3º DOMINGO ADVENTO-B
17 de Dezembro de 2017
Cor: Roxo
Evangelho - Jo 1,6-8.19-28
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João Batista dava testemunho da Luz que é Jesus, anunciava e denunciava. Ele anunciava a vinda do Filho de Deus. Ao mesmo tempo que denunciava o abuso de poder, a arrogância e o egoísmo da elite judaica. Continuar lendo
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“EU NÃO MEREÇO DESAMARRAR
A CORREIA DE SUAS SANDÁLIAS” – Olivia Coutinho
III DOMINGO
DO ADVENTO.
Dia 17 de
Dezembro de 2017
Evangelho de
Jo1,6-8.19-28
Estamos no
terceiro Domingo do advento, um tempo de
gratidão, de reafirmarmos o nosso desejo de estarmos sempre com Jesus!
Na
expectativa de celebrarmos mais uma vez, as alegrias do Santo Natal, o
nosso coração se abre para acolher Jesus que já está no meio de nós, mas que
às vezes, nos distanciamos Dele, ao nos distanciar do nosso irmão,
daquele que busca em nós, a sua presença!
Neste tempo
de graça, em que sentimos o céu mais próximo da terra, tudo vem nos
falar de amor, de um amor que nos remete ao coração do Pai, que através do
Filho, nos concede a graça de redescobrirmos o caminho da vida!
Em meio a
este mundo tão conturbado, onde impera o egoísmo, a ganância, Deus vem
reacender em nossos corações, a chama da esperança, lembrando-nos
através da celebração do nascimento do seu Filho, o quanto somos amados
por Ele! Deus não desiste do humano, Ele se fez humano, para nos
resgatar, para nos devolver a vida!
O evangelho
que a liturgia de hoje nos apresenta, vem nos falar da figura de João
Batista, o grande profeta que continua falando ao nosso coração!
João Batista
é, depois de Maria, a figura de maior relevo no tempo do advento. Jesus é o
centro, João, um dos protagonistas da mais bela história de amor, que
já se ouviu na terra, uma história que nunca terá fim! Foi Ele, quem
abriu o caminho para a entrada de Jesus no coração da humanidade, quem
preparou o povo para acolher a manifestação de Deus, na pessoa de Jesus!
A
cumplicidade de João, com o projeto de Deus, o levou a ser confundido com o
próprio Messias, mostrando-nos, que o projeto de Deus em favor do
humano, se desenvolve através do próprio humano, do humano divinizado
pela cumplicidade com o projeto de Deus.
A narrativa
vem nos mostrar o antigo testamento dando lugar ao novo, João Batista,
foi o último profeta do antigo testamento, àquele que apontou o novo que era
Jesus! A sua
pregação, tomou uma dimensão tão grande, que chegou ao conhecimento do
poder centralizado em Jerusalém. As autoridades, enviaram mensageiros
para perguntar a João se ele era de fato, o Messias anunciado pelos os
profetas. Na sua humildade, o profeta, deixou claro, que ele não era
Messias, e que ele não seria digno de desamarrar as sandálias Dele.
Uma das
grandes virtudes que ficou marcada na vida de João Batista, foi a humildade,
ele sempre se colocou no lugar de mensageiro, não aproveitou de seu prestígio
junto ao povo, para se alto promover. João Batista, reconheceu a
grandiosidade de Jesus, bem antes do seu encontro com Ele nas águas do rio Jordão,
onde João, realizava o batismo de conversão, ocasião, em que Jesus é
apresentado pelo o Pai à humanidade: “Este é o meu Filho amado que
muito me agrada” Mt 3,17
João Batista,
o profeta que aplainou o caminho do Senhor, com a sua pregação e o seu
testemunho de vida, foi um grande exemplo de quem viveu exclusivamente a
vontade de Deus, ele não se acomodou nas tradições do seu povo, pelo o
contrário, buscou algo novo, fazendo-se anunciador de um tempo novo!
Imitemos este
grande profeta, abrindo caminho para a entrada de Jesus no coração
daquele que ainda não experimentou a alegria de viver o verdadeiro
sentido do Natal, que é o nascimento ou renascimento de Jesus, no
coração humano.
Vem Senhor
Jesus, vem realimentar a esperança dos desesperançados, dos que estão
cansados de serem maltratados por uma sociedade excludente, que
valoriza o ter e ignora o ser!
Vem Senhor
Jesus, vêm recolocar nos nossos lábios o sorrido apagado pelas as
tribulações deste mundo tão desigual.
Neste tempo
luminoso, sejamos um reflexo da luz de Deus no meio em que vivemos,
tornando-nos presença de Jesus a iluminar os muitos corações
sombrios...
FIQUE NA PAZ
DE JESUS! – Olivia Coutinho
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Detalhes
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Jesus é a luz verdadeira
Nas
leituras deste domingo transpira alegre expectativa. O Salvador vem! O
testemunho de João Batista não deixa dúvidas de quem é Jesus: a luz verdadeira
que vem iluminar todo ser humano. Com a missão de preparar a sua vinda, João
Batista nos convoca a “endireitar o caminho do Senhor” (Evangelho). Jesus é o
Messias, o ungido de Deus, enviado ao mundo “para trazer a boa notícia aos
pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a liberdade aos
oprimidos, para libertar os presos e anunciar o ano da graça do Senhor...” (1ª
leitura). O amor gratuito de Deus manifestado em Jesus Cristo nos enche de
alegria e de confiança; somos tomados pelo sentimento de gratidão. Em oração e
em ação de graças, acolhemos a vontade divina e nos esforçamos para viver na santidade
(II leitura). É preciso aguçar os ouvidos e abrir o coração para que a palavra
de Deus penetre em cada um de nós a fim de se desdobrar em boas obras. Quando
uma pessoa se decide convictamente a viver na luz de Jesus, passa também a
iluminar o mundo...
Evangelho: Jo 1,6-8.19-28
O testemunho de João Batista
O
prólogo do Evangelho de João apresenta Jesus como a Palavra que existe desde
sempre, pois ele é Deus. Por meio dela, tudo foi feito. “Nela estava a vida, e
a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não
conseguiram apagá-la... E a Palavra se fez carne e habitou entre nós”
(1,4-5.14). Quem poderia acreditar nessas afirmações?
Um
homem, enviado por Deus, vem para testemunhar essa verdade. Seu nome é João,
que significa “Deus é favorável”. O seu testemunho é verdadeiro, pois não é
dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. Em
sua humildade, ele nega ser Elias ou algum dos profetas. No entanto, ele “foi
enviado”, assim como os profetas eram enviados por Deus para proclamar a sua
vontade ao povo. Alguns deles anunciaram a vinda do Messias. João Batista
completa a profecia do Primeiro Testamento, bem próximo à vinda do Messias,
preparando-lhe o seu caminho.
O
testemunho fala alto. A pregação que sai da boca de quem vive o que fala
penetra fundo no coração dos ouvintes. O testemunho de João Batista era tão
forte, que muitos achavam que ele fosse a verdadeira luz. Possuía uma
autoridade especial, sem a delegação do sistema religioso centrado no Templo.
Isso provocou ciúme nas autoridades religiosas e também preocupação, por causa
do seu poder de atrair multidões. Por isso, os judeus de Jerusalém enviam uma
comissão de sacerdotes e levitas para investigar quem era João Batista. Ele
esclarece: “Eu não sou o Cristo”. Ao negar também ser Elias ou qualquer outro
profeta, está renunciando a entrar na forma institucional para permanecer livre
e fiel à missão de precursor do verdadeiro Messias, que vem de forma
transgressora e contrária à expectativa oficial.
A
postura firme e coerente de João Batista, que culminou com o seu martírio,
tornou-se para as primeiras comunidades cristãs um sinal de luz muito forte. Ao
redor dele formou-se um movimento de seguidores. Foi necessário dirimir as
dúvidas a respeito da sua identidade e da sua missão. João Batista “não era a
luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Ele não é um obstáculo ou uma
sombra, mas um reflexo da grande luz. Seu ministério possui imensurável
importância, que é proporcionar a acolhida do dom da fé no Messias verdadeiro.
O
evangelho fundamenta a missão de João Batista no texto do Segundo Isaías
(40,3): ele é “a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor”. Os
que entortaram o caminho do Senhor foram as autoridades judaicas, ali representadas
pela delegação de sacerdotes e levitas. Elas vão se opor radicalmente a Jesus,
tentando impedi-lo de exercer o seu ministério. É preciso ouvir a voz da
profecia que clama no deserto. Pelo deserto, apoiado na certeza da presença de
Deus, o povo foi abrindo o caminho para a terra de liberdade e vida. A presença
salvadora de Jesus Cristo abre caminho para um novo mundo: depende de nossa
acolhida e adesão à sua proposta. A voz da profecia – conforme o testemunho e a
pregação de João Batista – incomoda quem não deseja mudanças. É para a nossa
conversão e consequente adesão a Jesus como nosso salvador que João Batista foi
enviado...
1ª leitura: Is. 61,1-2a.10-11
O Espírito Santo nos ungiu
O
movimento profético de Isaías Terceiro (Is. 56-66) emergiu no período do
pós-exílio (ao redor do ano 500 d.C.). A situação do povo é conturbada. Há
sérios conflitos entre os que voltaram do exílio e os que permaneceram na terra
de Judá. Um pequeno grupo se impõe com o apoio do governo persa, arrogando-se o
direito de tomar posse da terra. Uma elite sacerdotal reconstrói o templo e
organiza o sistema de pureza. O povo é oprimido e cada vez mais empobrecido sob
a obrigatoriedade de pagamento de impostos tanto para os persas como para o
templo.
O
grupo profético toma posição a favor dos pobres. Sente-se vocacionado por Deus
e ungido pelo Espírito Santo para fortalecer o ânimo e a esperança das pessoas
vítimas do poder político e religioso. Pelas categorias citadas, descobrimos a
condição social dessa gente: são pobres, possuem coração ferido, são pessoas
oprimidas e são presas. A elas Deus envia o profeta com a missão específica de
anunciar a boa notícia, curar, proclamar a liberdade e libertar. É Deus
intervindo na história humana para resgatar a vida onde ela está sendo ameaçada.
A
utopia que move esse movimento profético é a de uma sociedade justa e fraterna,
como foi no tempo do tribalismo israelita. É o que se constata pela referência
à promulgação do “ano da graça do Senhor”: diz respeito à celebração do ano
jubilar, com a tomada de medidas para a repartição da terra às tribos, o perdão
de todas as dívidas e a libertação dos escravos, a fim de que não houvesse
pessoas excluídas. Essa utopia serviu de matriz inspiradora para a ação do
grupo profético do Terceiro Isaías, comprometido com a organização de uma
sociedade justa. Sua concepção de Deus contrapõe-se à dos sacerdotes do templo.
É outra teologia, que emerge do lugar social das pessoas injustiçadas. Jesus se
alimentou dessa teologia comprometida com a vida em abundância para todos.
Conforme vai relatar o Evangelho de Lucas (4,18-19), será exatamente esse texto
de Isaías (61,1-2a) que Jesus vai assumir como síntese reveladora de sua
missão.
A
segunda parte desta 1ª leitura (61,10-11) consiste num hino de louvor e alegria
pela certeza do agir libertador de Deus junto a seu povo. Vislumbra-se a
realização da utopia de um novo mundo, porque Deus assim o quer. “Eis que vou
criar um novo céu e uma nova terra” (Is. 65,17). O povo, ungido pelo Espírito
de Deus, sente-se renovado: vestido com vestes de salvação, coberto com o manto
da justiça, preparado para a celebração de um novo casamento. Deus, sempre fiel
à aliança, “faz germinar a justiça e o louvor em todas as nações”. A vinda de
Jesus é a realização desse sonho...
2ª leitura: 1Ts. 5,16-24
Alegrai-vos sempre
Em
sua primeira carta aos Tessalonicenses (que também é o primeiro escrito
canônico do Segundo Testamento), Paulo demonstra preocupação especial com o
comportamento da comunidade cristã, que vive a expectativa da vinda de Cristo.
Ele usa a palavra “parusia” (“vinda”), que, na cultura greco-romana, designa a
chegada solene de uma pessoa ilustre. Nesse caso, refere--se à volta triunfal
de Jesus.
Paulo
exorta os cristãos a viver preparados para a parusia, que se dará de forma
repentina. Em que consiste essa preparação? Pode ser resumida neste apelo:
“Vede que ninguém retribua o mal com o mal; procurai sempre o bem uns dos
outros e de todos” (5,15). Tendo por fundamento o amor fraterno, a comunidade
não precisa temer. Pelo contrário, pode alegrar-se sempre. Na certeza do
encontro com o Senhor, deve orar incessantemente, dando graças a Deus.
A
alegria do cristão é contínua e funda-se na fé no Senhor Jesus. Ela não depende
de circunstâncias externas; mesmo num mundo hostil, permanece viva. A alegria
constante está intimamente ligada ao hábito da oração, num espírito de ação de
graças a Deus, fonte de todo bem. É de sua vontade que estejamos conscientes
disso e levemos uma vida de gratidão. Ele nos dá o Espírito Santo com seus
dons; ele suscita profecias, isto é, maneiras diversas de instruir para
edificar e para discernir o que é bom. Paulo continua com tom imperativo:
“Guardai-vos de toda espécie de mal”.
Percebe-se
que o apóstolo oferece suas instruções num tom de seriedade e vigilância. Ele
nos exorta a ser íntegros e irrepreensíveis, vivendo conforme a vontade do
“Deus da paz”, que nos concede a santidade perfeita e nos sustenta nesta
caminhada ao encontro do Senhor que vem. Essa paz divina é muito mais do que a
ausência de conflitos, não consiste em mera tranquilidade: ela está ligada à
reconciliação definitiva com Deus e com as bênçãos messiânicas.
Pistas para reflexão
-
Acolher a luz verdadeira. Em preparação ao Natal do Senhor, é importante
prestar atenção na voz de João Batista, que anuncia a vinda de Jesus, a luz
verdadeira. Como profeta, enviado por Deus, ele nos exorta a “endireitar os
caminhos do Senhor”. Com a vinda de Jesus, já não precisamos andar às cegas ou
tateando na direção de pequenas luzes que logo se apagam. As trevas foram
definitivamente vencidas pelo Messias, a luz do mundo. Como João Batista,
podemos transformar nossa vida em reflexo da luz verdadeira. É Jesus que deve
brilhar por meio de nosso jeito de ser e agir... Que trevas existem em nós que
precisam ser dissipadas?
-
Ungidos pelo Espírito Santo. A profecia de Isaías Terceiro revela que o
Espírito de Deus está sobre as pessoas marginalizadas pelo sistema de poder.
Também João Batista é um profeta marginalizado que prega no deserto. São
pessoas pequeninas, reflexos do amor de Deus. São ungidas pelo Espírito
Santo... Também Jesus vai nascer à margem da cidade de Belém. Ele é o Filho de
Deus. Ungido pelo Espírito Santo, vai assumir a causa da libertação das
situações que oprimem o ser humano. Deus age por meio das pessoas humildes e
frágeis... O que isso quer dizer para nós hoje?
-
Alegria e oração. São Paulo exorta: “Alegrai-vos sempre, orai sem cessar”. A
alegria cristã nasce da fé em Jesus. Ela jamais se apaga, não importam as
circunstâncias. Está intimamente ligada à oração constante. É pela oração e
pelo amor fraterno que permanecemos na paz de Deus e irradiamos a sua luz. As
trevas se dissipam, e o Espírito Santo nos ajuda a discernir o que é bom e a
viver na santidade... Neste tempo de Advento, é bom nos perguntar: como vai a
nossa vida de oração pessoal, familiar e comunitária?
Celso Loraschi
Testemunhar em meio aos conflitos
Os
versículos escolhidos para este domingo nos põem em contato com a figura de
João Batista. Ele projeta luz sobre a missão da testemunha. Mostra, também, que
o testemunho supõe, na maioria dos casos, uma situação hostil e de conflito.
Os
vv. 6-8 pertencem ao Prólogo do evangelho. Aí se diz que “apareceu um homem
enviado por Deus; seu nome era João” (v. 6). A testemunha é uma pessoa comum,
um ser humano com identidade própria (nome) que Deus credenciou. A missão de
João é “ser testemunha e dar testemunho da luz, a fim de que todos cheguem à
fé” (v. 7). Introduzindo o tema da luz, o evangelista mostra o conflito que
envolve a testemunha. De fato, pouco antes, o Prólogo afirmara que as trevas
tentaram apagar a luz (cf. 1,5). É uma referência ao tipo de sociedade que
busca sufocar a vida em todas as suas expressões.
O
povo da Bíblia dizia que a Lei de Moisés era a luz da humanidade (cf., por
exemplo, Sl. 119,105, onde “Palavra” é subentendida como “Lei”, ou seja, o
Pentateuco). A humanidade só teria vida (luz) quando tivesse aceito o jugo da
Lei. O Prólogo, ao contrário, garante que a vida trazida por Jesus, e não a
Lei, é que é a luz da humanidade. Quando o mundo todo se unir em torno da
defesa da vida, então é que poderemos afirmar que a vida trazida por Jesus
começa a se realizar de modo pleno.
O
v. 8 define com clareza a missão de João: “Esse homem não era a luz; veio apenas
para dar testemunho da luz”, ou seja, veio para criar expectativa em torno da
vida. “Dar testemunho da luz consistia em despertar o desejo e a esperança da
vida, preparando a chegada daquele que era a vida-luz; anunciar a possibilidade
de vida plenamente humana, como alternativa ao regime da treva” (J. Mateos - J.
Barreto, O Evangelho de são João, Paulus, p. 78). Todo aquele que suscita
expectativa em relação à vida torna-se testemunha à semelhança de João Batista.
Os
vv. 19-28 falam do contexto em que se desenvolve a ação da testemunha da vida
que é Jesus: é o mesmo contexto do Prólogo, ou seja, o da luta entre as trevas
e a luz. As trevas são as lideranças político-religiosas do tempo. De fato, os
estudiosos concordam em afirmar que “os judeus” do v. 19 não são o povo como um
todo, e sim as lideranças injustas instaladas em Jerusalém: elas estão atentas
e prontas a tomar medidas contra qualquer pessoa que pretenda desestabilizar o
sistema de morte por elas implantado. Antes de tentar apagar a luz-vida que é
Jesus, elas querem eliminar João, a testemunha. Isso porque o grupo de
sacerdotes e levitas enviados de Jerusalém são uma espécie de “comissão de
inquérito” que vai investigar as intenções, palavras e ações da testemunha que
é João. Os levitas são a polícia do Sinédrio, o supremo tribunal daquele tempo.
A
comissão investigadora vai logo perguntando: “Quem é você?” (v. 19). A resposta
de João (“Eu não sou o Messias”, v. 20) nos fala das suspeitas dos
investigadores: temiam que João se declarasse o inaugurador de nova ordem
social, um líder de movimento popular que se opusesse às autoridades
existentes. Os que enviaram policiais de Jerusalém têm medo de perder cargos e
privilégios, pois imaginam que o Messias que está para chegar seja um
reformador das instituições. O Evangelho de João será mais radical ainda. Jesus
não veio para reformas.
João
nega também ser Elias e o Profeta (v. 21). Naquele tempo, pensava-se que Elias
viria para restaurar o povo da antiga aliança. João não anuncia um restaurador,
e Jesus jamais o será, pois ele é o portador da nova aliança baseada na vida.
Pensava-se também que o Profeta seria uma espécie de “segundo Moisés”, na linha
da promessa contida em Dt. 18,15. João não anuncia o continuísmo tradicional,
pois Jesus vai trazer a novidade da nova aliança.
A
comissão de inquérito sossega um pouco, mas não se satisfaz. E continua
investigando: “Quem é você? Temos que levar uma resposta aos que nos enviaram.
Quem você diz que é?” (v. 22). João se autodefine como “uma voz que grita no
deserto: ‘Endireitem o caminho do Senhor!’, como disse o profeta Isaías” (v.
23, cf. Is. 40,3). Mencionando o deserto, o evangelho aponta para a nova
sociedade que está para chegar com Jesus. João veio tirar os obstáculos que
impedem a construção do novo. E os principais empecilhos são justamente as
autoridades que mantêm o povo dominado. Elas “entortaram o caminho do Senhor”,
impedindo ao povo o acesso à vida.
Os
investigadores não se contentam e procuram pôr a testemunha contra a parede:
“Então, por que você batiza, se não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” (v.
25). Os fariseus acreditavam que batizar fosse, de certo modo, assumir as
prerrogativas do Messias, de Elias e do Profeta que viriam para renovar as
instituições. Para João, o batismo tem outro sentido. Com esse gesto, ele quer
demonstrar a ruptura com a instituição e o tipo de sociedade que ela
representa. Para o Precursor, o batismo “era profissão pública de mudança de
lealdade e símbolo de libertação. A missão de João implicava a denúncia das autoridades
e a emancipação do povo submetido a elas” (J. Mateos - J. Barreto, op. cit., p.
85). O batismo de João, portanto, era um sinal de ruptura, de “desobediência ao
sistema”, apontando para um batismo novo, que é aceitação “daquele que não
conhecemos” (v. 26).
Jesus
é, radicalmente, aquele que não conhecemos e jamais conheceremos plenamente
enquanto não aderirmos de modo total ao projeto de liberdade e vida que ele
traz. Nesse sentido, as instituições que não são a favor da liberdade e da vida
do povo não fazem parte do projeto de Jesus, e ele as declara extintas. Muitas
dessas instituições continuam, hoje, fazendo o papel de inquisidores, à
semelhança da comissão que foi investigar as palavras e ações da testemunha
credenciada por Deus. E continuam dispostas a prender e, se for o caso, a tomar
medidas mais sérias…
O
evangelho de hoje termina dizendo que tudo “isso aconteceu em Betânia, na outra
margem do Jordão, onde João estava batizando” (v. 28). Os estudiosos quebram a
cabeça procurando identificar essa localidade. O importante não é conseguir
situar esse lugar, e sim descobrir a intenção teológica do evangelista: João
está “do outro lado do Jordão”, ou seja, está preparando o povo para novo
ingresso na terra da liberdade e da vida. A entrada na nova sociedade vai
acontecer com a chegada de Jesus.
Paulus
O profeta João
“Testemunhas da luz”
O evangelista João apresenta nesta passagem bíblica
João Batista, que é um homem simples, não é o Messias, não é Elias, nem sequer
é o profeta que todos estavam esperando.
Mas a imagem que temos de João Batista é “a voz que
clama no deserto, aquele que “aplaina o caminho do Senhor”. Assim, Deus o
enviou como “testemunha da luz”, capaz de despertar a fé de todos. Uma pessoa
que pode transmitir luz e a vida. O que é ser testemunha da luz?
Ser testemunha da luz como João Batista é não dar
importância a si mesmo, nem chamar a atenção, não procurar causar danos a
ninguém. Mas simplesmente viver de maneira convicta, que Deus é luz para seus
passos e o irradia no modo de ser e de crer.
A testemunha da luz não fala muito, vive com Deus,
comunica o que faz viver, transmite a Boa Nova, nos convida a crer e a ter fé,
em sua própria vida de testemunho, atrai e desperta interesses, pois transmiti
a confiança em Deus, está sempre abrindo caminhos, como o precursor que
“aplaina o caminho do Senhor”.
Assim, a vida está cheia de pequenos testemunhos no
nosso dia a dia. São pessoas de fé, humildes, pessoas boas vivendo
segundo a verdade e o amor. Elas são testemunhas da luz que aplainam o caminho
para Deus e são exemplos para nós da Boa Nova.
reflexão
feita pelos noviços deste ano
Alegria: o Senhor está no meio de nós
No
domingo anterior vimos a figura de João Batista, como a apresenta o evangelho
de Marcos. Hoje, no evangelho, podemos ver como o evangelista João interpreta a
figura do Batista, não mais caracterizada pelo tema da conversão, mas pelo do
testemunho. No evangelho de Mc. centrado sobre Jesus que proclama a chegada do
Reino de Deus, o Batista é o profeta escatológico, o novo Elias, que deve
preparar os corações para que, mediante a conversão, participem do Reino. A
visão do evangelho de João é um tanto diferente. O conceito do “Reino” falta
praticamente em Jo (é substituído pelo de “vida eterna”). Jo evita a
historização do Reino; o Reino (de Jesus) não é deste mundo (Jo 18,36). Deus
não se manifesta naquilo que o mundo chama de “reino”, mas em Jesus mesmo
(14,9). Escrevendo num outro contexto, Jo. evita os tradicionais conceitos
apocalípticos: o reino, o profeta do Fim etc. Por isso, em Jo 1,19-21, o
Batista recusa os traços de sabor apocalíptico, por exemplo, do novo Elias, que
os outros evangelhos lhe atribuem. Ele não é um personagem apocalíptico, ele é
a “voz de quem grita no deserto” (cf. Is. 40,3; Jo. 1,22-23), uma testemunha
(Jo. 1,6-8.19.34; 3,26; 5,33).
Ele
não é a luz do mundo, que é Jesus (1,6-8 8,12; 9,5), mas apenas uma lâmpada
provisória (5,35). Seu batismo não é propriamente uma atuação escatológica, mas
um sinal que aponta para o Enviado de Deus, o qual está, desconhecido, no meio
do mundo (1,26). E, de fato, na continuação do texto, o Batista vai mostrar a
seus discípulos Jesus como o Cordeiro de Deus (1,29.36, cf. 3,30).
A
Luz que o Batista aponta está no mundo, mas o mundo não a quer conhecer
(1,5.9-11). A parcela incrédula do mundo gosta de ficar nas trevas (3,19-20),
cega (9,39-41). Se, portanto, o Batista aponta essa Luz como estando presente,
desconhecida, no meio de nós (1,26), ele não apenas quer dizer que (ainda) não
tivemos a chance de descobri-la, mas sugere que é preciso querer descobri-la.
Para poder ver é preciso querer ver. Assim, o evangelho de hoje desperta em nós
a necessidade de uma decisão pelas palavras do Batista: “No meio de vós está
quem vós não conheceis”, somos convidados a querer descobri-lo, dilatando nosso
coração em alegria.
A
liturgia de hoje está banhada na alegria (é o antigo domingo “Gaudete”).
Alegria do antigo povo de Israel, que, de volta do exílio, mas ainda não bem
estabelecido, espera dias melhores para breve; pois o profeta lhe é enviado com
uma missão particular do Senhor (isto significa sua unção, Is. 61,1) anunciar a
Boa Nova da perfeita restauração da paz e justiça, ao povo oprimido: os pobres,
os cativos, os sofridos; proclamar um ano de graça, isto é, um ano sabático ou
um jubileu, instituições de Israel para restabelecer, na sociedade, chances
iguais para cada um (devolução das terras hipotecadas, libertação dos escravos
etc.). A perspectiva de tal restauração da harmonia (não temos conhecimento de
que ela foi jamais realizada) provoca no profeta um grito de júbilo, como de um
noivo ou noiva preparando-se para as núpcias. A justiça de Deus (a ordem
sonhada por Deus) tornar-se-á coisa tão natural e cotidiana, tão vital e
promissora quanto o germinar das frutas da terra. A liturgia completa este
“Magnificat do Antigo Testamento” (Is. 61,10-11; 1ª leitura) com o do N.T., que
é o canto responsorial de hoje. Surge, destes textos, a imagem do Deus
Libertador, que se dirige, em primeiro lugar, aos que mais esperam: os pobres e
humildes. Nestes vive o desejo que permite reconhecer as maravilhas do Senhor.
Também
na 2ª leitura vibra a alegria, por uma razão mais profunda ainda: o que Deus
quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra, é que sempre possamos estar alegres
e agradecer-lhe (1Ts. 5,16). Ver-nos felizes, eis o desejo de Deus, ao qual nós
respondemos por nosso desejo de vê-lo. Por isso, devemos deixar-nos animar sem
cessar por seu Espírito. Na Igreja de Paulo, este Espírito era visível nos
carismas. “Não apagar o Espírito” não significa, apenas, guardar vivo o fogo
interior, mas também respeitar e incentivar a ação visível do Espírito na
atuação carismática dos fiéis. Daí: não desprezar as profecias; antes, ponderar
a avaliar tudo e ficar com aquilo que serve. E conservar sua integridade, sua
“inteireza”, pois tudo em nós deve ser santo quando vier o Senhor. Ele, por sua
parte, não falhará; ele é fiel.
A
oração do dia pede que possamos chegar às alegrias (eternas) da salvação e
também celebrá-las, desde já, na liturgia. Ora, a liturgia é o momento de
moldar a espiritualidade de nossa vida cotidiana. A alegria que ela celebra não
é um parêntese em nossa vida, e sim, a manifestação do tom fundamental, o
“baixo contínuo” de nossa vida. Articulando em hino e louvor o que vive no
fundo de nosso coração e de nossa comunidade, a liturgia nos chama a uma
autêntica vivência daquilo que ela articula. Se não formos capazes de
participar do “Gaudete” de hoje, esticando nosso pescoço no alegre
desejo de ver Aquele que está no meio de nós, alguma coisa não está certa em
nós.
Johan Konings
"Liturgia dominical"
A testemunha não é o Salvador
*
1,1-18: O prólogo de João lembra a introdução do Gênesis (1,1-31; 2,1-4a). No
começo, antes da criação, o Filho de Deus já existia em Deus, voltado para o
Pai: estava em Deus, como a Expressão de Deus, eterna e invisível. O Filho é a
Imagem do Pai, e o Pai se vê totalmente no Filho, ambos num eterno diálogo e
mútua comunicação.
A
Palavra é a Sabedoria de Deus vislumbrada nas maravilhas do mundo e no
desenrolar da história, de modo que, em todos os tempos, os homens sempre
tiveram e têm algum conhecimento dela.
Jesus,
Palavra de Deus, é a luz que ilumina a consciência de todo homem. Mas, para
onde nos conduziria essa luz? A Bíblia toda afirma que Deus é amor e
fidelidade. Levado pelo seu imenso amor e fiel às suas promessas, Deus quis
introduzir os homens onde jamais teriam pensado: partilhar a própria vida e
felicidade de Deus. E para isso a Palavra se fez homem e veio à sua própria
casa, neste seu mundo.
A
humanidade já não está condenada a caminhar cegamente, guiando-se por pequenas
luzes no meio das trevas, por pequenas manifestações de Deus, mas pelo próprio
Jesus, Manifestação total de Deus. Com efeito, Jesus Cristo, que é a luz, veio
para tornar filhos de Deus todos os homens. Um só é o Filho, porém, todos podem
tornar-se bem mais do que filhos adotivos: nasceram de Deus.
Deus
tinha dado uma lei por meio de Moisés. E todos os judeus achavam que essa lei
era o maior presente de Deus. Na realidade, era bem mais o que Deus tinha
reservado para todos. Porque Jesus, o Deus Filho, o verdadeiro e total Dom do
Pai, é o único que pode falar de Deus Pai, porque comunica o amor e a
fidelidade do Deus que dá a vida aos homens.
*
19-28: Quando João Batista começou a pregação, os judeus estavam esperando o
Messias, que iria libertá-los da miséria e da dominação estrangeira. João anunciava
que a chegada do Messias estava próxima e pedia a adesão do povo, selando-a com
o batismo. As autoridades religiosas estavam preocupadas e mandaram investigar
se João pretendia ser ele o Messias. João nega ser o Messias, denuncia a culpa
das autoridades, e dá uma notícia inquietante: o Messias já está presente a fim
de inaugurar uma nova era para o povo.
Messias
é o nome que os judeus davam ao Salvador esperado. Também o chamavam o Profeta.
E, conforme se acreditava, antes de sua vinda deveria reaparecer o profeta
Elias.
João
Batista é a testemunha que tem como função preparar o caminho para os homens
chegarem até Jesus. Ora, a testemunha deve ser sincera, e não querer o lugar da
pessoa que ela está testemunhando.
Bíblia Sagrada – Edição
Pastoral
No
domingo anterior o evangelho apresentou João Batista sob a ótica do evangelista
Marcos. Neste domingo, no entanto, é o evangelista João que o apresenta como
uma pessoa comum, escolhida por Deus, e enviada ao mundo para uma missão
concreta: dar testemunho da luz, a fim de que todos cheguem à fé, ou seja,
despertar o desejo e a esperança, preparando a chegada daquele que é a Vida, a
Luz. Ele anuncia a chegada de Jesus e chama a atenção do povo para que fique
alerta e, principalmente, para que se converta.
João
Batista tinha consciência de que sua missão era ser instrumento a serviço de
algo bem maior que ele, e não aceita títulos, posição privilegiada, muito ao
contrário se coloca humildemente a serviço da missão recebida por Deus.
Neste
Evangelho há o confronto político com a esperança de mudanças. Os políticos da
época estavam assustados com o que João Batista falava, e tinham medo chegasse
alguém para tirar o poder que exerciam sobre o povo. Não queriam perder seus
lugares de governantes e líderes, mas ao mesmo tempo sabiam que havia de chegar
o Messias, que era o enviado de Deus, e perguntavam para João Batista se era
ele o próprio Messias ou se ele era apenas mais um profeta.
As
respostas negativas de João desconcertavam a comissão formada pelos sacerdotes
e Levitas. Se João não reivindica nenhum dos títulos tradicionais como
“Messias”, “Elias”, ou “o profeta”, com que título ele batiza?
O
batismo de João significa romper com o pecado e o desejo de viver uma nova
vida, acolhendo a Luz.
Ele
mostra que o batismo com água é um sinal e aponta para Aquele que vem, o qual
ele mesmo não é digno “de desatar as correias das sandálias”. É como se João
dissesse: ‘Não se preocupem com o batismo de água que eu administro, pois ele
é, apenas, um símbolo de transformação e de adesão a uma nova vida. É o batismo
do Messias, o batismo no Espírito, que transformará totalmente os corações dos
homens, os fará livres e lhes dará a vida definitiva. Esse que vem batizar no
Espírito já está presente.
Procurai
conhecê-lo, escutá-lo e acolher a sua proposta de vida.’
João
prepara o povo para uma nova entrada na terra da liberdade e da vida, na nova
sociedade que vai surgir com a chegada de Jesus.
Pequeninos
do Senhor
Testemunho da luz
A pessoa e a missão de Jesus é que
definiram a identidade de João Batista. Este fora enviado por Deus para ser
testemunho da luz. Mediante sua pregação, muitas pessoas teriam a chance de
chegar à fé e serem iluminadas pela luz, que é Jesus. A atividade de João
preparava a chegada de Jesus, predispondo as pessoas para recebê-lo.
O pressuposto de seu ministério era que
a humanidade estava mergulhada nas trevas e, por isso, vagava errante pelo
caminho do pecado e da injustiça. Se não lhes fosse oferecida uma luz, não
teriam condições de superar esta situação. Entretanto, o Pai decidira resgatar
o ser humano para a vida. E o fez, por meio de seu Filho Jesus, cujo ministério
consistiria em ser luz para o ser humano, mostrando-lhe o caminho para o Pai.
João Batista compreendeu este projeto
de Deus e se colocou a serviço dele. Sua condição de servidor do Messias estava
arraigada em sua consciência. Não cedeu à tentação de pensar de si mesmo, além
do que correspondia ao plano de Deus. Não lhe cabia nenhuma das identificações
do Messias, em voga na teologia popular. Ele não era nem o Messias, nem Elias,
nem algum dos profetas. Era, simplesmente, um servo de Deus e do seu Messias.
Este título era suficiente para defini-lo. Tudo o mais não passava de
especulação.
padre Jaldemir Vitório
1ª
leitura (Is. 61,1-2a.10-11) - “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, para
levar a Boa Nova aos pobres”
O
profeta de Is. 61 (3º Isaías) exprime sua experiência do Espírito, lembrando as
palavras do 2º Isaías (42,1). Este Espírito o impulsiona a levar a Boa Nova aos
pobres (= o “resto de Israel”, o povo humilde vivendo na opressão e na
dependência, na região de Judá, depois do exílio). Anuncia o “ano sabático”
(restituição das propriedades aos pobres), encarado como solução dos prementes
problemas sociais (61,2). A consequência de sua mensagem e da obra de Deus será
o júbilo proclamado nos v. 10-11, uma espécie de “Magnificat”. (Este texto é
aplicado por Jesus a si mesmo, em Lc. 4,18.)
* 61,1-2 cf. Is 42,1;
11,2-4; Sl 72[71],13-14; Mt 11,28-30; Is 49,8 * 61,10-11 cf. 1Sm 2,1; Lc
1,46-47; Ap 21,2; Is 42,9; 55,10-11; Dt 26,19.
2ª
leitura (1Ts. 5,16-24) - Alegria e ação de graças sempre
Uma
exortação à alegria e contínua ação de graças, pois é para ver-nos assim
felizes que Deus nos fez participar do Evento de Jesus Cristo. Daí, as
orientações práticas: não apagar o Espírito, avaliar tudo e guardar o que
serve, eliminar todo o mal. termina com um voto de paz, o que significa:
perfeição escatológica. Pois Deus é fiel.
* 5,16-19 cf. Rm. 12,12;
Ef. 5,20; 6,18; 1Jo 4,1-3; Gl. 5,22-23 * 5,23-24 cf. 1Ts. 3,13; 1Cor. 1,9; 2Ts. 3,3.
Evangelho
(Jo 1,5-8.19-28) - A missão de João Batista
Cristo
é a Luz nas trevas (e estas a impugnam) (Jo 1,5). João Batista não é esta luz,
mas dá testemunho dela (1,6-8). Ele não é o salvador escatológico e não quer
para si nenhum de seus títulos (1,19-21). Ele é (apenas) a “voz clamando no
deserto” de Is 40,3 (1,22-23). Anuncia o mais forte do que ele, que já está,
desconhecido, no meio do povo (1,25-27). * 1,8 cf. Jo 1,15.19-34; Mc 1,7
* 1,19 (“os judeus”) cf. Jo 5,10.18; 7,1 * 1,21 cf. Ml 3,23-24; Mt
17,10-13; 16,14; Dt 18,15 – 1,23 cf. Is 40,3.
Alegria por causa de deus, escondido, mas próximo
Em
meio ao estresse de uns e a miséria de outros faz bem ouvir uma mensagem de
alegria: “Transbordo de alegria por causa do Senhor... Como a terra produz a
vegetação e o jardim faz brotar suas sementes, assim o Senhor fará brotar a
justiça e a glória diante de todas as nações”. Este trecho, o “Magnificat do
Antigo Testamento”, é a expressão de um povo que acredita na sua renovação,
porque Deus está aí (1ª leitura).
Geralmente
as pessoas têm medo da presença de Deus (cf. Is 6,5). Foi preciso que Deus se
desse a conhecer de maneira diferente para que superássemos esse medo. Mas esse
“Deus diferente” estava escondido. Quem nos prepara para a descoberta é João
Batista, hoje apresentado na ótica do Evangelho de João. Ele não é a luz, mas
vem testemunhar da luz (Jo 1,6-8). Ele não é o Messias, nem o profeta (novo
Moisés), nem Elias (1,21). Ele se identifica com a voz que convida o povo a
preparar uma estrada para a chegada do Senhor (1,23, cf. Is 40,3). E anuncia:
“No meio de vós está alguém que não conheceis, aquele que vem depois de mim, e
do qual não sou digno de desatar a correia da sandália” (1,26-27). Naquele que
o Batista anuncia manifesta-se que Deus está perto de nós, não como realidade
assustadora, mas como pessoa humana que nos ama com tanta fidelidade que dá até
sua vida por nós. Não é essa uma razão de alegria? Alegria contida, pois
sabemos quanto custou a Jesus manifestar a presença de Deus desse jeito…
Por
que Deus não veio logo com todo o seu poder? Deus prefere ficar escondido. É
discreto. Quer deixar espaço para nós, para construirmos a História que Deus
nos confia. Discretamente assim, quer participar ativamente de nossa história,
em Jesus, para que aprendamos a fazer a história do jeito dele. E esse jeito se
chama shalom: paz e felicidade. Lembrando a vinda de Jesus ao mundo, celebramos
a presença discreta de Deus em nossa história.
Que
significa “alegria” no mundo de hoje? Réveillon num restaurante cinco estrelas?
Bem diferente é a imagem que surge da 2ª leitura: “Estai sempre alegres, orai
sem cessar, por tudo dai graças. Não apagueis o Espírito…”. As primeiras
comunidades cristãs viviam na espera da volta gloriosa de Jesus para breve.
Eram animadas pelo Espírito de Deus, que os fazia até falar profeticamente. Por
isso era preciso “examinar e ficar com o que fosse bom” (5,19), pois havia
também “profetas confusos”, como hoje… Mas o importante era que reinasse a
alegria por causa da proximidade do Senhor. Deus mesmo quer nos aperfeiçoar e
santificar, e não desiste: “Quem vos chamou é fiel: ele o fará” (5,24). A
alegria é saber-se aceito por Deus, como a amada pelo amado (cf. 1ª leitura).
Talvez
esta imagem da alegria não convença todos. É pouco publicitária... Ora, este
terceiro domingo do Advento chama-se pela primeira palavra da antiga antífona
em latim, Gaudete, “Alegrai-vos”. Se não formos capazes de participar dessa
alegria, esticando o pescoço no alegre desejo de ver aquele que está
discretamente presente no meio de nós, alguma coisa não está certa…
Johan Konings
Nova imagem do Messias.
O texto de Isaías que lemos neste dia reflete o
tempo posterior ao exílio na Babilônia. Os que tinham permanecido na terra de
Judá não esperavam que os exilados na Babilônia, há anos, voltassem; eles se
mesclaram com outros povos, e muitos assumiram as crenças de outros povos. Os
que criam no Deus único e verdadeiro já não eram maioria. Desse modo, o desejo
dos que voltavam do exílio de reconstruir o Templo encontrou muita resistência
e oposição. Imaginavam que teriam boa acolhida, mas isso não aconteceu. Eles
também não facilitavam o bom relacionamento com os que permaneceram na terra de
Judá. A situação gerou uma profunda desolação e desânimo. O povo experimentou,
de uma parte a outra, que o inimigo não era somente externo, mas que as
divisões eram internas ao povo de Deus, cuja herança era o dom da vida e da
liberdade. Levanta-se a voz inspirada do profeta para anunciar uma nova imagem
do Messias. Até então se acreditava que o Messias seria um descendente de Davi,
idéia que predomina nos relatos evangélicos, sobretudo, em Lucas. Na época a
que o texto nos remete já não há mais monarquia. Para o nosso texto, o “ungido”
de Deus é um profeta que interpela o povo a não perder a esperança, pois Deus
estava próximo a ele.
João Batista é testemunha da luz. A noção de
testemunho é muito cara ao quarto evangelho. É pelo testemunho que a fé em
Jesus se expande. Nessa cadeia de testemunhos, um personagem remete ao outro e
todos apontam para Jesus. João Batista é parte dessa cadeia e está, no quarto
evangelho, na origem da série de testemunhos que conduzem a Jesus. É bastante
provável que o nosso evangelho de hoje retenha uma confusão presente no início
da era apostólica, posição defendida pelos seguidores do Batista: se João não
seria o Messias. A João é dada a palavra para dizer explicitamente que ele não
é o Messias. Ele é o precursor, a “voz” a quem é atribuída a profecia de
Isaías, remanejada pelo redator do evangelho, e que encontramos também nos
evangelhos sinóticos: “uma voz proclama: no deserto, abri um caminho para o
Senhor…” (Is. 40,3; Jo 1,23). João é submetido a um verdadeiro interrogatório
que tem uma dupla função: a) esclarecimento: João não é o Messias; b)
informação histórica: o movimento começado por João teria alcançado tal notoriedade
a ponto de preocupar as autoridades judaicas.
A missão de João Batista tem sentido enquanto
referida ao Cristo, Cordeiro de Deus, presente no meio do seu povo. O seu
testemunho consiste, aqui, em dirimir o equívoco supracitado e apontar para o Messias.
Carlos
Alberto Contieri,sj
A
tradição litúrgica da Igreja chama este terceiro domingo do Advento de Gaudete,
isto é “Alegrai-vos!” No missal romano, a antífona de entrada exclama:
“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está
perto!” (Fl. 4,4.5). Como expressão dessa alegria, pode-se usar no lugar do
roxo, o cor-de-rosa, no tom conhecido como “rosa antigo”. É um roxo suavizado,
que exprime a exultação pela aproximação do Santo Natal. Alegrai-vos!
Alegremo-nos! O Senhor está perto! Está próximo o Natal; está próxima a Vinda
do Senhor; está próximo de nós o Salvador nosso nos diversos momentos de nossa
existência! Ele não é Deus de longe; é Deus de perto: seu nome será para sempre
Emanuel, Deus-conosco!
Alegrai-vos!
Há quem se alegre no pecado, há quem se alegre em futilidades, há quem, mesmo
alegrando-se com coisas que valem a pena, esquece que toda alegria é
passageira. Quanto a vós, caríssimos, alegrai-vos com tudo quanto é bom e
louvável, mas colocai vossa maior e definitiva alegria no Senhor! Somente nele
o coração repousa plenamente, somente nele encontra-se a paz que dura mesmo em
meio à tribulação mais dura, somente nele o anseio mais profundo de nossa alma.
Alegrai-vos! Mas seja o Senhor o fundamento da vossa alegria, a causa última da
vossa exultação!
Mas,
quem é esse Senhor em quem nos mandam que nos alegremos? O Batista, neste hoje,
nos adverte: “No meio de vós está Aquele que vós não conheceis!” Quem é ele?
Quem é este “Aquele”? João Batista, como bom mensageiro faz questão de
desaparecer: “Não sou o Messias, não sou Elias (coitados dos espíritas!), não
sou o profeta anunciado por Moisés! Sou apenas a voz que grita no deserto:
"Aplainai o caminho do Senhor!" Insistimos: quem é esse que está no
nosso meio e que é preciso conhecer e reconhecer sempre de novo para ter a
alegria verdadeira? Ele é o Messias, Jesus de Nazaré, o Ungido de Deus, o
Enviado para trazer a salvação, a alegria e a paz para todos os pobres de todas
as pobrezas do mundo. Ouçamo-lo, deixemos que ele se nos apresente: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a Boa Nova aos humildes, curar as
feridas da alma, pregar a redenção aos cativos e a liberdade para os que estão
presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor!” Eis, o Messias que
esperamos, o Salvador que Deus nos concedeu. Ele, que veio em Belém, que virá
no final dos tempos, ele mesmo vem a cada dia de nossa atribulada existência! -
Vem, Senhor Jesus! Vem, santo Messias! Teu povo suspira por ti, tua Igreja
sofrida e caminheira precisa de ti! Não nos abandones, não nos deixes sozinhos!
Vem, Ungido de Deus, prometido aos nossos pais, anunciado pelos profetas,
apontado pelo Batista, colocado sob a guarda do carpinteiro José, concebido e
dado à luz pela Virgem Mãe! Vem, e a Mãe Igreja exclamará (e nosso coração
exclamará com ela): “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se
no meu Deus; ele me vestiu com vestes de salvação; adornou-me como um noivo com
sua coroa ou uma noiva com suas jóias!”
Eis
a causa da nossa alegria. Nós, os cristãos, temos direito de nos alegrar, mesmo
diante das tristezas do mundo; temos o dever de manter a esperança, mesmo
quando as possibilidades humanas fracassam; temos a oportunidade de continuar
esperando ainda quando os nossos cálculos mostrem-se errados. Porque nossa
esperança e certeza não se fundam em nós nem em nossas possibilidades, mas
naquele que vem, naquele que o Pai do céu nos envia, naquele que nunca
conseguiremos conhecer totalmente, o Messias do Pai, Jesus, nosso
Deus-Salvador!
Resta-nos,
então, escutar com atenção o conselho do Apóstolo: estar sempre alegre em
Cristo; com os olhos fixos nele; orar sem cessar, buscando realmente ser amigo
íntimo do Senhor, dando graças em todas as circunstâncias, sabendo que ele está
próximo de nós, nunca longe de nossas aflições e desafios. E mais:
afastarmo-nos de toda maldade, procurando viver segundo Cristo e não segundo o
mundo, santificando no Senhor nosso corpo, nossa alma e nosso espírito ou, em
outras palavras, nossa dimensão física, nossa vida inteligente e nossa sede de
Deus, nossa saudade de Infinito.
Num
mundo que nos despreza porque somos cristãos, numa sociedade pagã, que nos
ridiculariza e nos olha com indiferença, tenhamos esta certeza: “Quem vos
chamou é fiel; ele mesmo realizará isso!” Ele nunca nos deixará!
Que
a escuta da Palavra santa do Senhor e a participação no mistério do seu Corpo e
do seu Sangue nos preparem não somente para as festas que se aproximam mas,
sobretudo para o Dia da Vinda do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo!
dom Henrique Soares da
Costa
As
leituras do 3º domingo do Advento garantem-nos que Deus tem um projeto de
salvação e de vida plena para propor aos homens e para os fazer passar das
“trevas” à “luz”.
Na
primeira leitura, um profeta pós-exílico apresenta-se aos habitantes de
Jerusalém com uma “boa nova” de Deus. A missão deste “profeta”, ungido pelo
Espírito, é anunciar um tempo novo, de vida plena e de felicidade sem fim, um
tempo de salvação que Deus vai oferecer aos “pobres”.
O
Evangelho apresenta-nos João Batista, a “voz” que prepara os homens para
acolher Jesus, a “luz” do mundo. O objetivo de João não é centrar sobre si
próprio o foco da atenção pública; ele está apenas interessado em levar os seus
interlocutores a acolher e a “conhecer” Jesus, “aquele” que o Pai enviou com
uma proposta de vida definitiva e de liberdade plena para os homens.
Na
segunda leitura Paulo explica aos cristãos da comunidade de Tessalônica a
atitude que é preciso assumir enquanto se espera o Senhor que vem… Paulo
pede-lhes que sejam uma comunidade “santa” e irrepreensível, isto é, que vivam
alegres, em atitude de louvor e de adoração, abertos aos dons do Espírito e aos
desafios de Deus.
1ª leitura: Is. 61,1-2a.10-11 - AMBIENTE
A
liturgia deste domingo volta a propor-nos um texto do Trito-Isaías (capítulos
56-66 do livro do profeta Isaías). Os capítulos atribuídos a essa figura que se
convencionou chamar Trito-Isaías apresentam-nos um conjunto de textos cuja
proveniência não é totalmente clara… Para alguns, são textos de um profeta
anônimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso
dos exilados da Babilônia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de
textos que provêm de diversos autores pós-exílicos e que foram redigidos ao
longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI
e V a.C.).
Em
qualquer caso, os textos do Trito-Isaías situam-nos na época posterior ao
Exílio e numa Jerusalém em reconstrução. Para os retornados do Exílio, são
tempos difíceis e incertos… A população da cidade é pouco numerosa, a
reconstrução é lenta e modesta, os inimigos estão à espreita. Por outro lado,
os retornados são recebidos com frieza e hostilidade pelos poucos habitantes de
Jerusalém que tinham ficado na cidade e que não tinham ido para o exílio… Aos
poucos, com a reorganização da vida na cidade, voltam as injustiças dos
poderosos sobre os fracos e os pobres, bem como a corrupção, a venalidade e a
prepotência dos chefes. O povo está desanimado e sem esperança.
Os
profetas que desenvolvem a sua missão nesta fase vão tentar acordar a esperança
num futuro de vida plena e de salvação definitiva. Nesse sentido, vão falar de
uma época em que Deus vai voltar a residir em Jerusalém, oferecendo em cada dia
ao seu Povo a vida e a salvação. Essa “salvação” implicará, não só a
reconstrução de Jerusalém e a restauração das glórias passadas, mas também a
libertação dos pobres, dos oprimidos, dos fracos, dos marginalizados.
O
texto que hoje nos é proposto é o princípio (vs. 1-2) e o fim (vs. 10-11) do
capítulo 61 do Livro de Isaías. A menção do “Senhor Deus” (em hebraico,
Jahwéh-Adonai) no versículo 1 e no versículo 11 confirma que todo este capítulo
apresenta uma clara unidade textual e temática. O capítulo está claramente
dividido em três secções. Na primeira (vs. 1-3a), o profeta expressa o sentido
da sua própria vocação; na segunda (vs. 3b-9), o profeta transmite palavras do
Senhor, prometendo a restauração do Povo, da Aliança e de Jerusalém; na
terceira (vs. 10-11), o profeta apresenta uma declaração de alegria,
provavelmente de Jerusalém, em face da promessa de Deus.
MENSAGEM
A
primeira parte do nosso texto (vs. 1-2a) pertence à primeira secção do
capítulo. Aí, o profeta apresenta o sentido da sua vocação e missão. Antes de
mais, ele apresenta-se como o “ungido” do Senhor, sobre quem repousa o
Espírito; e é o mesmo Espírito que o move e o impele para a missão – como
acontecia com os juízes e os antigos profetas (cf. Nm. 11,25-26; 24,2). Embora
não se mencione o termo “profeta”, essa missão apresenta-se como eminentemente
profética: ele é enviado por Deus e a missão tem a ver com o serviço da
Palavra.
Em
concreto, a missão do profeta consiste em anunciar uma “boa notícia”
(“evangelho”), em curar os corações feridos, em proclamar a libertação aos
prisioneiros, em promulgar “o ano da graça do Senhor”. O anúncio do “ano da
graça” alude aos anos jubilares (celebrados de cinqüenta em cinqüenta anos –
cf. Lv. 25,10-17) e aos anos sabáticos (celebrados de sete em sete anos). De
acordo com a Lei de Deus, eram anos destinados a restaurar a situação original
de justiça e implicavam, por isso, a libertação dos escravos (cf. Ex. 21,2; Dt.
15,12), o perdão das dívidas (cf. Dt. 15,1) e a restituição dos bens e
propriedades alienados durante esse período.
Os
destinatários dessa mensagem de esperança são os “pobres”. A categoria
“pobres”, no contexto bíblico, é menos uma categoria sociológica e mais uma
categoria espiritual… Os pobres são os carentes de bens, de dignidade, de
liberdade e de direitos, mas que pela sua especial situação de miséria e de
necessidade são considerados os preferidos de Deus e o objeto de uma especial
proteção e ternura de Deus. Por isso, são olhados com simpatia e até, numa
visão simplista e idealista, são retratados como pessoas pacíficas, humildes,
simples, piedosas, cheias de “temor de Deus” (isto é, que se colocam diante de
Jahwéh com serena confiança, em total obediência e entrega). Representam essa
parte do Povo de Deus freqüentemente maltratada e oprimida pelos poderosos, mas
que se entrega com fé, humildade e confiança nas mãos de Deus e que Deus ama de
forma especial.
A
missão deste “profeta” é, portanto, anunciar um tempo novo, de vida plena e de
felicidade sem fim, um tempo de salvação que Deus vai oferecer aos “pobres”.
A
segunda parte do texto que nos é proposto (vs. 10-11) pertence à terceira
secção do capítulo. Trata-se da parte final do oráculo: após o anúncio de
salvação apresentado pelo profeta, a cidade de Jerusalém manifesta o seu
regozijo e contentamento porque Deus a vai revestir de salvação e de justiça,
como o noivo que cinge o diadema ou a noiva que se adorna com suas jóias… A
última imagem (“como a terra faz brotar os gérmenes e o jardim germinar as
sementes”) sugere a vida e a fecundidade que resultarão da ação salvadora e
libertadora de Deus.
ATUALIZAÇÃO
•
Neste trecho do Trito-Isaías afirma-se, de forma clara, a existência de um
projeto de salvação que Deus tem para oferecer ao seu Povo, especialmente aos
pobres – isto é, a todos aqueles que vivem numa situação intolerável de
carência de bens, de dignidade, de liberdade, de justiça, de vida. O profeta
garante-lhes que Deus os ama, que não os abandona à sua miséria e sofrimento e
que tem um projeto de vida, de alegria, de felicidade para propor a cada homem
ou a cada mulher que a vida magoou. Esta “boa notícia” deve encher de esperança
todos aqueles que não têm acesso aos bens essenciais (educação, saúde,
trabalho, justiça, amor), que não têm vez nem voz, que são injustiçados e
explorados, que são mastigados e digeridos por um sistema econômico que gera
exclusão, alienação e miséria… O Deus em quem acreditamos, diz o Trito-Isaías,
não é um Deus indiferente, que pactua com o racismo, a exclusão, a violência, a
exploração, o terrorismo, o imperialismo, a prepotência; mas é um Deus que ama
cada “pobre” explorado e injustiçado, que está ao lado dos que sofrem e que dá
aos pequenos, aos marginalizados, aos excluídos a força para vencer o desânimo,
a miséria, as forças da opressão e da morte.
•
Como é que Deus atua no mundo? Não é, normalmente, através de manifestações
estrondosas e espetaculares, que deixam a humanidade abismada e assustada; mas
é através dos gestos “banais” desses profetas a quem Ele confia a missão de
lutar contra as forças da opressão e da morte e a quem Ele chama a testemunhar,
no meio dos “pobres”, o amor, a liberdade, a justiça, a verdade, a vida. Cada
crente é um profeta, chamado a ser testemunha de Deus e sinal vivo do seu amor,
da sua justiça e da sua paz. Como é que eu me situo face a isto? Sinto-me
profeta, chamado a testemunhar o amor, a vida, a liberdade de Deus? Os
“pobres”, os oprimidos, os excluídos, encontram em mim um sinal vivo do amor de
Deus? Tenho a coragem de arriscar, de lutar, de dar a cara para que o mundo
seja melhor?
•
Os versículos finais do nosso texto apresentam a reação agradecida e jubilosa
do Povo à ação salvadora de Deus… A descoberta do amor e da presença
libertadora de Deus não pode senão conduzir ao louvor, à adoração, à alegria.
Sei ser grato ao Senhor pela sua presença amorosa, salvadora e libertadora na
vida do mundo e na minha vida?
2ª leitura: 1Ts. 5,16-24 - AMBIENTE
Tessalônica
era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedônia. Porto
marítimo e cidade de intenso comércio era uma encruzilhada religiosa, na qual
os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas
vindas de todo o Mediterrâneo.
A
cidade foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária,
muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalônica
acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade
de Filipos. O tempo de evangelização foi curto – talvez uns três meses; mas foi
o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta,
constituída majoritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de
Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colônia judaica… Os judeus
acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns
cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. At. 17,5-9). Paulo teve de
deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas
(cf. At. 17,10-15).
Entretanto,
Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de
Tessalônica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco
tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse
contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1Ts. 3,1-10). Preocupado,
Paulo enviou Timóteo a Tessalônica, a fim de saber notícias e encorajar os
tessalonicenses na fé (cf. 1Ts. 3,2-5). Quando Timóteo voltou e apresentou o
seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas informações dadas por
Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de Tessalônica, felicitando-os
pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas
dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns
aspectos menos exemplares da vida da comunidade.
A
Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro
escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-verão do ano 50 ou 51.
O
texto que hoje nos é proposto faz parte das exortações com que Paulo encerra a
carta. Depois dos ensinamentos sobre a segunda vinda do Senhor (cf. 1Ts. 4,13-18)
e de um convite veemente a esperar, vigilantes, esse momento final da história
humana (cf. 1Ts. 5,1-11), Paulo apresenta alguns elementos concretos que os
tessalonicenses devem ter sempre em conta e que devem marcar a existência
cristã nesse tempo de espera (cf. 1Ts. 5,12-28).
MENSAGEM
Como
é que os cristãos devem, então, viver esse tempo de espera do Senhor?
No
texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe, Paulo não apresenta
grandes desenvolvimentos nem reflexões muito elaboradas… No entanto, o apóstolo
apresenta sugestões muito úteis para a vida cristã e para a construção da
comunidade.
Paulo
começa por pedir aos tessalonicenses que vivam alegres e que pautem a sua vida
por uma intensa oração, sobretudo a oração de ação de graças. O cristão é
sempre uma pessoa livre e feliz, consciente da presença salvadora e libertadora
de Deus ao seu lado, que contempla permanentemente esse horizonte último de
vida eterna e de felicidade definitiva que Deus lhe reserva e que, por isso,
agradece e louva ao seu Senhor.
Depois,
o apóstolo pede também aos tessalonicenses que abram o coração ao Espírito e
que não desprezem os seus dons. Esta referência pode significar que as
experiências carismáticas começavam a criar problemas na comunidade…
Provavelmente, nem toda a gente entendia e estava aberta às interpelações que o
Espírito fazia através de alguns membros da comunidade… O novo, o espontâneo, o
criativo, chocavam com o rotineiro, o estabelecido, o pré-fixado. Paulo
recomenda aos cristãos de Tessalônica que saibam tudo analisar com cuidado e
discernimento, sem preconceitos, de coração aberto à novidade de Deus,
guardando “o que é bom” e afastando-se de “toda a espécie de mal”.
Uma
comunidade construída de acordo com estes princípios – que vive a sua existência
histórica com alegria e serenidade, que louva o seu Senhor e que está
permanentemente atenta para discernir e aceitar os dons do Espírito – é uma
comunidade “santa” e irrepreensível, preparada para acolher, em qualquer
momento, o Senhor que vem.
ATUALIZAÇÃO
•
A existência cristã é uma caminhada ao encontro do Senhor que vem. Na sua
peregrinação pela história, mergulhados na alegria e na tristeza, no sofrimento
e na esperança, os crentes não podem perder de vista essa meta final que dá
sentido a toda a caminhada. O caminho cristão deve ser percorrido na atenção e
na vigilância, procurando viver com coerência os compromissos assumidos no dia
do Batismo e na fidelidade às propostas de Deus.
•
De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, esse caminho deve ser
percorrido na alegria… O cristão é alegre, porque sabe para onde caminha e está
certo de que no final da caminhada encontra os braços amorosos de Deus que o
acolhem e o conduzem para a felicidade plena, para a vida definitiva. Nem os
sofrimentos, nem as dificuldades, nem as incompreensões, nem as perseguições
podem eliminar essa alegria serena de quem confia no encontro com o Senhor. É
essa alegria serena e essa paz que marcam a nossa existência e que brilham nos
nossos olhos, ou somos seres derrotados, desiludidos, que se arrastam pela vida
mergulhados no desespero e na solidão, sem rumo e ao sabor da corrente e das
marés?
•
De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, esse caminho deve ser
percorrido também num diálogo nunca acabado com Deus. O crente é alguém que
“ora sem cessar” e “dá graças em todas as circunstâncias” pelos dons de Deus,
pela sua presença amorosa, pela salvação que Deus não cessa de oferecer em cada
passo da caminhada. Sabemos encontrar espaços para o diálogo com Deus? Sabemos
sentir-nos gratos por esses dons que, a cada instante, Deus nos oferece?
•
De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, esse caminho deve ser
percorrido, ainda, numa atitude de permanente atenção aos dons e aos desafios
do Espírito. Sabemos estar atentos às propostas de Deus, ou deixamo-nos prender
num esquema de instalação, de rotina, de preconceitos que não nos deixam
acolher e responder aos desafios e à novidade de Deus?
Evangelho: Jo 1,6-8.19-28 - AMBIENTE
O
Evangelho segundo João começa com uma composição que se convencionou chamar
“prólogo” (cf. Jo 1,1-18). Trata-se, provavelmente, de um primitivo hino
cristão conhecido da comunidade joânica, que o autor do Quarto Evangelho
adaptou e onde se expressa a fé da comunidade em Cristo, Palavra viva de Deus,
enviado ao mundo para concretizar o plano de salvação que Deus tinha para
oferecer aos homens. Os primeiros três versículos do texto que hoje nos é
proposto (cf. Jo 1,6-8) pertencem a esse “prólogo”.
Depois
do “prólogo”, o autor do Quarto Evangelho desenvolve, em várias etapas, a sua
catequese sobre Jesus. Na “secção introdutória” que se segue imediatamente ao
“prólogo” (cf. Jo 11,19-3,36), ele procura dizer quem é Jesus e definir a sua
missão, fazendo entrar sucessivamente em cena várias personagens cuja função é
apresentar ao leitor a figura de Jesus. De entre estas personagens, sobressai a
figura de João Baptista, o “apresentador” oficial de Jesus. Ele aparece no
início (cf. Jo 1,19-37) e no fim (cf. Jo 3,22-36) dessa secção introdutória a
dar testemunho sobre Jesus. O corpo central do texto evangélico que hoje nos é
proposto apresenta, precisamente, um primeiro testemunho que João dá sobre
Jesus, diante dos enviados das autoridades judaicas.
Para
percebermos o alcance do diálogo entre João e os líderes judaicos, é preciso
ter em conta o ambiente político, social e religioso da Palestina do século I.
Dominado pelos romanos, humilhado e impossibilitado de definir o seu destino,
afogado em impostos ruinosos, explorado por uma classe dirigente comodamente
instalada nos seus privilégios, escravizado por um sistema religioso ritual e
legalista, o Povo de Deus vivia na expectativa da chegada do Messias
libertador, enviado por Deus para inaugurar uma nova era de liberdade, de
alegria, de felicidade. Muitos israelitas estavam dispostos a aproveitar
qualquer oportunidade de libertação e eram presa fácil dos falsos messias e dos
vendedores de sonhos. As freqüentes aventuras messiânicas falhadas só
aumentavam a violência, a miséria, a pobreza e a frustração nacional.
A
hierarquia religiosa judaica não gostava demasiado de ouvir falar na chegada do
Messias. De fato, um dos objetivos do Messias, segundo a concepção corrente,
deveria ser a reforma das instituições da hierarquia religiosa judaica,
considerada indigna. Não admira, pois, que as autoridades se inquietassem
diante da atividade de João.
MENSAGEM
Na
primeira parte do nosso texto (vs. 6-8), apresenta-se João. Dele dizem-se duas
coisas: que é “um homem” e que foi “enviado por Deus”. O agente principal nesta
história é, naturalmente, Deus: é Deus que escolhe esse homem e o envia ao
mundo com uma missão concreta. É, habitualmente, esse o “método” de Deus: chama
homens, confia-lhes uma missão e, através deles, intervém no mundo. A missão de
João é “dar testemunho da luz”. A “luz”, no Quarto Evangelho, representa essa
realidade que vem de Deus e com a qual Deus se propõe construir para os homens
um mundo novo de vida definitiva e de felicidade total. João não atua por sua
própria iniciativa, mas em resposta à escolha divina e para concretizar uma
missão que Deus lhe confiou.
Por
outro lado, embora enviado por Deus, João não é “a luz” – isto é, ele não tem a
capacidade de eliminar as trevas que escurecem e desfeiam a vida dos homens,
porque não tem a capacidade de dar vida aos homens. João é apenas “a
testemunha” que vem preparar os homens para acolher esse que vai chegar e que
será “a luz/vida”.
Na
segunda parte do nosso texto (vs. 19-28), temos o “testemunho” de João. A cena
coloca-nos diante de uma comissão oficial, enviada de Jerusalém para investigar
João e constituída por sacerdotes e levitas (encarregados, entre outras coisas,
de vigiar a ortodoxia e a fidelidade à ordem religiosa judaica). No ambiente de
messianismo exacerbado da época, a figura de João e o seu testemunho resultam
inquietantes para os líderes religiosos judeus…
A
comissão investigadora começa por interrogar João com uma pergunta
aparentemente inócua: “quem és tu?”. Os interrogadores não tomam posição.
Limitam-se a esperar que o próprio João declare a sua posição e as suas
intenções. João descarta totalmente a hipótese de ser o Messias. Também não
aceita identificar-se com Elias (de acordo com Mal. 3,22-23, Elias devia vir
preparar o “dia de Jahwéh” – que, no século I era o dia da vinda do Messias
libertador, enviado por Deus para construir um mundo novo). Tampouco aceita
assumir o título de “o profeta” (este título parece aludir a Dt 18,15 e
significava, na época de Jesus, um “segundo Moisés” que deveria aparecer nos
últimos tempos). Na verdade, João não aceita que lhe atribuam nenhuma função
que possa centrar a atenção na sua própria pessoa. As suas três respostas são
rotundas negativas. Ele não busca a sua glória ou a sua afirmação, nem vem em
seu próprio nome; a sua missão é meramente dar testemunho da “luz” e é para
essa “luz” que os holofotes devem ser apontados.
É
dentro deste enquadramento que devemos entender a resposta de João, quando os
seus interlocutores o convidam a definir-se: “eu sou uma voz”. “Voz” é um termo
relacional que supõe ouvintes a quem é comunicada uma mensagem… A “voz” não tem
rosto, é anônima e passa despercebida; o importante é o conteúdo da mensagem. É
isso que João é: uma “voz” através da qual Deus passa aos homens uma mensagem.
É à mensagem e não à “voz” que os homens devem dar atenção.
A
mensagem que a “voz” veicula é: “endireitai o caminho do Senhor”. A expressão é
tomada de Is. 40,3, numa versão livre. Em Isaías, a expressão é usada no
contexto da intervenção salvadora de Deus para fazer regressar à Terra da
Liberdade os judeus cativos na Babilônia. Pedia que o Povo instalado e
acomodado, desanimado e frustrado fizesse um esforço para acolher os desafios
de Deus e aceitasse pôr-se a caminho com Deus em direção a um futuro novo de
vida e de esperança. É essa mesma realidade que João é chamado a acordar no
coração do seu Povo.
As
respostas negativas de João desconcertam a comissão… Se João não reivindica
nenhum dos títulos tradicionais – “Messias”, “Elias”, “o profeta” – a que
título é que ele batiza?
O
batismo ou imersão na água era um símbolo relativamente freqüente no judaísmo.
Era usado como rito de purificação (por exemplo, para um enfermo curado da sua
doença – cf. Lev. 14,8) ou para significar a mudança de estado de vida (podia
significar, por exemplo, a passagem de uma situação de escravidão a uma
situação de liberdade; para os prosélitos, significava o abandono das práticas
e crenças pagãs e a adesão ao judaísmo). O batismo de João significava,
provavelmente, a ruptura com a vida das trevas e o desejo de aderir a uma nova
vida. Para João seria, apenas, um primeiro passo para acolher “a luz”.
João
evita responder diretamente à objeção que os fariseus lhe colocam. Ele prefere
desvalorizar o seu batismo com água e apontar para “aquele” que vem e a quem
João não é digno “de desatar as correias das sandálias”. Esse é que é “a luz”
que vai libertar o homem da escuridão, da cegueira, da mentira, do egoísmo, do
pecado. É como se João dissesse: “não vos preocupeis com o batismo com água que
eu administro, pois ele é, apenas, um símbolo de transformação e de adesão a
uma nova realidade; mas olhai antes para essa nova realidade que já está no
meio de vós e que o Messias vos vai oferecer. É o batismo do Messias (o batismo
no Espírito) que transformará totalmente os corações dos homens, os fará livres
e lhes dará a vida definitiva. Esse que vem batizar no Espírito já está
presente, a fim de iniciar a sua obra libertadora. Procurai conhecê-lo – isto
é, escutá-lo e acolher a sua proposta de vida e de libertação”.
A
indicação de que os líderes não “conhecem” esse “alguém” que já chegou e do
qual João apenas é “a voz” é, provavelmente, uma denúncia da situação em que se
encontra a classe dirigente judaica, instalada nos seus privilégios, certezas e
preconceitos e muito pouco aberta à novidade e aos desafios de Deus.
ATUALIZAÇÃO
•
A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a endireitar “o caminho do
Senhor”. É, na linguagem do Evangelho segundo João, um convite a deixar “as
trevas” e a nascer para “a luz”. Implica abandonar a mentira, os comportamentos
egoístas, as atitudes injustas, os gestos de violência, os preconceitos, a
instalação, o comodismo, a auto-suficiência, tudo o que desfeia a nossa vida,
nos torna escravos e nos impede de chegar à verdadeira felicidade. Em termos
pessoais, quais são as mudanças que eu tenho de operar na minha existência para
passar das “trevas” para a “luz”? O que é que me escraviza e me impede de ser
plenamente feliz? O que é que na minha vida gera desilusão, frustração,
desencanto, sofrimento?
•
A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a olhar para Jesus, pois só Ele
é “a luz” e só Ele tem uma proposta de vida verdadeira para apresentar aos
homens. À nossa volta abundam os “vendedores de sonhos”, com propostas de
felicidade “absolutamente garantida”. Atraem-nos, seduzem-nos, manipulam-nos,
escravizam-nos e, quase sempre, deixam-nos decepcionados e infelizes, mais
angustiados, mais perdidos, mais frustrados. João garante-nos: só Jesus é “a
luz” que liberta os homens da escravidão e das trevas e lhes oferece a vida
verdadeira e definitiva. A quem dou ouvidos: às propostas de Jesus, ou às propostas
da moda, do politicamente correto, das pessoas “in” que aparecem dia a dia nas
colunas sociais e que ditam o que está certo e está errado à luz dos critérios
do mundo? Que significado é que Jesus e a sua proposta assumem no meu dia a
dia?
•
Jesus marca, realmente, a minha existência? Os valores que Ele veio propor têm
peso e impacto nas minhas decisões e opções? Quando celebro o nascimento de
Jesus, celebro um acontecimento do passado que deixou a sua marca na história,
ou celebro o encontro com alguém que é “a luz” que ilumina a minha existência e
que enche a minha vida de paz, de alegria, de liberdade?
•
O “homem chamado João”, enviado por Deus “para dar testemunho da luz”,
convida-nos a pensar sobre a forma de Deus atuar na história humana e sobre as
responsabilidades que Deus nos atribui na recriação do mundo… Deus não utiliza
métodos espetaculares e assombrosos para intervir na nossa história e para
recriar o mundo; mas Ele vem ao encontro dos homens e do mundo para os envolver
no seu amor através de pessoas concretas, com um nome e uma história, pessoas
“normais” a quem Deus chama e a quem confia determinada missão. A todos nós,
seus filhos, Deus confia uma missão no mundo – a missão de dar testemunho da
“luz” e de tornar presente, para os nossos irmãos, a proposta libertadora de
Jesus. Tenho consciência de que Deus me chama e me envia ao mundo? Como é que
eu respondo ao chamamento de Deus: com disponibilidade e entrega, ou com
preguiça, comodismo e instalação?
•
A atitude simples e discreta com que João se apresenta é muito sugestiva: ele
não procura atrair sobre si as atenções, não usa a missão para a sua glória ou
promoção pessoal, não busca a satisfação de interesses egoístas; ele é apenas
uma “voz” anônima e discreta que recorda, na sombra, as realidades importantes.
João é uma tremenda interpelação para todos aqueles a quem Deus chama e envia…
Com ele, o profeta (isto é, todo aquele a quem Deus chama e a quem confia uma
missão) deve aprender a ficar na sombra, a ser discreto e simples, de forma a
que as pessoas não o vejam a ele mas às realidades importantes que ele propõe.
•
A atitude dos fariseus e dos líderes judaicos, cheios de preconceitos,
preocupados em manter os seus esquemas de poder e instalação, instalados no seu
comodismo e nos seus privilégios, impede-os de “conhecer” “a luz” que está a
chegar. Trata-se de um aviso, para nós: quando nos instalamos no nosso
comodismo, no nosso bem-estar, na nossa auto-suficiência, fechamos o coração à
novidade e aos desafios que Deus nos faz… Dessa forma, não reconhecemos Jesus
quando Ele vem ao nosso encontro e não O deixamos entrar na nossa vida. A
liturgia convida-nos, neste Advento, à desinstalação, a fim de que o Senhor que
vem possa nascer na nossa vida.
p. Joaquim Garrido, p.
Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho