quarta-feira, 15 de novembro de 2017
33º DOMINGO DO TEMPO COMUM-A
33º DOMINGO DO TEMPO COMUM
19 de Novembro de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt
25,14-30
A
justiça de Deus não é como a nossa, e pode nos surpreender. Pois os últimos
poderão ser os primeiros...
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DEUS CONFIA A NÓS, A ADMINISTRAÇÃO DOS SEUS BENS!- Olivia
Coutinho
33º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 19 de Novembro de 2017
Evangelho de Mt25,14-30
Quantos de nós, poderíamos contribuir para o crescimento do
Reino de Deus, mas passamos o tempo todo, escondidos no nosso mundinho, ora,
para não nos expor e correr o risco de ser criticado, ora, por omissão.
Quem se deixa irrigar pela a fonte de água viva que é Jesus,
torna canal do seu amor no mundo, não teme as consequências do
envolvimento com a causa do Reino.
A expansão do reino de Deus depende da nossa disposição em
colocar as nossas capacidades, nossas habilidades a serviço deste Reino,
afinal, fomos contratados para trabalhar na obra do Senhor, no nosso Batismo,
foi selado este “contrato.”
É importante conscientizarmos, de que a obra do Senhor é
gigantesca, e que nela, há trabalho para todos! Ninguém pode dizer que não tem
algo a oferecer nesta “empreitada,” pois o Senhor capacita todos, de acordo com
a suas aptidões, cabe a cada um de nós, descobrir em que setor nos encaixamos,
onde produziremos frutos de melhor qualidade.
A eficiência do operário do senhor está, em não ficar somente no
cumprimento de regras, normas, afinal, quem está configurado no Senhor da
messe, tem que ir mais além, tem que fazer a diferença no mundo!
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir,
faz-nos perceber, através de uma parábola, o quão é grande a nossa responsabilidade
para com o que é de Deus!
Deus confia a nós, a administração de todos os seus bens, e para
que possamos ser bons administradores, Ele nos concede talentos! Talentos,
podemos dizer que são indicativos de capacidade e de habilidade que Deus concede
a cada um de nós, diferenciadamente, cabendo a quem o recebe, desenvolvê-lo.
Talento é um presente que recebemos de Deus e que precisa ser desembrulhado e
ser usado em favor do outro!
A parábola nos fala de um patrão, que antes de viajar para o
estrangeiro, entregou os seus bens a três de seus empregados. A cada um, foi
dada a responsabilidade de administrar estes bens, de acordo com as suas
capacidades, e quando ele voltou, pediu conta dos seus bens a cada um deles.
Os dois primeiros, por terem alcançado êxito na administração
dos bens confiados a eles, receberem elogios do Patrão. Já o terceiro
empregado, que por medo de represálias por parte do patrão, enterrou o único
talento que recebera não o fazendo multiplicar, foi duramente castigado pelo o
mesmo. Este último empregado, simboliza todos os que vivem na
passividade, os que não agem, e nem reagem, aqueles, que não fazem nada de
errado, mas também não fazem nada de bom, que se resguardam, por medo de
avançar para aguas mais profundas, por medo de ousar...
Na administração dos bens de Deus, muitas vezes, precisamos
ousar, para produzir frutos. De nada adianta, termos as mãos limpas para
apresentarmos ao Senhor, no juízo final, se elas estão vazias, se com elas, não
fizemos nada em favor do Reino!
É importante estarmos bem atentos, pois um dia, teremos que
prestar conta ao Senhor, da nossa administração. Podemos estar certos: não
seremos cobrados pelo o não êxito daquilo que fizemos na intensão de acertar, e
sim, pelo o que deixamos de fazer!
O empregado castigado pelo o patrão escondeu o seu talento no
chão, e muitos de nós, escondemos os nossos talentos dentro de nós mesmos, não
os multiplicando, negando a fazer a nossa parte na construção do Reino de Deus!
A certeza de que um dia, teremos que prestar contas a Deus da
administração dos seus bens aqui na terra, não deve nos intimidar, pelo o
contrário, deve nos motivar a ir em frente, a ousar...
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Vigilância: o jeito sábio de
viver
O tempo é dom de Deus. É a oportunidade que ele nos
oferece para a realização de boas obras. Somos administradores do seu plano.
Para isso, Deus dá a cada pessoa diferentes talentos. Ele pedirá contas do que
fizermos ou deixarmos de fazer (Evangelho). Portanto, é importante saber viver
o tempo presente de modo digno, aguardando a vinda do Senhor. A vigilância é
atitude sábia: permite que estejamos sempre à disposição da graça, prontos para
o encontro definitivo com Deus, não importa quando e como ele venha. Com a
vigilância vem a sobriedade, a maneira simples e transparente de viver, como
fazem os “filhos da luz” (2ª leitura). As necessidades cotidianas, tanto
materiais como afetivas, precisam ser supridas. A dedicação amorosa, retratada
na mulher exemplar (1ª leitura), produz na família e na comunidade um clima de
alegria e de confiança mútua. É preciso discernimento: o ser humano não pode
ser avaliado pelo que produz, mas deve ser acolhido e amado pela sua dignidade.
Todos, no entanto, devem contribuir para a construção do mundo justo e
fraterno, sinal do reino de Deus.
Evangelho (Mt. 25,14-30)
Para que servem os talentos?
O evangelho deste domingo faz parte do quinto e
último discurso de Jesus (Mt. 24-25), conforme o esquema literário de Mateus.
Está voltado para as realidades futuras, apontando a segunda vinda de Jesus
como o evento norteador de todo comportamento no tempo presente.
A parábola apresenta um homem que, ao viajar para o
estrangeiro, chama seus três servos, confiando-lhes os seus bens. A cada um
entrega os talentos conforme a sua capacidade. Mesmo o que recebe um talento
tem em mãos algo de muito valor, considerando que o talento equivalia a
aproximadamente 34 quilos de ouro. O centro da questão está na maneira como
cada um aplica o que recebe do seu senhor. A forte reprimenda dada ao que
enterrou o talento indica a chamada de atenção que os autores desejam fazer aos
interlocutores. O que estaria acontecendo na comunidade cristã de Mateus, ao
redor do ano 85, época da redação do seu evangelho?
Podemos suspeitar que, entre os judeu-cristãos,
havia alguns que se acomodaram numa situação de fechamento e de indiferença
para com o próximo. Considerando o conjunto do livro, percebemos a intenção
fundamental que é a prática da justiça, não conforme a interpretação oficial da
Lei, e sim conforme a vontade divina. Esta se realiza pela vivência do amor aos
pobres e pequeninos. Acontece que alguns judeu-cristãos ainda manifestavam
extrema dificuldade de abrir-se à nova proposta inaugurada por Jesus. Permaneciam
fechados num sistema religioso legalista e excludente. Não conseguiam conceber
que o próximo também são os estrangeiros, os doentes, os marginalizados e todas
as pessoas em situação de necessidade.
Portanto, o personagem que enterrou o talento por
medo do seu senhor representa as pessoas que permanecem na “segurança” do
sistema em que se encontravam antes de sua adesão à fé cristã. Representa todas
as que estão acomodadas em seu “ninho”, preocupadas apenas com o seu bem-estar
e indiferentes ao sofrimento alheio. A comunidade toda é chamada a fazer render
os talentos, isto é, agir de modo criativo, promovendo relações de justiça e
fraternidade. Esse é o jeito certo de se preparar para a volta do Senhor.
Percebemos que a parábola não pode ser interpretada
na ótica capitalista. Ela não foi contada para legitimar a produção econômica
em vista do acúmulo de bens nas mãos dos espertos, e sim para corrigir as
atitudes egoístas e encorajar à prática do amor e da justiça, superando os
sistemas de poder que excluem a maioria da população. A proposta de Jesus é de
inclusão de todos no seu reino, e, para isso, ele conta com o empenho dos seus
seguidores. Temos muitas e diferentes qualidades. Não podemos enterrá-las por
egoísmo, medo ou comodismo.
2ª leitura (1Ts. 5,1-6)
Viver como filhos da luz
Um dos temas centrais da primeira carta aos
Tessalonicenses diz respeito à segunda vinda do Senhor Jesus. Conforme se
constata em vários outros textos do Segundo Testamento, a volta de Jesus ou o
“dia do Senhor” é uma convicção de fé (cf. 1Cor. 1,8; 5,5; Fl. 1,6.10;
2,16...). As dúvidas referiam-se a quando e como se daria esse acontecimento.
Paulo preocupa-se em orientar a comunidade cristã de Tessalônica, pondo ênfase
no verdadeiro modo de se comportar neste tempo de espera. No que se refere à
época da volta de Jesus, ela não deve motivar especulação por parte dos
cristãos. Estes devem apenas ter consciência de que ele virá de surpresa. O
próprio Jesus havia prevenido seus discípulos: “Tende os rins cingidos e as
lâmpadas acesas... Felizes os servos que o Senhor, à sua chegada, encontrar
vigilantes... Vós também estai preparados, porque o Filho do homem virá numa
hora em que não pensais” (Lc. 12,35-40).
A expressão “dia do Senhor” aparece também em
vários textos do Primeiro Testamento. Refere-se à intervenção especial de Deus
na história humana, normalmente com o objetivo de estabelecer um julgamento.
Para Paulo, ter consciência da volta inesperada do Senhor é de extrema
importância, pois determina a maneira correta de viver a fim de, assim, não
temer o julgamento divino. Todo momento é decisivo. Portanto, é necessário agir
como o vigilante que não sabe a hora em que o ladrão vai chegar. Não podemos
dormir!
Tessalônica era uma cidade portuária, capital da
província da Macedônia, com grande fluxo de gente provinda de várias partes do
mundo. O ambiente social favorecia a oferta de variadas propostas prazerosas
que davam a sensação de “paz e segurança”. Viver acordados ou vigilantes
significa ter o cuidado para não “dopar-se” com o modo de ser dos que querem
“aproveitar o tempo” para a satisfação dos seus desejos egoístas; é vencer a
insensibilidade e a indiferença diante das necessidades do próximo; é viver na
sobriedade, na simplicidade e na transparência; enfim, é acolher Jesus Cristo,
Luz que brilha nas trevas e Verdade que nos liberta de todo tipo de
escravidão...
1ª leitura (Pr.
31,10-13.19-20.30-31)
O exemplo da mulher
O texto do qual foram tirados os versículos da
primeira leitura (Pr. 31,10-31) retrata uma visão patriarcalista, descrevendo a
mulher na perspectiva masculina. No entanto, seguindo a indicação de algumas
estudiosas da Bíblia, é preciso atentar para o fato de que esse texto conclui o
livro de Provérbios. A conclusão está ligada ao início do livro, dedicado à
reflexão sobre a sabedoria. Mulher e sabedoria estão relacionadas. Nesse
sentido, os versículos selecionados para a liturgia deste domingo visam
contribuir para a reflexão sobre o bom uso do tempo.
A mulher é apresentada como alguém que tem extrema habilidade
de gerenciar a sua casa; exerce ofícios diversos com destreza; é aplicada e
sabe como adquirir os bens necessários para a família. Além disso, é sensível
às necessidades alheias e sabe partilhar: “Estende a mão ao pobre e ajuda o
indigente”. A conclusão revela a característica de uma pessoa sábia: “Enganosa
é a graça e fugaz é a formosura! A mulher que teme ao Senhor, essa merece o
louvor...”.
O texto exalta, portanto, uma vida pautada no temor
ao Senhor. É um dom do Espírito Santo. É a fonte de onde brota a sabedoria, com
todas as suas boas ações. Quem teme a Deus faz de sua vida um dom que lhe
agrada. Todas as coisas são transitórias, também a graça e a beleza. As obras
da sabedoria, porém, duram para sempre, porque são expressões do amor. Como escreverá
Paulo: “O amor jamais passará” (1Cor. 13,8).
Pistas para reflexão
- O tempo é dom de Deus para boas obras. Deus
concedeu os talentos, de modo original, a cada um de nós. Ninguém está isento
de contribuir para a construção de um mundo de fraternidade e justiça. Cada
pessoa, conforme a sua capacidade, é chamada a fazer parte do grande mutirão a
favor do reino de Deus. O comodismo e a indiferença contradizem a fé cristã. É
bom que cada um de nós se pergunte: que talentos recebi de Deus e de que modo os
desenvolvo e aplico? Conforme a parábola de Mateus, o servo que enterrou seu
talento o fez por medo do seu senhor. O contrário do medo não é a coragem, e
sim a fé. Quais medos, hoje, impedem o testemunho de vida, coerente com a fé e
o seguimento de Jesus Cristo? Em nossa comunidade de fé (e também na
sociedade), que boas ações precisam urgentemente ser feitas?
- Viver como filhos da luz. O tempo é sagrado.
Caminhamos nesta terra ao encontro do Senhor. Não sabemos quando e como será.
São Paulo nos alerta sobre o que é realmente importante: viver cada momento de
modo digno, como filhos da luz. Para isso, é necessária a atitude de
vigilância. Se não estivermos acordados, podemos ser arrastados pela tendência
ao individualismo, à indiferença, à droga, à corrupção, ao hedonismo... Podemos
nos fechar em nosso mundo e nos desinteressar pelo sofrimento alheio, pela
destruição do planeta... Podemos vislumbrar quais são as consequências
provenientes destas duas propostas: viver como filhos da luz e viver como filhos
das trevas?
- Com sabedoria e com amor. Há muita gente que põe
o sentido de sua vida nos bens transitórios. Podem ter tudo e faltar-lhes a
sabedoria. A mulher apresentada na primeira leitura nos indica como viver com
sabedoria: no temor ao Senhor, isto é, na submissão ao seu plano de amor. Tudo
o que fazemos deve ser realizado com especial dedicação, pensando no bem da
família e também das pessoas que passam necessidade. A vida nos foi dada não
para sermos escravos do ativismo, e sim para louvar a Deus em tudo o que
fizermos. Todo momento é propício para amar a Deus e o próximo.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
Os frutos
de nossa vida
Paulo lembra aos tessalonicenses
que o tempo urge. Os que seguem Cristo Jesus são filhos da luz e seres
vigilantes. “Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite
nem das trevas. Portanto, não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes
e sóbrios.” O final do ano litúrgico e a leitura de textos “escatológicos” nos
levam a refletir sobre os frutos de nossa vida ao longo do tempo que passa e
que não volta.
Nada mais triste do que uma vida
sem viço, uma existência centrada nas preocupações pequenas de
nossos universos limitados. Belo quando um ser humano, ao longo do tempo da
vida, coloca suas potencialidades e possibilidades em ação. Nesse lugar
delimitado do espaço que ocupamos está nossa vida e tudo aquilo quem pode ser
desenvolvido. Recebemos dons e talentos. Há qualidades da inteligência,
recursos do coração e força física. Tudo é dado para ser colocado em benefício
de todos que nos cercam. Há uma lei que nos impulsiona para frente: a lei da
generosidade. O que se recebe deverá ser multiplicado, sem medo, com audácia,
com generosidade. Essa a lição da famosa parábola dos talentos. Cada um recebe
dons segundo suas possibilidades. Triste a história daquele que havia recebido
um só talento e o enterrara para entregá-lo intacto ao seu senhor. Ele foi
paralisado pelo medo. Na vida é assim que quem não coopera, perde o pouco que
recebeu.
Insistimos: a lei da vida é a da
generosidade que produz o dobro do que se recebeu. Os que não frutificam
são servos inúteis; o pouco que receberam lhes será tirado.
Fomos e somos cobertos de dons.
Não existíamos e passamos a viver. Olhos, pernas, braços, mente, coração, são
alguns dos dons que recebemos e será fundamental colocá-los em ação e a
serviço. O mundo se torna melhor, mais justo, mais fraterno na medida em que
tais tipos de dons são multiplicados.
Há os dons da fé, os dons
espirituais. O Senhor que nos criou nos cobriu de sua graça, derramou o
Espírito em nossos corações. Ele nos tirou do abismo da morte, nos lavou com o
sangue e água do coração aberto de seu Filho, nos fez sentar à mesa de seu amor
nos convidou para tomarmos o pão e bebermos o vinho Perdoa nossa falta,
sustenta nossa fé, fortifica nossas pernas trêmulas e nossos passos
titubeantes. Tudo é talento, tudo é dom, tudo será multiplicado. Não
existe discípulo inerte nem Igreja que não seja missionária Fazem progressos
inauditos os que não retêm para si tantas graças recebidas. Vivem para os
outros, colocam-se ao serviço da Igreja e assim multiplicam tudo o que
receberam.
O que fazemos com os talentos
recebidos? Em que consiste bem precisamente multiplicar os talentos.
Diligência escatológica
Neste domingo, a liturgia toda converge na
perspectiva escatológica.
A oração do dia fala da felicidade completa (a
“paz” do canto da entrada), que é o fruto do serviço dedicado ao Senhor (cf.
oração sobre as oferendas).
Disso fala a parábola dos talentos (evangelho),
mais conhecida que compreendida. Convém interpretá-la bem. Seu lugar, no fim do
evangelho de Mt e do ano litúrgico, orienta a interpretação: exprime o critério
final de nossa vida.
Portanto, o acento principal não está na
diversidade dos talentos, dos dons, mas no valor decisivo do serviço empenhado
(*). A 1ª leitura cita o “talento feminino” como exemplo, mas deve ser situada
na intenção escatológica do conjunto da liturgia.
O assunto não é a diversidade dos carismas (em Lc.
19,12-17, os servos recebem todos a mesma soma), e sim, o investimento
diligente em vista do fim. Para a volta do Senhor (a Parusia), para a
participação definitiva no seu senhorio, deveremos prestar contas daquilo que
tivermos recebido, no sentido de tê-lo utilizado e não escondido. É como a luz
que não deve ser colocada debaixo do alqueire (Mi. 5,1-4s); e a advertência
concomitante: com a medida com que medirdes, sereis servidos. Em outros termos:
o que recebemos deve frutificar em nós. O mesmo significado tem a parábola dos
talentos, que usa como imagem a prática administrativa e comercial: quando se
confia dinheiro a alguém, se ele for um homem diligente, ele o fará render. Tal
diligência cabe no Reino de Deus (cf. a diligência como tema central da
parábola das dez virgens, imediatamente anterior).
A mensagem central é, portanto, a diligência. Deus
nos confiou um tesouro, e devemos diligentemente aplicá-lo na perspectiva do
sentido último e final de nossa existência, que é: Deus mesmo (a participação
no senhorio de Cristo, quando da Parusia, significa a nossa exaltação,
integração na existência divina). Aplicando com diligência e conforme a vontade
de Deus o que recebemos, realizamos desde já uma existência escatológica,
divina. Tomar nossa a causa (o “interesse”) de Deus, eis a mensagem de hoje. A
diligência da “mulher virtuosa”, na 1ª leitura, ilustra essa mensagem. Ser
mulher cem por cento, explorando as ricas possibilidades da feminilidade, é
viver a presença decisiva de Deus.
A 2ª leitura aponta na mesma direção. É um dos
raros textos em que Paulo cita palavras da tradição evangélica (“O Dia do
Senhor vem como um ladrão de noite”, cf. Mt. 24,35.43 e par.; a repentina
destruição, cf. Lc. 21,34s; a comparação com as dores do parto, cf. Mt. 24,8 e
par.). Paulo descreve aqui a existência completamente iluminada pela
proximidade do Senhor. Novamente observamos que a iminência do último dia é descrita
muito mais em termos de luz do que de ameaça (embora estes também ocorram).
Existência escatológica (viver hoje o “Dia do Senhor”) é deixar-se iluminar
pelo Cristo que vem. Esta era também a mensagem dos primeiros domingos do ano
litúrgico, que antecipavam a perspectiva final. Por isso, lembramo-nos de que
Deus, em última análise, pensa em paz para nós (canto da entrada).
Johan Konings "Liturgia
dominical"
(*) Um talento é 30 kg de ouro. Mateus gosta de
números exagerados, cf. 24º domingo T.C.
Jesus continua falando em forma de parábolas para
facilitar a compreensão de seus ensinamentos. Ele quer mostrar aqui, como devem
agir os que se sentem responsáveis pelo reino de justiça que Ele ensina, e o
que vai acontecer com eles na hora do acerto de contas. Na parábola, o patrão
que sai de viagem é Deus, os empregados são todos os Seus filhos e as moedas de
prata representam os dons dados por Ele a cada um, juntamente com o maior deles
“o dom da vida” (a inteligência, a capacidade de amar, de fazer feliz o outro,
até mesmo a posse de bens materiais).
Mas, o que fazer enquanto o patrão não chegar? Os
dias são tempo de espera, que provoca a vinda do Senhor. E, o tempo de ausência
do patrão é o tempo de vida que Deus concede a cada um. Após terminado esse tempo,
todos terão que prestar contas de como administrou os dons por Ele confiado.
O patrão ao designar a administração de seus bens
aos empregados parece conhecer a capacidade de cada um, pois confia a eles
quantias variadas, porém, até mesmo a menor quantia de “mil moedas de prata”
não é pouca.
A parábola dos talentos remete, pois, a uma
questão: o que fazer com as capacidades e valores dados por Deus? É preciso
arriscar e agir para que os dons recebidos frutifiquem e cresçam. Não importa
se são muitos ou poucos, o importante é colocá-los a serviço do Amor e da
justiça, a serviço de Deus e dos irmãos. Cada um é valorizado não pela posição
que ocupa na sociedade e na igreja, ou pelo título que tem. Deus chama de
“empregado bom e fiel” a todos os que lutam pela justiça, e a recompensa não é
dada, com base nos talentos e sim pelo esforço empregado para desenvolvê-los e
usá-los para o bem do próximo.
Pequeninos do Senhor
Esta parábola, tendo provavelmente em sua origem
algum dito de Jesus, parece ter sofrido acréscimos e adaptações quando
veiculada entre as primeiras comunidades. As imagens da parábola são extraídas
de uma sociedade oportunista consagrada ao mercado em busca do lucro. Na
parábola, o senhor ambicioso, ao viajar, determina a seus três servos que façam
render seu dinheiro. Os dois servos mais "fieis" fizeram o dinheiro
render cem por cento. Contudo um servo mais tímido, temeroso da severidade do
patrão, não querendo correr risco, escondeu o dinheiro que recebeu e devolveu-o
tal qual. O senhor , afirmando-se como sendo aquele que "colhe onde não
plantou e ajunta onde não semeou", qualifica o servo tímido de mau e
preguiçoso. Os dois servos fieis e eficientes foram exaltados e o servo tímido
foi lançado fora. A sentença final, "a quem tem será dado mais... daquele
que não tem será tirado", é típica da sociedade excludente e concentradora
de riquezas. A parábola tem um certo aspecto de caricatura irônica da
sociedade. Suas imagens são pouco condizentes com a revelação de Jesus de
Nazaré, manso e humilde de coração, que vem trazer vida para todos, sem
exclusões. O Reino de Deus é o reino dos pobres, mansos, pacíficos e
misericordiosos, com fome e sede de justiça e partilha. Com certo
constrangimento, a parábola tem sido entendida como uma advertência aos
discípulos afim de que façam frutificar seus dons pessoais, a serviço da
comunidade e da sociedade. Na primeira leitura, a mulher que, com seus dons,
trabalha tanto no serviço doméstico como na produção para o sustento da
família, é louvada. Na segunda leitura Paulo estimula as comunidades à
vigilância, a qual significa o serviço e o amor mútuo.
padre Jaldemir Vitório
1ª leitura (Pr 31,10-13.19-20.30-31) - A mulher
virtuosa
Provérbios apresenta, em vários capítulos, a
senhora Sabedoria, uma mulher alegórica. No último capítulo, apresenta o louvor
da mulher real, temente a Deus, que encarna na sua vida justa e dedicada as
qualidades da sabedoria. Ela encarna a generosidade e providência de Deus. *
Cf. Pr 9,1-6; Eclo 26,1- 23[18].
2ª leitura (1Ts. 5,1-6) - O Dia do Senhor vem como
um ladrão de noite
Os primeiros cristãos se questionavam muito a
respeito da Parusia, esperando-a para breve. Paulo diz: não a hora, mas o fato
é que importa; ou seja, a realidade da Parusia, da presença de Cristo, deve
marcar a nossa vida toda, desde já. Vivamos na sua presença, à sua luz. Então,
o “Dia” não virá sobre nós como um ladrão de noite; a hora já não tem
importância.
* 5,1-3 cf. Lc 12,39-40; Mt 24,36.42-44; 2Pd 3,10;
Ap 3,3; Jr 6,14; Lc 21,34-36; Jr 4,31 * 5,4-6 cf. Ef 5,8-9; Rm 13,12-13; 1Pd
1,13; 4,7; 5,8.
Evangelho (Mt 25,14-30 ou 25,14-15.19-21) -
Parábola dos talentos
Assim como na parábola das virgens o noivo demorava
para chegar, também na parábola dos talentos o proprietário fica muito tempo
fora e volta de surpresa. Para os primeiros cristãos, que fazem a experiência
da “demora da Parusia”, isso significa que devem trabalhar com os talentos que
receberam e não enterrá-los. Não para “merecer o céu” (Mt não gosta dessa ideia
farisaica), mas para assumir a causa do Senhor (com seu Reino), por amor a Ele.
A recompensa deste serviço fiel é Deus mesmo, a alegria de sua presença. * Cf.
Lc 19,11-27; Mc 13,34; Mt 24,45-51; 18,23; 2Cor 5,10; Lc 16,10; Jo 15,11;
17,24; Mt 13,12; Lc 8,18.
Ter o fim diante dos olhos
Os últimos domingos do ano litúrgico nos convidam a
viver com o Fim diante dos olhos. Mas, quem vive pensando no céu não arrisca
esquecer a terra?
Na 2ª leitura, Paulo nos lembra o ensinamento de
Cristo, dizendo que a Parusia (a segunda vinda de Cristo) vem de improviso,
como um ladrão de noite. Por isso, devemos viver vigiando. O que esse vigiar
implica aparece no evangelho, a parábola dos talentos: não enterrar nosso
talento, mas fazer frutificar aquilo que Cristo nos confiou para o tempo de sua
ausência física. Assim seremos semelhantes à boa dona-de-casa que cuida
incansavelmente de sua família (1ª leitura).
Cristo não tem hora marcada para nos visitar; o que
importa é que ele nos encontre empenhados naquilo que ele nos confiou, e
consagrou com o dom da própria vida: o amor fraterno a reinar entre nós. Pois
essa é a “causa” pela qual Jesus deu sua vida. Os “talentos” de que fala o
evangelho – as quantias de ouro confiadas a cada um – são uma imagem da “causa”
do Cristo e do Reino. Devemos fazer render, e não enterrar, a porção da obra da
salvação que Cristo nos confia. Essa porção é diferente para cada um, mas
sempre exige de nós uma participação ativa na obra do amor de Deus, que Jesus
nos confiou. A participação permanente na obra do amor que Cristo implantou é a
única preparação válida para a sua nova vinda.
Entendendo-se assim, “pensar no céu”, pensar no
Cristo que vem, não vai ser causa de alienação e de desinteresse pela terra, nem
fuga de responsabilidade. Pelo contrário, vai produzir uma atenção constante –
o contrário daquela mentalidade de loteria dos que passam vida a sem se
empenhar por nada, pretendendo “jogar na hora certa”. (Será por isso que muitos
querem saber a data?)
Pensar no céu com realismo é viver cada dia como se
fosse o último. Cristo deve nos encontrar empenhados em sua causa, que é o amor
eficaz para com os irmãos seus e nossos, filhos do mesmo Pai. Então, cada
momento recebe um valor de eternidade. Quem sabe, haverá por aí uma saída para
um problema que ataca a muitos em nosso tempo: o sem-sentido da vida?
Johan Konings
Que tipo
de servo Deus deseja.
A leitura de Provérbios trata da
característica da mulher, entenda-se, esposa ideal. A mulher ideal é aquela que
vive no temor a Deus ou, o que é o mesmo, no reconhecimento reverencial de que
todo bem procede de Deus. A palavra temor pode, legitimamente, ser compreendida
como amor. A mulher ideal, então, é aquela que, em primeiro lugar, ama a Deus.
É em razão desse amor que ela, na sua casa, dá segurança ao marido e faz sua
família viver das obras da sua mão. Não é a beleza nem a formosura que
caracteriza a mulher ideal, mas o temor de Deus. A beleza e a formosura
desaparecem com o tempo. O amor, no entanto, não passa (cf. 1Cor. 13,13). O
amor faz viver para o outro, dá sentido e gosto a tudo. A mulher é para o nosso
texto símbolo do povo de Deus. Daí que a característica fundamental do povo de
Deus é o temor do Senhor, no sentido que acima expusemos.
O evangelho deste domingo, a
parábola mais extensa do Novo Testamento, apresenta o colaborador que Deus
deseja, o discípulo que o Senhor deseja. A parábola é parte do discurso
escatológico (24–25). Ela insiste no juízo do terceiro servo que enterrou o
talento recebido. Se observarmos bem, dos dezessete versículos que integram o
nosso texto, sete são dedicados a ele. Essa insistência é para alertar os
discípulos, destinatários da parábola, contra a atitude representada pelo
terceiro servo. Na antiguidade, uma moeda valia por seu peso. Um talento
equivale a 34 quilos. Os dois primeiros servos não se limitaram a executar
ordens, nem a se proteger, enterrando o bem do seu patrão. Eles tomaram a
iniciativa de fazer render os bens e os multiplicaram. O terceiro servo, ao
contrário, enterrou o talento que havia recebido. Para a mentalidade rabínica,
o terceiro servo agiu em conformidade com a lei (Ex. 22,6-7; Lv. 5,21-26),
donde se conclui que não há o que reprová-lo em sua atitude. Mas essa não é a
posição de Jesus. O comportamento do terceiro servo é motivado pelo medo (cf.
Rm 8,15). O que o “patrão” reprova é a mentalidade de escravo que impede de
agir livremente e acomoda a pessoa nas suas próprias seguranças. Não se pode
viver e servir a Deus sem arriscar. O espírito servil faz com que a pessoa não
faça nada além do estritamente necessário e do que ela julga ser o seu dever.
Elogiando os dois primeiros servos e repreendendo o terceiro, o evangelho
indica que tipo de servo Deus deseja: aquele que faz valer o dom de Deus e não
mede esforços para tal.
Carlos
Alberto Contieri,sj
De um modo ou de outro, a Palavra do Senhor sempre
nos fala da vida, nos revela o sentido, nos mostra o caminho. Hoje, o Senhor
nos apresenta a existência como um punhado de talentos, de dons, de
oportunidades que a providência gratuita e misteriosa de Deus colocou em nossas
mãos para que façamos frutificar. Certamente, jamais compreenderemos porque
nascemos desse modo ou somos daquele outro. Podemos, no entanto, ter a certeza
que o Senhor nos deu uma vida, "a cada um de acordo com a sua
capacidade". Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor
sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar
em benefício nosso de dos irmãos. Na mulher forte e industriosa da primeira
leitura, aparece um exemplo de alguém que não se contenta em passar pela vida,
mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia. Do
mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão
pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: "Não
durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios".
Uma das grandes tentações do mundo atual é pensar
que a existência é nossa de modo absoluto, como se cada um de nós se tivesse
criado a si próprio, dado a si próprio a existência. Fechados em si próprios,
os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo,
à medida de suas próprias idéias e objetivos. Ilusão! A vida é dom de Deus e
somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, autor
e doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a
própria vida como um precioso talento. Desenvolvê-lo e ser feliz e buscar não a
nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho,
mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de
Deus. Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de
arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor,
alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!
Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e
ateu, não no ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto
demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida
como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de
menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o infinito; há
percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao
Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres
da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas
vontades, na busca de nossa auto-afirmação, que perdemos a capacidade de
compreender realmente que somos passageiros e viandantes numa existência breve
e fugaz que somente valerá a pena será vivida na verdade se for compreendida
como abertura para o Senhor e, por amor a ele, abertura generosa e servidora
para os outros.
Estejamos atentos à advertência do Apóstolo:
"Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos
surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia" O
Dia é Cristo, a Luz é Cristo. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva
de Cristo Jesus, é valorizar o que ele valoriza e desprezar o que ele despreza.
Filhos da luz, filhos do dia – eis o que deveríamos ser! Mas, com tanta
freqüência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos
encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos... Quão grave para nós, porque
conhecemos a Luz, cremos no Dia que é o Cristo-Deus!
Não nos iludamos, não façamos de conta que não
sabemos: todos haveremos de dar contas a Deus de nossa existência, do sentido
que lhe demos, daquilo que nela construímos. Queira Deus que nossa vida seja
como a do Cristo Jesus: uma verdadeira e amorosa abertura para Deus e uma
abertura para os outros! Queira Deus que consigamos, iluminados pela sua
Palavra, nutridos pela sua eucaristia e animados pela oração diária, viver
nossa existência na perspectiva de Deus, de tal modo que vivamos, vivamos de
verdade, vivamos em abundância, vivamos uma vida que valha a pena!
dom Henrique Soares da Costa
A liturgia do 33º domingo do tempo comum recorda a
cada cristão a grave responsabilidade de ser, no tempo histórico em que
vivemos, testemunha consciente, ativa e comprometida desse projeto de
salvação/libertação que Deus Pai tem para os homens.
O Evangelho apresenta-nos dois exemplos opostos de
como esperar e preparar a última vinda de Jesus. Louva o discípulo que se
empenha em fazer frutificar os “bens” que Deus lhe confia; e condena o
discípulo que se instala no medo e na apatia e não põe a render os “bens” que
Deus lhe entrega (dessa forma, ele está a desperdiçar os dons de Deus e a
privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito).
Na segunda leitura, Paulo deixa claro que o
importante não é saber quando virá o Senhor pela segunda vez; mas é estar
atento e vigilante, vivendo de acordo com os ensinamentos de Jesus,
testemunhando os seus projetos, empenhando-se ativamente na construção do
Reino.
A primeira leitura apresenta, na figura da mulher
virtuosa, alguns dos valores que asseguram a felicidade, o êxito, a realização.
O “sábio” autor do texto propõe, sobretudo, os valores do trabalho, do
compromisso, da generosidade, do “temor de Deus”. Não são só valores da mulher
virtuosa: são valores de que deve revestir-se o discípulo que quer viver na
fidelidade aos projetos de Deus e corresponder à missão que Deus lhe confiou.
1ª leitura: Prov.
31,10-13.19-20.30-31 - AMBIENTE
O “Livro dos Provérbios” apresenta várias coleções
de ditos, de sentenças, de máximas, de provérbios (“mashal”) onde se cristaliza
o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) de várias gerações de
“sábios” antigos (israelitas e alguns não israelitas). O objetivo desses
provérbios é definir uma espécie de “ordem” do mundo e da sociedade que, uma
vez apreendida e aceite pelo indivíduo, o levará a uma integração plena no meio
em que está inserido. Dessa forma, o indivíduo poderá viver sem traumas nem
sobressaltos que destruam a sua harmonia interior e o incapacitem para dar o
seu contributo à comunidade. Ficará, assim, de posse da chave para viver em
harmonia consigo mesmo e com os outros, e assegurará uma vida feliz, tranqüila
e próspera.
O livro apresenta-se como tendo sido composto por
Salomão (cf. Pr. 1,1), o rei “sábio”, conhecido pelos seus dotes de governação,
pelos seus dons literários, por numerosas sentenças sábias (cf. 1Re. 3,16-28;
5,7; 10,1-9.23) e que se tornou uma espécie de “padrão” da tradição sapiencial…
Na realidade, não podemos aceitar, de forma acrítica, essa indicação: a leitura
atenta do livro revela que estamos diante de coleções de proveniência diversa,
compostas em épocas diversas. Alguns dos materiais apresentados no livro podem
ser do séc. X a.C. (época de Salomão; no entanto, isso não implica que venham
do próprio Salomão); outros, no entanto, são bem mais recentes.
O texto que nos é hoje proposto aparece no final do
Livro dos Provérbios. Apresenta-se literariamente como um “poema alfabético”
(poema em que a primeira letra de cada verso segue a ordem das letras do
alfabeto: a primeira palavra do primeiro verso começa com a letra “alef”, a
primeira palavra do segundo verso começa com a letra “bet” e assim
sucessivamente). Tema do poema: a mulher virtuosa.
Provavelmente, o Livro dos Provérbios foi usado
como manual para a formação de jovens que freqüentavam as escolas de
“sabedoria”. Este poema, situado no final do livro, poderia ser a “instrução
final”: antes de abandonar a escola e depois de haver assimilado os
ensinamentos dos “sábios”, o aluno era instruído acerca da eleição da esposa.
MENSAGEM
Quais são então, na perspectiva dos “sábios” de
Israel, as características da mulher virtuosa?
Antes de mais, é a mulher que gere bem a casa e não
deixa que nada falte. Ao constatar a boa ordem em que tudo caminha, por ação da
esposa, o coração do marido descansa e confia (vs. 11-12).
Depois, é a mulher diligente, que trabalha a lã e o
linho para que os seus familiares tenham agasalhos suficientes e que se
encarrega de todos os trabalhos domésticos (vs. 13 e 19).
É, ainda, a mulher de coração generoso, que tem
piedade do infeliz e que partilha generosamente o fruto do seu trabalho com o
pobre que pede auxílio (vers. 20).
É, finalmente, a mulher que não se preocupa com a
sua aparência, mas se preocupa em viver no temor do Senhor. Viver no “temor do
Senhor” significa respeitar os mandamentos, obedecer a Jahwéh, aceitar com
humildade e confiança a sua vontade, os seus planos e os seus projetos (vs.
30-31).
O retrato da mulher aqui esboçado está muito longe
da noiva/esposa do Cântico dos Cânticos, que oferece ao amado a sua presença, o
seu corpo e o seu amor. O ideal de mulher aqui apresentado é o da mãe de
família que dirige com eficiência, com dedicação e com empenho a sua casa rural
e que é co-responsável com o marido na administração da casa, dos bens e da
propriedade.
ATUALIZAÇÃO
• Mais do que uma mulher virtuosa ideal, o “sábio”
autor do texto que nos é proposto exalta todos aqueles – mulheres e homens –
que conduzem a sua vida de acordo com os valores do trabalho, do empenho, do
compromisso, da generosidade, do “temor de Deus”. São estes valores, na opinião
do autor, que nos asseguram uma vida feliz, tranquila e próspera. Numa época em
que a cultura do “deixa andar”, da desresponsabilização, do egoísmo se afirma
cada vez mais, este texto constitui uma poderosa interpelação… Na verdade, por
que caminhos é que chegamos à vida e à felicidade?
• O nosso texto sugere também uma reflexão sobre as
nossas prioridades… Da mulher virtuosa diz-se que não se preocupa com os
valores efémeros (a aparência), mas que se preocupa com os valores eternos (o
“temor de Deus”). Quais são as prioridades da nossa vida? Quais são os valores
em que apostamos a nossa existência? Os nossos valores fundamentais são valores
que nos trazem felicidade duradoura?
• A referência à generosidade para com o pobre e o
necessitado é questionante… Como é que consideramos e tratamos aqueles irmãos
que nos batem à porta, a pedir um pedaço de pão, um pouco de atenção, ou ajuda
para deslindar um qualquer problema burocrático? Temos o coração aberto aos
irmãos e pronto para ajudar, ou fechamo-nos à caridade, à partilha, ao dom?
• A referência ao “temor de Deus” como valor
primordial na vida da mulher ou do homem “sábio” e virtuoso também merece a
nossa consideração. No Antigo Testamento, o “temor de Deus” é a qualidade do
homem ou da mulher que ama Deus, que procura conhecer os seus planos e projetos
e que cumpre – com obediência radical e com total confiança – a vontade de
Deus. Esta dependência de Deus – diz-nos um “sábio” de Israel – não diminui a nossa
liberdade, nem atenta contra a nossa realização; pelo contrário, é condição
essencial para a realização plena do homem.
2ª leitura: 1Ts. 5,1-6 - AMBIENTE
Já vimos, no passado domingo, que um dos problemas
fundamentais para os tessalonicenses residia na compreensão dos acontecimentos
ligados à parusia (regresso de Jesus, no final dos tempos).
Paulo e as primeiras gerações cristãs acreditavam
que o “dia do Senhor” (o dia da intervenção definitiva de Deus na história,
para derrotar os maus e para conduzir os bons à vida plena e definitiva)
surgiria num espaço de tempo muito curto e que os membros da comunidade ainda
assistiriam ao triunfo final de Jesus. No entanto, os dias foram passando e,
provavelmente, faleceu algum membro da comunidade. Por isso, os tessalonicenses
perguntavam: qual será a sorte dos cristãos que morreram antes da segunda vinda
de Cristo? Como poderão eles sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com
Ele no Reino de Deus se já estão mortos?
A estas questões Paulo respondeu já no texto que
nos foi proposto no passado domingo… Mas, no texto de hoje, Paulo continua a
sua reflexão sobre o “dia em que o Senhor virá” e sobre a forma como os
cristãos o devem preparar.
MENSAGEM
A primeira questão que o nosso texto põe é a da
eventual data do “dia do Senhor”. Paulo tem alguma indicação concreta acerca
disso? É possível prever uma data?
Não. Paulo está convicto de que esse acontecimento
se dará proximamente; no entanto, a data exata continua desconhecida e
imprevista.
Por isso, os crentes devem estar atentos para não
serem surpreendidos. Para descrever a “surpresa de Deus”, Paulo utiliza duas
imagens bem significativas: Deus surpreende-nos como um ladrão que chega de
noite, quando ninguém está à espera (v. 2); e Deus é como as dores de parto que
surgem de repente (v. 3). Em consequência, a vida cristã deve estar marcada por
uma atitude de preparação e de vigilância.
Para além da questão da data, o que é importante é
que os cristãos vivam de forma coerente com a opção que fizeram no dia do seu
Batismo. Os crentes têm de viver de maneira diferente dos não crentes, pois os
horizontes de uns e de outros são diferentes… Os não crentes vivem mergulhados
na noite e nas trevas, estão adormecidos, atordoam-se com a bebida; vivem no
presente, absolutamente despreocupados em relação ao futuro, de olhos postos no
horizonte terreno. Os crentes são filhos da luz e do dia, estão vigilantes,
mantêm-se sóbrios; vivem de olhos postos no futuro, à espera que chegue a vida
verdadeira, plena, definitiva que Deus lhes vai oferecer.
Na verdade, a vida dos crentes é mais bela e
significativa, porque está cheia de esperança. No entanto, é preciso dar corpo
à esperança esperando, fiéis e vigilantes a chegada do Senhor.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental que os cristãos devem pôr,
a propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas é a
questão de como esperar e preparar esse momento. Paulo deixa claro que o que é
preciso é estar vigilante. “Estar vigilante” não significa ficar a olhar para o
céu à espera do Senhor, esquecendo e negligenciando as questões do mundo e os
problemas dos homens; mas significa viver, no dia a dia, de acordo com os
ensinamentos de Jesus, empenhando-se na transformação do mundo e na construção
do Reino.
• A certeza da segunda vinda do Senhor dá aos
crentes uma perspectiva diferente da vida, do seu sentido e da sua finalidade…
Para os não crentes, a vida encerra-se dentro dos limites estreitos deste mundo
e, por isso, só interessam os valores deste mundo; para os crentes, a
verdadeira vida, a vida em plenitude, está para além dos horizontes da história
e, por isso, é preciso viver de acordo com os valores eternos, os valores de
Deus. Assim, na perspectiva dos crentes, não são os valores efêmeros, os
valores deste mundo (o dinheiro, o poder, os êxitos humanos) que devem
constituir a prioridade e que devem dominar a existência, mas sim os valores de
Deus. Quais são os valores que eu considero prioritários e que condicionam as
minhas opções?
• A certeza da segunda vinda do Senhor aponta também
no sentido da esperança. Os cristãos esperam, em serena expectativa, a salvação
que já receberam antecipadamente com a morte de Cristo, mas que irá consumar-se
no “dia do Senhor”. Os crentes são, pois, homens e mulheres de esperança,
abertos ao futuro – um futuro a conquistar, já nesta terra, com fé e com amor,
mas sobretudo um futuro a esperar, como dom de Deus.
Evangelho – Mt. 25,14-30 -
AMBIENTE
Mais uma vez, o Evangelho apresenta-nos um extrato
do “discurso escatológico” (cf. Mt. 24-25), onde Mateus aborda o tema da
segunda vinda de Jesus e define a atitude com que os discípulos devem esperar e
preparar essa vinda.
A catequese que Mateus apresenta neste discurso tem
em conta as necessidades da sua comunidade cristã. Estamos no final do séc. I
(década de 80). Os cristãos, fartos de esperar a segunda vinda de Jesus,
esqueceram o seu entusiasmo inicial… Instalaram-se na mediocridade, na rotina,
no comodismo, na facilidade. As perseguições que se adivinham provocam o
desânimo e a deserção… Era preciso reaquecer o entusiasmo dos crentes,
redespertar a fé, renovar o compromisso cristão com Jesus e com a construção do
Reino.
É para responder a este contexto que Mateus
reelabora o “discurso escatológico” de Marcos (cf. Mc. 13) e compõe, com ele,
uma exortação dirigida aos cristãos. Lembra-lhes que a segunda vinda do Senhor
está no horizonte final da história humana; e que, até lá, os crentes devem
“pôr a render os seus talentos”, vivendo na fidelidade aos ensinamentos de
Jesus e comprometidos com a construção do Reino.
A parábola que hoje nos é proposta fala de
“talentos” que um senhor distribuiu pelos servos. Um “talento” significa uma
quantia muito considerável… Corresponde a cerca de 36 quilos de prata e ao
salário de aproximadamente 3.000 dias de trabalho de um operário não
qualificado.
MENSAGEM
A “parábola dos talentos” conta que um “senhor”
partiu em viagem e deixou a sua fortuna nas mãos dos seus servos. A um, deixou
cinco talentos, a outro dois e a outro um. Quando voltou, chamou os servos e
pediu-lhes contas da sua gestão. Os dois primeiros tinham duplicado a soma
recebida; mas o terceiro tinha escondido cuidadosamente o talento que lhe fora
confiado, pois conhecia a exigência do “senhor” e tinha medo. Os dois primeiros
servos foram louvados pelo “senhor”, ao passo que o terceiro foi severamente
criticado e condenado.
Provavelmente a parábola, tal como saiu da boca de
Jesus, era uma “parábola do Reino”. O amo exigente seria Deus, que reclama para
Si uma lealdade a toda a prova e que não aceita meias tintas e situações de
acomodação e de preguiça. Os servos a quem Ele confia os valores do Reino devem
acolher os seus dons e pô-los a render, a fim de que o Reino seja uma
realidade. No Reino, ou se está completamente comprometido, ou não se está.
Depois, Mateus pegou na mesma parábola e situou-a
num outro contexto: o da vinda do Senhor Jesus, no final dos tempos… A vinda do
Senhor é uma certeza; e, quando Ele voltar, julgará os homens conforme o
comportamento que tiverem assumido na sua ausência.
Nesta versão da parábola, o “senhor” é Jesus que,
antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus “servos” (os
discípulos). Os “bens” são os dons que Deus, através de Jesus, ofereceu aos
homens – a Palavra de Deus, os valores do Evangelho, o amor que se faz serviço
aos irmãos e que se dá até à morte, a partilha e o serviço, a misericórdia e a
fraternidade, os carismas e ministérios que ajudam a construir a comunidade do
Reino… Os discípulos de Jesus são os depositários desses “bens”. A questão é,
portanto, esta: como devem ser utilizados estes “bens”? Eles devem dar frutos,
ou devem ser conservados cuidadosamente enterrados? Os discípulos de Jesus
podem – por medo, por comodismo, por desinteresse – deixar que esses “bens”
fiquem infrutíferos?
Na perspectiva da nossa parábola, os “bens” que
Jesus deixou aos seus discípulos têm de dar frutos. A parábola apresenta como
modelos os dois servos que mexeram com os “bens”, que demonstraram interesse,
que se preocuparam em não deixar parados os dons do “senhor”, que fizeram
investimentos, que não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça,
pela rotina, ou pelo medo.
Por outro lado, a parábola condena veementemente o
servo que entregou intactos os bens que recebeu. Ele teve medo e, por isso, não
correu riscos; mas não só não tirou desses bens qualquer fruto, como também
impediu que os bens do “senhor” fossem criadores de vida nova.
Através desta parábola, Mateus exorta a sua
comunidade no sentido de estar alerta e vigilante, sem se deixar vencer pelo
comodismo e pela rotina. Esquecer os compromissos assumidos com Jesus e com o
Reino, demitir-se das suas responsabilidades, deixar na gaveta os dons de Deus,
aceitar passivamente que o mundo se construa de acordo com valores que não são
os de Jesus, instalar-se na passividade e no comodismo, é privar os irmãos, a
Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito.
O discípulo de Jesus não pode esperar o Senhor de
mãos erguidas e de olhos postos no céu, alheado dos problemas do mundo e
preocupado em não se contaminar com as questões do mundo… O discípulo de Jesus
espera o Senhor profundamente envolvido e empenhado no mundo, ocupado em
distribuir a todos os homens seus irmãos os “bens” de Deus e em construir o
Reino.
ATUALIZAÇÃO
Antes de mais, é preciso ter presente que nós, os
cristãos, somos agora no mundo as testemunhas de Cristo e do projeto de
salvação/libertação que o Pai tem para os homens. É com o nosso coração que
Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo; é com as
nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e
desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os
imigrantes que fogem da miséria e da degradação; é com as nossas mãos que Jesus
continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos; é com os
nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e
abandonado; é com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as
multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada têm…
Nós, cristãos, membros do “corpo de Cristo”, que nos identificamos com Cristo,
temos a grave responsabilidade de O testemunhar e de deixar que, através de
nós, Ele continue a amar os homens e as mulheres que caminham ao nosso lado
pelos caminhos do mundo.
Os dois “servos” da parábola que, talvez correndo
riscos, fizeram frutificar os “bens” que o “senhor” lhes deixou, mostram como
devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de
Jesus. Eles tiveram a ousadia de não se contentar com o que já tinham; não se
deixaram dominar pelo comodismo e pela apatia… Lutaram, esforçaram-se,
arriscaram, ganharam. Todos os dias, há cristãos que têm a coragem de arriscar.
Não aceitam a injustiça e lutam contra ela; não pactuam com o egoísmo, o orgulho,
a prepotência e propõem, em troca, os valores do Evangelho; não aceitam que os
grandes e poderosos decidam os destinos do mundo e têm a coragem de lutar
objetivamente contra os projetos desumanos que desfeiam esta terra; não aceitam
que a Igreja se identifique com a riqueza, com o poder, com os grandes e
esforçam-se por torná-la mais pobre, mais simples, mais humana, mais
evangélica; não aceitam que a liturgia tenha de ser sempre tão solene que
assuste os mais simples, nem tão etérea que não tenha nada a ver com a vida do
dia a dia… Muitas vezes, são perseguidos, condenados, desautorizados, reduzidos
ao silêncio, incompreendidos; muitas vezes, no seu excesso de zelo, cometem
erros de avaliação, fazem opções erradas… Apesar de tudo, Jesus diz-lhes: “muito
bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as
grandes. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor”.
O servo que escondeu os “bens” que o Senhor lhe
confiou mostra como não devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à
espera da segunda vinda de Jesus. Esse servo contentou-se com o que já tinha e
não teve a ousadia de querer mais; entregou-se sem luta, deixou-se dominar pelo
comodismo e pela apatia… Não lutou, não se esforçou, não arriscou, não ganhou.
Todos os dias há cristãos que desistem por medo e cobardia e se demitem do seu
papel na construção de um mundo melhor. Limitam-se a cumprir as regras, ou a
refugiar-se no seu cantinho cômodo, sem força, sem vontade, sem coragem de ir
mais além. Não falham, não cometem “pecados graves”, não fazem mal a ninguém,
não correm riscos; limitam-se a repetir sempre os mesmos gestos, sem inovar,
sem purificar, sem nada transformar; não fazem, nem deixam fazer e limitam-se a
criticar asperamente aqueles que se esforçam por mudar as coisas… Não põem a
render os “bens” que Deus lhes confiou e deixam-nos secar sem dar frutos. Jesus
diz-lhes: “servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho
onde não lancei; devias, portanto, depositar o meu dinheiro no banco e eu teria,
ao voltar, recebido com juro o que era meu”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel
Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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