatório texto atribuído ao profeta
Isaías. É apresentado como desígnio divino que uns acolham a palavra de Jesus e
outros não. O recurso ao juízo divino excludente e condenatório é uma
característica comum no Primeiro Testamento, e não corresponde à índole de
Jesus. Tal compreensão reflete a tradição do evangelista e não o sentimento de
Jesus. Em seguida, é feita a explicação em detalhes do significado da parábola.
Os terrenos em que as sementes caíram podem indicar tanto as várias disposições
com que cada um recebe a palavra, como os vários comportamentos assumidos pelos
membros da comunidade.
Dar frutos significa acolher a palavra
com interesse e carinho e colocá-la em prática, como as aranhas com os fios de
suas teias, tecendo laços humanos de fraternidade, de amor e misericórdia, de
partilha e solidariedade, construindo a Paz do Reino neste mundo, como
antecipação das promessas de um mundo futuro.
José Raimundo Oliva
Na proclamação da Palavra deste
domingo, iniciamos a escuta do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que nos traz
o encantador discurso das parábolas sobre o Reino dos céus. Neste e nos
próximos dois domingos, escutaremos essas sete sugestivas parábolas. Atenção,
caríssimos, porque este capítulo 13 é o centro do Evangelho segundo Mateus!
Para que possamos compreender bem o que nosso Senhor nos quer dizer,
recordemo-nos que o Reino dos céus é o núcleo, o tema, o objetivo da pregação
de Jesus: ele veio para instaurar o Reino entre nós e nos fazer participar dele
em plenitude após nosso caminho neste mundo. Quando Mateus diz "Reino dos
céus" é o mesmo que dizer "Reino de Deus", pois o céu é Deus e
fora de Deus não pode haver céu! O anúncio do Reino dos céus é, portanto, o
anúncio do reinado do Deus de Jesus, aquele mesmo Deus a quem ele chamava de
Pai, Pai que é todo amor, todo ternura, todo compaixão e misericórdia! Por
isso, o reinado de Deus é nossa vida e nossa felicidade!
Pois bem, caríssimos, com sete
parábolas (sete significa perfeição, completude) o Senhor Jesus nos fala dos
mistérios do Reino dos céus. São parábolas para serem ouvidas com essas
perguntas no coração: Que é o Reino? Por que não aparece claramente neste
mundo? Por que parece tão frágil? Onde ele está? Como se pode descobri-lo?
Escutemos, porque o Senhor nos vai falar. Coloquemo-nos ao lado dos seus
ouvintes, na tão doce cena do Evangelho de hoje: "Naquele dia, Jesus saiu
de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. Uma grande multidão
reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto
a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em
parábolas..." Sentemo-nos nós também com essa multidão e escutemos as
parábolas desses três domingos!
Ó Mestre, porque falas em parábolas? –
perguntaram a Jesus. As parábolas, caríssimos, têm, primeiramente, um sentido
didático: Jesus falava do Reino com imagens e cenas da vida do povo... Era
fácil compreender, era acessível aos simples... Mas também, exatamente por
serem simples e cheias de figuras, as parábolas somente poderiam ser
compreendidas por quem tivesse um coração simples e cheio de boa vontade. Os
soberbos, os de má vontade, os auto-suficientes jamais poderiam compreender,
penetrar com o coração o mistério tão doce e suave que Jesus revela em suas
parábolas. Por isso ele nos diz: "A vós foi dado conhecer os mistérios do
Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Ao que tem será dado mais e terá em
abundância; mas ao que não tem, será tirado até o pouco que tem... Porque eles,
olhando, não vêem, ouvindo, eles não escutam nem compreendem... Deste modo,
cumpre-se a palavra do profeta: 'Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis
de olhar, sem nada ver. Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles
ouviram com má vontade e fecharam seus olhos para não ver com os olhos nem
ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração..." Também nós, sem um
coração pobre, humilde e confiante, jamais compreenderemos a verdade do
mistério que Jesus nos apresentará nessas sete estupendas parábolas...
