quarta-feira, 21 de março de 2018
terça-feira, 20 de março de 2018
DOMINGO DE RAMOS-Ano B
DOMINGO DE RAMOS
25 de Março – Ano B
Evangelho Mc 14,1-15,47
·
-DOMINGO DE RAMOS-José Salviano. ·
Neste domingo vemos Jesus
glorioso, entrando em Jerusalém, e sendo aclamado como um rei, pelo povo
agradecido por sua generosidade e poder de cura. Continuar lendo
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Domingo de ramos –
a proximidade da paixão
A liturgia de domingo de ramos tem duas
partes. A primeira é a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelos “meninos
hebreus” que, com alegria, agitam ramos de oliveira em sinal de paz. Eles
gritam “hosana, hosana, ó filho de David”, numa extraordinária manifestação de
fé. A narrativa é de Marcos. A segunda parte é a celebração da eucaristia que
contém três textos da palavra de Deus: a profecia de Isaías, anunciadora do
servo de Javeh que, maltratado dá a imagem do que vai ser o mistério de Jesus
Cristo, o Salvador pelo sofrimento; a carta aos filipenses em que S. Paulo faz
a síntese do mistério de Jesus “obediente até à morte e à morte na cruz, pelo
que Deus lhe deu um nome que está acima de todo o nome” (Flp. 2,8-9); e o
Evangelho de Marcos que contém a narrativa da Paixão, como Pedro a viveu e é
anunciada nas suas catequeses.
1. O servo de Javeh
Nunca é demais refletir sobre esta
extraordinária profecia, uma vez que o servo, descrito por Isaías, anuncia a
pessoa de Jesus, o Messias esperado. Três notas definem o servo de Javeh. Ele é
escolhido de Deus e por ele ungido; ele aceita todo o sofrimento como primícias
da redenção necessária; ele celebra a total comunhão com Deus para realizar o
projeto de salvação que o Senhor queria para o seu povo.
2. O redentor universal
Na síntese teológica mais bela dos
escritos de Paulo, a pessoa de Jesus é vista como o filho que aceitou ser fiel
até à morte, e a morte na cruz. Marcado pela ignomínia dos homens, mereceu a
redobrada ternura de Deus que lhe deu “um nome que está acima de todos os
outros nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu” (Flp. 2,10).
O novo servo de Javeh é Jesus o filho de Deus que veio para ser reconhecido por
todas as nações. Não há salvação em nenhum outro.
3. A paixão segundo são Marcos
Cada evangelista descreve a paixão de
Cristo, segundo a sua própria experiência. Marcos teve o privilégio de
acompanhar Pedro na sua missão apostólica. Quantas vezes terá escutado Pedro a
falar da sua experiência na Paixão de Jesus? Na sua narrativa da Paixão coloca
4 cenários: na ceia, em diálogo maravilhoso com os discípulos, com
interpelações a Judas e palavras de conforto ou de atenção a Pedro e aos seus
companheiros; no Horto das Oliveiras, onde com Pedro, Tiago e João, próximos,
viveu na maior solidão a expectativa da morte; nos tribunais de Caifás
(tribunal religioso), de Pilatos (tribunal político), da multidão (tribunal
popular), tribunais em que a sentença foi sempre a condenação injusta; no
Calvário, onde já pendurado na cruz sentiu com angústia o aparente abandono do
Pai. Descobrir as características da paixão, no evangelho de S. Marcos, é um
bom convite para a meditação na semana santa.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Iniciamos, neste domingo, a semana mais
importante do ano litúrgico, rememorando a entrada de Jesus em Jerusalém antes
da sua morte redentora para concluí-la celebrando o triunfo absoluto do Senhor
na sua Ressurreição. São dias muito especiais. Neles poderemos reviver e
manifestar nossa fé e devoção participando ativamente das celebrações junto com
a comunidade cristã.
O triunfo de Jesus passa pela
humilhação da cruz (1ª leitura). A sua atitude de profunda humildade perpassa,
como pano de fundo, todas as celebrações da Semana Santa (2ª leitura). A
leitura completa da Paixão (evangelho) nos permite contemplar em profundidade o
amor de Jesus por nós e o mistério da nossa Redenção.
Evangelho: Marcos
11,1-10
A cidade de Jerusalém estava pronta
para celebrar a Festa da Páscoa: peregrinação ao templo, muita gente chegando
na cidade, encontro de conhecidos, sacrifício de animais, celebração da ceia
pascal... Também Jesus estava chegando com seus discípulos para celebrar a
Páscoa e uma multidão o aclamava com vivas, palmas e ramos. Antes havia
surpreendido a todos pedindo um jumentinho para entrar montado nele. Lembrando
o que disse o profeta Zacarias 9,9: “Grite de alegria, cidade de Jerusalém,
pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado
num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta”. O povo entende o gesto, o
reconhece como Messias e o aclama com entusiasmo como aquele que traz o reino
da verdadeira justiça (“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”).
Jesus é o Rei-Messias que vai
confrontar-se com o centro de poder da sociedade judaica, simbolizado pela
cidade de Jerusalém e pelo Templo, sede do poder econômico, político,
ideológico e religioso. Ele não entra na cidade de forma triunfal, como rei,
montado num vistoso cavalo de guerra. Entra como simples homem, humilde e
pacífico, montado num jumento, animal de trabalho, e identificando-se com os
pobres.
À diferença do Messias que esperavam,
Ele traz consigo a inversão de um sistema social apoiado na força, no poder e
na violência, defendendo os privilegiados e desprezando os humildes. Montado
num jumento, está claro que Ele não vem para dominar, mas para servir!
1ª leitura: Isaías
50,4-7
A missão do “Servo de Deus” é aqui
apresentada como forma de “ajudar os desanimados com uma palavra de coragem”.
Ele mesmo se torna discípulo obediente e não se opõe à vontade do Pai nem se
protege do sofrimento que envolve sua missão num mundo dominado pela injustiça
e o egoísmo. Em meio ao sofrimento na realização do seu ministério, sente a presença
do Senhor que o defende e o renova (“o Senhor Javé me ajuda”). Por isso, não
recua diante das dificuldades e ataques dos adversários e oferece uma
resistência passiva (“apresentei as costas para aqueles que me queriam bater e
ofereci o queixo aos que me queriam arrancar a barba, e nem escondi o meu rosto
dos insultos e escarros”).
Os estudiosos da Bíblia não sabem dizer
quem é este servo de Deus, mas a tradição da Igreja tem como certo que se trata
do Senhor entregue aos seus algozes e suportando as torturas com dignidade.
Essa foi a atitude de Jesus e essa é a característica fundamental de seus
seguidores diante da violência injusta por causa da fé.
2ª leitura:
Filipenses 2,6-11
Para exortar os cristãos de Filipos a
viver num estilo de vida inspirado nos “mesmos sentimentos que havia em Jesus
Cristo” (Filipenses 2,5), Paulo cita aqui um belíssimo hino litúrgico da época
que apresenta Cristo como modelo da humildade.
Embora tivesse a mesma condição de Deus, Jesus se apresentou entre os humanos como simples homem. Abriu mão de qualquer privilégio, tornando-se apenas um ser humano obediente a Deus, filho de um povo dominado e a serviço de todos os homens. Mais ainda: submeteu-se à experiência mais difícil, que é a morte. Não bastasse isso, Jesus se entregou até o fim, aceitando a desonra da morte numa cruz, como se fosse um malfeitor, descendo desta forma até os porões da humanidade.
Embora tivesse a mesma condição de Deus, Jesus se apresentou entre os humanos como simples homem. Abriu mão de qualquer privilégio, tornando-se apenas um ser humano obediente a Deus, filho de um povo dominado e a serviço de todos os homens. Mais ainda: submeteu-se à experiência mais difícil, que é a morte. Não bastasse isso, Jesus se entregou até o fim, aceitando a desonra da morte numa cruz, como se fosse um malfeitor, descendo desta forma até os porões da humanidade.
Como resposta a esta “humilhação e
esvaziamento”, o Pai o ressuscitou e o colocou no mais alto lugar que possa
existir na criação, Isto é, no lugar de “Kyrios” = “o Senhor” do universo e da
história (título atribuído somente a Deus).
Reconhecer e aceitar Jesus como “O
Senhor” é a maior expressão de louvor “para a glória de Deus Pai”. Um louvor
que, para não ficar só em palavras, deve traduzir-se na imitação prática do
Senhor, abrindo mão de todo e qualquer privilégio, até mesmo da boa fama e do
bom nome, para colocar-nos, sem reservas, a serviço dos irmãos.
Marcos 14,32-52
Depois da ceia, Jesus sentiu a
necessidade de falar com o Pai, mas não muito longe dos discípulos. Precisava
do apóio deles nesse momento em que, diante da morte, sentia pairar sobre si o
que São João da Cruz chamaria de “a noite da alma” («Minha alma está numa
tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem»).
Ao assumir sobre si o pecado de toda a
humanidade, sentia-se angustiado, frágil e com verdadeiro medo de morrer
(”prostrou-se por terra e pedia que, se fosse possível, aquela hora se
afastasse dele”). Por um lado, sua natureza humana estava agoniada e se resistia
a pagar com sua vida o pecado de toda a humanidade (”Pai! Tudo é possível para
ti! Afasta de mim este cálice!”). Por outro lado, estava ali, como Filho de
Deus, para cumprir a sua missão (”Contudo, não seja o que eu quero, e sim o que
tu queres”). Nessa luta interior, conhecendo antecipadamente os detalhes de sua
morte e sentindo a repulsa de tornar-se pecado diante do Pai, sua angústia
chegou a limites inimagináveis. Lucas (como médico que era) descreve a situação
verdadeiramente dramática de Jesus: ”Tomado de angústia, Jesus rezava com mais
insistência. Seu suor se tornou como gotas de sangue, que caíam no chão” (Lucas
22,44).
O que se passava no íntimo de Jesus?
Uma confrontação dramática, entre a necessidade de apoio e a solidão que
sentia, entre o medo e a serenidade, entre a coragem de continuar até o fim e a
vontade de desistir e fugir. Procurou o apoio de seus discípulos, mas eles,
incapazes de alcançar a compreender a profundidade do seu sofrimento, estavam
dormindo (“Simão, você está dormindo?... eles não sabiam o que dizer a Jesus”).
Naquele momento, Jesus estava, realmente, só!
Diríamos que não foi na cruz; foi nesse
momento que Ele sofreu a Paixão. É nessa solidão que Jesus bebe o cálice
amargo, antes de sua morte física. Mas é também, na oração e na vigilância, que
se reanima no seu projeto de vida e assume a vontade do Pai. No momento em que
aceita a vontade do Pai, recupera a sua força e determinação. Agora vai
enfrente, sem temor, até o fim (”Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem
vai ser entregue ao poder dos pecadores. Levantem-se! Vamos! Aquele que vai me
trair já está chegando”).
E Judas chegou..., mas agora Jesus está
no comando da situação. Não se desmorona diante da traição (”Judas logo se
aproximou de Jesus, dizendo: «Mestre!» E o beijou”). E Lucas acrescenta a
resposta de Jesus («Judas, com um beijo você trai o Filho do Homem?» (Lucas
22,48)) como que tentando recuperá-lo ainda, e querendo-o perdoar.
Pedro, tenta defender Jesus com as
mesmas armas dos opressores, puxando a espada, mas Jesus o repreende, se
entrega e toda resistência se desmorona (”Então todos fugiram, abandonando
Jesus”). Agora, sim, Ele fica só de vez e começa, de fato, a sua Cruz.
Palavra de deus na
vida
A oração de Jesus no Getsémani é a
quinta-essência da oração. Por um lado, em quanto homem, reconhece diante do
Pai que está apavorado com a perspectiva da morte; por outro, como Filho de
Deus, aceita a vontade do Pai. Olhando este seu exemplo podemos sentir, na
prática, a profundidade da oração que Ele nos ensinou: “Vocês devem rezar
assim:,.. seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
A vontade de Deus é que deve prevalecer
sempre; não a nossa. Mas, como evitar ficarmos com medo diante do sofrimento,
da provação e da morte? Diremos, então: “Pai! Tudo é possível para ti! Afasta
de mim este cálice!”. Mais do que um pedido, um desejo que não pretende se opor
à vontade do Pai. Como Jesus, logo emendaremos: “Contudo, não seja o que eu
quero, e sim o que tu queres”.
Quem teve de passar por momentos
difíceis na vida e fez suas as palavras de Jesus, na oração, sabe o que é isso.
É sentir o medo e a repulsa de beber o cálice amargo, mas sem ficar desesperado
diante da provação e aceitando de antemão, com fé e confiança, a vontade do Pai.
É reconhecer que nós não temos o controle de nossa vida e entregar as rédeas
nas mãos de Deus para que Ele faça aquilo que (sabemos mas não entendemos) será
o melhor.
Nada a ver com aquele ditado,
aparentemente religioso, mas muito superficial, que à expressão “se Deus
quiser...”, acrescenta: “... e Ele quer!”. Ora! Sabemos, sim, que Ele quer
sempre o nosso bem. Mas não sabemos se será do nosso modo, no nosso tempo,
conforme às nossas expectativas. Ele é quem sabe! Por isso, quando digo “se
Deus quiser...”, nada tenho a acrescentar. Apenas me confio n'Ele e não tenho a
mínima pretensão de torcer a vontade de Deus para o meu lado. Estou querendo
(isso sim) que a minha vontade coincida com a vontade de Deus. Mais nada!
Pensando bem...
+ Mais do que as chicotadas, mais do
que os pregos, mais do que a cruz, o que deve ter doído em Jesus é a solidão
diante do Pai, a traição de Judas (um discípulo de confiança) e a covardia dos
seus adversários, mandando prendê-lo escondido, à noite. Mais ainda, porém,
deve ter sido carregar os pecados do mundo. Logo Ele, a pura santidade, se fez
pecado para pagar em si mesmo o preço do nosso resgate.
+ Descobrimos, desta forma, até onde
vai o amor de Deus por nós. A dor, o sofrimento e a cruz tem sentido quando se
aceitam por amor, quando se vivem como forma de entrega pelas pessoas amadas.
Cumpre-se o que disse o Senhor: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a
vida por seus amigos” (João 15,13).
padre Ciriaco
Madrigal
"Bendito o que
vem em nome do senhor"
Domingo de Ramos é a porta de entrada
da Semana Santa. Com a celebração de hoje, entramos na "grande
semana" ou mais conhecida "Semana Santa". Para as comunidades
cristãs, esta semana maior sempre será um conforto com o problema do mal no
mundo. Muito sofrimento. Além das catástrofes naturais, há no mundo muita opção
de morte, desde a violência da guerra, o terrorismo, a violência urbana, a
morte pela fome e a falta de justiça e paz, até a violência contra a própria
natureza.
Durante esta semana somos levados a
rever e rememorar os acontecimentos finais da vida de Jesus Cristo. O auge da
Semana Santa é o tríduo pascal: quinta-feira santa, sexta-feira santa (ou da
Paixão e morte de Jesus) e sábado santo (ou vigília pascal.
Evangelho da bênção:
Mateus 11,1-10
O Evangelho faz parte da semana pascal
do evangelista João. É um "texto sinótico" do quarto Evangelho, e
pode ser comparado com Mateus 21,1-9. Nos sinóticos, a entrada de Jesus em
Jerusalém (que é sua primeira visita aí) e a purificação do Templo formam um
conjunto. Conforme João, Jesus já tinha ido várias vezes a Jerusalém (2,13;
5,1), e desde o capítulo 7 Ele se encontra ai quase permanentemente.
No texto de João, não encontramos a
preparação da entrada em Jerusalém mediante a missão dos apóstolos para conseguir
um jumentinho, como em Marcos 11,1-6. João coloca imediatamente em cena o povo
que vai ao encontro de Jesus com ramos de palmeira, gritando a aclamação
messiânica "Hosana", que significa "Salvai-nos" e faz parte
do Salmo 118/117, "salmo pascal" (Hallel) (João 12,12-13; cf. Marcos
11,7-10). Ao "Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor",
cumprimento do Salmo 118/117, João acrescenta algo que não está tal qual nos
Evangelhos sinóticos: "o rei de Israel" (cf. Marcos 11,10). A partir
deste termo, coloca em termos o motivo do jumentinho do rei messiânico, citando
como Mateus 21,5, o texto de Zacarias 9,9-10. O mais característico do texto de
João é o versículo 16, dizendo que, depois da glorificação (= morte e
ressurreição) de Jesus os apóstolos se lembraram do fato e entenderam que foi
um cumprimento das Sagradas escrituras. João gosta de insistir que as
Escrituras só foram entendidas depois da morte (glorificação) de Jesus
(2,17.22; 7,31; 20,9). É o Espírito que faz entender (cf. 14,26). É, portanto,
na comunhão dos que são de Cristo, que se encontra o sentido das Escrituras. Ao
mesmo tempo, isto explica porque os judeus não entenderam (no tempo de Jesus)
nem entendem (no tempo de João) as Escrituras (cf. 5,39.46s).
João retoma a idéia tradicional de que
Jesus é o Rei messiânico, sentado num jumentinho, mas não no mesmo sentido que
Mateus 21,5, pois João omite a menção de que este rei é suave o que se revela
em Zacarias 9,9, no fato de ele montar num burrinho. Em outros termos, João não
se interessa em descrever Jesus como o Rei humilde, mas como o "Rei de
Israel", título que está presente no começo do seu Evangelho (João 1,49) e
que voltará em outra discussão irônica no fim, quando Poncio Pilatos coloca na
cruz de Cristo o título "Rei dos judeus" e não quer mais mudar o que
escreveu. Também, na história do processo de Jesus, os judeus são apresentados
como desistindo de suas ambições de ter um rei, um Messias: só César mesmo
(João 19,15). Tudo isto nos leva a descobrir a intenção de João de destacar o título
"Rei de Israel", o que significa a mesma coisa que Messias, mas no
contexto do Quarto Evangelho soa um pouco mais polêmico, já que a Igreja está
em discussão com os que se consideram Israel, mas já não são: o judaísmo
rabínico.
O Evangelho de João não dá oportunidade
para uma pregação sobre Jesus como rei humilde. Sim, como Messias, cumprindo as
Escrituras a respeito do "Rei messiânico". Em comparação com Marcos,
Mateus e Lucas, a cena perdeu muito de seu colorido popular. Tornou-se praticamente
uma mera confissão de fé messiânica, mas confissão inconsciente, pois só mais
tarde lembraram-se do sentido (João 12,16). Ora, mesmo os fariseus unem-se a
esta confissão do messianismo de Jesus, reconhecendo que tudo que "todo
mundo vai atrás dele" (João 12,19). Certamente, João quer ilustrar também,
por estas palavras, a situação no seu tempo.
É sobretudo o lugar na liturgia que
valoriza o presente Evangelho. É o começo da "Semana Santa". Fica
claro o contraste entre o entusiasmo da multidão do domingo de Ramos e a
traição na sexta-feira santa.
Num certo sentido, Domingo de Ramos é a
festa de Cristo Rei. O Evangelho de João oferece perspectivas interessantes
sobre este tema, sobretudo no capítulo 18 e 19. Torna claro que o Reino de
Jesus não é "deste mundo" (João 19,36). O texto do capítulo 12
prepara este tema. No capítulo 12, Jesus é Clamado como Messias pelos judeus.
Porém estamos ainda na primeira parte do Quarto Evangelho, o "livro dos
Sinais", em que o "evento" de Jesus fica ambíguo e sujeito a mal
entendidos, já que os próprios discípulos só entendem depois (João 12,16). No
capítulo 19 estamos na segunda parte, o "livro da Exaltação". Aí,
tudo se torna claro, Jesus é Rei e Messias, mas não no sentido em que o mundo o
entende. Sexta-Feira Santa dá a luz para entender o Domingo de Ramos. Também
"todo mundo vai atrás dele" (João 12,19), mas não no sentido em que o
mundo entende isso.
O messianismo (realeza) de Jesus,
celebrado no Domingo de Ramos, é a vitória sobre o mundo, pela cruz. A
ressurreição de Lázaro, que, na visão de João, é a ocasião para a manifestação
popular descrita em João 12,12 ss., é o anúncio da ressurreição daquele que é
"Ressurreição e vida". É isto que se celebra na idéia do messianismo
de Jesus: a "vida" que ele dá, como dom de Deus, na sua morte e
ressurreição.
É evidente que este Evangelho dá uma
base para desenvolvimento no sentido da superação do messianismo terrestre de
qualquer espécie.
Outra opção para o Evangelho da bênção
é Marcos 11,1-10, que é o evangelista do ano.
Primeira leitura:
Isaias 50,4-7
O texto é do terceiro dos assim
chamados "Cânticos do Servo de Javé". Pertence a um profeta chamado
Dêutero-Isaias que compôs Isaias 40-55 e exerceu sua missão em meados do século
VI a.C. entre os exilados da Babilônia. O poema abrange os versículos de 4-9.
Nos versículos 5b-6 aparece a motivação típica (protesto de inocência) que
prepara a súplica dos salmos de lamentação individual: "não fui rebelde,
não me esquivei; aos que me feriam apresentei as minhas costas..." é preferível
qualificar o poema como um salmo individual de confiança. De fato, a partir do
versículo 7 se desenvolvem os dois motivos básicos de tais salmos: a afirmação
de confiança e a certeza de ser atendido.
A lamentação individual no Antigo
Testamento é própria de pessoa de bem em geral, que se consideram injustamente
perseguidas. Entre elas aparecem, sobretudo os mediadores, ou porta-vozes da
Palavra de Deus, como Moisés (cf. Números 11,10-15; Deuteronômio 18,15-19),
Elias (1Reis 19,1-18) e Jeremias (17,17-18;20,7-17). Eles sofrem precisamente
em conseqüência da ingrata missão de mediadores.
Antes de tudo o profeta se apresenta
como um discípulo (v. 4a). Atento às palavras do Mestre, ele não guarda o
conteúdo da mensagem para si, mas a transmite aos outros (cf. Jeremias 1,7;
Ezequiel 2,3-3,4; Deuteronômio 18,18). Esta mensagem já não é uma palavra
ameaçadora como nos profetas pré-exílicos, mas uma palavra libertadora, capaz
de reconfortar os desanimados (cf. Isaias 40,6-11.27-31; 41,14; 42,1-7;
Ezequiel 37,11). Como profeta ele está continuamente atento às palavras que
recebe de Deus (cf. Jeremias 15,16: "Todas as manhãs ele desperta meus
ouvidos para que escute como discípulo" (v. 4b). somente assim torna capaz
de levar sua missão em frente sem desfalecer (v. 5). Como outros profetas (cf.
Amós 7,10-17; Miquéias 2,6.10; Jeremias 20, 7-18) também o Dêutero-Isaias
sofreu o desprezo e a perseguição (versículo 6) da parte de seus ouvintes no
exílio, por causa da mensagem que proclamava. Presume-se que o motivo dessa
reação da comunidade exílica contra o profeta tenha sido o seu universalismo,
pois anunciava o reino messiânico também aos pagãos (cf. Isaias 45,14; 49,6).
Mas como os justos perseguidos dos salmos de lamentação individual (cf. Salmo
5; 6; 22, etc.), ou como Jeremias (15,17, 17,13; 20,11), o profeta põe toda a
sua confiança em Deus, que o fortifica (v. 7) e frustrará os insultos dos
adversários (vs. 8-9).
Também Jesus está animado da mesma
confiança dos profetas que sofreram por causa da mensagem que deviam anunciar.
Inspirado na figura do Servo Sofredor, Ele entra resolvido em Jerusalém para
levar a sua missão até o fim. Ali enfrentará toda espécie de desonra por causa
de sua doutrina, na certeza do apoio divino que o levaria à vitória final.
Qual é o personagem que se esconde
atrás do título "servo", tão rico de conteúdo para p pensamento
cristão? É um dos problemas do Primeiro Testamento mais discutidos pelos
entendidos. Tem-se formulado numerosas hipóteses de interpretação. Há três
correntes maiores.
A primeira vê o Servo de Javé um
indivíduo, distinto do povo (em Isaias 49,6 e 53,3-8 ele desempenha um papel
junto ao povo, enquanto nas outras partes e Dêutero-Isaias a expressão "o
Servo de Javé" indica o povo todo!). Mas não se chegou a um acordo a respeito
desse personagem. Trata-se de uma figura do passado (Moisés; Davi ou um de seus
descendentes); ou no futuro (o Messias; um rei glorioso dos fins dos tempos)? A
dificuldade não vem de hoje. Ela já aparece no Novo Testamento: "De quem
disse isto o profeta: de si mesmo ou de outro?" (Atos 8,32-35).
De qualquer modo unem-se na figura do
Servo de Javé traços proféticos e reais. E ele é também salvador, sacerdote e
vítima ao mesmo tempo que, pelos seus sofrimentos, "intercede pelos
culpados" (Isaias 53,12). Ele tem uma missão missionária junto a todos os
povos.
A segunda corrente dá à expressão
"Servo de Javé" um sentido coletivo. Ele não vê no Servo um
indivíduo, distinto do povo de Israel. É o povo que será luz das nações; que
deverá sofrer a perseguição e a morte pela salvação dos povos. Admite-se que se
trataria de um grupo pequeno de fiéis no meio do povo. Seria o pequeno resto
que permanece fiel a Deus e que deve servir de testemunha aos demais membros do
povo e às nações.
A terceira corrente as duas anteriores.
Ele dá a expressão um sentido representativo. Usa-se o termo: personalidade
corporativa. O Servo de Javé incorporaria na sua pessoa todo o povo, seu
passado e o seu futuro. O profeta que escreveu os cantos teria projetado nele o
verdadeiro Israel. O Novo Testamento proclama a realização destas expectativas
em Jesus de Nazaré, na sua vida, paixão e morte, e ressurreição.
Salmo responsorial
21(22),8-9.17-18a.19-20.23-24
O Salmo é uma súplica a Deus numa hora
de sofrimento e abandono. Salmo de grande intensidade, expressa em imagens
vigorosas, em pedidos insistentes, e também numa esperança triunfante.
O limite do sofrimento é sentir o
abandono de Deus, que parece não ouvir a oração. A gozação das pessoas redobra
a dor do salmista, seu sentimento de abandono; contudo, são também um argumento
para mover a Deus, ao qual os insultos atingem. Do extremo da dor passa para o
a segurança da esperança: a salvação é certa, próxima, e já pode convidar a
comunidade a unir-se com ele no louvor a Deus.
A lamentação e a prece de um inocente
perseguido terminam em ação de graças pela libertação esperada (vs. 23-27 e
adaptam-se à liturgia nacional pelo versículo 24 e o final universalista (vs.
28-32, em que a vinda do Reino de Deus no mundo inteiro aparece logo após as
provações do servo fiel. Próximo do poema do Servo Sofredor (Isaias
52,13-53,12), este salmo, cujo início Cristo pronunciou sobre a cruz e no qual
os evangelistas viram descritos diversos episódios da Paixão, é, portanto,
messiânico, ao menos em sentido típico. É a súplica de uma pessoa num momento
de intenso sofrimento e abandono, retomada por Jesus no momento angustiante de
sua cruz, entreguemos ao Pai a nossa vida e a vida de tantos irmãos e irmãs que
passam pelo vale do sofrimento e da morte.
O rosto de Deus no Salmo 21(22). Há uma
relação íntima e pessoal entre o justo e Deus, a ponto de o justo chamá-lo de
"meu Deus". Os antepassados confiavam em Deus e eram libertos (vs.
5-6). Por causa desse Deus da Aliança é que essa pessoa tem a coragem e a confiança
de clamar. A imagem mais bela de Deus neste Salmo é, portanto, a do Deus que
ouve o clamor do pobre injustiçado e o liberta, fazendo-o cantar hinos de
louvor (versículos 23-27). Aparece de maneira clara o rosto de um Deus
libertador.
De acordo com Marcos (15,34) e Mateus
(27, 46), Jesus rezou este Salmo na cruz. Ele, portanto, é o justo inocente que
clama confiante. E Deus lhe responde com a ressurreição. Jesus em toda a sua
vida ouviu todos os clamores do povo e atendeu com misericórdia. Ele é,
portanto, a resposta do Deus que ouve os clamores e liberta.
Segunda leitura:
Filipenses 2,6-11
No contexto de uma exortação de Filipos
Paulo cita um hino cristológico. Através desta citação sugere que as principais
coordenadas da salvação operada através de Cristo marquem a existência cristã.
Estas coordenadas aparecem na estrutura do hino.
Na glorificação (doxologia) "Jesus
Cristo é o Senhor" em que culmina o hino, dirige-se a Jesus o nome que no
Primeiro Testamento é reservado a Deus. Conforme o hino, Jesus, morto na cruz e
depois exaltado, recebe de Deus e da comunidade o nome de "Javé".
Antes Ele não tinha este nome. Ele era Deus preexistente. Assumindo a natureza
humana poderia ter-se valido desta igualdade com Deus Pai. Ma ao tornar-se
homem e inaugurar a Sua missão preferia apresentar-se á humanidade como servo
de Deus e não como senhor do universo. Esta preferência não era somente de
ordem subjetiva, mas de ordem objetiva. Ele revela que a pessoa humana se
realiza mais na submissão a Deus do que no senhorio sobre o mundo e o universo.
A soberania da pessoa humana só será plenamente humana se e na medida que ela
for serviço de Deus. O fato que Jesus recebe o senhorio sobre o universo depois
de Sua obediência até a morte revela que nela não há nada de usurpação.
"Jesus é Javé". Esta
confissão de fé ou glorificação (doxologia) não é uma divinização ou deificação
indevida que existia no mundo no mundo greco-romano, em que reis e imperadores
se deixavam idolatrar como deuses. Não era uma blasfêmia para os primeiros cristãos
e não o é para nós, porque nela se professa que se procura a salvação em alguém
que deu honra a Deus e recebeu honra de Deus. "Esvaziou-se (ou:
aniquilou-se) a si mesmo... feito obediente até a morte da cruz". Na
confissão de fé "Jesus é Javé" professamos que Deus deu razão a Jesus
e que nós também Lhe damos razão. Isto não é blasfêmia, porque nisso também
professamos que a realização plena da pessoa humana existe na dependência
absoluta de Deus antes, durante e depois da morte; e que, por isso, pode-se arriscar
a vida pela glória de Deus.
Evangelho: Marcos
14,1-15,47 ou 15,1-39 (mais breve)
A narração da Paixão segundo o
evangelista Marcos é a mais antiga versão de que dispomos e a base daquilo que
encontramos também nos outros evangelhos sinóticos.
Marcos não disfarça o terrível paradoxo
do sofrimento do Senhor. Já em 1Coríntios 11,23 a noite da paixão chama-se
"a noite em que foi entregue". Toda a narração da Paixão de Marcos
está sob o signo da traiçoeira entrega. Por Judas Iscariotes Jesus é entregue
ao Sinédrio (Marcos 14,10.11.18.21.42.44); pelo Sinédrio é entregue a Poncio
Pilatos (Marcos 15,1.10); por Pilatos é entregue aos soldados (Marcos 15,15:
dez vezes usa-se o verbo paradidomai!). Os soldados O entregam à morte (Marcos
15,25). Por fim, Deus mesmo O entrega à sua própria sorte, morrendo com um
grito de abandono nos lábios (Marcos 15,34). Em Marcos 14,41 o evangelista
resume todas estas afirmações na frase: "Ele é entregue em mãos dos
pecadores (Marcos 14,41).
Jesus padeceu sozinho. Não foi compreendido
por ninguém e abandonado por todos, inclusive pelos Seus discípulos. São
justamente estes que põem em movimento este processo crescente de abandono, de
entrega e traição: Judas O trai, Pedro O renega e todos O abandonam. No
Getsêmani, durante a hora mais escura da paixão, os discípulos dormem (Marcos
14,37-40), seus discípulos fogem na hora de sua prisão (Marcos 14,50) e, para
ridicularizar esta fuga, Marcos dá um interesse particular ao episódio do moço
fugindo nu (Marcos 14,41-52), evangelho mais longo. O isolamento de Cristo é
assinalado no decorrer da sessão do Sinédrio: quando encontram falsas
testemunhas contra ele (Marcos 14,56-60), quando Pedro proclama seu
contra-testemunho (Marcos 14,62-71), só resta uma única testemunha para
testemunhar "duas vezes" (Marcos 14,72, próprio de Marcos), como
queria a lei judaica a favor de Jesus: o pobre galo! O isolamento de Jesus é
portanto total. Seus discípulos permanecem "à distância" (Marcos
15,40).
Marcos também ressalta o silêncio de
Cristo no decorrer de seu processo (Marcos 14,61; 15,3-4). Contrário a Lucas e
a João, Marcos só assinalará uma única palavra de Jesus Crucificado, fiel à sua
proposta de realçar o "segredo messiânico" (Marcos 5,43; 7,24; 9,30).
Por este silêncio, Jesus quer marcar a distância que separa sua missão real
daquilo que as pessoas esperam, o mistério de sua pessoa, dos títulos que Lhe
são atribuídos.
O tema do isolamento silencioso de
Jesus Cristo é o eco da maneira pela qual Marcos defende a dignidade messiânica
de Jesus no seio dos mais escandalosos insultos. A oposição do rei dos judeus e
de um agitador homicida, a ridícula entronização real de Jesus na sala do corpo
da guarda, as zombarias em volta da cruz isolam Jesus em sua pretensão
messiânica. Mas assim que Ele chegou ao extremo deste isolamento, até na morte,
foi reconhecido como "Filho de Deus" (Marcos 15,39) numa profissão de
fé que por si só aniquila todas as zombarias da multidão, e um grupo de
discípulos se constitui (Marcos 15,40-43), que não estará distanciado de
Cristo, mas em breve formará sua Igreja.
Sabemos hoje porque os discípulos se
escandalizaram e fugiram. Era, porque a sorte de Jesus não correspondia às
expectativas judaico-nacionalistas e terrestre-messiânicas por eles
compartilhadas com a grande massa do povo.
Cada evangelista tem um modo todo
próprio de apresentar esta narração da Paixão e Morte de Jesus: Marcos
caracteriza a Paixão por um realismo trágico: Cristo morre em silêncio e morre
na solidão e aparentemente abandonado pelo Pai. Mateus compara o Mistério da
Nova Aliança inaugurada por Cristo com a Antiga Aliança concluída com Moisés.
Lucas parece insistir mais na Cruz como fator de conversão. Mateus apresenta o
Cristo á luz da fé e O vê em relação à Igreja; Marcos frisa o desconcerto
produzido pelos acontecimentos referentes a Jesus e a seus discípulos; Lucas
acentua a ligação entre os discípulos, aqueles que querem seguir a Jesus e a
sua Cruz. João é mais teológico. Numa perspectiva diferente de Mateus, Marcos e
Lucas, a morte de Jesus aparece como manifestação de sua verdadeira realeza,
que consiste em dar a vida. Para João, na Paixão e Morte de Jesus tudo acontece
porque Jesus quis. As Escrituras deviam encontrar sua realização em Jesus.
Portanto, Jesus morreu quando quis, quando achou que sua missão estava
cumprida. Para João, quem morre na cruz é o Rei Jesus, isto é, o Rei Messias.
Pontos altos da narração da Paixão de
Marcos são as perguntas do sumo sacerdote, chefe do Sinédrio: "És o
Messias, o Filho de Deus bendito?" (Marcos 14,61) e de Pilatos: "Tu
és o rei dos judeus?" (Marcos 15,2.9.12). Nos dois casos Jesus responde
afirmativamente a estas perguntas. Mas estas respostas, em vez de levarem a
reconhecimento e respeito, provocam a mais infame gozação (Marcos 14,65;
15,16-20). Da parte dos romanos, Jesus é desprezado em favor de um assassino e
tratado como e executado com "delinqüentes comuns". Da parte dos
judeus repetem-se em forma de escárnios as falsas acusações alegadas no processo
diante do Sinédrio: a destruição e reconstrução do templo (Marcos 14,58 e
15,29-30) e a dignidade messiânica (Marcos 14,61-62 e 15,31-32). Duas vezes
Jesus é desafiado para mostrar a veracidade de Suas pretensões, descendo da
Cruz (Marcos 15,30.32). O verdadeiro motivo de sua eliminação está ai: não
conseguiram conviver com um Homem que veio libertar e salvar pra valer. O seu
último grito é a oração do salmo 22/21: "Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?" Não é um grito de revolta, gritou pelo Pai porque confiou.
Aqui a Cruz passa a ser anúncio. Faz rasgar o véu do templo que não mais
abrigará a presença de Deus, e abre os olhos e os lábios do primeiro homem que,
no Evangelho de Marcos, profere pronuncia a confissão cristã da fé: "Na
verdade este homem era o filho de Deus". Por sinal, este homem é um pagão
e de alguma maneira cúmplice da execução de Jesus.
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
A partir da entrada de Jesus em
Jerusalém, no Domingo de Ramos, os acontecimentos vão afunilando. Depois de
três anos de missão, de anúncio do Reino de Deus, de muitos contatos, curas,
milagres e pregações, o projeto de Jesus entra num confronto decisivo.
Por um lado, o povo que foi tantas
vezes por ele ajudado, que percebeu nele uma saída de vida, aclama-O, cheio de
profunda esperança, como aquele que haveria de cumprir as promessas de Deus,
como aquele que seria o "vingador dos pobres".
Por outro lado, as elites dominantes,
em parceria com o Império Romano, cheias de privilégios, detentoras de altos rendimentos,
donas de todo o poder político, econômico e religioso, não aceitam essa
liderança e tramam a morte do Justo.
É o que percebemos no domingos de Ramos
da Paixão do Senhor, portal da Semana Santa: um processo rapidíssimo, uma
traição, um beijo falso, um julgamento sob pressão, um juiz covarde, a
condenação de Jesus à morte. O povo se frustra, desanima. Parece que não
adianta lutar, que as coisas têm de ser assim mesmo. Parece que tudo termina
por aí: os pobres sempre mais pobres, as violências crescendo, a injustiça
aumentando e tirando a paz do mundo e os inocentes morrendo.
Mas não é bem assim. Com a Paixão,
Morte e Ressurreição de Jesus, o Bom Deus nos mostra o caminho da salvação, que
passa pela cruz, porque Ele respeita a liberdade humana, gananciosa e cheia de
pecados. Foi o caminho que Deus escolheu com a Encarnação de Jesus. Realizou um
esvaziamento (kenose) de si mesmo no serviço, no lava-pés. Assumiu sobre si
nossas dores. Enfrentou o sofrimento e a perseguição dos poderosos.
Historicamente, essa opção de Deus também resultou em violência: a morte do
Filho de Deus, o Justo e santo, numa cruz.
Contraditoriamente, porém, dessa cruz,
instrumento de morte, brotou a vida, a ressurreição, a semente do novo, a
proposta da Igreja das comunidades fraternas. No mundo em que vivemos, afundado
na ganância e no pecado, a salvação passa por esse processo de morte-vida. O
mistério do mal (do sofrimento do justo, do inocente; das traições das
infidelidades e violências) só começa a ter um princípio de explicação quando
se olha para a cruz de Jesus. Parece que até Deus fica impotente diante do
grito do Justo, diante do sofrimento de Jó, diante do Cristo pendente da cruz
("Não é possível que passe de mim este cálice?"; "Meu Deus, meu
Deus, por que me abandonaste?").
A Palavra se faz
celebração
Palmas: Sinais da Vitória
A tradição ortodoxa conhece, segundo a
liturgia de são João Crisóstomo um tropário chamado de apolitikion, rezado logo
após um pequeno refrão de abertura. Trata-se da Oração Principal da Festa. Para
o domingo de Ramos o tropário diz: ó Deus, antes da tua paixão, dando-nos uma
garantia da ressurreição geral, ressuscitaste Lázaro dos mortos. Por isso, nós
também, como filhos dos hebreus, levamos os símbolos da vitória, clamando: Ó
vencedor da morte, Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do
Senhor!" Em nossa liturgia ocidental, o rito de Ramos começa com uma
antífona que coincide com o final desse tropário oriental: Saudemos com hosanas
o Filho de Davi! Bendito o que nos vem em nome do Senhor! Jesus, rei de Israel,
Hosana nas alturas! A exortação que se segue, preparando a bênção dos ramos,
articula a rememoração da entrada em Jerusalém com a nossa participação na
ressurreição.
O tropário oriental, porém, nos
apresenta este nexo de maneira mais clara e além disso nos dá a chave para
celebrarmos os mistérios da Semana Santa, cujo domingo de Ramos é abertura:
"ó vencedor morte, Hosana nas alturas!" Com os olhos pascais é que a
liturgia nos convida a adentrar nos ritos que se seguem durante esta semana.
Nosso olhar atravessa o sofrimento e foca a atenção na Páscoa.
O sentido das palmas nas mãos, segundo,
segundo este tropário, vai na mesma direção: "Levamos os símbolos da
vitória". A liturgia, portanto, já nos ritos iniciais, interpreta a paixão
e ressurreição do Senhor e nela nos envolve como participantes desse mistério
central da nossa fé. Um outro tropário, que vem logo em seguida diz:
"Fomos sepultados contigo pelo batismo, ó Cristo Deus, e pela tua
Ressurreição, merecemos a vida eterna. Por isso a ti cantamos em alta voz:
Hosana nas alturas". Esta referencia ao batismo é interessantíssima
se entendermos que a Quaresma tem forte conotação batismal e que a Vigília
Pascal renova os iniciados as suas promessas de ser seguidores e seguidoras (e
fiéis missionários e missionárias) do Servo Sofredor, recebido e proclamado
hoje pelas multidões Rei e, ainda, segundo a liturgia Oriental manifestação de
Deus que a nós se revelou.
Ligando a palavra com
a ação eucarística
Seguindo os passos de Jesus, fazemos memória
de sua entrada em Jerusalém para realizar o mistério de sua morte e
ressurreição e que chamamos de "mistério pascal". Com os ramos nas
mãos, aclamamos Jesus como o verdadeiro Messias, nos associamos à sua cruz para
podermos participar de sua ressurreição e vida (exortação inicial). Demos
graças, porque só assim nosso sofrimento e nossa morte têm sentido, e na
comunhão do seu corpo glorioso já participamos da vida nova, ultrapassando a
morte.
Damos graças ao Pai que hoje nos
apresenta, em Jesus, o sentido que buscamos para nosso sofrimento e morte. Ao
comungar seu corpo glorioso, participamos desde já da vida que vence
definitivamente a morte.
O simbolismo dos
ramos
O simbolismo da "arvore" é
muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a "árvore do
conhecimento do bem e do mal" e a "árvore da vida" (Gênesis 2,9;
Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o
carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o povo
de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal de
que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de seu
fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a saúde,
carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis, profetas e
sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma
"oliveira selvagem" que foi enxertada na oliveira boa, Israel
(Romanos 11,16-24).
Os ramos desta procissão são uma
metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação vida-morte-vida.
As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a morte, pois
esses ramos secarão; mas elas também os "doam" para servir ao Senhor
da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós como
alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa forma,
então, eles "morrem" para que nós tenhamos vida!
padre Benedito
Mazeti
1 – A vida não é a
preto e branco. Afirmação já muito batida. Melhor, que a vida não seja
cinzenta! São diferentes as cores e as matizes dos nossos dias. Como o tempo,
também na nossa vida, há dias de sol e dias nublosos, dias de chuva e dias
preguiçosos.
A celebração do
domingo de Ramos apresenta um quadro completo, fazendo-nos visualizar, através
de momentos e de intervenientes variados, diversas faces da nossa existência.
Há uma multidão de
gente pobre e humilde, trabalhadora e cheia de fé, que acompanha Jesus, da
Galileia para Jerusalém, do mundo para a cidade santa. A multidão gera
alvoroço. Há um murmúrio que se eleva, aclamando e reconhecendo Jesus como o
Messias, o Filho de David, o Rei de Israel, o Bendito que vem em Nome do
Senhor.
À Sua passagem depõem
capas e ramos, para que o chão de Jesus seja macio e, sobretudo, como
reconhecimento da Sua realeza. É um Rei sem coroa e sem exército, sem pompa nem
circunstância. Não vem armado nem ostenta riqueza. Não vem no alto de um cavalo
de combate, mas quase com os pés no chão, num jumentinho, filho de uma jumenta
(cf. Mc. 11,1-10).
A voz sobe de tom e o
entusiasmo à volta de Jesus faz-nos olhar na Sua direção.
Os discípulos estão
misturados entre aquela multidão. Passam despercebidos. Seguem no mesmo passo
ligeiro, empolgados com tão grande manifestação de afeto para com o Seu Mestre
e Senhor. Jesus já os tinha precavido dos tempos que lá vinham. Mas, por alguns
momentos, eles esquecem o anúncio da paixão e os sinais que evidenciam o perigo
iminente.
2 – Algumas horas
depois, o empolgamento dará lugar ao desencanto, a festa cederá à tristeza, a
confiança será substituída pela desilusão.
Belíssimo o hino que
Paulo recolhe na Epístola aos Filipenses e que resume, de forma sublime, todo o
mistério da salvação, o abaixamento de Cristo por amor, a Sua filiação e
identidade divina, a Sua identificação com a fragilidade e finitude humanas, a
glorificação que se realiza através do mistério da entrega na Cruz, o Nome que
é elevado acima de todos os nomes, sentando-Se à direita do Pai, de onde nos
atrai com a Sua luz, com o Seu olhar: «Cristo Jesus, que era de condição
divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si
próprio... tornou-Se semelhante aos homens... humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se
ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus
Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai».
3 – «Meu Deus, meu
Deus, porque me abandonastes?». Início do salmo que hoje cantamos e que encontramos
nos lábios de Jesus, e no Seu coração, dirigindo o Seu clamor e a Sua confiança
para Deus Pai. A oração continua: «Todos os que me vêem escarnecem de mim,
/ estendem os meus lábios e meneiam a cabeça: / Confiou no Senhor, Ele que o
livre, / Ele que o salve, se é meu amigo. / Matilhas de cães me rodearam, /
cercou-me um bando de malfeitores. / Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
/ posso contar todos os meus ossos. / Repartiram entre si as minhas vestes / e
deitaram sortes sobre a minha túnica. / Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de
mim, / sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».
«Meu Deus, meu Deus,
porque me abandonastes?». O final da vida de Jesus ou o início de um tempo
novo? As palavras que soam mais alto são as que sugerem revolta, protesto,
acusação! Quantas situações na nossa vida em que nos apetece gritar bem alto:
Meu Deus, meu Deus, porquê, porquê a mim? Porquê logo neste momento da minha
vida?
O salmo inicia com
uma pergunta que pouco a pouco dá lugar a uma súplica confiante: nestes
momentos difíceis da minha vida, Senhor, não me abandoneis, pois sois a minha
força. É a súplica de um filho a um pai ou a uma mãe. Mais que protesto é um
pedido. O fim que se aproxima, aproxima-nos uns dos outros, aproxima-nos de
Jesus. «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Diz o centurião, mesmo que à
procura do significado das palavras que acabou por dizer. No último suspiro,
Jesus entrega-Se por nós, entrega-nos ao Pai.
4 – Umas horas antes,
os discípulos tomam consciência que o desenlace da vida de Jesus não vai ser
como esperavam. Apercebem-se pela gravidade com que Jesus os olha e pela
solenidade com que lhes fala. Há que deixar tudo em pratos limpos, que nada (de
importante) fique por dizer, mesmo que só mais tarde, à luz da ressurreição,
seja compreensível.
Como judeus, Jesus e
os discípulos vão celebrar a Páscoa, recordando a libertação da escravidão para
a liberdade da terra prometida. O ambiente começa a agitar-se. Em Betânia, à
mesa, nova oportunidade para Jesus assentar o estômago aos seus
discípulos. "Veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com
perfume de nardo puro de alto preço". Os discípulos percebem o
desperdício mas não a abundância do arrependimento e do amor. Também não
percebem, mas Jesus lembra-lhes, que aquela unção antecipa a unção de um corpo
que daqui a algumas horas estará no sepulcro.
Novo golpe. Ao cair
da tarde, quando as trevas se adensam, diz-lhes Jesus: «Um de vós, que
está comigo à mesa, há de entregar-Me». Como é possível num grupo de amigos,
que se consideram irmãos, alguém possa sequer pensar em trair Jesus!
Logo depois, Jesus
antecipa a Sua morte e a Sua ressurreição. «Tomai: isto é o meu Corpo...
Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos
homens... Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei
do vinho novo no reino de Deus».
Mas antes desse DIA
NOVO, a noite prolonga-se no abandono, na traição, na negação. «Todos vós
Me abandonareis». Já no horto das Oliveiras, a oração intensa de Jesus. Os discípulos
que dormem de cansaço e de medo. A prisão. O discípulo de confiança, Judas, que
entrega o Mestre com um beijo. Os açoites, as injúrias e agressões, acusações e
falsas testemunhas. Parece que vale tudo para condenar um homem. A negação de
Pedro, a passagem de um a outro tribunal, uma outra multidão, cheia de si ou
iludida por vãs promessas e por vis mentiras. No Sinédrio, e diante de Pilatos,
que se deixa vencer pelo medo e pela ameaça, pois não se vê a perder o seu
posto! O julgamento apressado e a fácil condenação à morte. A cruz pesada
demais para um homem só, de tal que requisitam Simão de Cirene para ajudar. No
alto da Cruz, Jesus olha para nós e puxa o nosso olhar para o Céu. Está rodeado
de dois salteadores, como se fora um deles! E mesmo crucificado, a morrer, é
insultado.
Já desfalecido, solta
forte grito e morre. A afirmação do Centurião mostra a estupefação diante da
valentia com que aquele homem frágil enfrentou todos os que escarneciam d'Ele e
a violência com que o faziam. O Seu corpo morto está uma lástima, está
irreconhecível.
Mas ainda há lugar
para a generosidade. «José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e
envolveu-O no lençol; e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. Entretanto,
Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido
depositado». Um último gesto de cuidado.
5 – Isaías, o profeta
do Advento e da Quaresma, dá-nos a chave de leitura para percebermos melhor a
vida e a missão do Messias que vem de Deus, como o Emanuel, Deus conosco,
Príncipe da Paz, para instaurar um reino de conciliação, de justiça e de paz.
«O Senhor deu-me a
graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento
aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu
escutar, como escutam os discípulos. Apresentei as costas àqueles que me batiam
e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me
insultavam e cuspiam».
O Messias, qual Servo
sofredor, cordeiro inocente levado ao matadouro, vem para trazer uma palavra de
alento, não respondendo à violência com violência, mas com serviço e perdão. Aí
está o retrato de Jesus, o retrato do Ungido (= Messias) de Deus.
1 – "Cristo
Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas
aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante
aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à
morte e morte de cruz" (2ª leitura).
Este belíssimo hino,
recolhido por São Paulo na sua missiva aos Filipenses, faz uma apresentação
detalhada, sintética, clarividente, expressiva, da vida e missão de Jesus. A
Sua condição inicial, que dá origem e alimenta o hoje do Seu compromisso, o
trajeto de oblação, de entrega, de kénose (abaixamento), de amor pela humanidade.
O amor por nós leva-O a assumir a nossa identidade e a nossa finitude.
O mistério da Sua
paixão, da Sua morte como oferenda, pleniza o Seu projeto de caridade a favor
de todo o povo. Não apenas a favor dos amigos, ou dos bons, mas em benefício de
todos, bons e maus, amigos e estranhos, judeus, gregos ou troianos.
Vem de Deus, para
habitar conosco, na história e no tempo. A divindade humaniza-se, o Universal
particulariza-se num determinado período da história e num espaço
civilizacional concreto. Faz-Se homem, para que descubramos por Ele e com Ele o
caminho de regresso a Deus Pai, descobrindo a nossa origem, o nosso alimento e
o nosso fim: Deus.
Toda a Sua vida é
serviço e doação. Assume-nos por inteiro. Identifica-Se homem. Em tudo igual a
nós, exceto no pecado. Não Se alheia da obra criada por Seu amor. Por amor vem.
Por amor permanece. Por amor dá a Sua vida. Por amor elevar-nos-á às alturas da
glória, até Deus, Seu e nosso Pai.
2 – Nas concepções
tradicionais da religião, Deus mantém-se distante, alheado como Juiz
impenetrável, impassível, pronto a irritar-se e a castigar, à espera das
oferendas, sacrifícios e súplicas da humanidade, vergada à Sua onipotência.
Com Cristo Jesus, é
Deus Quem procura a humanidade, imiscuindo-Se na nossa história. Deus está onde
está a humanidade. As alegrias e as tristezas, as lutas e as esperanças, o
sofrimento e a festa, a morte e a vida, que nos envolvem na nossa existência
terrena e mortal, integram a história de Jesus, em todo o seu esplendor.
A liturgia deste
domingo é particularmente feliz. A SEMANA SANTA conduz-nos do sucesso e da fama
à morte infame, numa cruz, para logo nos encher com a LUZ da Páscoa, em que
nada ficará igual, e até o túmulo se encherá de luz e de vida nova.
Visualizamos a
entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém. É acompanhado por uma
multidão imensa, que O aclama como Rei, filho de David, deixando entrever o
reconhecimento do Messias prometido e esperado. É sol de pouca dura.
Ainda ressoam os
cânticos, os clamores, e já Jesus Se senta à volta da mesa, mais discretamente,
quase silenciosamente. Estão lá apenas os mais íntimos. Como não nos revermos
também nesta passagem. Quando as coisas correm bem, todos nos rodeiam e
aplaudem, mas quando é necessário trabalhar, esforço e dedicação, com quantos
dos nossos amigos poderemos contar?!
A Ceia pascal é um
interregno. Uma pausa para o café. Para descansar. Para ganhar coragem. Para
sentir mais próxima a presença dos amigos e sentir o conforto dos mais
chegados, preparando-os para a despedida, deixando-lhes as recomendações
finais, como um testamento, um compromisso para a vida. Vou partir, mas a minha
presença será ainda mais íntima, mais profunda, mais firme. Ainda a Ceia não
terminou e já cheira a morte, a traição. O medo e a ansiedade começam a tomar
conta dos discípulos. Sente-se aquele tremor no estômago e as pernas não querem
obedecer. O vinho parece ter produzido efeito. Nem todos ficam para enfrentar
as dificuldades maiores.
3 – Em poucas horas,
Jesus experimenta a euforia de uma multidão em festa e de uma multidão furiosa
pedindo a Sua cabeça. No triunfo está lá toda a gente. Olhamos para o lado e
vemos que não falta ninguém. Também lá nos queremos. Sentimo-nos confortáveis,
pertencemos ali, aquele é o nosso povo, a nossa gente, e apesar dos encontrões,
não desarmamos, deixamo-nos levar pelo entusiasmo.
A vida tem altos e
baixos e nos momentos do sofrimento, do suor e das lágrimas, nem todos estamos
disponíveis. A casa é um espaço mais pequeno. Onde pulsa a vida, o espaço é
mais íntimo, facilita o encontro, coração a coração, é mais afetivo, permite o
abraço, o choro e o riso desbragado, a casa é o outro em quem coloco a minha
vida, é o outro que me acolhe como irmão. Se pudéssemos ficaríamos em casa para
sempre. Esta começa a desfazer-se quando alguém abandona o círculo familiar.
Judas é o primeiro a sair. Saem os outros, para o Jardim das Oliveiras. A casa
não pode ser profanada, há de ser o lugar do reencontro, da vida nova, da vida
ressuscitada, quando de novo todos se reconhecerem como irmãos.
Aqueles que contam
acompanham Jesus. Mas ainda não estão amadurecidos o suficiente na sua fé.
Maior é o medo. Quando nos sentimos ameaçados na nossa vida biológica, as
reações passam pela paralisia, como em sonhos, não conseguimos mexer-nos, ou
fugimos rapidamente para nos libertarmos do perigo iminente. Assim acontece com
os discípulos. Adormecem, tal é a ansiedade, enquanto o seu Mestre reza, roga a
Deus, transpira gotas de sangue, é a Sua hora. Levar o amor até ao fim, mesmo
que isso custe a própria vida (biológica), é o alimento, a vontade de Jesus.
Numa hora desta, só Deus Lhe pode valer, só Deus Lhe pode dar ânimo (alma) para
prosseguir.
É a vida. Agora que
era tão útil a presença dos seus amigos mais íntimos, todos correm rapidamente
para não serem "agarrados" por aquela onda de ódio e violência.
Mantêm-se à distância. Com medo, com "pena" do Mestre, mas afastados
o suficiente para preservarem as suas vidas.
4 – Como não nos
revermos nesta SEMANA SANTA de Jesus?! Transpira suor, sangue e lágrimas.
Prossegue no limite do desfalecimento. Clama em altos brados. Leva as forças ao
limite, por amor. É paixão. Redentora. Homem e Deus envolvidos na mesma
história.
Quantos pais não
"morrem" todos os dias pelos filhos? E por causa deles. Canseiras,
preocupações, trabalho, lágrimas. A vida até ao esgotamento! Onde parece que
não há mais ânimo, lá se encontram argumentos para prosseguir. O amor supera as
limitações físicas. Quantos não são testados, todos os dias, até ao limite da
sua coragem – uma doença repentina, a falta de trabalho e de pão para a mesa, o
sofrimento e a doença crônica de um familiar, o conflito que se agudiza dentro de
portas, ou o ambiente desastroso com os colegas de trabalho –, uma via
crucis sem solução à vista, um calvário que perdura no tempo, sem
sinais esperançosos, sem abertura no céu enublado de lágrimas, de cansaço, de
derrota.
Jesus não passa ao
largo das nossas lutas. Não desvia o olhar. Enfrenta conosco as angústias da
sobrevivência. "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem
recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me
arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido" (1.ª
Leitura).
Está (quase) sozinho.
Os apóstolos tornaram-se apóstatas. À distância. Sua Mãe e algumas mulheres,
que sabem o que é sofrer, o que é sofrer por amor, o que é dar a vida pelos
filhos e verem os filhos morrer (repentinamente ou aos poucos), elas não desviam
o olhar. É doloroso. É a vida. Faz parte da vida. Dali ninguém as tira. Nem a
força bruta dos soldados em fúria, nem a multidão cega pela gritaria. Elas que
estavam na primeira hora permanecerão até à última hora, até ao suspiro
final.
"O véu do templo
rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de
Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era
Filho de Deus». Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre
elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam
e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido
com ele a Jerusalém" (Evangelho).
5 – Regressemos a
nossas casas. O espetáculo terminou. Jesus morreu. Morreu por amor. Morreu por
nós. Morreu para nos salvar. Morreu para nos mostrar que o amor há de ser mais
forte, mais firme, mais "violento" e revolucionário que todas as
forças do mal e da morte.
Aguardemos. Com
Maria, a Quem Ele nos confia, e com as outras mulheres, voltemos ao lugar onde
pulsa a vida, nas suas lutas e nas suas festas, a casa, a nossas casas. Façamos
luto. Não deixemos, porém, que o medo e a angústia tomem conta da nossa alma
(do nosso ânimo), rezemos com Ela, vigilantes, firmes na esperança, confiantes
na promessa de Deus. Não temamos a noite. O SOL esconde-se por entre as
lágrimas, os nossos olhos ficam nublosos, mas a LUZ há de ser tão intensa que
prevalecerá para além das nossas dores e da nossa treva. A caminho da Páscoa!
padre Manuel Gonçalves
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