01
de abril – Ano B
Evangelho
Jo 20,1-9
-JESUS
RESSUSCITOU-José Salviano.
DOMINGO DA PÁSCOA
PRIMEIRA
LEITURA - Pedro disse que eles o mataram,
pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro
dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às
testemunhas que Deus havia escolhido: Inicialmente, Jesus só apareceu aos seus
escolhidos. Porém, na estrada de Damasco, Jesus pareceu para uma multidão, e
isso serviu para calar a boca daqueles que vivem dizendo. Viu? Jesus só
apareceu aos da casa! Com um ar de desconfiança...
SALMO
- Dai graças ao Senhor, porque ele é
bom! Eterna é a sua misericórdia! Eterna, infinita, sem restrições, ou
seja, é para todos os mortais. Porém, é bom que não abusemos dessa
misericórdia, e nos esforcemos para andar sempre nos caminhos retos, para que
possamos merecer a luz que ilumina os nossos passos, a fim de não cairmos nos
buracos dessa estrada...
SEGUNDA
LEITURA - Aspirai às coisas celestes e
não às coisas terrestres. Muitas
vezes brigamos por coisas perecíveis, enquanto Deus está de mãos estendidas nos
oferecendo sua graça, sua amizade, sua salvação para sempre.
Desde as guerras e brigas até um olhar envenenado
de ódio que lançamos ao nosso irmão, todos os atos de violência, de agressão,
são causados pela disputa de poder, de bens de consumo perecíveis, bens não
duradouros desta vida limitada. Dizemos às vezes que lutamos, brigamos por
nada. Nada de importante, nada que realmente valesse a pena. Porque tudo nessa
vida é passageiro.
Meu irmão, minha irmã. No período da quaresma,
especialmente na Semana Santa, cada um de nós teve a oportunidade de
parar e pensar: De onde eu vim? Para onde eu vou?
Por menor que seja a fé do indivíduo, dá para
perceber que viemos de Deus, e que o certo seria voltar para Deus. Essa é a
lógica da existência, para quem tem o mínimo de bom censo. Porém, pode
acontecer que muitos neste momento, não
estão preocupados em voltar para o Pai.
Caríssimos. Vamos nos esforçar para alcançar as
coisas com a ajuda da FORÇA DO ALTO, vamos nos preocupar menos com as coisas
terrenas.
EVANGELHO
Aquele mesmo Jesus que foi zombado por muitos no
momento do seu martírio na cruz, está de volta, em uma vida gloriosa para nunca
mais morrer.
Naqueles tempos, os judeus não acreditavam nas
mulheres, por achar que elas eram mentirosas. Por isso elas além de serem
desprezadas, não podiam ser testemunhas nos julgamentos. E até nisso Jesus
remexe os valores corrompidos pelos líderes judaicos. Foi uma mulher quem
primeiro testemunhou a ressurreição do Filho de Deus. E até hoje temos muitas
mulheres testemunhando a ressurreição de Jesus nas inúmeras paróquias do mundo.
São elas que muitas vezes desacompanhadas de seus respectivos maridos, estão na
linha de frente das pastorais dando tudo de si pela permanência da Igreja,
presença viva do ressuscitado no meio de nós.
Irmãos. Depois da ressurreição de Jesus Cristo, os
apóstolos perderam o medo e se lançaram na obra de construção da Igreja viva. Aqueles
amigos de todas as horas, que falharam na hora em que Jesus foi preso, que
negaram serem amigos de Jesus, agora depois da ressurreição, ficaram
transformados, em super-homens corajosos e destemidos e prontos para enfrentar
tudo, pela causa do Reino de Deus, a enfrentar até a própria morte. E
ainda tem gente que duvida do poder de Deus!
Façamos o mesmo. Embebidos da força do
ressuscitado, vamos levar ao mundo a mensagem de paz, de amor de vida que vai
nortear a conduta dos nossos irmãos que estão sem esperanças, que já não
encontram mais o sentido da vida, e infelizmente, muitos que já não estão
acreditando mais em nada, tendo em vista tanta injustiça, que começa a acontecer
lá no centro do poder, lá de onde não deveria ser, lá de onde deveria partir o
bom exemplo!...
Caríssimos. A ressurreição não foi um ato de
alucinação dos amigos de Jesus. Ela foi um fato real, e o mais forte
acontecimento que alimenta a nossa fé. É a ressurreição de Jesus que nos dá
força para continuar tentando ser melhor, e melhorar o mundo, começando em
nossa família.
Mas
infelizmente o comércio se aproveita dessa data para vender mais. Para vender
ovos de chocolate e presentes. As escolas fazem festinhas com as crianças
vestidas de coelhinhos... e ninguém explica o verdadeiro sentido da Páscoa. E o
Cristo ressuscitado? Onde foi parar? Quem vai explicar para as crianças que a
Páscoa não é apenas comer chocolate, mas sim, festejar o aniversário da
ressurreição de Jesus, aquele que quer trazer o fim das brigas entre seus pais,
a paz na sociedade, o fim do desemprego, da fome, da solidão, e de tudo aquilo
que está matando cada um de nós aos poucos. O ressuscitado quer nos ressuscitar
também. Quer nos libertar das amarras que nos prendem a uma escravidão sem
explicação, e nos dar uma vida melhor!
Vivamos
a Páscoa com muita alegria! Não fixemos a nossa mente nas nossas dores físicas, nem nos deixemos
ser dominados pelo medo da violência. Voltemos os nossos pensamentos dominantes
para o poder de Deus que pelo seu amor ressuscitou o seu Filho amado, e hoje
nos chama para a conversão.
O
discípulo que chegou primeiro, vendo os sinais da ausência do corpo do Mestre
no túmulo, logo entendeu que se tratava da ressurreição prometida por Ele.
Então o discípulo viu e acreditou.
Meu
irmão, minha irmã. Acreditemos também nós. Pois a ressurreição de Jesus é o
ponto básico, a pilastra que sustenta a nossa fé. Se para nós restam sombras de
dúvidas sobre este fato histórico, a nossa fé está balançando. Não vejamos as
aparições de Jesus como visões de um fantasma que vinha e desaparecia. Veremos
As aparições de Jesus como provas incontestáveis da sua divindade.
Tenha
fé. Convertei-vos e crede no Evangelho! Nem tudo está perdido!
Desejamos a todos um bom e santo
domingo. José Salviano.
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Ressuscitou, está
vivo
1. O essencial da fé cristã está em
acreditar que Jesus ressuscitou. Na 1ª carta aos Coríntios, Paulo di-lo
expressamente. Naquela comunidade havia quem não acreditasse na Ressurreição.
Era a cultura helénica que o não admitia. Mas o Apóstolo escreve com toda a
clareza: “Se não há ressurreição, Cristo não ressuscitou e, então, a vossa fé é
vã, a nossa pregação não tem sentido e nós somos os mais infelizes de todos os
homens” (1Cor. 15,14-19). Acrescentou, porém, logo depois: “Mas Ele ressuscitou
e, como Ele ressuscitou, todos vamos ressuscitar”. É um texto magnífico em que
Paulo afirma a sua fé no Ressuscitado. Há três maneiras de confirmar a
Ressurreição do Senhor Jesus.
• O sepulcro vazio. Foi Maria Madalena
que encontrou o sepulcro vazio; foi dizê-lo a Pedro; Pedro e João correram ao
sepulcro e não estava ali o corpo do Senhor. As ligaduras e o sudário estavam
dobrados, com uma arrumação invulgar. Assim sendo, compreende-se que as teses
do roubo, do tremor de terra ou do sono dos guardas, nada podem significar. O
lugar do túmulo vazio é um espaço tranquilo, onde Jesus aparece a Maria, que O
confunde com o jardineiro.
• As aparições do Ressuscitado. Por
onze vezes Jesus apareceu aos seus discípulos. No Cenáculo, no Lago Tiberíades,
no Monte da Ascensão e até a Paulo, no caminho de Damasco. Ao verem surgir
Jesus, todos ficaram surpreendidos, porque não se recordavam do que Jesus
dissera, que ao terceiro dia havia de ressuscitar. Eles são testemunhas muito
concretas de que Jesus os surpreendeu com a Ressurreição. Afinal, Ele voltara à
vida.
• O testemunho dos Apóstolos. Sobretudo
Pedro e Paulo têm discursos extraordinários a proclamar a Ressurreição de
Jesus. As narrativas são de extrema clareza, mas o mais importante é que eles
dão o seu testemunho, até quando no sinédrio os ameaçam com sentenças de morte.
Pedro chega mesmo a dizer que nada e ninguém o pode fazer calar. Os Apóstolos
darão a vida pelo Ressuscitado. Ele está vivo. O testemunho dos Apóstolos
levará muitos à conversão. E porque Jesus ressuscitou, milhões e milhões de
cristãos, ao longo dos séculos, irão afirmando a sua fé, oferecendo a sua vida
por Cristo e identificando com Cristo Ressuscitado os seus projetos de
renovação do mundo.
2. A Ressurreição de Cristo não é um
acontecimento do passado. Poderá colocar-se a questão de como fazê-la presente
no mundo de hoje. É fácil dizer que se tem fé em Cristo Ressuscitado. Mas como
se manifesta, qual o testemunho dos cristãos, como revelar a Ressurreição aos
não crentes? Muitas vezes os cristãos perdem-se em palavras, para dizer que
acreditam em Cristo Ressuscitado, mas tal é insuficiente. No princípio do séc.
XIX, na Sorbonne, em Paris, havia um grupo de cristãos que discutiam os
problemas da fé na grande cidade, então coração da Europa. Um dia, um colega
muito crítico para com os grupos de católicos, pergunta a Frederico de Ozanam o
que é que os católicos faziam, eles que tanto falavam? Interpelado, assim,
Ozanam entendeu que só a ação social revelava a força do Evangelho. Criou então
as Conferências de Caridade, hoje chamadas Conferências de são Vicente de
Paulo. A grande questão, para revelar o Ressuscitado, é precisamente esta: “o
que temos de fazer?”
• Vencer a solidão de quantos ficaram
sozinhos na vida: pessoas de idade, homens e mulheres que enviuvaram, doentes
que se perdem nos corredores das urgências, os sem-abrigo que não têm mesmo
ninguém.
• Acompanhar muitos que estão altamente
dependentes: crianças que perderam os pais ou foram abandonadas, jovens que se
deixaram apanhar pela droga ou pelo álcool, doentes em fase terminal.
Repartir o pão ou outros bens com os
mais pobres: algum vizinho em dificuldade, uma família em que o pai e a mãe
caíram no desemprego, muitos que não conseguem sequer pagar as despesas da
casa.
• Dar algum tempo a muitos que estão em
ansiedade e angústia: colegas de trabalho, amigos que sofrem algum problema ou,
até simplesmente, os pais, os avós, os filhos ou os netos.
• Exercer o voluntariado no Centro
Social ou noutra organização de apoio a casos concretos, bem estruturados.
• Dedicar um tempo razoável à oração, à
leitura do Evangelho, à visita ao Santíssimo Sacramento, à reza do rosário,
sempre pensando nos outros e nas suas grandes ou pequenas preocupações.
• Privilegiar o silêncio e a
contemplação do Senhor Ressuscitado, procurando reler páginas que contam a
aparição de Jesus, nas mais diversas situações da vida. Ele hoje continua a
aparecer-nos, a revelar-se, a dar-se a conhecer. Encontrá-l’O e conversar com
Ele é exercício espiritual de grande intimidade.
A Ressurreição do Senhor não é um
acontecimento de há 2.000 anos. A Ressurreição continua, nos inúmeros gestos
que, por Cristo, vamos repetindo. Não é apenas uma nova Encarnação, é uma nova
Ressurreição.
3. O Tempo Pascal deve ser também, na
Comunidade Paroquial do Campo Grande, um tempo de alegria, de criatividade e de
compromisso.
• A alegria está no coração de cada um,
porque Jesus ressuscitou. Ele venceu a morte e quer que todos sejam capazes de
vencer as inúmeras mortes que marcam a vida quotidiana de muita gente.
• A criatividade é elemento
indispensável à ação pastoral da comunidade. Não basta repetir o que sempre se
fez, é preciso descobrir os novos métodos e as novas expressões de
evangelização. Com um sentido de descoberta é essencial encontrar os caminhos
novos que levam, mesmo aos não crentes, a força de Jesus Ressuscitado.
• O compromisso é o sinal de
responsabilidade de quantos querem fazer, da sua vida toda, processo eficaz de
evangelização, de anúncio do Ressuscitado. Há inúmeras pessoas à espera do
Senhor. Cada um tem de saber revelá-l’O.
Não basta dizer “Boas Festas” lembrando
a Páscoa de Jesus. É preciso fazer a Páscoa, a passagem de um tempo de
dificuldade em tempo de esperança.
4. A todos os membros da Comunidade
Paroquial do Campo Grande, desejamos as melhores alegrias pascais. Que Jesus
Ressuscitado entre no coração de cada um. Tudo será novo.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
1. Os discípulos estavam desiludidos.
Tinham andado com Jesus quase quatro anos, julgavam que Ele seria quem vinha
para restaurar o Reino de Israel e, afinal, Ele fora condenado à morte, e à
morte na cruz. Judas tinha-O traído, Pedro acabara por negá-l’O, todos os
outros haviam fugido. Era a desilusão geral. Depositado no sepulcro de José de
Arimatéia, a aventura daquele “profeta” tinha chegado ao fim. Mesmo nestas circunstâncias
restou a Jesus a ternura das mulheres que, domingo, foram de manhã cedo ao
sepulcro para lançarem no túmulo alguns perfumes, a última homenagem que
queriam prestar-Lhe. Aconteceu, porém, que o sepulcro estava vazio. A pedra
tinha sido rolada, o sudário e as vestes estavam dobradas em cantos diferentes,
e, de Jesus não havia notícia. Apareceu-lhes um mensageiro que lhes disse
“Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui:
ressuscitou” (Lc. 24, 6).
É então que os seus mais próximos, que
haviam perdido a esperança, se aperceberam do grande acontecimento. Ao terceiro
dia Jesus ressuscitou, como havia prometido.
• Maria julgou que tinham roubado o
corpo do Senhor. Perguntou ao jardineiro onde o pusera. E este disse-lhe:
“Maria”, ao que ela respondeu: “Rabuni”. Reconheceu que Jesus estava vivo a
falar com ela.
• Pedro e João correram ao sepulcro e
confirmaram o que Maria lhes dissera, indo, logo de seguida, dar aos irmãos a
boa notícia de que Jesus estava vivo.
• Os onze discípulos reuniram-se no
Cenáculo pela tardinha e Jesus entrou para lhes dizer “a paz esteja convosco,
recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados estes
ser-lhes-ão perdoados” (Jo. 20,22-23). Com alegria compreenderam que o Reino do
perdão e do amor estava a começar.
• Os companheiros de Emaús, possuídos
de tristeza, nem sequer tinham reconhecido Aquele homem que os acompanhava. Foi
à mesa, ao partir do pão, que se deram conta que Ele era o Senhor. Foram, de
corrida, juntar-se a todos no Cenáculo, partilhando a certeza da Ressurreição.
• Os pescadores de Tiberíades julgavam
ver na praia um outro trabalhador da faina. Afinal, João e Pedro, possuídos de
esperança, acabaram por ver n’Ele o próprio Jesus, comendo os pães e os peixes
assados na brasa, naquela praia diferente.
• Os 500 irmãos, no monte das
Oliveiras, escutaram conversas de despedida. A mensagem de Jesus era simples
“Não olheis para o céu, olhai antes para o mundo que é urgente salvar”.
• Até Saulo, o perseguidor, na estrada
de Damasco, foi surpreendido por Jesus Ressuscitado. Ele que não acreditava
compreendeu que Jesus estava vivo e mudou radicalmente a sua vida. Tornou-se
apóstolo.
A Ressurreição de Jesus venceu a
desilusão dos Apóstolos. No mundo de hoje há imensos homens e mulheres carregados
de desilusão. A Ressurreição de Cristo é um grito de esperança, como Cristo
ressuscitou tudo e todos vamos ressuscitar.
2. A Ressurreição de Cristo é o
fundamento da nossa fé. Quem lê a Primeira Carta de são Paulo aos Coríntios
encontra um capítulo dedicado à Ressurreição de Jesus. É o capítulo 15. Com uma
linguagem muito simples, Paulo interpela aqueles que não acreditam na
Ressurreição, dizendo: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não
ressuscitou, e, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, a nossa pregação
não tem sentido, somos os mais infelizes dos homens”. Paulo acrescenta logo
depois “Mas Ele ressuscitou.” De alguma maneira o Apóstolo Paulo quer dissipar
todas as nossas dúvidas, por muito grandes que elas sejam. Vale a pena
perguntar porque duvidamos tantas vezes. As dúvidas que temos justificam-se. É,
porém, necessário ultrapassá-las.
• São fruto da razão que quer explicar
tudo, quando há inúmeras coisas que não podem compreender-se senão à luz da fé,
da adesão incondicional à Pessoa de Jesus.
• São resultado de um ambiente
agnóstico e, às vezes, hostil. Os cristãos sofrem imensas pressões que os levam
a hesitar mesmo nas verdades essenciais da fé.
• São conseqüência das nossas crises,
com inúmeros problemas por resolver, com sofrimento acumulado, que leva a
considerar que se foi abandonado por Deus.
• São a expressão da nossa atitude
espiritual que, em plena oração, se fica perplexo perante o mistério de Deus
que transmite um amor que é difícil compreender.
Até os grandes santos tiveram dúvidas.
Teresa de Ávila, Teresa de Calcutá, Inácio de Loyola, Francisco Xavier, todos
nos revelaram as suas dúvidas, mas em todos prevaleceu sempre a fé na
Ressurreição, o fundamento de toda a vida cristã.
3. Os cristãos são-no na medida em que
vivem como ressuscitados. A Ressurreição de Cristo invade a vida do cristão.
Paulo pôde mesmo dizer “Já não sou eu que vivo, é Ele que vive em mim” (Gl.
2,20), acrescentando mais tarde “O meu viver é Cristo” (cf. Gl. 2,20). Quando
acreditamos na Ressurreição a nossa vida está “encharcada” de Cristo, isto é, o
Senhor possui-nos com a sua alegria, e permite-nos transmitir aos outros a
mesma alegria da Ressurreição. As conseqüências na vida de todos os dias são
maravilhosas:
• Somos homens e mulheres de esperança,
com a certeza de que nada e ninguém nos pode vencer. Mesmo passando pela
provação, somos capazes de a ultrapassar para sentirmo-nos com Cristo
verdadeiramente ressuscitados.
• Sabemos não estar sós nas nossas
dores. Em todas as situações, também na pobreza, na doença, na solidão, o
Senhor que é a Vida, dá dimensão nova à nossa própria vida, porque é fonte de
alegria constante.
• Acreditamos que a morte não é o fim,
porque “a vida não acaba apenas se transforma, e desfeita a morada do exílio
terrestre adquirimos no Céu uma habitação eterna” (2Cor. 5,1). Como Cristo
ressuscitou, todos ressuscitamos.
• Participamos já da Ressurreição de
Jesus. Em tudo temos capacidade de passar da morte à vida, do pecado à graça,
do sofrimento à esperança, da angústia à serenidade e à paz, da perplexidade à
alegria sem fronteiras. Tudo isto é ressuscitar.
A grande síntese da vida cristã é a
Ressurreição de Jesus. A ela se refere todo o nosso viver humano, seja na
família ou na sociedade, no trabalho ou na comunidade cristã, sempre.
padre João Resina
"Tiraram o
Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram"
Domingo do túmulo vazio. Ainda estamos
sentindo em nosso coração, o ressoar festivo do aleluia pascal que, ontem à
noite, quebrou o silêncio que vivemos após a morte do Senhor.
Maria Madalena encontrou o túmulo
vazio. O Mestre não estava lá. Podemos afirmar com toda a certeza, "ele
está no meio de nós".Esta é a grande alegria que recebemos neste domingo,
a descoberta do túmulo vazio e, mais do que isto, o encontro de Jesus
ressuscitado, a certeza de sua presença viva no meio de nós, domingo da Páscoa
da ressurreição do Senhor.
É esta certeza que, com muita fé,
celebramos hoje, inaugurando, assim, os cinqüenta dias do Tempo Pascal, que
culminarão com a festa de Pentecostes, quando o Espírito do Ressuscitado será
derramado sobre nós.
Primiera leitura -
Atos 10,34a.37-43
Neste capítulo, Lucas narra como Pedro,
após misteriosa visão (10,9 ss.), se dirige aos pagãos, Cornélio e sua família,
admitindo-os na comunidade cristã pelo "batismo", mas com reclamações
da parte dos judeus-cristãos (Atos 11,1-3). A partir do versículo 34 nos é
oferecido o primeiro discurso que Pedro faz perante um auditório não-judeu,
"anunciando a salvação". A cena empolga e a autoridade de Pedro de
impõe.
É o resumo do discurso que Pedro faz
diante de Cornélio de Cesaréia e de sua família para conduzi-los à conversão e
ao Batismo.
Naquele tempo, não era comum um judeu
ir à casa de um pagão (não-judeu). Pedro, tendo ido à casa de Cornélio, um
oficial romano que se convertera, teve que explicar aos demais discípulos sua
atitude. Ao fazer isso, ele anuncia o núcleo central da nossa fé cristã que
acolhemos ouvindo a leitura.
Os discursos missionários dos Atos são
diferentes daqueles discursos dirigidos aos judeus (Atos 2,14-36; 3,12-26;
4,9-12; 5,29-32; 10,34-43; 13,16-42) ou aos pagãos (Atos 14,15-17; 17,22-31;
cf. 1Timóteo 1,9-10).
Na exortação se diz com realce que,
diante de Deus, todos as pessoas são iguais (versículo 34s; cf. Gálatas 3,26
ss.). Jesus em várias ocasiões e de vários modos dissera que todos os povos
fariam parte de seu Reino (Mateus 8,11; Marcos 16,15s; João 10,16; Atos 1,8).
Já no Primeiro Testamento, havia
profecias que diziam a respeito da universalidade da salvação, segundo as quais
judeus e pagãos formariam um só Povo sob o Messias (Isaias 2,2ss; 49,1-6; Joel
2,28; Amós 9,12; Miquéias 4,1). Os judeus conheciam estas profecias, mas porém,
as interpretavam do seu modo, dizendo que os pagãos deveriam sujeitar-se à
circuncisão, à Lei judaica. Para um judeu era, pois, certo que todo o
não-circuncidado, embora simpatizante do judaísmo, como era ao caso de Cornélio
(Atos 10,2.22), se considerasse impuro, indigno de sentar à mesma mesa.
A leitura diz que "Cristo" é
o mesmo que "Ungido", "Messias". Não se trata de unção
propriamente dita, como no caso dos sacerdotes, profetas e reis (Êxodo 28,41;
Levítico 8,12; 1 Samuel 10,1; 1 Reis 19,16), mas de escolha divina para certa
missão, acompanhada de graças especiais (2Samuel 12,7; Isaias 61,1; Salmo
44,8). Deus "ungiu" a Jesus quando o constituiu Messias. Esta
"unção" em substância deu-se já na Encarnação, porém manifestou-se
publicamente no batismo (João 1,31-34) e, mais ainda, na ressurreição (Atos
13,33).
Jesus de Nazaré é o verdadeiro
benfeitor e único salvador, o Senhor de todos. Em seu primeiro discurso aos
judeus, Pedro declarou que Jesus Cristo fora constituído "Senhor e
Messias" (Atos 2,36). Agora (Atos 10,42) o proclama "juiz dos vivos e
dos mortos", expressão mais adequada para um ambiente pagão (Atos 17,31).
A expressão vivos e mortos (cf. 2 Timóteo 4,1; 1 Pedro 4,5) passará para o símbolo
o Creio que recitamos na celebração.
Uma questão importantíssima do discurso
de Pedro é sobre a paixão e a ressurreição é a referência ao terceiro dia tão
freqüente na catequese primitiva e ainda inscrita em nosso Creio. De fato é uma
referência indireta a Oséias 1,2 (em que o termo "levantar" é, em
grego, o mesmo significado de ressurreição).
Pedro quer dizer que a ressurreição dos
mortos, prevista pelos profetas para preparar o povo dos últimos tempos,
começou desde a ressurreição de Cristo.
Salmo responsorial
117/118,1-2.16ab-17.22-23(+ 24)
É uma oração coletiva de ação de
graças. Este salmo encerra o Hallel (cf. Salmo 113-117). Um invitatório (vv.
1-4) precede o hino de ação de graças posto nos lábios da comunidade
personificada, vv. 19s-25s, recitadas por diversos grupos quando a procissão
entrava no Templo de Jerusalém. A Igreja da graças ao Senhor que ressuscita
Jesus e nos faça participar da sua Páscoa.
A "pedra angular" (ou
"pedra cumeeira"; cf. Jeremias 51,26), que se pode tornar "pedra
de tropeço", é tema messiânico (Isaias 8,14; 28,16; Zacarias 3,9; 4,7;
8,6) e designará o Cristo (Mateus 21,42p; Atos 4,11; Romanos 9,33; 1 Pedro
2,4s; cf. Efésios 2,20; 1 Coríntios 3,11). Na tradição cristã, este versículo é
aplicado ao dia da ressurreição de Cristo e utilizado na liturgia pascal.
À aclamação ritual do versículo 25 (em
hebraico hoshi'ah na) Ah! Javé, dá-nos a salvação!"), que significa
Hosana, que os sacerdotes respondiam com esta bênção que foi retomada pela
multidão no dia de ramos. Ela entrou para o canto do Santo da missa romana
(Hosana nas alturas).
O rosto de Deus no Salmo 117/118. A
primeira coisa que chama a atenção é a freqüência com que aparecem o nome
"Javé" (Senhor) e a expressão "em nome de Javé". Sabemos
que o nome de Deus no Primeiro Testamento é Javé, e esse nome está ,ligado à
libertação do Egito. O nome dele recorda libertação, Aliança e posse da terra.
Entende-se, portanto, por que o Salmo afirma que o amor dele é para sempre.
Amor e fidelidade são as duas características fundamentais de Javé na Aliança
com Israel. Aqui está o rosto de Deus: que ouve, alivia, anda junto do povo. A
recordação da "direita" faz pensar na primeira "maravilha"
de Deus, a libertação do Egito.
Jesus é a expressão máxima do amor de
Deus. Com Jesus aprendemos que Deus é amor (1 João 4,8), e Jesus foi capaz de
mostrar esse amor para todos, dando a vida como conseqüência disso (João 13,1).
A liturgia cristã leu este Salmo à luz da morte e ressurreição de Jesus. A
carta aos Efésios (1,3-14) nos ajuda a cantar a Deus, por causa de Jesus, um
louvor universal.
No salmo 117/118, somos convidados a
dar graças ao Senhor que ressuscita Jesus e nos faz participar de sua Páscoa. A
tradição cristã, aplica ao dia da ressurreição de Cristo e é utilizado na
liturgia pascal.
Segunda leitura - Colossenses
3,1-4
Paulo faz uma exposição sobre a
liberdade cristã em confronto com as práticas alienantes do paganismo e da
heresia (Colosseses 2,16; 3,4) mostrando que o cristão que morreu com Cristo
está fora do alcance das práticas humanas de salvação (v. 3). Paulo mostra como
a vida com Cristo (vs. 1-2) leva a um comportamento novo do cristão no mundo.
Se a vida do cristão vier de baixo,
isto é, do mundo, ela se embaraça nas mil e uma prescrições da
"religião", seja ela a religião judaica ou religião pagã, e também do
materialismo. Mas se a vida do cristão vier do alto, isto é, do mundo em que
Cristo vive presente, essa vida, é "dada" ao cristão, como por uma
ressurreição, e ele não tem mais que se preocupar em fazê-la viver por meio de
técnicas terrestres de salvação, pois ela não cessa de ser dada "do
alto".
São Paulo quer dizer que esta ruptura
com a vida terrestre já é realizada pelo cristão, porque ele está morto para o
mundo, como Cristo, por seu batismo.
A experiência da fé consiste, então, em
descobrir que não vivemos mais por nós mesmos, mas que Cristo, é nossa vida em
plenitude. Dizer sim a Cristo é viver das "coisas do alto", isto é,
de uma vida que é de fato a nossa, mas que é vivida a todo momento da nossa
existência como recebida do próprio Cristo Ressuscitado. É viver como
Ressuscitado, isto é, na experiência de uma vida que nos é a todo momento dada
do alto. Querer ser completamente autônomo seria apoiar-se nas coisas "de
baixo" e seria aceitar a morte.
A linha de pensamento que passa ao
longo da unidade literária de Colossenses 2,8-3,4 começa, pois na condição
pré-batismal, passa pelo evento batismal e atinge a eternidade. Apesar de ainda
estarem na terra os cristãos já não pertencem mais ao mundo, mas já estão
unidos com o Cristo glorificado que está sentado à direita de Deus. Por Ele e
com Ele pertencem ao mundo celestial, porque é a vida do Cristo ressuscitado
que os anima para dar foca na caminhada.
Seqüência da Páscoa. A seqüência pascal
é um hino ao Cristo, Cordeiro Pascal, que enfrentou a morte e a venceu. Vejam:
Cantai, cristãos, afinal... ou: Ó cristãos, vinde ofertai... Ofício Divino das
comunidades.
Evangelho - João
20,1-9
O Evangelho de João terminou
originalmente com a conclusão de 20,30-31. O capítulo 21 foi acrescentado
posteriormente junto com uma nova conclusão (21,24-25). Não se exclui que as
tradições contidas em João 21 tenham pertencido à mesma "escola" de
pregadores ou ao mesmo grupo de comunidades cristãs que forneceram ao
evangelista João as demais tradições aproveitadas no quarto Evangelho. Mesmo
assim, João 20 há de ser entendido e explicado, primeiro, independentemente do
conteúdo do capítulo 21.
No capítulo 20 o evangelista aproveitou
de tradições que já existiam. Mas ele as remanejou de tal maneira que o novo
conjunto literário formasse a cobertura transluzente de todo o resto do
Evangelho. Neste capítulo 20 o evangelista quis sugerir o que seja a fé pascal,
quais são os seus componentes principais, como se chegar a ela e quem são seus
protagonistas.
A ida de Maria Madalena ao túmulo é
imagem plena da fidelidade. Sozinha, ela jamais conseguiria retirar a pedra.
Mesmo sabendo disso, foi até lá e encontrou a pedra já retirada da entrada do
túmulo onde haviam colocado Jesus. Sua fidelidade garantiu-lhe a graça de ver o
túmulo vazio. Mesmo assim, ela custou a entender o que havia acontecido. Seu
primeiro pensamento foi de que alguém havia retirado dali o corpo de Jesus, por
isso foi em busca de auxílio. São, então, os dois discípulos que constatam as
faixas e os panos no chão. Esses foram os sinais para que todos compreendessem
a Escritura que anunciava que Jesus iria ressuscitar dos mortos. Ela vai ao
encontro de Jesus no primeiro dia da semana, de madrugada, quando ainda estava
escuro. Somente os olhos do (a) verdadeiro (a) discípulos (as) sabem ver e
decifrar o significado do túmulo vazio e dos tecidos deixados no chão.
A cena do sepulcro vazio serve de
ligação entre a Narração da Paixão e Morte e a Narração da Ressurreição. O
Evangelista não podia terminar o seu Evangelho sem destacar mais uma vez, e
agora no contexto da ressurreição, o papel especial que competia a dois dos
"doze apóstolos", a saber, a Pedro e ao "outro discípulo que
Jesus amava" (ambos mencionados quatro vezes), seja durante a vida terrestre
de Jesus (cf. 13,6-9.22-25; 19, 26.35; etc.), seja na Igreja pós-pascal.
O túmulo está vazio, mas as faixas que
envolvem o corpo de Cristo se encontram no chão (vs. 5-8), o que exclui a
hipótese de roubo. Por isso, os apóstolos "começam a crer" (versículo
8: "ele acreditou"): o corpo não pode ser transportado para um outro
túmulo; Jesus teria ressuscitado? A resposta a essa pergunta se acha na
Escritura principalmente em Oséias 6,2; salmo 15/16,10, cuja chave os apóstolos
ainda não possuem nesse momento (v. 9).
A narração mostra, pois, o itinerário
dos apóstolos até a fé na ressurreição. Pensam primeiramente num roubo, depois,
averiguando que sua hipótese não explica o acontecimento (a presença das
faixas), eles "começam a crer". Mas o caminho só poderá ser percorrido
completamente com o auxílio das Escrituras. Em outras palavras, não se espera
dos apóstolos apenas o relato de um acontecimento, mas o testemunho de uma fé
que necessariamente deve apoiar-se nas Escrituras. Não se pode esquecer que Ele
cumpriu as escrituras (v. 9) que sua ressurreição constitui a causa essencial
da fé cristã.
Não é a vocação de Pedro ir muito
depressa (v. 4). Ele deixa que discípulos mais ardorosos tomem a iniciativa.
Acontece, no entanto, que cabe a Pedro e a seus sucessores tomar a responsabilidade
de entrar primeiro no túmulo, e constatar o caráter caduco de tudo o que está
submetido à morte.
É necessária a prova do túmulo vazio
para que nasça a fé. É preciso que Pedro perca sua segurança artificial para
ter a ousadia de entrar, ele também, no vazio. É preciso que toda a Igreja
tenha a coragem de entrar no "túmulo de Deus" que constitui o mundo
moderno. A fé está no extremo do vazio.
Os dois discípulos corriam juntos, mas
um correu mais do que o outro, chegou primeiro e acreditou. Este era,
exatamente, o "discípulo amado", representando todo aquele que coloca
o amor à frente, como prioridade, e pelo amor reconhece primeiro a quem ama.
Crê pelo amor, antes da razão, antes de ver, e, crendo, vê pelos olhos da fé
que antecipam a verdade, dispensam as comprovações.
Eles ultrapassaram a escuridão, o
grande vazio, o grande tempo da desesperança, pior que a dor de acompanhar a
Paixão e Morte do Mestre. Sair deste tempo é, pois, o momento supremo, o grande
dia de suas vidas, o grande dia da vida de todos os que professam a fé em Jesus
Cristo, "o grande dia que o Senhor fez para nós!". Por isso,, no
Salmo responsorial 117/118 de ação de graças, que o (a) salmista entoa por
todos os cristãos, elevemos nosso louvor a Deus, que ressuscitou Jesus dos
mortos.
Nas missas da noite, (vespertina)
proclama-se o Lucas 24,13-35, discípulos de Emaús.
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
O trecho do evangelho de hoje
proclamado na liturgia pode ser chamado de o "Evangelho da corrida".
Começa indicando o tempo, primeiro dia da semana: nova criação nascida da morte
e ressurreição de Jesus Cristo! Maria Madalena incapaz de aceitar a morte de
Jesus, vai em busca do amado, do amigo, do mestre. É madrugada, mas ainda há
trevas, isto é, ela está mergulhada nas trevas da sexta-feira santa. O sol é
uma esperança e certeza na madrugada. Mas as trevas da dor, da saudade, da
ausência ainda persistem. Indo ao túmulo, Maria Madalena sintetiza as buscas da
comunidade cristã, ansiosa de vida e amor. Maria ao sinal da pedra retirada,
corre para anunciar que Jesus não estava no túmulo. Pedro e o discípulo que
Jesus amava correm após o chamado de madalena.
Corridas de buscas e anúncios. É o
processo da vida: "terminar a carreira guardar a fé". Não se trata de
competição, mas acúmulo de desejos. Quem ama, corre mais para encontrar a
pessoa amada. Pedro entra no túmulo e vê, apenas, faixas de linho e o véu que
cobria o rosto de Jesus. São dois símbolos importantes e belíssimos. As faixas
de linho serviam para enrolar o morto. Era, mais ou menos, a veste mortuária,
que indicava o desaparecimento da vida. Essas faixas estavam jogadas no chão,
indicando que foram abandonadas. O mesmo pode ser constatado com o véu que
cobria o rosto de Jesus. Este, em vez de jogado no chão, estava dobrado. O véu
era colocado nos mortos e significava a impossibilidade de o morto ser vivo
entre os vivos. Servia para esconder o rosto, que não mais poderia ver, nem
poderia ser visto. As vestes da morte não vestiam mais Jesus. A prova era
clara: panos no chão e véu mortuário dobrado eram inúteis para Jesus. Esses
foram os primeiros símbolos da ressurreição de Jesus.
O discípulo amado chega primeiro, vê as
faixas de linho, não entra; aguarda Pedro, vê e acredita. O texto não diz que
Pedro tenha acreditado; o discípulo amado, sim, acreditou! Esta é uma diferença
certamente determinada pelo amor, pela ligação afetiva com Jesus. O amor é
fundamental para reconhecer o Ressuscitado em túmulos vazios, em pedras
retiradas...
O túmulo não é lugar da morte; mais
parece um quarto arrumado, lugar do encontro como Senhor com sua esposa, a
comunidade. O túmulo é também lugar de reconciliação entre Pedro e Jesus. Ele o
negara três vezes, e não teve oportunidade de se aproximar do mestre antes de
morrer. O discípulo amado fez questão de não entrar para dar oportunidade a
Pedro para uma reconciliação.
É muito significativo que a primeira
testemunha da ressurreição seja uma mulher, Maria Madalena, discípula e amiga
de Jesus, então missionária e apóstola. Nisto os evangelistas estão de pleno
acordo: as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus foram mulheres de seu
grupo que levaram a alegre notícia aos apóstolos. É ressurreição, é Páscoa
quando curamos o nosso machismo para compreendermos, enfim, que na Igreja de
Jesus Cristo todas as pessoas, homens e mulheres, somos iguais. Aqui Maria
Madalena está no jardim como a nova Eva que procura o Esposo. No jardim do Éden
a antiga Eva não contribuiu com a vida, para o encontro. Maria madalena a nova
Eva vai ao encontro da vida e anuncia a nova criação
Só a ressurreição de Jesus pode dar
sentido à nossa vida. Sem ela, vã é a nossa fé. Com a fé na ressurreição tudo
ganha sentido: o compromisso por um mundo mais justo e humano e o serviço aos
pobres, aos necessitados, aos crucificados e sepultados de hoje. É lá no túmulo
que quem ama vê e acredita na ressurreição de Jesus e na ressurreição de todos
os que são condenados à morte pelo jeito injusto que a sociedade está
organizada. Para quem tem fé, o túmulo está vazio de um corpo morto, mas pleno
de sinais de vida; é sementeira de ressurreição. Só encontramos o Ressuscitado
se tivermos coragem de correr ao "túmulo" e de lá voltarmos, correndo
como Maria Madalena, para anunciar a vida, a nova criação, o novo céu e a nova
terra.
Pedro nos dá o testemunho vivo da
ressurreição que celebramos hoje, dizendo que comeram e beberam com Jesus,
depois que ele ressuscitou dos mortos. Comer e beber é próprio de quem está
vivo, isto nos dá clareza de que Jesus não era apenas "espírito de
luz" quando apareceu aos discípulos, após sua morte e ressurreição.
Paulo, escrevendo da prisão para os
colossenses, recomenda a todos um grande esforço para "alcançarmos as
coisas do alto" (Colossesnses 3,1), a salvação de que Jesus nos trouxe,
correspondendo, com nossas atitudes e nossa vida, ao seguimento do Senhor.
Alcançar a salvação tem relação direta com a nossa fé.
Abrindo-nos ao plano de Deus,
ressuscitamos também nós a cada dia, e sentimos, verdadeiramente, a presença de
Jesus ressuscitado em nossas vidas. Alimentando-nos no pão da sua Palavra e da
Eucaristia, servindo a mesa do irmão, sentimo-Lo ressuscitado, vivo, no meio de
nós
Como seus discípulos e discípulas,
também nós, a quem foi anunciada esta grande alegria, somos convidados a
transmiti-la continuando a missão dos apóstolos.
A Palavra se faz
celebração
Celebrar a Páscoa na sinceridade
O versículo da aclamação ao Santo
Evangelho sugere que celebremos a Páscoa na sinceridade e na verdade. Isto é,
em nossa vida deve se operar uma transformação, uma mudança. A esta conversão
do coração, leia-se do discernimento a respeito dos caminhos a seguir na vida,
a Quaresma se encarregou de nos propiciar o tempo possível para a esta mudança
de vida. Agora, no Tempo da Páscoa, partindo da consciência de nossa condição
mortal e de nos sentirmos muitas vezes distantes e abandonados por Deus
(Quaresma) damos o salto qualitativo de nos congraçarmos por sua presença fiel
e ativa.
Na eucologia deste domingo, a Páscoa de
Cristo aparece unida a nossa páscoa. A oração depois da comunhão nos traz um
bom exemplo disso: "Guardai, ó Deus, a vossa Igreja sob a vossa constante
proteção para que, renovados pelos sacramentos pascais, cheguemos à luz da
ressurreição". Um escrito antigo atribuído a Nicodemos, traz uma
interessante passagem sobre a ressurreição de Cristo, que nos pode ser
proveitosa: "E porque vos admirais que Jesus tenha ressuscitado? O
admirável não é isto. O admirável que Ele devolveu a vida a um grande
numero". Interessante notar que no Evangelho de Mateus aparece uma afirmação
semelhante, vinculada à morte de Cristo na cruz: "os sepulcros se abriram
e muitos cadáveres de santos ressuscitaram. E, quando ele ressuscitou, saíram
dos sepulcros e apareceram a muitos na cidade santa" (Mateus 27,52-53).
A liturgia é sacramento pascal
A liturgia, como sacramento pascal,
faz-nos participantes da morte-ressurreição de Cristo. E como tal, faz-nos
aparecer diante do mundo como homens e mulheres que saíram do túmulo, passaram
pela morte e mediante a ela, ressuscitaram. Esta experiência se dá no seio da
Igreja que ora, escutando a Palavra de Deus - o ambão é tido como a pedra do
sepulcro de onde se anuncia a Ressurreição (monumentum paschale) e em
muitos lugares ele é esculpido ou ornado com imagens do Cristo ressuscitado.
A partir da escuta da Palavra e depois,
do pão e do vinho eucaristizados (ou seja, sobre os quais foi feita a ação de
graças), nossos olhos se abrem e nossos sentidos movidos pela fé enxergam para
além da morte a vida; para além da ausência, a presença. E como dirá Santo Agostinho
sobre o Corpo e Sangue de Cristo: "Por conseguinte [...] a misteriosa
realidade do que sois está posta sobre a mesa do altar". Isso porque:
Cristo Ressuscitou e nós com ele.
Ligando a palavra com
a ação eucarística
Na celebração da eucaristia, fazemos
memória da Páscoa do Senhor. Nesta celebração pascal se constrói e se manifesta
a Igreja, pois a Eucaristia é o centro no qual se congrega a comunidade
eclesial. Nela, nós nos encontramos com o Cristo vivo, ressuscitado. Ele
entregou sua vida por nós pela morte e ressurreição e continua entregando sua
vida em alimento no pão e no vinho, que são partilhados entre todos.
A nossa fé cristã afirma que a Igreja,
o povo convocado, faz a eucaristia, e que a eucaristia faz a Igreja. Cada vez
que celebramos a Eucaristia a Igreja está se reconstituindo, se reconstruindo.
Volta a encontrar seu centro, que é dar a vida. Dispõe-se a entregar para os
outros e assim se reconstitui como povo que tem uma missão no meio dos pobres.
É a decisão renovada de dar a vida nas lutas humanas e nos projetos humanos que
transforma este mundo. É povo que se transforma em presença real de Cristo, que
se entregou por amor. É a conseqüência do "amém" proclamado ao
comungar.
É impossível celebrar autenticamente a
Eucaristia sem adquirir consciência de ser povo enviado e povo que se renova
para cumprir melhor a missão que Deus nos mostra na história.
Cada vez que nos reunimos para
celebrar, renovamos a Aliança selada pelo sangue de Jesus, o templo vivo do
Pai. A comunidade reunida no amor de Cristo continua, com a presença do
Ressuscitado e do seu Espírito, a tarefa de levar adiante a Aliança da salvação
até que Deus seja tudo em todos.
Como Maria Madalena e os discípulos, na
oração eucarística, anunciamos sua morte e ressurreição: "Anunciamos,
Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor
Jesus!"
padre Benedito
Mazeti
1 – A morte de Jesus
surpreende os seus discípulos, e muitos dos judeus que O seguiam, que esperavam
d'Ele a salvação de Israel, que como Messias haveria de iniciar novos tempos,
uma realeza que devolveria o esplendor a todo o povo de Israel, como povo
eleito, como povo da Aliança. Esperava-se que "impusesse" a
onipotência de Deus. Nada disso aconteceu. Aquele Jesus, que toma consciência
da Sua filiação divina, não passa de mais um fracassado da história. Tantas
palavras, tantos gestos e milagres, e tem o mesmo destino de outros profetas,
de outros desgraçados, de outro injustiçados pelas sociedades do seu tempo.
Com a morte, advém a
dispersão dos apóstolos e de todos aqueles que andavam com Ele. Já antes se
mantinham à distância. O que mais se aproxima é Pedro, que vai até ao pátio,
para junto dos soldados, mas logo que alguém o interpela nega a sua
identificação com o Mestre dos Mestres. A primeira igreja dorme quando o seu
Senhor clama a Deus, reza em brados de agonia. Dorme quando se aproximam os que
O levarão ao Calvário e o seu discípulo de confiança, que O entrega com um
gesto de intimidade, um beijo.
Mas mais
surpreendente é a ressurreição. Se a morte cala todos os que seguem Jesus; a
Sua ressurreição deixa sem palavras os que fazem a experiência de encontro com
Jesus ressuscitado. A morte é escandalosa, Jesus morre abandonado por todos,
"sem Deus". Ele que Se apresentara como Filho, agora sente a angústia
da morte. Sente o desalento de morrer sozinho. Só num derradeiro momento, Se
entrega às mãos d'Aquele que o pode livrar da morte eterna e que O
ressuscitará.
Diga-se, no entanto,
que a postura de Jesus, como a de muitos profetas, não deixa antever nada de
bom. Jesus tem consciência que para se manter fiel a Deus e à Sua missão,
dificilmente sobrevirá por muito tempo. Assim aconteceu com os profetas de
Israel.
A ressurreição é algo
de novo, de diferente, que não cabe nos nossos (pré) conceitos humanos, nos
limites da nossa história e do nosso tempo. E nem o anúncio da ressurreição que
Jesus faz aos seus discípulos abre para qualquer esperança. A ressurreição,
para os que a professam, é para a vida futura, para o fim dos tempos. Mas eis
que com Jesus chega o fim do tempo, o fim do mundo como o conhecemos. Ele
ressuscita e aparece aos seus discípulos. A "igreja" acorda.
Surpreende-se. Reúne-se à volta do Seu Mestre e Senhor. Forma-se como
comunidade, comunidade nova, convocada pela vida nova de Cristo Jesus.
2 – Passado o sábado,
surge o primeiro dia da nova criação, o domingo (Dies Domini: Dia do
Senhor). Os amigos de Jesus voltam ao lugar da morte, voltam ao passado, para
se reencontrarem na proximidade física com o corpo do Mestre, mas são abalroados
pelos acontecimentos. Os "rumores" têm fundamento, o corpo de Jesus
não está no sepulcro, não pode estar, não é possível, o que é que aconteceu,
onde puseram o Seu corpo sem vida?
Maria Madalena, e
certamente outras Marias e outras mulheres, vai venerar o seu Senhor, vai
chorar para junto da Sua sepultura. Com o sábado, dia sagrado, nem deu para
fazer convenientemente o luto pelo amigo que morreu. Não é a mesma coisa, mas
há algum conforto junto do corpo daqueles que partiram para sempre, a memória
dos tempos passados em convivência. Como muitas pessoas sentem a necessidade
urgente de ir ao cemitério, para chorar, para se sentirem próximas dos seus
entes amados, também Maria Madalena, agradecida por tudo o que Jesus fez por
ela, ao curá-la das suas enfermidades, tornando mais belos e fáceis os seus
dias. Maria Madalena não encontra forma de agradecer convenientemente. A sua
vida perdera encanto, por uma doença grave – sete demônios. A riqueza material
não lhe aliviava o sofrimento atroz. Jesus cura-a e ela coloca, como outras
mulheres e outros senhores, os seus bens ao serviço de Jesus e dos seus
discípulos. Mas não apenas os bens, vai também ela servi-los. E agora que Ele
morreu, sente que não agradeceu o suficiente.
"No primeiro dia
da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a
pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o
outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e
não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos
ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou
também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no
chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as
ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara
primeiro ao sepulcro: viu e acreditou".
Chega Maria, chega
Pedro, chegamos nós – o discípulo amado –, e encontramos o túmulo vazio. E
agora, que fazer? Ardia cá dentro a esperança que tudo não tivesse passado de
um sonho, mas Ele morreu, o seu Corpo foi entregue para ser depositado, a pedra
rolou pesada no sepulcro escavado na rocha! Não queríamos acreditar, mas
aconteceu mesmo. Agora com o túmulo vazio, o que pensar? Terá acontecido o que
Ele tinha prometido, ressuscitar e encontrar-Se com os Seus?
Debruçamo-nos para
ver o lugar da morte, e encontramos o túmulo vazio, com os sinais de uma
presença, ou melhor, de uma ausência, não se encontra lá ninguém, só as roupas
que O embrulharam na morte. Acreditam, não há sinais de assalto, de roubo, tudo
está direitinho. Houve tempo para deixar tudo muito bem arrumado.
3 – Vai ser uma longa
jornada. Se a via crucis (via sacra, caminho da cruz)
atravessa uma semana, a via lucis (também via sacra, caminho
da luz), atravessa os Céus, traz-nos um novo dia e estará por muitas semanas,
muitos meses, muitos anos. A Igreja que germina aos pés da cruz, nasce
iluminada pela LUZ da ressurreição. Com efeito, a cruz só vale para nós na
medida em que a Luz no-la mostra como sinal de amor, de dádiva até ao fim. O
que nos salva não é, de modo nenhum, o sofrimento de Jesus Cristo, o que nos
salva, verdadeiramente, é o Seu amor por nós. Ainda que o amor envolva o
sofrimento. Quem ama, de verdade, arrisca-se a sofrer. Jesus arrisca sofrer por
amor. É o amor que O liga a Deus, é o amor que O liga à humanidade, é o amor
que nos liga uns ao outros para nos tornarmos comunidade.
O encontro com o
Ressuscitado provoca o anúncio da vida nova, o testemunho. Não se pode calar
aquele que vive, que festeja, que tem motivos para sorrir. A festa é
"barulhenta". Não há festa que não envolva pessoas, que não envolva
música e dança, que não envolva partilha e comunhão. Ninguém faz festa sozinho.
Precisamos dos outros para chorarmos, para que as nossas lágrimas tenham algum
sentido. Precisamos dos outros para fazer festa. Como a mulher que encontra a
dracma perdida e chama as amigas para festejar com elas, gastando tudo o que
encontrou. Ou como o pastor que encontrou a ovelha perdida, depois de tanto
procurar, e salta, grita, rejubila.
Obviamente, a festa
também acontece cá dentro, mas não cabe em nós. Uma boa notícia sabe melhor
quando partilhada. A ressurreição é um acontecimento tão surpreendente que não
cabe nas palavras dos discípulos, não cabe em casa, ainda que seja em casa que
a festa se inicie. Há que espalhar por outros a alegria da vida nova.
"Pedro tomou a
palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela
Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito
Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram
oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de
tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n'O,
suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe
manifestar-Se, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por
Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos
mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído
por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d'Ele que todos os profetas dão o
seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos
pecados»".
4 – A nova terra e os
novos céus, aguardados e prometidos pelos profetas e concretizados pela
Ressurreição de Cristo Jesus, não se encontram assim tão visíveis. A missão dos
cristãos é fazer com que a ressurreição de Cristo, e a comunhão nesta
ressurreição, pelo batismo e pelos outros sacramentos, seja luminosa para a
história e para o mundo. Com a ressurreição todos os recantos deveriam ficar
iluminados pela esperança, pela paz, pela vida nova, pelo encontro com o
divino.
Porém, ao longo da
história da Igreja, como na atualidade, os sinais de morte, de desistência, de
destruição, de crise, continuam a imperar. Podemos perguntar-nos onde está a
eficiência da Ressurreição de Jesus Cristo? Onde está a vida nova que
engendramos (que Deus engendra em nós) a partir do batismo? Teremos, talvez,
que morrer ainda, de morrer primeiro, de morrer para muitos vícios e seguranças
pessoais, de morrer para muitas tradições e costumes, e manias. Não há Páscoa
se não houver morte. Não há vida nova, se a vida "anterior" continuar
a reinar nos gestos e nas palavras que deveriam ligar-nos aos outros.
As duas missivas do
apóstolo são Paulo propostas como alternativa para a segunda leitura deste
domingo, são por demais provocadoras: "Se ressuscitastes com Cristo,
aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus.
Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa
vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se
manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória".
É urgente aspirar às
coisas do alto. Morremos e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, Ele
atrai-nos, deixemo-nos atrair.
"Cristo, o nosso
cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem
com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da
verdade".
Se nos fosse possível
manteríamos o melhor de dois mundos, o do passado, da morte, do velho, do
tradicional, e o da vida nova, da esperança, da ressurreição, da adesão a
Cristo Jesus. É um risco que sai caro, acabamos por nem viver num mundo nem em
outro. Como seria possível colocar vinho novo em odres velhos? Pergunta-se
Jesus. Para vinho novo, vasilhames novos, não se vá perder uma e outra coisa,
os odres e o vinho. Se a vida é nova, vivamos como novas criaturas, de Deus e
para Deus, compartilhando com os outros o melhor de nós mesmos, o Deus que nos
habita.
padre Manuel Gonçalves
Eis o dia que o
senhor fez exultemos e alegremo-nos
A Igreja celebra hoje o dia mais
importante da história, porque com a Ressurreição de Jesus se abre uma nova
história, uma nova esperança para todos os homens. Se é verdade que a morte de
Jesus é o começo, porque a sua morte é redentora, a Ressurreição mostra o que o
Calvário significa; assim, a Páscoa cristã apressa o nosso destino. Do mesmo
modo, também a nossa morte é o começo de algo novo, que se revela na nossa
própria Ressurreição.
1ª leitura: At.
10,34.37-42
A história de Jesus
resolve-se na Ressurreição
1. A primeira leitura deste dia
corresponde ao discurso de Pedro perante a família de Cornélio (At.
10,34.37-42), uma família pagã (de tementes a Deus, simpatizantes do judaísmo
mas não "prosélitos", porque não aceitavam a circuncisão) que, com a
sua conversão vem a ser o primeiro elo de uma abertura decisiva no projeto
universal da salvação de todos os homens. Esta narrativa é conhecida no livro
dos Atos dos Apóstolos como o "Pentecostes pagão" com a diferença do
que está relatado nos Atos 2, e centrado nos judeus de todo o mundo de então.
2. Pedro teve de passar por uma
experiência traumática em Jope para comer comida impura que lhe foi mostrada
numa visão (At. 10,1-33) tal como o entendeu Lucas. Vejamos que a iniciativa em
todo este relato é "divina", do Espírito, porque é Ele que
verdadeiramente conduz a comunidade de Jesus ressuscitado.
3. O apóstolo Pedro vive, no entanto,
do seu judaísmo, do seu mundo, da sua ortodoxia e tem de ir a casa de uns
pagãos, com o objetivo de anunciar a salvação de Deus. Na realidade, é o
Espírito que o conduz, Ele que se adianta a Pedro e às suas decisões; trata-se
do Espírito do Ressuscitado que vai mais além do que toda a ortodoxia religiosa.
Com esta narrativa pretende-se, pois, salientar a necessidade que têm os
discípulos judeo-cristãos palestinianos de romper com tradições que os atavam
ao judaísmo, de tal maneira que não podiam assumir a liberdade nova da sua fé,
como sucedeu com os "helenistas". O que tinha sido anunciado no
Pentecostes (At. 2) tinha de ser posto em prática.
4. O objetivo do discurso de Pedro é
expor perante uma família pagã a novidade do caminho que os cristãos iniciaram
depois da Ressurreição.
5. O texto da Leitura é, antes de mais,
uma recapitulação da vida de Jesus e da comunidade primitiva com Ele, através
do que está registrado nos Evangelhos e nos Actos dos Apóstolos. A pregação na
Galileia e em Jerusalém, a morte e a ressurreição, bem como as experiências pascais
nas quais os discípulos "convivem" com Ele numa referência explícita
às Eucaristias da comunidade primitiva. Porque foi na experiência da Eucaristia
que os discípulos puderam experimentar a força da Ressurreição do crucificado.
6. É um discurso de tipo kerigmático,
(i. é. profético), que tem o seu eixo no anúncio pascal: morte e ressurreição
do Senhor.
2ª leitura: Col.
3,1-4
A nossa vida está na
vida de Cristo
1. A carta aos Colossenses 3,1-4 é, sem
dúvida, um texto batismal, ou seja, nasceu na ou para a liturgia batismal, que
tinha o seu momento central na noite pascal, quando os primeiros catecúmenos
recebiam o batismo em nome de Cristo, embora esta liturgia não estivesse ainda
muito desenvolvida.
2. O texto tira as ilações: os cristãos
têm de acreditar e aceitar o mistério pascal, i.é. passar da morte à vida, do
mundo de cá de baixo para o mundo de cima. Pelo batismo, incorporamo-nos,
portanto, na vida de Cristo e ficamos na esteira do seu futuro.
3. Mas não é apenas futuro. O batismo
introduziu-nos já na Ressurreição. No batismo usa-se um verbo composto, de
grande expressividade na teologia paulina "syn-ergeirô",
"ressuscitar com". Quero dizer, a Ressurreição de Jesus já está
operante nos cristãos e, como tal, eles devem viver, o que é confirmado pelos
versículos seguintes de 3,5ss. É muito importante salientar que os
acontecimentos escatológicos da nossa fé, sendo o mais importante a
Ressurreição como vida nova, deve adiantar-se na nossa vida histórica. Devemos
viver como ressuscitados no meio das misérias deste mundo.
4. O autor da Carta aos Colossenses, um
discípulo muito próximo de Paulo, embora isto não seja aqui determinante,
escolheu um texto baptismal que, de certa forma, exprime a mística do batismo
cristão que encontramos em Rom 6, 4-8. No nosso texto de Colossenses mostra-se,
de maneira mais explícita do que em Romanos, que com o batismo aumenta a força
da ressurreição na vida cristã e não é qualquer coisa só para o fim dos tempos.
5. É muito importante salientar este
aspecto na leitura que fazemos, já que acreditar na Ressurreição não supõe uma
atitude estática em que contemplamos passivamente. Se é verdade que isso não
nos desculpa de amar e transformar a história, devemos saber que o nosso futuro
não está em nos consumirmos na debilidade do histórico e do que nos prende a
este mundo. A nossa esperança aponta para mais alto, para a vida com Deus, que
é o Único que pode fazer-nos eternos.
Evangelho: Jo 20,1-9
O amor vence a morte:
a experiência do verdadeiro discípulo
1. O texto de Jo 20,1-9, que todos os
anos é proclamado neste dia de Páscoa, propõe-nos acompanhar Maria Madalena ao
sepulcro, que é todo um símbolo da morte e do seu silêncio humano; incita-nos
ao assombro e à perplexidade de que o Senhor não está no sepulcro; não pode
estar ali quem entregou a vida para sempre. No sepulcro não há vida e Ele
tinha-Se apresentado como a ressurreição e a vida (Jo 11,25). Maria Madalena
descobre a ressurreição, mas não pode, porém, interpretá-la. Em João isto é
gratuito, pelo simbolismo de oferecer a primazia ao "discípulo amado"
e a Pedro. Mas não esqueçamos que ela receberá no mesmo texto de Jo 20,11ss uma
missão extraordinária, se bem que tenha passado por um processo de já não
"ver" Jesus ressuscitado como o Jesus que tinha conhecido, senão
reconhecendo-O de outra maneira mais íntima e pessoal. Mas esta mulher, é,
desde logo, testemunho da Ressurreição.
2. A figura simbólica e fascinante do
"discípulo amado" é verdadeiramente chave na teologia do quarto
Evangelho. Este corre com Pedro, inclusivamente, corre mais que ele, depois de
receber a notícia da Ressurreição. É, antes de mais, "discípulo" e,
por isso, é conveniente não o identificar, sem mais, com um personagem
histórico concreto, como é costume fazer-se. Ele espera até que passe o desconcerto
de Pedro, e com a intimidade que conseguiu com o Senhor por meio da fé, faz-nos
compreender que a Ressurreição é como o infinito; que as ligaduras que
envolviam Jesus já não o podem prender a este mundo, a esta história. Que a sua
presença entre nós deve ser de outra maneira absolutamente diferente e
renovada.
3. É verdade que a fé na Ressurreição
nos propõe uma qualidade de vida que nada tem a ver com a procura que fazemos
entre nós, com propostas de tipo social e econômico. Trata-se de uma qualidade
teologicamente íntima que nos leva mais além que toda a miséria e de toda a
morte absurda. A morte não deveria ser absurda, mas se o é para alguém, então
se nos propõe, desde a fé mais profunda que Deus nos destinou viver com Ele.
Recusar esta dinâmica de ressurreição seria como negar-se a viver para sempre.
Não só seria recusar o mistério do Deus que nos deu a vida, como do Deus que
há-de melhorar a sua criação numa vida nova para cada um de nós.
4. Por isso, acreditar na ressurreição
é crer no Deus da vida. E não apenas isto, é crer também em nós mesmos e na
verdadeira possibilidade que temos de ser alguém em Deus. Porque aqui, nós
nunca fomos nada, melhor, quase nada, para o que nos espera além deste mundo.
Não é possível enganarmo-nos, aqui nada nem ninguém se pode realizar
plenamente, em nenhuma dimensão da nossa própria existência. Mais além está a
vida verdadeira; a ressurreição de Jesus é a primícia de que na morte se nasce
já para sempre. Não é uma fantasia de nostalgias irrealizadas. O desejo ardente
do nosso coração de vivermos para sempre tem na ressurreição de Jesus a
resposta adequada por parte de Deus. A morte foi vencida, está consumada, foi
transformada em vida por meio de Deus que Jesus defendeu até à morte.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
O último grito de
Jesus
Jesus, mesmo antes de entregar a sua
alma nas mãos do Pai quis dar um grande grito. Com isto quis dizer, como o
explica são Tomás de Aquino, que o seu corpo estava ainda em pleno vigor e que
era livremente que Ele devolvia a alma. Mas de onde vinha aquele vigor
extraordinário, aquela vitalidade infinita? Vinha, certamente, da união
hipostática. Mas de que maneira se realizava ela? A sua fonte estava na visão
beatífica, mas esta irradiava o seu corpo por intermédio do amor. E este amor
divino irradiava humanamente em Jesus na e pela união a Maria, reprodução
temporal na carne da sua unidade eterna com o Pai.
A cruz de Jesus vai manifestar-nos a
superabundante plenitude desta fonte mística que está na origem de toda a vida
afetiva e, devemos dizê-lo, de toda a vida humana do Salvador. A pregação de
Jesus é como um rio de água viva que brota desta nascente e se alastra por todo
o mundo.
A Paixão de Jesus - que é o culminar
desta pregação como martírio e que a ultrapassa e a prolonga como sacrifício -
vai revelar-nos a superabundância extraordinária da fonte. Além disso, a Paixão
de Jesus revela o primado do amor sobre a vida e sobre a morte. Esta supremacia
do amor que se tinha realizado no momento da concepção de Jesus, tinha
permanecido como um mistério escondido de que apenas Maria tinha conhecimento.
Na cruz, este mistério atinge a sua
realização suprema. Maria continua lá, desempenhando um papel essencial, mas
esse mistério oculto vai ser revelado a toda a terra.
Thomas philippe,
O.P.
tradução de Maria
Madalena