Comecemos, pois, a escutá-lo nesta
primeira das sete: a Parábola do Semeador. A semente é a Palavra de Deus, que é
sempre fecunda "como a chuva e a neve que descem do céu e para lá não
voltam, mas vêm irrigar e fecundar a terra"... A Palavra que Jesus, o
Semeador, joga no terreno do nosso coração, nunca ficará sem efeito; é uma
Palavra eficaz! O padre Antônio Vieira, comentando esse Evangelho afirmava que
a Palavra pode não dar fruto, mas dará sempre efeito: efeito de salvação ou
efeito de condenação! É verdade: ninguém ficará neutro diante da Palavra do
Senhor que escutou: ou a acolhe, dá fruto nela e acolhe a salvação, ou a
rejeita, para ela se fecha e por causa dela se perde!
Se o semeador é Jesus e a semente é a
Palavra, os diversos tipos de terrenos são os diversos tipos de coração. Sim, o
terreno somos nós, caríssimos! E aqui está a nossa responsabilidade: tornar o
nosso coração uma terra boa! Que não seja terra ruim, que não seja terra
estéril. Não aconteça que sejamos daqueles que ouvindo, não escutam e vendo,
não vêem! Por isso mesmo, essa Palavra deste hoje nos deve inquietar... Que
tipo de terreno tenho sido? Que tipo de terreno tenho preparado no meu coração?
Que fruto a Palavra está dando na minha vida? Recordemos, caríssimos em Cristo:
se a Palavra não tiver fruto, ainda assim terá efeito!
Mas, há outro recado, outro ensinamento
do Senhor nesta estória. Notem que a Palavra que anuncia o Reino é tão
precária, a maior parte da semente parece ter um destino inglório, sem fruto! A
Palavra onipotente aparece nesta parábola escandalosamente impotente – como na
cruz! Mas, ao fim, ela triunfará, dará fruto: Ä semente que caiu na terra é
aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esse produz fruto: um dá cem, outro
sessenta e outro, trinta". Não nos iludamos: ao final, o Reino triunfará,
ainda que pareça inútil, ainda que muito da semente semeada pareça destinada ao
fracasso e à esterilidade... A semente dará fruto... Que frutifique, pois, em
nós!
Para isso, cuidemos do aqui e do agora
de nossa existência, porque são nas coisas pequenas que o Reino aparece, que o
Reino se faz, que a semente germina: no irmão que acolhi, na dor que suportei,
na presença de Deus que descobri mesmo no meio das trevas da vida... Só quem
ouve, só quem compreende pode acolher esse Reino e dar fruto de vida.
A humanidade inteira e a criação toda
esperam o testemunho dos cristãos, esperam o nosso fruto no aqui e agora da
existência, que antecipa e prepara a manifestação final da glória, que é a
plena manifestação do Reino dos céus. A criação geme, a humanidade geme,
tateando nas trevas em busca da luz, faminta em busca do alimento, mortal em
busca da vida. Quem pode apontar a luz, quem pode trazer o pão, quem pode
testemunhar a vida? Os cristãos, nós, se deixarmos que a semente da Palavra
faça o Reino germinar em nós para que o Reino seja presença no mundo. Eis,
portanto, que mistério tão grande: o Reino passa por nós, pela nossa pequena
vida! Os cristãos, a Igreja, são como a respiração do mundo; sem nós, o mundo
morreria asfixiado...
A parábola de hoje nos convida a
preparar nossa existência para que o Reino possa brotar; convida-nos também ao
espírito de fé para ouvir, para ver, para compreender mesmo nas coisas pequenas
da vida; convida-nos à paciência e à fidelidade no dia a dia; convida-nos à
consciência de que é Deus quem age, fazendo a semente crescer, desde que não
impeçamos o dinamismo da semente. Eis! O Reino está em nós, está no meio de
nós! Abramo-nos a ele...
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia do 15º domingo do tempo
comum convida-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da
centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.
A primeira leitura garante-nos que a
Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda e criadora de vida. Ela dá-nos
esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para
intervirmos no mundo. É sempre eficaz e produz sempre efeito, embora não atue
sempre de acordo com os nossos interesses e critérios.
O Evangelho propõe-nos, em primeiro
lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser
uma “boa terra”, disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher
e para deixar que elas dêem abundantes frutos na nossa vida de cada dia.
Garante-nos também que o “Reino” proposto por Jesus será uma realidade
imparável, onde se manifestará em todo o seu esplendor e fecundidade a vida de
Deus.
A segunda leitura apresenta uma
temática (a solidariedade entre o homem e o resto da criação) que, à primeira
vista, não está relacionada com o tema deste domingo – a Palavra de Deus.
Podemos, no entanto, dizer que a Palavra de Deus é que fornece os critérios
para que o homem possa viver “segundo o Espírito” e para que ele possa
construir o “novo céu e a nova terra” com que sonhamos.
1ª leitura – Is.
55,10-11 – AMBIENTE
O Deutero-Isaías, autor deste texto, é
um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilônia, procurando
consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e
decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se,
por isso, “livro da Consolação”.
Na primeira parte desse livro (cf. Is.
40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e um “novo
êxodo” do Povo de Deus rumo à Terra Prometida; na segunda parte (cf. Is 49-55),
o profeta fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém.
Estes três versículos que a primeira
leitura de hoje nos propõem aparecem no final do “Livro da Consolação”. Depois
de convidar o Povo (que ainda está na Babilônia) a buscar e invocar o Senhor
(cf. Is. 55,6-9), o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus que acabou
de ser proclamada aos exilados (cf. Is. 55,10-11).
Estamos na fase final do Exílio (à
volta de 550/540 a.C.). A comunidade exilada está farta de belas palavras e de
promessas de libertação que tardam a concretizar-se… A impaciência, a dúvida, o
cepticismo vão minando lentamente a resistência e a fé dos exilados… Será que
as promessas de Deus se concretizarão? Deus não está a ser demasiado lento, em
relação a algo que exige uma intervenção imediata? Deus ter-se-á esquecido da
situação do seu Povo?
MENSAGEM
Não – diz o profeta – Deus não se
esqueceu do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, pois Deus é
eternamente fiel às suas promessas. A Palavra de Deus é eficaz, transformadora,
geradora de vida. Ela nunca falha.
Para expressar a idéia da eficácia da
Palavra de Deus, o profeta utiliza o exemplo da chuva e da neve: assim como a
chuva e a neve que descem do céu fecundam a terra e multiplicam a vida nos
campos, assim a Palavra de Jahwéh não deixará de se concretizar e de criar vida
plena para o Povo de Deus.
A imagem é extremamente sugestiva.
Devia lembrar aos judeus exilados na Babilônia as chuvas que caem no norte de
Israel e as neves do monte Hermon. Essa água caída do céu alimenta o rio
Jordão; e este, por sua vez, corre por toda a terra de Israel, deixando um
rasto de vida e de fecundidade.
A Palavra de Deus é como essa água
bendita caída do céu que, inevitavelmente, gera essa vida que alimenta o Povo
de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Quando escutamos a Palavra de Deus,
sentimo-nos confiantes, otimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos
que o caminho que Deus nos indica é, efetivamente, um caminho de felicidade e
de vida plena… “Que bom é estarmos aqui” – dizemos… Depois, voltamos à nossa
vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto;
constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e
nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os
justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados,
humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não
estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a
estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre
caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz
sem fim.
• A Palavra de Deus não poderá ser uma
espécie de ópio do Povo, no sentido de que projeta em Deus as esperanças e os
sonhos que nos competem a nós concretizar? Atenção: é preciso estarmos bem
conscientes de que Deus não prescinde de nós para atuar na história humana… A
sua Palavra dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e
dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. A Palavra de Deus não só não adormece
a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projetos de Deus para o mundo e para
os homens e convida-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do
mundo.
• Vivemos na era do relógio. “Tempo é
dinheiro” – dizemos. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos,
sem tempo para as pessoas, sem tempo para Deus, sem tempo para nós. Tornamo-nos
impacientes e exigentes; achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que
é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos.
Queremos que Ele aja imediatamente, que nos resolva logo os problemas, que atue
de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projetos. É preciso, no entanto,
aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Não nos basta saber que
a Palavra de Deus é sempre eficaz (embora não tenha os nossos prazos) e que não
volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem
ter realizado a sua missão?
2ª leitura – Rom
8,18-23 – AMBIENTE
Paulo continua a oferecer-nos a sua
catequese sobre o caminho que é preciso seguir para se poder acolher a salvação
que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da
bondade e do amor de Deus (cf. Rm. 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através
de Jesus Cristo (cf. Rm. 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus
derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf.
Rm. 8,1-39).
Nos versículos anteriores ao texto que
hoje nos é proposto (cf. Rm. 8,1-17), Paulo mostrou aos crentes o exemplo de
Cristo e convidou os cristãos a seguirem o mesmo percurso. De forma especial,
disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a
carne” (isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência) e aderir à
vida “segundo o Espírito” (isto é, a vida de escuta de Deus, de obediência aos
projetos de Deus, de doação aos homens).
MENSAGEM
Na perspectiva de Paulo, o homem não é
o único interessado na opção por uma vida “segundo o Espírito”: toda a criação
está dependente das escolhas que o homem faz. O que é que isto significa?
Como resultado do pecado do homem, a
criação inteira ficou submetida ao império do egoísmo e da desordem (cf. Gn.
3,17) e está condenada à finitude e à caducidade. Se o homem aderir a Cristo e
passar a viver “segundo o Espírito”, superará o destino de maldição e de morte
em que o pecado o tinha lançado; então, também o resto da criação será
libertado e nascerá o novo céu e a nova terra. É o tema da solidariedade entre
o homem, os outros animais e a natureza, tão enraizado na Bíblia (cf. Gn.
9,12-13; Col. 1,20; 2Pe. 3,13; Ap. 21,1-15).
Portanto, toda a criação aguarda
ansiosamente que o homem escolha a vida “segundo o Espírito”. Até lá, vai
nascendo – no meio da dificuldade e da dor – esse Homem Novo, bem como esse
Novo Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Porquê na dificuldade e na dor?
Porque a vida “segundo o Espírito” supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses
mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por um caminho de entrega e de
dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza até o exemplo das dores
do parto, para iluminar a mensagem que pretende transmitir… O nascimento de uma
criança dá-se sempre através da dor; no entanto, essa dor é o caminho
obrigatório para o nascimento de uma nova vida.
De resto, vale a pena viver “segundo o
Espírito”. Os “padecimentos”, as renúncias, as dificuldades, não são nada, em
comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no final do caminho.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, Paulo exorta os
crentes a decidirem-se por uma vida “segundo o Espírito”. Essa opção terá uma
dimensão cósmica e afetará a relação do homem com os outros homens e com toda a
criação. Uma vida conduzida de acordo com critérios de egoísmo, de orgulho, de
auto-suficiência, de pecado, gera escravidão, injustiça, arbitrariedade, morte,
sofrimento, que se refletem na vida de todos os outros seres criados e criam
desequilíbrios que desfeiam este mundo que Deus quis “bom”… Ao contrário, uma
vida conduzida de acordo com os critérios de Deus gera respeito, amor,
solidariedade, que se refletem na vida dos outros seres criados e criam
harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade. Tenho consciência de que as minhas
opções afetam os outros meus irmãos, bem como o mundo que me rodeia? Tenho
consciência de que o mundo será melhor ou pior, de acordo com as opções que eu
fizer?
• No nosso tempo manifesta-se, cada vez
mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos
ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada,
violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo
que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento
dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso
planeta; mas o que nos deve mover é a idéia da fraternidade que deve unir o
homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa
consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da
exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o “novo céu e a nova
terra”.
• Muitas vezes sentimo-nos confusos com
certas novidades que nos desconcertam e que parecem pôr em causa os velhos
esquemas sobre os quais o mundo se tem edificado. Criticamos os mais jovens
pela sua ousadia, pelos seus valores, pelas suas preocupações, pela sua visão
do mundo… Não sabemos para onde vamos e parece que nada faz sentido…
Sentimo-nos abalados e inseguros; lamentamo-nos porque tudo parece ir de mal a
pior e não sabemos “onde isto vai parar”. Não é possível que, em muitos casos,
a nossa rigidez esconda o comodismo, a instalação, o aburguesamento de quem tem
medo da novidade?
• Aconteça o que acontecer, somos
convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com os óculos da
esperança. Não caminhamos para o holocausto, para a destruição, para o nada,
mas para o “novo céu e a nova terra”, que já estão em gérmen presentes na nossa
história e que, cada dia, se manifestam um pouco mais.
• Atenção: esse “novo céu e nova terra”
não podem ser projetados para um futuro ideal, no céu… Eles estão já a
construir-se na terra, na nossa história, sempre que os seguidores de Jesus
aceitam o seu convite e se dispõem a viver “segundo o Espírito”.
Evangelho – Mt.
13,1-23 - AMBIENTE
Hoje e nos próximos dois domingos, o
Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A “parábola” é uma imagem ou
comparação, através da qual se ilustra uma determinada mensagem ou ensinamento.
A linguagem parabólica não foi
inventada por Jesus. É uma linguagem habitual na literatura dos povos do Médio
Oriente: o gênio oriental gosta mais de falar e de instruir através de imagens,
de comparações e de alegorias, do que através dos discursos lógicos, frios e
racionais, típicos da civilização ocidental.
A linguagem parabólica tem várias
vantagens em relação a um discurso mais lógico e impositivo. Em primeiro lugar,
porque a imagem ou comparação que caracteriza a linguagem parabólica é muito
mais rica em força de comunicação e em poder de evocação, do que a simples
exposição teórica: é mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora
e, por isso, mexe mais com os ouvintes. Em segundo lugar, porque é uma
excelente arma de controvérsia: a linguagem figurada permite levar o
interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, nunca mereceriam a sua
concordância. Em terceiro lugar, porque é um verdadeiro método pedagógico, que
ensina as pessoas a refletir, a medir os prós e os contras, a encontrar
soluções para os dilemas que a vida põe: espicaça a curiosidade, incita à
busca, convida a descobrir a verdade.
No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus
apresenta-nos sete parábolas, através das quais Jesus revela aos discípulos a
realidade do “Reino”: são as “parábolas do Reino”.
Dessas sete parábolas, três procedem da
tradição sinóptica (o semeador, o grão de mostarda, o fermento); as outras
quatro (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não
se encontram nem em Marcos, nem em Lucas. Provavelmente, são originárias da
antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou abundantemente na composição
do seu Evangelho.
A preocupação do evangelista Mateus é
sempre a vida da sua comunidade. Nestas sete parábolas e na interpretação que
as acompanha, percebe-se a preocupação de um pastor que procura exortar,
animar, ensinar e fortalecer a fé desses crentes a quem o Evangelho se destina.
MENSAGEM
A parábola que hoje nos é proposta – a
do semeador e da semente – é uma das mais conhecidas e emblemáticas das
parábolas de Jesus. No entanto, o texto do Evangelho de hoje vai um pouco mais
além da parábola em si… Apresenta três partes: a parábola (vs. 1-9), um
conjunto de “ditos” sobre a função das parábolas (vs. 10-17) e a explicação da
parábola (vs. 18-23).
Na primeira parte temos, pois, a
parábola propriamente dita (vs. 1-9). O quadro apresentado supõe as técnicas
agrícolas usadas na Palestina de então: primeiro, o agricultor lançava a
semente à terra; depois, é que passava a arar o terreno. Assim compreende-se
porque é que uma parte da semente pôde cair “à beira do caminho”, outra em
“sítios pedregosos onde não havia muita terra” e outra “entre os espinhos”.
Evidentemente, as diferenças do terreno
significam, nesta “comparação”, as diferentes formas como é acolhida a semente.
No entanto, nem sequer é isso que é mais significativo: o que aqui é
verdadeiramente significativo é a quantidade espantosa de frutos que a semente
lançada na “boa terra” produz… Tendo em conta que, na época, uma colheita de
sete por um era considerada farta, os cem, sessenta e trinta por um deviam
parecer aos ouvintes de Jesus algo de surpreendente, de exagerado, de
milagroso…
Mateus coloca esta parábola num
contexto em que a proposta de Jesus parece condenada ao malogro. As cidades do
lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham rejeitado a sua pregação (cf. Mt.
11,20-24); os fariseus atacavam-no por Ele não respeitar o sábado e queriam
matá-l’O (cf. Mt 12,1-14); acusavam-n’O, além disso, de agir, não pelo poder de
Deus, mas pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios (cf. Mt. 12,22-29); não
acreditavam nas suas palavras e exigiam d’Ele “sinais” (cf. Mt. 12,38-45). O
“Reino” anunciado sofria grande contestação e parecia, pois, encaminhar-se para
um rotundo fracasso…
É muito possível que esta parábola
tenha sido apresentada por Jesus neste contexto de “crise”. Àqueles que
manifestavam desânimo e desconfiança em relação ao êxito do projeto do “Reino”,
Jesus fala de um resultado final grandioso. Com esta parábola, Jesus diz aos
discípulos desiludidos: “coragem! Não desanimeis, pois apesar do aparente
fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado final será algo de
surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”.
Na segunda parte temos uma reflexão
sobre a função das parábolas (vs. 10-17). O ponto de partida é uma questão
posta pelos discípulos: porque é que Jesus fala em parábolas?
Mateus vê nas parábolas a ocasião para
que apareçam, com nitidez, o acolhimento e a recusa da mensagem proposta por
Jesus. Que quer isto dizer?
As parábolas apresentam a proposta do
“Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante,
interpeladora… Tornam tudo claro e evidente para os ouvintes; por isso, após
escutar a mensagem apresentada nas parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver
o coração endurecido e não estiver mesmo interessado na proposta. As parábolas
são, portanto, o fator decisivo: propõem clara e inequivocamente a realidade do
“Reino”. Quem acolher essa mensagem, receberá mais e “terá em abundância” (quer
dizer, irá entrando, cada vez mais, na dinâmica do “Reino”); mas quem não a
acolher (apesar da clareza e da acessibilidade da mensagem), está a rejeitar o
“Reino” e a possibilidade de integrar a comunidade da salvação. Nos que
rejeitam a proposta de Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías: o profeta fala de
um povo de coração endurecido, que quanto mais ouve a pregação profética, mais
se irrita, agravando cada vez mais a sua culpa (cf. Is 6,9-10).
Os discípulos são aqueles que escutam a
proposta do “Reino” e estão dispostos a acolhê-la. Eles compreendem, portanto,
as parábolas e aceitam a realidade que elas propõem. Eles são “felizes”, porque
abriram o coração às propostas de Jesus, escutaram as suas palavras, viram e
entenderam os seus gestos e sinais; são “felizes” porque (ao contrário daqueles
que endureceram o coração e fecharam os ouvidos à proposta de Jesus) já
integram o “Reino”.
Na terceira parte, temos a explicação
da parábola (vs. 18-23). Alguns indícios presentes no texto levam a pensar que
esta explicação não fazia parte da parábola original, mas é uma adaptação
posterior, que aplica a parábola à vida dos cristãos.
A explicação desloca, de forma
evidente, o “centro de interesse”. Nessa explicação, a parábola deixa de ser
uma apresentação da forma grandiosa como o “Reino” se vai manifestar, para
passar a ser uma reflexão sobre as diversas atitudes com que a comunidade
acolhe a Palavra de Jesus (na verdade, é essa a grande preocupação das
comunidades cristãs).
Na perspectiva dos catequistas que
prepararam esta aplicação da parábola, o acolhimento do Evangelho não depende,
nem da semente, nem de quem semeia; mas depende da qualidade da terra.
Diante da Palavra de Jesus, há várias
atitudes… Há aqueles que têm um coração duro como o chão de terra batida dos
caminhos: a Palavra de Jesus não poderá penetrar nessa terra e dar fruto. Há
aqueles que têm um coração inconstante, capaz de se entusiasmar
instantaneamente, mas também de desanimar perante as primeiras dificuldades: a
Palavra de Jesus não pode aí criar raízes. Há aqueles que têm um coração
materialista, que dá sempre prioridade à riqueza e aos bens deste mundo: a
Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses outros interesses
dominantes. Há também aqueles que têm um coração disponível e bom, aberto aos
desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto. Os
verdadeiros discípulos (a “boa terra”) identificam-se com aqueles que escutam
as parábolas, as entendem e acolhem a proposta do “Reino”.
Temos aqui, portanto, uma exortação aos
cristãos no sentido de acolherem a Palavra de Jesus, sem deixarem que as
dificuldades, os acidentes da vida, os outros valores a afoguem e a tornem uma
semente estéril, sem vida.
ATUALIZAÇÃO
• No seu “estado atual”, a parábola do
semeador e da semente é, sobretudo, um convite a refletir sobre a importância e
o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades
cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se
constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a
Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a
comunidade e que a alimenta no dia a dia?
• A semente que caiu em terrenos duros,
de terra batida, faz-nos pensar em corações insensíveis, egoístas, orgulhosos,
onde não há lugar para a Palavra de Jesus e para os valores do “Reino”. É a
realidade de tantos homens e mulheres que vêem no Evangelho um caminho para
fracos e vencidos, e que preferem um caminho de independência e de
auto-suficiência, à margem de Deus e das suas propostas. Este caminho de
orgulho e de auto-suficiência alguma vez foi “o meu caminho”?
• A semente que caiu em sítios
pedregosos, que brota nessa pequena camada de terra que aí há, mas que morre
rapidamente por falta de raízes profundas, faz-nos pensar em corações
inconstantes, capazes de se entusiasmarem com o “Reino”, mas incapazes de
suportarem as contrariedades, as dificuldades, as perseguições. É a realidade
de tantos homens e mulheres que vêem em Jesus uma verdadeira proposta de
salvação e que a ela aderem, mas que rapidamente perdem a coragem e entram num
jogo de cedências e de meias tintas quando são confrontados com a radicalidade
do Evangelho. A Palavra de Deus é, para mim, uma realidade que eu levo a sério,
ou algo que eu deixo cair quando me dá jeito?
• A semente que caiu entre os espinhos
e que foi sufocada por eles, faz-nos pensar em corações materialistas,
comodistas, instalados, para quem a proposta do “Reino” não é a prioridade
fundamental. É a realidade de tantos homens e mulheres que, sem rejeitarem a
proposta de Jesus (muitas vezes são “muito religiosos” e têm “a sua fé”) fazem
do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro
Deus a que tudo sacrificam. As propostas de Jesus são a referência fundamental
à volta da qual a minha vida se constrói, ou deixo que outros interesses e
valores sufoquem os valores do Evangelho?
• A semente que caiu em boa terra e que
deu fruto abundante faz-nos pensar em corações sensíveis e bons, capazes de
aderirem às propostas de Jesus e de embarcarem na aventura do “Reino”. É a
realidade de tantos homens e mulheres que encontraram na proposta de Jesus um
caminho de libertação e de vida plena e que, como Jesus, aceitam fazer da sua
vida uma entrega a Deus e um dom aos homens. Este é o quadro ideal do
verdadeiro discípulo; e é esta a proposta que o Evangelho de hoje me faz.
• A parábola, na sua forma original
(vs. 1-9) refere-se à inevitável erupção do “Reino”, à sua força e aos
resultados maravilhosos que o “Reino” alcançará… Com frequência, olhamos o
mundo que nos rodeia e ficamos desanimados com o materialismo, a futilidade, os
falsos valores que marcam a vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo.
Perguntamo-nos se vale a pena anunciar a proposta libertadora de Jesus num
mundo que vive obcecado com as riquezas, com os prazeres, com os valores
materiais… O Evangelho de hoje responde: “coragem! Não desanimeis pois, apesar
do aparente fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado final
será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho