.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 3 de julho de 2018

14º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano B


14º DOMINGO TEMPO COMUM

08 de Julho – Ano B

Evangelho Mc 6,1-6

·      
·         O povo intrigado perguntava: De onde vem a sabedoria dele?
·     Continuar lendo


========================================



“ UM PROFETA SÓ NÃO É ESTIMADO NA SUA PÁTRIA...” Olivia Coutinho

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 08 de Julho de 2018

Evangelho de Mc6,1- 6

O caminho do profeta é um caminho marcado pela  perseguição, pela rejeição e até mesmo pela a incompreensão das pessoas que fazem parte do seu convívio! 
O próprio Jesus, o profeta maior de todos os tempos, passou por esta experiência, além de rejeitado pelas autoridades políticas e religiosas,  foi também rejeitado pelos os seus conterrâneos, que o menosprezaram, devido a sua origem, por Ele pertencer  a uma família pobre.
A cruz é certeira no caminho do profeta, pois são muitos os que tentam calar a sua voz, o que é inútil, pois nem a morte consegue  calar a voz de um profeta! É justamente, depois da morte do profeta, que a sua voz passa a ressoar com maior  intensidade ainda, chegando até mesmo, por onde ele não pisou.  
O evangelho que a liturgia de  hoje nos convida a refletir, nos fala do retorno de Jesus à sua cidade de origem: Nazaré. Em Nazaré, Jesus experimentou a dor da rejeição, uma dor profunda, por essa rejeição ter partido dos seus conterrâneos, daqueles que deveriam ser os primeiros a acolhe-lo! 
Antes de saber que Jesus era o enviado de Deus, o povo ficava maravilhado com as palavras que saiam de sua boca, mas quando a identidade do Messias, anunciado pelos os profetas, começava a  ser revelada na pessoa Dele, aquela admiração, caiu por terra.
Aqueles que esperavam por um Messias triunfalista com poderes políticos, que fosse defender seus interesses pessoais, não quiseram aceitar um Messias de origem simples, que tinha o olhar voltado para os pequenos, os pobres, os marginalizados.
Avaliando Jesus pela a sua condição social, eles recusaram a mergulhar  no mistério de Deus, ficando somente no superficial, o mais importante, eles não quiseram ver: o Rosto humano do Pai, se revelando no filho de um carpinteiro!
Os compatriotas de Jesus, tiveram nas mãos, a chave da felicidade, mas não se deram conta desta preciosidade, desperdiçando assim, a graça de Deus que chegou até a eles por meio de um dos seus. Naquele lugar Jesus não  pode realizar milagres, fez somente algumas curas, não por retaliação, mas pela falta de fé daquele povo que esperava pelo o extraordinário.
Será que nós também, não temos atitudes semelhantes as atitudes dos conterrâneos de Jesus? Será que estamos aceitando o recado de Deus, que chega até a nós, por meio das pessoas mais  simples?
Dificilmente reconhecemos a sabedoria presente numa pessoa simples. Quantos de nós, fazemos pouco, daquele ministro da palavra, que  faz a celebração nas nossas comunidades com tanto zelo pela palavra, só porque ele é de origem simples!
Por darmos credibilidade somente ao que diz os “grandes,” deixamos escapar a mensagem que Jesus  quer nos passar através dos pequenos, dos simples, pois é Ele quem  fala pela boca de seus mensageiros.
É importante lembrarmos: Jesus o Mestre de todos os mestres, o profeta Maior de todos os tempos, serviu-se de meios humanos bem simples para anunciar o reino de Deus!
A rejeição a Jesus, não interrompeu o anúncio do Reino, que continua, através dos incansáveis profetas de hoje, homens e mulheres que se embrenham pelo O caminho da cruz, dispostos a dar a vida se preciso for, pela causa do Reino.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook

=====================================


É difícil aceitar o projeto de Deus
É são Paulo numa das suas cartas que afirma querer o bem que não é capaz de fazer e odiar o mal que acaba por realizar. Poderia dizer-se que esta é a síntese da Liturgia deste domingo, uma vez que nos três textos aparece o projeto de Deus que, nas diversas circunstâncias, os humanos não são capazes de levar a bom termo. É isto que acontece com o profeta Ezequiel quando, ao chamá-lo, Deus lhe diz que é enviado a um povo rebelde. De fato, o próprio Povo de Deus tinha muita dificuldade em ser fiel ao que Deus lhe pedia (1ª leitura). Quando Jesus entra na sua cidade de Nazaré, e se encontra com os seus concidadãos na sinagoga, todos se admiram com a sua doutrina e com os milagres que fazia. Porém, não aceitavam as orientações que Ele propunha. Isto levou Jesus a dizer que ninguém é profeta na sua terra (Evangelho). Finalmente, até o próprio Paulo Apóstolo sente o “aguilhão da carne”, isto é, as tendências para o mau agir, inclinações contra as quais lutou a vida inteira para ser fiel ao projeto de Deus (2ª leitura).
1. Vocação e missão de Ezequiel
Ezequiel é chamado por Deus para transmitir ao povo as suas mensagens. É a vocação do profeta, o que o levará a falar em nome de Deus a um povo marcado por um grande sofrimento, mas também com dificuldade de aceitar as exigências de Deus. A missão de Ezequiel não é fácil porque vai dirigir-se a um povo rebelde. Aliás, quer no caminho do deserto, depois da libertação do Egito, quer no tempo do cativeiro, na Babilônia, foi sempre frequente o povo revoltar-se contra Deus. É a tentação do regresso ao Egito ou a sensação de abandono como se Deus estivesse longe, é sempre a rebeldia de um povo que quer Deus ao seu serviço. A missão pacificadora de Ezequiel pretende reconquistar o Povo de Deus para o projeto do seu único Senhor. Ezequiel será profeta da esperança mas com a dureza das palavras essenciais para vencer a rebeldia do Povo.
2. Ninguém é profeta na sua terra
Em Nazaré, Jesus estava na sua terra. Todos o conheciam. Tinham acompanhado a sua vida até aos 30 e tal anos. Conheciam a sua família, a sua profissão, os seus amigos. Foi então uma surpresa vê-lo falar na sinagoga. São Lucas no seu Evangelho dirá qual foi o tema do seu discurso: o Espírito Santo ungiu-O para dar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc. 4,18). A mensagem é muito exigente, por isso, pela dificuldade em aceitá-la, os cidadãos de Nazaré preferem calar o profeta, afastá-lo da cidade, porque a sua palavra era incomoda. Jesus então, afastou-se apenas com um lamento “ninguém é profeta na sua terra”. Curiosamente, nem milagres ali quis fazer. Seria sempre incompreendido.
3. Um espinho na carne
Muito se tem discutido sobre o aguilhão na carne de que fala são Paulo. Em última análise, ele, simplesmente, reconhece-se como pecador. E é na sua luta contra o pecado que este seu grito se situa. Paulo vai ao ponto de considerar as razões do seu sofrimento, as fraquezas, as afrontas, as adversidades, as perseguições, as angústias, todo um rol de coisas que o perturbam e que o não deixam entregar-se completamente ao projeto que Deus reservara para si. Confia porém, sempre, quer na misericórdia de Deus para perdoar, quer na força de Deus para o ajudar a vencer. A vida de Paulo é, então, uma luta constante para atingir a perfeição sempre inacessível. É neste contexto que Paulo acaba por dizer: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor. 12,10). A história de Paulo, como a história dos concidadãos de Nazaré, ou a história do Povo de Israel, tudo revela a dificuldade do homem em aceitar incondicionalmente e com alegria o projeto de Deus.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”




Neste domingo a Palavra de Deus apresenta-nos um profeta sem futuro, um carpinteiro sem pai conhecido, e um apóstolo que não se importa com suas fraquezas. Os três tem a missão de anunciar os desígnios de Deus e denunciar a falta de correspondência da humanidade para com o Criador. Pode dar certo uma coisa dessas?
Ezequiel é enviado por Deus mesmo sabendo que poderá fracassar, mas a missão do profeta independe do seu sucesso; ela se realiza pelo simples fato de anunciar com clareza a verdade (1ª leitura). Paulo, apesar de experimentar suas limitações, sentia-se fortalecido e realizado por ter cumprido a sua missão (2ª leitura). Jesus é rejeitado pelos seus conterrâneos pelo simples fato d'Ele ser uma pessoa comum (um carpinteiro) que não fazia parte da instituição religiosa e sacerdotal, nem da classe dominante (evangelho). Eis os meios que Deus usa para confundir o orgulho dos grandes e manifestar a verdade!
1ª leitura: Ezequiel 2,2-5
Deus envia Ezequiel como profeta para falar em seu nome mesmo sabendo que o povo de Israel (“esse povo rebelde... são arrogantes e têm coração de pedra”) dificilmente aceitará sua mensagem. Será rejeitado por denunciar a situação de pecado em que vive depois de ter abandonado a Aliança com Deus. Sua mensagem irá incomodar as pessoas e, não querendo converter-se, não a aceitarão.
De fato, o profeta entra em choque com aqueles que se negam a escutar a Palavra que convida a deixar velhas seguranças e mudar de caminho. Mas o sucesso pessoal de um profeta não é importante. Pelo menos as pessoas ouvirão a Palavra da Verdade, fácil de entender porque provêm de uma “criatura humana” e, por tanto, não haverá possibilidade de desculpa. Saberão que Deus continua a estar presente e preocupado com seu povo, recordando-lhe o caminho a seguir.
2ª leitura: 2 Coríntios 12,7-10
Para defender a legitimidade de sua missão apostólica, Paulo cita suas experiências místicas, mas explicando que isso não é motivo de orgulho para ele, pois reconhece que “um espinho na carne” o atormenta. Não sabemos ao certo a que se refere Paulo falando assim. Tal vez se tratasse de alguma doença ou alguma fraqueza moral a corrigir para não perturbar sua vida pessoal e sua atividade apostólica.
O certo é que ele reconhece que por mais que tenha pedido ao Senhor ver-se livre disso, seu pedido não foi aceito e terá que continuar lutando, pois “para você basta a minha graça” lhe fez ver o Senhor. Isto o levou a experimentar algo tão contraditório como que “é na fraqueza que a força (de Deus) manifesta todo o seu poder”. Desenvolveu assim a ideia de que o ideal não é viver sem contratempos nem problemas e, sim, permanecer fieis a Cristo e ao Evangelho na luta de cada dia.
Evangelho: Marcos 6,1-6
Nazaré era uma cidadezinha pequena onde todo mundo se conhecia. Lá, na sinagoga, Jesus ensinou de tal forma que todos ficaram impressionados porque, além das palavras cheias de sabedoria, já tinha realizado alguns milagres para os quais não encontravam explicação.
A resistência contra Jesus, porém, se articula ao redor de cinco perguntas que não questionam a validade do seu ensinamento e sim a sua pessoa:
1. A primeira pergunta julga a origem de seus ensinamentos (“De onde vem tudo isso?”).
2. A segunda se refere ao conteúdo e procedência dos ensinamentos (“Onde foi que arranjou tanta sabedoria?”).
3. A terceira julga os milagres (“E esses milagres que são realizados pelas mãos dele?”).
4. A quarta julga sua condição social e profissional (“Esse homem não é o carpinteiro?”).
5. A quinta julga sua origem familiar (“o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?”).
São perguntas que não procuram resposta; apenas manifestam o bloqueio da mentalidade mesquinha de seus conterrâneos. Simplesmente, por causa do preconceito, a origem humilde de Jesus não lhes permite aceitar sua pessoa.
Ele não era nem sacerdote nem rabino; como é que um homem do povo, pensava ser mais do que os outros? Não tinha feito estudos na escola rabínica sobre a Lei de Moisés; com que autoridade pretendia ensinar? Era verdade que os milagres não tinham explicação, mas ele não era mais que o carpinteiro (aquele operário da construção que trabalhava a madeira). Além disso, sua família, sem status social, era bem conhecida na cidade. Parecia ser “filho de José”, mas (em Nazaré tudo se sabia) Ele era apenas “filho de Maria” porque já estava grávida dele antes de morar com seu esposo (um judeu sempre era “filho de seu pai”; se apenas era “filho de sua mãe” não tinha destaque social).
Por essas e por outras, “ficaram escandalizados por causa de Jesus”. Sua admiração inicial se transformou em incompreensão e desconfiança. Não quiseram admitir que alguém como eles pudesse realizar sinais da presença de Deus e tivesse sabedoria superior à dos profissionais da religião. O que impediu a fé deles não foi mais que o preconceito, somado à hipocrisia que sempre o acompanha.
Jesus “ficou admirado com a falta de fé deles” e percebeu que não dava para fazer grande coisa na sua cidade porque o milagre exige, como condição prévia, a fé da pessoa. Foi uma pena. Apesar de que “muitos que o escutavam ficavam admirados”, a maior parte deles não permitiu que fosse “estimado em sua própria pátria”.
O preconceito impede o raciocínio e sempre põe tudo a perder!
Palavra de deus na vida
Os habitantes de Nazaré haviam visto Jesus crescer, brincar, ir à escola, trabalhar... Pensavam conhecê-lo bem; mas o essencial d'Ele lhes era desconhecido. É muito parecido com o que acontece hoje. Muitos o reconhecem como uma das grandes figuras da humanidade; um homem extraordinário, lúcido, sábio, promotor da paz e da justiça, mas apenas um homem. Conhecem o personagem, mas não se aproximam do mistério que há n'Ele.
Nós, também, podemos pensar que conhecemos bem Jesus quando, na realidade, poderíamos perguntar-nos se realmente o conhecemos; se, mais do que por suas palavras e suas obras, o conhecemos por termos uma relação pessoal com Ele. Porque, para reconhecer Jesus, não basta uma certa proximidade exterior. O pior para que a fé possa vingar é acostumar-se a viver ao lado do mistério sem deixar-se penetrar por ele. Dai que os que mais conheciam Jesus fossem os mais receosos em confiar n'Ele.
Podemos ser aqueles “católicos de toda a vida” que sabem tudo sobre Jesus, e até proclamam que é Filho de Deus, mas continuamos sem abrir-nos à sua pessoa, sem estar à escuta da sua Palavra sempre nova, sem descobrir os sinais de sua presença na vida de cada dia. Pode parecer mais fácil buscar a Deus naquilo que é espetacular, mágico e extraordinário do que onde realmente Ele está, que é, na simplicidade, no cotidiano e no normal que faz parte da vida.
É preciso muito mais do que conhecer Jesus por fora. É preciso entrar em contato com seu mistério para deixar-se ensinar por Ele e segui-lo. É necessário ser discípulo, aprofundar nossas raízes na pessoa de Jesus, conhecê-lo por dentro.
Pensando bem...
+ Será que pensamos conhecer Jesus e saber quase tudo a respeito d’Ele?
+ Estamos abertos à sua Palavra e cultivamos a amizade com Ele?
+ Somos capazes de escutar sua voz nos pobres e marginalizados?
padre Ciriaco Madrigal



"Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos"
Domingo do profeta Jesus na sinagoga de Nazaré. O domingo é nossa Páscoa semanal em que celebramos a festa da vida que vence a morte. Celebramos a fé naquele que se encarnou no seio de Maria, fez-se homem, sofreu, foi morto, sepultado e ressuscitou. Entramos em comunhão com Ele, assumindo nossa história humana com todos os riscos: indiferença e rejeição, injúrias, perseguições e angústias.
Hoje somos chamados a passar da morte para a vida, comprometendo-nos a agir com mais generosidade para realizar a vontade do Pai na terra, tão bem como no céu.
Celebramos a Páscoa de Jesus que experimentou a rejeição em sua própria terra, de seu próprio povo e, hoje, continua rejeitado na vida de tantas pessoas marginalizadas e excluídas da vida social, política e até de nossas comunidades.
Recebemos, ó Deus, a tua misericórdia no meio da tua casa. Teu louvor se estende, com o teu nome, até os confins da terra. Toda a justiça se encontra em tuas mãos (Salmo 48,10-11), antífona do canto de abertura de hoje.
Primeira leitura - Ezequiel 2,2-5
"Que ouçam ou não, saberão que há um profeta entre eles". A primeira leitura faz parte da longa narrativa da vocação de Ezequiel (capítulos de 1 a 3). Dominado pela magnífica visão da glória divina, o profeta estava prostrado por terra. Ma a voz de Deus lhe ordena que se ponha de pé para ouvir o encargo da missão (2,1). Ezequiel sente-se invadido e dominado pela força do Espírito de Deus (cf. 3,12.24; 8,3; 11,1), à medida dos juízes (Juízes 14,6.19; 15,14) ou dos antigos profetas, Elias (1Reis 18,12; 2Reis 2,16) e Eliseu (2Reis 2,15). Como os profetas que vieram antes de Ezequiel, ele tem consciência clara de ser um enviado de Deus.
Diante de um povo insensível, rebelde, "cabeça dura e coração de pedra (2,4), Ezequiel deverá se apresentar como encarregado de uma missão divina ("tu lhes dirás") a ser autenticada com a fórmula "oráculo do Senhor Deus".
Esta leitura nos mostra que Deus sempre envia profetas para nos chamar à conversão, mesmo quando não queremos escutá-los. A atividade de Ezequiel pode ser situada entre 593-571 a.C., período de dificuldades e sofrimentos para o povo de Deus exilado na Babilônia. Em ambiente difícil e hostil, ele precisa manter lucidez profética. Sua missão é dramática: está junto ao povo, mas não deve dizer palavras agradáveis. É chamado de "filho do homem", o que significa que pertence à frágil raça humana. Ele nada mais é que um homem, um servo.
Ezequiel caído, prostrado como todo povo exilado, recebe o espírito de profecia que o põe de pé e lhe permite discernir em meio a situações difíceis e obscuras o que Deus fala. Gostando ou não, deve ser porta-voz de Deus no meio do povo. Profeta não é diplomata. Sua missão tem duplo sabor: experimenta a doçura do mel que brota da Palavra de Deus, mas esta mesma Palavra lhe causa a amargura. Deve proclamá-la, sendo aceita ou não, oportuna ou inoportunamente, mesmo rejeitado.
Ser profeta é por em risco a própria vida. Para ele não há previsão de elogios e aplausos. O exílio da Babilônia não foi fruto do acaso, como não o é a miséria, a dependência e a opressão em que vive o povo hoje. O sofrimento de muitos era responsabilidade da elite que também se encontrava na Babilônia: a "nação de rebeldes, filhos de cabeça dura e coração de pedra" (2,4). Ela se torna surda aos apelos que Deus faz por meio de Ezequiel. Mesmo sem ser ouvido, o profeta é um sinal de que Deus não abandona seu povo.
Ezequiel, a exemplo dos demais profetas, tem certeza de ser um enviado de Deus. Quando fala não o faz por interesse pessoal, mas por imperativo divino. Como outros profetas foi por isso rejeitado e incompreendido (Ezequiel 33,30-33; cf. Isaias 6,9s; 28,9-22; Jeremias 11,19-21), pois a pretensão de falar em nome de Deus é sempre vista com desconfiança por parte das pessoas. Teve que denunciar o pecado e anunciar o castigo (Ezequiel 4-24), e depois reanimar o povo abatido (Ezequiel 37), na certeza de que o Senhor estava com ele. Teve que lutar sozinho contra a correnteza da opinião pública, acostumada a ouvir as palavras agradáveis dos falsos profetas, anunciadores de uma segurança ilusória (Ezequiel 13). Só com o passar do tempo, quando os fatos históricos dessem razão (Ezequiel 24,25-27; 33,21-22) para Ezequiel, é que o povo "ficaria sabendo que houve um profeta entre eles" (2,5).
Como aconteceu com Ezequiel e outros profetas, haveria de acontecer com Jesus. Também Ele foi investido pelo Espírito no momento do seu batismo no Jordão para anunciar a Boa-Nova do Reino. Os primeiros a rejeitá-Lo foram seus próprios conterrâneos de Nazaré (cf. Marcos 6,1-6). Somente após a sua morte e ressurreição é que a figura de Jesus de Nazaré seria reabilitada.
Salmo responsorial 122/123,1-4
Este salmo data, sem dúvida, dos tempos que se seguiram à volta do Exílio da Babilônia ou da época de Neemias, quando a comunidade renascente era alvo do desprezo e dos ataques pagãos (cf. Neemias 2,19; 3,36). É uma súplica coletiva. É o povo todo ("os nosso olhos", "de nós") que clama ("compaixão de nós", "estamos fartos", "nossa vida"). Clamando a Deus, pedindo compaixão diante de algo que atingiu toda a comunidade.
O rosto de Deus no salmo 122/123. Deus aparece em dois momentos. É apresentado como Senhor do povo, mas um Senhor que, em lugar de dar ordens mudas, atende com respostas de compaixão, traduzida em liberdade e vida. Sua característica  mais importante neste Salmo é, de fato, a compaixão pelo povo, farto de miséria e desprezo dos grandes.
Lucas é o evangelista que gosta de apresentar Jesus e o Pai compadecendo-se (Lucas 7,13; 15,20). Se no Salmo o povo não reclama inocência, confessando a própria culpa com o olhar que pede compaixão, Jesus se apresenta como Aquele que conhece o que há dentro das pessoas e, por isso, perdoa pecados (Lucas 7,36-50; Marcos 2,5). Jesus atendeu a todos os clamores, de uma pessoa ou de várias. Não tratou os seus como servos, mas como amigos (João 15,14-15).
O Salmo 122/123 é expressão do povo cheio de sofrimento e de desprezo. Contudo, em vez de abaixar a cabeça e o olhar, está com os olhos fixos em Deus, até que dele se compadeça. É uma oração coletiva de pedido de socorro.
Cantando este salmo na liturgia desse Domingo, apresentemos ao Senhor o sofrimento de todos os oprimidos da América Latina e do mundo.
Segunda leitura - 2 Coríntios 12,7-10
Talvez ninguém recebeu tantos dons extraordinários como Paulo. Em vez de revelar o seu mundo divino, detém-se em seu mundo humano e fraco. No versículo 5 ele distingue dentro dele dois homens: - o cristão que é divino e se apóia na união vital com Cristo, e - o humano, com suas debilidades. Afirma que poderia gabar-se das revelações divinas, mas prefere se engrandecer de suas fraquezas, que são coisas próprias (vs. 5-6). Além disso, declara algo importante: perante seus privilégios, para não cair na soberba, como contrapeso, foi-lhe posto um como espinho na carne. Segundo os exegetas, tal "espinho na carne" seria uma referência a uma enfermidade corporal que o fazia sofrer de modo exagerado, física e moralmente, impedindo-lhe o bom desempenho de sua missão apostólica; muito se escreveu e pouco se pode afirmar sobre a natureza dessa doença: febre? oftalmia? ataques de nervos? Parece tratar-se da mesma doença de Gálatas 4,13-14. Padres da Igreja, seguidos por modernos, julgam ver ai claramente as perseguições que Paulo passou.  Há quem sugere que o "espinho na carne" significa até as tentações da carne. Todas são posições justificáveis.
Para Paulo, somente a fraqueza exterior desvenda a natureza profunda de sua missão. Por isso, prefere ver a garantia desta última nos mensageiros de Satanás e no espinho da carne (vs. 7-9), que provavelmente também simboliza a inimizade dos falsos irmãos (sentido desta expressão está em Números 33,55; Josué 23,13; Ezequiel 28,24).
O verbo "esbofetear" significa humilhação, desprezo, visando prevenir da vaidade. Paulo pediu por bem três vezes ao Senhor - como Jesus no Getsêmani (cf. Mateus 26,44) - que lhe tirasse o vexame (v. 8). Ele ora "ao Senhor", a Jesus glorioso, cheio de poder sobre as potencias do mal (Mateus 12,29; Colossenses 2,15). Assim Paulo e a Igreja rezam a Cristo, coisa pacífica para nós hoje. Porém nem sempre foi assim: nos primórdios da cristandade, a oração era dirigida de preferência a Deus Pai, sem excluir Jesus Cristo, por isso que os cristãos são os que invocam o Nome do Senhor Jesus Cristo (Atos 9,14) e a Igreja é a comunidade dos que suplicam ao Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 1,2).
Esta leitura mostra-nos o que ampara o discípulo de Jesus em sua missão. Paulo experimenta um "espinho na carne"; conflitos que quem segue Jesus encontra e enfrenta dentro e ao redor de si mesmo. Por dentro a pessoa se sente repleta de fraqueza e de necessidades. Por outro lado, já os conflitos que vem de fora: "fraquezas, injúrias, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo".
"A você, basta a minha graça". Nasce, assim, uma espiritualidade do conflito, uma mística que descobre Deus não no sucesso, mas justamente no aparente fracasso de pessoas e projetos, pois o próprio Deus se manifestou vitorioso no suposto fracasso de Jesus na cruz. É uma presença que é graça, força, dinamismo. "Quando sou fraco, então é que sou forte", porque o que o amparo na missão é a graça de Deus.
Evangelho - Marcos 6,1-6
Na passagem de uma viagem missionária, Jesus passa por Nazaré, a cidade de sua família. Toma a palavra no dia de sábado na sinagoga, segundo as regras admitidas então para a homilia da segunda leitura (Lucas 4,16-30), mas só recebe desprezo e recusa.
Na época, a liturgia da sinagoga estava centrada em duas leituras. A primeira, tirada da lei (Pentateuco), era lida e comentada por um doutor da lei; a segunda, de origem mais tardia, devia ser tirada dos profetas e podia ser lida e comentada por qualquer pessoa que tivesse pelo menos trinta anos de idade. Ora, Jesus acaba de celebrar seu trigésimo aniversário e, por isso, reivindica o direito de ler e comentar a segunda leitura. Portanto, seu primeiro discurso público é uma homilia litúrgica (cf. Lucas 4,16-30).
Sua própria família recusa-lhe confiança que Ele reclama (v. 4; cf. João 6,44, a referencia aos seus parentes é própria de Marco).
Os judeus indicam aqui Jesus com o termo de "filho de Maria" (v. 3), modo de falar que faz referencia  a um nascimento ilegítimo. Maria teve que sofrer estes enganos (cf. o sentido a ser dado talvez a Lucas 2,35) e freqüentemente ausentou-se de Nazaré, precisamente no momento de sua gravidez (Lucas 1,56); Mateus 2,21-22). Ser Mãe do Messias não é apenas um privilégio: Maria aprende a carregar a injúria como Jesus aprende a carregar a cruz.
O evangelista apresenta uma teologia da missão da comunidade e da Igreja à qual ele pertence e para a qual ele escreve. A atividade missionária da década de sessenta e setenta depois de Cristo é revista e interpretada à luz da pregação e da sorte de Jesus. O evangelista mostra que Jesus continua presente na pregação do Evangelho em todos os tempos.
"Ficaram espantados". Significa ferir, chocar, espantar e até ficar fora de si. Isto significa que a figura de Jesus e a doutrina dele questionam a assembléia e exigem uma tomada de posição. Pode ser uma posição a favor ou contra Ele, mas exclui-se uma atitude neutra.
Ora, a própria liberdade da fé supõe a ambigüidade da personalidade de Jesus. E esta ambigüidade não se separa pelo fato de que Ele é Deus e homem ao mesmo tempo. A sua humanidade esconde e ao mesmo tempo revela a sua divindade. Marcos em sua teologia quer dizer assim: quanto mais a divindade se esconde por trás da humanidade de Jesus tanto mais ela se revela.
O que o evangelista fez para o seu tempo e ambiente é tarefa contínua da Igreja: rever sua caminhada e sua missão à luz do Evangelho e da memória de Jesus. A religião cristã não consiste em construir e manter uma fachada que enfeita o nosso mundo com recintos sagrados e sinais religiosos e cristãos, nem em varias o ritmo da vida com certas celebrações esotéricas e manifestações públicas religiosas que deixam o próprio mundo, isto é, as pessoas e sua história sem serem atingidos com celebrações alienantes (cf. Mateus 7,21-23; Lucas 13,25-27; 6,46 e textos do Primeiro Testamento como Jeremias e contexto).
Na teologia que Marcos desenvolve entre 1,21-27 e 6,1-6 ele esmiúça bem claramente o que vem a ser a religião cristã. É entrar no processo histórico que Jesus inaugurou; é participar da sorte Dele e entrar no seu caminho, que é o do divino no humano, do sagrado no profano, do transcendente no imanente; em outras palavras é o caminho de encontrar o Reino de Deus na história e da "santificação" do mundo e das pessoas.
No início da missão na Galiléia, Jesus foi aceito com entusiasmo pela multidão que o ouvia e acolhia a Boa-Nova, principalmente entre os pobres e doentes. Mas ao mesmo tempo sofreu rejeição em sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos esperavam um Messias forte e dominador e não podiam imaginá-lo simples carpinteiro e filho de Maria. É o símbolo da não aceitação de um povo que mata os profetas enviados por Deus.
Jesus vai a Nazaré e ensina na sinagoga. É uma visita marcada pela admiração. No início, quem se admira são os ouvintes. Porém, tal admiração não os leva à fé em Jesus, e sim à rejeição, pois vêem Nele "uma pedra de tropeço". No final desse Evangelho, é Jesus quem se surpreende com a falta de fé do povo, o que impede a realização de milagres. Fora do contexto da fé, um milagre perde o sentido. O poder da fé não se limita a curas, mas à chegada e à manifestação do Reino de Deus.
O que é extraordinário em Jesus-Messias é o fato de em nada ser diferente da pessoa humana comum: é justamente sua encarnação. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, inseriu-se na história de seu povo, onde aprendeu e cresceu em humanidade. "Pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hebreus 4,15b)
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
A Palavra de Deus, neste domingo, nos faz um apelo: não depositar a nossa confiança nos grandes. Também não precisamos ter medo de nossa pequenez e fraqueza. Na trajetória de Jesus, o maior fracasso se transforma em vitória e ressurreição. Junto a Ele há lugar para os fracos. Em Cristo somos fortes. Como nos diz Paulo na segunda leitura, podemos descobrir que a nossa força pode estar escondida em nossa própria fraqueza.
Jesus fica admirado com a falta de fé das pessoas de sua terra, as quais não acreditam que Deus possa falar através de pessoas simples. A Palavra de Deus se reveste de roupagem humana e vem a nós com o auxílio da história e de pessoas frágeis, enviadas por Ele. A fraqueza humana dos enviados por Deus cria um espaço de liberdade; quem ouve pode decidir a favor ou contra. Às vezes, gostaríamos que Deus se revelasse mediante atos maravilhosos e assim evitaríamos o trabalho de discernir quando e por meio de quem Deus se revela.
Jesus se fez servo e, por isso, entra em choque com os que preferem o privilégio e o poder. A encarnação continua nos questionado.
Jesus de Nazaré foi motivo de escândalo para os que O viram com os olhos humanos. A quem não quer crer, Ele nada revela, não faz milagre nenhum. Mas a nós, reunidos na fé, Ele se revela em toda a profundidade. A celebração é momento de assumir diante de Deus as nossas fraquezas, acreditando que só o que é assumido, pode ser transformado.
A missão profética se insere numa realidade de conflitos. Hoje as fraquezas e necessidades que batem à porta de quem se dedica ao trabalho pelo Reino de Deus são o medo, diferentes modelo de igreja, insegurança, despreparo, falta de recursos materiais e humanos. Como transformar a fraqueza, a ponto de ser nela que a força de Deus se mostra perfeita?
O documento de Puebla nos fala do "potencial evangelizador dos pobres". O que podem nos dizer os pobres, os deficientes de nosso país? Aceitamos a revelação de Deus vinda na fraqueza de nossos irmãos e irmãs, na simplicidade do dia-a-dia?
A Palavra se faz celebração
A escola de Nazaré
O anúncio de Jesus continua hoje na celebração, isto é, a Palavra se faz celebração. Ele nos reúne, apesar de nossa cabeça dura e nossas limitações, para acolher com fé a sua mensagem. Dirige-nos sua Palavra e nos ensina, ainda que estejamos pouco abertos para acolher a sua Palavra de vida. Coloca-nos ao redor de sua mesa, mesmo que nossos olhos ainda estejam um tanto obscurecidos para reconhecer sua presença ao partir o pão. Nos sinais do pão e do vinho encontramos a verdadeira metáfora da rejeição de Nazaré, narrada pelo Evangelho: como pode um alimento tão cotidiano, tão simples nos transportar à comunhão com a divindade do Filho de Deus? Como um fruto trivial, esmagado e dado como bebida, tantas vezes apreciado nas mesas por puro prazer, leva-nos a realizar a nova e eterna Aliança? Os sinais da fé que nos reúnem são igualmente desacreditáveis. E, de fato, para muitos o são... Mas a fé cristã, que só pode ser compreendida segundo a dinâmica sacramental da salvação, em que Deus se dá a conhecer ao modo humano (simples, simbólico, frágil), indica-nos esse caminho: "é pela humanidade que Ele nos salva" (Constituição Conciliar Sacrossanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia nº 5. Sem olhar para Nazaré e para a escola que o pequeno vilarejo significou na vida de Jesus, não entenderemos o valor da sua humanidade para a nossa salvação. O saudoso Papa Paulo VI o compreendeu: "Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo. Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem ó o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: ... tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo.
A nossa Nazaré
Se quisermos entender quem é Jesus, façamos o caminho inverso daquele palmilhado por seus conterrâneos. Olhemos para a "nossa Nazaré", na qual o Cristo sempre se revela. Nazaré é hoje o nosso lugar, a nossa vida, a nossa cruz. Aqui Jesus se esconde a retorna para nos buscar. A fé vivida na comunidade tem a ver com essa experiência de Jesus, com esse lugar que Ele deseja ocupar. O lugar dos pequenos e dos frágeis que, segundo a norma da fé, não mais nos entristece, mas nos alegra. Com o Apóstolo Paulo, comprazendo-nos "nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas", assim encontraremos o caminho trilhado por Jesus e encontraremos sua força.
Ligando a Palavra com a ação eucarística
A Palavra de Deus hoje nos convida a renovar nossa adesão a Jesus, consagrando-nos mais generosamente à cauda do Reino de Deus.
Esta nossa profissão de fé nos leva a confirmar que seguimos aquele que foi rejeitado por ser trabalhador, filho de Maria, uma pessoa comum de seu tempo, vindo de uma aldeia e, por isso, motivo de desprezo e rejeição.
Movidos por essa fé, nos reunimos em assembléia celebrante onde, pela sua Palavra, Jesus nos leva a assumir nossa evidente fragilidade sem precisar mascará-la com falsa grandeza e a buscar em sua graça a nossa força. Hoje, particularmente, nossas preces precisam expressar esta realidade.
Acima de qualquer expectativa humana, o Senhor manifesta sua grandeza na singeleza do pão e do vinho, frutos da terra e do nosso trabalho. Na simplicidade da partilha entre nós, ele nos confirma no seu caminho. É em nossa fraqueza que Deus continua manifestando sua força.
padre Benedito Mazeti



"Nazaré das nossas ilusões"
É bonito quando vemos alguém famoso causando admiração, outro dia em uma festa de casamento, que acontecia em um belo salão, adentrou um artista de grande talento, contratado pela noiva, representando o Elvis Presley e era de se espantar em ver como os seus trejeitos, lembravam realmente o rei do rock, todos os convidados se aproximaram para umas fotos, as mulheres queriam acompanhá-lo na dança ousada, e até os homens se admiravam e a sua presença inusitada, surpreendeu a todos.
Quando Jesus chegou a sua “terrinha” de Nazaré, acompanhado dos discípulos, deve ter causado um verdadeiro “rebuliço”, pois a fama de suas pregações e milagres já tinha chegado por ali, e no sábado, como todo piedoso judeu, foi á celebração da palavra da comunidade, onde qualquer pessoa adulta poderia partilhar o ensinamento sobre a Palavra e Jesus, usando desse direito, começou a pregar á sua gente fazendo a homilia.
O povinho da terra nunca tinha ouvido uma pregação feita com tanta sabedoria, que superava o ensinamento dos Mestres da Lei e Fariseus, imaginemos que na comunidade, algum ministro da palavra pregue melhor do que o padre... E com o estudo teológico acessível aos leigos, isso hoje não seria novidade. Aquilo que causa muita admiração, também logo acabará despertando inveja e ciúmes.
Basta que olhemos para os nossos trabalhos pastorais, onde o carisma das pessoas não deveria jamais perturbar o coração de ninguém, ao contrário, deveria motivar um hino de louvor, por Deus ter dado a alguém um carisma tão belo, colocado a serviço da comunidade. Mas logo surgem os questionamentos maldosos: Como é que ele faz isso? Onde aprendeu? Quem o ensinou, de onde é que vem todo esse saber? Será que o padre o autorizou? (esta última coloquei por minha conta) E a admiração, contaminada por sentimentos de inveja, vai logo se transformando em desconfiança aumentando o questionamento: “Quem ele pensa que é para falar assim com a gente? Será que ele não se enxerga? E ainda tem gente que o aplaude...” Os que não gostam muito do padre, logo vão afirmar que o sujeito faz parte da sua “panelinha”, ou então, irão inventar alguma coisa para que o padre “corte a asinha” do tal.
Jesus deve ter sentido uma frustração muito grande, quando percebeu sentimentos tão mesquinhos em meio á comunidade onde cresceu e fez a sua catequese. Duvidavam da sua sabedoria, e talvez para provocá-lo, queriam que ele resolvesse algum problema da comunidade, “Se ele endireitar a comunidade, daí eu acredito”. Às vezes também nos iludimos quando queremos que alguém que fala “certos milagres”, talvez o cooperador, o coordenador do grupo, o catequista, o ministro da palavra, quem sabe o coitado do Diácono ou o Padre, que têm autoridade. Penso que na sinagoga de Nazaré foi mais ou menos assim que os fatos ocorreram, queriam jogar tudo nas costas de alguém, e como Jesus tinha fama de ser o Messias...
As pessoas, quando enxergam algo de extraordinário no carisma de alguém, começam a fazer do sujeito uma referência importante, acham que a sua oração é especial, que um toque de sua mão poderosa pode realizar curas prodigiosas, e em pouco tempo, a propaganda é tanta, que o tal não pode mais sair as ruas que é logo procurado para resolver os mais complicados problemas, inclusive de relacionamento entre as pessoas, apaziguar casais brigados, aconselhar jovens, e assim a sua palavra se torna poderosa e em conseqüência passa a ter poder religioso paralelo, e se na comunidade não houver um espaço para ele atuar, terão de criar um, pois ele precisa ser o centro das atenções.
Jesus não quis formar um grupo só para ele, para bater de frente com os Doutores da lei, escribas e fariseus, e como ele pertencia a uma das famílias do local, a ponto de sua mãe e seus irmãos serem de todos conhecidos, começaram a vê-lo como um vulgar, que nada de extraordinário tinha feito em Nazaré, para que merecesse toda aquela fama.
Na verdade, Jesus não quis assumir o papel de “Salvador da Pátria”, diferente de muitos cristãos, que se julgam o máximo naquilo que fazem, e pensam que sem eles, a comunidade estaria perdida. Essa rejeição á ele, suas obras e ensinamentos, iria se ampliar e lhe traria conseqüências muito trágicas na cruz do calvário, tudo porque suas palavras anunciavam um reino novo, que exigia uma total renovação e mudança de vida.
Quando a pregação que ouvimos, serve para o vizinho, ou para o marido ou a esposa, ou quem sabe para os filhos, ou para o chefe ou o colega de trabalho, prestamos muita atenção e vibramos, só em pensar que aquelas verdades atingem em cheio a pessoa em quem pensamos. Porém, quando a pregação toca o nosso coração e nos motiva a mudar o nosso jeito de pensar ou de agir, temos duas reações, ou reconhecemos a legitimidade da palavra e abrimos o nosso interior, para uma conversão sincera, ou então rejeitamos o pregador e passamos a querer vê-lo pelas costas.
Na sinagoga de Nazaré foi assim, e nas nossas comunidades, não é muito diferente. Quem prega mudanças de mentalidade e conduta, vai sempre arrumar uma bela de uma encrenca. Enfim, o Jesus que há dentro de nós, criado pelas nossas fantasias, ou fruto de nossas ideologias sociais ou políticas, não coincide com esse Jesus, Profeta de Nazaré, Ungido de Deus. E o pior, é que projetamos tudo isso nas pessoas que lideram a comunidade, nos cooperadores, nos coordenadores, nos ministros, nas catequistas, nos padres e diáconos e assim vai. Um dia, basta um desentendimento mais sério e o nosso Jesus idealizado “vai pro espaço” com a pastoral e o movimento.
Quanto mais somos realistas em nossa fé, mais nos adequamos á comunidade aceitando-a como ela é, quanto mais nos iludimos com o Jesus da nossa fantasia, mais difícil será vivermos em comunidade, aceitando as pessoas do jeito que elas são. Daí, como em Nazaré, nenhum milagre acontece, por causa dessa fé infantil e ilusória...
diácono José da Cruz



1 – O profeta, pela sua missão, está exposto à crítica, ao boato e à perseguição. Hoje como ontem. Foi assim com os profetas de Israel, com João Batista e com Jesus Cristo, e com todos aqueles que ao longo do tempo "carregaram", com alegria e criatividade, o compromisso de viver segundo os ideais da palavra de Deus, promovendo a justiça, a honestidade, a coerência de vida, anunciando, em palavras e em obras, novos tempos, denunciando situações anquilosadas, pecaminosas, destrutivas da sociedade.
Ontem como hoje, junto dos mais próximos ou dos mais distantes, ora acarinhados e adulados, ora perseguidos e denegridos no seu bom nome, sob pressão, ameaça e chantagem, mas sempre vigilantes e fiéis à verdade, à justiça e ao bem, conscientes de serem portadores das boas notícias de Deus.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel fala-nos da sua vocação. É chamado por Deus e enviado a um povo rebelde, que, em terra estrangeira, no exílio, se afasta cada vez mais dos desígnios de Deus. "O Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então Alguém que me dizia: «Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim»".
A sua missão não é nada compensadora, e nada fácil, humanamente falando. Tenta a todo o custa relembrar ao povo a sua identidade, denunciando os desvios e acalentando a esperança de regresso à terra da promessa.
2 – Por vezes é entre os nossos que somos mais mal-amados e incompreendidos. Na hora de chamar a atenção somos mais tímidos e comedidos em contextos de amizade, de família, de camaradagem, ora pela grande cumplicidade, ora pelo medo de colocarmos tensão no relacionamento com aqueles com quem contamos. Sublinhe-se, porém, que em muitas situações também nos tornamos mais repentinos, mais espontâneos, menos tolerantes para com aqueles que vivem à nossa beira.
Em sentido inverso, aqueles que se sentem mais próximos poderão pedir/exigir o que sabem não ser exigível por ninguém. Veja-se, como exemplo, as “cunhas” a que (quase) todos recorrem, a troca de influências (muitas vezes decente e honesta).
Ezequiel é enviado para o povo de onde é originário. O fato de alertar para os desvios criar-lhe-á dissabores entre os próprios familiares. Jesus vai experimentar o desconforto entre os seus. Na expectativa, porque O conhecem de pequenino, e porque pensam merecer e exigir mais, bloqueiam a mente e o coração a qualquer novidade.
“Jesus dirigiu-Se à sua terra... «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»... Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”.
Jesus, contudo, não deixa de pregar a Palavra de Deus e curar os doentes. Também em Nazaré, Ele quer deixar uma marca de bem, de divino, de milagre, também na sua terra Ele desafia, propõe, também aí Ele leva Deus.
3 – O Mestre dos Mestres regressa a casa, física e espiritualmente. É de casa que parte, pois é em casa que aprende a ser gente, a relacionar-se social e religiosamente, a desenvolver os laços de profunda interdependência, no diálogo tranquilo e afável, na partilha espontânea, na convivência inocente e apaziguadora, na solidariedade alegre para com os mais pobres que passam, na ligação inevitável à terra e à natureza.
É em casa que começamos a ser cristãos e onde primeiro se verifica a autenticidade da nossa fé. É em família e com a família. São as primeiras pessoas que Deus nos deu (e nos dá) para amar, para servir, para acolher, para defender, para abençoar, para proteger, para nos deixarmos enriquecer com a sua presença. É em casa. Primeiro coração, primeiro amor: a família. Conceito só compreendido e extensível à família cristã, à família de Deus, se antes se compreende e se experimenta, em casa, a ternura, a afabilidade e a bondade.
Jesus levou 34 anos a crescer, junto de José e de Maria, e dos seus parentes. Só na idade madura está pronto para alargar a família e para nos ensinar a transpor as fronteiras da nossa, para constituirmos família com os outros que se encontram nas vizinhanças. Em 3 anos, tão curto e tão profícuo tempo, Jesus colocará em ação toda a Sua experiência, criatividade, toda a bagagem que construiu e tornando-Se "semeador" de sonhos, de vida nova, de salvação. É um vendaval. Arrasta multidões. A fama vai à frente. Na sua terra, talvez não se surpreendam, já O conheciam, não vêem diferente, é o filho do carpinteiro. Não se abrem ao ideal, às surpresas de Deus. Mas é Deus Quem Ele anuncia, Quem Ele comunica.
4 – Na nosso frágil e belo peregrinar, não cessemos de ser profetas, propondo o bem que venha de Deus, e acolhendo dos outros o que de Deus nos podem ofertar.
São Paulo empresta-nos palavras de confiança (e desafio):
"Ele disse-me: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder». Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte".
Sem Deus, nada. Com Deus, tudo, e até as fraquezas se converterão em fonte de vida e de salvação, em oportunidade para que Deus reluza através da nossa pobreza.
"Levanto os olhos para Vós, para Vós que habitais no Céu, como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu senhor. Como os olhos da serva se fixam nas mãos da sua senhora, assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós" (Salmo).
Nas cercanias ou nos desertos da nossa vida, confiemos: Deus será a mão que nos segura e nos levanta, o olhar que nos envolve, a nossa esperança, a Luz que nos salva, a terra firme que pisamos, o porto seguro, o nosso abrigo. Como crianças que se deixam guiar pela voz e pelo olhar da/o mãe/pai, em passos hesitantes ou em passos experimentados, assim nós nos deixemos conduzir pela Sua Palavra e pelo Seu amor.
padre Manuel Gonçalves



O espírito do verdadeiro profeta
1ª leitura: Ezequiel 2,2-5
O profeta, o homem sem medo
1. A primeira leitura deste domingo foi tirada de Ezequiel e é uma espécie de relato da vocação profética. É assim o caso de outros profetas de grande caráter (Isaías, 6 no templo; Jeremias, 1), porque se deve fazer uma distinção muito clara entre os verdadeiros e os falsos profetas. Na Bíblia, o verdadeiro profeta é aquele que recebe o Espírito do Senhor. Por isto mesmo, o profeta não se vende a ninguém, nem aos reis nem aos poderosos, porque o seu coração, a sua alma e a sua palavra pertencem ao Senhor que os chamou para esta missão. Por esta razão, sabemos que os verdadeiros profetas foram todos perseguidos. É provável que padecessem de uma "patologia espiritual" que não é senão viver a verdade e da verdade a que estão abertos.
2. O povo "rebelde" habitua-se aos falsos profetas e vive enganado, porque a verdade brilha pela sua ausência. Por esta razão é tão dura a missão do verdadeiro profeta. Talvez para entender o que significa uma vocação profética, que é uma experiência que parte em mil pedaços a vida de um homem fiel a Deus, devemos estar atentos ao que se lhes é exigido, mais do que a qualquer outra pessoa. Não falam por falar, nem por causa das suas ideias, mas porque a força misteriosa do Espírito os impele para mais além do que é a tradição e o hábito do que deve fazer-se Por isso, o profeta é pois, o que ateia a Palavra do Senhor.
2ª leitura: 2 Coríntios 12,7-10
A força da fraqueza
1. A segunda leitura é, provavelmente, uma das confissões mais humanas do grande Paulo de Tarso. Faz parte da que é conhecida como a carta das lágrimas (conforme o que podemos inferir de 2Cor. 2,1-4; 7,8-12). É uma descrição retórica, mas real. Está a referir-se ao "aguilhão (skolops, qualquer coisa afiada e pungente) na sua carne", toda uma expressão que confundiu muita gente; muitos pensam que é uma doença. É a tese mais comum, de uma doença crônica que já tinha desde os primeiros tempos da missão (cf. Gl. 4,13-15). Mas não se poderia rejeitar um sentido simbólico, o que apontaria talvez para os adversários que põem em dúvida a sua missão apostólica, uma vez que fala de um "agente de Satanás", ainda que seja verdade que, na antiguidade, o diabo protegia os remédios de todos os males, reais ou imaginários. Será qualquer coisa biológica ou psicológica? Em todo o caso, Paulo quer exprimir que aparenta ser "fraco" perante os adversários, que estão cheios de razões. Quer combater, através do Evangelho que ele próprio anuncia, com a sua experiência de fragilidade e as fraquezas que os outros vêem nele e que ele próprio sente.
2. Para isso, o apóstolo recorre, como medicina, à graça de Deus: "basta-te a minha graça (charis), porque a força manifesta-se na fraqueza (astheneia)" (v. 9), uma das expressões mais conseguidas e definitivas da teologia de Paulo. A graça leva-o a auto-afirmar-se, não na destruição, nem na vã glória, mas em aceitar-se como é, quem é, e o que Deus lhe pede. Paulo constrói, em síntese, uma pequena e bela teologia da cruz. É como se dissesse que o nosso Deus é mais Deus quanto menos arrogantemente ele se revela. O Deus da cruz, que é o Deus da fragilidade face aos poderosos, é o único Deus ao qual vale a pena confiarmo-nos. É esta a mística apostólica e cristã que Paulo confessa nesta bela passagem. É como quando Jesus disse: "quem quiser salvar a sua vida para si, há-de perdê-la" (cf. Mc. 8,35). É um desafio ao poder do mundo e de quantos atuam daquela maneira no próprio seio da comunidade.
Evangelho: Marcos 6,1-6
Nazaré: ninguém é profeta na sua terra
1. O texto do Evangelho de Marcos é a versão primitiva da presença de Jesus na sua terra, Nazaré, depois de ter percorrido a Galileia pregando o Evangelho. Lá é o filho do carpinteiro, de Maria, são conhecidos os seus familiares mais próximos: de onde lhe vem o que diz e o que faz? Lucas, por seu lado, fez desta cena em Nazaré o começo mais determinante da atividade de Jesus (cf. Lc. 4,14ss). Já sabemos que o provérbio do profeta enjeitado entre os seus é próprio de todas as culturas. Desde logo, Jesus não estudou para ser rabino, não tem autoridade (exousía) para tal, como já se viu em Mc. 2, 21ss. Mas precisamente, a autoridade de um profeta não é explicada institucionalmente, antes quando se reconhece no que tem o Espírito de Deus.
2. O texto fala de sabedoria, porque exatamente a sabedoria é um dos aspectos mais apreciados no mundo bíblico. A sabedoria não se aprende, não se ensina, vive-se e transmite-se como experiência de vida. Por sua vez, esta mesma sabedoria leva o profeta a dizer e fazer o que os poderosos não podem proibir. No Evangelho de são Marcos este é um momento que origina uma crise na vida de Jesus com o seu povo, pois torna-se evidente " a falta de fé" (apistía). Não realiza milagres, diz o texto de Marcos, porque embora os fizesse não acreditariam. Sem fé, o reino que Ele pregava não pode experimentar-se. Na narrativa do Evangelho este é um dos momentos de crise na Galileia. Por isso, o Evangelho de hoje não é simplesmente um texto que narra a passagem de Jesus pela sua aldeia, onde tinha sido criado. Nazaré, tal como em Lucas, não representa apenas a povoação da sua infância: é todo o povo de Israel que havia muito tempo, séculos, não tinha ouvido um profeta. E agora que isto sucede, a sua mensagem cai no vazio. Não querem um profeta, mas desejam um milagre simples e fácil.
3. Jesus continua a ser o filho do carpinteiro e de Maria, mas tem o espírito dos profetas. Efetivamente, os profetas são chamados de entre o povo simples, são arrancados de suas casas, das suas profissões habituais e rapidamente vêem que as suas vidas têm de tomar outro rumo. Os seus, os mais próximos, às vezes nem sequer os reconhecem. Tudo mudou para eles, profetas, a ponto de a missão para a qual foram escolhidos ser a mais difícil que se possa imaginar. É verdade que o Jesus taumaturgo popular e exorcista é, e continuará a ser, um dos temas mais debatidos sobre o Jesus histórico. Provavelmente, houve excessos na hora de apresentar estes aspectos dos Evangelhos, sendo, como é, uma questão que exige critérios comprovados. Mas no caso presente do texto de Marcos, não podemos negar que se quer fazer uma "crítica" (já naquele tempo das comunidades primitivas) à corrente que considera Jesus como um simples taumaturgo e exorcista. É o profeta do Reino de Deus que chega a todas as pessoas que a este aspiravam. Nisto, Jesus como profeta, colocava em jogo a sua vida, tal como os profetas do Antigo Testamento.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro

Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes…
Jesus foi rejeitado em sua própria terra por ser trabalhador e filho de Maria, mulher simples da aldeia de Nazaré. Hoje continua sendo rejeitado em tantas pessoas empobrecidas e excluídas da vida social. Celebrando a sua páscoa, somos convidados a aceitar o fato de que Deus nos fala por meio dos simples, fracos e pobres.
Jesus foi para a sua pátria.
O beato João Paulo II disse que foi em Nazaré que Jesus “passou a maior parte da sua existência terrena. Com a sua operosidade silenciosa na oficina de José, Jesus ofereceu a mais elevada demonstração da dignidade do trabalho. O Evangelho hodierno narra que os habitantes de Nazaré, seus conterrâneos, O receberam com admiração, perguntando-se uns aos outros:  “De onde [lhe] vêm esta sabedoria e estes milagres? Este homem não é o filho do carpinteiro?” (Mt. 13,54-55).
“Começou a ensinar na Sinagoga”
O Papa Bento XVI dirige essa oração a Maria Santíssima: “Apesar de toda a grandeza e alegria do início da atividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o « sinal de contradição » ( Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de Davi, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores”.
“Que sabedoria é essa que lhe foi dada”
O papa Bento XVI ensina que Jesus “é a Sabedoria encarnada, o Logos criador que encontra a sua alegria em habitar entre os filhos dos homens, no meio dos quais armou a sua tenda (Jo 1,14). N’Ele aprouve a Deus pôr “toda a plenitude” (Cl. 1,19)”.
A Palavra diz: ”É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.” (1Cor. 1, 30)
O Papa Bento XVI disse também que a Sabedoria “é o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; é o Verbo que, como lemos no Prólogo de João, “no princípio Ele estava com Deus”, aliás, “era Deus” que com o Pai e o Espírito Santo criou todas as coisas e que “se fez carne” para nos revelar aquele Deus que ninguém pode ver”. ( Jo 1,2-3.14.18).
“Como se operam por suas mãos tão grandes milagres?”
O Catecismo (547 ) ensina: “Jesus acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (At. 2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n’Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado”.
Monsenhor Jonas Abib disse que “Jesus fez milagres em muitas cidades, exceto em Sua terra, Nazaré, porque o povo não acreditava. Jesus tinha as sementes, mas não encontrou em Sua cidade um campo preparado para o plantio, tudo o que queria fazer não pôde por causa da incredulidade dos nazarenos. Quando eles viram os milagres que Jesus estava fazendo em todos os outros lugares, perguntaram-se: “Não é Ele o filho do carpinteiro José, o filho de Maria?”.
O Beato João Paulo II disse assim: “Também a vida pública de Jesus reserva provas para a fé de Maria. Por um lado, causa-lhe alegria saber que a pregação e os milagres de Jesus suscitavam em muitos admiração e consenso. Por outro, vê com tristeza a oposição sempre mais enérgica da parte dos Fariseus, dos doutores da Lei, da hierarquia sacerdotal”.
“Não é Ele o filho do carpinteiro…?”
O papa Bento XVI disse: “Tornando-se em tudo semelhante a nós, o próprio Filho de Deus dedicou-se durante muitos anos as atividades manuais, a ponto de ser conhecido como o “filho do carpinteiro” (Mt 13, 55).
Jesus também sofreu por todas as vezes que fomos rejeitados por causa de nossa profissão, de nossa condição social ou de qualquer outra forma de preconceito, peçamos ao Senhor que nos cure e nos restaure. A Palavra diz: “Porque, diante de Deus, não há distinção de pessoas”. (Rm. 2,11)
Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa”
Maria sofre pelo desprezo das pessoas de sua própria terra ao seu amado Filho – O beato João Paulo II disse que “a Virgem pôde muitas vezes conhecer as críticas, insultos e ameaças dirigidos a Jesus. Também em Nazaré, várias vezes foi ferida pela incredulidade de parentes e conhecidos, que tentavam instrumentalizar Jesus (Jo. 7,2-5) ou interromper a Sua missão (Mc. 3, 21)”.
Temos entre nossos parentes e conhecidos pessoas de muita sabedoria de vida, especialmente os mais idosos. Precisamos ouvi-los e lhes dar atenção para evitarmos tomar atitudes erradas em nossas vidas. Padre Bantu disse assim: “Muitas vezes fechamos os nossos ouvidos para acolher o conselho, a advertência e o ensino daqueles que são nossos parentes, familiares, vizinhos ou conhecidos”.
“Não pôde fazer ali milagre algum”
O beato João Paulo II disse sobre a fé de Maria no poder de Jesus de fazer o milagre nas Bodas de Caná, mesmo que nenhum milagre tenha sido realizado pelo Filho em Nazaré, sua terra: “A escolha de Maria, que teria podido, talvez, providenciar noutro lugar o vinho necessário, manifesta a coragem da sua fé porque, até àquele momento, Jesus não tinha realizado algum milagre, nem em Nazaré, nem na vida pública”. Maria Santíssima confiou, esperou e acreditou em Jesus e o Senhor realizou o milagre. O Senhor quer realizar muitos milagres em nosso favor; basta crer, confiar e esperar.
O Catecismo (548) ensina: “Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou. Convidam a crer n’Ele. Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem”.  A fé é a porta que abrimos para o Senhor fazer milagres em nossa vida.
E o papa Bento XVI ensinou: “A Deus nós pedimos tantas curas de problemas, de necessidades concretas, e é justo que seja assim, mas aquilo que devemos pedir com insistência é uma fé sempre maior, para que o Senhor renove a nossa vida, e uma firme confiança no seu amor, na sua providência, que não nos abandona”.
Conclusão.
Concluímos essa reflexão com as palavras do Beato João Paulo II: “Contemplai Jesus de Nazaré, por alguns, acolhido e por outros, ridicularizado, desprezado e rejeitado: Ele é o Salvador de todos. Adorai a Cristo, nosso Redentor, que nos resgata e liberta do pecado e da morte: é o Deus vivo, fonte da Vida”.
Jane Amábile