10º DOMINGO TEMPO COMUM
Ano B
Evangelho
Mc 3,20-35
Deus é amor e bondade infinita, portanto Ele perdoa
todos os nossos pecados? Sim. Com exceção de um. Continuar lendo
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“... QUEM BLASFEMAR CONTRA O ESPÍRITO
SANTO NUNCA SERÁ PERDOADO...” Olivia Coutinho
10º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia
10 de Junho de 2018
Evangelho
de Mc3,20-35
O mundo continua
rejeitando a proposta de Jesus, não querendo enxergar a verdade que
liberta, preferindo permanecer na escuridão do pecado.
Numa
sociedade indiferente a Deus, a vida é fragmentada, não existe unidade, não há
relação humana, o que há mesmo, é um amontoado de pessoas, sem ideais, cada uma
vivendo pra si, se contentando com prazeres momentâneos.
Como
seguidores de Jesus, temos que estar sempre atentos, para não nos contaminarmos
com esta postura contrária ao valores do evangelho, o contratestemunho,
que pode nos levar a perder a noção do que é pecado, nos convencendo, de
que o errado é que é o certo.
A
todo instante, Jesus nos chama à conversão, para atendermos
a este seu apelo, precisamos estar abertos a ação do
Espírito Santo, pois é o Espírito Santo, que fala à nossa consciência,
nos conscientizando dos nossos erros e simultaneamente, da nossa
necessidade de conversão.
O
evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, nos mostra que os
Mestres da lei, mesmo tendo testemunhado os milagres realizados por Jesus, não
quiseram enxergá-lo com o Messias, o Filho de Deus.
Dispostos
a denegrir a imagem de Jesus diante o povo, eles chegaram ao ponto
de dizer que Jesus estava possuído pelo o poder do mal, confundindo até mesmo
os seus familiares, que quiseram agarrá-lo, pensando que Ele
estivesse mesmo fora de si.
Ao dizer
que Jesus estava possuído por Belzebu, os mestres da lei que haviam vindo de
Jerusalém, com o único objetivo de investigar Jesus,
cometeram uma ofensa gravíssima à Deus, o pecado contra o
Espírito Santo, que é o pecado da negação.
Como
podemos perceber, Jesus enfrentou muitos desafios para colocar em prática o
projeto de Deus, pois foram muitos, os adversários deste projeto de vida nova
para todos!
Jesus
era humano e Divino, mas em toda situação que lhe exigia uma tomada de posição,
era sempre o seu lado Divino que prevalecia. Podemos perceber isso claramente
na parte final do evangelho, quando, ao ser informado que a sua mãe e seus
irmãos, ou seja, os seus familiares, queriam lhe falar, Ele não afastou da
multidão para atendê-los, não interrompeu a sua missão Divina junto àqueles que
o Pai lhe confiara, para atender a sua família de sangue, demonstrando assim,
uma atenção igualitária para com todos!
"Todo
aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha
irmã e minha mãe"! Com essas palavras, Jesus não desconsiderou os seus
irmãos (parentes) e muito menos a sua Mãe, pelo contrário, Ele a elevou, pois
ninguém mais do que Maria, fazia a vontade do Pai!
Maria
se colocou como serva de Deus, desde o anuncio de que ela seria a mãe De Jesus:
"Eis aqui a serva do Senhor, faça em mim, segundo a Sua vontade"!
Para
termos discernimento sobre tudo que nos é apresentado como valores, precisamos
estar abertos ao Espírito Santo, pois é o Espírito Santo que nos fará perceber
a diferença entre o certo e o errado, entre o que é de Deus, e o que não é
Dele.
Fechar-se a ação do
Espírito Santo, é fechar-se à graça De Deus, não podemos dar este prazer aos
opositores do projeto de Deus, que estão sempre à espreita, prontos
para nos pegar, em nossas fraquezas.
Precisamos
ter o cuidado de não nos deixar contaminar pela pior de todas as cegueiras: a
cegueira de quem não quer enxergar a verdade, para não ter que mudar a sua
conduta.
Jesus
venceu todos os obstáculos para dar continuidade ao seu ministério, nós também,
se ligados a Ele, haveremos de vencer todas as barreiras, para dar continuidade
a sua missão, que a partir da sua morte e ressurreição, passou a ser nossa.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Entre o pecado e a graça
Neste domingo, a liturgia regressa ao tempo comum.
Por maravilhosa coincidência é-nos proposto assumir a fragilidade humana, como
aconteceu com o primeiro par no Jardim da Criação e, ao mesmo tempo, aceitar a
extraordinária generosidade de Deus que perdoa no tempo e oferece depois uma
eternidade feliz. Estes três aspectos estão presentes nas leituras. O pecado de
Adão provocou uma rupturas entre Deus e o homem, não porque Deus o abandonasse
mas porque aquele se escondera no jardim (1ª leitura). Mas o Senhor não se
cansa de procurar o homem e envia mesmo o Seu próprio Filho para restabelecer a
relação entre Deus e a humanidade. No diálogo que Jesus estabelece com os seus
e com os que o procuram, Jesus outra coisa não diz senão que é essencial,
aceitar a vontade de Deus. Esta verdade é tão exigente que Jesus referindo-se a
Maria chega a dizer que a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que fazem a
vontade de Deus (Evangelho). A liturgia completa-se com um texto lindíssimo da
2ª carta de são Paulo aos Coríntios em que os cristãos são convidados a
ressuscitar com Cristo, com a garantia de que ressuscitarão também
para uma morada eterna (2ª leitura).
1. A perda da comunhão
A criação é descrita no livro do Gênesis como um
extraordinário mistério da comunhão. No princípio Deus disse ao par humano:
crescei, multiplicai-vos, dominai a terra (Gn. 1,28). A harmonia da criação
porém, foi contrariada pelo homem. Deus pedira um sinal de comunhão, não comer
da árvore da vida. o homem não respeitou este sinal e quebrou a comunhão com
Deus, com os outros, e com todos os seres. Na linguagem simbólica, Adão foge de
Deus, Adão acusa a mulher, a mulher acusa a serpente, a serpente não tem como
defender-se. A ruptura foi completa. Não há mais comunhão. Os sinais desta
ruptura estão na interpelação de Deus à serpente: vais rastejar e comer do pó
da terra; estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência
e a dela, e ela esmagará a tua cabeça” (Gn. 3,14). Nesta descrição
compreende-se que ao pecado de Adão sucede da parte de Deus a promessa de um
Redentor.
