TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS .
SOLENIDADE
5 de
Novembro de 2017
Cor: Roxo
Evangelho - Mt 5,1-12a
Para os que
não acreditam em Deus e seus mistérios, a morte é o ponto final da nossa
existência, e além dela não há mais nada. Continuar lendo
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AS BEM
AVENTURANÇAS – Olívia Coutinho
DOMINGO -
SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
Dia 05 de
Novembro de 2017.
Evangelho de
Mt5,1-12a
Neste Domingo,
Solenidade de todos os santos, a Igreja nos convida a voltarmos o nosso olhar
para o céu, e contemplar uma multidão de santos e de santas, que deixaram
marcas profundas do seu amor a Deus aqui na terra, e que agora, participam da
glória do céu, permanecendo vivas dentro de nós
através do seu testemunho!
Os santos se
santificaram aqui na terra, no seu cotidiano, o que vem nos dizer, que
todos nós, também podemos ser santos!
Jesus nos
convida a fazermos a diferença no mundo, a darmos um sentido novo a nossa
existência, uma única e fundamental direção, que é a santidade como meta
para chegarmos a felicidade plena!
Optamos pelo o
caminho da santidade, quando deixamos de projetar a nossa vida em nós mesmos,
para nos envolvermos no projeto de Deus, que tem como referência, unicamente
Jesus! Fomos criados
por Deus e orientados pelo o seu Filho, a direcionar a nossa existência,
como uma flecha que busca o seu alvo, e o nosso alvo é o próprio Deus, Deus
deve ser o nosso objetivo primeiro, pois é Ele, quem dá o verdadeiro sentido à
nossa vida!
O evangelho que
a liturgia de hoje nos convida a refletir, nos apresenta as Bem-Aventuranças!
As
Bem-Aventuranças, não são mandamentos, afinal, Deus não exige sofrimento para
cobrir seus os filhos de felicidade, podemos dizer, que as Bem-Aventuranças,
são caminhos de santidade, uma consolação que Deus faz, a todos aqueles que são
desfavorecidos pelo o mundo, que são perseguidos por amar e obedecê-Lo!
Jesus deixa
claro, que só é feliz verdadeiramente, quem vive dentro do plano de Deus! Quem
vive de acordo com a vontade de Deus, não hesita em caminhar na contramão do
mundo, pois ele está convicto, de que nada neste mundo, é mais importante do
que a sua fidelidade a Deus.
Jesus Proclama:
“Bem-aventurados (Felizes) os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que
têm fome e sede de justiça os misericordiosos, os puros de coração, os
perseguidos e injuriados por causa do reino”! Estes, citados por Jesus,
são felizes, porque se colocam inteiramente na dependência de Deus!
Ser perseguido,
odiado, injuriado por causa de Jesus, são situações que não agradam a Deus, mas
quem suporta tudo isso, em nome da sua fidelidade a Ele, é feliz, porque tem em
Deus, a sua consolação, o seu abraço de Pai, um abraço que não tem preço, que
vale mais do que todas as benesses do mundo.
Quem sofre as
consequências do seguimento a Jesus, e se mantém fiel a Ele, começa a
receber a sua recompensa, já aqui na terra, pois Deus transforma todo o mal que
lhe é causado, em benefícios para ele.
Quando fazemos
da nossa vida, uma oferta de amor, Deus eleva o nosso nada, transforma o que
nos é desfavorável, em bem para nós, as perseguições, as injustiças, ao invés
de nos derrubar, nos elevam!
Alegremo-nos
por confiar na realização das promessas de Deus, é o próprio Jesus quem nos
garante: “Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no Céu”.
É desejo de
Deus, que todos nós sejamos felizes, (Bem Aventurado) e ser feliz, é tudo
o que mais desejamos, pena, que muitos de nós, buscamos a felicidade fora dos
planos de Deus onde nunca vamos encontrá-la.
O conceito de
felicidade, para o mundo, é completamente diferente da felicidade que Deus
planejou para nós, para o mundo, felicidade, se baseia no ter, no poder,
enquanto que para Deus, felicidade está no ser e em ser... O ser, que se
faz morada de Deus, é feliz em qualquer circunstancia!
Precisamos nos
conscientizar, de que a felicidade, não é algo comprável, não está nas coisas
matérias, e nem significa ausência de dificuldades. Quando tomarmos
consciência, de que a vida não nos pertence, de que não somos donos de nada,
estaremos prontos para assumir o grande desafio: ser feliz, até mesmo nas
adversidades!
Assim como
foram os Santos, sejamos também, fieis ao Evangelho, não hesitemos em nos entregar
a Deus, não tenhamos medo de dar testemunho de Jesus, ainda que para isso,
tenhamos que navegar contra a maré.
"Sede vós
pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus."(Mt5,48)
Buscar a
santidade, é o grande desafio de buscar a perfeição, em meio às imperfeições do
mundo, sem esquecer: o mais Santo de todos os Santos da terra, será sempre, um
pecador perdoado.
Ninguém busca o
sofrimento, mas ele é inevitável em nossas vidas, faz parte da natureza humana,
saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão, é trilhar os passos de
Jesus, é estar no caminho da Santidade.
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
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Dia dos fiéis defuntos
A Igreja celebra o dia dos fiéis defuntos ou dia de
finados imediatamente após o dia de Todos os Santos. Ambas as celebrações estão
intimamente ligadas, uma vez que fazemos a memória dos que já se encontram na
pátria celeste. Veneramos os santos reconhecidos oficialmente pela Igreja e
pedimos a sua intercessão. No entanto, todos os que estão junto de Deus são
também santos. Muitos deles foram nossos parentes, amigos ou conhecidos.
Lembramo-nos deles e também de todas as pessoas que faleceram. Desde os primeiros
séculos, os cristãos rezam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires e
recordando seus testemunhos de fé e amor. A partir do século V, a Igreja dedica
um dia do ano para rezar por todas as pessoas falecidas, também por aquelas que
ninguém lembra. É um dia que evoca saudade, esperança e compromisso. Saudade
daqueles que partiram e marcaram, de uma maneira ou de outra, a vida de todos
nós que ainda peregrinamos neste mundo. Esperança porque nos foi revelado que a
morte não tem a última palavra, é passagem para a vida em plenitude.
Compromisso porque queremos que nosso tempo histórico seja vivido de acordo com
o que nos exorta a palavra de Deus. Como Jó, depositamos nossa confiança
naquele que é o defensor da vida (1ª leitura). Renovamos nossa convicção de que
“a esperança não decepciona”, como afirma Paulo em sua carta aos Romanos (2ª
leitura). E nos consolamos, agradecidos, com a declaração de Jesus: “Esta é a
vontade daquele que me enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles que me
deu, mas que os ressuscite no último dia”.
1ª leitura (Jo 19,1.23-27a)
Eu o verei com os meus próprios
olhos
O livro de Jo. faz parte da literatura sapiencial.
Foi escrito, em sua maior parte, no período pós-exílico, por volta do ano 400
a.C. Reflete sobre a questão do sofrimento das pessoas justas, retratadas na
figura de Jo. Em situação calamitosa, abandonado por todos, Jo. recebe a visita
de três “amigos”. Em vez de manifestar solidariedade a Jo, procuram convencê-lo
de que o sofrimento se deve aos pecados que certamente cometera. Eles
representam o pensamento teológico dominante: a conhecida “teologia da
retribuição”, segundo a qual Deus retribui o bem com o bem e o mal com o mal.
Podemos imaginar as consequências dessa teologia na vida das pessoas
empobrecidas, abandonadas, doentes… O sistema religioso oficial as considerava
pecadoras ou impuras e, portanto, indignas da salvação divina.
Jo. está convencido de sua inocência. Debate com os
amigos até dar-se conta de que está realmente sozinho em suas convicções. Com
quem poderá contar? Pouco a pouco, Jo. vai abandonando suas pretensões de se
fazer entender. Dentro de sua própria realidade de dor e trevas, encontra novo
caminho de acesso a Deus, já não vinculado ao dogma da retribuição. Para além
de qualquer instituição, abre-se para Deus, fonte de toda a vida. Jo. confessa:
“Eu sei que meu defensor está vivo”. Defensor, vingador ou redentor (go’el em
hebraico), na antiga tradição de fé do povo de Israel, é aquele cuja função é
proteger os membros mais fracos da família, como também resgatar os bens, a
vida e a liberdade das pessoas endividadas.
A certeza da intervenção divina em favor da vida das
pessoas justas é ressaltada nesse texto. É uma declaração cujas palavras
merecem ser “consignadas num livro, gravadas por estilete de ferro num chumbo,
esculpidas para sempre numa rocha”. Deus se interessa pela vida pessoal de cada
um de seus filhos. Ele nos ama, nos liberta e nos salva. A experiência
religiosa de Jo. o leva a proclamar: “Eu mesmo o contemplarei, meus olhos o
verão…”.
2ª leitura (Rm. 5,5-11)
A esperança não decepciona
Esse texto está relacionado com o seu contexto
imediatamente anterior. Paulo refere-se à justificação pela fé, o dom gratuito
da salvação que Deus nos concede por meio de Jesus Cristo. Somos todos
pecadores. Eis em que consiste o amor divino: Cristo morreu por nós, pessoas
fracas, injustas e infiéis. Pela morte expiatória de Jesus, revela-se o rosto
misericordioso de Deus. Ele não leva em conta a nossa condição de pecadores.
Seu amor não é baseado em nossos méritos. Por meio de Jesus, fomos
reconciliados com Deus e, pela fé, vivemos em paz com ele.
Nessa certeza, a caminhada nesta vida terrena é
marcada pela “esperança que não decepciona, pois o amor de Deus foi derramado
em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Ora, o amor de Deus
em nossos corações nos dá a garantia de um futuro de plenitude e glória. A vida
plena não é ilusão: é revelação divina que nos foi dada definitivamente na
vida, morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, reconciliados
com Deus, vivemos o nosso tempo histórico como expressão de alegria e de
gratidão a Deus, que nos criou e nos salva na gratuidade de seu amor. Se Deus
nos ama desse modo, também nós devemos amar uns aos outros. Se Jesus entregou
sua vida livremente para a vida do mundo, também nós doamos a vida, livremente,
pelo bem dos outros.
Evangelho (Jo 6,37-40)
A vida eterna
O capítulo 6 do Evangelho de João apresenta o
ensinamento de Jesus sobre o pão da vida. Ele se dirige à multidão perto do mar
da Galileia. Chama-lhes a atenção para que não se ocupem somente com o alimento
que perece, e sim com o “pão da vida”, o alimento que dura para a vida eterna.
O pão da vida é o próprio Jesus, que livremente se
doa como alimento: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e
aquele que crê em mim jamais terá sede” (6,35). Na caminhada do Êxodo, rumo à
terra prometida, Deus enviou do céu o “maná” que alimentou o povo durante todo
o tempo. É o símbolo da palavra de Deus que alimenta e dá a vida. Agora, Jesus
é o verdadeiro maná descido do céu como eterno alimento para todos os que nele
creem. Ele é a Palavra de Deus que se fez carne. Dele nos alimentamos (palavra
e eucaristia) neste novo êxodo rumo à pátria celeste.
Toda pessoa que, pela fé, acolhe Jesus e dele se
alimenta já possui a vida eterna. A fé em Jesus não se resume a um assentimento
intelectual nem apenas a uma adesão religiosa, sem compromisso concreto. A fé é
um jeito de ser que perpassa o cotidiano da vida. É a configuração da nossa
vida na vida de Jesus. Assim, todo aquele que vive em Jesus não perecerá. Foi
para isso que Deus enviou o seu Filho ao mundo. “Esta é a vontade de meu Pai:
que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e eu o
ressuscitarei no último dia”. A fé nos possibilita “ver” Jesus, penetrar no seu
mistério e inundar todo o nosso ser pelo dom da verdadeira vida.
A comunidade joanina confessa que Jesus veio ao mundo
“para que todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10,10). Esta é também a
nossa confissão de fé: ele é o doador da vida plena já para este mundo e para a
eternidade. Ele mostrou o caminho da justiça e da fraternidade a este mundo e
venceu a morte pela sua ressurreição. Ele não exclui ninguém. Nele já
ressuscitamos para a vida. A morte não tem a última palavra.
Pistas para reflexão
- Meus olhos verão a Deus. Deus se revela na história
humana de modo processual. Pouco a pouco, conforme atesta a Bíblia. Ele se deu
a conhecer juntamente com o seu plano de amor e salvação. O livro de Jó mostra
que o ser humano é um buscador de Deus. No meio de muitas perguntas, dúvidas e
crises, Deus permite que amadureçamos até nos convencermos de que ele realmente
existe e é a fonte de toda a vida. Reconhecemos que, sem sua presença amiga e
misericordiosa, a vida perderia todo o sentido. O encontro com Deus transforma
o nosso jeito de pensar e agir. Ele é defensor da vida, o doador de todos os
bens. Dele viemos e para ele voltamos. Com base nessas afirmações, é importante
nos perguntarmos como estamos administrando a vida que Deus nos deu. Que rumo
estamos dando à nossa breve existência? Com quais valores irrenunciáveis
orientamos os nossos passos na direção da morada definitiva?
- Meus olhos veem a Deus. Enquanto Jó confessa sua fé
na futura visão de Deus, o Evangelho de João nos indica que já podemos “ver” a
Deus na pessoa de Jesus Cristo. O processo de revelação de Deus e de seu plano
de amor e salvação culminou em Jesus. Ele veio ao mundo para que tenhamos a
vida, e vida plena. Ver a Jesus com os olhos da fé implica viver conforme sua
prática e seus ensinamentos. Quem está em Jesus e dele se alimenta (palavra e
eucaristia) já possui a vida eterna. Uma pessoa é irradiadora da verdadeira
vida quando pauta seus pensamentos, projetos, palavras e ações no evangelho de
Jesus Cristo…
– Caminhar como se víssemos o invisível. A
saudade dos nossos entes queridos nos faz refletir sobre a nossa condição de
pessoas transitórias neste mundo. Seria uma lástima viver sem conhecer o
verdadeiro significado da nossa existência. São Paulo, em sua incansável missão
de anunciar o evangelho, insiste na verdade da salvação gratuita de Deus. Seu
amor incondicional foi definitivamente comprovado na vida, morte e ressurreição
de Jesus. Por ele fomos reconciliados com Deus e, “estando reconciliados,
seremos salvos por sua vida”. Essa esperança não decepciona, e sim orienta os
nossos passos neste êxodo rumo à pátria eterna. Essa esperança impregna o tempo
presente de um sentido “cairológico”: é tempo propício de acolher a graça
divina; de desapegar-se do que é efêmero; de cultivar a amizade pessoal com
Deus; de discernir e acolher a sua vontade. Como seguidores de Jesus, é tempo
de defender e promover a vida neste mundo, sinal da vida futura.
Celso Loraschi
A respeito dos que
partiram…
Nossos cemitérios estarão
revestidos de flores de todas as cores nesse dia dos finados, lembrança do dia
dos que se foram, dos que largaram a sua mão de nossa mão. Há esses cemitérios
meio entulhados, sem caminhos, sem verde. Há outros que são parques cheios de
verde. Para esses espaços são levados os corpos inertes daqueles que viveram ao
nosso lado. Finados, dia de dor, dia de recordação dolorida, mas também de
esperança.
Lá, na sepultura, quase nada.
Uns poucos ossos e tudo. Um pedaço da roupa com a qual enterramos a mãe. Nada
mais. Nada. E no entanto esses que já se foram continuam vivos dentro de nós…
Não retivemos apenas a última imagem, ou seja, aquele rosto sem vida, a pele
branca, o corpo gelado. Lembramos do carinho com que nos trataram, da doçura
como pronunciavam nosso nome, dos empenhos despendidos em nosso favor.
Lembramo-nos de seu jeito de falar, das histórias que contavam, dos vestidos
bonitos que trajavam, dos capotes de inverno tão quentes. Lembramos de sua voz
maviosa, dos arranjos de flores que sabiam fazer, da graça de seu andar e da
potência de sua voz… Esses todos cujos corpos estão no cemitério, vivem em
nossa memória… e nesse dia um sentimento de gratidão por sua vidas se mistura
com essa saudade doida que se aviva quando nos dirigimos ao cemitério,
realmente parques da saudade…
Cremos que esses corpos que a
terra absorveu, que voltaram ao pó de onde vieram, foram transfigurados pela
luz e pela vida do Ressuscitado. Cremos. Sempre de novo: cremos. Assim como
Jesus saiu da morte e com um corpo espiritual se encontra junto do Pai, assim
os que morreram com Cristo, que foram feitos filhos adotivos do Pai, esses
todos que andaram buscando o tesouro do evangelho e catando a pérola preciosa,
todos esses que se alimentaram do pão da vida e foram pão para a vida de todos,
todos os que beberam do manancial de todas as graças que é coração aberto do
redentor, todos esses que, à exemplo de Jesus, levantaram os erguidos à beira
do caminho, abriram os olhos aos cegos, esses que nem sempre foram aceitos
porque incomodaram, todos estão hoje, transfigurados, na pátria da luz. Cremos.
Rezamos por eles. Pedimos,
sobretudo na missa, que sejam purificados e possam ser habitantes da luz,
estrelas no firmamento de Deus, santos que estão na beatitude sem fim da
contemplação do Amor.
Deixamos o cemitério com olhos
aguados das lágrimas da saudade e ao mesmo tempo um leve sorriso de esperança
dança e nossos lábios.
Que saudade de todos os que
largaram suas mãos de nossas mãos… Que paz porque sabemos que eles estão em
Deus, iluminados e transfigurados.
frei Almir
Ribeiro Guimarães
A liturgia do dia dos Finados poderia ser chamada
também a liturgia da esperança. Pois, como “o último inimigo é a morte” (1Cor.
15,26), a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão. A morte é
considerada, espontaneamente, como um ponto final: “tudo acabou”. A resposta
cristã é: “A vida não é tirada, mas transformada” (prefácio). Esta resposta
baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus Cristo. Se ele ressuscitou, também
para nós a morte não é o ponto final. Somos unidos com ele na vida e na morte
(Jo 11,25-26; evangelho). Ele é a Ressurreição e a Vida: unir-se a ele
significa não morrer, não parar de existir diante de Deus, embora o corpo morra
e se decomponha.
Trata-se de uma fé, de uma maneira de traduzir o
Mistério de Deus e da totalidade da existência. Já no AT, o autor de Sb.
observa que as aparências enganam: a justiça dos justos não é um absurdo diante
da morte (“ele não aproveitou nada da vida!”). Pelo contrário, é o começo do
“estar na mão de Deus”, que não tem fim (1ª leitura). Assim também descreve
Paulo a existência cristã como estar já unido com Cristo na Ressurreição, o que
é simbolizado pelo batismo (2ª leitura).
O texto de Paulo introduz, porém, um importante
complemento na idéia de que a existência do fiel e justo já é o início da vida
eterna: Paulo não gosta nada do espiritualismo exaltado de pessoas que se
consideram “nova criação” sem morte existencial da vida antiga. No primeiro
cristianismo havia uma tendência para um conceito “barato” da vida eterna, um
pouco ao modo dos gnósticos, que achavam que bastava participar de algum
“mistério” esotérico para ter a imortalidade. Paulo insiste muito na realidade
tanto da morte quanto da ressurreição do Cristo (cf. 1Cor. 15,12-19). E para
participar destas é preciso também crucificar o velho homem com Cristo.
Portanto, a certeza de estarmos nas mãos de Deus –
pela fé em Cristo que nos torna verdadeiramente “justos”- não tira nada do
caráter crítico da morte corporal: ela fica um véu, atrás do qual nosso olhar
não penetra. Inclusive, para o cristão, ele é mais “séria” do que para quem
vive sem se preocupar de nada, porque ela significa desde já a morte do homem
“natural”. Não podemos viver com a perspectiva de sermos assumidos pelo
Espírito de Deus, para ressuscitar com um “corpo não carnal, mas espiritual”
(1Cor. 15,44ss), se não nos acostumarmos ao Espírito desde já. O corpo
espiritual de que Paulo fala é a presença “ao modo de Deus”. Este é o nosso
destino. Mas, se não nos tornarmos aptos para este modo agora, como seremos
aptos para sempre?
Assim, a morte, para o cristão, é a pedra de toque de
sua vida. Dá seriedade à sua vida. Valoriza, na vida, o que ultrapassa os
limites da matéria, que é “só para esta vida” (1Cor. 15,19). Abre-nos para o
que é realmente criativo e supera o dado natural da gente. Um antegosto daquilo
que é “vida pneumática”, a gente o tem quando se supera a si mesmo, p.ex.,
negando seus próprios interesses em prol do outro. O verdadeiro amor implica,
necessariamente, o morrer a si mesmo. Superação do homem confinado na perspectiva
material, tal é a realidade espiritual que encontrará confirmação definitiva e
inabalável na morte. Na morte, o que é verdadeiro e definitivo em nosso existir
supera a precariedade da existência. A morte é nossa confirmação na mão de
Deus: Ressurreição.
Para tal existência, morta para o homem velho, é que
o batismo, configuração com Cristo, nos encaminha. Portanto, vivemos já a vida
da ressurreição, num certo sentido. Quem diz isto em termos expressos é João
(evangelho). A Marta, que representa o conceito veterotestamentário da vida
eterna – a ressurreição depois da morte, no fim dos tempos – Jesus responde
que, quem crê nele, já durante sua vida tem a vida eterna (11,25-26; cf. 5,24).
O fundamento de afirmação não convencional assim é que Jesus mesmo é o dom
escatológico por excelência. Quem vê Jesus, vê Deus (Jo 14,9). Quem aceita
Jesus na fé, não precisa esperar a vida do além para ver Deus (na linguagem do
A.T., “ver Deus” era a grande esperança).
Com isso, estamos longe dos temas tradicionais referentes
aos finados. De fato, a celebração dos féis falecidos é a celebração de nossa
esperança e da comunidade dos santos, da “comunhão dos santos”, tanto quanto a
festa do 1º de novembro. A liturgia nada diz das penas do purgatório e coisas
semelhantes, que tradicionalmente estão no centro da atenção neste dia. Ao
deixarmo-nos ensinar pela nova liturgia, deslocaremos o acento desta
comemoração. Vamos assmilar a espiritualidade desta liturgia, para ter uma
visão mais cristã da morte, o passo definitivo que conduz à vida verdadeira.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Os cristãos batizados são convidados a santificar-se
e os que decidem viver plenamente o mistério pascal de Cristo não têm medo da
morte. Porque ele disse: "Eu sou a ressurreição e a vida".
Para todos os povos da humanidade, seja qual for a
origem, cultura e credo, a morte continua a ser o maior e mais profundo dos
mistérios. Mas para os cristãos tem o gosto da esperança. Dando sua vida em
sacrifício e experimentando a morte, e morte na cruz, ele ressuscitou e salvou
toda a humanidade. Esse é o mistério pascal de Cristo: morte e ressurreição.
Ele nos garantiu que, para quem crê, for batizado e seguir seus ensinamentos, a
morte é apenas a porta de entrada para desfrutar com ele a vida eterna no Reino
do Pai.
Enquanto para todos os seres humanos a morte é a
única certeza absoluta, para os cristãos ela é a primeira de duas certezas. A
segunda é a ressurreição, que nos leva a aceitar o fim da vida terrena com
compreensão e consolo. Para nós, a morte é um passo definitivo em direção à
colheita dos frutos que plantamos aqui na terra.
Assim sendo, até quando Nosso Senhor Jesus Cristo
estiver na glória de seu Pai, estará destruída a morte e a ele serão submetidas
todas as coisas. Alguns são seus discípulos peregrinos na terra, outros que
passaram por esta vida estão se purificando e outros, enfim, gozam da glória
contemplando Deus.
Os glorificados integram a Igreja triunfal e são
Todos os Santos, os quais, nós, os integrantes da Igreja militante, cristãos
peregrinos na terra, comemoramos no dia 1o de novembro. Os Finados integram a
Igreja da purificação e são todos os que morreram sem arrepender-se do pecado.
O culto de hoje é especialmente dedicado a esses.
Embora todos os dias, em todas as missas rezadas no mundo inteiro, haja um
momento em que se pede pelas almas dos que nos deixaram e aguardam o tempo
profetizado e prometido da ressurreição.
A Igreja ensina-nos que as almas em purificação podem
ser socorridas pelas orações dos fiéis. Assim, este dia é dedicado à memória
dos nossos antepassados e entes que já partiram. No sentido de fazer-nos
solidários para com os necessitados de luz e também para reflexão sobre nossa
própria salvação.
Encontramos a celebração da missa pelos mortos desde
o século V. Santo Isidoro de Sevilha, que presidiu dois concílios importantes,
confirmou o culto no século VII. Tempos depois, em 998, por determinação do
abade santo Odilo, todos os conventos beneditinos passaram, oficialmente, a
celebrar "o dia de todas as almas", que já ocorria na comunidade no
dia seguinte à festa de Todos os Santos. A partir de então, a data ganhou
expressão em todo o mundo cristão.
Em 1311, Roma incluiu, definitivamente, o dia 2 de
novembro no calendário litúrgico da Igreja para celebrar "Todos os
Finados". Somente no inicio do século XX, em 1915, quando a morte, a
sombra terrível, pairou sobre toda a humanidade, devido à I Guerra Mundial, o
papa Bento XIV oficiou o decreto para que os sacerdotes do mundo todo rezassem
três missas no dia 2 de novembro, para Todos os Finados.
padre Jaldemir Vitório
O sopro de Deus
faz viver para além da morte.
O fundamento da fé da Igreja é a
ressurreição de Jesus Cristo. A celebração da memória de todos os fiéis
defuntos é ocasião de suplicar a Deus a graça da fé na ressurreição de Cristo,
condição para crermos na Páscoa eterna daqueles que já partiram deste mundo. É
por essa razão que, neste dia de finados, a Igreja nos oferece esse trecho do
capítulo 11 de João, que é uma catequese sobre a ressurreição. Nosso relato (Jo
11,1-45) é o sétimo e último sinal que Jesus realiza. Isso significa que ele é
a plenitude dos sinais. A finalidade dos sinais, como de todo o evangelho, é
conduzir os discípulos, o leitor do evangelho, nós todos, à fé em Jesus Cristo
(cf. Jo 20,30-31). Com esse relato, o autor do evangelho prepara o leitor para
entrar com esperança nos relatos da paixão, morte e ressurreição de Jesus.
O sopro de Deus faz viver para
além da morte. No centro do texto do evangelho, trecho que não lemos neste dia,
está a afirmação de Jesus a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v. 25). É
pela fé que se participa dessa vida nova, transfigurada. A pergunta que provoca
e desafia a fé de Marta e a nossa fé é a seguinte: “Crês nisto?” (v. 26). Marta
responde afirmativamente, pois ela é no relato símbolo do discípulo perfeito
que põe a sua confiança no Senhor. Ante a morte há, segundo nosso texto, duas
atitudes possíveis, representadas por Maria e sua irmã Marta: ficar prisioneiro
do círculo da morte e do luto (Maria) ou romper com esse círculo pela adesão ao
Senhor da vida (Marta). Quando Marta ouviu dizer que Jesus estava próximo, saiu
correndo ao seu encontro; Maria, no entanto, permaneceu em casa, sentada,
mergulhada no luto e na tristeza. A presença do Senhor suscita a esperança.
Permanecer em casa é fechar-se à possibilidade da fé. Marta que crê na
ressurreição de Cristo, na vida que ele dá, será para sua irmã Maria mensageira
de um chamado do Senhor que a faz sair do mundo da morte para estar diante
daquele que é o Senhor da vida. A pergunta que se nos impõe a partir do relato
para a nossa reflexão é a seguinte: com qual das duas irmãs você se identifica?
Você é portador de que mensagem?
Carlos
Alberto Contieri,sj
Hoje, a Igreja recolhe-se em oração pelos seus filhos
que já partiram desta vida. Para os cristãos, não se trata de um simples dia de
saudade, mas de oração pelos fiéis de Cristo que já partiram para a Casa do Pai
na firme esperança da ressurreição. Vêm à nossa mente e ao nosso coração tantas
perguntas: Que é a morte? Que é a vida que termina com a morte? O que há após a
morte? São interrogações que devemos responder à luz da fé.
Num mundo que já não crê e não tem quase nada a dizer
sobre a vida e sobre a morte, a Palavra de Deus nos ilumina: “Irmãos, não
queremos que ignoreis o que se refere aos mortos, para não ficardes tristes
como os outros, que não têm esperança” (1Ts. 4,13). O cristão não pode encarar
a morte como os pagãos; nós temos uma esperança, e ela se chama Jesus Cristo,
aquele que disse “eu sou a Ressurreição, eu sou a Vida” (Jo 11,25)!
Recordemos algumas certezas fundamentais da nossa fé.
(1) Deus é vida, criou tudo para a vida. Ele não é o
autor da morte, não entende nada de morte, não tem parte com a morte (cf. Sb.
1,13-15). Pelo contrário, a morte é a separação do Deus da vida, como as trevas
são a separação da luz do sol. “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e
o fez imagem de sua própria natureza; foi por inveja do diabo que a morte
entrou no mundo: experimentam-na aqueles que lhe pertencem” (Sb. 2,23s). Deus
pensou para nós somente o bem e a felicidade com ele! O homem, ao fechar-se
desde o princípio, para o Deus da vida, desarrumou-se, desaprumou-se e passou a
experimentar sua vida como uma morte: desequilíbrio, dor, egoísmo, solidão,
medo, doença, falta de sentido e, finalmente, a morte física... O salário do
nosso pecado foi uma situação de morte, de infelicidade, de incoerência e
tristeza, que culmina com a morte física. Basta olhar o mundo ao nosso redor!
(2) Isto não significa que, se não tivéssemos pecado,
viveríamos aqui para sempre. Deus não nos criou para vivermos aqui
indeterminadamente: “O Senhor tirou o homem da terra e a ela faz voltar
novamente. Deu aos homens número preciso de dias e tempo determinado” (Eclo 17,1s).
Deus nos deu um número preciso de dias, um tempo de vida. Mas, uma coisa é
certa: sem o pecado, vivendo na amizade com Deus e na harmonia com os outros e
o mundo, nossa morte não teria o gosto amargo de morte. Se hoje a morte tem um
aspecto trágico, é porque está ligada ao pecado, ao nosso afastamento de Deus.
Por isso a morte nos mete medo e, muitas vezes, é sentida como uma ameaça de
cair no nada.
(3) Mas, Deus não nos abandonou à morte: ele nos
enviou o seu Filho, em tudo igual a nós, menos no pecado. Ele tomou sobre si as
nossas dores, viveu nossa vida mortal, de incertezas, de tristezas, de
angústias, de morte. Morrendo de nossa morte, ele foi ressuscitado pelo Pai na
força do Espírito Santo. Morrendo da nossa morte, ele nos deu a possibilidade e
a graça de morrer como ele e com ele ressuscitar da morte: “Eu sou a
ressurreição! Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá!” (Jo 11,25).
Desde o Batismo, unidos a Cristo morto e ressuscitado, alimentados pelo seu
corpo e sangue na Eucaristia, sabemos que “nem a morte nem a vida nem criatura
alguma nos poderá separar do amor de Cristo” (Rm. 8,38s).
Esta é a nossa esperança: vivermos unidos a Cristo já
agora e, após a nossa morte, ressuscitar nele e com ele, nele e como ele! Como
o Senhor foi glorificado no seu corpo e na sua alma pela potência do Espírito
Santo, assim também nós seremos glorificados: logo após a nossa morte, na nossa
alma, nunca mais sentiremos o medo, a tristeza, a dor, o pranto... e, no fim
dos tempos, também no nosso corpo mortal seremos glorificados: “semeado
corruptível, ressuscitará corpo incorruptível; semeado desprezível,
ressuscitará reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de
força; semeado psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor. 15,42-44). Sermos
glorificados significa entrar na plenitude de Cristo, na alegria de Cristo, na
eternidade de Cristo! Isto, para nós, é o Paraíso: estar para sempre com o
Senhor!
Rezemos hoje pelos nossos queridos que já morreram;
rezemos por todos os fiéis que já partiram para o Cristo: que recebam o perdão
de seus pecados e entrem na plenitude de Deus. A Sagrada Escritura diz que “é
um santo e piedoso pensamento rezar pelos mortos, para que sejam livres de seus
pecados” (2Mc. 12,46). Que nosso carinho e nossa saudade sejam acompanhados
pela nossa piedosa oração, cheia de esperança na ressurreição.
Mas, pensemos também na nossa vida, no destino que
estamos dando à nossa existência, pois nosso encontro com o Senhor é preparado
no dia-a-dia, nos pequenos momentos de nosso caminho neste mundo. São Bernardo
de Claraval afirmava que nossa vida neste mundo é semente de eternidade. Pois
bem! Estejamos atentos para viver de tal modo, que nossa vida seja uma amizade
com Deus que começa aqui e se consumará na glória!
Voltemos nosso olhar e nosso pensamento para Cristo,
vencedor da nossa morte. As palavras do Prefácio da missa de hoje são tão
consoladoras: Em Cristo “brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E,
aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola.
Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E,
desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos céus, um corpo imperecível”. Que
o Senhor realize a nossa esperança e que nós vivamos de tal modo, que sejamos
dignos dela!
Descanso eterno dai-lhes, Senhor!
Da luz perpétua, o resplendor!
Que suas almas descansem em paz.
dom Henrique Soares da
Costa
A liturgia da comemoração dos fiéis defuntos
convida-nos a descobrir que o projeto de Deus para o homem é um projeto de
vida. No horizonte final do homem não está a morte, o fracasso, o nada, mas
está a comunhão com Deus, a realização plena do homem, a felicidade definitiva,
a vida eterna.
No Evangelho, Jesus deixa claro que o objetivo final
da sua missão é dar aos homens o “pão” que conduz à vida eterna. Para aceder a
essa vida, os discípulos são convidados a “comer a carne” e a “beber o sangue”
de Jesus – isto é, a aderir à sua pessoa, a assimilar o seu projeto, a
interiorizar a sua proposta. A Eucaristia cristã (o “comer a carne” e beber o
sangue” de Jesus) é, ao longo da nossa caminhada pela terra, um momento
privilegiado de encontro e de compromisso com essa vida nova e definitiva que
Jesus veio oferecer.
Na segunda leitura, Paulo garante aos cristãos de
Tessalónica que Cristo virá de novo, um dia, para concluir a história humana e
para inaugurar a realidade do mundo definitivo; todo aquele que tiver aderido a
Jesus e se tiver identificado com Ele irá ao encontro do Senhor e permanecerá
com Ele para sempre.
Na primeira leitura, Isaías anuncia e descreve o
“banquete” que Deus, um dia, vai oferecer a todos os Povos. Com imagens muito
sugestivas, o profeta sugere que o fim último da caminhada do homem é o
“sentar-se à mesa” de Deus, o partilhar a vida de Deus, o fazer parte da família
de Deus. Dessa comunhão com Deus resultará, para o homem, a felicidade total, a
vida definitiva.
1ª leitura: Is. 25,6a.7-9 -
AMBIENTE
É extremamente difícil situar, no tempo e no momento
histórico, o texto que a primeira leitura deste domingo nos apresenta.
Para uns, o oráculo pertence à fase final da vida do
profeta Isaías (no final do séc. VIII a.C.) quando, desiludido com a política e
com os reis de Judá, o profeta começou a sonhar com um tempo novo de felicidade
e de paz sem fim para o Povo de Deus.
Para outros, contudo, este texto não pertenceria ao
primeiro Isaías (o autor dos capítulos 1-39 do livro de Isaías), apesar de
aparecer integrado no seu livro. Seria um texto de uma época posterior ao
profeta… A referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia
sugerir que a composição deste texto se situaria num momento histórico
posterior ao Exílio na Babilônia, quando Judá já teria reconquistado a
liberdade.
Em qualquer caso, o texto constrói-se à volta da
imagem do “banquete”. O “banquete” é, no ambiente sócio-cultural do mundo
bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade
de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas.
Para além de acontecimento social, o “banquete” tem
também, frequentemente, uma dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados”
celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços
familiares entre Deus e os fiéis. É por isso que, na perspectiva dos
catequistas que redigiram as tradições sobre a Aliança do Sinai, o compromisso
entre Jahwéh e Israel tinha de ser selado com uma refeição entre Deus e os
representantes do Povo (cf. Ex. 24,1-2.9-11).
Neste campo são, também, particularmente
significativos os “sacrifícios de comunhão” (“zebâh shelamim”) celebrados no
Templo de Jerusalém. Neste tipo de celebração religiosa, o crente trazia ao
Templo um animal destinado a Deus. Depois de imolado o animal, a sua gordura
era queimada sobre o altar, ao passo que a carne era repartida pelo oferente e
pelos sacerdotes. O oferente e a sua família deviam comer a sua parte no espaço
sagrado do santuário. Dessa forma, sentavam-se à mesa com Deus, celebravam a
sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz,
de harmonia, de comunhão (cf. Lv. 3). É este ambiente que o nosso texto supõe.
MENSAGEM
O profeta anuncia que Deus, num futuro sem data
marcada, vai oferecer “um banquete”; e, para esse “banquete”, Jahwéh vai
convidar “todos os povos”. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus no
sentido de estabelecer laços “de família” com a humanidade inteira.
O cenário do “banquete” é “este monte” (vers. 6) –
evidentemente, o monte do Templo, em Jerusalém, a “casa de Jahwéh”, o lugar
onde Deus reside no meio do seu Povo, o lugar onde Israel presta culto a Jahwéh
e celebra os sacrifícios de comunhão. Aceitar o convite de Deus para o
“banquete” significará, portanto, participar no culto a Jahwéh, ser acolhido na
casa de Jahwéh, entrar no “espaço íntimo” e familiar de Deus e sentar-se com
ele à mesa.
Nesse “banquete” serão servidos “manjares
suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos” e “puríssimos” (v.
6). As expressões sublinham a abundância de vida – e de vida com qualidade –
com que Deus vai cumular os seus convidados.
Para os que aceitarem o convite para o “banquete”,
iniciar-se-á uma nova era, de comunhão íntima com Deus e de vida sem fim. O
profeta sugere a comunhão total entre Deus e os homens que então se iniciará,
com a indicação de que será removido “o véu que cobria todos os povos, o pano
que envolvia todas as nações” (v. 7) e que impedia o contacto total com o mundo
de Deus. Por outro lado, o profeta sugere o início da nova era de paz e de
felicidade sem fim, dizendo que Deus vai destruir a morte para sempre, vai
enxugar “as lágrimas de todas as faces” e vai eliminar “o opróbrio que pesa
sobre o seu Povo” (vers.8).
O “banquete” termina com um cântico de acção de
graças que evoca, provavelmente, uma fórmula usada na aclamação de um novo rei
(vers. 9). Significa que, com o “banquete” que o Messias vai oferecer, se
iniciará o reinado de Deus sobre toda a terra.
O profeta está, sem dúvida, a descrever os tempos
messiânicos. Na perspectiva do profeta, serão tempos de comunhão total de Deus
com o homem e do homem com Deus. Dessa intimidade entre Deus e o homem
resultará, para o homem, a felicidade total, a vida verdadeira e plena.
A partir daqui, a ideia de um “banquete messiânico”
tornou-se corrente no judaísmo.
ATUALIZAÇÃO
• A imagem do “banquete” para o qual Deus convida
“todos os povos” aponta para essa realidade de comunhão, de festa, de amor, de
felicidade que Deus insistentemente nos oferece. Nunca será de mais recordar
isto: Deus tem um projeto de vida, que quer oferecer a todos os homens, sem
exceção. Não somos “filhos de um deus menor”, pobre humanidade abandonada à sua
sorte, perdida num universo hostil e condenada ao nada; somos pessoas a quem
Deus ama, a quem Ele convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a
vida plena e definitiva. A consciência desta realidade deve iluminar a nossa
existência e encher de serenidade, de esperança e de confiança a nossa
caminhada nesta terra. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos
e misérias não são a última palavra da nossa existência; mas caminhamos todos
ao encontro da festa definitiva que Deus prepara para todos os que aceitam o
seu dom.
• Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para
ter acesso a essa festa de vida eterna. Aceitar o convite de Deus significa
renunciar ao egoísmo, ao orgulho e à auto-suficiência e conduzir a existência
de acordo com os valores de Deus; aceitar o convite de Deus implica dar
prioridade ao amor, testemunhar os valores do Reino e construir, já aqui, uma
nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. No dia do nosso
batismo, aceitamos o convite de Deus e comprometemo-nos com Ele… A nossa vida
tem sido coerente com essa opção?
2ª leitura: 1Ts. 4,13-18 -
AMBIENTE
De acordo com os “Atos dos Apóstolos”, Paulo não teve
muito tempo para evangelizar os tessalonicenses. Depois de poucas semanas de
pregação, um motim habilmente preparado pelos judeus da cidade obrigou-o a
partir precipitadamente de Tessalónica, deixando atrás de si uma comunidade
cristã fervorosa e entusiasta, mas insuficientemente preparada do ponto de
vista catequético (cf. At. 17,1-10). Paulo foi para Bereia, depois para Atenas
e Corinto. De Corinto, Paulo enviou Timóteo ao encontro dos tessalonicenses,
para verificar como é que a comunidade se estava a aguentar face à hostilidade
dos judeus. No regresso a Corinto, Timóteo deu conta a Paulo da situação da
comunidade: os tessalonicenses continuavam a viver com entusiasmo o seu
compromisso cristão, embora sentissem algumas dúvidas em questões de fé e de
doutrina.
Um dos problemas teológicos que mais preocupava os
tessalonicenses era a questão da parusia (regresso de Jesus, no final dos
tempos)… Paulo e as primeiras gerações cristãs acreditavam que esse dia
surgiria num espaço de tempo muito curto e que assistiriam ao triunfo final de
Jesus. A este propósito os tessalonicenses punham, no entanto, um problema
muito prático: qual será a sorte dos cristãos que morrerem antes da segunda
vinda de Cristo? Como poderão sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com
Ele no Reino de Deus se já estão mortos?
É então que Paulo escreve aos tessalonicenses,
encorajando-os na fé e respondendo às suas dúvidas. Estamos no ano 50 ou 51. O
texto que nos é proposto é parte desse esclarecimento sobre a parusia que Paulo
incluiu na carta.
MENSAGEM
Antes de mais, Paulo confirma aquilo que,
provavelmente, já antes havia ensinado aos tessalonicenses: que Cristo virá
para concluir a história humana; e que todo aquele que tiver aderido a Cristo e
se tiver identificado com Ele, esteja morto ou esteja vivo, encontrará a salvação
(v. 14). Se Cristo recebeu do Pai a vida que não acaba, quem se identifica com
Cristo está destinado a uma vida semelhante; a morte não tem poder sobre ele…
Isto deve encher de esperança o cristão, mantendo-o alegre, sereno e cheio de
ânimo.
Como é que se concretizará isso? Como é que aqueles
que já morreram assistirão ao triunfo final de Cristo?
Paulo não é demasiado explícito, pois está consciente
de que se trata de uma realidade misteriosa, que foge à lógica e à linguagem
humanas. De qualquer forma, para descrever a passagem do homem velho para a
realidade do homem novo que vive para sempre junto de Deus, Paulo vai recorrer
ao género literário “apocalipse”, um gênero literário que utiliza
preferentemente a imagem e o símbolo (afinal, a linguagem mais adaptada para
expressar uma realidade que nos ultrapassa e que não conseguimos definir e
explicar nos seus detalhes). O quadro que Paulo traça é o seguinte: aqueles
crentes que, entretanto, morreram ressuscitarão primeiro (“à voz do arcanjo”,
“ao som da trombeta de Deus” – elementos típicos da escatologia judaica);
depois, em companhia de “nós, os vivos”, irão ao encontro do Senhor que vem na
sua glória, e permanecerão com Ele para sempre.
Em qualquer caso, o que está aqui em causa não é a
definição do quadro fotográfico da última vinda do Senhor… O que Paulo aqui
pretende é tranquilizar os tessalonicenses, assegurando-lhes que não haverá
qualquer diferença ou discriminação entre os que morreram antes da segunda
vinda de Jesus e aqueles que permanecerem vivos até esse instante: uns e outros
encontrar-se-ão com o Senhor Jesus, partilharão o seu triunfo e entrarão com
Ele na glória.
ATUALIZAÇÃO
• A certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem
um projeto de salvação e de vida para cada homem; e que esse projeto está a
realizar-se continuamente em nós, até à sua concretização plena, quando nos
encontrarmos definitivamente com Deus.
• A nossa vida presente não é, pois, um drama
absurdo, sem sentido e sem finalidade; é uma caminhada tranquila, confiante –
ainda quando feita no sofrimento e na dor – em direção a esse desabrochar
pleno, a essa vida total em que se revelará o Homem Novo.
• Isso não quer dizer que devamos ignorar as coisas
boas deste mundo, vivendo apenas à espera da recompensa futura, no céu; quer dizer
que a nossa existência deve ser – já neste mundo – uma busca da vida e da
felicidade; isso implicará uma não conformação com tudo aquilo que nos rouba a
vida e que nos impede de alcançar a felicidade plena, a perfeição última (a nós
e a todos os homens nossos irmãos).
• Não é possível viver com medo, depois desta
descoberta: podemos comprometer-nos na luta pela justiça e pela paz, com a
certeza de que a injustiça e a opressão não podem pôr fim à vida que nos anima;
e é na medida em que nos comprometemos com esse mundo novo e o construímos com
gestos concretos, que estamos a anunciar a ressurreição plena do mundo, dos
homens e das coisas.
Evangelho: Jo 6,51-58 - AMBIENTE
O trecho que nos é proposto neste domingo como
Evangelho situa-nos na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6,59) e no contexto do
discurso sobre o “pão da vida”. Ao longo desse discurso, Jesus afirmou
repetidamente que era “o pão que desceu do céu para dar vida ao mundo”; aqui,
no entanto, vai ainda mais além: convida os seus interlocutores a comer a sua
carne e a beber o seu sangue.
As palavras de Jesus parecem conter uma referência
clara à Eucaristia. Alguns biblistas pensam que esta parte do discurso é uma
reflexão da primitiva comunidade cristã, que reintrepretou a primeira parte do
discurso, explicitando-a a partir da celebração eucarística posterior; outros
pensam que João reelaborou uma série de materiais que estariam, inicialmente,
incluídos no relato da última ceia e que foram deslocados para aqui por
conveniências teológicas (na sua versão da última ceia, João preferiu dar
relevo à lavagem dos pés; contudo, não quis a omitir o discurso eucarístico de
Jesus, um dado tão importante para a tradição cristã. Sendo assim, transladou-o
para outro lugar; e o lugar mais indicado para o situar pareceu-lhe ser,
precisamente, na continuação do discurso sobre o “pão descido do céu para dar
vida ao mundo”). Em qualquer caso, esta parte do discurso (cf. Jo 6,51-58) não
deve ter sido feita na sinagoga de Cafarnaum… Ela só faz sentido após a
instituição da Eucaristia, na última ceia.
O discurso sobre o “pão da vida” (cf. Jo 6,22-58)
ficou, portanto, no esquema de João, com o seguinte enquadramento lógico: os
homens buscam o pão material; Jesus traz-lhes o “pão do céu que dá vida ao
mundo”; e o pão eucarístico realiza, de forma plena, a missão de Jesus no
sentido de dar vida ao homem.
MENSAGEM
Depois de se apresentar como “o pão vivo que desceu
do céu” para dar aos homens a vida definitiva (v. 51a), Jesus identifica esse
“pão” com a sua “carne” (v. 51b). A palavra “carne” (em grego: “sarx”) designa
a realidade física do homem, na sua condição débil, transitória e caduca. Ora,
foi precisamente na “carne” de Jesus – isto é, no seu corpo físico – que se
manifestou, em gestos concretos, a sua doação e o seu amor até ao extremo. Na
realidade física de Jesus, Deus tornou-Se presente e visível no meio dos
homens, mostrou a sua vontade de comunicar com os homens e manifestou-lhes o
seu amor. É esta “carne” (isto é, a sua vida física, o “lugar” onde Deus se
manifesta aos homens e lhes mostra o seu amor) que Jesus vai dar a “comer” para
que o mundo tenha vida.
Os judeus não entendem as palavras de Jesus (v. 51).
Quando Jesus Se apresentou como “pão vivo descido do céu para dar a vida ao
mundo”, eles entenderam que Jesus pretendia ser uma espécie de “mestre de
sabedoria” que trazia aos homens palavras de Deus (também isso, eles tinham
dificuldade em aceitar; mas, pelo menos, entendiam aonde Ele queria chegar)…
Mas agora Jesus fala em “comer” a sua carne. O que significam as suas palavras?
São palavras difíceis de entender, se não nos colocarmos numa perspectiva
eucarística; e, por isso, os judeus não as entendem… Para a comunidade de João,
contudo, as palavras de Jesus são claras, pois são entendidas tendo em conta a
celebração e o significado da Eucaristia.
Na sequência, Jesus reitera a sua afirmação, desta
vez com mais desenvolvimentos: Ele não só vai dar a comer a sua carne, mas
também a beber o seu sangue; e quem os aceitar, recebe vida definitiva (vs.
53-54). A referência ao sangue coloca-nos no contexto da paixão e da morte.
Dizer que Jesus é carne significa que Ele Se tornou pessoa como nós, assumiu a
nossa condição de debilidade, aceitando passar, até, pela experiência da morte.
Dizer que o pão que Ele há-de dar é a sua “carne para a vida do mundo”
significa que Jesus fez da sua vida um dom, uma “entrega” por amor aos homens;
e que o momento mais alto dessa vida feita “dom” e “entrega” é a morte na cruz.
Na cruz, manifestou-se, através da “carne” de Jesus – isto é, através da sua
realidade física – o seu amor, o seu dom, a sua entrega… Ora, é essa realidade
que se manifestou na cruz – realidade de amor, de doação, de entrega – que os
discípulos são convidados a comer e a beber. Comer e beber significam, neste
contexto, “aderir”, “acolher”, interiorizar”, “assimilar”.
A questão é, portanto, esta: Jesus não está a falar
da sua carne física e do seu sangue físico… Está a pedir, simplesmente, que os
seus discípulos acolham e assimilem essa vida de amor, de dom, de entrega, que
Ele mostrou na sua pessoa (isto é, nos seus gestos, no seu amor, na sua doação
aos homens) e que teve a sua expressão mais radical na cruz, quando Jesus, por
amor, ofereceu totalmente a sua vida, até à última gota de sangue. Quem
“acolher” e “assimilar” esta vida e aceitar viver da mesma forma – no amor e no
dom total da vida, até à morte – terá vida plena e definitiva.
A Eucaristia atualiza esta realidade na comunidade
cristã e na vida dos crentes. Esse mesmo Jesus que amou até às últimas
consequências, que pôs a sua vida ao serviço dos homens, que Se deu na cruz,
oferece-Se como alimento aos seus. O discípulo que participa da Eucaristia,
isto é, que “come” e que “bebe” a “carne” e o “sangue” de Jesus, assimila esta
proposta e compromete-se a viver e a dar a vida como Ele (v. 55).
Um dos efeitos de comer a carne e beber o sangue de
Jesus é ficar em união íntima, em comunhão de vida com Jesus. O discípulo que
interioriza a proposta de Jesus identifica-se com Ele e torna-se um com Ele (v.
56). O cristão é, antes de mais, alguém que recebe vida de Jesus e vive em
união com Ele.
Outro efeito de comer a carne e beber o sangue de
Jesus é comprometer-se com o mesmo projeto de Jesus. Jesus Cristo foi enviado
pelo Pai ao mundo para dar vida ao mundo e o seu plano consiste em concretizar
esse projecto; o cristão assimila esse mesmo projeto e dedica toda a sua
existência a concretizá-lo no meio dos homens (v. 57).
É neste caminho que se chega a essa vida plena e
definitiva que Jesus veio propor aos homens. Do comer a carne e beber o sangue
de Jesus nascerá uma nova humanidade de gente livre, que venceu a morte e que
vive para sempre v. 58.
O discurso que João põe na boca de Jesus não se
dirige aos judeus (pois os judeus não eram capazes de entender as palavras de
Jesus), mas dirige-se aos discípulos. O seu objetivo é explicar o programa de
Jesus, pedir aos discípulos que assimilem esse programa e o testemunhem no meio
dos homens. A Eucaristia cristã (comer a carne e beber o sangue) é, assim, uma
forma privilegiada de “atualizar” na vida dos crentes a vida e o amor de Jesus,
de estar em comunhão com Jesus, de “assimilar” o projeto de Jesus e de o
concretizar no mundo.
ATUALIZAÇÃO
• A liturgia da comemoração dos fiéis defuntos
assegura-nos que Deus tem um projeto de vida definitiva para oferecer aos
homens: o caminho que percorremos nesta terra não termina no fracasso e na
morte, mas no encontro com a vida verdadeira e eterna. Ora, o Evangelho que
hoje nos é proposto confirma e garante esse ensinamento fundamental: cumprindo
o seu projeto de salvação, Deus enviou Jesus ao mundo (Jesus apresenta-Se como
“o pão que desceu do céu”) para que os homens pudessem chegar à vida eterna. A
liturgia deste dia convida-nos, antes de mais, a contemplar o amor de Deus por
nós, a constatar a sua incrível preocupação com a nossa felicidade e com a
nossa realização plena, a descobrir que não estamos perdidos e abandonados face
à nossa fragilidade, debilidade e finitude. Esta constatação deve levar-nos a
encarar, com serenidade e confiança, a nossa caminhada pela terra, com a
certeza de que nos espera, para lá do horizonte deste mundo imperfeito, a vida
verdadeira e definitiva.
• Como é que chegamos a adquirir essa vida verdadeira
e definitiva? O Evangelho deste domingo afirma, categoricamente, que quem
aceita comer a carne e beber o sangue de Jesus viverá eternamente. Ora, comer a
carne e beber o sangue de Jesus é, antes de mais, acolher, assimilar e
interiorizar essa proposta de vida que Jesus nos fez (com a sua Palavra, com o
seu exemplo, com os seus gestos, com o seu amor); é, como Jesus, colocar a
própria vida ao serviço dos projectos de Deus e fazer da própria existência um
dom de amor aos irmãos. Este programa de vida não é, como é notório para
qualquer um de nós, demasiado apreciado numa cultura como a nossa, fortemente
marcada pelo egoísmo, pelo individualismo e pela auto-suficiência. Que não
restem, contudo, dúvidas: só encontraremos essa vida plena e eterna a que
aspiramos, seguindo Jesus, assimilando os seus valores, fazendo da nossa vida
um serviço a Deus e aos irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos do mundo. Se
aceitarmos conduzir a vida de acordo com esses parâmetros, o horizonte final da
nossa caminhada por esta terra não é a morte, mas a vida eterna.
• A Eucaristia é um momento privilegiado de encontro
com esse Cristo que Se faz “dom” e que vem ao nosso encontro para nos oferecer
a vida plena e definitiva. Participar no encontro eucarístico, comer a carne e
beber o sangue de Jesus é encontrar-se, hoje, com esse Cristo que veio ao
encontro dos homens e que tornou presente na sua “carne” (na sua pessoa física)
uma vida feita amor, partilha, entrega, até ao dom total de Si mesmo na cruz
(“sangue”). Para nós, os crentes, a Eucaristia – mais do que um rito que
cumprimos por obrigação ou por tradição – tem de ser um momento privilegiado de
encontro e de compromisso com Jesus e com essa vida nova e eterna que Ele
continuamente nos oferece.
• Sentar-se à mesa da Eucaristia é identificar-se com
Jesus, aceitar viver em união com Ele. Na Eucaristia, o alimento servido é o
próprio Cristo. Por isso, é a própria vida de Cristo que passa a circular nos
crentes. Quem acolhe essa vida que Jesus oferece torna-se um com Ele. Comer
cada domingo (ou cada dia) à mesa com Jesus desse alimento que Ele próprio dá e
que é a sua pessoa, leva os crentes a uma comunhão total de vida com Jesus e a
fazer parte da família do próprio Jesus. Convém termos consciência desta
realidade: celebrar a Eucaristia é aprofundarmos os laços familiares que nos
unem a Jesus, identificarmo-nos com Ele, deixarmos que a sua vida circule em
nós. O crente, alimentado pela Eucaristia, identificado com Jesus, transformado
num homem novo, transporta consigo dinamismos de vida eterna.
• Na concepção judaica, a partilha do mesmo alimento
à volta da mesa gera entre os convivas familiaridade e comunhão. Assim, os crentes
que participam da Eucaristia passam a ser irmãos: todos partilham a mesma vida,
a vida do Cristo do amor total. Dessa forma, a participação na Eucaristia tem
de resultar no reforço da comunhão dos irmãos. Uma comunidade que celebra a
Eucaristia é uma comunidade que aceitou banir do seu próprio seio tudo o que é
divisão, ciúme, conflito, orgulho, auto-suficiência, indiferença para com as
dores e as necessidades dos irmãos… A comunidade que se alimenta da Eucaristia
deve ser, portanto, um anúncio vivo desse mundo novo de fraternidade, de
justiça e de paz que nos espera para além desta terra.
• Finalmente, o comer a carne e beber o sangue de
Jesus implica um compromisso com esse mesmo projeto que Jesus procurou
concretizar em toda a sua vida, em todos os seus gestos, em todas as suas
palavras. O crente que celebra a Eucaristia tem de levar ao mundo e aos homens
essa vida que aí recebe… Tem de lutar, como Jesus, contra a injustiça, o
egoísmo, a opressão, o pecado; tem de esforçar-se, como Jesus, por eliminar
tudo o que desfeia o mundo e causa sofrimento e morte; tem de construir, como
Jesus, um mundo de liberdade, de amor e de paz; tem de testemunhar, como Jesus,
que a vida verdadeira é aquela que se faz amor, serviço, partilha, doação até
às últimas consequências. O crente que come a carne e que bebe o sangue de
Jesus torna-se uma fonte de onde brota, para o mundo e para os homens, a vida
eterna.
P. Joaquim Garrido, P.
Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho