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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 21 de agosto de 2018

21º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano B


21º DOMINGO TEMPO COMUM

 

Evangelho – Jo 6,60-69

 

-21º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano A-José Salviano

    

"Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?"
        

É, assim somos nós. Seguimos e buscamos Jesus para a solução dos nossos problemas, gostamos de ouvir suas palavras de conforto, de amor e bondade e de misericórdia infinita. Continuar lendo



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“AQUEM IREMOS SENHOR?” – Olivia Coutinho.

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM.

Dia 26 de Agosto de 2018

Evangelho de Jo6,60-69

Hoje, se percebe uma grande inquietação do ser humano, até mesmo no campo da fé.  Há um desejo muito grande de se conseguir tudo fácil, o que leva muitas pessoas a pensar, que uma simples mudança de religião poderá resolver as suas questões. O que é uma grande inverdade, pois  religião, é apenas um caminho de orientação na fé, os nossos problemas, cabe a nós mesmos resolvê-los, preferencialmente, à Luz da fé.
Existe uma  grande diferença entre ter fé e viver a fé, ter fé, é crer naquilo que não vemos, viver a fé, é viver aquilo que cremos.
Quando abraçamos a fé, descortina-se diante dos nossos olhos, um novo horizonte, nos possibilitando enxergar o que os olhos humanos não conseguem alcançar! 
O evangelho que a liturgia  de  hoje nos convida a refletir, vem nos afirmar, que só permanece com Jesus, quem chega a Ele, pelos os caminhos da fé e não por outros interesses.
“Ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. A fé é a concessão do Pai para chegarmos ao Filho, a fé é um dom de Deus, a quem acolhe este dom, é concedido  a graça de chegar ao Filho e quem está  com o Filho, está com o Pai.
Muitos,  recuam, ou até mesmo abandonam o seguimento a Jesus, quando tomam conhecimento de que neste seguimento está presente a cruz.
Foram muitos os discípulos, que abandonaram Jesus, quando tomaram conhecimento de que seria impossível segui-lo, sem assumir a sua cruz! Estes, queriam sim, ficar com Jesus, mas com o Jesus  da multiplicação dos pães, da facilidade, não quiseram aceitar o Jesus que passaria pela cruz, este Jesus,  na visão deles, era um fracassado.
Mesmo Jesus tendo dito: "O meu Reino não é deste mundo", o povo estava longe de entender,  que Ele não buscava a glória dos homens e sim, a glória do Pai!  Os mesmo, que queriam proclamá-lo como Rei, após o episódio da multiplicação dos pães,  abandonaram Jesus,  quando Ele disse: “Eis aqui o pão que desceu do céu, quem dele comer viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo6,51). Estas palavras de Jesus, que prenunciava a sua morte, ressoou para os muitos discípulos que o escutava, como sendo duras demais, não que eles não tivessem entendido o sentido daquelas palavras, mas porque eles não estavam dispostos a enfrentar os desafios da cruz. Eles tinham consciência, de que unir as suas vidas à  vida de Jesus, implicaria numa doação total de suas vidas, e isso não estava nos planos daqueles discípulos, como ainda hoje, não está nos planos de muitos de nós.
A nossa opção por Jesus, tem que ser radical, devemos estar com Ele, para o que der e vier, do contrário, faremos como aqueles discípulos, abandonamo-lo no meio do caminho, perdendo a oportunidade do encontro com o Pai, pois só Jesus é o caminho que nos leva ao Pai.
Mais importante do que entender as exigências de Jesus, é acatá-las sem questionamentos, pois Jesus  é soberano, Ele sabe o que é bom para nós. Jesus  é o Senhor da nossa vida, questionar os seus ensinamentos, é impor condições para segui-Lo, e esta, não deve ser a postura de um  verdadeiro seguidor de Jesus.
Diante as palavras de Jesus, às vezes exigentes, devemos nos comportar como uma criança, obediente, que mesmo sem entender as exigências de seus pais, acata as suas ordens.
No final do evangelho Jesus pergunta aos doze discípulos, os únicos que permaneceram com Ele até aquele momento: “Vós também quereis ir embora? Pedro respondeu em nome dos discípulos: " A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!"
Creio que hoje, Jesus nos faria uma pergunta um pouco diferente da pergunta que fizera aos discípulos, talvez Ele nos perguntasse: "E vós quereis permanecer  comigo”? A nossa resposta, não seria imediata como fora a resposta de Pedro. A nossa resposta a esta pergunta de Jesus, só chegará a Ele, com as nossas atitudes do dia a dia!
Permanecer  com Jesus, é optar pela vida, optemos pela vida permanecendo em Jesus.

FIQUE NA PAZ DE JESUS  - Olivia Coutinho
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As relações dos cristãos
Tudo na vida dos cristãos são relações de amor. Não foi por acaso que Jesus deu um mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros como Eu próprio vos amei; por isto vos conhecerão como meus discípulos” (Jo 13,34-35). O amor é a marca do cristão quer na relação com Deus, quer na relação com o próximo. A liturgia do domingo de hoje está centrada toda ela no mistério do amor. Josué convoca o povo pedindo-lhe a fidelidade a Deus. Deixa livres todos os líderes do povo, mas eles protestam a fidelidade incondicional a Javé que os libertou da escravidão (1ª leitura). Se na vida do Povo de Israel há um dinamismo de solidariedade entre todos à luz do amor de Deus, no novo Povo de Deus que é a Igreja impõem-se relações sociais indispensáveis: relações entre marido e mulher, relações entre pais e filhos, relações entre servos e senhores.
Curiosamente, as relações de amor na família encontram referência no amor entre Cristo e a Igreja (2ª leitura). Desde há cinco semanas que se está a ler o capítulo 6 de João, a promessa da Eucaristia. Também no contexto da liturgia, a eucaristia tem um lugar privilegiado, uma vez que é ela a fonte da vida, o fundamento da unidade, e o desafio constante para um amor sempre maior (Evangelho).
1. A fidelidade do Povo de Deus
Josué foi o sucessor de Moisés na condução do Povo. Sentiu que tinha o direito de exigir um compromisso aos chefes do Povo. Reuniu-os, e perguntou-lhes se preferiam os deuses dos amorreus ou se mantinham fieis a Javé. Em nome de todo o Povo os seus chefes protestaram fidelidade incondicional àquele que os libertara da escravidão, os conduzira até à Terra da Promessa e lhes garantira o encontro no Monte Santo, o lugar da salvação. É muito bonito neste texto o cântico de fidelidade de um Povo que, sofrido, não esquece o Salvador.
2. As normas na comunidade cristã
Toda a carta aos Efésios está centrada na vida da comunidade eclesial. Todos nela são iguais, todos são diferentes, todos se completam. Há diversidade de vocações, de funções e de carismas. Agora, há regras de conduta para quando se integra uma comunidade. Paulo começa pela relação entre marido e mulher. Usa duas palavras que querem dizer a mesma coisa. Ser submisso e amar o outro como o próprio corpo significam exatamente a mesma coisa, a comunhão no amor, a ponto de se tornarem, marido e mulher, um só. Alguma coisa de semelhante acontece na relação dos pais com os filhos. Se estes obedecem num processo educativo, aqueles não podem irritar os filhos porque tal comprometeria a dinâmica do amor. Servos e senhores também têm eles uma relação de fraternidade. São Paulo comenta-lo-à na carta a Filemon. Em última análise, na comunidade cristã todas as relações humanas são relações de amor.
3. A eucaristia sacramento do Amor
Ao longo dos últimos domingos tem estudamos o capítulo 6 de João, a promessa da eucaristia. Facilmente se compreende que a eucaristia é a expressão máxima do amor, porque ela é “sinal de unidade, vínculo de amor, banquete de alegria pascal, memorial da morte e Ressurreição de Cristo” (SC 47). Assim sendo, comer deste Pão, permite ter a vida de Cristo em si. A presença de Jesus constitui sempre o fermento do amor que vai crescer constantemente na comunidade.
monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”





Neste domingo veremos que a fala de Jesus sobre o “Pão da Vida” provocou uma crise profunda entre seus ouvintes. Era preciso tomar uma decisão: acreditar em Jesus ou fechar-se em si mesmos; continuar com Ele ou abandoná-lo.
Em nossa vida existem momentos nos quais precisamos fazer uma opção. Foi assim que aconteceu com os israelitas ao chegar à Terra Prometida (1ª leitura). Os discípulos também tiveram que decidir entre seguir ou abandonar Jesus (evangelho). No casamento não é diferente. O amor conjugal também passa por crises nas quais é preciso decidir a continuidade do compromisso de vida (2ª leitura), renovando o amor conjugal.
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
Uma vez instalados na Terra Prometida, os israelitas começaram a adaptarem-se ao modo de vida pagão, trocando o Deus da Aliança pelos deuses da produtividade (fecundidade) e os deuses da grandeza (imperialismo) daqueles povos que eles tinham subjugado. Josué percebeu o perigo de que a terra dada por Deus para a integração e convivência se transformasse em terra de servidão e exclusão social. Era preciso fazer o povo acordar do sonho de grandeza para escolher a melhor forma de vida. Era preciso voltar ao modo de vida do Deus da Aliança para construir uma sociedade onde todos pudessem gozar de vida e liberdade e abolir aquela outra, inspirada nos deuses pagãos, que os estava levando a implantar um sistema social de classes no qual poucos teriam muito e a maior parte do povo seria reduzido à dependência voltando à escravidão.
Daí a necessidade de fazer uma opção radical (“escolham hoje a quem vocês querem servir”). Josué, exercendo sua função de lider, escolheu (“Eu e minha família serviremos a Javé”). O final da crise veio marcado por um grande compromisso do povo eleito com o projeto de Deus («Longe de nós abandonar Javé para servir a outros deuses!... nós também serviremos a Javé, pois ele é o nosso Deus»).
Pensando bem, nós também já passamos por situações semelhantes e deveremos passar ainda muitas vezes mais. A pergunta é a mesma: “Que tipo de vida queremos?” A vida que nos leva a prosperar passando por cima dos outros e que está de acordo com a sociedade competitiva que nos rodeia... ou a vida feita de trabalho honesto que poucos seguem porque não rende muito, mas que está de acordo com a nossa consciência e com a vontade de Deus?
A quem queremos servir? Ao deus do poder e da exclusão social ou ao Deus da inclusão e da fraternidade? Se quisermos ter uma orientação de vida que valha a pena, não há meio-termo. É preciso decidir pelo Deus da vida.
2ª leitura: Efésios 5, 21 - 32
Nesta segunda leitura, Paulo se refere aos deveres familiares, tendo como base a visão judaica da moral familiar na qual fora educado. No entanto, parte de um principio geral que se aplica às relações de todos os membros da família por igual (“Sejam submissos uns aos outros no temor a Cristo”). Ela constitui a atitude básica entre cristãos que tem um único Senhor.
A afirmação de São Paulo (“Mulheres, sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”) não pode interpretar-se, sem mais, como se a mulher devesse estar submetida ao marido por ser inferior a ele. Ao dizer São Paulo: “como ao Senhor” está tomando como referência nada menos que a relação que existe entre Cristo e a Igreja. Seguindo este modelo, a “submissão” da mulher deve entender-se não como uma atitude de “servidão”, mas como uma resposta amorosa ao marido que, no fundo, é a atitude básica de submissão respeitosa entre cristãos (“submissos uns aos outros no temor a Cristo”) como diz no início da leitura.
Em contrapartida Paulo lembra aos maridos o tipo de resposta que devem dar à submissão amorosa de suas mulheres (“Maridos, amem suas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”), colocando como modelo um amor tão exigente como o amor de Cristo que o levou a entregar a própria vida por nós. Desta forma, ele usa a linguagem cultural própria de sua época, mas está a transmitir um conceito novo de amor conjugal, corresponsável entre marido e mulher. Ë isto que faz do amor humano conjugal um verdadeiro sinal “sacramental” do amor de Cristo pela sua Igreja, onde radica a santidade do matrimônio.
Evangelho: João 6,60-69
Diante deste texto do Evangelho, é interessante voltarmos a vista atrás e lembrar o entusiasmo que a multiplicação dos pães despertou naquele povo, que até quis fazer de Jesus um rei. Tudo o que veio depois foi um processo de esclarecimento para que pudesse perceber o verdadeiro sentido do milagre que tinha acontecido.
À medida que Jesus ia explicando, as pessoas iam recuando por medo a assumir um compromisso de fé («Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?»). Os que buscavam Jesus porque pensavam que Ele satisfazia seus interesses iam se decepcionando e descobrindo que Ele não era o Messias que esperavam, do tipo “salvador da pátria”. Finalmente, optaram pela ruptura e o abandonam (“muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus”).
O Senhor percebe que os discípulos estão assustados e confusos por Ele estar ficando sozinho, mas, em lugar de “maneirar” e moderar a linguagem, faz questão de reafirmar tudo com mais força ainda («Vocês também querem ir embora?»).
Pedro está perdido. Não está conseguindo entender..., mas, num ato de confiança e súplica, assume o papel de porta-voz dos discípulos e exclama: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (são as palavras que estão em nossa boca, também!), “Agora nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (é a fé que, também, está em nosso coração!).
A questão não é “onde iremos”… mas “a quem iremos”. As palavras de Jesus dão vida e são vida. Quem fez a experiência pessoal do encontro com Cristo não compreende mais a sua vida sem Deus. Mesmo que a fé não tenha a resposta para tudo, sentimo-nos identificados com a resposta de Pedro. Só Jesus nos enche de uma certeza maior que a nossas dúvidas e a nossa fraqueza.
Pedro, como sempre, fala pelos discípulos. Fala por todos nós!
Palavra de Deus na vida
Jesus é assim. Ele não força ninguém, mas também não dá moleza: “Quer, quer... não quer, fica”. É ilusão pensar que seja possível “ficar em cima do muro” com Ele. Assim como deu a vida por nós, também exige tudo de nós. Mais ou menos como aquela frase no pára-choque de caminhão: “Coração dividido, dispenso a minha parte” ou aquela outra do Evangelho de Mateus 12, 30: “Quem não está comigo, está contra mim”. Foi o que Ele disse.
Muitas vezes podemos  ser tentados a pensar: “Esse modo de  falar é duro demais!”. Mas não adianta. Nós que tivemos a sorte de conhecê-lo, somos obrigados a admitir que ninguém tem “palavras de vida eterna”, como Ele. Por isso, quem quiser segui-lo deve fazê-lo livre e conscientemente, por estar convencido d'Ele ser o verdadeiro Caminho que leva ao Pai.
Crer em Jesus pode parecer simples, mas não é fácil; porque existem outros caminhos muito tentadores por aí. Sabemos disso. Mas sabemos também, como discípulos de Cristo, que não há ninguém como Ele e, mesmo que para segui-lo tenhamos que ir contra a correnteza, o faremos conscientemente apesar dos contra-valores do ter, do poder e do prazer que dominam em nossa sociedade.
A fé, porém, não é um conceito racional que possamos adquirir por nossa conta (“Ninguém pode vir a mim, se isso não lhe é concedido pelo Pai”). É uma atitude que nos introduz no Plano de Deus e, por isso, só conheceremos Jesus se nos deixarmos atrair pelo Pai.
Pensando bem...
+ A pergunta direta e provocadora de Jesus deve ter ficado em nossa mente («Vocês também querem ir embora?»). Temos que pensar na resposta. Uma resposta livre e pessoal que é uma escolha, isto é, a opção entre permanecer na segurança de uma vida medíocre ou lançar-se no seguimento de Alguém que nos sustenta e nos faz ver a vida desde outra perspectiva, com outra sensibilidade e outra confiança…
padre Ciriaco Madrigal



"Agora nós cremos e sabemos que tu és o santo de Deus"
Domingo da profissão de fé de Pedro. Neste domingo celebramos o mistério pascal pelo qual Deus revelou em Jesus Cristo, até as últimas conseqüências, sua opção pela humanidade, vencendo, pela cruz, todos os limites que impedem a vida humana de ser também divina.
Damos graças por essa opção definitiva de Deus por nós e nos abrimos à interpelação que Cristo nos faz, pela Palavra e pela Eucaristia, a uma adesão decisiva a Ele, o único que tem para nós "palavras de vida eterna" e por deu sua vida. Ele nos encoraja a abandonar os ídolos de hoje, pelos quais facilmente nos entregamos e que, em resposta, nos levam à destruição e à morte.
Essa escolha é dom de Deus, mas ainda livre resposta da pessoa a quem o Pai quer livre e feliz.
"Inclina, Senhor, o teu ouvido e escuta-me. Salva meu Deus, o servo que confia em ti. Tem compaixão de mim, clamo por ti o dia inteiro" (Salmo 6,1-3).
Primeira leitura: Josué 24,1-2a.15-17.18b
A leitura deste domingo, se compõe de alguns elementos narrativos e de uma parte do diálogo entre Josué e o povo.
A leitura narra a reunião das tribos de Israel em Siquém. É a chamada assembléia de Siquém. O pano de fundo de Josué 24 parece ser um século com uma situação politicamente muito instável e com uma constante repressão da fé em Deus. Isto nos leva a cogitar no tempo entre 701-609 antes de Cristo. Este período foi inicialmente marcado pelo rei de Judá Manasses (696-641 antes de Cristo). Este rei manifestou de tal maneira a sua submissão e lealdade ao rei pagão dos assírios, para se conservar no trono de Judá, que transformou o Templo de Deus em Jerusalém, em um santuário dos deuses assírios. Por causa desta sua atitude errada no campo político-religioso, a qualquer preço, ele foi chamado pela fonte deuteronomista de o apóstata por excelência, isto é, traidor da fé.
Este oposto que Josué fala entre o Deus verdadeiro e os deuses pagãos tem suas razões bem obvias porque o povo israelita, convocado para Siquém e colocado diante de Deus, já há muito tempo não tem mais só experiências com Deus, mas também com outros deuses pagãos.
O discurso de Josué enumera as maldições e os castigos que sancionarão toda infração à Aliança (vs. 19-24; cf. Deuteronômio 27), enfim, a citação do rito da Aliança e a da redação do contrato sobre um monumento (vs. 25-28). Este fundo primitivo sem dúvida inspirou a redação do relato da Aliança do Sinai no Êxodo; e o código cuja promulgação no Sinai este livro fixa, teria sido, na realidade, promulgado na assembléia de Siquém. Com efeito, Siquém foi, durante algum tempo, o, lugar privilegiado da lembrança da Aliança com Deus.
Mas o sinal pelo qual as tribos aceitam realmente as condições da Aliança será o abandono dos falsos ídolos: portanto, toda a Aliança supõe uma conversão, e esta se refere ao abandono dos antigos deuses da Mesopotâmia, adorados pelos antepassados de Abraão, e dos deuses cananeus conhecidos pelas tribos que ficaram na Palestina.
A finalidade da Aliança entre as tribos não é, antes de tudo, política, mas religiosa: o serviço de Deus (vs. 14-15). Trata-se, sem dúvida, da organização do culto do Senhor sob a forma de clãs: doze tribos se organizavam por turnos, cada um durante um mês, o "serviço" de um templo comum (talvez o lugar alto de Siquém).
O relato da assembléia de Siquém esclarece de modo interessante o conteúdo da Aliança. O conteúdo dessa Aliança não é de inicio o fato de um Deus que reconhece um povo ou o fato de um povo já constituído que reconhece seu Deus; ela é, antes de tudo, a constituição de um povo em torno de uma fé comum e de um culto comum. Em outros termos, Israel nasceu política e culturalmente no momento em que, política e cultura, unidos, reconhecia seu Deus. Nacionalidade e religião, são inseparáveis: é enquanto povo que os hebreus são "eleitos" e é um comportamento coletivo que conduz a Aliança religiosa.
A Aliança não é apenas um tipo de relação entre Deus e pessoas individuais: ela é, mais exatamente, a solidariedade que pessoas constatam entre si, porque servem o mesmo Deus. O serviço de Deus pode ampliar-se de novas dimensões, desde Jesus Cristo; mas a Aliança é sempre uma maneira de viver juntos, porque Deus vive conosco. Essa concepção questiona muito a cultura e o individualismo de hoje e essa maneira intimista de se dirigir a Deus esquecendo o comunitário e o social.
Esta leitura põe o povo diante de uma escolha fundamental. Josué organiza a assembléia de Siquém, como a reunião constitutiva do povo. É o ponto de partida de um movimento novo que tem raiz no êxodo. O povo deve aceitar sua nova identidade teológica, social, cultural e antropológica.
As palavras "nos tirou, a nós e a nossos pais..." tantas vezes repetidas, se referem ao povo reunido em Siquém que não saiu do Egito e, em sua maioria, não passou pelo deserto. Mas todos estávamos lá, na casa da escravidão, e todos fomos libertos. É a fé em Deus aliado dos pobres, e não o sangue que os une nessa Aliança tribal.
Josué interpela o povo sobre a qual Deus quer servir, e o povo renova liturgicamente o compromisso de fé. O tema central da assembléia de Siquém é fazer opção consciente a quem desejam servir. É preciso identificar o Deus do êxodo com aquele que vê a opressão do povo, que ouve o grito de dor e conhece seus sofrimentos; que está decidido a descer para libertá-lo do poder dos opressores (Êxodo 3,7-8). É o Deus de seus pais, o Deus da história. Precisa-se também reconhecer os deuses "estranhos", imagens corrompidas de Deus, que geram escravidão e morte.
As tribos de Israel fazem um pacto de amor com este Deus dos pobres. Tal Aliança exige decisão/adesão, como Jesus exigiu e exige de seus(suas) seguidores(as).
Salmo responsorial 33/34,2-3.16-23
É um Salmo sapiencial, mas a ordem das estrofes está no sentido de ação de graças individual (vs. de 2-11) e instrução no estilo de Provérbios, sobre o destino dos justos e dos ímpios (vs. 12-23). O Salmo de hoje constitui uma ação de graças pela presença e ação libertadora de Deus em nossa vida.
O rosto de Deus neste Salmo é muito interessante. O Salmo faz uma longa profissão de fé no Deus da Aliança, aquele que ouve o clamor, toma partido do pobre injustiçado e o liberta. Deixemos que o próprio Salmo mostre o rosto de Deus. É uma imagem forte, que mostra o Deus aliado como guerreiro que luta em defesa de seu parceiro na Aliança. Cuida dos justos (v. 16), ouve atentamente seus clamores (v. 16), enfrenta os malfeitores e apaga da terra a lembrança deles (versículo 17), escuta os gritos dos justos e os liberta dos apertos (v. 18), está perto dos corações feridos e salva os que estão desanimados (v. 19), liberta o justo de todas as desgraças (v. 20), protegendo-lhe os ossos (v. 21); põe-se contra os injustos e os condena (v. 22), resgatando a vida dos seus servos, ou seja, os justos que o temem (v. 23).
Este Salmo encontra em Jesus um sentido novo e insuperável. O próprio nome Dele resume tudo o que fez em favor dos pobres que clamam (Jesus significa "Javé salva"). A missão de Jesus é levar é levar a boa notícia aos pobres (Lucas 4,18). Maria de Nazaré ocupa o lugar social dos empobrecidos e, no seu hino, retoma o versículo 11 do Salmo: "Os ricos empobrecem e passam fome" (comparem com Lucas 1,53). Os pobres agradecem a salvação que Jesus lhes trouxe. É, por exemplo, o caso de Maria, que unge os pés de Jesus com perfume (João 12,3), como sinal de agradecimento por ter devolvido a vida ao irmão Lázaro.
Resume, assim, tudo o que Jesus fez em favor dos pobres, perseguidos e injustiçados que clamam. Ele acampou ao redor dos que o temem. Com o salmista, Pedro pode testemunhar: "Provai e vede, quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio."
Que, pela oração deste salmo, o Senhor nos renove na alegria de participar do seu projeto e nos dê inspiração e força para colaborarmos efetivamente nas lutas de libertação do povo de Deus.
Segunda leitura: Efésios 5,21-32
Na leitura de hoje antes de ser um privilégio trata-se de uma responsabilidade dada ao homem, imitar o Cristo, e não uma justificativa para qualquer espécie de despotismo.
A carta manifesta claramente a altíssima concepção do matrimonio cristão já esboçado em 1 Coríntios 7,1-9, tomando por modelo a relação Cristo-Igreja.
Na comparação entre a realidade de Cristo e a dos homens, porém, percebe-se imediatamente uma diferença marcante: Cristo, cabeça, é a salvação da Igreja, seu Corpo. O marido que ama sua esposa a ponto de dar a sua vida por ela, de algum modo "a salva".
Cristo é cabeça da Igreja enquanto é seu chefe e a salva, isto é, a ama como o seu próprio corpo, entregando-se por ela; por isso a Igreja necessariamente lhe é submissa. Pode-se então concluir que se o marido preenche esses requisitos, necessariamente a mulher encontrará sentido em lhe ser submissa em tudo, quer dizer, sem caprichos ou abusos. Precisamos entender que o apóstolo Paulo viveu numa época em que todas as mediações no lar passavam pelo homem. E até na nossa cultura ocidental até uns quarenta anos atrás também era assim. Hoje não é mais assim, o homem não é mais o provedor do lar.
Por um momento Paulo volta à situação anterior à fundação da Igreja-comunidade. O anúncio da Palavra e o batismo constituem a comunidade, transformam um grupo de pessoas em Igreja, fazem com que desapareçam "manchas, rugas e coisas semelhantes", características do homem velho, e nasce uma comunidade "santa e irrepreensível". Cristo amou as pessoas e deu a elas a condição de constituírem na Igreja o seu Corpo e de serem a Igreja, sua esposa. O batismo e a Palavra purificam as pessoas (cf. João 15,3; 13,3; 13,6.11) e são uma explicitação do que seja o amor de Cristo pela Igreja. Essa mesma imagem encontra-se no profeta Ezequiel (16,9), referindo-se a Israel que pelo banho se prepara para a Aliança, como também entre os orientais se preparava a noiva, através de banhos rituais, para o casamento.
Se o apóstolo Paulo passa da imagem das núpcias de Deus e de Israel à das núpcias de Cristo e da Igreja, é para ressaltar que é em Cristo que o amor unificante de Deus pela humanidade atingiu sua plenitude, plenitude decisiva para a história da humanidade.
Podemos ver então no matrimonio cristão o reflexo da misteriosa união de Deus com a humanidade, e o casal cristão verá na relação Cristo-Igreja o modelo de sua vida.
Podemos ver na carta aos Efésios, a forte influência cultural que estabelece a desigualdade entre homem e mulher. Iluminados pela Aliança que Deus faz com a humanidade, a qual encontra a sua plenitude em Jesus Cristo, reconheçamos ai uma interpretação sexista para o nosso tempo. "O texto parece bem distante daquela igualdade entre marido e mulher já apresentada em 1 Coríntios 7,3-5.10-17 e Marcos 10,11-12".