2. O essencial da mensagem, a vontade de Deus
Jesus percorreu os caminhos da Galileia e da Judeia
anunciando o Reino. Para lhe pertencer há uma condição, aceitar a vontade de
Deus. Quando Cristo proclama a Boa Nova as multidões dividem-se: se há muitos
que seguem Jesus sem condições, há alguns que O criticam ferozmente, porque O
consideram alguém que subleva o povo. Jesus proclama o perdão de Deus dizendo,
porém, que ninguém pode pecar contra o Espírito, isto é, que ninguém pode
contrariar o amor que Deus tem pela Humanidade. Muitos vão compreender e vão
segui-l’O. A certeza que o essencial é a vontade de Deus está num pequeno
pormenor deste Evangelho: Maria e os seus familiares queriam falar a Jesus. A
sua resposta, porém, é desconcertante, “a minha mãe e os meus irmãos são
aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Mc. 3,35). Esta
expressão não deixa de ser elogio para Maria, porque ela escutou a vontade de
Deus e viveu-a até ao fim.
3. O Homem para a eternidade
A liturgia de hoje completa-se com o texto de são
Paulo aos Coríntios. Nele sublinham-se duas atitudes do cristão: acreditar e
proclamar. Se o desafio da fé é acreditar na Ressurreição de Cristo, a
responsabilidade do cristão é proclamar essa Ressurreição em todas as situações
da vida. Paulo fala do homem interior e do homem exterior, aquele que crê e se
santifica, e aquele que proclama e se torna Apóstolo. A vida humana, porém,
continuará sempre limitada porque o essencial é a vida verdadeira que está
prometida. É com esta certeza que termina a 2ª leitura de hoje “a vida não
acaba, apenas se transforma, e desfeita a tenda do exílio terrestre adquirimos
no céu uma habitação eterna” (2Cor. 5,1).
monsenhor Vitor Feytor Pinto
“Revista de liturgia diária”
Paróquia Campo Grande
O homem dividido entre dois
reinos
A liturgia de hoje é linda, ela nos leva a meditar
ir até à Igreja primitiva, quando os primeiros cristão se reuniam,
organizavam-se em comunidades, à celebração assídua da palavra, e a fração do
pão. (Eucaristia)
Os primeiros textos dos Evangelhos, as cartas de
exortação dos Apóstolos, eram dirigidas às comunidades cristãs, espalhadas nas
províncias do vasto império romano, para alicerçar a fé do povo de Deus, no
ressuscitado.
O Novo Testamento, nasceu desta forma; ao longo dos
anos de caminhadas cristãs, foram formando os primeiros textos, as
"Epístolas, os Sinóticos, e o de São João."
Existem outros livros chamados Apócrifos, que
a Igreja não acolheu no Cânon, por serem duvidosos, e não estar de acordo com a
revelação e a tradição dos Apóstolos, isto é da Santa Mãe Igreja.
O texto do Evangelho deste Domingo nos
oferece um dos melhores exemplos, e nos dá uma ideia de como nasceram as
Sagradas Escrituras.
Quem organizou e guardou por longos Seculos, as
sagradas Escrituras foi a Igreja Católica. Eram imensas bibliotecas para serem
compiladas, por ser em pergaminhos, papiros ou tijolos de argilas etc. (Foi são
Jeronimo um sacerdote Católico que fez a tradução da bíblia para o latim entre
os seculos IV e V a pedido do Papa Dâmaso I, a tradução conhecida por vulgata)
A Boa Noticia, foram nascendo de recordações vivas
pessoais comunitárias, de dito e fatos de Jesus, reunidos nem sempre numa ordem
cronológica ( A ordem em que foram efetivamente ditos e feitos ) mas, via de
regra, por associação de ideias e temas.
Os escritos foram chegando nas reuniões e
celebração da fração do pão, ditados pelos Apóstolos e discípulos testemunhas
vivas oculares, que conviveram, caminharam com Jesus, viram-no, ouviram seus
ensinamentos, suas pregações.
Agora lembrados pelo Espírito Santo, os discípulos,
podem exortar a Igreja caminhante, com as palavras do divino Mestre. Jesus
falou aos discípulos: 25 "Eu tenho dito estas coisas enquanto estou
convosco.
26 Mas o defensor, o Espírito Santo que o Pai
enviará em meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho
dito." 13 "Quando vier, o Espírito da Verdade, vos guiará em toda a
verdade. 14 Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo quanto tiver ouvido e
vos anunciará o que há de vir. (Jo 14,25-26; Jo 16,13)
O primeiro Evangelho foi escrito por João
Marcos, que foi companheiro de Paulo, na primeira viagem missionária na Antioquia,
depois ele ficou com Pedro em Roma.
Os Evangelho não foram escrito com intenção de
redigir uma "história," ou de escrever uma "biografia" de
Jesus, mas com o objetivo de alimentar a fé dos primeiros cristãos.
Por isso os textos dos Evangelhos são verdadeiros,
de sentidos profundos do que qualquer história profana. Ele foi escrito
realmente com o "dedo de Deus," isto é, com o Espírito Santo, o qual
conhece não somente os segredos de Deus, mas também os segredos do homem e sua
história. (1Cor. 2,11)
A primeira leitura deste Domingo, nos leva meditar
os mistérios de Deus, os primórdios tempos, a história do homem e o
paraíso, onde deixaram ser enganados pela voz do maligno.
O livre arbítrio do ser humano, preferiram a
escolha do mal, o homem se retraiu à bondade do criador, levado pelas insidias
do maligno, perderam a graça de filhos Deus.
O pecado original, para nós pobres mortais
pecadores, é um mistério profundo, pois as Sagradas Escrituras narra-nos, que
o pecado começou no céu. Os anjos apóstatas abandonaram seus tronos e
foram precipitados no abismo.
"São anjos decaídos por terem recusado
livremente a servir a Deus e a seu desígnio. Sua opção contra Deus é
definitiva, para eles não tem salvação. Eles tentam associar o homem à sua
revolta contra Deus." (CIC 414 ) (Is. 14,12-14; 2Pd. 2,4; Ez. 28,12-15;
Ap. 12,10; Lc. 22,31; Mt. 25,41)
O pecado original trouxe ao homem, consequências
graves e desastrosas, a morte e a perca da filiação de filhos de
Deus. Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes...Foi a
inveja do Diabo que a morte entrou no mundo. (Sb. 1,13;2,24)
A Boa Noticia é: Deus na sua infinita
misericórdia perguntou: "Adão onde estás..?" Ele está sempre
perguntando a cada um de nós - Onde você esta meu filho..?
Então no seu infinito amor de misericórdia,
enviou seu Filho a este mundo para nos salvar da morte eterna. Deus está sempre
nos procurando e perguntando: Meus filhos onde estão vocês..? Enviei meu Filho
amado ouvi-o..!
Por isso que Nosso Senhor diz no Evangelho:
Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? São aqueles que fazem a vontade de
Deus, esses são meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mc 3,35)
Isso quer dizer para nós que, quem crê Nele, a sua
fé é mais importante que os próprios vínculos de sangue. A verdadeira família
de Jesus é aquela que faz constantemente a vontade de Deus.
No antigo Israel, era costume determinar pela raça,
pelo sangue e pela linhagem de descendência quem era "puro ou
impuro," quem era judeu ou pagão. ( Marcos dirige o texto do Evangelho, às
Igrejas primitivas. Este costumes tinha que ser quebrantado, abolidos do meio
cristão, e nas estruturas familiares. ) Por isso Jesus ao libertar as
pessoas de todo e qualquer mal, é acusado pelos mestres da lei de ter ligação
com o próprio mal.
Na bíblia a palavra Satanás vem do hebraico, no
sentido de "adversário, opositor e malvado, aquele que divide," e
na tradução grega, quase sempre foi traduzida por diábolos, no sentido de
acusar, caluniar, falsificar, enganar.
E exatamente isso que os judeus mestres da lei
acusam Jesus, pois sabem que as suas palavras trás vida nova, liberta o povo da
opressão da lei. Por isso, eles o acusam e o caluniam por inveja e maldade.
Usam da intervenção de alguns parentes,
movidos pelos dissuasivos mestres da lei, desviar Jesus de seu ministério. A
acusação de coluio com Satanás e as palavras de Nosso Senhor, ao dizer aos
doutores da lei: Como pode satanás expulsar a si mesmo?
Então Satanás está contra si mesmo, como pode
Satanás expulsar a Satanás nos mostra o choque entre o forte e o mais forte. (
Mc 3,22-26 ) A mensagem de hoje é também "uma mensagem para a vida
eterna."
A batalha decisiva entre dois reinos,
aconteceu com Cristo, mas a guerra não se acabou; a antiga serpente continua a
armar ciladas ao calcanhar de sua linhagem, que é seu corpo, seus membros,
nós..! (Gn. 3,15)
Agora Satanás é expulso de nossa habitação, pelo
nosso batismo, e nossa renuncia ao mal, e nós tornamos co-herdeiro de Deus em
Cristo Jesus.
Mas o espírito imundo, procura brechas
continuamente para reentrar em nossas vidas, para fazer-nos perder nossa
salvação, conquistada por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto este tempo é para nós de vigilância e
decisão. Irmãozinhos..! A diferença entre agora e antes de Cristo, é que
agora nós podemos vencer, ou melhor "vencer de virada;" antes - sob a
lei- não! (1Pd. 5,8-11)
Mas para vencer é preciso suar, é preciso
participar na luta e na vitória de Jesus, tomando nossa cruz no dia a dia e
seguindo-o. Completar o que falta à vitória de Jesus, completar o que faltou em
Cristo na cruz ..! (Lc. 9,23; Mt. 16,24; Mc. 8,34)
Deus manifesta-nos, o seu amor em seu filho Jesus
Cristo, dialoga com o ser humano, vai a procura dele, chama-o e pergunta-lhe
com ternura: Onde está você..? Seu amor fiel oferece a toda a criatura um
futuro de esperança e de salvação.
Opor a Ele é recusar sua salvação é um pecado
contra o Espírito Santo (Mc. 3,29). De fato sabemos que, se a tenda em que
moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não
é obra de mãos humanas, mas que é eterna." (2Cor. 5,1).
Texto elaborado da:
- homilia de Raniero Cantalamessa extraido de sua
obra "O Verbo se faz carne” ano "b" 10º domingo do tempo comum
"O homem dividido entre dois reinos" - pg 373-376
- Deus conosco dia a dia ano "b" 10º
domingo do tempo comum - pg 45-48
- comentário na pg 121 pe. Francisco Abertin
- Bíblia: Ave Maria.
"Aqui estão minha mãe e meus
irmãos"
Domingo dos verdadeiros parentes de Jesus. A Igreja
professa sua fé em Deus, fonte de todo o bem. Como explicar, então, e conviver
com a existência do mal?
A liturgia deste domingo enfrenta esta questão e
responde com a própria Palavra de Deus: "Deus é amor, e quem permanece no
amor permanece em Deus, e Deus nele.
Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se
manifesta na vida de todas as pessoas e grupos que fazem o que é agradável a
Deus.
Antífona de entrada: O Senhor é minha luz e minha
salvação: a quem poderei eu temer? O Senhor é o baluarte de minha vida: perante
quem tremerei? Meus opressores e inimigos, são eles que vacilam e sucumbem
(Salmo 26/27,1-2).
Primeira leitura: Gênesis 3,9-15
Depois do pecado, Deus não acaba o diálogo com o
homem: vai à procura dele, chama-o e fala com ele (vs. 8-9). O
"homem", envergonhado e amedrontado (v. 10), procura lançar as
culpas sobre a "mulher" (v. 12) e esta sobre a "serpente"
(v. 13) que é a única a ser amaldiçoada por Deus (v. 14).
Adão e Eva, antes amigos de Deus, agora se
escondem. É o lado psicológico do pecado: o escrúpulo, o medo, a insegurança, o
sentimento de culpa. Para designar o desequilíbrio emocional, resultante do
pecado, o autor sagrado apresenta o casal com vergonha de comparecer nus diante
do Senhor, com quem antes conversavam tão familiarmente, apesar da nudez. Ao sentimento
de pudor une-se ao de remorso. Romperam-se as relações e Deus, juiz universal,
pede contas, insinuando, porém, desde o início, como Criador e Pai que vai
reatá-las, embora fora do paraíso. Ao pecado segue-se o julgamento divino,
salientando-se a astúcia da Serpente. A proibição e respectiva ameaça foi dada
diretamente a Adão. É a ele que Deus se dirige em primeiro lugar poucas
palavras "onde estás"? Adão tenta justificar-se, culpando, traindo
sua esposa e, afinal, responsabilizando o próprio por lhe ter dado uma
companheira tão frágil e tentadora. Inclusive parece querer diminuir sua culpa,
dizendo que aceitaria da companheira apenas uma fruta. "Eis a soberba! Não
aceita o pecado. Em lugar de humilde confissão, a desordem, a confusão"!
(santo Agostinho, PL 34,449).
O Senhor, então, se dirige à Mulher que, por sua
vez, acusa a Serpente. A desculpa dela é mais procedente, pois reconhece ter
sido ludibriada pelo maligno. O juiz divino leva em conta essa diminuição, sem
porém isentar a Mulher do pecado. É a história do homem: peca, não aceita,
busca pretextos, culpa os outros, vai à procura de atenuantes... mas Deus lhe
pedirás contas.
A Serpente é um ser inteligente e maldoso, que
encarna o espírito do mal e conhece o preceito divino, instigando o homem a
desobedecer-lhe. E, nessa desobediência, o livro sagrado vê a causa de todo
mal. A cobra é talvez o animal que mais repugnância e aversão instintiva
provoca. Com certeza é um bicho "maldito"; ela sempre foi num réptil
por natureza, mas o autor sagrado, teologizando, vê nessa atitude e no
"comer o pó" uma humilhação, um indício de abatimento e derrota, ao
passo que o caminhar ereto é sinal de realeza; os ofídios, isto é, os animais
que se assemelham à Serpente, não se nutrem de pó, como pensavam os antigos (Isaias
65,23.25; Salmo 71/72,9; Miquéias 7,17). "Comer o pó" simboliza a
derrota da Serpente, não como simples animal, embora divinizado na cultura
cananéia, mas como símbolo do mal, autor como Adão e Eva, do pecado.
A serpente foi escolhida pelo autor sagrado para
desempenhar o papel de tentador. As razões são várias. No Oriente próximo
principalmente no culto cananeu, com efeito, a serpente representa a divindade
da fecundidade, tanto a dos campos quanto a das mulheres. E muitas mulheres, em
Israel como nas nações vizinhas, de boa vontade recorriam ao culto da serpente
pra garantir um casamento fecundo. Aos olhos de Israel era o símbolo de toda a
iniqüidade e a origem principal da apostasia e superstição. Por isso a serpente
pode simbolizar a narração da queda como quem atua como adversário de Deus.
Chama-se "o mais astuto de todos os animais", simbolizando a ciência
secreta divinizada e da magia.
A descendência da Serpente, em sentido coletivo, é
o conjunto das forças do mal que, aliadas à Serpente, lutam contra Deus.
Paralelamente à descendência da Mulher, como coletividade, seriam as forças do
bem que promovem o Reino de Deus e lutam contra seus inimigos, vencendo todos
eles (cf. Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab), primeira leitura proclamada na
solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
A maldição da Serpente esclarece uma constante do
Primeiro Testamento. Quando Deus pune o homem, a condenação jamais é absoluta:
um futuro permanece possível. De certo modo, esse relato destaca que Deus
sempre se põe ao lado do ser humano. No momento mesmo em que amaldiçoa a
Serpente, Deus abre o caminho para a esperança. Segundo Gênesis 2,8, as
maldiçoes jamais têm a última palavra. Elas podem acumular-se uma após a outra
(Gênesis 3,14-20; 4,11-14; 6,5-7.10), mas a bênção termina sempre por triunfar
(Gênesis 8,21) e por orientar o sentido da história.
Jesus Cristo, e somente Ele, pode conhecer o bem e
o mal e passar da vida à morte, mas à maneira de um Deus que triunfa sobre a
morte por sua vida que ninguém pode tomar, e que vence o mal por um perdão sem
medida.
A todas as pessoas que conhecem, depois de Adão, a
morte e a vida, o bem e o mal, a Eucaristia oferece o fruto da árvore da vida
que Adão não pode comer (v. 22), a fim de que um pouco de vida divina neles
lhes permitem justificar o mal e vencer a morte.
Salmo responsorial 129/130,1-8
Salmo penitencial De profundis é
utilizado na liturgia dos fiéis defuntos, não como lamentação, mas antes como
expressão de confiança e de esperança. Também quem está mergulhado na sombra da
morte ou passando por uma situação muito difícil, espera do Senhor
"misericórdia, redenção" e vida (cf. v. 7). O Salmo 129/130 é uma
súplica individual, com convite à assembléia. Sete vezes é invocado o nome do
Senhor no breve salmo.
A profundeza é temível para os israelitas,
incompreensível, semelhante à morte e o Xeol. De sua profundidade humana o
homem grita, e seu grito sobe até o céu A profundidade radical é o pecado, que
distancia a pessoa humana de Deus, e o envolve em escuridão. Só de Deus pode vir
o perdão, por isso a pessoa humana deve respeitar a Deus com respeito sagrado.
Em sua ignorância e obscuridade o ser humano pode atravessar a obscuridade com
seu grito; depois aguarda a resposta. Como a aurora devolve a luz, assim Deus
enviará seu favor.
É preciso descobrir o rosto de Deus neste Salmo
como o "aliado" do povo. O esquema do Êxodo (clamor, descida de Deus
e libertação, resgate ou redenção) está bem presente neste Salmo. Deus se
mostra, mais uma vez, o Deus da Aliança (a palavra "redenção" recorda
o resgate de escravos. Mas há outros aspectos igualmente interessantes.
Atingindo as profundidades da própria alma, o ser humano descobre sua fraqueza
e miséria totais. Aí, então, clama. E o clamor se torna a expressão da alam e
da vida. Prestando atenção no clamor, Deus desce para ver o que há em nossas
profundezas. Surpreendentemente, Ele deixa de investigar as culpas da pessoa ou
do povo, e se apresenta como aliado que se compadece. Sua resposta é perdão (v.
4a), a graça e a redenção (v. 7b). Ao invés de infundir medo por meio de
castigos, infunde respeito ao pecador por meio do perdão (v. 4).
A palavra "redenção" ecoou profundamente
em Jesus. Em Mateus 1,21 se diz que Jesus irá salvar (isto é, redimir) seu povo
dos seus pecados. Além disso, o episódio de Marcos 2,1-12 apresenta Jesus
perdoando os pecados do paralítico. Cura-o pela raiz, devolvendo-lhe liberdade
e vida.
A liturgia cristã ama este canto penitencial e está
também no Ritual das Exéquias. Embora a Igreja e cada um dos cristãos tenham sido
tocados já pela luz de Cristo, vivem na profundeza do mundo, e pecam. A
redenção abundante de Cristo vai se realizando continuamente, muna expectativa
contínua de redenção definitiva.
Embora tenhamos sido tocados pela luz de Cristo,
vivemos ao mesmo tempo a pobreza de nossa condição humana. Com este salmo,
gritamos a Deus, das profundezas de nosso pecado, contemplando a salvação que
vai se realizando em nós gratuitamente.
Segunda leitura: 2 Coríntios
4,13-5,1
A fé descrita por Paulo ilumina o ver e o sentir, o
falar e o rezar, a mente e o coração, o dia-a-dia e a esperança das pessoas.
"Acreditamos e por isso falamos" (2 Coríntios 4,13), estamos
convictos de que "Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de
ressuscitar" (2 Coríntios 4,14); "Tudo é por vossa causa",
"tudo é graça" (cf. 2 Coríntios 4,15), "por isso não
desanimamos" (4,16). A fé cristã consiste em "olhar para as coisas
invisíveis" (cf. 2 Coríntios 4,18), as que o Senhor constrói para nós (2
Coríntios 5,1).
Paulo sabe ler com fé a sua situação triste e
atribulada. Sabe que a "glória", a "ressurreição e a
redenção" passam através do sofrimento e da morte (cf. 2 Coríntios 4,7). O
destino do Apóstolo segue as pisadas do destino de Jesus. A fé faz ver as
coisas invisíveis aos olhos humanos (2 Coríntios 4,18), a fé consiste em ver as
coisas como Deus as vê. A lente divina que permite ver o que é invisível: Jesus
Cristo morto e ressuscitado.
Da fé, consiste em ver tudo e todos à luz de Jesus
Cristo, nascem as outras duas virtudes teologais: a caridade/graça, que se
torna força para suportar as provações e "hino de louvor" para glória
de Deus (2 Coríntios 4,15); e a esperança/certeza de saber que nem tudo em nós
é corruptível (2 Coríntios 4,16) mas, pelo contrário, Deus está a construir para
nós uma "habitação eterna" (2 Coríntios 5,1).
Esse texto de Paulo mostra, então, a ressurreição
do cristão como algo de futuro, excluindo que ela já tenha acontecido no
batismo (cf. Colossenses 3,1-2,12), como significando um tempo cronológico no passado.
A parte física, corruptível do homem pode se
consumir e sua força vital ser aniquilada, o homem interior, espiritual criado
em nós no batismo, porém, é imortal, animado pela fé e o Espírito Santo. Cada
dia de novo recriado pela força do amor de Deus, ele assume a imagem de seu
Criador (cf. Colossenses 3,10) torna-se criatura. A esperança é portanto maior
que as tribulações, pois a força interior da graça levará à vida da glória, à
salvação definitiva, tornando nosso corpo ação do Espírito Santo que o
realimenta.
Hoje Paulo diria: se o nosso homem biológico
caminha para a ruína, o nosso homem psicológico e espiritual se renova a cada
momento da nossa caminhada cristã para o Reino definitivo.
A eucaristia alimenta sem cessar a reconciliação da
esperança teologal com a esperança humana. Com efeito, ela convida os cristãos
à construção do Reino e purifica-os de seu egoísmo, colocando-os em condições
para o mais lúcido exercício de seus recursos. Mas convida os cristãos ao mesmo
tempo a mobilizar estes recursos, assim transfigurados, para a construção de
uma cidade humana onde ele testemunhará, o mais possível, a vitória cotidiana
sobre a morte e sobre o ódio.
Evangelho: Marcos 3,20-35
Em toda a primeira parte do Evangelho de Marcos
(capítulos 1-8) surge uma pergunta que salta de página em página: quem é Jesus?
Quem é esta pessoa que fala com autoridade e atua com poder? As suas palavras
sacodem e fascinam, os Seus milagres colocam interrogações. Coloca medo o poder
que demonstra até sobre os espíritos maus. Os discípulos têm dificuldade em
compreender, mas permanecem junto do Mestre, a multidão oscila entre entusiasmo
e curiosidade; mas no texto de hoje os escribas e os fariseus procuram
desacreditá-Lo, apresentando-O como possuidor de um poder diabólico (cf. vs.
22-30). Os parentes, preocupados, procuram levá-Lo para casa (v. 21).
Com argumentos convincentes (vs. 23-27) e
libertando os endemoniados (cf. Marcos 1,23-27), Jesus procura dar a entender
que Ele é, mas sem encorajar falsas interpretações da Sua condição messiânica.
São palavras dramáticas as que dirige a quem impugna a verdade conhecida (vs.
28-29), e mostram-se duras até as palavras dirigidas aos parentes (vs. 33-35).
A fé é mais importante do que os próprios vínculos de sangue.
O pecado contra o Espírito Santo. A resposta de
Jesus é um dos textos que melhor acentua a força de perdão presente em Deus. O
discurso começa com a palavra hebraica "amen" (= "em
verdade") que tem um sentido afirmativo reforçado. O Cristo diz "aos
homens tudo será perdoado, os pecados e até as blasfêmias" (v. 28).
Impossível perdoar mais!
Porém, diante de tanta bondade de Deus, há
entretanto o famoso pecado contra o Espírito Santo que parece abrir uma
exceção. O que significa exatamente? Conforme o contexto imediato, é o seguinte:
quem atribuir, de má fé, às forças do mal o bem gerado por Jesus Cristo
exclui-se a si mesmo do plano salvador de Deus. Não é Deus que recusa o perdão,
é o pecador que recusa em acolher a salvação oferecida gratuitamente pelo Pai
através do Espírito Santo que age em Jesus. É a própria pessoa que se fecha,
radical e voluntariamente, por causa da cegueira e dureza de coração (Marcos
3,5). Tal recusa de conversão impede o perdão. Nisto entendemos a blasfêmia
contra o Espírito Santo ou, em outras palavras, o pecado eterno (v. 29).
Os vs. de 31-35 relatam o verdadeiro parentesco de
Jesus. Os três sinóticos contam este episódio, seja antes do ensino em
parábolas (Mateus/Marcos, seja depois, Lucas).
Em Marcos, a chegada da mãe e dos
"irmãos" (= os primos) de Jesus (cf. Mateus 12,46) constitui uma
seqüência direta aos vs. 20-21. Jesus está pregando na casa de André e de
Simão. Por causa da multidão, Maria e os outros familiares não podem falar
pessoalmente com Jesus. Por causa disto, mandam alguém avisá-Lo de sua
presença.
É um fato muito banal do qual Jesus vai
aproveitar-se para mostrar que veio reunir todas as pessoas numa só família. A
dureza aparente da sua resposta desaparece se considerarmos que Jesus está
falando não com os membros da sua família, mas sim à multidão. Em termos
atuais, Jesus diria que sua família não se restringe aos vínculos do sangue:
reúne todos aqueles que fazem a vontade de Deus (parentes espirituais), o Pai
de todos os homens e de todas as mulheres. Com efeito, o Espírito que o Filho
veio trazer é um espírito de comunhão e participação no próprio Amor de Deus
que se exerce soberanamente perdoando a todos. É só acreditar e agir de maneira
conseqüente.
O ser humano foi criado livre: portanto, não pode
ser o joguete de outras criaturas, mesmo espirituais. Foi isto que Cristo veio
revelar libertando-se desta solidariedade cósmica que o envolvia como homem, e
libertando seus irmãos do domínio das potencias do mal.
Esperando a clara manifestação desta vitória, o
cristão se encontra envolvido por duas solidariedades opostas: ora ele cede ao
pecado, e mergulha na primeira; ora escuta a Palavra e obedece a ela, e
elabora, assim, a solidariedade do novo Reino.
Esta escuta da Palavra toma corpo na liturgia da
Palavra e colocá-la em prática, na obediência, constitui o conteúdo do
sacrifício espiritual oferecido na Eucaristia que contém os nutrientes para
alimentar a nossa fé em nossa caminhada tão cheia de perigos.
Da Palavra celebrada ao cotidiano
da vida
No Evangelho, os adversários de Jesus querem dizer
que Jesus também tem uma inclinação para o mal, isto é, esta
"ambivalência" que parece ser natural no ser humano: o bem e o mal.
Ao dizer que ele está "possuído" por Belzebu, indagam sob qual
inspiração Jesus age. Quem está por trás de seu trabalho, uma vez quer a
mentalidade judaica via os demônios como seres pessoais, capazes de se
relacionar com o homem e a mulher e influenciá-lo? Aqui encontramos a conexão
com a primeira leitura. Adão e Eva se deixaram induzir pela palavra da
Serpente, imagem usada no relato do Gênesis para personificar o mal. Jesus
deixa claro na parábola para nós e, sobretudo, na conclusão da narrativa
evangélica, que age sob o impulso/inspiração de Deus: "quem faz a vontade
de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Jesus age como o
"Novo Adão", o ser humano totalmente novo, livre da inclinação para o
mal porque é ciente de sua origem: o próprio Deus. Os cristãos, pela fé, sabem
que estão ao lado de Jesus. Sabem que Ele - o Cristo Senhor - corresponde a seu
"homem interior", que sustenta suas atitudes em obediência à fé.
Ressuscitados com Jesus, os cristãos têm a consciência de serem homens e
mulheres pascais, cuja postura não pode ser quebrada pela inclinação ao mal,
uma vez que esta foi definitivamente vencida.
A mensagem da liturgia da Palavra está cheia de
esperança. Jesus é o redentor e o salvador de todos e de cada um, de cada
pecado e de todos os pecados. Há um só obstáculo capaz de se opor à ação
universal e redentora de Cristo: a recusa em reconhecê-Lo como Redentor, ou
então não reconhecer a nossa necessidade Dele. Este é o pecado contra o
Espírito Santo. Só a fé nos consente reconhecer o nosso pecado e nos dá a
possibilidade da salvação.
A celebração é momento de firmar os passos neste
caminho, de escutar a Palavra de Deus e discernir a sua vontade sobre nós, de
nos confiar no Espírito Santo que suscita em nós o desejo de amar e servir.
A Palavra se faz celebração
A liturgia expulsa de nós a inclinação para o mal
A celebração cristã do Dia do Senhor alimenta este
"homem interior" em nós. Anima e mantém nossa atitude de fidelidade à
vontade de Deus. Por isso, pedir inspiração que guie nossas ações é a única
súplica admissível nesta celebração dominical. A liturgia exorciza, expulsa de
nós toda e qualquer inclinação para o mal. É animador perceber como esta noção
vai sendo amadurecida nos ritos e nas preces da celebração dominical: a
oração sobre as oferendas reza: "vede nossa disposição em vos servir e
acolhei a nossa oferenda para que este sacrifício vos seja agradável e nos faça
crescer na caridade". De fato ao nos reconhecermos como povo convocado por
Deus e reunido no Espírito de Cristo, somos curados da influência do
"príncipe deste mundo", pois ele perde o trono e é incapacitado como
possível líder de nossos atos. É o próprio Senhor quem nos guia e preside:
"Ó Deus, que curai os nossos males, agi em nós por esta Eucaristia,
libertando-nos das más inclinações e orientando para o bem a nossa vida"
(Oração depois da comunhão).
Avaliar nossa caminhada de fé
Ao regressar para nossas casas, para o convívio com
os familiares, parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho é preciso
verificar o que nos inspira a estar com eles. Quem, de fato, conduz nossos
atos, estabelece nossas posturas e direciona nosso coração? Este é um exercício
permanente que devemos fazer, revisando nosso caminhar. Conscientes de quem
somos e do que queremos da vida, não nos dobremos à maldade! Não nos escondamos
atrás de justificativas que fazem da maldade algo necessário ou irremediável,
não façamos da mentira uma verdade.
Ligando a Palavra com a ação
eucarística
Muitas vezes vamos a uma celebração e não
conseguimos avaliar a importância dela na nossa vida, o quanto ela faz a
comunidade crescer do ponto de vista espiritual, psicológico. Não percebemos a
dimensão missionária da liturgia que nos envia ao mundo. Isso porque vamos às
celebrações por devoção, para conseguir alcançar graças, cura, solucionar
problemas e só.
A celebração é o momento culminante da nossa vida,
o kairós, de firmar nosso compromisso com Jesus, com a Igreja missionária. Mas
é preciso acolher a Palavra de Deus, deixar que ela nos converta e transforme a
nossa a nossa vida para fazer a vontade do Pai e servir aos irmãos e irmãs,
sobretudo os doentes, os pobres, os abandonados. A celebração ao mesmo tempo
que faz memória de Jesus, renova para nós a mesma compaixão que Ele teve das
pessoas. Atualiza para a comunidade e cada um de nós, a prática de Jesus.
A força do Pai e do Filho Jesus, não estão na
ostentação do poder econômico e político, mas na fraqueza daqueles que se
organizam para um mundo melhor para vencer os males.
Reunidos em comunidade em torno da mesa da Palavra
e do Altar, para celebrar a Divina Liturgia, peçamos ao Pai, no Filho e na
unidade do Espírito Santo a mesma prece do salmista de hoje: "No Senhor
ponho a minha esperança, espero em sua palavra".
padre Benedito Mazeti
1 – Respondeu-lhes Jesus «Quem é
minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua vota,
disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu
irmão, minha irmã e minha Mãe».
É de todos conhecida esta reação
de Jesus àqueles que O interpelaram sobre a presença de Maria e dos seus
familiares mais próximos. Estranha-se esta passagem, até porque Maria e os seus
familiares muitas vezes O acompanhavam sem que isso tenha suscitado admiração.
Por outro lado, compreende-se numa situação que sugere que Jesus estava
passando das marcas e que alguém tivesse advertido a Sua Mãe e os familiares
que poderiam ter alguma influência para levar Jesus para casa, para não
provocar mais problemas.
Aliás o contexto é esse mesmo.
Jesus chama as pessoas e fala-lhes em parábolas como resposta a acusações de
que estaria possuído por algum espírito demoníaco:
«Como pode Satanás expulsar
Satanás?» Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode
aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode
aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não
pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e
roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em
verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e
blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo
nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
Numa e noutra indicação, Jesus
deixa um apelo à unidade, desafiando-nos a alargar o conceito de família, para
lá das paredes da nossa casa física.
Tal como um reino, também a
família só sobrevive se os seus membros não estiverem permanentemente uns
contra os outros. Por outro lado, a família biológica, fundamental ao
crescimento da pessoa, há de dar lugar à família dos filhos de Deus. Jesus
aponta para uma identidade que quebre fronteiras e nos projete no Coração de
Deus.
2 – A família é a célula primária
e fundamental de uma sociedade adulta, democrática, saudável, é essencial na
comunicação da vida e dos valores, no cultivo da liberdade e da solidariedade
(entre pessoas e entre as diversas gerações), na inserção positiva e
estruturação da social.
Quando a família é
descaracterizada, todo o tecido social se ressente. A casa, a família, é o
tempo, o lugar e o alfobre da vida em qualidade. Nela cada pessoa aprende a falar,
a ler o seu semelhante, a reconhecer a sua identidade, na abertura aos outros e
ao Totalmente Outro (expressão de E. Levinas), ou melhor, ao Totalmente Próximo
(expressão de Gongalez Faus).
A urgência e a grandeza da
família é para Jesus uma certeza inabalável. Na casa de Nazaré, Jesus
descobre-se filho, relaciona-se no seio da vida familiar reconhecendo-se irmão
com familiares e vizinhos, aprende a ser pessoa em relação, com os mais
próximos mas também com as pessoas que vêm de outros lugares, das pessoas que
passam para pedir abrigo, esmola, proteção. A sensibilidade de Jesus resulta da
vivência em família, na atenção ao próximo, na riqueza da caridade e na
importância do trabalho honesto e dedicado.
É também da sua casa
paterna/materna que Jesus é introduzido na casa de Deus, na religião judaica,
com os seus ritmos e com as suas tradições. É por ter da família uma visão por
demais positiva que Jesus concebe uma família mais alargada.
A sua mãe, os seus irmãos, a sua
família, são todos aqueles e aquelas que procuram viver em sintonia com Deus,
com a Sua vontade. Como em outra passagem, Jesus deixa claro: mais felizes são
aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática. E não bastam as
palavras, não basta dizer "Senhor, Senhor", é preciso traduzir em
obras o que se professa com os lábios, para assim integrar o reino de Deus.
3 – A pessoa é um ser em relação.
Das muitas definições que se encontram sobre a pessoa, esta é das mais
expressivas para nos dizer da solidariedade específica e inolvidável do ser
humano. Obviamente, que não se pode reduzir a vida e a pessoa à sua capacidade
de relação, com o grave perigo de suprimir a vida do ser humano a quem não se
reconheça capacidade relacional, ainda que a relação exista para lá das
aparências biológicas. A pessoa é um ser único e irrepetível, é filho/a de
Deus, desde a concepção à morte (natural).
Desde o início que estamos
"condenados" a relacionar-nos com os outros, em família, com o mundo,
a natureza, com o mundo espiritual, na nossa vida interior e o apelo em nós
inscrito à transcendência. Mais uma vez a valoração da família humana, na qual
aprendemos a ser pessoas e a nos relacionarmos saudavelmente com outros, e da
família que integramos pela fé. A nossa vida limitada ao tempo e ao mundo
terrenos reduziria a nossa esperança a pó, a nada, ao vazio, ao ocaso,
fazendo-nos cair em depressão definitiva, ou num cinismo selvagem.
São Paulo, num texto bem
conhecido, ilustra a nossa vocação à transcendência, à vida espiritual, ao
sobrenatural:
"Aquele que ressuscitou o
Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para
junto d’Ele... Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem
interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento
prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, em peso eterno de glória. Não
olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis
são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se
esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus
uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos
homens".
Em relação com os outros, na
nossa fragilidade e limitação humanas, por vezes desviámo-nos da vontade de
Deus, contornámos o caminho que nos levará à morada eterna, obra de Deus. Desde
o início, o ser humano se confrontou com a sua liberdade. A falta de
solidariedade em família, ou na comunidade, leva à ruína, é o pecado que nos
condena à solidão e ao conflito (infernal), e promove a desculpa e a acusação:
Disse Deus: «Quem te deu a
conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira
comer?» Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto
da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a
mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi».
O projeto original é salvo pelo
amor, pelo regresso à família de Deus, pela adesão à vontade divina, para que
prevaleça em nós a obra de Deus, até à eternidade.
padre Manuel
Gonçalves
A força regeneradora e
libertadora do reino
1ª leitura: Gênesis (3,9-15)
O egoísmo do pecado
1. Esta leitura (usada na festa da Imaculada
Conceição) é a manifestação teológica de um autor chamado javista que se limita
a pôr por escrito toda a tradição religiosa de séculos, em ambientes culturais
diversos, sobre a culpabilidade da humanidade: Adão e Eva. Hoje já é claramente
aceite que não é necessário entender tudo isto como se se tratasse de um só
casal humano. Os simbolismos do relato permitem-nos tudo isso e mais, uma vez
que cientificamente o monogenismo não resiste a uma análise coerente. O pecado,
pois, entorpece-nos, envolve-nos, fascina-nos, inunda-nos numa liberdade
desmesurada, até que vemos que estamos com as mãos vazias, nus, e sem nada do
que pensávamos que íamos conseguir fora dos planos de Deus. Então começam as
culpabilidades: a mulher, o ser fraco perante o forte, como sucedeu em quase
todas as culturas. E, pelo meio, aparece o mito da serpente, como símbolo de
uma inteligência superior a nós mesmos, ou de uma força obscura que pode
conosco, que não é divina, mas que o parece.
2. O mal foi sempre descrito miticamente. Mas, na
realidade, o mal somos nós que o fazemos e o projetamos para aquele que está na
nossa frente, especialmente se é mais frágil, segundo a única visão cultural
equivocada. Quem poderá libertar-nos disto? Sempre se viu neste texto uma
promessa de Deus; uma promessa para que possamos perceber que podemos vencer o
mal, sem o projetarmos sobre o outro, se soubermos amar e valorizar quem está
ao nosso lado; neste caso, o homem à mulher e a mulher ao homem, e, assim
sucessivamente, grupos familiares, povos, raças. Todos somos chamados a amar o
bem e a transmiti-lo… mas, desgraçadamente, os nossos caminhos separam-se. Só Deus
pode garantir-nos o melhor e devemos tê-lo em conta, acolhê-l'O, obedecer-Lhe e
procurá-l'O sempre.
2ª leitura: 2Cor. (4,13-5,1)
A morte vai-se transformando em
vida
1. O tema "escatológico" que Paulo
desenvolve neste momento da 2Cor. é de verdadeira transcendência. O apóstolo
está mais aberto que nunca à sua própria morte e já não está preocupado com a
"Parusia" (como se pode verificar em 1Ts. e em 1Cor.), porque sente
que a sua vida como pessoa e como apóstolo se vai gastando a pouco e pouco. Por
isso, não vai recorrer a um desenvolvimento filosófico, mas à sua experiência
pessoal que todo o crente deve ter com Jesus Cristo, com a sua morte e a sua
Ressurreição. Mas, mais ainda, o "emissário" do Evangelho deve estar
na disposição de viver esta vida em Cristo: entregar-se à morte, para que os
outros vivam deste Evangelho. Assim é dito clara e manifestamente em 4,12:
"deste modo, a morte acontece (energeit) em nós e em vós a vida".
Isto significa que enquanto o apóstolo, por causa do Evangelho, vai gastando a
sua vida, nessa medida semeia vida na comunidade que acolhe aquela mensagem.
Paulo expressou esta identificação com Cristo noutros momentos, como em Gl.
2,20 ou em Fl. 3,7-11. Mas o fato de agora apoiar o seu ministério no kerygma:
morte e ressurreição de Jesus, é porque serve extraordinariamente à metáfora
paradoxal do "vaso de barro" e do "tesouro". O pregador do
Evangelho experimenta, portanto, pessoalmente, a doutrina da salvação na sua
dupla dimensão de morte e de vida. Não se pode viver senão morrendo, da mesma
maneira que Cristo não pôde ressuscitar ou "ser ressuscitado", sem
passar pela debilidade da morte. Se todos os cristãos, pois, tivessem que
acolher esta experiência soteriológica de identificação com Cristo, não seria,
por isso, o apóstolo menos responsável por este ministério.
2. Daí que o apóstolo associe a sua sorte e
salvação à da comunidade. É o que vai expressar, além disso, com o apoio de uma
fórmula de ressurreição: "Aquele que ressuscitou (egeíras) Jesus nos
ressuscitará (egeirei) com Jesus e nos apresentará juntamente convosco"
(4,14). Esta fórmula primitiva de tom apocalíptico, sem dúvida, parece retocada
por Paulo naquela última parte ao unir o seu futuro ao da comunidade. Isto
mesmo se confirma com acrescentos em 4,15, uma vez que viveu e vive esta
experiência pessoal-apostólica para que a comunidade possa louvar a Deus. É uma
das páginas escatológicas de Paulo, provavelmente a mais distanciada do início.
De 1Ts. 4 e inclusive de 1Cor. 15, e a que mais deu que falar em torno dos
conceitos escatológicos da vida depois da morte, juntamente com Fl. 1,22-25. A
consciência da nékrôsis, ou seja, da afirmação da experiência da morte, sob a
imagem da casa e do vestido, é um contributo substancial vivido como pessoa e
como apóstolo. As duas coisas, portanto, são inseparáveis. Devemos esforçar-nos
por ler aqui uma convicção de Paulo de que já não é necessária a Parusia como
em 1Ts. 4,15. No horizonte da sua vida e com todos os sofrimentos, a doença, a
sua missão perspectiva-se para o futuro, não somente do ponto de vista
existencial, mas verdadeiramente escatológico.
Paulo não fala de forma dualista, nem apenas do
homem interior, mas de todo o seu ser, de toda a sua pessoa.
Evangelho: Marcos (3,20-35)
Face ao "demoníaco" a
família dos filhos de Deus.
1. De entre as curas de Jesus, vale a pena falar da
"desdemonização" como chave do anúncio da presença do Reino. Mas
isto, hoje, não pode ser abordado simplesmente como "expulsão dos
demônios", fenômeno de "exorcistas" que tanta curiosidade provoca
às vezes, mas da libertação da mente e do coração de que sofria e padecia todo
aquele que estava sob a influência do demônio, de Belzebu, como personalização
de tudo aquilo. A cultura da doença no judaísmo e, especialmente na Galileia,
tinha estes tons tão dramáticos de pessoas perturbadas. O drama é que tudo isto
era encarado como um castigo e um abandono de Deus.
É neste ponto que Jesus atua com o seu ato
"desdemonizador". E se o Reino de Deus não se reduz simplesmente a um
conceito, mas que é uma força que transforma, Jesus liberta todas estas pessoas
estigmatizadas pelos vizinhos e devem ser as primeiras a experimentar a
misericórdia de Deus.
2. Por isso, a acusação de que Jesus atua em nome
de Belzebu é negar-Lhe todo o pão e o sal do Reino que anuncia e da sua
misericórdia. A parábola é, portanto, sintomática: não pode atuar em nome de
Belzebu e expulsá-lo. Tem de ser em nome de uma força maior, mas é isso o que
não querem aceitar. Não há poderes mágicos nem ocultos, mas uma palavra de
vida, de aproximação, de misericórdia, de gratuidade em nome do mesmo Deus que
negam a estes desgraçados. É uma terapia psicológica, mas mais que isso,
teológica, e espiritual a que os seus adversários não podem resistir. Não é
preciso entrar nos termos técnicos dessas doenças da mente, porque o eram
também do coração. Na realidade, era então tanto uma doença cultural como
religiosa, que Jesus não estava disposto a aceitar perante a sua mensagem
evangélica de alegria e de amor.
3. Aquela acusação que quer dar a entender o
redator do Evangelho, é justamente o que vem a ser a blasfêmia contra o
Espírito Santo. Tratava-se, sem dúvida, de uma "afirmação" de Jesus
independente que agora, aqui, assume todo o seu sentido: acusá-l'O de estar a
pactuar com Satanás, porque libertar os "endemoninhados" é faltar a
toda a verdade. É colocá-l'O do lado das trevas, quando vem trazer a luz; é
alinhá-l'O ao lado dos cobardes, quando vem a ser a mesma força salvadora e
libertadora de Deus; é inseri-l'O no âmbito de uma cultura malsã de Satanás,
quando tudo experimenta e o faz em nome de Deus e da sua bondade. É este o
pecado contra o Espírito.
4. A cena que lemos de Marcos, é rematada com
aquela dose de maldade até ao ponto de pretenderem responsabilizar a própria
família de Jesus para que arranje remédio para o assunto: "A sua mãe e os
seus irmãos" vieram para O levar e convencê-l'O a deixar aquele caminho. É
uma notícia concisa, dura, realista, sem dúvida. Que uma parte da família não O
apoiasse na sua atividade de profeta itinerante, não deve surpreender-nos; é um
dos pontos que hoje são assumidos na aproximação à vida histórica de Jesus. A
sociedade galileia tinha as suas próprias identidades socioculturais e, nestes
casos, não se perdoa nem a uma pessoa nem à sua família. Mas Jesus responde
como tinha de responder. Sem renunciar à Mãe nem aos irmãos, estende a sua
família a todos os doentes e desvalidos que encontraram na sua "terapia
espiritual" uma família nova que os acolha e zele por eles. São os
seguidores do Reino de Deus que, libertando-se dessa inaceitável cultura
demoníaca, sentem, de verdade, que Deus está com eles nos seus sofrimentos.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena
Carneiro
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