23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
10 de Setembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt
18,15-20
-SE ELE TE OUVIR, TU GANHARÁS O TEU IRMÃO-José Salviano
O nosso
relacionamento com as pessoas partindo da família, é uma coisa muito
complicada, por causa do egoísmo, da usura, da ânsia de domínio, pela ação
direta do demônio, pela nossa carência afetiva... Continuar lendo
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A CORREÇÃO FRATERNA É UM ATO DE AMOR!
23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 10 de Setembro de 2017
Evangelho de Mt18,15-20
A forma que Deus usa, para corrigir os que erram, não é através do
castigo, e sim, através do amor daqueles que não querem ver um irmão se perder,
ainda que este irmão tenha lhe feito algum mal.
É compromisso cristão, colaborar para que todos se salvem. Como
corresponsável pela a vida do outro, não podemos ignorar, deixar de lado,
aquele, que na sua fragilidade, possa ter cometido algum erro, que se não
corrigido, pode provocar graves consequências, tanto para ele, quanto para a
comunidade a qual ele pertence.
Nossas comunidades, não podem ser como um aglomerado de pessoas,
onde cada um, pode fazer o que quiser, onde ninguém se interessa
pelo o bem do outro, e sim uma comunidade de irmãos, que por comungar da
mesma verdade, todos caminham juntos, amando-se mutuamente, exercitando sempre
o perdão.
Todos nós, membros de uma comunidade, temos necessidade de
correção, pois não somos perfeitos, não somos isentos de erros.
A correção fraterna é um ato de caridade, difícil de praticar, mas
vale a pena exercitá-la, afinal, podemos salvar um irmão, proporcionar a
ele, a oportunidade de reparar o seu erro, de reconciliar com a pessoa que ele
ofendeu e simultaneamente com Deus.
A correção fraterna, a que Jesus se refere, dever ser sempre um ato
de amor e nunca de autoridade e condenação.
O que concorre para o êxito de uma correção fraterna, é a nossa
postura, diante à aquele errou, postura que nunca deve ser, como de um juiz, e
sim, de alguém, que quer o seu bem.
As orientações que Jesus nos passa, no Evangelho de hoje, nos
indica alguns passos que devemos dar, no sentido de resgatar aquele, que
por causa de algum erro, esteja se desviando do caminho. São
procedimentos um tanto difícil, mas imprescindíveis, tanto para a salvação
dele, quanto para a nossa.
“Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular,
a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.” O diálogo, deve ser
sempre o primeiro passo, muitas questões se resolvem, através do diálogo,
pois dependendo do que ouvimos, podemos, com mais serenidade, perceber
que pode ter sido um mal entendido, ou um ato impensado do ofensor.
“Se ele não te ouvir, toma consigo mais uma ou duas pessoas, para
que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.”
Este passo, é muito importante, pois o discernimento a dois, ou mais
pessoas, pode nos convencer, de que o fato, não tenha sido tão
grave como víamos, e que vale a pena, manter o convívio com aquela pessoa,
pois com o passar do tempo, ela mesmo pode perceber seu erro e se corrigir.
Temos que ter muito cuidado com essas situações delicadas, pois nem
sempre somos justos, somos às vezes, influenciados por vários fatores, como a
simpatia, a antipatia, por isto, é importante, consultar discretamente,
outras pessoas, a respeito do ocorrido.
“Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja”. Dizer a Igreja,
é como se dizer: agora, vai depender dele com Deus, pois, humanamente,
foi feito tudo o que podia ser feito, só nos resta rezar por ele.
“Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que
desligardes na terra será desligado no céu”. Tudo que os apóstolos, hoje, a
Igreja (sacerdotes) decidirem a respeito de situações delicadas como
esta, será aceito por Deus (Jo20,23) que concedeu a eles, (hoje sacerdotes) o
poder de perdoar ou não pecados.
O grande problema, em se tratando de correção fraterna, é que
muitos de nós, invertemos a ordem dos passos que nos fora apresentados
por Jesus, começando pelo último passo, que é comentar com os outros,
antes de falar com a pessoa que errou, em particular.
“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no
meio deles”. Quando Jesus se faz presente, no meio da pessoas que
buscam soluções para determinadas situações, podemos ter certeza: tudo se
resolve, tudo tem um final feliz!
Como seguidores de Jesus, não podemos desistir do outro em hipótese
alguma, e nem ficar assistindo passivamente a sua ruína, se podemos fazer
algo em seu favor! É nossa
responsabilidade cuidar deste bem tão precioso para Deus: a vida humana.
Não podemos esquecer: é na relação humano com humano, que a vida
Divina entra em nós!
Quanto mais humanos, mais divinizados somos.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:
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Não fecheis o
coração
Iniciamos o mês da Bíblia com o tema da
correção fraterna. Em todas as leituras de hoje, a palavra de Deus vem insistir
que somos responsáveis uns pelos outros e devemos ser um suporte para os
fracos, indecisos, tíbios, apáticos na fé e no seguimento de Jesus.
Pouquíssimas pessoas têm coragem de
advertir alguém que está errado. É mais fácil condenar, humilhar, fofocar ou
ser indiferente. Mas a Bíblia afirma e reafirma a responsabilidade de uns para
com os outros. Deus nos pedirá contas da vida de nossos irmãos e irmãs. Por
isso, hoje, quando ouvirmos a sua voz, não endureçamos nosso coração.
Evangelho (Mt.
18,15-20)
Se ele te ouvir,
terás ganho teu irmão
O texto do evangelho de hoje situa-se
no contexto do “sermão sobre a comunidade”, cujos textos são direcionados
especificamente para orientar a vida na Igreja. E um tema muito precioso para o
Evangelho de Mateus é a correção fraterna, essencial para o crescimento pessoal
do cristão na comunidade.
O evangelho nos orienta no delicado
passo da correção fraterna. Primeiramente devemos tomar consciência de que o
ato de corrigir o irmão é nossa responsabilidade. O texto é claro: “Vai!” É um
imperativo que nos interpela. A não realização desse mandato significa erro
grave, pois nos omitimos diante do erro do outro, deixando que um membro do
corpo de Cristo permaneça no engano.
O texto nos apresenta a preocupação com
o retorno à comunidade de quem se desligou pelo pecado. Por isso são empregados
todos os recursos para a volta do irmão. É uma correção feita com respeito e
amor. São oferecidas várias oportunidades para a conscientização sobre o erro.
Primeiramente a exortação pessoal, para preservá-lo de constrangimento diante
da comunidade. Depois, a exortação diante de algumas testemunhas; por fim,
diante da comunidade, para que o irmão obstinado em sua má conduta reconheça,
perante a autoridade da Igreja, a situação em que ele mesmo se colocou.
Todo esse procedimento nos ajuda a
perceber o papel mediador da Igreja para ajudar um membro a sair do erro. Isso
porque não caminhamos sozinhos, mas fazemos parte de um corpo, necessitamos uns
dos outros para viver nossa fé.
Se levarmos a sério nossa
responsabilidade para com nosso irmão, nossa ação de exortá-lo, de encaminhá-lo
para o rumo certo, proporcionar-nos-á ganhar um irmão na caminhada de fé. Nossa
maior preocupação deverá ser não apontar os erros dos nossos irmãos na
comunidade, mas reconduzi-los de volta à comunhão com Deus expressa na
comunidade crente. Se fizermos isso, certamente a Igreja desempenhará bem seu
papel de mediação da boa-nova de Jesus Cristo.
1ª leitura (Ez.
33,7-9)
Perdoa ao teu irmão
O profeta é não apenas o porta-voz de
Deus, mas também uma sentinela para o povo. A sentinela era alguém que estava
de prontidão, que permanecia acordado enquanto todos dormiam. Era alguém que
percebia a aproximação de um inimigo ou de um viajante noturno aos portões da
aldeia. Esse simbolismo nos ajuda a ver nossa responsabilidade perante as
pessoas com as quais convivemos em casa, no trabalho, na vizinhança, nos
círculos de amizade, na Igreja. Devemos estar atentos aos outros: perceber se
estão em perigo, se correm algum risco de pôr a si mesmo ou outras pessoas em
perigo.
A expressão bíblica “exigir o preço do
sangue” significa ser responsável pelo outro. Deus exige que não sejamos
omissos, que não deixemos as pessoas seguir para um precipício sem alertá-las –
com bondade e compaixão, sem condenar nem humilhar – sobre a necessidade de
mudança de atitude.
Em todo caso, deve-se respeitar o
livre-arbítrio de quem é adulto e responsável pelos próprios atos, mas somente
depois de ter sido tentado tudo o que é humanamente possível para o bem do
próximo.
2ª leitura (Rm.
13,8-10)
Quem ama o
próximo cumpriu toda a Lei
Os preceitos da Lei de Deus sobre as
relações humanas culminam no amor mútuo. O “amor não pratica o mal contra o
próximo” e também não quer o mal para os outros. O fato de alguém não fazer
nenhum ato de maldade não significa que possa ficar confortável, dizendo a si
mesmo: “Não roubei, não matei, logo sou bom para meu próximo”. Quem não pratica
o mal, mas se omite ou negligencia a responsabilidade pelo outro, não ama
verdadeiramente o seu próximo. Responsáveis que somos por nossos semelhantes,
não devemos ficar no comodismo, mas ajudá-los a ser alguém melhor.
Pistas para reflexão
É oportuno lembrar serem vários os
motivos da omissão, os quais geralmente envolvem medo ou frieza de coração.
Temos receio de advertir alguém e ser repelidos, perder a popularidade ou ser
tachados de intransigentes. Por isso é mais fácil “lavar as mãos”, como fez
Pilatos, e dizer: “Eu não tenho nada a ver com isso”. Não deixemos que nosso
coração fique endurecido diante do clamor silencioso de quem está envolvido
numa teia de erros e não consegue sair sozinho dessa armadilha. É mais fácil
julgar-se superior, murmurar, fofocar, condenar quem caiu ou está em perigo de
queda.
Comecemos este mês da Bíblia formando
uma consciência de “povo de Deus”, todos unidos como irmãos e irmãs da mesma
família, responsáveis uns pelos outros. Se alguém se desviou do caminho, vamos
ao seu encontro e insistamos para que retorne. E, caso não queira nos ouvir,
não desistamos: oremos para que Deus mesmo o reconduza. Somente não endureçamos
nosso coração.
Paulus.
A caridosa correção fraterna
Tema belo e delicado
esse da correção fraterna! Gesto de delicadeza de amor! Quanto a dizer e quanta
dificuldade em colocar as palavras apropriadas.
Antes de mais nada
deve ficar claro em nossas mentes: o Senhor Deus nos corrige e a correção que
nos faz é sinal de um imenso amor. Queremos ser dele e não o somos totalmente.
Nas encruzilhadas de nossas vidas chegamos mesmo a pecar e a pecar gravemente.
Por vezes instala-se em nós o torpor do tédio. Não temos mais o fogo do
discípulo. Somos frios e mornos. Quase pecamos ou pecamos sem quase. O Senhor
faz como que nos espetar com um sofrimento e o alegre arrependimento. Ele nos
recebe de volta no seio da Igreja. Importante chegar no albergue do amor
e receber, na Igreja, o perdão. Aqueles que o Senhor corrige voltam alegre para
o casa do amor. Recebem ali o sacramento da reconciliação.
Mateus coloca algumas
regras para a correção do irmão que erra. Primeiramente será preciso corrigi-lo
em particular. Conversar com calma e tentar refazer o tecido da convivência
carinhosa que foi rompido. Há essas ofensas pessoais, há esses enganos,
há tomadas de posição que alguém vem a tomar contra nós num momento de inveja,
de fraqueza. O esclarecimento em particular pode tudo resolver. O amor cobre as
ofensas.
Há certos
desentendimentos familiares entre os sogros e genros e noras, entre cunhadas e
assim por diante. Sim, a família é um terreno muito propício para a floração
dos desentendimentos. Alguns deles podem ser de tal monta que
redundem na negação da palavra entre familiares.
Se, em particular não
se pode resolver será preciso fazer apelo a concurso de outras pessoas mais
habilidosas e jeitosas. Mateus fala de tomar duas pessoas.
No caso de assuntos
da comunidade cristã uma vez que tenham se esgotadas todas as possibilidades
será necessário “dizer à Igreja”. Quando escândalos são colocados e os cristãos
perdem a sensibilidade e não aceitam a correção dos irmãos será preciso dizer o
“pecado” à Igreja.
Não posso me privar
ao prazer de transcrever essas poucas linhas do missal dominical da
Paulus: “O verdadeiro perdão, o perdão autêntico, não deixa as pessoas como
são, com seus defeitos e suas limitações. Amar um irmão significa ajuda-lo a
“crescer” em todos os níveis, querer concretamente sua “libertação” daquilo que
é defeituoso e mau, lutar por sua própria humanização. Por isso, corrigir é
obra de amor, nunca é extinguir energias e entusiasmos; é coisa muito diferente
da crítica. Juntamente com a correção fraterna, o cristão faz largo uso do
encorajamento. As pessoas esperam dos outro algo diferente do dom material;
espera que outros se lhes tornem próximos, que entrem em contato com elas,
percebem que elas existem, e lhes digam tudo isso. Nada é tão encorajador
como a atenção vigilante, o respeito não puramente formal, a palavra inesperada
de congratulação, se não forem fórmulas vazias de rito ou expressões
convencionais. O encorajamento, como correção, é uma das muitas facetas da
caridade” (p. 794).
frei Almir Ribeiro Guimarães
A Igreja,comunidade
de salvação
O profeta é o homem que enxerga, melhor
que os outros, a vontade de Deus. O profeta olha para o lado interior das
coisas. É uma sentinela, deve dar alerta ao enxergar algo suspeito. Sua visão é
uma responsabilidade. Se vê o errado, mas fica calado, ele deixa seu irmão
perder-se e perde-se com ele. Mas se transmite o recado, a responsabilidade
está com o outro, e o profeta se salva (Ez. 33,7-9).