O versículo 21, que fala: "Vocês que temem a Cristo, sejam solícitos (submetam-se) uns para com os outros", deve orientar os versículos 22-24. Não se pode tirá-los do contexto. Seria uma afronta às mulheres e uma distorção do propósito do autor que, nesta carta, desenvolve uma teologia da Igreja: Deus revelou todo o mistério de sua vontade de unir em Cristo todas as coisas.
Evangelho: João 6,60-69
No Evangelho de hoje, Jesus pergunta aos discípulos, num momento de crise, se eles também querem abandoná-lo. É a hora da decisão, em que cada um tem de fazer sua opção, dar sua resposta que terá conseqüências.
"Dura é esta palavra" (v. 60). Considerando-se o contexto imediato, parece que a dificuldade da palavra de Jesus se refere ao dar seu corpo e sangue em comida e bebida (v. 52-58). Para a multidão de coração duro era difícil aceitar que Jesus vem do céu. Mais difícil ainda, responde o próprio Jesus, será admitir que Ele volta para o céu (v. 62). É principalmente o volta de Jesus para o céu, isto é, a fé na ressurreição de Jesus Cristo, que afasta os candidatos, ou, como ilustra o texto, instaura uma divisão entre os que crêem e os que não crêem.
A resposta que Jesus dá a eles não é uma objeção ao que eles pensam porque não resolve o "escândalo" que eles enfrentam (v. 61). Antes, determina melhor o momento que é a "exaltação de Jesus" (cf. João 3,14-16; 12,32s; 17,1 ss.) que representa o contrário da fé. Ma é também a partir dessa exaltação, que a fé se torna possível (pelo dom do Espírito Santo, cf. 7,39 e 6,63!). Mais ainda ela é o conteúdo fundamental da fé.
Humanamente falando, não é possível reconhecer em Jesus de Nazaré um enviado de Deus. Só é possível à luz da sua ressurreição e exaltação por Deus que reconhecemos Jesus como enviado de Deus e suas palavras se tornam realidade divina para nós, "espírito e vida" (v. 63). Isto é muito sério: Jesus não é mensageiro de Deus por causa daquilo que humanamente podemos apreciar nele (por exemplo, sua inteligência, sua visão da sociedade), mas por aquilo que é revelado em sua exaltação. Ora, a "exaltação" de Jesus, segundo João, realiza-se, antes de tudo, na cruz (João 12,32s). É no mistério da cruz que Jesus se torna compreensível... Quem não O compreender naquele momento, nunca O compreenderá! Nesse sentido, o versículo 63 provoca uma decisão a favor ou contra, e é nos mesmos termos que Pedro dará a resposta favorável no versículo 67. Portanto, depois do ensinamento de Cristo, a "exaltação" não forma tanto um novo "escândalo", mas mostra a sua verdadeira doação de vida que prova esse escândalo. O escândalo de Jesus é que o Revelador do Pai é aquele que é elevado na cruz e assim, e só assim, também na glória. Sem a elevação na cruz não acontece a entrada na glória.
"Tu tens palavras de vida eterna" (v. 67). Na decisão, Pedro confirma o que foi provocado por Jesus no versículo 63. Pedro reconhece que só o Espírito vivifica, e que esse mesmo Espírito se encontra na Palavra de Jesus. Na situação de desafio é que a pessoa toma a sua decisão de fé, e é nesta decisão que Cristo e sua Palavra se tornam revelação para todos nós. Pedro chama Jesus o Santo de Deus (v. 69). Diferentemente de Mateus, Marcos e Lucas, João evita dar a Jesus um título tecnicamente messiânico. Na profissão de fé de Pedro, nos outros três evangelhos, Jesus é confessado como Cristo, ou seja, Messias. João evita esse título aqui, para excluir qualquer categoria "carnal". Pois os judeus pensavam o Messias em termos bastante "carnais" que seria um messianismo terrestre, nacional etc. Para eles o Messias viria para resgatar a dinastia de Davi e libertar Israel do domínio do Império Romano.
É decisão/adesão que caracteriza o verdadeiro discípulo. Os judeus esperavam um Messias triunfal. Não poderiam aceitar um Messias humilde, crucificado, alheio aos sonhos teocráticos deles. Mais difícil ainda era aceitar que a manifestação da glória de Deus se daria na fragilidade da Encarnação e no escândalo da cruz.
Jesus diz aos discípulos que, se eles estavam se escandalizando antes da sua paixão e morte, o que diriam quando o vissem subir ao Gólgota, isto é, no Calvário? Antes de elevar-se para a glória de Deus, ele assumiria uma cruz, numa oferta total de sua vida. Sua "subida" é o gesto supremo de serviço à humanidade que precisa de cura, de redenção, de alegria. Muitos entenderam, outros não, e por isso deixaram de segui-lo, porque sua resposta foi tornando-se muito exigente, humanamente inaceitável.
Função na liturgia do dia
A liturgia desse domingo composta de partes de diferente natureza. A segunda leitura durante o tempo comum não participa da temática comum do Evangelho e nem da primeira, isto é, não tem ligação com as outras leituras. Na primeira leitura é exigida a decisão dos israelitas a favor ou contra o Senhor numa resposta. Esta decisão tem razões humanamente digna de aplauso: o Senhor é quem libertou Israel do Egito. A escolha a favor ou contra Jesus, sugerida por João no Evangelho, não tem tais razões humanamente interessantes. Trata-se de entregar-se a um modo de existir que não é nosso. Jesus não fornece argumentos: a fé é a fé. Trata-se de aceitar essa vida de Jesus como sendo sua volta à existência na glória "antes da fundação do mundo" (João 17,1 ss.), e de tirar ai a lição: este é o rumo da "vida eterna".
Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida
A fé cristã exige decisão e adesão sem reservas a Jesus Cristo cujas palavras prometem e comunicam a vida eterna. Jesus é de maneira definitiva o enviado que o Pai consagrou, isto é, Ele é a revelação definitiva. Portanto, não devemos esperar uma nova revelação, como anunciam certos grupos por ai. A escolha para segui-lo não suprime a liberdade e não impede a possibilidade de traição. Seguir Jesus impõe condições que nem todos aceitam.
Servir o Senhor da vida é penoso e exigente, e podemos resistir à tentação de "ir embora" e largar o seguimento como fizeram e fazem muitos discípulos até hoje.
Hoje existem formas discretas de nos retirar da caminhada sem dar muito na vista: ficar na comunidade sem assumir ou sem se importar com o projeto de Jesus, vivendo uma religião como rotina, e individualista, para ter a consciência em paz; escolher trechos mais convenientes do Evangelho, escolher orações e cantos de linha individualista sem compromisso coma comunidade e com o social e fingir não ver as exigências cristãs da caridade, da justiça e da ação transformadora da sociedade; inventar um "meu Jesus" ao gosto de cada um, que nos incomode pouco, ou nada, e faça sempre a "nossa vontade". Esquecemos que na oração do Pai Nosso rezamos: "seja feita a vossa vontade assim na terra como céu". E, no entanto, muitas vezes, prevalece a "nossa vontade".
Lendo e meditando com atenção esse Evangelho, descobrimos que o discipulado se baseia numa exigência fundamental de Jesus: a adesão à sua pessoa. Cristo não se impõe. Toda pessoa é livre para aderir ou rejeitar o seu projeto. De fato, muitos se afastaram diante da exigência da fé. Mas os que perceberam o sentido e a profundidade da Palavra de Jesus fizeram uma entrega total: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna."
Chegando a este ponto do relato de João sobre o pão da vida, entendemos que Jesus não abre mão de sua opção de vida, e isto gera uma profunda crise entre os seus discípulos. Muitos de afastaram diante da exigência da fé. Jesus prefere perder os discípulos que renunciar à missão que o Pai lhe confiou. Ele não aceita ser um Messias segundo a carne, isto é, alguém que impõe o seu governo. Também não aceita ser um Messias que satisfaça os caprichos de um povo que não aceita exigência nenhuma.
Servir ao Senhor da vida torna-se duro e exigente. São muitas as tentações e hostilidades. Nos deparamos, muitas vezes, com as nossas próprias impossibilidades: queremos o caminho do Espírito, mas somos atraídos pela vontade da acomodação, a vontade de ir embora.
Não é fácil permanecer fiel. É o grupo de trabalho, é a comunidade cristã, é a família, são os amigos. São tantas as dificuldades. Principalmente dificuldade nos relacionamentos. Às vezes temos dificuldade de conviver até com as pessoas mais íntimas com quem vivemos uma relação de amizade. É difícil aceitar as contradições dos outros e, pior ainda, assumir as nossas próprias contradições.
Nesta celebração, peçamos que o Senhor nos ensine a não fugir do conflito e que jamais percamos o encanto pela vida, apesar de todas as dificuldades que possamos encontrar em nosso caminho. Que a nossa resposta a Jesus seja como a de Pedro: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna".
Será que é possível se dizer cristão, freqüentar a igreja, sem de fato ter tomado uma decisão verdadeira de seguimento de Jesus e de seu projeto?
A Palavra se faz celebração
Os discípulos, ao aderirem, conscientemente, ao Cristo, abrem para todos os seguidores uma nova possibilidade: passar da condição de "meros seguidores" à de membros do corpo de Cristo Vivo.
É em vista disso que Paulo relê o relato do Gênesis sobre o casal humano, em um contexto eucarístico-eclesial. Em Gênesis temos a união do casal que forma "uma só carne". Em Efésios, a união de todos os membros num só corpo: o corpo de Cristo.
A constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, recorda-nos que a Igreja permanece no mundo como sinal do Reino definitivo, contribuindo para o seu aperfeiçoamento, a fim de preparar "novos céus e nova terra", conforme o projeto divino.
É como Igreja corpo de Cristo vivo, que devemos optar sempre PPR Cristo e seu Reino. Essa opção é exigente e muitas vezes incompreensível, mas deve ser uma decisão firme. Em Cristo temos, apenas, as palavras; mas nessas palavras e em sua configuração, a garantia da vida eterna. Viver da vida do Cristo é o galardão de uma adesão firme e fiel ao Cristo que veio para nos salvar, para nos reconciliar com nosso Criador e Pai.
Ligando a palavra com a ação eucarística
Na celebração nos abrimos ao convite que o Senhor nos faz pela Palavra a uma opção decisiva por ele, superando os estímulos da "carne" para viver no Espírito. Professamos nossa fé inspirada na afirmação de Pedro: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos e firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus.
Na liturgia da Palavra, ouvimos o Senhor, dialogamos com Ele, refletimos sobre as suas propostas, constatamos, claramente, como os discípulos, muitas exigências, duros desafios que precisamos enfrentar com convicção.
Suplicamos que Ele nos ensine a não fugir dos conflitos e a não perdermos a alegria de viver, apesar das dificuldades encontradas em nosso caminho.
Na liturgia eucarística, agradecemos ao Pai, que, em Jesus, fez uma opção amorosa e comprometedora pela humanidade. Ao celebrar o "mistério da fé" somos provocados a superar as aparências e olhar como os olhos da fé o mistério de nossa vida e da vida dos irmãos e irmãs.
padre Benedito Mazeti




"A quem iremos?"
No colégio onde estudei, nas aulas de Educação Física, vez em quando o professor nos exercitava com a prática de futebol, inclusive ele próprio atuava em uma das equipes. Não era um "racha" qualquer daqueles que jogávamos nos finais de semana, mas o professor, ao escolher a sua equipe, não considerava muito a habilidade do atleta, mas sim a sua disposição física, o seu esforço pela equipe, ele era rígido na disciplina, exigia o máximo de cada um, nas disputas de bola, na marcação, na estratégia do ataque, no seu time ninguém "empurrava com a barriga" ou fazia corpo mole. Nesses coletivos, a equipe disciplinada do "Sêo Armandão", via de regra superava o time adversário, onde às vezes atuavam os "craques" da escola, pois apregoava sempre, que um time vencedor deve saber aliar habilidade, disciplina e uma boa técnica, capaz de mudar a estratégia quando necessário. Os alunos do colégio o chamavam de "Marechal", ele era por aquele tempo um Felipe Scolari, e em competições escolares abertas, sua equipe conquistou muitos troféus. Interessante que os que se achavam "craques", não gostavam muito dessa "linha dura" do Professor.
Lembrei-me do "Sêo Armandão", quando refleti esse evangelho onde alguns discípulos de Jesus começaram a "afrouxar" diante das suas exigências, querendo fazer "corpo mole" e "empurrar com a barriga" os seus ensinamentos e a Verdade por ele pregada. Também hoje, nós cristãos, muitas vezes queremos viver um cristianismo arraigado na carne, sem encarar o desafio de vivê-lo em Espírito, e foi exatamente para isso que o Verbo Divino se encarnou em nosso meio, para que fosse possível ao homem carnal, viver no Espírito, sem ser um alienado. Praticar um cristianismo a partir apenas da carne, isso é, das realidades meramente humanas, é a grande tentação dos discípulos de hoje, onde muitos vivem uma religião de normas e preceitos, achando que basta cumprir tudo o que a Santa Igreja ensina, e se algo der errado, a culpa é da Igreja, poderíamos chamar a isso de tradicionalismo, pois na verdade era esta a posição dos fariseus e Doutores da Lei, que não aceitavam o advento da Salvação, presente na pessoa de Jesus de Nazaré.
A verdadeira prática do cristianismo nos traz sempre o desafio da ascese, que significa fazer uma experiência profunda com Jesus na nossa vida, sem tirar os pés do chão da nossa história, e essa experiência querigmática só é possível quando nos abrimos ao Espírito do Senhor, presente em nossa fraqueza, e, portanto, o que está no centro do ensinamento de João às suas comunidades, é que nenhum recurso humano, científico, social, político ou até religioso, pode nos levar a essa ascese, só se aproxima dessa Verdade absoluta chamada Jesus, aqueles que o Pai atrair.
Em João 6, 51 encontramos a afirmação que deu margem a discussão de Jesus com os Judeus "Eu sou o pão vivo descido do céu,. Quem comer desse pão viverá eternamente.E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo".
No evangelho desse domingo, a discussão acontece no próprio grupo de seguidores, se entre os judeus, haviam aqueles que não acreditavam, era até compreensível, entretanto a situação torna-se mais grave quando entre os próprios seguidores, há discípulos que não têm fé, pois acham que ninguém consegue escutar a palavra, que é dura demais.
Dentro da Igreja há muitas maneiras, e todas elas válidas, de se fazer essa experiência com Jesus, entretanto, é preciso muito cautela para não se criar um cristianismo mais light, menos intransigente e radical, onde a gente possa fazer parte da Igreja, mas sem ter que vestir e suar a camisa, o engajamento pastoral ou a adesão a um Movimento ou Associação, pode sim gerar em nós a ilusão de que aquela prática é suficiente, e dependendo do modelo eclesiológico, ficaremos ancorados apenas na carne, nos recusando a "levantar vôo na ascese do Espírito" ou então tiramos os pés do chão, ignorando a carne que sustenta o Espírito, mergulhando na perigosa fé da magia. E quando se trata de coerência naquilo que se crê, Jesus não é de ficar alisando o "ego" dos seus seguidores, mas concede a liberdade da escolha "Vocês também querem ir embora?". Pedro, falando em nome da comunidade, reconhece aquilo que os judeus rejeitam, nenhuma proposta ou ideologia humana, pode conduzir o homem a plena realização de si mesmo, só Jesus nos faz enxergar além dos horizontes humanos, comer a sua carne significa a aceitação radical da comunhão com sua pessoa, seu ensinamento e seu projeto de vida.
O apóstolo Pedro aceita viver nessa ascese do homem espiritual, mesmo ainda estando na realidade da carne, em outras palavras, aceita Jesus como Deus, Senhor e Salvador, de maneira incondicional "A quem iremos Senhor?" Tu tens palavras de Vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus". Enfim, o cristianismo será sempre uma proposta que nos obriga a fazer uma escolha e tomar uma decisão, a favor ou contra Jesus. Na vida de Fé não dá para "empurrar com a barriga" e fazer "corpo mole", pois corre-se o risco de perder o "jogo", que Cristo já venceu, com a encarnação, paixão, morte e ressurreição.
diácono José da Cruz




1 – «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».
Pedro faz a sua profissão de fé em Jesus. Espontâneo como sempre, ainda que os motivos não estejam amadurecidos. O discurso de Jesus – Pão da Vida, Pão descido do Céu, que é a Sua carne entregue a favor de todos – gera, como expectável, enorme contestação: «Como pode Ele dar-nos a Sua carne a comer?»
Jesus insiste: «Quem come deste Pão viverá eternamente». E a discussão acentua-se.
Os discípulos também fazem parte com a multidão. Têm dúvidas e perguntas a fazer. Não compreendem como têm de comer a carne, o corpo de Jesus: «Estas palavras são duras (ou são insuportáveis, na tradução dos Capuchinhos). Quem pode escutá-las?».
A murmuração, já antes presente, torna-se mais audível. Jesus devolve-lhes as perguntas: «Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do homem subir para onde estava anteriormente? O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que não acreditam... Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai».
O evangelista dá nota que a partir de então muitos discípulos se afastaram e já não andavam com Ele. Então Jesus testa a firmeza dos Doze: «Também vós quereis ir embora?».
Podemos encontrar um paralelismo noutro diálogo: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Dada a resposta – João Batista, Elias, ou um dos profetas –, logo Jesus os encosta à parede: "E vós quem dizeis que Eu sou?", exigindo-lhes uma clarificação para prosseguirem caminho. Também aí Pedro garante a fé em Jesus, como o Messias de Deus (cf. Lc 9, 18-20).
2 – A liturgia da Palavra coloca-nos diante de um exercício de liberdade. Jesus testa o seu núcleo duro: E vós? Quereis seguir outro caminho? Ou arriscais seguir-Me, com tudo o que isso implica? Estais dispostos a dar a vida por Mim? E pelos outros? E pelos vossos inimigos?
Não há ameaças. Por vezes seria mais fácil: fazes assim ou Deus castiga-te! Ou entras na linha ou vais ver o que que é bom para a tosse! Reprimendas às nossas crianças: se não te portares bem, Jesus não gosta de ti!
Seguir Jesus tem exigências. Não é para pessoas mornas, mas para pessoas decididas, ainda que haja dúvidas, cansaços, hesitações, pecados. Seguir Jesus implica renunciar a muitas coisas, renunciar a si mesmo, a todo o egoísmo, libertando-se para que Cristo nos preencha com o Seu amor. E tomar a sua cruz dia após dia.
Em Cristo não há ameaças, condenações, diabolizações. Bem se pode dizer que Jesus está envolvido trinitariamente (com o Pai e com o Espírito Santo). Nos dias que transcorrem é fácil visualizar a diabolização: ou nós ou o caos. É tão duro reconhecer que os outros têm qualidades! E pior, são bons em muitas coisas em que não passamos de aselhas! E se não alinham pelas nossas ideias?! Não seria melhor eliminá-los. É, aliás, uma tentação já presente no Evangelho quando os discípulos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus Cristo e proíbem-no porque não faz parte do grupo (cf. Mc 9, 38-41). Jesus dá aos discípulos a possibilidade de seguirem um caminho que os conduza até à eternidade. Mas sem chantagem ou jogos ardilosos.
Na primeira leitura, Josué, o sucessor de Moisés, coloca ao povo uma escolha: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». 
Como se pode ver, Josué faz uma proposta. Dá o exemplo. Ele seguirá o Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus. E assim a sua família. Mas sem pressões. O povo fica livre para decidir: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão. Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».
3 – Só se pode decidir na liberdade. Se nos obrigam, então escolhem por nós. Deus cria-nos por amor mas não nos salva sem nós, por maior que seja o Seu amor para connosco. Um pouco como os pais, não podem decidir a vida inteira pelos filhos, estes ficariam crianças para sempre. É preciso educá-los, dar-lhes as ferramentas, ensinar-lhes o melhor da vida, a compaixão, a justiça, a solidariedade, a capacidade de discernir e escolher o bem. Educá-los pressupõe que se lhes proporciona cada vez mais autonomia para fazerem as próprias escolhas.
Deus não nos trata como crianças, mas como filhos.
Se somos obrigados a fazer alguma coisa, fazemo-la contrariados, tudo faremos para fazer mal ou simplesmente não faremos. Se nos sentirmos livres e se temos escolha, então tudo se torna mais simples. Faremos das fraquezas forças para corresponder ao melhor de nós. Certamente todos já presenciamos a birra de alguma criança que só não faz porque lhe mandam. Daí um conselho tradicional: queres que o teu filho coma sopa, come tu também. É esse o exemplo de Josué.
Então só fazemos o que nos apetece? O que nos dá na real gana? Claro que não.
Diz-nos São Paulo: Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente (cf. 1Cor 6, 12).
Escolhemos um caminho, um estilo de vida e depois agimos em conformidade. Queremos entrar na universidade? Então esforçarmo-nos de tal que possamos ter médias para conseguir entrar no curso pretendido. Queremos ser atores ou atrizes? Então teremos que fazer por isso, entrar numa peça, em anúncios, em audições (castings), frequentar um curso, fazer wokshop's...
Ninguém nos pode obrigar a gostar desta ou daquela pessoa. Os outros não nos podem obrigar, mas cada um de nós pode tentar compreender o outro, aceitar as suas limitações, não valorizar muito as suas falhas... Mas tem que partir de nós!
4 – O Apóstolo Paulo, na carta aos Efésios, que temos vindo a ler, aponta Cristo como fundamento da nossa fé e da nossa vivência quotidiana. A proposta de Jesus interpela-nos a viver intensamente, procurando dar o melhor de nós mesmos e a descobrir o melhor dos outros. Há dias menos fáceis, mas o desafio é constante: amar sem cálculos nem medidas. Como diria a Madre Teresa, é fácil amar os que estão distantes e cuidar dos estranhos, difícil mesmo é amar e cuidar dos que estão perto, dos de nossa casa, e sobretudo ao longo do tempo, e em todos os momentos. Chegar a casa, cansado ou aborrecido e ser capaz de sorrir, de ter uma palavra de atenção e de carinho, não é fácil. Porém, é em casa que começo a ser cristão.
O apóstolo aponta situações e pessoas concretas. Desta feita dirige-se aos casais cristãos: «Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo… As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor... Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo… Somos membros do seu Corpo… É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja».
Num sentido mais lado, a mensagem é para todos, é para as comunidades crentes. A linguagem da "submissão" pode ser dúbia e discriminatória, porém o conteúdo é o mesmo para maridos e mulheres, para cada um de nós: amar, amar, amar. Amar ao jeito de Jesus que dá a vida pela Igreja e fazer com que o outro seja único para mim, como Cristo em relação à Igreja.
Sublime, a propósito, a oração de coleta deste domingo: «Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias».



SEGUNDA HOMILIA



1 – “Muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»... A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele”.
Continuamos com o texto de são João, no qual Jesus se apresenta como o verdadeiro Pão da Vida, o Pão de Deus. A afirmação de Jesus – o meu corpo é verdadeira comida, o meu sangue é verdadeira bebida... quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue não terá a vida... – gera polêmica na população, nos judeus e nos discípulos. Nesta parte final do capítulo 6, são os discípulos que se interrogam, duvidam e dispersam.
Perante a dispersão dos judeus e dos discípulos, Jesus questiona os Doze sobre as disposições: «Também vós quereis ir embora?». Pedro, em nome dos outros Apóstolos, responde inequivocamente: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».
A dissidência dá lugar à firmeza, à convicção, ao seguimento consciente e livre. O projeto de Jesus Cristo é um projeto de salvação, de vida nova, desafiando os limites do tempo e do espaço, dando o melhor que cada um possui em favor de todos, para que o que se dá se multiplique e atravesse o próprio Céu. É um projeto arrojado e libertador. Jesus não quer que os seus discípulos, e ninguém, viva no medo do passado ou sob o peso de leis castradoras e injustas, mas que todos possam apreciar a vida como dom, transformando a dádiva recebida em dádiva oferecida a favor dos outros.
2 – Jesus Cristo, Deus entre nós, é o Pão que nos dá ânimo (alma) para vivermos confiantes, em momentos favoráveis como em ocasiões de tormenta, com alegria, sabendo que, como a mãe/pai em relação aos filhos, Ele, em relação ao nós, é o olhar que nos eleva, a mão que nos segura, é a companhia que nos fortalece, é a vida nova que oxigena o nosso coração, por inteiro.
Não Se impõe. Vive no tempo e na história. Habita a humanidade. Caminha nas nossas buscas. Insere-Se nos nossos sonhos. Bebe e come conosco. Sofre e diverte-se com os nossos filhos e irmãos e pais. Chora e ri nas praças e nas vielas dos nossos corações. Não se impõe. Tem a força e o poder que Lhe vêm do alto, de Deus, mas faz-Se pobre, frágil, mendigo da nossa vontade, ajoelha-Se diante do nosso olhar. Carrega na cruz todo o mundo, com todo o amor. Até ao fim. Para sempre. Até à última gota de sangue. Até à eternidade. Até Deus. Junto de Deus, conosco, pelo Espírito Santo, nos sacramentos e nos pobres deste tempo. À direita de Deus Pai atrai-nos com a Sua bondade.
Não se impõe. Testemunha. Vive. Exemplifica. Mostra como viver em qualidade. Dá-Se por inteiro. Dá-nos o seu corpo, a sua vida. Precede-nos no peregrinar temporal. Encaminha-nos para o coração do Pai.
“Quereis ir embora?”
A liberdade integra o plano salvador de Deus. Sem ameaças. Apela à decisão. A proposta está feita, as cartas lançadas! Cabe a cada um, ainda que com a ajuda generosa dos irmãos, decidir. É este o jeito de Deus, como os pais em relação aos filhos seus. Quer o melhor para nós, como os nossos pais o querem. Mas cabe-nos a nós viver a nossa vida, com as escolhas que fizermos.
“Josué disse então a todo o povo: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». Mas o povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão”.
3 – Quando uma criança descobre que não pode ter dois brinquedos, opta pelo que lhe parece melhor. O buscador de pérolas, ou de pedras preciosas, nas parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus, quando encontra a mais bela pérola, ou a pedra mais preciosa, deixa/vende tudo o que tem de valioso para ficar com a que é mais preciosa e bela.
As escolhas podem exigir renúncia. Não podemos ter todos os brinquedos. Há escolhas que devem fazer-nos sentir preenchidos, a transbordar de paz e de júbilo. Se escolho este marido, esta esposa, se escolho este caminho, não fico a chorar pelo que deixo, ou será que não encontrei o amor maior, a melhor das pérolas?! Quando escolho Jesus Cristo, escolho a vida, a verdade, escolho ser livre e, em consequência, escolho não ficar refém do tempo e da finitude e abrir-me ao futuro, à graça de Deus, a uma vida sem fim, com o fim na eternidade de Deus.
Quando crescemos, dá-mo-nos conta que aqueloutro brinquedo já não nos satisfaz, ou já diz muito pouco. No plano da fé temos que dar o salto, como Pedro e os Apóstolos, apostar em Deus, nada perderemos, ganharemos o essencial, a VIDA que nos abre os horizontes de Deus. Quando lançamos as mãos ao arado para lavrar a terra, olhamos para o campo que se estende à nossa frente, para a beleza do campo depois de lavrado e semeado.
Faz mais sentido acentuar o que temos, o caminho a percorrer, do que ficar a moer-se com o que se deixou para trás ou arrependidos na incerteza do que o tempo nos trará. Deus está à nossa frente, e ao nosso lado, e em nós. Confiemos. Não nos deixemos levar pela multidão ou pelos muitos discípulos que seguiram outro caminho ou se desviaram por atalhos. Vivamos. Neste concreto, não importa tanto a maioria, mas saber que o caminho é verdade e vida para nós. E na certeza que os outros continuarão a ser atraídos por Deus, ainda que por meio da Sua luz em nós.
4 – Ele é o Pão vivo. A sua carne e o Seu sangue são alimento que nos salva. Se O acolhemos como Pão de Deus, se Ele tem para nós palavras de vida eterna, se Ele é o Santo de Deus, consideramo-nos como Corpo Seu. Comungamos o mesmo corpo, constituímos um só Corpo de Cristo. Daí a certeza que a eucaristia, mistério maior da nossa fé, nos implica e compromete com os outros. Recebemos para dar, para partilhar, para entrar em comunhão.
Como nos diz o papa Bento XVI, “o pão é para mim e também para o outro. Assim Cristo une todos nós a Si mesmo e une-nos todos uns aos outros. Na comunhão recebemos Cristo. Mas Cristo une-se de igual modo ao meu próximo: Cristo e o próximo são inseparáveis na Eucaristia. E assim todos nós somos um só pão, um só corpo. Uma eucaristia sem solidariedade com os outros é uma Eucaristia abusada... Na eucaristia, Cristo entrega-nos o Seu corpo, doa-se a Si mesmo no Seu corpo e assim faz-nos Seu corpo, une-nos ao Seu corpo ressuscitado”.
O caminho da eucaristia é o caminho de Jesus, de Deus à terra, do nascimento à cruz, da morte à vida nova de graça e ressurreição. É o caminho do amor. É uma escolha que nos liberta, preenchendo os nossos vazios e anseios. Só na caridade descobrimos a beleza e a grandeza de sermos gente, de sermos irmãos, de sermos filhos de Deus.
A este propósito vale a pena mastigar as palavras de são Paulo, exemplificado o amor entre marido e mulher, expressão do Amor único de Cristo à Igreja e pela humanidade, paradigma do amor que nos há de mobilizar uns para os outros e para Deus: “Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de fato, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja”.
padre Manuel Gonçalves



A eucaristia, pacto de vida
1ª leitura: Josué (24,1-18) Israel nas mãos de Deus
1. A primeira leitura fala-nos do famoso pacto de Siquém, segundo o qual o sucessor de Moisés, à frente do povo liberto da escravidão do Egito e já introduzido e dono da terra prometida, convoca todas as tribos para fazer um pacto, uma aliança com Iavé. Por quê? Quando os israelitas chegaram a Canaã, defrontaram-se com os respectivos habitantes que têm os seus deuses, os seus santuários – o que vai ter bastante influência nos intrusos. Ninguém muda da noite para o dia uma cultura religiosa centrada na situação social e antropológica desse pequeno território. Este pacto é, desde logo, apresentado na Bíblia como o protótipo da unidade das tribos, em que cada uma das quais tinha os seus interesses sociais e políticos; inclusive, o mais provável é que nem todas as tribos tivessem tido a experiência da escravatura do Egito e da passagem pelo deserto.
2. Para a leitura deste texto de Josué seria necessário considerar uma série de propostas sobre a origem de "Israel" na terra prometida, que hoje são proporcionadas na perspectiva da arqueologia e de uma explicação de sociologia religiosa. Chegou-se a afirmar que a origem de Israel na Palestina é fruto de uma "revolta camponesa" (cito os autores mais famosos: G. Mendenhall e N. K. Gottwald) que foi transmitida à posteridade sob a forma de um pacto religioso das tribos para dar coerência e unidade. Não quer isto dizer que se devam descartar as teses tradicionais da Bíblia que admitem que um grupo de escravos sai do Egipto sob a liderança de Moisés. Mas a forma como a Bíblia narra as coisas não pode ser aceite sem ter em conta os dados da arqueologia, da antropologia e da sociologia religiosa. A Bíblia escreveu a sua "história" a partir de cima, do projeto de Deus e isso é importante. Mas tal não significa que "Israel" seja um verdadeiro projeto divino em todos os seus pormenores.
3. O autor desta narrativa quer dizer que a unidade das tribos haveria de ser conseguida com um pacto religioso, segundo o qual se comprometiam a servir Iavé e a abandonar os deuses cananeus. Eis o que alguns chamaram a "anfictionía" (associação de cidades gregas, com caráter religioso, sob o patrocínio de um deus), à imagem do que se conhece da Grécia e da Itália, em torno de um santuário comum. Este assunto não está esclarecido e hoje é, historicamente, menos interessante. Para o autor deuteronomista o que importa é o repto constante da religião de Israel, nunca conseguido, como combatem frequentemente os profetas e os responsáveis pela ortodoxia religiosa de Israel e Judá. O texto de hoje é próprio de uma escola teológico-catequética, chamada deuteronomista (porque se inspira no livro de Deuteronômio) idealizando as origens e as fidelidades do povo ao seu Deus. É, além disso, uma proposta de futuro: só Deus pode salvar o seu povo em todas situações. Isto é assim?
Para um povo que se construiu em torno de Iavé como identidade não é e nem ser nada estranho. Do ponto de vista teológico e espiritual ter confiança (emunah) em Deus é decisivo.
2 leitura: Epístola aos Efésios (5, 21-32)
A família cristã vive no amor de entrega
1. A segunda leitura é um dos textos mais expressivos e polémicos do Novo Testamento, já que o simbolismo da cabeça e do corpo (Cristo e a Igreja), aplicado às relações homem e mulher no casamento, deu muito que falar nestes tempos de reivindicações dos direitos da mulher. Mas este texto não está escrito em termos polémico-reivindicativos. Trata-se de fazer uma leitura da família (tecnicamente é conhecido como "código familiar"), aplicando os princípios de eclesiologia: a Igreja não é nada sem o seu Senhor, que deu a vida por ela. Não é assim  no casamento em que homem e mulher estão no mesmo plano de igualdade, mas onde cada um desempenha o seu papel e a sua missão. A submissão é de um perante o outro se é  entendido de forma positiva, já que no casamento não há submissão, mas entrega mútua.
2. Portanto, apesar de tudo, tal como o protótipo desta forma de falar é o romance de Cristo com a sua Igreja, assim deve ser entendido o casamento, na sua realidade radical.  É um romance de amor, de entrega, de generosidade, de dar a vida um pelo outro, como Cristo e a Igreja. Este romance de amor faz todo o seu sentido se o amor dos esposos toma como modelo o de Cristo à sua Igreja. Tal quer dizer que o amor de que aqui se fala não é erótico, nem o da pura amizade, nem sequer o amor "familiar" que é um amor específico. Os cristãos vivem, podem, sem dúvida, viver todos estes amores e até precisam deles. Mas o que dá sentido ao matrimónio "cristão" é o amor de entrega absoluta, a exemplo de como Cristo Se entregou pela Igreja.
Evangelho: João (6, 60-69) - Eucaristia e vida
1.O Evangelho do dia é a última parte do capítulo sobre o pão da vida e a Eucaristia. Como momento culminante e, perante as afirmações tão rotundas da teologia joânica sobre Jesus e a Eucaristia, está aberta a polêmica face aos ouvintes que não aceitam que Jesus possa dar a vida eterna. Fala-se, inclusive, de discípulos que, escandalizados, abandonam Jesus. Devemos entender também que abandonam a comunidade que defendia aquela forma de comunicação tão íntima da vida do Senhor ressuscitado. Mas a Eucaristia é apenas uma antecipação, não é toda a realidade do que nos espera na comunhão com a vida de Cristo. Por isso se recorre à comparação do Filho do homem que há-de ser glorificado, como nós havemos de ser ressuscitados.
2. Atualmente, o autor ou os autores permitem-se uma contradição com as afirmações anteriores sobre a "carne": o Espírito é o que dá vida, a carne não serve para nada". Nunca puderam explicar bem estas palavras, em todo o contexto do discurso de pão da vida, onde a identidade "carne" é o equivalente à vida concreta que vivemos neste mundo. É a história do Filho do homem, de Jesus neste mundo. Por que é que agora é suprimido do texto? Porque neste final do discurso o horizonte está carregado de tons escatológicos, daquilo que aponta para a vida depois da morte, para a ressurreição e a vida eterna. E a vida eterna, a da ressurreição, não é como viver neste mundo e nesta história. Tem de ser algo de novo e "recriado". Esta é uma afirmação muito na linha de 1Cor. 15,50: "a carne e o sangue não podem herdar o Reino dos céus."
3. Este é um dos grandes valores da Eucaristia cristã e, neste caso, da teologia joânica. A Eucaristia não se celebra apenas a partir da memória do passado: a morte de Jesus na cruz. É também um sacramento escatológico que antecipa a vida que nos espera depois da morte. É isto que é admirável da Eucaristia. Jesus pergunta, pois, aos seus discípulos, aos que ficam com Ele, se estão dispostos a ir até ao fim, a estarem sempre com Ele, mais para além desta vida. E dá-lhes, inclusive, a oportunidade de poderem ir embora livremente. As palavras de Pedro, que são uma confissão de fé em toda a regra, descobrem a verdadeira resposta cristã. "Para onde iremos? Tu tens palavras de vida eterna!". Tudo isto acontece na Eucaristia, quando se celebra como "mimesis" real e verdadeira do que Jesus quer entregar aos seus, razão por que é um pacto de vida eterna.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro