sexta-feira, 20 de outubro de 2017
29º DOMINGO TEMPO COMUM-A
29º DOMINGO TEMPO
COMUM
22
de Outubro de 2017
Cor: Verde
-DAI, POIS, A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR –José Salviano.
Os fariseus prepararam um plano fatal, um
golpe mortal, segundo eles,
infalível para pegar Jesus de surpresa. Primeiro eles colocaram Jesus lá em
cima, ou seja, com muita falsidade, fizeram uma porção de elogios ao Mestre. Em
seguida, deram o golpe letal: É lícito ou não pagar imposto a César?
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“DAI POIS A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR, E A
DEUS O QUE É DE DEUS.”- Olivia Coutinho.
29º DOMINGO DO TEMPO
COMUM. - DIA MUNDIAL DAS MISSÕES.
Dia 22 de Outubro de 2017
Evangelho de Mt22,15-21
Neste
dia mundial das missões, somos convidados a fortalecer o nosso ideal de
discípulo missionário.
Anunciar
o evangelho é o anseio de todo àquele que deseja viver e transmitir a sua fé!
Como
anunciadores da Boa nova do Reino de Deus, que caminha dentro do espírito da fé
e do compromisso com a igreja missionária, somos convocados a dar continuidade
a missão de Jesus, reafirmando com o nosso testemunho, a nossa adesão ao
projeto de Deus!
É
o amor a Deus, que motiva milhões de missionários e missionários, a fazerem às
vezes de Jesus no mundo, levando ao outro, a sua proposta de vida nova,
possibilitando-o a conhecer a verdade que liberta.
No
evangelho que a liturgia deste Domingo nos convida a refletir, podemos
perceber claramente, que os piores inimigos, aqueles que querem nos distanciar
de Deus, podem estar presentes dentro de nós, que são a ganância, a ambição o
desejo do ter e do poder... Foram esses inimigos, cultivados no coração das
lideranças políticas e religiosas do tempo de Jesus, que os cegaram, não os
deixando enxergar, na pessoa de Jesus, a presença do Messias, o Cristo Filho de
Deus!
Com
a adesão do povo a Jesus, a ira dessas autoridades que detinham o poder, tanto
religioso, quanto político, cresceu ainda mais. Porém, Jesus, não se intimidou
diante destes seus opositores, Ele continuava falando do Reino abertamente sem
medo, deixando-os enfurecidos, dispostos a fazer qualquer coisa, para deter
Jesus.
Fariseus
e herodianos, que eram grupos rivais, ao se sentirem ameaçados pela a presença
de Jesus, abriram mão de suas divergências para se unirem no mesmo propósito:
eliminar Jesus, tirá-lo do caminho deles.
Para
evitar um confronto direto com o povo, e não manchar a imagem deles, eles,
acharam melhor, incitar o próprio povo contra Jesus, armando uma cilada para
pegá-lo em alguma palavra, na presença do povo. As autoridades mandaram alguns
fariseus e alguns partidários de Herodes, para executar este plano. Aproximando
de Jesus, eles disseram: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás
preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem,
mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o
imposto a César? Devemos pagar ou não?”
Esta
pergunta maldosa, revestida de uma aparência de fidelidade a Deus, era na
verdade, uma intenção de acusar Jesus: Se Jesus dissesse: "deve pagar” Ele
poderia ser acusado junto ao povo, como amigo dos romanos, provocando
assim, uma revolta no povo que odiava os romanos.
Por
outo lado, se Jesus dissesse: “Não deve pagar”, Ele poderia ser acusado junto
às autoridades romanas, como subversivo. Portanto, a armadilha parecia
perfeita, para esses dois grupos, (fariseu e herodianos) Jesus não tinha saída.
Porém Jesus, na sua sabedoria Divina, não perdeu tempo com discussões, limitou-se
apenas em dizer: “Trazei-me uma moeda para que eu a veja. “Eles levaram a
moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e a inscrição que está nessa
moeda? “Eles responderam: “É de César’. “Então Jesus disse”: “Dai, pois, a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Jesus disse isto, porque Ele
sabia que eles já reconheciam a autoridade de César, ou seja, já estavam dando
a Cesar o que era de Cesar. O que faltava, era eles devolverem a Deus, o que
era de Deus, isto é, o povo, que eles escravizavam!
E
assim, o plano arquitetado pelos os opositores do projeto de Deus, mais uma
vez, cai por terra, mostrando-nos que as forças do mal, nunca vencem o
bem!
Muitos
de nós, condenamos as atitudes dessas autoridades que tramaram contra Jesus,
mas será que nós também, de alguma forma, não estamos tramando contra Ele,
planejando, ou desejando algo, contra o nosso irmão? Será que estamos acolhendo
bem, um novo integrante que chega com ideias novas na nossa comunidade? Ou
ficamos enciumados, com medo dele se destacar e tomar o nosso lugar?
O
que estamos dando a Deus? Estamos entregando a Ele os frutos produzidos através
dos dons que Ele nos deu?
A
vida é a maior expressão do amor de Deus, não conduzi-la para o bem, é não dar
a Deus o que é de Deus!
Partilhar
a vida, praticar a justiça, o perdão, é viver a lei do amor, é dar a Deus o que
é de Deus.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Eis,
caríssimos irmãos no Senhor, a frase que resume perfeitamente a Liturgia da
Palavra deste Domingo. Frase tão conhecida, tão repetida e tão poucamente
compreendida! E, no entanto, uma das frases mais radicais e revolucionárias do
Evangelho; frase que bem serve de bandeira para os crentes do mundo descrente
de hoje.
Recordemos o contexto. Os inimigos de Jesus prepararam-lhe uma
inteligente armadilha. Primeiro o elogiaram com um elogio hipócrita, mas, fiel
à realidade, que nos mostra bem a grandeza de caráter do Senhor nosso: “Mestre,
sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te
deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas
aparências”. Que belo elogio! Que belo exemplo a ser seguido! Mas, eis que vem
a armadilha: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” Se Jesus respondesse
“sim”, seria acusado de peleguismo, de colaboracionismo com os opressores
pagãos romanos, impuros e odiados pelo povo; se respondesse “não”, seria
acusado de revoltoso anti-romano diante de Pôncio Pilatos pelos seus próprios
inimigos; se respondesse “não sei”, seria desmoralizado como um rabi
incompetente e estulto. Eis, pois: a armadilha era perfeita! Mas, a resposta de
Jesus foi mais perfeita ainda, verdadeiramente admirável! Pediu uma moeda,
perguntou de quem era a inscrição... “Então, se usais a moeda de César, é
porque César é quem manda de fato! Dai, pois, a César o que é de César!” E,
então vem o complemento. Impressionante: “Mas, dai a Deus o que é de Deus!”
Que significa tal resposta? À primeira vista, Jesus estaria dividindo o
mundo, as realidades, em duas áreas: uma para Deus e outra para César. Deus e
César, lado a lado... Nada disso! Ao ensinar a dar a César o que é de César, o
Senhor nos convida a respeitar as estruturas da sociedade em que vivemos, a
levá-las a sério, a bem viver nelas. César, aqui, significa o mundo em que
vivemos, com toda sua riqueza e complexidade. César é a política, César é a
Pátria, a família; César é o trabalho, o emprego, o esporte que praticamos;
César são os amigos e os sonhos nossos... Tudo quanto é humano e legítimo pode
e deve ser apreciado e respeitado pelos cristãos. Podemos dar a César o que é
de César, sem medo nem temor! Mas, ao ensinar e exortar a dar a Deus o que é de
Deus, o Senhor nos recorda com toda seriedade que somente Deus é Deus. E o que
se deve dar a Deus? Tudo; absolutamente, tudo! De Deus é a nossa vida, de Deus
é a nossa morte, de Deus é tudo quanto temos, vivemos e somos: Dai a César o
que é de César, mas recordai que também César pertence a Deus! César não é
Deus! E aqui está o genial e admirável da resposta de Nosso Senhor. César se
julgava Deus, era chamado “Divino César”, considerava-se senhor da vida e da morte!
Ora, Jesus nega a César tal pretensão! César é somente César e, como César,
morrerá! Somente o Senhor é Deus! A ciência não é Deus, a tecnologia não é
Deus, os grandes do mundo não são Deus! Só o Senhor é Deus! São Paulo faz eco a
essas palavras de Jesus ao nos afirmar: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo,
Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso;
mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor. 3,21-23).
A grande tentação nossa é colocar no lugar de Deus os tantos césares da
vida. Não se endeusa a ciência? Não se absolutiza a tecnologia, não se adora o
sexo? Os grandes do mundo – grandes pelo poder, ou pela riqueza, ou pelo
sucesso – não se acham divinos, sem reconhecer, como Ciro, na primeira leitura
de hoje, que tudo vem de Deus, que estamos nas suas mãos, que tudo é,
misteriosamente, fruto da sua providência?
Cristão, tu deves participar da vida da humanidade, deves ser homem
entre os homens, deves participar da construção da sociedade... Tu deves saber
apreciar o que de bom e de belo existe no mundo... Mas, não te esqueças: nada
disso é Deus, nada disso merece tua adoração, nada disso deve prender teu
coração: nem família, nem pátria, nem amigos, nem posse, idéias ou poder! Só o
Senhor é Deus! A César, o que é de César; a Deus tudo, pois tudo é de Deus!
Viver assim é crer de verdade, é levar Deus a sério de verdade! Grande ilusão
nossa é pensar que podemos colocar Deus no meio de tantos e tantos amores, de
tantas e tantas paixões, fazendo dele apenas mais uma, entre tantas realidades
da vida. Não! Ele é tudo, ele é o Tudo, como dizia São Francisco de Assis: “Tu
és o Bem, todo o Bem, o Bem universal!”
Caríssimos, que na oração, na experiência da vida sacramental e na
escuta da Palavra do Senhor nós aprendamos e reconhecer Deus como Deus na nossa
vida, para que, como aconteceu com os cristãos de Tessalônica, na segunda
leitura de hoje, estejam diante de Deus sem cessar “a atuação da vossa fé, o
esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus
Cristo”. Amém.
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia do 29º domingo do tempo comum convida-nos a refletir acerca
da forma como devemos equacionar a relação entre as realidades de Deus e as
realidades do mundo. Diz-nos que Deus é a nossa prioridade e que é a Ele que
devemos subordinar toda a nossa existência; mas avisa-nos também que Deus nos
convoca a um compromisso efetivo com a construção do mundo.
O Evangelho ensina que o homem, sem deixar de cumprir as suas obrigações
com a comunidade em que está inserido, pertence a Deus e deve entregar toda a
sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser relativizado, inclusive
a submissão ao poder político.
A primeira leitura sugere que Deus é o verdadeiro Senhor da história e
que é Ele quem conduz a caminhada do seu Povo rumo à felicidade e à realização
plena. Os homens que atuam e intervêm na história são apenas os instrumentos de
que Deus se serve para concretizar os seus projetos de salvação.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã que
colocou Deus no centro do seu caminho e que, apesar das dificuldades, se
comprometeu de forma corajosa com os valores e os esquemas de Deus. Eleita por
Deus para ser sua testemunha no meio do mundo, vive ancorada numa fé ativa,
numa caridade esforçada e numa esperança inabalável.
Leitura I – Is 45,1.4-6
AMBIENTE
O texto que hoje nos é proposto pertence ao “Livro da Consolação” do
Deutero-Isaías (cf. Is. 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que
os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua
missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final
do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
Durante o reinado de Nabónides, rei da Babilônia, desponta na Pérsia uma
nova estrela da política internacional… Em 553 a.C., Ciro, rei dos Persas,
conquista a capital da Média (Ecbátana) e junta no mesmo império os Medos e os
Persas. Depois (547 a.C.), marcha contra a Lídia, conquista Sardes e apodera-se
da maior parte da Ásia Menor. Nos anos seguintes, uma série de vitórias
fulgurantes dão-lhe o domínio do Irão oriental, do Afeganistão e do Turquestão,
até à Índia. Fortalecido em ouro e em homens dirige, em seguida, os seus
exércitos contra a Babilônia e, em 539 a.C., entra vitorioso na capital babilônica
onde, sem qualquer oposição, é recebido como libertador.
A atividade profética do Deutero-Isaías desenvolve-se nos anos que
precederam a entrada vitoriosa de Ciro na Babilônia… As notícias que chegam
sobre as vitórias de Ciro fazem os exilados sonhar com a proximidade da
libertação do cativeiro. À alegria pela libertação iminente junta-se, no
entanto, alguma confusão e perplexidade… Então o libertador não vai sair do
meio do Povo de Deus, mas é um rei estrangeiro? E quando a libertação
acontecer, a quem deve ser atribuída: a Jahwéh, o Deus dos exilados judeus, ou
a Marduk, o deus de Ciro? Jahwéh ter-se-á desinteressado do seu Povo? Ou terá
perdido o seu poder?
Trata-se de um problema teológico sério que, em última análise, pode
determinar a manutenção ou não da fé do Povo em Jahwéh. O Deutero-Isaías vai
procurar esclarecer esta questão e explicar o papel de Jahwéh nos
acontecimentos.
MENSAGEM
O Deutero-Isaías não tem dúvidas: Jahwéh é o verdadeiro condutor de todo
o processo que vai culminar na libertação do Povo de Deus. Ciro, o grande rei
que se apresta para derrubar o orgulhoso poderio babilônico, é “o ungido” (no
original hebraico: “o messias”; em grego: “o cristo”) de Jahwéh. Dizer que Ciro
é “o ungido” significa dizer que ele recebeu a “unção” com óleo; e que, através
dessa “unção”, Ciro recebeu o Espírito de Deus e foi investido para uma missão.
No Antigo Testamento, a unção com óleo capacita o “ungido” seja para a missão
real (cf. 2Sm. 5,3), seja para a missão sacerdotal (cf. Ex. 29,7), seja para a
missão profética (cf. 1Re. 19,16; Is 61,1). Aqui trata-se, evidentemente, da
missão real… Portanto, Deus escolheu Ciro, derramou sobre ele o seu Espírito e
concedeu-lhe a insígnia do poder (“cingi-te” - v. 5) para que ele,
desempenhando a sua missão real, se tornasse o instrumento de Deus no mundo.
O que é que, em concreto, Jahwéh pede a Ciro? Qual a missão que Ele lhe
confia?
Ciro foi designado por Deus para “subjugar as nações”, “fazer cair as
armas das cinturas dos reis”, “abrir as portas à sua frente sem que nenhuma lhe
seja fechada”. As expressões utilizadas pelo Deutero-Isaías situam a missão
confiada por Deus a Ciro no âmbito político-militar… No entanto, o que é aqui
preponderante é que essa missão deve concretizar-se em benefício do Povo de
Deus: se Deus chamou Ciro “pelo nome”, lhe deu “um título glorioso” e lhe
confiou o poder sobre as nações foi, nas palavras de Jahwéh, “por causa de
Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito…”. Ciro aparece, claramente, como o
instrumento através do qual Deus atua no mundo e na história e realiza os seus
projetos de salvação e de libertação do seu Povo. É através dos homens que Deus
intervém no mundo.
De resto, o Deutero-Isaías deixa claro que só Jahwéh é o Senhor da
história e que, fora d’Ele, não há Deus. É verdade que Ciro ainda não conhece
Jahwéh; mas, sem o saber, ele está a realizar o projeto do Senhor.
Portanto, é a Jahwéh e não a Marduk que os exilados devem agradecer a
sua libertação. Embora servindo-se de um rei estrangeiro, Jahwéh vai mostrar a
Judá que é, definitivamente, esse Deus salvador e libertador, em quem o Povo
pode sempre confiar.
ATUALIZAÇÃO
Também nós – como os exilados de Judá – ficamos, tantas vezes, perplexos
e inquietos diante dos acontecimentos do nosso tempo. Não percebemos o
significado nem o alcance de certos eventos e não conseguimos saber para onde é
que a história nos conduz. Sentimo-nos perdidos, assustados, à deriva, como
barco sem leme… E, para além disso, Deus parece manter-se em silêncio,
assistindo calmamente e sem mexer um dedo, aos dramas que marcam o ritmo da
nossa caminhada. Perguntamo-nos: onde está Deus, quando a história humana
parece percorrer caminhos tão ínvios? Ele preocupa-Se, realmente, com os
homens? Qual o seu papel na condução dos destinos do mundo? Porque é que Ele
deixa que os homens destruam o planeta, inventem esquemas sofisticados de
destruição e de morte, cultivem a exploração e a injustiça, mantenham tantos
homens, mulheres e crianças amarrados à miséria e à escravidão? A primeira
leitura deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona os homens. Ele encontra
sempre formas de intervir na história e de concretizar os seus projetos de
vida, de salvação, de libertação… Talvez as intervenções de Deus nem sempre
sejam ortodoxas à luz da lógica dos homens; talvez nem sempre consigamos
perceber o verdadeiro alcance dos projetos de Deus; mas Deus lá está, como
Senhor da história, conduzindo o mundo de acordo com o projeto de vida que Ele
tem para os homens e para o mundo. Resta-nos, mesmo quando não percebemos os seus
critérios, confiarmos e entregarmo-nos nas suas mãos.
• Normalmente, Deus não intervém na história através de manifestações
impressionantes, espetaculares, caídas do céu, que se impõem como verdades
infalíveis e que deixam os homens espantados… Deus actua no mundo com
simplicidade e discrição, através de pessoas – muitas vezes pessoas limitadas,
pecadoras, “normais” – a quem Ele chama e a quem Ele confia uma missão. O que é
fundamental é que cada homem ou cada mulher que Deus chama esteja disponível
para acolher esse chamamento e para aceitar ser instrumento de Deus na
construção de um mundo novo.
• Aqueles que detêm responsabilidades na condução das comunidades (civis
ou religiosas) devem procurar, através de um diálogo contínuo e próximo com
Deus, perceber os seus projetos e planos para o mundo e para os homens. Só
assim poderão ser instrumento de Deus na construção de um mundo melhor.
• Ciro, frustrando todas as expectativas do Povo de Deus, é um pagão que
“não conhecia” Jahwéh… Apesar disso (de acordo com a catequese do
Deutero-Isaías), foi ele quem Deus escolheu como seu instrumento a fim de
concretizar os seus projetos em favor do seu Povo. Deus pode servir-Se daquele
que é pecador e marginal aos olhos do mundo para oferecer aos homens a vida e a
salvação. O que interessa não são as “qualidades” do intermediário, mas a força
de Deus. É necessário ter isto presente… Se conseguimos fazer algo para tornar
o mundo um pouco melhor, isso não se deve às nossas brilhantes qualidades, mas
a esse Deus que age por nosso intermédio.
• A escolha de Ciro significa também a denúncia de uma perspectiva
fechada, nacionalista, racista, de Deus e dos seus projetos. Ninguém tem o
monopólio de Deus ou da missão… Deus é totalmente livre de chamar quem quiser,
quando quiser e como quiser – seja de que raça for, de que estrato social for,
ou sejam quais forem os seus antecedentes religiosos. Certos cristãos que se
sentem os únicos detentores da autoridade e da missão e que se ficam quase
ofendidos quando aparece alguém a fazer algo de diferente na paróquia, deviam
ter isto em conta.
2ª leitura: 1Ts. 1,1-5b - AMBIENTE
Tessalônica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da
Macedônia. Importante porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma
encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com
todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.
Tessalônica foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem
missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a
Tessalônica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a
deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto – talvez uns
três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã
numerosa e entusiasta, constituída majoritariamente por pagãos convertidos. No
entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colônia
judaica… Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e
levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. At. 17,5-9).
Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois,
para Atenas (cf. At. 17,10-15).
Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da
comunidade cristã de Tessalônica ainda deixava muito a desejar. A jovem
comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada,
estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf.
1Ts. 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalônica, a fim de saber
notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1Ts. 3,2-5). Quando Timóteo
voltou e apresentou o seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas
informações dadas por Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de
Tessalônica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também
para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e
para corrigir alguns aspectos menos exemplares da vida da comunidade.
A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o
primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou
51.
O texto que nos é proposto apresenta-nos o endereço da carta (“Paulo,
Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses que está em Deus Pai e no Senhor
Jesus Cristo” – 1Ts. 1,1) e um estrato de uma longa oração colocada no início
da carta, na qual Paulo dá graças a Deus pelo comportamento exemplar dos
tessalonicenses: apesar das provas que tiveram de suportar, permanecem fiéis ao
Evangelho e ao ensino de Paulo (cf. 1Tes. 1,2-3,13).
MENSAGEM
O verbo principal do nosso texto é o verbo grego “eukharistéô”(“dar
graças”); todos os outros verbos que aparecem são secundários. Assim, fica logo
claro quais os sentimentos e qual a atitude fundamental de Paulo, Silvano e
Timóteo, os remetentes da carta: eles estão profundamente agradecidos e
reconhecidos a Deus. Porquê?
Porque a ação de Deus se nota claramente na vida diária da comunidade
cristã de Tessalônica. Diante da proposta do Evangelho, os tessalonicenses
responderam generosamente, com uma fé ativa, uma caridade esforçada e uma
esperança firme (v. 3). A “fé ativa” traduz a realidade de uma adesão ao
Evangelho que não se manifesta só em palavras, mas também em atitudes concretas
de conversão e de transformação; a “caridade esforçada” dá conta de um amor que
não é teórico mas é efetivo, e que se traduz em gestos de entrega, de partilha,
de doação; e a “esperança firme” define essa confiança inabalável dos
tessalonicenses em Deus e na vida nova que Ele reserva àqueles que O amam –
confiança que, nem a hostilidade do mundo, nem as dificuldades da vida
conseguem deitar por terra.
Na verdade, tudo isto resulta do fato de os tessalonicenses terem sido
“escolhidos” por Deus (v. 4). No Antigo Testamento, a “eleição” é um privilégio
de Israel, escolhido por Deus de entre os outros povos, não em virtude dos seus
méritos particulares, mas como resultado da graça e do amor de Deus; agora, são
as comunidades cristãs de origem pagã que são objeto do mesmo privilégio, que
tem a sua fonte no amor gratuito do Deus salvador.
O Evangelho que Paulo, Silvano e Timóteo anunciaram aos tessalonicenses
não foi um discurso feito de belas palavras, mas inconseqüente; foi uma Boa
Nova de Deus, poderosa e transformadora, que encontrou eco no coração dos
tessalonicenses que, pela ação do Espírito Santo, deu frutos de fé, de amor e
de esperança (v. 5a.b).
É por tudo isto que Paulo, Silvano e Timóteo louvam o Senhor.
ATUALIZAÇÃO
Hoje, uma comunidade cristã que viva, com fidelidade e entusiasmo, a fé,
a esperança e a caridade, não será notícia; em contrapartida, os meios de
comunicação social explorarão, com gosto, a vida de uma comunidade cristã
marcada pelos escândalos, pelos dramas, pelas infidelidades… Tornamo-nos
progressivamente insensíveis às coisas bonitas e boas e só nos deixamos
impressionar pelo espampanante, pelo escandaloso, por aquilo que chama a
atenção por razões negativas. O nosso texto convida-nos, antes de mais, a
repararmos nos testemunhos de fé, de amor e de esperança que encontramos à
nossa volta e a vermos aí a presença e a ação de Deus no mundo.
O nosso texto convida-nos, depois, a renovar e potenciar a nossa
capacidade de louvar e de agradecer a Deus. Ao contemplarmos tantos gestos de
bondade, de amor, de doação, de solidariedade que, em geral, acontecem no mundo
e que, em particular, enchem as vidas das nossas comunidades cristãs, não
podemos deixar de ver aí a presença amorosa de Deus… Teremos sempre a
capacidade de agradecer a Deus a sua presença e a sua ação no mundo, na vida
das nossas comunidades cristãs ou religiosas, na vida das nossas famílias e de
cada um de nós?
O exemplo da comunidade cristã de Tessalônica interpela-nos e
questiona-nos… É uma comunidade que, apesar de uma catequese incipiente e de um
ambiente hostil, abraçou com entusiasmo o Evangelho e concretizou a proposta de
Jesus na vida do dia a dia, através de uma fé ativa, de um amor esforçado e de
uma esperança firme. Nós, seguidores de Jesus, depois de muitos anos de
catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão:
com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a
indiferença de quem não se quer comprometer? A nossa fé não é apenas uma
questão de palavras, mas leva-nos a um efetivo compromisso com a transformação
da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade ou do mundo que nos
rodeia? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de
solidariedade, de luta contra tudo o que oprime os pequenos, os débeis, os marginalizados?
A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro
novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das
incompreensões que dia a dia temos de enfrentar?
Evangelho: Mt. 22,15-21 - AMBIENTE
O nosso texto situa-nos em Jerusalém, o local onde vai desenrolar-se o
confronto final entre Jesus e o judaísmo. De um lado estão os dirigentes
judeus: instalados nas suas certezas e preconceitos, recusam-se terminantemente
a acolher a proposta do Reino. Do outro lado está Jesus: Ele procura que os
dirigentes do seu Povo tomem consciência de que, ao recusar o Reino, estão a
recusar a oferta de salvação que Deus lhes faz.
Para ilustrar a situação, Jesus conta-lhes três parábolas (que lemos e
meditamos nos últimos três domingos). Na primeira, identifica-os com o filho
que disse “sim” ao seu pai, mas que não foi trabalhar no campo (cf. Mt.
21,28-32); na segunda, equipara-os aos vinhateiros maus que tiveram a ousadia
de matar o filho (cf. Mt. 21,33-46); na terceira, compara-os com os convidados
para o banquete que rejeitaram o convite (cf. Mt. 22,1-14). Irritados com a
ousadia de Jesus e questionados pelas suas comparações, os líderes judaicos
procuram ansiosamente um pretexto para o acusar.
É neste contexto que Mateus nos vai apresentar três controvérsias entre
Jesus e os fariseus (cf. Mt. 22,15-22.23-33.34-40). Em qualquer caso, o
objetivo é surpreender afirmações controversas e encontrar argumentos para
apresentar em tribunal contra Jesus.
A primeira questão que os fariseus, aliados com os partidários de
Herodes Antipas, põem a Jesus é muito delicada. Diz respeito à obrigação de
pagar os tributos ao imperador de Roma…
Além dos impostos indiretos (postagens, direitos alfandegários, taxas
várias), as províncias romanas pagavam ao Império o tributo, que era uma
quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império (com exceção
das crianças e dos velhos) deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da
sujeição a Roma. A questão que põem a Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar
com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça?
Os partidários de Herodes e os saduceus (a alta aristocracia sacerdotal)
estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a
sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam
frontalmente contra, pois consideravam o imperador um usurpador do poder que só
pertencia a Jahwéh e interditavam aos seus partidários o pagamento do dito
tributo. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição
intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão…
De qualquer forma, era uma questão “armadilhada”. Se Jesus se
pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo
e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Jahwéh; mas se
Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de
revolucionário, inimigo da ordem romana…
Como é que Jesus vai resolver a questão?
MENSAGEM
Confrontado com a questão, Jesus convidou os seus interlocutores a
mostrar a moeda do imposto e a reconhecerem a imagem gravada na moeda (a imagem
de César). Depois, Jesus concluiu: “dai a César o que é de César e a Deus o que
é de Deus” (v. 21). O que é que esta afirmação significa? Significa uma espécie
de repartição eqüitativa das obrigações do homem entre o poder político e o
poder religioso?
Provavelmente, Jesus quis sugerir que o homem não pode nem deve
alhear-se das suas obrigações para com a comunidade em que está integrado. Em
qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o
bem comum. A isso, chama-se “dar a César o que é de César”.
No entanto, o que é mais importante é que o homem reconheça a Deus como
o seu único senhor. As moedas romanas têm a imagem de César: que sejam dadas a
César. O homem, no entanto, não tem inscrita em si próprio a imagem de César,
mas sim a imagem de Deus (cf. Gn. 1,26-27: “Deus disse: ‘façamos o homem à
nossa imagem, à nossa semelhança’… Deus criou o ser humano à sua imagem,
criou-o à imagem de Deus”): portanto, o homem pertence somente a Deus, deve
entregar-se a Deus e reconhece-l’O como o seu único senhor.
Jesus vai muito além da questão que Lhe puseram… Recusa-Se a entrar num
debate de caractere político e coloca a questão a um nível mais profundo e mais
exigente. Na abordagem de Jesus, a questão deixa de ser uma simples discussão
acerca do pagamento ou do não pagamento de um imposto, para se tornar um apelo
a que o homem reconheça Deus como o seu senhor e realize a sua vocação
essencial de entrega a Deus (ele foi criado por Deus, pertence a Deus e
transporta consigo a imagem do seu senhor e seu criador). Jesus não está
preocupado, sequer, em afirmar que o homem deve repartir equitativamente as
suas obrigações entre o poder político e o poder religioso; mas está,
sobretudo, preocupado em deixar claro que o homem só pertence a Deus e deve
entregar toda a sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser
relativizado, inclusive a submissão ao poder político.
ATUALIZAÇÃO
A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a
Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental.
No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas,
os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si
próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus…
Instalaram-se no orgulho e na auto-suficiência e deixaram Deus de fora das suas
vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa
existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade.
Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados
quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d’Ele o centro da
nossa caminhada.
Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros “deuses”: o
dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o
clube de futebol… tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar
a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa
troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de
solidão e de orfandade… Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem
posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus
interesses, a dominarem os meus projetos? Quais são esses deuses? Eles
asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais
escravo e dependente?
O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto,
objetos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de
uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal
dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações
destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há
milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser
maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade.
Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um
grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal
aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em
qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos
o dever grave de lutar, de forma objetiva, contra todos os sistemas que, na
Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.
Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em
primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e
se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser
um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora
ativamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre
pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge
aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras
legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar
por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis:
com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que
eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que
valores julgo os fatos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a
comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são
coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus?
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Anunciai entre os povos que o senhor reina
A liturgia de hoje ressalta que a história da humanidade está nas mãos
de Deus. Interpretada à luz da fé, a história ganha seu verdadeiro significado:
a salvação do ser humano.
Até mesmo as ações das pessoas que não têm fé podem ser vistas como
colaborações inconscientes ao projeto de Deus. É isso que nos mostra a primeira
leitura: o imperador Ciro, mesmo sem o saber, fez a vontade de Deus. Situações
políticas totalmente seculares podem ser usadas pelo SENHOR como instrumentos
para a salvação do ser humano.
Na segunda leitura, vemos que Paulo e os tessalonicenses são fiéis na
difusão do evangelho. Tal fato deveria nos animar bastante, porque sabemos que,
no início da Igreja, os cristãos sofriam várias perseguições. Isso significa
que Deus pode servir-se até mesmo de situações adversas para realizar a
salvação, porque ele é o Senhor da história.
No evangelho, Jesus traça uma linha divisória: a autoridade política tem
seu campo próprio, a ordem e o bem público. Dentro desse campo, a autoridade
política deve ser respeitada. Mas a autoridade política não tem o poder de
exigir o que somente a Deus é devido.
Evangelho (Mt. 22,15-21)
Dai a Deus o que é de Deus
O evangelho de hoje nos põe diante de um dilema no qual muitas vezes
travamos: como conciliar em nosso cotidiano duas realidades por vezes
antagônicas, a autoridade política e a religiosa? Nesse caso, Jesus nos aponta
o caminho a seguir.
A pergunta feita a Jesus certamente é bem maliciosa. Os judeus estavam
sob o domínio romano, e o pagamento do tributo era prova de sujeição ao
imperador. Se Jesus respondesse que o povo deveria pagar o imposto, perderia
sua popularidade, seria acusado de trair sua nação e perderia qualquer
pretensão messiânica. Caso respondesse que não deveria pagar o imposto, seria
acusado de rebelião contra o império e seria preso. Fosse qual fosse a
resposta, Jesus estaria em perigo. Mas ele ultrapassa a questão do lícito ou ilícito
e conduz seus interlocutores a uma reflexão mais profunda: a autoridade
política não pode tomar o lugar de Deus.
Para Israel, só Deus podia reinar sobre o povo, mediante um
representante tirado de uma das tribos. Por isso, a sujeição ao imperador romano
era sinal de idolatria. Além disso, essa situação se agravou quando o imperador
se autoproclamou divino.
Quando Jesus pergunta de quem é a figura e a inscrição na moeda, entra
no âmago da questão. Os judeus usavam a moeda romana e, por isso, não tinham por
que se opor ao pagamento do imposto. Mas ele acrescenta que se deve dar a Deus
o que é de Deus, reafirmando a soberania do SENHOR sobre Israel e as nações. No
grego, a palavra “dar” também significa “devolver”. E, já que a imagem de Deus
está gravada em nós, devemos “devolver” nossa vida em adoração a ele, cumprindo
a sua soberana vontade. Assim, a prática de devolver a Deus o que é de Deus
destrói toda idolatria.
A autoridade política deve ser respeitada, porque está a serviço do bem
comum, mas nunca terá o poder de exigir o que é devido somente a Deus, cuja
imagem está impressa em nós.
1ª leitura (Is. 45,1.4-6)
Eu sou o Senhor e não há outro
O texto bíblico começa com a afirmação de que Ciro, o rei persa que
dominava sobre os judeus, tinha sido escolhido por Deus para executar a tarefa
de fazer o povo exilado voltar à terra de Israel. É uma afirmação muito
estranha na Bíblia, porque o termo “ungido” (messias ou cristo) era reservado
apenas para três categorias em Israel: reis, sacerdotes e profetas. Afirmar
isso de um rei estrangeiro, que servia a outros deuses, é algo único na Bíblia.
Para entender esse versículo, é necessário imaginar o que as pessoas da
época poderiam estar pensando. Quando souberam do decreto do imperador que os
liberava para voltar a Israel, os judeus poderiam pensar: “Que feliz
coincidência e que sorte nós tivemos, a política do imperador vai nos
favorecer”. O profeta entrou em ação para dizer que as coisas não eram bem
assim como estariam pensando, deixando claro que não se tratava de sorte ou
coincidência. Deus é sumamente fiel e ama os filhos de Israel; ele os tirou da
escravidão do Egito, levou-os para a terra prometida e para lá os faz retornar.
Ciro não passa de um instrumento de Deus para executar uma tarefa. O imperador
não é uma divindade, ao contrário, é como uma criança conduzida por um adulto
para fazer algo que ela nem tem consciência do que seja. Ciro é tomado pela mão
e levado pelo SENHOR para libertar os judeus.
Assim, o texto bíblico orientou as pessoas antigamente e nos orienta
hoje para a consciência de que nenhuma autoridade é eterna ou absoluta: há um
único Deus e tudo está submetido a ele e ao seu plano. Nada nem ninguém podem
impedir a realização do projeto divino. O livre-arbítrio humano pode apenas
escolher entre colaborar ou não com Deus. A história da humanidade está imersa
no projeto de Deus como peixes num aquário, que podem nadar de um lado a outro,
mas sempre estão dentro do mesmo recipiente. Mesmo quando se tenta impedir que
o projeto divino se realize, Deus é suficientemente criativo para do mal fazer
um bem. Prova disso é que a morte de Jesus na cruz se tornou vida plena para
quem o segue.
2ª leitura (1Ts. 1,1-5b)
O evangelho foi anunciado entre vós
Paulo escreve uma carta à Igreja que se encontrava em Tessalônica,
cidade pagã cujos habitantes estavam a serviço de vários ídolos. Os cristãos
dessa cidade, ao contrário, são assembléia santa, são eleitos de Deus e
congregados em Jesus Cristo.
O apóstolo sempre se lembra da “ação da fé” dos tessalonicenses. Essa
expressão pode parecer estranha aos ouvidos atuais, porque hoje comumente se
compreende fé como se tratasse de um sentimento. Mas, nos idiomas antigos, fé é
um modo de viver, é a vida em ação colaborando com Deus. Colaborar significa
“trabalhar com”. Assim a fé é mais que um sentimento: é uma tarefa, um ofício,
um trabalho, uma missão. O plano de Deus se realiza independentemente da fé do
ser humano; mas os que vivem a fé assumem consciente e livremente esse plano
como um objetivo de vida a ser realizado e trabalham com Deus na efetivação
desse projeto, até que chegue à plenitude.
III. Pistas para reflexão
Chegamos à segunda metade do mês missionário, e alguns eventos já devem
ter sido realizados na comunidade. Mas alguns cristãos ainda não se envolveram
na proclamação do reino de Deus. Alguns estão em situação semelhante à de Ciro:
embora suas ações sejam boas, eles não as realizam como fruto de uma opção
consciente e comprometida com o reino de Deus. Outras pessoas são como os
judeus exilados: não conseguem ver a mão de Deus por trás dos acontecimentos
históricos. Quando muito, pensam que os desastres são castigos, e esta é a
leitura mais errada que se pode fazer dos eventos históricos.
Ainda podemos considerar algumas pessoas semelhantes aos fariseus do
evangelho: confundem autoridade humana com autoridade divina, pensam que o fato
de não cometer escândalos é suficiente para alguém ser considerado amigo de
Deus.
Contudo, a Igreja necessita de pessoas como os tessalonicenses, cuja fé
é mais que um sentimento ou religiosidade desencarnada. A Igreja necessita de
cristãos de quem se possa dizer: “Lembro-me sempre da ação de vossa fé” (cf.
1Ts. 1,3).
Aíla Luzia Pinheiro
Andrade, nj
Dar a César o que é
de César
Hoje é o domingo do dar a César o que é de César e
a Deus o que é de Deus. A fé cristã não está desvinculada da vida. César
organiza a sociedade, cuida da escola, providencia os cuidados a serem
prestados aos doentes, aos migrantes. È sua específica missão. Os discípulos de
Cristo, a Igreja vive no mundo. Não faz “política” no sentido superficial do
termo. Não quer lugares de honra em palanques mundanos, mas através da mensagem
do Evangelho que anuncia ela quer colocar um vigor que vem de Deus no campo de
César.
Vamos nos servir de comentários do missal dominical
da Paulus para exprimir aqui o que parece fundamental no texto de Mateus. Os
comentários falam da tarefa do cristão no mundo:
“A palavra de Jesus leva nossa reflexão a um dos
problemas mais importantes e cruciais dos cristãos de hoje. O homem moderno tem
a profunda convicção de lhe caber uma tarefa histórica a desempenhar na terra,
tarefa proporcional à sua possibilidade cada vez maior, e que implica num real
domínio sobre o universo. O fim é este: a promoção da comunidade humana no seio
de uma cidade cada vez mais fraterna. Esta tomada de consciência é acompanhada
às vezes de uma critica amarga da religião considerada a responsável pela
secular alienação dos homens. Muitos assumem perante a religião uma atitude de
desconsideração, como se ela não tivesse nenhuma contribuição a oferecer. A fé
cristã, vivida integralmente, longe de sugerir demissão e evasão frente as
tarefas terrestres do homem, ajuda os que crêem a assumir suas
responsabilidades na conquista de objetivos que se impõem à consciência
moderna. Os apelos do mundo atual encontram um eco cada vez mais profundo em
vastas camadas do povo cristão, e felizmente não são raros os cristãos
coerentes que assumem os papéis de promoção, libertação e construção de uma
cidade terrestre mais justa e mais humana.
O Vaticano II dedicou uma parte importante de seus
trabalhos à análise das preocupações do homem no século XX, problemas em
aparência mais profanos do que religiosos, de tal modo que as reticências e
ausências do cristão de ontem em relação ao seu compromisso com o mundo,
deveriam ser superadas. Entretanto, permanece uma pergunta: a construção da
cidade terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela caduca? Construindo
a cidade dos homens contribui-se ou não para a edificação do reino de Deus? Não
serão dois reinos diversos? A esperança cristã não se realiza, certamente, em
plenitude, senão no mundo futuro. Contudo, ela manifesta desde já sua eficácia:
é uma força imensa no mundo, é um fermento que o faz levedar, é um sal que dá
sentido e sabor ao esforço humano de libertação, ao empenho temporal. Não é
alienação, não é um álibi. Não existem duas esperanças: uma terrena e outra
celeste; a esperança é uma só; diz respeito à realidade futura, mas através do
empenho cristão, a antecipa na realidade terrestre” (p. 834).
Estamos todos empenhados no sentido de que os
leigos cristãos se façam presentes no mundo através de sua vida coerente, da
tomada de posições claras a respeito de tudo aquilo que avilta e degrada o ser
humano. Os políticos cristãos ganham distância de toda sorte de corrupção e
fazem ouvir sua voz quando o ser humano é espezinhado. Os professores cristãos
não são meros transmissores de conteúdos mas testemunhas do mundo novo do
Evangelho. Os bancos cuidarão do lucro, sem esquecer que o dinheiro serve para
tornar mais digna a vida dos cidadãos.
Dai a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus...
frei Almir Ribeiro Guimarães
Dai a Deus o que é de Deus
Ao fim de sua pregação, Jesus entrou abertamente em conflito com as
autoridades judaicas (cf. os evangelhos dos dois domingos anteriores). Por
isso, quiseram armar-lhe uma cilada, para que o pegassem em alguma palavra
contrária à Lei. Pensaram ter encontrado tal oportunidade na questão do imposto
a pagar ao imperador romano, o César (evangelho). Se Jesus aprovasse pagar o
tributo ao dominador estrangeiro, ele negaria a grandeza do povo messiânico. Se
ele se declarasse contra, ele incitaria à rebeldia contra o dono do país...
A resposta de Jesus tomou-se provérbio: “Dai a César o que é de César e
a Deus o que é de Deus”. Alguns interpretam essa frase como uma divisão de
tarefas: o César para o domínio deste mundo (a cidade terrestre), Deus para o
domínio sobrenatural (a cidade celeste): é a teoria dos “dois reinos”, que
permitiu muitas vezes ao César soltar seus demônios, enquanto os responsáveis
da Igreja se ocupavam com coisas piedosas, dizendo-se apolíticos!
De fato, há diversas maneiras de interpretar a controvertida frase:
1) “Os padres devem ficar na sacristia” (negócio é negócio, a Igreja à
parte);
2) “O que é bom para César é bom para Deus”;
3) “Dai a César o que lhe pertence em justiça (mas não o que não lhe
pertence); e a Deus também”;
4) “Dai a César o que é de César, dando primeiro a Deus o que é de
Deus”, ou seja: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça” (Mt. 6,33), e
então sabereis atender com justiça as exigências da ordem política. Esta última
interpretação nos parece mais conforme o espírito do evangelho. Jesus admite as
exigências da ordem política, mas relativiza-as, subordinando-as às exigências
de Deus.
Seja como for, o que era de César, no caso aqui narrado, era uma moeda,
instrumento do poder econômico do Império Romano e, além do mais, preço do
reconhecimento civil da comunidade judaica, com os privilégios que isso
implicava. Tratando-se disso, os interrogadores tinham de tirar as
conseqüências: quem quer usufruir do Império tem de alimentar-lhe o tesouro...
Mas isso não é o mais importante; o peso recai sobre a última parte da frase:
“Dai a Deus o que é de Deus”. Jesus parece estar dizendo aos seus
interlocutores: “Importunais-me com questões de César - bom, sede conseqüentes
nessas questões - mas o que eu devo lembrar-vos é das questões de Deus”.
As questões de Deus (que não são necessariamente as da “religião”) devem
constituir nossa “pré-ocupação”, antes de qualquer outra coisa (cf. Mt.
6,24ss). Sem darmos a Deus o que é de Deus (isto é, tudo), nada podemos fazer
de verdadeiramente valioso. A 1ª leitura nos narra até um caso em que Deus se
serviu de um “César”, o imperador Ciro, da Pérsia, para realizar seu plano de
salvação para o povo israelita. Pois Ciro, na sua perspicácia de déspota
iluminado, achou melhor que os israelitas exilados cuidassem de sua própria
terra em vez de viver num gueto lá na Babilônia. Pôs fim ao exílio babilônico.
Assim, a sabedoria administrativa de um rei pagão serviu para realizar a
bondade de Deus. O caso não é imaginário. Quando Deus tem a última palavra, as
coisas de César podem servir-lhe. Por isso importa colocar César e seus
projetos no bom rumo... A frase de Jesus não nos ensina indiferença para com
aquilo que o César faz, antes pelo contrário; ensina-nos a submeter os negócios
do César (e a ocupação mundana em geral) ao critério da justiça de Deus; pois
este é, em última análise, o único Rei (SI 96[95], salmo responsorial).
Nestes últimos domingos do ano litúrgico, a 2ª leitura é tomada das
Cartas aos Tessalonicenses, fortemente marcadas pela questão da proximidade da
Parusia. Ouvimos hoje a abertura da 1Ts: uma saudação, que louva nos
tessalonicenses a sua fé atuante, sua caridade abundante e sua esperança
perseverante. Uma saudação que deveria poder repetir-se para o povo das nossas
igrejas! Os fiéis são chamados irmãos de Deus!
A oração do dia e a oração sobre as oferendas inserem-se bem no tema
central: estar à disposição do supremo Senhor. Na mesma linha, pode-se rezar o
prefácio I dos domingos do tempo comum (o povo que pertence a Deus).
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
A região da Judéia foi
conquistada em 63 a.C. por Roma, e desde então o pagamento de tributos era
feito ao imperador romano. O imposto era o maior sinal de dominação, e esse
fato gerava muita polêmica entre os partidários de Herodes (governador) e os
fariseus (Templo) que acreditavam que pagar tributos ao imperador romano era o
mesmo que reconhecer César como senhor e dono do povo, uma autoridade que tinha
poder sobre tudo e sobre todos.
A pergunta dos fariseus dirigida
a Jesus é uma armadilha: no caso de Ele admitir o pagamento, poderia ser
considerado colaborador do império romano; caso contrário poderia ser
denunciado às autoridades por subversão.
Jesus, porém, responde com
sabedoria. Ele não aprova a dominação do imperador sobre o povo, mas reconhece
a competência e os direitos do governo quando diz: “devolvam a César o que é de
César”, mas deixa claro também que os direitos de Deus são superiores e devem
ser respeitados, “devolvam a Deus o que é de Deus”.
Ao imperador pertencem as moedas
do imposto onde a sua imagem é impressa, porém, até mesmo ele deve submeter-se
às leis de Deus, cuidando com justiça de seu povo. Só Deus pode ser considerado
Senhor das pessoas e do mundo, e ninguém mais, pois em cada um foi estampada a
Sua imagem dando liberdade e vida a cada um.
Para Jesus o importante é que o
homem reconheça a Deus como único Senhor. É a Deus que ele deve submeter-se,
pois só Ele é o Senhor absoluto de tudo e de todos, e só Ele governa o seu povo
com justiça e liberdade.
Jesus também ensina que o
dinheiro é necessário na vida das pessoas, mas o Reino de Deus e uma vida feliz
só se adquirem com o amor e a graça do Pai.
Pequeninos do Senhor
Coisas lícitas e ilícitas
Os fariseus buscavam, sem trégua, desacreditar Jesus diante do povo ou
colocá-lo numa situação complicada, de modo a terminar encarcerado pelas tropas
romanas. Uma declaração comprometedora saída de sua boca seria uma boa cilada.
Por isso, enviaram para armar-lhe ciladas alguns de seus discípulos
acompanhados de judeus partidários de Herodes, simpatizantes do poder romano. É
bom recordar o ódio que os fariseus nutriam por estes dominadores estrangeiros.
Os emissários agiram com extrema esperteza: trataram Jesus de maneira
cortês, louvando-lhe os ensinamentos e a coragem, vendo que não se deixava
amedrontar por ninguém. Além disso, apresentaram-se como judeus piedosos,
cheios de escrúpulos de consciência.
Propuseram ao Mestre a questão da liceidade ou não de pagar o tributo a
César. Jesus, porém, deu-se conta da hipocrisia deles travestida de piedade.
Por isso, ofereceu-lhes uma resposta que os deixou confundidos.
Em última análise, a resposta do Mestre serve ainda hoje para
discernirmos o lícito e o ilícito. Qualquer coisa é lícita, desde que
compatível com o projeto de Deus. O que fere este projeto é ilícito e deve ser
rejeitado por quem aderiu ao Reino e procura pautar-se por ele.
Tomando Deus como ponto de referência, é possível determinar, em cada
caso concreto, o que é ou não é permitido. Bastava, pois, que os emissários dos
fariseus aplicassem este critério à questão do tributo a ser pago ao imperador
romano.
padre Jaldemir
Vitório
A pretensão nos
impede de escutar Deus
Os profetas eram tidos como “homens de Deus”. A
dificuldade e a resistência, no interior do próprio povo de Deus, de aceitar e
acolher sua mensagem e reconhecer nela a Palavra de Deus têm uma longa e
dramática história em Israel. Os profetas, homens portadores da Palavra de
Deus, que falavam inspirados por Deus, suscitavam a esperança, quando o povo
desanimava, denunciavam os crimes e infidelidades do povo e de seus
governantes, quando esses se esqueciam da Aliança, denunciavam os pecados das
“nações”, quando essas ameaçavam a existência do povo eleito de Deus. Eles, como
é o caso do profeta Jeremias, foram perseguidos por seu próprio povo. Há uma
postura diante das Escrituras que faz dos doutores da Lei intérpretes
autorizados da Palavra de Deus, coniventes com a morte dos profetas. A
pretensão de possuir todo o conhecimento da Escritura, sem precisar aprender
mais, os impede de escutar Deus e, na sua autossuficiência, eles fecham, por
seu ensinamento, aos outros a possibilidade de acesso à verdade de Deus (v.
52). Mas, se Jesus fala dos profetas do passado, ele aponta, ao mesmo tempo,
para o seu próprio destino, pois, como profeta, ele terá a sorte dos profetas.
Carlos Alberto Contieri,sj
Devolver a Deus o
que é de Deus é libertar seu povo
Por cerca de três anos Jesus exerceu seu ministério
na Galiléia e nas regiões gentílicas vizinhas. No momento oportuno, Jesus
decide ir a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa dos judeus, onde se dá o
confronto com sistema do Templo, que o levará à morte. Após expulsar aqueles
que comerciavam no Templo, denunciando que este Templo se tornara um covil de
ladrões, dirige aos chefes dos sacerdotes e aos proprietários de terras as
duras parábolas dos vinhateiros homicidas e a do banquete nupcial. Estas
parábolas retratam o distanciamento destes chefes de Israel em relação a Deus.
O clima é de um conflito com chefes dos sacerdotes, fariseus, e anciãos, que se
amplia cada vez mais. Jesus é assediado pelos chefes religiosos, que vêem nele
um líder que ameaça o seu prestígio e poder. Não tendo o direito, sob a
dominação romana, de condenar ninguém, eles procuram motivo para que Jesus seja
condenado pelo próprio império romano. Estamos diante de uma trama para apanhar
Jesus em alguma palavra. Aos chefes religiosos juntam-se os herodianos. Estes
eram adeptos da realeza, os aliados mais próximos e servis de Herodes, preposto
de César. Dirigem-se a Jesus com um acúmulo de elogios que já deixam
transparecer a falsidade. São palavras cheias de malícia. Pretendem remover
qualquer inibição ou bloqueio de Jesus afim de que ele fale realmente o que
pensa! Perguntam se devem pagar o imposto a César. Esperavam uma resposta
negativa, um ato de insubordinação, o que lhe mereceria a condenação por parte
dos prepostos do império romano. A imposição de pesados impostos à Judéia já
fora causa de uma revolta liderada por Judas, o Galileu, cerca de vinte e cinco
anos antes. Jesus, realmente, diz o que pensa: chama-os de hipócritas e
denuncia sua maldade em procurar armar-lhe ciladas. Mais adiante (Mt. 23,01-32)
ele voltará a denunciar detalhadamente a hipocrisia destes chefes religiosos da
Judéia. Jesus pede que lhe mostrem a moeda do imposto. Este devia ser pago em
moeda romana, o denário. As moedas, correntes no comércio, eram os
"out-doors" de propaganda do império, cunhadas com imagens e inscrições
que exaltavam o imperador. De maneira pedagógica Jesus pergunta aos seus
questionadores de quem é a figura e a inscrição na moeda. Diante da moeda
cunhada com a cabeça de César e com a inscrição: "Filho Augusto e
Divino", Jesus devolve a pergunta: "De quem é esta figura e a
inscrição?". Com a confirmação de que é de César Jesus conclui:
"Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus".
À questão sobre o "pagar" Jesus responde com o "devolver".
A sutil resposta de Jesus, em primeiro lugar, separando César de Deus, remove o
caráter divino do imperador. César é diferente de Deus. César é a ambição do
dinheiro e do poder. Deus é misericórdia, amor e vida. Libertar-se do dinheiro
e comprometer-se com Deus, é o projeto de Jesus. Por outro lado Jesus, com sua
resposta, devolve a questão aos seus provocadores. Cabe a eles julgarem o que é
de César e o que é de Deus. Sem dúvida poderão perceber que devolver a César o
que é de César é erradicar de suas mentes toda ambição de riqueza e a idolatria
do dinheiro. Devolver a Deus o que é de Deus é libertar seu povo e promover-lhe
a vida, o que é a verdadeira expressão do amor de Deus.
José Raimundo Oliva
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