A Igreja é um povo profético. A partir
de nossa unção batismal e crismal, todos nós participamos da vocação profética
do Cristo, legada à Igreja. No Sermão eclesial de Mt. 18 (evangelho) aparece
também nossa tarefa de sermos sentinelas. A cada suspeita, devemos dar alerta,
advertir o irmão que não está no caminho certo. E isso, não uma só vez: devemos
esgotar todos os meios. Avisá-lo uma segunda vez, diante de testemunhas (para ver
se não estamos enganados), ou, enfim, recorrer ao testemunho da comunidade. Se
então ainda não quiser ouvir, seja “como gentio ou publicano”, expressão
judaica tradicional designando quem não cabe na assembléia. Nesta altura, o
poder de ligar e desligar, antes confiado representativamente a Pedro, é
confiado à Igreja toda. Pois toda ela é responsável pelo caminho da salvação de
todos. Todos nós devemos fazer o que for preciso para encaminhar nossos irmãos
no caminho certo.
Mateus 18 mostra a importância da
comunidade eclesial. Esta aparece ainda na palavra de Jesus sobre a oração
comunitária (Mt. 18,19s): quando estamos reunidos no nome de Jesus e unânimes
dirigimos nossos pedidos a Deus, ele nos atenderá como se fôssemos Jesus mesmo:
pois Jesus está no nosso meio. Nós realizamos Jesus, em nossa comunhão. A
Igreja se apresenta, na liturgia de hoje, como comunidade de salvação, no
sentido sacramental: ela representa, torna presente o Salvador que nos une com
Deus.Como? Pela comunhão eclesial! A missão de Cristo era, fundamentalmente,
realizar a comunhão de todos os que são filhos do mesmo Pai, realizar o amor do
Pai no meio de nós. Onde nós, em comunhão fraterna, realizamos isso, aí
realizamos o próprio Cristo.
A verdadeira comunidade eclesial é o
sacramento de Cristo e de Deus. Portanto, o texto do evangelho de hoje não se
deve entender num sentido jurídico, mas num sentido eclesial, comunitário e,
assim, verdadeiramente místico. Por exemplo, com relação à correção fraterna,
Jesus não quer dizer que basta chamar duas testemunhas e depois uma comissão
eclesiástica toda esclerosada, para enfim excomungar o acusado (pois é muito
provável que não se converterá à vista de tal comissão). Jesus nos ensina a
colocar, profeticamente, os que erram diante da comunidade que brotou do amor
de Cristo. Então, se mesmo diante deste testemunho a palavra profética não
“pega”, também não podemos fazer mais nada.
Na 2ª leitura ouvimos como Paulo, nas
suas exortações finais aos romanos, resume a prática da vida cristã: não ficar
devendo nada aos outros, senão a caridade, que sempre fica em dívida (o que não
significa que não precisamos fazer o possível...). A caridade é o resumo de
tudo. Se nos esforçamos por ela, saldamos automaticamente todas as outras
obrigações. “O amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm. 13,8-10). Paulo comenta
aqui, à sua maneira, uma palavra do Senhor Jesus (cf. Mt. 22,34 ss. = Mc.
l2,28ss = Lc. 10,25 ss.; cf. Gl. 5,14). E sendo poucas as palavras de Jesus que
Paulo cita assim, isso significa que ele a considera como algo central na
mensagem cristã. Também são Tiago a cita, na sua carta (Tg. 2,8). E são João
não faz outra coisa senão comentar este “preceito único” do amor ao próximo,
pois ninguém pode amar Deus sem amar o próximo! (1Jo 4,20), e só se ama bem ao
próximo quando se ama a Deus. Pois amar Deus, procurar Deus, significa procurar
a ultima palavra sobre o que é certo e errado, escutando a voz absoluta daquele
que ama o nosso irmão como nós o deveríamos amar também.
Assim, o espírito da liturgia de hoje
evidencia a comunhão e a caridade fraterna na comunidade eclesial, não só na
mútua amizade (cf. oração sobre as oferendas), mas também na oração (evangelho)
e na caridosa advertência (1ª leitura, salmo responsorial, evangelho). Nisto, a
Igreja realiza a união com Cristo para sempre (oração final) e se torna
comunidade e sacramento de Salvação.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Entre irmãos
No Evangelho de hoje Mateus relata o
compromisso que cada um tem, como membro de uma comunidade cristã, diante da
falha do “irmão”. Neste compromisso Jesus ensina a obrigação de corrigir o
irmão que errou.
“A partir de nosso batismo e confirmação
pelo crisma, todos nós participamos da vocação profética do Cristo”. Diante
desta afirmação está a responsabilidade cristã pelo do erro do irmão. Se ele o
comete e, como profeta do Cristo um irmão não vai ao seu encontro para ajudá-lo
a reconciliar-se com o Pai, também ele é responsável pelo erro.
Esta correção deve acontecer assim:
primeiro, é preciso conversar com ele em particular, indo à sua procura na
qualidade de quem já perdoou, a fim de lhe mostrar o erro sem se achar superior
a ele, e convidá-lo novamente a se reintegrar à comunidade; se não der
resultado, deve contar com a ajuda de outros irmãos na tentativa de resgatá-lo;
e, se por fim, ele continuar errando, o grupo, a comunidade deve agir para
ajudá-lo.
Mas por que a comunidade? Não é cada um
o responsável por si mesmo, pelo erro que cometeu? Sim, cada um é responsável
pelos seus erros, mas Jesus confiou à Igreja, através de Pedro, a
responsabilidade pelo caminho da salvação de todos, e sendo assim cabe a todos
se ajudarem mutuamente.
A comunidade cristã não é feita de
pessoas perfeitas, e nem sempre a atitude tomada diante dos erros dos outros é
a mais adequada. Os erros não devem passar despercebidos, e nem devem ser
tomadas atitudes erradas que não contribuam para a recuperação de quem erra
como: espalhar o erro, fofocar, excluir a pessoa. Antes de condenar ou excluir
é preciso conhecer a justiça do Reino, e ter consciência de que os passos
aconselhados por Jesus não são normas rígidas e, sim, um modo de agir que
têmpera de justiça as relações entre as pessoas. Em outras palavras, é preciso
ser criativo no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o
espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas da busca para
reintegrar. O próprio Cristo sempre demonstrou Sua especial atenção para com as
“Ovelhas perdidas”.
Jesus dá algumas dicas que passam pela
necessidade das pessoas se reunirem em nome d’Ele, a fim de, mediante a oração,
chegarem a um consenso. Ele afirma que Deus acolhe os pedidos e os realiza
àqueles que se reúnem e rezam na mesma intenção, e diz que estará sempre
presente onde dois ou mais estiverem reunidos em Seu nome.
Pequeninos do Senhor.
Corrigir com
discernimento
É preciso agir com extremo
discernimento, quando se trata de afastar um membro da comunidade do convívio
fraterno. Em geral, as lideranças da comunidade são tentadas a deixar-se levar
por critérios irrelevantes, revelando-se injustos contra quem cometeu uma
falta. Uma decisão deste porte não pode depender de preconceitos ou do que pensam
os líderes. Importa somente fazer a vontade de Deus.
A comunidade cristã deve rezar e
refletir muito, antes de excomungar alguém. Sua decisão deve corresponder ao
pensamento de Jesus. Por isso, é necessário evitar que a reunião onde se toma
tal decisão se assemelhe a um tribunal onde se submete a pessoa a um juízo
inclemente. O melhor lugar para se decidir isso é a assembléia eucarística. A
ela se refere à afirmação do Senhor: "Onde dois ou três estão reunidos em
meu nome, estou ali, no meio deles". Neste caso, trata-se de uma reunião
bem específica, na qual a comunidade põe-se de acordo para pedir a luz divina,
antes de decidir sobre a sorte do membro que errou. Se a comunidade pede com
sinceridade, poderá estar certa de ser atendida pelo Pai. A decisão comunitária,
se tomada seriamente, terá o aval de Deus. Ou seja, se o membro for desligado
da comunidade terrestre, será também desligado da comunidade celeste. O Pai
confirma o veredicto da comunidade que agiu com discernimento.
padre Jaldemir
Vitório
1ª leitura (Ez. 33,7-9) - O
profeta-sentinela: responsabilidade pela conversão do pecador
Os profetas eram sentinelas em Israel,
deviam dar alerta. Mas o povo não prestou atenção, por isso veio a catástrofe
(exílio). Sobrou um pequeno resto, e também este precisa de sentinela, de
alguém que o avise para mudar seu caminho. E ai da sentinela que não cumprir
seu dever: é responsável pela perda do irmão.
* cf. Ez. 3,17-21; 33,11; Jr. 6,17;
25,3-4; Mt. 18,15.
2ª leitura (Rm. 13,8-10) - O amor,
pleno cumprimento da Lei
Na sua justiça, Deus dá a todos o que
precisam: fundamentalmente, seu amor de Pai. Nós, para sermos justos, devemos
também nos dar-nos mutuamente este dom, embora sempre fiquemos devendo. Toda a
justiça está incluída nisso.
* 13,8 cf. Jo 13,34; Gl. 5,14 * 13,9-10
cf. Ex. 20,13-14; Dt. 5,17; Lv. 19,18; 1Cor. 13,4-7.
Evangelho (Mt. 18,15-20) - Correção
fraterna, penitência e oração comunitária.
Mateus 18 é o “sermão sobre a
Comunidade”. Na Igreja, santa embora pecadora, sendo filhos de Deus e irmãos
entre nós, somos responsáveis uns pelos outros, sobretudo quando o pecado está
destruindo a santidade. Quando a preocupação do cristão individual ou da
comunidade nada resolvem, esta pode até excluir o pecador, para o conscientizar
de que ele já se afastou da santa comunhão eclesial. – Nos v. 19-20 de Mt,
temos outras sentenças de Jesus referentes à vida da comunidade: no caso, à
oração comunitária.
* 18,15-18 cf. Lv. 19,17; Lc. 17,3; Dt.
19,15; Mt. 16,19; Jo 20,23 * 18,19-20 cf. Mt. 7,7; Jo 15,7.16; Mt. 28,20.
Correção fraterna
Conforme lemos na 1ª leitura, Deus
estabelece o profeta como “sentinela do povo”. Ele tem de avisar os irmãos a
respeito de sua conduta, para que não se percam. Deus cobrará dele esse
serviço! Na mesma linha, o evangelho nos ensina a prática da “correção
fraterna”. Jesus aconselha isso para a comunidade como tal – não apenas para os
conventos, fora do mundo... Imagine só que em nossas paróquias qualquer cristão
fosse corrigir seu “irmão” ou sua “irmã”!
Jesus ensina, concretamente, o que
fazer com o pecador na comunidade eclesial, não para castigá-lo, mas para
ganhá-lo e ele não se perder. Primeiro, é preciso falar-lhe em particular (mais
ou menos como se faz na confissão); depois, fale-se a ele na presença de
algumas testemunhas; finalmente, se não se corrigir, seja interpelado perante a
comunidade. E se isto não der resultado, aguente ele o afastamento da
comunidade.
Ninguém é uma ilha. A vida de nosso
irmão nos concerne. Repartimos com ele nosso espaço vital, nosso trabalho,
nosso lazer. Então, somos também, em parte, responsáveis por seu caminho.
Devemos avisar nosso irmão quando este parece desviar-se (pois ele mesmo nem
sempre enxerga). Isso não é arvorar-se em juiz da vida alheia, é serviço
fraterno. E devemos também nos deixar corrigir.
“Ninguém tem algo a ver com a minha
vida privada”. Mas será que ela é tão privada assim? Hoje, religião e moral são
muito privatizadas, mas isso não é necessariamente um progresso! Pode ser uma
estratégia do “Adversário” para diminuir a consciência e a força moral do povo.
A fuga na privacidade torna difícil o trabalho de transformação: as drogas, a
pornografia, a alienação religiosa têm algo a ver com isso.
Devemos ter a coragem de denunciar –
com amor e conforme o procedimento do evangelho – os erros dos irmãos, sejam
ricos ou pobres, poderosos ou subalternos. Aos abastados, devemos lembrar a
“hipoteca social”, a dívida dos ricos com os pobres; aos pobres, importa
ensinar uma solidariedade disciplinada, para construir verdadeira fraternidade
e comunhão nas coisas materiais. E não tenhamos medo de chamar a atenção para
os desvios particulares das pessoas, antes que se tornem um perigo público.
Muitos dos males de nosso país e de nossa Igreja provêm do encobrimento daquilo
que está errado. É como um câncer descoberto tarde demais...
A 2ª leitura de hoje (Rm. 13,8-10)
ensina que o amor é o pleno cumprimento da lei. Uma forma de amar é advertir o
irmão. Não é agradável. Mas, quem disse que o amor deve sempre ser agradável? O
médico que cura uma ferida nem sempre consegue fazer isso sem dor. Corrigir o
irmão – sem se pretender superior a ele – faz parte do “amor exigente”.
Johan Konings
A missão do profeta
O profeta Ezequiel é
contemporâneo do profeta Jeremias. Ao contrário de Jeremias que, durante o
exílio na Babilônia, ficou em Judá, Ezequiel foi para a Babilônia com os
deportados. Sua missão tinha um duplo aspecto: ajudar o povo exilado a não se
esquecer de que, ao contrário do que eles pensavam, Deus não os havia
abandonado, mas estava com eles, e manter viva a esperança do retorno à terra
dos seus antepassados. O texto autobiográfico que, hoje, lemos, apresenta
Ezequiel como sentinela da casa de Israel (cf. Ez. 33,1-7). Enquanto tal, ele
deve alertar contra o inimigo que ameaça o povo. A missão do profeta é prevenir
o povo contra tudo o que possa ameaçar a esperança e a fidelidade ao Deus de
Israel. Ele compreende que sua missão, enquanto sentinela da casa de Israel, é
também de despertar no povo o desejo de conversão.
O evangelho de hoje é
parte do discurso sobre a Igreja, em que Jesus instrui os seus discípulos
acerca dos aspectos essenciais da vida comunitária cristã. A comunidade cristã
é uma comunidade de reconciliados, por isso, o perdão deve ser uma das marcas
de sua existência. No trecho anterior ao apresentado pela liturgia deste
domingo, duas características da comunidade eclesial foram ressaltadas: a
comunidade cristã deve ser caracterizada pelo serviço e pelo cuidado de uns
para com os outros, de modo especial pelos “pequeninos”, isto é, por aqueles
que se sentem, por algum motivo, desprezados e não valorizados, e que correm,
por isso, o risco de abandonar a comunidade. Nosso texto de hoje é, por assim
dizer, a aplicação prática do desejo de Deus de que nenhum membro da comunidade
se perca (v. 14). A atitude exigida para realizar o desejo de Deus é a
iniciativa que cada um deve tomar no que diz respeito à reconciliação, tendo
presente que a comunidade cristã é uma comunidade de irmãos (v. 15). O pecado
divide a comunidade. Se acontecer a alguém ser vítima do pecado de outro membro
da comunidade, trata-se, aqui, de tomar a iniciativa de ajudar o pecador no seu
processo de conversão, desde que ele aceite livremente. É Deus quem toma a
iniciativa de vir em socorro de nossa humanidade e é ele quem oferece,
gratuitamente, o seu perdão. A comunidade cristã é chamada a ser reflexo da
misericórdia divina (Mt 5,48; Lc 6,36; 15). Assim como Deus não desiste de nós,
também não devemos desistir de nossos irmãos. O único limite para o perdão e a
reconciliação é o fechamento do outro (v. 17). O amor fraterno e,
consequentemente, a comunidade cristã são construídos através desse esforço
permanente de reconciliação.
Carlos Alberto Contieri,sj
Jesus entre os discípulos
O evangelho de Mateus
se caracteriza por ser uma apresentação de Jesus, suas palavras e seus feitos,
adaptada às comunidades de discípulos que vieram do judaísmo. No texto do
evangelho de hoje, Mateus insere algumas orientações sobre a correção fraterna em
uma fala de Jesus sobre as regras de convívio nas comunidades. As orientações
são apresentadas após a abordagem das questões da disputa pelo poder, do
escândalo, e das defecções (Mt. 18,1-14). Assim, Mateus tem em vista manter a
harmonia na comunidade. Em geral, há uma tendência de simplesmente excluir
alguém que é considerado problemático. Conflitos, sensibilidades feridas e
ofensas são comuns neste convívio. Contudo deve-se procurar superá-los com a
mudança dos comportamentos que provocam estes conflitos, sem defecções. Com seu
texto, Mateus desenvolve, para sua comunidade, um simples dito tradicional de
Jesus, que será mencionado por Lucas. Em Lucas, de maneira singela, a questão
envolve apenas duas pessoas, ficando em evidência a prática do perdão. Em Mateus
temos a ampliação do dito colhido na tradição das primeiras comunidades,
dando-lhe um caráter de regra de procedimento para suas comunidades. Existem
semelhanças entre esta abordagem de Mateus e a prática da comunidade dos
essênios de Qumran. Há autores que sugerem que Mateus sofre a influência desses
essênios. Conforme Mateus, a prática do perdão, na comunidade, se dá em três
estágios. O diálogo entre os dois irmãos envolvidos, a ampliação do diálogo
envolvendo duas ou três testemunhas e, finalmente, a questão debatida pela
igreja (comunidade). Percebe-se uma metodologia formalizada em regra. Hoje ela
pode apenas inspirar uma prática do perdão e da reconciliação de uma maneira
mais livre, espontânea e verdadeira. A correção fraterna, que brota do amor e
do perdão, é fundamental para manter-se a unidade na comunidade.
No desfecho deste
processo de correção fraterna apresentado por Mateus, parece discriminatória a
rejeição final com a recomendação de que aquele que mesmo à igreja não ouvir,
seja tratado como se fosse um pagão ou um publicano (coletor de impostos). É
estranha esta recomendação, uma vez que o empenho de Jesus era conviver com
estas publicanos e pagãos, tidos como pecadores. Percebe-se, assim, seria
contraditório considerar que Levi, o publicano - coletor de impostos, também
chamado Mateus, seja o autor deste texto. Mateus articula, em conclusão, três
sentenças: uma sobre o poder de ligar e desligar na terra, relacionada à
tradição do primado de Pedro, surgida a partir dos anos oitenta (cf. Mt.
16,19); outra destacando da importância de orar em comunidade e a terceira
assegurando a presença de Jesus entre os discípulos reunidos e seu nome. Esta
presença de Jesus entre os discípulos tem sentido especial no momento em que
não mais existe o Templo onde se pretendia ter a presença de Deus.
O emprego da palavra
"reunidos" (sinagogain) indica a substituição da sinagoga pela
comunidade. A presença de Deus, Jesus, se dá na comunidade que vive o amor
misericordioso, vigilante para a reconciliação e a comunhão. "O amor é o
cumprimento perfeito da Lei". A primeira leitura vai em uma perspectiva
mais ampla. Trata-se da denúncia profética que deve ser feita do pecado
existente nas estruturas sociais resultante da prática de pessoas injustas.
José Raimundo Oliva
Nossa meditação da Palavra do Senhor
neste domingo pode ser desenvolvida em cinco afirmações. Ei-las:
(1) Cristo está presente na sua Igreja;
jamais a deixará, “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu
estou aí, no meio deles”. Quantas vezes tal afirmação foi distorcida como se
bastasse que uns quatro gatos pingados se reunissem com a Bíblia e aí estaria
Jesus. Nada disso! O sentido é exatamente o contrário. Aqui, neste capítulo 18
de Mateus, Jesus está falando sobre a vida da Igreja, comunidade que ele fundou
e entregou aos apóstolos, tendo Pedro por chefe. Os dois ou três aos quais se
refere o Senhor são os líderes da comunidade que vão decidir a questão do irmão
que não quer ouvir os outros e divide a comunidade! O que a Igreja liga ou
desliga na terra – e são os pastores (os bispos com o papa) que têm, em última
análise, essa responsabilidade – o Senhor ratifica no céu: “Em verdade vos
digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes
na terra, será desligado no céu!” A autoridade que Cristo deu a Pedro de um
modo todo especial, deu-a, aos demais Bispos, os pastores autênticos da sua
Igreja, em comunhão com Pedro. Pois bem, onde dois ou três, como Igreja,
estiverem reunidos em nome do Senhor, ele estará ali, ratificando suas
decisões. Que fique claro: não se pode agradar a Cristo, ser-lhe fiel, rompendo
com a sua Igreja! Ela, por mais que seja frágil por causa da nossa fragilidade,
é a Comunidade que o Senhor reuniu, sustenta e na qual se faz presente atuante!
(2) Essa Igreja é uma comunidade de
amor. O amor cristão não é simplesmente amizade ou simpatia humana, mas o fruto
da presença do próprio Espírito de Amor, o Espírito Santo em nós: “O amor de
Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado!” (Rm.
5,5) É desse amor que fala São Paulo no capítulo 13 da Primeira Carta aos
Coríntios; é esse amor que “cobre uma multidão de pecados” (Tg. 5,20), é esse
amor que é “a plenitude da Lei”. Só ama assim quem se abre para o amor de
Cristo, deixando-se guiar e impregnar pelo seu Espírito de amor! Ora,
caríssimos, a Igreja deve ser o ambiente impregnado desse amor, mais forte que
nossas diferenças de temperamento, de opiniões, de modo de agir... Onde está o
amor, a caridade, Deus aí está; onde o amor reina, o Reino de Deus está
presente neste mundo! A Igreja deve ser o lugar do amor, lugar do Reino!
(3) Essa comunidade de amor é
comunidade de compromisso, de responsabilidade no seguimento de Cristo. Por
isso, não se pode usar o amor para acobertar a covardia, a tibieza, a frieza
para com o Senhor e os irmãos e os demandos na comunidade! O amor é exigente:
“O amor de Cristo nos impele” (cf. 2Cor. 5,14). A infidelidade ao amor a Cristo
e aos irmãos é, precisamente, o pecado, que gera a divisão, a desunião, que faz
sangrar a Igreja. Por isso Jesus nos exorta à correção fraterna, desde aquela
simples, feita entre irmãos, até a correção formal e mais solene, feita pelo
bispo ou até mesmo pelo papa, como chefe supremo da Igreja de Cristo neste
mundo: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo; se ele não te ouvir,
toma contigo mais uma ou duas pessoas; se ele não der ouvido, dize-o à Igreja”.
Muitas vezes, vê-se confundir amor e misericórdia com a covardia ou o comodismo
de não corrigir. Ora, caríssimos, a correção é um modo de amar, é um modo de
preocupar-se com o outro e com a comunidade que é ferida pelo pecado e o mau
exemplo. A correção pode salvar o irmão. Quantos escândalos nas nossas
comunidades poderiam ter sido evitados se houvera a correção no momento
oportuno e do modo discreto e sincero que Jesus nos recomenda. Isso vale para a
Igreja menorzinha, que é nossa família doméstica, vale para o grupo do qual
participamos, vale para a paróquia, a diocese e a Igreja universal (não a “do
Reino de Deus”, mas a de Cristo!), espalhada por toda a terra. A omissão em
corrigir é covardia, é falta de amor à comunidade que é a Igreja, é pecado de
omissão e desatenção pelo irmão. Certamente, tal correção deverá ser feita
sempre com amor, com discernimento, com caridade fraterna. São Bento, na sua
Regra, dá um preceito encantador: “In tribulationem subvenire” –
poderíamos traduzir assim: “socorrer na tribulação”. Mas, a palavra latina
é subvenire: vir por baixo, vir de baixo. Ou seja, socorrer sim,
corrigir sim, mas com a humildade de quem vem por baixo para sustentar, amparar
e ajudar, para salvar; não vem com a soberba de quem está por cima para
massacrar! Corrigir, sim, mas como Deus, que em Jesus, veio por baixo, na
pobreza do presépio e na humilhação da cruz! Aí a correção terá mais chance de
surtir efeito!
(4) Na comunidade de amor às vezes pode
ser necessária a punição. Pode ser que não surte efeito a correção fraterna;
pode ser que aquele que é corrigido teime na sua dureza de propósito e repouse
no erro. Jesus mesmo prevê tal possibilidade no Evangelho de hoje. E, então, o
próprio Senhor exorta a que tal irmão seja punido. Que escândalo para a nossa
mentalidade atual!
O pobre do papa Bento XVI, antigo
cardeal Ratzinger, sabe o quanto foi difamado porque teve que impor penalidades
a teólogos ou outros irmãos que, após a correção, não se emendaram! A nossa
tendência é somente recordar do Senhor as palavras que agradam! No entanto, a
punição na Igreja não é pela vingança ou o desafogo, mas deverá ser sempre
medicinal, isto é, para produzir o arrependimento e a correção, restabelecendo
a paz na comunidade e a salvação do irmão. Que os pais tenha a coragem de
corrigir, os bispos e o santo Padre também. Aliás, de João Paulo II e Bento
XVI, sabemos que a têm, graças a Deus!
(5) Qual o fruto de uma comunidade
assim? A saúde fraterna: a alegria de viver como irmãos: “Se ele te ouvir, tu
ganhaste o teu irmão!” Oh, que palavra tão doce: ganhar o irmão! Eis aqui o
motivo último da correção fraterna! Pensemos bem: a Igreja não é um clube de
amigos, mas uma família de irmãos em Cristo! É o amor do Senhor Jesus Cristo
que nos une. A alegria da comunhão fraterna somente será experimentada na
sinceridade das nossas relações. Correção, sim; crítica destrutiva, murmuração,
difamação, não! Neste sentido, todos nós precisamos fazer um sério exame de
consciência, seja em nível de família, como naquele de grupos e paróquias e,
até mesmo, de Diocese!
São esses os aspectos que a Palavra de
Deus nos põe hoje. Recordemos a exortação do Senhor pela boca de Ezequiel: se
não corrigirmos o irmão e ele morrer no seu pecado, a culpa é nossa; se ele se
corrigir, ganhamos o irmão: viveremos nós e viverá ele – eis a marca do Reino
de Deus neste mundo! Que ele aconteça em nossas comunidades!
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia deste domingo sugere-nos uma
reflexão sobre a nossa responsabilidade face aos irmãos que nos rodeiam.
Afirma, claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que
ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns
pelos outros.
A primeira leitura fala-nos do profeta
como uma “sentinela”, que Deus colocou a vigiar a cidade dos homens. Atento aos
projetos de Deus e à realidade do mundo, o profeta apercebe-se daquilo que está
a subverter os planos de Deus e a impedir a felicidade dos homens. Como
sentinela responsável alerta, então, a comunidade para os perigos que a
ameaçam.
O Evangelho deixa clara a nossa
responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros.
Trata-se de um dever que resulta do mandamento do amor. Jesus ensina, no
entanto, que o caminho correto para atingir esse objetivo não passa pela
humilhação ou pela condenação de quem falhou, mas pelo diálogo fraterno, leal,
amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor. Na segunda
leitura, Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a
colocar no centro da existência cristã o mandamento do amor. Trata-se de uma
“dívida” que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará
completamente saldada.
1ª leitura: Ez.
33,7-9 - Ambiente
Ezequiel é conhecido como “o profeta da
esperança”. Desterrado na Babilônia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin,
quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a
Babilônia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão
profética entre os exilados judeus. A primeira fase do ministério de Ezequiel
decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que
Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de
exilados é encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir
falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o
cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os
que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as
infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilônia. A
segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se
até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de templo, de
sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do
amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e
transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus
que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.
Pelo conteúdo, não é possível dizer de
forma clara se o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura pertence à
primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Em qualquer
caso, ele define – recorrendo à imagem da sentinela – a missão profética: o
profeta é, entre os exilados, como uma sentinela atenta, que escuta os apelos
de Deus e que avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.
Mensagem
A imagem da sentinela aplicada ao
profeta não é nova. Já Habacuc (cf. Hb. 2,1), Isaías (cf. 21,6), Jeremias (cf.
Jr. 6,17) e mesmo Oseias (cf. Os. 5,8) recorrem a esta figura para definir a missão
profética.
O que é que significa dizer que o
profeta é uma “sentinela”? A sentinela é o vigilante atento que, enquanto os
outros descansam, perscruta o horizonte e procura detectar o perigo que ameaça
a sua cidade, os seus concidadãos, os seus camaradas de armas. Quando pressente
o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Dessa forma, a comunidade poderá
preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe vai colocar. Se a
sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe
que atingiu o seu Povo.
Assim é o profeta. Ele é esse guarda
que Jahwéh colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar
atentamente o horizonte da história e da vida do Povo e para dar o alarme
sempre que a comunidade corre riscos.
Para que o profeta seja uma sentinela
eficiente, ele tem de ser, simultaneamente, um homem de Deus e um homem atento
ao mundo que o rodeia.
O profeta é, antes de mais, um homem
que Jahwéh chamou ao seu serviço. Eleito por Jahwéh, chamado para o serviço de
Jahwéh, ele vive em comunhão com Deus; e nessa intimidade que vai criando com
Deus, ele descobre a vontade de Deus e aprende a discernir os projetos que Deus
tem para os homens e para o mundo. Ao mesmo tempo, o profeta é um homem do seu
tempo, mergulhado na realidade e nos desafios da sociedade em que está
integrado; conhece o mundo e é capaz de ler, numa perspectiva crítica, os
problemas, os dramas e as infidelidades dos seus contemporâneos.
Ao contemplar os planos de Deus e a
vida do mundo, o profeta dá-se conta do desfasamento entre uma realidade e
outra. Apercebe-se de que a realidade da vida dos homens é muito diferente
dessa realidade que Deus projetou.
Diante disto, o que é que o profeta
faz? Sacode a água do capote e diz que não é nada com ele? Fecha-se no seu
mundo cômodo e ignora as infidelidades dos homens aos projetos de Deus?
Demite-se das suas responsabilidades e não se incomoda com as escolhas erradas
que os seus irmãos fazem?
Não. O profeta recebeu um mandato de
Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam. Custe o que
custar, doa a quem doer, o profeta tem que dizer a todos – mesmo que os seus
concidadãos não o compreendam ou recusem escutá-lo – que continuar a trilhar
esses caminhos errados não pode senão conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à
morte.
O profeta/sentinela é, em última
análise, um sinal vivo – mais um – do amor de Jahwéh pelo seu Povo. É Deus que
o chama, que o envia em missão, que lhe dá a coragem de testemunhar, que o
apoia nos momentos de crise, de desilusão e de solidão… O profeta/sentinela é a
prova de que Deus, cada dia, continua a oferecer ao seu Povo caminhos de
salvação e de vida. O profeta/sentinela demonstra, sem margem para dúvidas, que
Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Atualização
E hoje? Deus continua a amar o seu
Povo? Continua a querer que ele se converta e viva? Continua a preocupar-Se em
oferecer ao seu Povo a salvação – isto é, a possibilidade de ser feliz neste
mundo e de alcançar, no final da sua caminhada nesta terra, a vida definitiva?
O Deus de ontem não será o Deus de hoje e de amanhã?
Na verdade, Ele continua a chamar,
todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo
Batismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão
de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são
responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens. Temos consciência de
que recebemos de Deus uma missão profética e que essa missão nos compromete com
a denúncia do que está errado no mundo e na vida dos homens?
O que é que devemos denunciar? Tudo
aquilo que contradiz os projetos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de
ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que
dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para
os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o
profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir.
Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um
relacionamento forte com Deus. Encontro tempo para potenciar a relação com
Deus, para falar com Deus, para escutar e meditar a sua Palavra?
É preciso também que o
profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o
rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e
internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de
conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção
dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os
acontecimentos à luz de Deus e do projeto de Deus. Estou atento aos sinais dos
tempos e procuro analisá-los a partir de uma perspectiva de fé?
É preciso, finalmente, que o
profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cômodo, demitindo-se das suas
responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afeta a vida de um
homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta. Podemos ficar calados diante
das escolhas erradas que o mundo faz? O nosso silêncio não nos tornará
cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à
miséria tantos homens e mulheres?
2ª leitura: Rm.
13,8-10 - Ambiente
Continuamos a ler a segunda parte da
carta aos Romanos (cf. Rm. 12,1-15,13). Aí, Paulo mostra – em termos práticos –
como devem viver aqueles que Deus chama à salvação.
Deus oferece a todos a salvação; ao
homem resta acolher o dom de Deus, aderindo a Jesus e à sua proposta… Mas a
adesão a Jesus implica assumir, na prática do dia a dia, atitudes coerentes com
essa vida nova que o cristão acolheu no dia do seu batismo. São essas atitudes
que Paulo recomenda aos romanos (e aos crentes em geral) nesta segunda parte da
carta.
No ano 49, o imperador Cláudio tinha
publicado um édito que expulsava de Roma os judeus (incluindo os cristãos de
origem judaica). Ora em 57/58 (quando a carta aos Romanos foi escrita), muitos
desses judeus tinham já voltado a Roma. Será que os cristãos de origem pagã,
“donos” da comunidade durante bastante tempo, ostentavam a sua superioridade e
manifestavam desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a
Roma? Será que, por essa razão, havia divisões e falta de amor na comunidade de
Roma? Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito uma “carta de reconciliação”, destinada
a unir uma comunidade dividida. O apelo ao amor que o nosso texto nos apresenta
poderia entender-se neste contexto.
Mensagem
Paulo exorta os crentes de Roma a
construir toda a sua vida sobre o amor. O cristianismo sem amor é uma mentira.
Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos.
Essa exigência, contudo, nunca estará
completamente realizada… Qualquer dívida pode ser liquidada de uma vez; mas o
amor não: em cada instante é preciso amar e amar sempre mais. O cristão nunca
poderá cruzar os braços e dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo:
ele tem uma dívida eterna de amor para com os seus irmãos.
O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma “invenção” de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt. 22,34-40).
O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma “invenção” de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt. 22,34-40).
Atualização
Na última ceia, despedindo-se dos
discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos
homens: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais
um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa
caminhada pela história, esquecemos “o mandamento” de Jesus e distraímo-nos com
questões secundárias… Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de
organização e de autoridade, códigos de leis, questões de disciplina… e
esquecemos “o mandamento” do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O
cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem
limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o
resto é secundário.
As nossas comunidades cristãs, a
exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades
fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar
para nós e dizer: “eles são diferentes, são uma mais valia para o mundo, porque
amam mais do que os outros”. É isso que acontece? Quem contempla as nossas
comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do
egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os estrangeiros, os doentes, os
necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades
com solicitude e amor?
É importante sentirmos que a nossa
dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de
partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão… mas é
preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é
preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso
fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma
palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que
sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída.
Evangelho: Mt.
18,15-20 - Ambiente
O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é
conhecido como o “discurso eclesial”. Apresenta uma catequese de Jesus sobre a
experiência de caminhada em comunidade. Aqui, Mateus ampliou de forma
significativa algumas instruções apresentadas por Marcos sobre a vida
comunitária (cf. Mc. 9,33-37. 42-47) e compôs, com esses materiais, um dos
cinco grandes discursos que o seu Evangelho nos apresenta. Os destinatários
desta “instrução” são os discípulos e, através deles, a comunidade a que o
Evangelho de Mateus se dirige.
A comunidade de Mateus é uma comunidade
“normal” – isto é, é uma comunidade parecida com qualquer uma das que nós
conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e
problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que
querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e
que escandalizam os pobres e os débeis; há irmãos que magoam e ofendem outros
membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os
erros dos outros… Para responder a este quadro, Mateus elaborou uma exortação
que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres
e dos excluídos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um “modelo” de
comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de
ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e
aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.
Mensagem
O fragmento do “discurso eclesial” que
nos é hoje proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o
irmão que errou e que provocou conflitos no seio da comunidade. Como é que os
irmãos da comunidade devem proceder, nessa situação? Devem condenar, sem mais,
e marginalizar o infrator?
Não. Neste quadro, as decisões radicais
e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom
senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com
amor. Mateus propõe um caminho em várias etapas…
Em primeiro lugar, Mateus propõe um
encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o
problema (v. 15). O caminho correto não passa, decididamente, por dizer mal
“por trás”, por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se
invente nada), e muito menos por espalhar boatos, por caluniar, por difamar. O
caminho correto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno,
compreensivo e tolerante com o irmão em causa.
Se esse encontro não resultar, Mateus
propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros
irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” – diz Mateus – v. 16) que, com serenidade,
sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem
sentido do seu comportamento.
Se também essa tentativa falhar, resta
o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada a confrontar o
infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma
decisão (v. 16a).
No caso de o infrator se obstinar no
seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação
em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento
o colocou à margem da comunidade. Mateus acrescenta que, nesse caso, o faltoso
será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos” (v. 17b). Isto
significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade
de Mateus? Não. Ao usar este exemplo, o autor deste texto não pretende
referir-se a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens tipicamente
judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que
se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de
integrar a comunidade da salvação.
A Igreja tem o direito de expulsar os
pecadores? Mateus não sugere aqui, com certeza, que a Igreja possa excluir da
comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina
e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que
a Igreja tem de tomar posição quando algum dos seus membros, de forma
consciente e obstinada, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão
frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo,
nem é a Igreja que exclui o prevaricador: ele é que, pelas suas opções, se
coloca decididamente à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que
constatar o fato e agir em consequência.
Depois desta instrução sobre a correção
fraterna, Mateus acrescenta três “ditos” de Jesus (cf. Mt. 18,18-20) que,
originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus
encaixou neste contexto.
O primeiro (v. 18) refere-se ao poder,
conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão
designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que
era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do
Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (algum tempo antes – cf. Mt.
16,19 – Jesus dissera estas mesmas palavras a Pedro; mas aí Pedro representava
a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder para interpretar as
palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para
excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs.
O segundo (v. 19) sugere que as
decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração.
Assegura aos discípulos, reunidos em oração, que o Pai os escutará.
O terceiro (v. 20) garante aos
discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere
que as tentativas de correção e de reconciliação entre irmãos, no seio da
comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus.
Atualização
A palavra “tolerância” é uma palavra
profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças,
até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”?
Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos
diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma
atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos
outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume
comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada
com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se
obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços
cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos
rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para
disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?
O Evangelho deste domingo sugere a
nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros.
Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes
erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele
está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes,
corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e
respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe
fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que
resulta do mandamento do amor…
Que atitude tomar em relação a quem
erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as
falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar
destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações
familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça
pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a
possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de
apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o
irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que
o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a
repreendê-lo a sós…
Sobretudo, é preciso que a nossa
intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo
ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a
condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre
presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos
leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o
orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o
amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?
A Igreja tem o direito e o dever de
pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de atos que afetam
gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e
os seus atos errados. As ações erradas devem ser condenadas; os que cometeram
essas ações devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a
quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de
integrar a comunidade do Reino.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho