quinta-feira, 23 de agosto de 2018
terça-feira, 21 de agosto de 2018
21º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano B
21º DOMINGO TEMPO
COMUM
Evangelho – Jo 6,60-69
-21º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano A-José Salviano
"Esta palavra é
dura. Quem consegue escutá-la?"
É, assim somos nós. Seguimos e buscamos Jesus para
a solução dos nossos problemas, gostamos de ouvir suas palavras de conforto, de
amor e bondade e de misericórdia infinita. Continuar lendo
====================================
“AQUEM
IREMOS SENHOR?” – Olivia Coutinho.
21º
DOMINGO DO TEMPO COMUM.
Dia
26 de Agosto de 2018
Evangelho
de Jo6,60-69
Hoje, se percebe uma
grande inquietação do ser humano, até mesmo no campo da fé. Há um desejo
muito grande de se conseguir tudo fácil, o que leva muitas pessoas a pensar, que
uma simples mudança de religião poderá resolver as suas questões. O que é uma
grande inverdade, pois religião, é apenas um caminho de orientação na fé,
os nossos problemas, cabe a nós mesmos resolvê-los, preferencialmente, à Luz da
fé.
Existe uma
grande diferença entre ter fé e viver a fé, ter fé, é crer naquilo que
não vemos, viver a fé, é viver aquilo que cremos.
Quando abraçamos a fé,
descortina-se diante dos nossos olhos, um novo horizonte, nos possibilitando
enxergar o que os olhos humanos não conseguem alcançar!
O evangelho que a
liturgia de hoje nos convida a refletir, vem nos afirmar, que só
permanece com Jesus, quem chega a Ele, pelos os caminhos da fé e não por outros
interesses.
“Ninguém pode vir a
mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. A fé é a concessão do Pai para
chegarmos ao Filho, a fé é um dom de Deus, a quem acolhe este dom, é concedido
a graça de chegar ao Filho e quem está com o Filho, está com o Pai.
Muitos, recuam,
ou até mesmo abandonam o seguimento a Jesus, quando tomam conhecimento de que
neste seguimento está presente a cruz.
Foram muitos os
discípulos, que abandonaram Jesus, quando tomaram conhecimento de que seria
impossível segui-lo, sem assumir a sua cruz! Estes, queriam sim, ficar com
Jesus, mas com o Jesus da multiplicação dos pães, da facilidade, não
quiseram aceitar o Jesus que passaria pela cruz, este Jesus, na visão
deles, era um fracassado.
Mesmo Jesus tendo
dito: "O meu Reino não é deste mundo", o povo estava longe de
entender, que Ele não buscava a glória dos homens e sim, a glória do
Pai! Os mesmo, que queriam proclamá-lo como Rei, após o episódio da
multiplicação dos pães, abandonaram Jesus, quando Ele disse: “Eis
aqui o pão que desceu do céu, quem dele comer viverá eternamente. E o pão que
eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo6,51). Estas palavras de
Jesus, que prenunciava a sua morte, ressoou para os muitos discípulos que o
escutava, como sendo duras demais, não que eles não tivessem entendido o
sentido daquelas palavras, mas porque eles não estavam dispostos a enfrentar os
desafios da cruz. Eles tinham consciência, de que unir as suas vidas à
vida de Jesus, implicaria numa doação total de suas vidas, e isso não
estava nos planos daqueles discípulos, como ainda hoje, não está nos planos de
muitos de nós.
A nossa opção por
Jesus, tem que ser radical, devemos estar com Ele, para o que der e vier, do
contrário, faremos como aqueles discípulos, abandonamo-lo no meio do caminho,
perdendo a oportunidade do encontro com o Pai, pois só Jesus é o caminho que
nos leva ao Pai.
Mais importante do que
entender as exigências de Jesus, é acatá-las sem questionamentos, pois Jesus
é soberano, Ele sabe o que é bom para nós. Jesus é o Senhor da
nossa vida, questionar os seus ensinamentos, é impor condições para segui-Lo, e
esta, não deve ser a postura de um verdadeiro seguidor de Jesus.
Diante as palavras de
Jesus, às vezes exigentes, devemos nos comportar como uma criança, obediente,
que mesmo sem entender as exigências de seus pais, acata as suas ordens.
No final do evangelho
Jesus pergunta aos doze discípulos, os únicos que permaneceram com Ele até
aquele momento: “Vós também quereis ir embora? Pedro respondeu em nome dos
discípulos: " A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!"
Creio que hoje, Jesus
nos faria uma pergunta um pouco diferente da pergunta que fizera aos
discípulos, talvez Ele nos perguntasse: "E vós quereis permanecer
comigo”? A nossa resposta, não seria imediata como fora a resposta de
Pedro. A nossa resposta a esta pergunta de Jesus, só chegará a Ele, com as
nossas atitudes do dia a dia!
Permanecer com
Jesus, é optar pela vida, optemos pela vida permanecendo em Jesus.
FIQUE NA PAZ DE JESUS - Olivia
Coutinho
Venha fazer parte do
meu grupo de reflexão no Facebook:
=======================
As relações dos cristãos
Tudo na vida dos cristãos são relações de amor. Não foi por
acaso que Jesus deu um mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros como Eu
próprio vos amei; por isto vos conhecerão como meus discípulos” (Jo 13,34-35).
O amor é a marca do cristão quer na relação com Deus, quer na relação com o
próximo. A liturgia do domingo de hoje está centrada toda ela no mistério do
amor. Josué convoca o povo pedindo-lhe a fidelidade a Deus. Deixa livres todos
os líderes do povo, mas eles protestam a fidelidade incondicional a Javé que os
libertou da escravidão (1ª leitura). Se na vida do Povo de Israel há um
dinamismo de solidariedade entre todos à luz do amor de Deus, no novo Povo de
Deus que é a Igreja impõem-se relações sociais indispensáveis: relações entre
marido e mulher, relações entre pais e filhos, relações entre servos e
senhores.
Curiosamente, as relações de amor na família encontram
referência no amor entre Cristo e a Igreja (2ª leitura). Desde há cinco semanas
que se está a ler o capítulo 6 de João, a promessa da Eucaristia. Também no
contexto da liturgia, a eucaristia tem um lugar privilegiado, uma vez que é ela
a fonte da vida, o fundamento da unidade, e o desafio constante para um amor
sempre maior (Evangelho).
1. A fidelidade do Povo de Deus
Josué foi o sucessor de Moisés na condução do Povo. Sentiu
que tinha o direito de exigir um compromisso aos chefes do Povo. Reuniu-os, e
perguntou-lhes se preferiam os deuses dos amorreus ou se mantinham fieis a
Javé. Em nome de todo o Povo os seus chefes protestaram fidelidade
incondicional àquele que os libertara da escravidão, os conduzira até à Terra
da Promessa e lhes garantira o encontro no Monte Santo, o lugar da salvação. É
muito bonito neste texto o cântico de fidelidade de um Povo que, sofrido, não
esquece o Salvador.
2. As normas na comunidade cristã
Toda a carta aos Efésios está centrada na vida da
comunidade eclesial. Todos nela são iguais, todos são diferentes, todos se
completam. Há diversidade de vocações, de funções e de carismas. Agora, há
regras de conduta para quando se integra uma comunidade. Paulo começa pela
relação entre marido e mulher. Usa duas palavras que querem dizer a mesma
coisa. Ser submisso e amar o outro como o próprio corpo significam exatamente a
mesma coisa, a comunhão no amor, a ponto de se tornarem, marido e mulher, um
só. Alguma coisa de semelhante acontece na relação dos pais com os filhos. Se
estes obedecem num processo educativo, aqueles não podem irritar os filhos
porque tal comprometeria a dinâmica do amor. Servos e senhores também têm eles
uma relação de fraternidade. São Paulo comenta-lo-à na carta a Filemon. Em
última análise, na comunidade cristã todas as relações humanas são relações de
amor.
3. A eucaristia sacramento do Amor
Ao longo dos últimos domingos tem estudamos o capítulo 6 de
João, a promessa da eucaristia. Facilmente se compreende que a eucaristia é a
expressão máxima do amor, porque ela é “sinal de unidade, vínculo de amor,
banquete de alegria pascal, memorial da morte e Ressurreição de Cristo” (SC
47). Assim sendo, comer deste Pão, permite ter a vida de Cristo em si. A
presença de Jesus constitui sempre o fermento do amor que vai crescer
constantemente na comunidade.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Neste domingo
veremos que a fala de Jesus sobre o “Pão da Vida” provocou uma crise profunda
entre seus ouvintes. Era preciso tomar uma decisão: acreditar em Jesus ou
fechar-se em si mesmos; continuar com Ele ou abandoná-lo.
Em nossa vida existem
momentos nos quais precisamos fazer uma opção. Foi assim que aconteceu com os
israelitas ao chegar à Terra Prometida (1ª leitura). Os discípulos também
tiveram que decidir entre seguir ou abandonar Jesus (evangelho). No casamento
não é diferente. O amor conjugal também passa por crises nas quais é preciso
decidir a continuidade do compromisso de vida (2ª leitura), renovando o amor
conjugal.
1ª
leitura: Josué 24,1-2.15-18
Uma vez instalados
na Terra Prometida, os israelitas começaram a adaptarem-se ao modo de vida
pagão, trocando o Deus da Aliança pelos deuses da produtividade (fecundidade) e
os deuses da grandeza (imperialismo) daqueles povos que eles tinham subjugado.
Josué percebeu o perigo de que a terra dada por Deus para a integração e
convivência se transformasse em terra de servidão e exclusão social. Era
preciso fazer o povo acordar do sonho de grandeza para escolher a melhor forma
de vida. Era preciso voltar ao modo de vida do Deus da Aliança para construir
uma sociedade onde todos pudessem gozar de vida e liberdade e abolir aquela
outra, inspirada nos deuses pagãos, que os estava levando a implantar um
sistema social de classes no qual poucos teriam muito e a maior parte do povo
seria reduzido à dependência voltando à escravidão.
Daí a necessidade de
fazer uma opção radical (“escolham hoje a quem vocês querem servir”). Josué,
exercendo sua função de lider, escolheu (“Eu e minha família serviremos a
Javé”). O final da crise veio marcado por um grande compromisso do povo eleito
com o projeto de Deus («Longe de nós abandonar Javé para servir a outros
deuses!... nós também serviremos a Javé, pois ele é o nosso Deus»).
Pensando bem, nós
também já passamos por situações semelhantes e deveremos passar ainda muitas
vezes mais. A pergunta é a mesma: “Que tipo de vida queremos?” A vida que nos
leva a prosperar passando por cima dos outros e que está de acordo com a
sociedade competitiva que nos rodeia... ou a vida feita de trabalho honesto que
poucos seguem porque não rende muito, mas que está de acordo com a nossa
consciência e com a vontade de Deus?
A quem queremos
servir? Ao deus do poder e da exclusão social ou ao Deus da inclusão e da
fraternidade? Se quisermos ter uma orientação de vida que valha a pena, não há
meio-termo. É preciso decidir pelo Deus da vida.
2ª
leitura: Efésios 5, 21 - 32
Nesta segunda
leitura, Paulo se refere aos deveres familiares, tendo como base a visão
judaica da moral familiar na qual fora educado. No entanto, parte de um
principio geral que se aplica às relações de todos os membros da família por
igual (“Sejam submissos uns aos outros no temor a Cristo”). Ela constitui a
atitude básica entre cristãos que tem um único Senhor.
A afirmação de São
Paulo (“Mulheres, sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”) não pode
interpretar-se, sem mais, como se a mulher devesse estar submetida ao marido
por ser inferior a ele. Ao dizer São Paulo: “como ao Senhor” está tomando como
referência nada menos que a relação que existe entre Cristo e a Igreja.
Seguindo este modelo, a “submissão” da mulher deve entender-se não como uma
atitude de “servidão”, mas como uma resposta amorosa ao marido que, no fundo, é
a atitude básica de submissão respeitosa entre cristãos (“submissos uns aos
outros no temor a Cristo”) como diz no início da leitura.
Em contrapartida
Paulo lembra aos maridos o tipo de resposta que devem dar à submissão
amorosa de suas mulheres (“Maridos, amem suas mulheres, como Cristo amou a
Igreja e se entregou por ela”), colocando como modelo um amor tão exigente como
o amor de Cristo que o levou a entregar a própria vida por nós. Desta forma,
ele usa a linguagem cultural própria de sua época, mas está a transmitir um
conceito novo de amor conjugal, corresponsável entre marido e mulher. Ë isto
que faz do amor humano conjugal um verdadeiro sinal “sacramental” do amor de
Cristo pela sua Igreja, onde radica a santidade do matrimônio.
Evangelho:
João 6,60-69
Diante deste texto
do Evangelho, é interessante voltarmos a vista atrás e lembrar o entusiasmo que
a multiplicação dos pães despertou naquele povo, que até quis fazer de Jesus um
rei. Tudo o que veio depois foi um processo de esclarecimento para que pudesse
perceber o verdadeiro sentido do milagre que tinha acontecido.
À medida que Jesus
ia explicando, as pessoas iam recuando por medo a assumir um compromisso de fé
(«Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?»). Os que
buscavam Jesus porque pensavam que Ele satisfazia seus interesses iam se
decepcionando e descobrindo que Ele não era o Messias que esperavam, do tipo
“salvador da pátria”. Finalmente, optaram pela ruptura e o abandonam (“muitos
discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus”).
O Senhor percebe que
os discípulos estão assustados e confusos por Ele estar ficando sozinho, mas,
em lugar de “maneirar” e moderar a linguagem, faz questão de reafirmar tudo com
mais força ainda («Vocês também querem ir embora?»).
Pedro está perdido.
Não está conseguindo entender..., mas, num ato de confiança e súplica, assume o
papel de porta-voz dos discípulos e exclama: “A quem iremos, Senhor? Tu tens
palavras de vida eterna” (são as palavras que estão em nossa boca, também!),
“Agora nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (é a fé que,
também, está em nosso coração!).
A questão não é
“onde iremos”… mas “a quem iremos”. As palavras de Jesus dão vida e são vida.
Quem fez a experiência pessoal do encontro com Cristo não compreende mais a sua
vida sem Deus. Mesmo que a fé não tenha a resposta para tudo, sentimo-nos
identificados com a resposta de Pedro. Só Jesus nos enche de uma certeza maior
que a nossas dúvidas e a nossa fraqueza.
Pedro, como sempre,
fala pelos discípulos. Fala por todos nós!
Palavra
de Deus na vida
Jesus é assim. Ele
não força ninguém, mas também não dá moleza: “Quer, quer... não quer, fica”. É
ilusão pensar que seja possível “ficar em cima do muro” com Ele. Assim como deu
a vida por nós, também exige tudo de nós. Mais ou menos como aquela frase no
pára-choque de caminhão: “Coração dividido, dispenso a minha parte” ou aquela
outra do Evangelho de Mateus 12, 30: “Quem não está comigo, está contra mim”.
Foi o que Ele disse.
Muitas vezes
podemos ser tentados a pensar: “Esse modo de falar é duro demais!”.
Mas não adianta. Nós que tivemos a sorte de conhecê-lo, somos obrigados a
admitir que ninguém tem “palavras de vida eterna”, como Ele. Por isso, quem
quiser segui-lo deve fazê-lo livre e conscientemente, por estar convencido
d'Ele ser o verdadeiro Caminho que leva ao Pai.
Crer em Jesus pode
parecer simples, mas não é fácil; porque existem outros caminhos muito
tentadores por aí. Sabemos disso. Mas sabemos também, como discípulos de
Cristo, que não há ninguém como Ele e, mesmo que para segui-lo tenhamos que ir
contra a correnteza, o faremos conscientemente apesar dos contra-valores do
ter, do poder e do prazer que dominam em nossa sociedade.
A fé, porém, não é
um conceito racional que possamos adquirir por nossa conta (“Ninguém pode vir a
mim, se isso não lhe é concedido pelo Pai”). É uma atitude que nos introduz no
Plano de Deus e, por isso, só conheceremos Jesus se nos deixarmos atrair pelo
Pai.
Pensando
bem...
+ A pergunta direta
e provocadora de Jesus deve ter ficado em nossa mente («Vocês também querem ir
embora?»). Temos que pensar na resposta. Uma resposta livre e pessoal que é uma
escolha, isto é, a opção entre permanecer na segurança de uma vida medíocre ou
lançar-se no seguimento de Alguém que nos sustenta e nos faz ver a vida desde
outra perspectiva, com outra sensibilidade e outra confiança…
padre Ciriaco
Madrigal
"Agora
nós cremos e sabemos que tu és o santo de Deus"
Domingo da profissão
de fé de Pedro. Neste domingo celebramos o mistério pascal pelo qual Deus
revelou em Jesus Cristo, até as últimas conseqüências, sua opção pela
humanidade, vencendo, pela cruz, todos os limites que impedem a vida humana de
ser também divina.
Damos graças por
essa opção definitiva de Deus por nós e nos abrimos à interpelação que Cristo
nos faz, pela Palavra e pela Eucaristia, a uma adesão decisiva a Ele, o único
que tem para nós "palavras de vida eterna" e por deu sua vida. Ele
nos encoraja a abandonar os ídolos de hoje, pelos quais facilmente nos
entregamos e que, em resposta, nos levam à destruição e à morte.
Essa escolha é dom
de Deus, mas ainda livre resposta da pessoa a quem o Pai quer livre e feliz.
"Inclina,
Senhor, o teu ouvido e escuta-me. Salva meu Deus, o servo que confia em ti. Tem
compaixão de mim, clamo por ti o dia inteiro" (Salmo 6,1-3).
Primeira
leitura: Josué 24,1-2a.15-17.18b
A leitura deste
domingo, se compõe de alguns elementos narrativos e de uma parte do diálogo
entre Josué e o povo.
A leitura narra a
reunião das tribos de Israel em Siquém. É a chamada assembléia de Siquém. O
pano de fundo de Josué 24 parece ser um século com uma situação politicamente
muito instável e com uma constante repressão da fé em Deus. Isto nos leva a
cogitar no tempo entre 701-609 antes de Cristo. Este período foi inicialmente
marcado pelo rei de Judá Manasses (696-641 antes de Cristo). Este rei
manifestou de tal maneira a sua submissão e lealdade ao rei pagão dos assírios,
para se conservar no trono de Judá, que transformou o Templo de Deus em
Jerusalém, em um santuário dos deuses assírios. Por causa desta sua atitude errada
no campo político-religioso, a qualquer preço, ele foi chamado pela fonte
deuteronomista de o apóstata por excelência, isto é, traidor da fé.
Este oposto que
Josué fala entre o Deus verdadeiro e os deuses pagãos tem suas razões bem
obvias porque o povo israelita, convocado para Siquém e colocado diante de
Deus, já há muito tempo não tem mais só experiências com Deus, mas também com
outros deuses pagãos.
O discurso de Josué
enumera as maldições e os castigos que sancionarão toda infração à Aliança (vs.
19-24; cf. Deuteronômio 27), enfim, a citação do rito da Aliança e a da redação
do contrato sobre um monumento (vs. 25-28). Este fundo primitivo sem dúvida inspirou
a redação do relato da Aliança do Sinai no Êxodo; e o código cuja promulgação
no Sinai este livro fixa, teria sido, na realidade, promulgado na assembléia de
Siquém. Com efeito, Siquém foi, durante algum tempo, o, lugar privilegiado da
lembrança da Aliança com Deus.
Mas o sinal pelo
qual as tribos aceitam realmente as condições da Aliança será o abandono dos
falsos ídolos: portanto, toda a Aliança supõe uma conversão, e esta se refere
ao abandono dos antigos deuses da Mesopotâmia, adorados pelos antepassados de
Abraão, e dos deuses cananeus conhecidos pelas tribos que ficaram na Palestina.
A finalidade da
Aliança entre as tribos não é, antes de tudo, política, mas religiosa: o
serviço de Deus (vs. 14-15). Trata-se, sem dúvida, da organização do culto do
Senhor sob a forma de clãs: doze tribos se organizavam por turnos, cada um
durante um mês, o "serviço" de um templo comum (talvez o lugar alto
de Siquém).
O relato da
assembléia de Siquém esclarece de modo interessante o conteúdo da Aliança. O
conteúdo dessa Aliança não é de inicio o fato de um Deus que reconhece um povo
ou o fato de um povo já constituído que reconhece seu Deus; ela é, antes de
tudo, a constituição de um povo em torno de uma fé comum e de um culto comum.
Em outros termos, Israel nasceu política e culturalmente no momento em que,
política e cultura, unidos, reconhecia seu Deus. Nacionalidade e religião, são
inseparáveis: é enquanto povo que os hebreus são "eleitos" e é um
comportamento coletivo que conduz a Aliança religiosa.
A Aliança não é
apenas um tipo de relação entre Deus e pessoas individuais: ela é, mais
exatamente, a solidariedade que pessoas constatam entre si, porque servem o
mesmo Deus. O serviço de Deus pode ampliar-se de novas dimensões, desde Jesus
Cristo; mas a Aliança é sempre uma maneira de viver juntos, porque Deus vive
conosco. Essa concepção questiona muito a cultura e o individualismo de hoje e
essa maneira intimista de se dirigir a Deus esquecendo o comunitário e o
social.
Esta leitura põe o
povo diante de uma escolha fundamental. Josué organiza a assembléia de Siquém,
como a reunião constitutiva do povo. É o ponto de partida de um movimento novo
que tem raiz no êxodo. O povo deve aceitar sua nova identidade teológica,
social, cultural e antropológica.
As palavras "nos
tirou, a nós e a nossos pais..." tantas vezes repetidas, se referem ao
povo reunido em Siquém que não saiu do Egito e, em sua maioria, não passou pelo
deserto. Mas todos estávamos lá, na casa da escravidão, e todos fomos libertos.
É a fé em Deus aliado dos pobres, e não o sangue que os une nessa Aliança
tribal.
Josué interpela o
povo sobre a qual Deus quer servir, e o povo renova liturgicamente o
compromisso de fé. O tema central da assembléia de Siquém é fazer opção
consciente a quem desejam servir. É preciso identificar o Deus do êxodo com
aquele que vê a opressão do povo, que ouve o grito de dor e conhece seus
sofrimentos; que está decidido a descer para libertá-lo do poder dos opressores
(Êxodo 3,7-8). É o Deus de seus pais, o Deus da história. Precisa-se também
reconhecer os deuses "estranhos", imagens corrompidas de Deus, que
geram escravidão e morte.
As tribos de Israel
fazem um pacto de amor com este Deus dos pobres. Tal Aliança exige
decisão/adesão, como Jesus exigiu e exige de seus(suas) seguidores(as).
Salmo
responsorial 33/34,2-3.16-23
É um Salmo
sapiencial, mas a ordem das estrofes está no sentido de ação de graças
individual (vs. de 2-11) e instrução no estilo de Provérbios, sobre o destino
dos justos e dos ímpios (vs. 12-23). O Salmo de hoje constitui uma ação de
graças pela presença e ação libertadora de Deus em nossa vida.
O rosto de Deus
neste Salmo é muito interessante. O Salmo faz uma longa profissão de fé no Deus
da Aliança, aquele que ouve o clamor, toma partido do pobre injustiçado e o
liberta. Deixemos que o próprio Salmo mostre o rosto de Deus. É uma imagem
forte, que mostra o Deus aliado como guerreiro que luta em defesa de seu
parceiro na Aliança. Cuida dos justos (v. 16), ouve atentamente seus clamores
(v. 16), enfrenta os malfeitores e apaga da terra a lembrança deles (versículo
17), escuta os gritos dos justos e os liberta dos apertos (v. 18), está perto
dos corações feridos e salva os que estão desanimados (v. 19), liberta o justo
de todas as desgraças (v. 20), protegendo-lhe os ossos (v. 21); põe-se contra
os injustos e os condena (v. 22), resgatando a vida dos seus servos, ou seja,
os justos que o temem (v. 23).
Este Salmo encontra
em Jesus um sentido novo e insuperável. O próprio nome Dele resume tudo o que
fez em favor dos pobres que clamam (Jesus significa "Javé salva"). A
missão de Jesus é levar é levar a boa notícia aos pobres (Lucas 4,18). Maria de
Nazaré ocupa o lugar social dos empobrecidos e, no seu hino, retoma o versículo
11 do Salmo: "Os ricos empobrecem e passam fome" (comparem com Lucas
1,53). Os pobres agradecem a salvação que Jesus lhes trouxe. É, por exemplo, o
caso de Maria, que unge os pés de Jesus com perfume (João 12,3), como sinal de
agradecimento por ter devolvido a vida ao irmão Lázaro.
Resume, assim, tudo o
que Jesus fez em favor dos pobres, perseguidos e injustiçados que clamam. Ele
acampou ao redor dos que o temem. Com o salmista, Pedro pode testemunhar:
"Provai e vede, quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu
refúgio."
Que, pela oração deste
salmo, o Senhor nos renove na alegria de participar do seu projeto e nos dê
inspiração e força para colaborarmos efetivamente nas lutas de libertação do
povo de Deus.
Segunda
leitura: Efésios 5,21-32
Na leitura de hoje
antes de ser um privilégio trata-se de uma responsabilidade dada ao homem,
imitar o Cristo, e não uma justificativa para qualquer espécie de despotismo.
A carta manifesta
claramente a altíssima concepção do matrimonio cristão já esboçado em 1
Coríntios 7,1-9, tomando por modelo a relação Cristo-Igreja.
Na comparação entre
a realidade de Cristo e a dos homens, porém, percebe-se imediatamente uma
diferença marcante: Cristo, cabeça, é a salvação da Igreja, seu Corpo. O marido
que ama sua esposa a ponto de dar a sua vida por ela, de algum modo "a
salva".
Cristo é cabeça da
Igreja enquanto é seu chefe e a salva, isto é, a ama como o seu próprio corpo,
entregando-se por ela; por isso a Igreja necessariamente lhe é submissa.
Pode-se então concluir que se o marido preenche esses requisitos, necessariamente
a mulher encontrará sentido em lhe ser submissa em tudo, quer dizer, sem
caprichos ou abusos. Precisamos entender que o apóstolo Paulo viveu numa época
em que todas as mediações no lar passavam pelo homem. E até na nossa cultura
ocidental até uns quarenta anos atrás também era assim. Hoje não é mais assim,
o homem não é mais o provedor do lar.
Por um momento Paulo
volta à situação anterior à fundação da Igreja-comunidade. O anúncio da Palavra
e o batismo constituem a comunidade, transformam um grupo de pessoas em Igreja,
fazem com que desapareçam "manchas, rugas e coisas semelhantes",
características do homem velho, e nasce uma comunidade "santa e
irrepreensível". Cristo amou as pessoas e deu a elas a condição de
constituírem na Igreja o seu Corpo e de serem a Igreja, sua esposa. O batismo e
a Palavra purificam as pessoas (cf. João 15,3; 13,3; 13,6.11) e são uma
explicitação do que seja o amor de Cristo pela Igreja. Essa mesma imagem
encontra-se no profeta Ezequiel (16,9), referindo-se a Israel que pelo banho se
prepara para a Aliança, como também entre os orientais se preparava a noiva,
através de banhos rituais, para o casamento.
Se o apóstolo Paulo
passa da imagem das núpcias de Deus e de Israel à das núpcias de Cristo e da
Igreja, é para ressaltar que é em Cristo que o amor unificante de Deus pela
humanidade atingiu sua plenitude, plenitude decisiva para a história da
humanidade.
Podemos ver então no
matrimonio cristão o reflexo da misteriosa união de Deus com a humanidade, e o
casal cristão verá na relação Cristo-Igreja o modelo de sua vida.
Podemos ver na carta
aos Efésios, a forte influência cultural que estabelece a desigualdade entre
homem e mulher. Iluminados pela Aliança que Deus faz com a humanidade, a qual
encontra a sua plenitude em Jesus Cristo, reconheçamos ai uma interpretação
sexista para o nosso tempo. "O texto parece bem distante daquela igualdade
entre marido e mulher já apresentada em 1 Coríntios 7,3-5.10-17 e Marcos
10,11-12".
O versículo 21, que
fala: "Vocês que temem a Cristo, sejam solícitos (submetam-se) uns para
com os outros", deve orientar os versículos 22-24. Não se pode tirá-los do
contexto. Seria uma afronta às mulheres e uma distorção do propósito do autor
que, nesta carta, desenvolve uma teologia da Igreja: Deus revelou todo o
mistério de sua vontade de unir em Cristo todas as coisas.
Evangelho:
João 6,60-69
No Evangelho de
hoje, Jesus pergunta aos discípulos, num momento de crise, se eles também
querem abandoná-lo. É a hora da decisão, em que cada um tem de fazer sua opção,
dar sua resposta que terá conseqüências.
"Dura é esta
palavra" (v. 60). Considerando-se o contexto imediato, parece que a
dificuldade da palavra de Jesus se refere ao dar seu corpo e sangue em comida e
bebida (v. 52-58). Para a multidão de coração duro era difícil aceitar que
Jesus vem do céu. Mais difícil ainda, responde o próprio Jesus, será admitir
que Ele volta para o céu (v. 62). É principalmente o volta de Jesus para o céu,
isto é, a fé na ressurreição de Jesus Cristo, que afasta os candidatos, ou,
como ilustra o texto, instaura uma divisão entre os que crêem e os que não
crêem.
A resposta que Jesus
dá a eles não é uma objeção ao que eles pensam porque não resolve o
"escândalo" que eles enfrentam (v. 61). Antes, determina melhor o
momento que é a "exaltação de Jesus" (cf. João 3,14-16; 12,32s; 17,1
ss.) que representa o contrário da fé. Ma é também a partir dessa exaltação,
que a fé se torna possível (pelo dom do Espírito Santo, cf. 7,39 e 6,63!). Mais
ainda ela é o conteúdo fundamental da fé.
Humanamente falando,
não é possível reconhecer em Jesus de Nazaré um enviado de Deus. Só é possível
à luz da sua ressurreição e exaltação por Deus que reconhecemos Jesus como
enviado de Deus e suas palavras se tornam realidade divina para nós,
"espírito e vida" (v. 63). Isto é muito sério: Jesus não é mensageiro
de Deus por causa daquilo que humanamente podemos apreciar nele (por exemplo,
sua inteligência, sua visão da sociedade), mas por aquilo que é revelado em sua
exaltação. Ora, a "exaltação" de Jesus, segundo João, realiza-se,
antes de tudo, na cruz (João 12,32s). É no mistério da cruz que Jesus se torna
compreensível... Quem não O compreender naquele momento, nunca O compreenderá!
Nesse sentido, o versículo 63 provoca uma decisão a favor ou contra, e é nos mesmos
termos que Pedro dará a resposta favorável no versículo 67. Portanto, depois do
ensinamento de Cristo, a "exaltação" não forma tanto um novo
"escândalo", mas mostra a sua verdadeira doação de vida que prova
esse escândalo. O escândalo de Jesus é que o Revelador do Pai é aquele que é
elevado na cruz e assim, e só assim, também na glória. Sem a elevação na cruz
não acontece a entrada na glória.
"Tu tens
palavras de vida eterna" (v. 67). Na decisão, Pedro confirma o que foi
provocado por Jesus no versículo 63. Pedro reconhece que só o Espírito
vivifica, e que esse mesmo Espírito se encontra na Palavra de Jesus. Na
situação de desafio é que a pessoa toma a sua decisão de fé, e é nesta decisão
que Cristo e sua Palavra se tornam revelação para todos nós. Pedro chama Jesus
o Santo de Deus (v. 69). Diferentemente de Mateus, Marcos e Lucas, João evita
dar a Jesus um título tecnicamente messiânico. Na profissão de fé de Pedro, nos
outros três evangelhos, Jesus é confessado como Cristo, ou seja, Messias. João
evita esse título aqui, para excluir qualquer categoria "carnal".
Pois os judeus pensavam o Messias em termos bastante "carnais" que
seria um messianismo terrestre, nacional etc. Para eles o Messias viria para
resgatar a dinastia de Davi e libertar Israel do domínio do Império Romano.
É decisão/adesão que
caracteriza o verdadeiro discípulo. Os judeus esperavam um Messias triunfal.
Não poderiam aceitar um Messias humilde, crucificado, alheio aos sonhos
teocráticos deles. Mais difícil ainda era aceitar que a manifestação da glória
de Deus se daria na fragilidade da Encarnação e no escândalo da cruz.
Jesus diz aos
discípulos que, se eles estavam se escandalizando antes da sua paixão e morte,
o que diriam quando o vissem subir ao Gólgota, isto é, no Calvário? Antes de
elevar-se para a glória de Deus, ele assumiria uma cruz, numa oferta total de
sua vida. Sua "subida" é o gesto supremo de serviço à humanidade que
precisa de cura, de redenção, de alegria. Muitos entenderam, outros não, e por
isso deixaram de segui-lo, porque sua resposta foi tornando-se muito exigente,
humanamente inaceitável.
Função
na liturgia do dia
A liturgia desse
domingo composta de partes de diferente natureza. A segunda leitura durante o
tempo comum não participa da temática comum do Evangelho e nem da primeira,
isto é, não tem ligação com as outras leituras. Na primeira leitura é exigida a
decisão dos israelitas a favor ou contra o Senhor numa resposta. Esta decisão
tem razões humanamente digna de aplauso: o Senhor é quem libertou Israel do Egito.
A escolha a favor ou contra Jesus, sugerida por João no Evangelho, não tem tais
razões humanamente interessantes. Trata-se de entregar-se a um modo de existir
que não é nosso. Jesus não fornece argumentos: a fé é a fé. Trata-se de aceitar
essa vida de Jesus como sendo sua volta à existência na glória "antes da
fundação do mundo" (João 17,1 ss.), e de tirar ai a lição: este é o rumo
da "vida eterna".
Da
Palavra celebrada ao cotidiano da vida
A fé cristã exige
decisão e adesão sem reservas a Jesus Cristo cujas palavras prometem e
comunicam a vida eterna. Jesus é de maneira definitiva o enviado que o Pai
consagrou, isto é, Ele é a revelação definitiva. Portanto, não devemos esperar
uma nova revelação, como anunciam certos grupos por ai. A escolha para segui-lo
não suprime a liberdade e não impede a possibilidade de traição. Seguir Jesus
impõe condições que nem todos aceitam.
Servir o Senhor da
vida é penoso e exigente, e podemos resistir à tentação de "ir
embora" e largar o seguimento como fizeram e fazem muitos discípulos até
hoje.
Hoje existem formas
discretas de nos retirar da caminhada sem dar muito na vista: ficar na
comunidade sem assumir ou sem se importar com o projeto de Jesus, vivendo uma
religião como rotina, e individualista, para ter a consciência em paz; escolher
trechos mais convenientes do Evangelho, escolher orações e cantos de linha
individualista sem compromisso coma comunidade e com o social e fingir não ver
as exigências cristãs da caridade, da justiça e da ação transformadora da sociedade;
inventar um "meu Jesus" ao gosto de cada um, que nos incomode pouco,
ou nada, e faça sempre a "nossa vontade". Esquecemos que na oração do
Pai Nosso rezamos: "seja feita a vossa vontade assim na terra como
céu". E, no entanto, muitas vezes, prevalece a "nossa vontade".
Lendo e meditando
com atenção esse Evangelho, descobrimos que o discipulado se baseia numa
exigência fundamental de Jesus: a adesão à sua pessoa. Cristo não se impõe.
Toda pessoa é livre para aderir ou rejeitar o seu projeto. De fato, muitos se
afastaram diante da exigência da fé. Mas os que perceberam o sentido e a
profundidade da Palavra de Jesus fizeram uma entrega total: "A quem
iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna."
Chegando a este
ponto do relato de João sobre o pão da vida, entendemos que Jesus não abre mão
de sua opção de vida, e isto gera uma profunda crise entre os seus discípulos.
Muitos de afastaram diante da exigência da fé. Jesus prefere perder os
discípulos que renunciar à missão que o Pai lhe confiou. Ele não aceita ser um
Messias segundo a carne, isto é, alguém que impõe o seu governo. Também não
aceita ser um Messias que satisfaça os caprichos de um povo que não aceita
exigência nenhuma.
Servir ao Senhor da
vida torna-se duro e exigente. São muitas as tentações e hostilidades. Nos
deparamos, muitas vezes, com as nossas próprias impossibilidades: queremos o
caminho do Espírito, mas somos atraídos pela vontade da acomodação, a vontade
de ir embora.
Não é fácil
permanecer fiel. É o grupo de trabalho, é a comunidade cristã, é a família, são
os amigos. São tantas as dificuldades. Principalmente dificuldade nos
relacionamentos. Às vezes temos dificuldade de conviver até com as pessoas mais
íntimas com quem vivemos uma relação de amizade. É difícil aceitar as
contradições dos outros e, pior ainda, assumir as nossas próprias contradições.
Nesta celebração,
peçamos que o Senhor nos ensine a não fugir do conflito e que jamais percamos o
encanto pela vida, apesar de todas as dificuldades que possamos encontrar em
nosso caminho. Que a nossa resposta a Jesus seja como a de Pedro: "A quem
iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna".
Será que é possível
se dizer cristão, freqüentar a igreja, sem de fato ter tomado uma decisão
verdadeira de seguimento de Jesus e de seu projeto?
A
Palavra se faz celebração
Os discípulos, ao
aderirem, conscientemente, ao Cristo, abrem para todos os seguidores uma nova
possibilidade: passar da condição de "meros seguidores" à de membros
do corpo de Cristo Vivo.
É em vista disso que
Paulo relê o relato do Gênesis sobre o casal humano, em um contexto
eucarístico-eclesial. Em Gênesis temos a união do casal que forma "uma só
carne". Em Efésios, a união de todos os membros num só corpo: o corpo de
Cristo.
A constituição
pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, recorda-nos que a Igreja permanece no
mundo como sinal do Reino definitivo, contribuindo para o seu aperfeiçoamento,
a fim de preparar "novos céus e nova terra", conforme o projeto
divino.
É como Igreja corpo
de Cristo vivo, que devemos optar sempre PPR Cristo e seu Reino. Essa opção é
exigente e muitas vezes incompreensível, mas deve ser uma decisão firme. Em
Cristo temos, apenas, as palavras; mas nessas palavras e em sua configuração, a
garantia da vida eterna. Viver da vida do Cristo é o galardão de uma adesão
firme e fiel ao Cristo que veio para nos salvar, para nos reconciliar com nosso
Criador e Pai.
Ligando
a palavra com a ação eucarística
Na celebração nos
abrimos ao convite que o Senhor nos faz pela Palavra a uma opção decisiva por
ele, superando os estímulos da "carne" para viver no Espírito.
Professamos nossa fé inspirada na afirmação de Pedro: "A quem iremos,
Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos e firmemente e reconhecemos
que tu és o Santo de Deus.
Na liturgia da
Palavra, ouvimos o Senhor, dialogamos com Ele, refletimos sobre as suas
propostas, constatamos, claramente, como os discípulos, muitas exigências,
duros desafios que precisamos enfrentar com convicção.
Suplicamos que Ele
nos ensine a não fugir dos conflitos e a não perdermos a alegria de viver,
apesar das dificuldades encontradas em nosso caminho.
Na liturgia
eucarística, agradecemos ao Pai, que, em Jesus, fez uma opção amorosa e
comprometedora pela humanidade. Ao celebrar o "mistério da fé" somos
provocados a superar as aparências e olhar como os olhos da fé o mistério de
nossa vida e da vida dos irmãos e irmãs.
padre Benedito
Mazeti
"A quem iremos?"
No
colégio onde estudei, nas aulas de Educação Física, vez em quando o professor
nos exercitava com a prática de futebol, inclusive ele próprio atuava em uma
das equipes. Não era um "racha" qualquer daqueles que jogávamos nos
finais de semana, mas o professor, ao escolher a sua equipe, não considerava
muito a habilidade do atleta, mas sim a sua disposição física, o seu esforço
pela equipe, ele era rígido na disciplina, exigia o máximo de cada um, nas
disputas de bola, na marcação, na estratégia do ataque, no seu time ninguém "empurrava
com a barriga" ou fazia corpo mole. Nesses coletivos, a equipe
disciplinada do "Sêo Armandão", via de regra superava o time
adversário, onde às vezes atuavam os "craques" da escola, pois
apregoava sempre, que um time vencedor deve saber aliar habilidade, disciplina
e uma boa técnica, capaz de mudar a estratégia quando necessário. Os alunos do
colégio o chamavam de "Marechal", ele era por aquele tempo um Felipe
Scolari, e em competições escolares abertas, sua equipe conquistou muitos
troféus. Interessante que os que se achavam "craques", não gostavam
muito dessa "linha dura" do Professor.
Lembrei-me
do "Sêo Armandão", quando refleti esse evangelho onde alguns
discípulos de Jesus começaram a "afrouxar" diante das suas
exigências, querendo fazer "corpo mole" e "empurrar com a
barriga" os seus ensinamentos e a Verdade por ele pregada. Também hoje,
nós cristãos, muitas vezes queremos viver um cristianismo arraigado na carne,
sem encarar o desafio de vivê-lo em Espírito, e foi exatamente para isso que o
Verbo Divino se encarnou em nosso meio, para que fosse possível ao homem
carnal, viver no Espírito, sem ser um alienado. Praticar um cristianismo a
partir apenas da carne, isso é, das realidades meramente humanas, é a grande
tentação dos discípulos de hoje, onde muitos vivem uma religião de normas e
preceitos, achando que basta cumprir tudo o que a Santa Igreja ensina, e se
algo der errado, a culpa é da Igreja, poderíamos chamar a isso de
tradicionalismo, pois na verdade era esta a posição dos fariseus e Doutores da
Lei, que não aceitavam o advento da Salvação, presente na pessoa de Jesus de
Nazaré.
A
verdadeira prática do cristianismo nos traz sempre o desafio da ascese, que
significa fazer uma experiência profunda com Jesus na nossa vida, sem tirar os
pés do chão da nossa história, e essa experiência querigmática só é possível
quando nos abrimos ao Espírito do Senhor, presente em nossa fraqueza, e,
portanto, o que está no centro do ensinamento de João às suas comunidades, é
que nenhum recurso humano, científico, social, político ou até religioso, pode
nos levar a essa ascese, só se aproxima dessa Verdade absoluta chamada Jesus,
aqueles que o Pai atrair.
Em
João 6, 51 encontramos a afirmação que deu margem a discussão de Jesus com os
Judeus "Eu sou o pão vivo descido do céu,. Quem comer desse pão viverá
eternamente.E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do
mundo".
No
evangelho desse domingo, a discussão acontece no próprio grupo de seguidores,
se entre os judeus, haviam aqueles que não acreditavam, era até compreensível,
entretanto a situação torna-se mais grave quando entre os próprios seguidores,
há discípulos que não têm fé, pois acham que ninguém consegue escutar a
palavra, que é dura demais.
Dentro
da Igreja há muitas maneiras, e todas elas válidas, de se fazer essa
experiência com Jesus, entretanto, é preciso muito cautela para não se criar um
cristianismo mais light, menos intransigente e radical, onde a gente possa
fazer parte da Igreja, mas sem ter que vestir e suar a camisa, o engajamento pastoral
ou a adesão a um Movimento ou Associação, pode sim gerar em nós a ilusão de que
aquela prática é suficiente, e dependendo do modelo eclesiológico, ficaremos
ancorados apenas na carne, nos recusando a "levantar vôo na ascese do
Espírito" ou então tiramos os pés do chão, ignorando a carne que sustenta
o Espírito, mergulhando na perigosa fé da magia. E quando se trata de coerência
naquilo que se crê, Jesus não é de ficar alisando o "ego" dos seus
seguidores, mas concede a liberdade da escolha "Vocês também querem ir
embora?". Pedro, falando em nome da comunidade, reconhece aquilo que os
judeus rejeitam, nenhuma proposta ou ideologia humana, pode conduzir o homem a
plena realização de si mesmo, só Jesus nos faz enxergar além dos horizontes
humanos, comer a sua carne significa a aceitação radical da comunhão com sua
pessoa, seu ensinamento e seu projeto de vida.
O
apóstolo Pedro aceita viver nessa ascese do homem espiritual, mesmo ainda
estando na realidade da carne, em outras palavras, aceita Jesus como Deus,
Senhor e Salvador, de maneira incondicional "A quem iremos Senhor?"
Tu tens palavras de Vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és
o Santo de Deus". Enfim, o cristianismo será sempre uma proposta que nos
obriga a fazer uma escolha e tomar uma decisão, a favor ou contra Jesus. Na
vida de Fé não dá para "empurrar com a barriga" e fazer "corpo
mole", pois corre-se o risco de perder o "jogo", que Cristo já
venceu, com a encarnação, paixão, morte e ressurreição.
diácono José da Cruz
1
– «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e
sabemos que Tu és o Santo de Deus».
Pedro
faz a sua profissão de fé em Jesus. Espontâneo como sempre, ainda que os
motivos não estejam amadurecidos. O discurso de Jesus – Pão da Vida, Pão
descido do Céu, que é a Sua carne entregue a favor de todos – gera, como
expectável, enorme contestação: «Como pode Ele dar-nos a Sua carne a
comer?»
Jesus
insiste: «Quem come deste Pão viverá eternamente». E a discussão
acentua-se.
Os
discípulos também fazem parte com a multidão. Têm dúvidas e perguntas a fazer.
Não compreendem como têm de comer a carne, o corpo de Jesus: «Estas palavras
são duras (ou são insuportáveis, na tradução dos Capuchinhos). Quem
pode escutá-las?».
A
murmuração, já antes presente, torna-se mais audível. Jesus devolve-lhes as
perguntas: «Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do homem subir para
onde estava anteriormente? O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que
não acreditam... Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe
for concedido por meu Pai».
O
evangelista dá nota que a partir de então muitos discípulos se afastaram e já
não andavam com Ele. Então Jesus testa a firmeza dos Doze: «Também vós
quereis ir embora?».
Podemos
encontrar um paralelismo noutro diálogo: «Quem dizem os homens que é o
Filho do Homem?» Dada a resposta – João Batista, Elias, ou um dos profetas
–, logo Jesus os encosta à parede: "E vós quem dizeis que Eu
sou?", exigindo-lhes uma clarificação para prosseguirem caminho.
Também aí Pedro garante a fé em Jesus, como o Messias de Deus (cf. Lc 9,
18-20).
2
– A liturgia da Palavra coloca-nos diante de um exercício de liberdade. Jesus
testa o seu núcleo duro: E vós? Quereis seguir outro caminho? Ou arriscais
seguir-Me, com tudo o que isso implica? Estais dispostos a dar a vida por Mim?
E pelos outros? E pelos vossos inimigos?
Não
há ameaças. Por vezes seria mais fácil: fazes assim ou Deus castiga-te! Ou
entras na linha ou vais ver o que que é bom para a tosse! Reprimendas às nossas
crianças: se não te portares bem, Jesus não gosta de ti!
Seguir
Jesus tem exigências. Não é para pessoas mornas, mas para pessoas decididas,
ainda que haja dúvidas, cansaços, hesitações, pecados. Seguir Jesus implica
renunciar a muitas coisas, renunciar a si mesmo, a todo o egoísmo,
libertando-se para que Cristo nos preencha com o Seu amor. E tomar a sua cruz
dia após dia.
Em
Cristo não há ameaças, condenações, diabolizações. Bem se pode dizer que Jesus
está envolvido trinitariamente (com o Pai e com o Espírito Santo). Nos dias que
transcorrem é fácil visualizar a diabolização: ou nós ou o caos. É tão duro
reconhecer que os outros têm qualidades! E pior, são bons em muitas coisas em
que não passamos de aselhas! E se não alinham pelas nossas ideias?! Não seria
melhor eliminá-los. É, aliás, uma tentação já presente no Evangelho quando os
discípulos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus Cristo e
proíbem-no porque não faz parte do grupo (cf. Mc 9, 38-41). Jesus dá aos
discípulos a possibilidade de seguirem um caminho que os conduza até à
eternidade. Mas sem chantagem ou jogos ardilosos.
Na
primeira leitura, Josué, o sucessor de Moisés, coloca ao povo uma
escolha: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis
servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os
deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o
Senhor».
Como
se pode ver, Josué faz uma proposta. Dá o exemplo. Ele seguirá o Senhor, Deus
de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus. E assim a sua família. Mas sem
pressões. O povo fica livre para decidir: «Longe de nós abandonar o Senhor
para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a
nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão. Também nós
queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».
3
– Só se pode decidir na liberdade. Se nos obrigam, então escolhem por nós. Deus
cria-nos por amor mas não nos salva sem nós, por maior que seja o Seu amor para
connosco. Um pouco como os pais, não podem decidir a vida inteira pelos filhos,
estes ficariam crianças para sempre. É preciso educá-los, dar-lhes as
ferramentas, ensinar-lhes o melhor da vida, a compaixão, a justiça, a
solidariedade, a capacidade de discernir e escolher o bem. Educá-los pressupõe
que se lhes proporciona cada vez mais autonomia para fazerem as próprias escolhas.
Deus
não nos trata como crianças, mas como filhos.
Se
somos obrigados a fazer alguma coisa, fazemo-la contrariados, tudo faremos para
fazer mal ou simplesmente não faremos. Se nos sentirmos livres e se temos
escolha, então tudo se torna mais simples. Faremos das fraquezas forças para
corresponder ao melhor de nós. Certamente todos já presenciamos a birra de
alguma criança que só não faz porque lhe mandam. Daí um conselho tradicional:
queres que o teu filho coma sopa, come tu também. É esse o exemplo de Josué.
Então
só fazemos o que nos apetece? O que nos dá na real gana? Claro que não.
Diz-nos
São Paulo: Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente (cf. 1Cor 6, 12).
Escolhemos
um caminho, um estilo de vida e depois agimos em conformidade. Queremos entrar
na universidade? Então esforçarmo-nos de tal que possamos ter médias para
conseguir entrar no curso pretendido. Queremos ser atores ou atrizes? Então
teremos que fazer por isso, entrar numa peça, em anúncios, em audições
(castings), frequentar um curso, fazer wokshop's...
Ninguém
nos pode obrigar a gostar desta ou daquela pessoa. Os outros não nos podem
obrigar, mas cada um de nós pode tentar compreender o outro, aceitar as suas
limitações, não valorizar muito as suas falhas... Mas tem que partir de nós!
4
– O Apóstolo Paulo, na carta aos Efésios, que temos vindo a ler, aponta Cristo
como fundamento da nossa fé e da nossa vivência quotidiana. A proposta de Jesus
interpela-nos a viver intensamente, procurando dar o melhor de nós mesmos e a
descobrir o melhor dos outros. Há dias menos fáceis, mas o desafio é constante:
amar sem cálculos nem medidas. Como diria a Madre Teresa, é fácil amar os que
estão distantes e cuidar dos estranhos, difícil mesmo é amar e cuidar dos que
estão perto, dos de nossa casa, e sobretudo ao longo do tempo, e em todos os
momentos. Chegar a casa, cansado ou aborrecido e ser capaz de sorrir, de ter
uma palavra de atenção e de carinho, não é fácil. Porém, é em casa que começo a
ser cristão.
O
apóstolo aponta situações e pessoas concretas. Desta feita dirige-se aos casais
cristãos: «Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo… As mulheres
submetam-se aos maridos como ao Senhor... Maridos, amai as vossas mulheres,
como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela. Quem ama a sua mulher ama-se a
si mesmo… Somos membros do seu Corpo… É grande este mistério, digo-o em relação
a Cristo e à Igreja».
Num
sentido mais lado, a mensagem é para todos, é para as comunidades crentes. A
linguagem da "submissão" pode ser dúbia e discriminatória, porém o
conteúdo é o mesmo para maridos e mulheres, para cada um de nós: amar, amar,
amar. Amar ao jeito de Jesus que dá a vida pela Igreja e fazer com que o outro
seja único para mim, como Cristo em relação à Igreja.
Sublime,
a propósito, a oração de coleta deste domingo: «Senhor Deus, que unis os
corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e
espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos
os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias».
SEGUNDA HOMILIA
1
– “Muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»... A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele”.
Continuamos
com o texto de são João, no qual Jesus se apresenta como o verdadeiro Pão da
Vida, o Pão de Deus. A afirmação de Jesus – o meu corpo é verdadeira comida, o
meu sangue é verdadeira bebida... quem não comer a minha carne e não beber o
meu sangue não terá a vida... – gera polêmica na população, nos judeus e nos
discípulos. Nesta parte final do capítulo 6, são os discípulos que se
interrogam, duvidam e dispersam.
Perante
a dispersão dos judeus e dos discípulos, Jesus questiona os Doze sobre as disposições:
«Também vós quereis ir embora?». Pedro, em nome dos outros Apóstolos, responde
inequivocamente: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».
A
dissidência dá lugar à firmeza, à convicção, ao seguimento consciente e livre.
O projeto de Jesus Cristo é um projeto de salvação, de vida nova, desafiando os
limites do tempo e do espaço, dando o melhor que cada um possui em favor de
todos, para que o que se dá se multiplique e atravesse o próprio Céu. É um
projeto arrojado e libertador. Jesus não quer que os seus discípulos, e
ninguém, viva no medo do passado ou sob o peso de leis castradoras e injustas,
mas que todos possam apreciar a vida como dom, transformando a dádiva recebida
em dádiva oferecida a favor dos outros.
2
– Jesus Cristo, Deus entre nós, é o Pão que nos dá ânimo (alma) para vivermos
confiantes, em momentos favoráveis como em ocasiões de tormenta, com alegria,
sabendo que, como a mãe/pai em relação aos filhos, Ele, em relação ao nós, é o
olhar que nos eleva, a mão que nos segura, é a companhia que nos fortalece, é a
vida nova que oxigena o nosso coração, por inteiro.
Não
Se impõe. Vive no tempo e na história. Habita a humanidade. Caminha nas nossas
buscas. Insere-Se nos nossos sonhos. Bebe e come conosco. Sofre e diverte-se
com os nossos filhos e irmãos e pais. Chora e ri nas praças e nas vielas dos
nossos corações. Não se impõe. Tem a força e o poder que Lhe vêm do alto, de
Deus, mas faz-Se pobre, frágil, mendigo da nossa vontade, ajoelha-Se diante do
nosso olhar. Carrega na cruz todo o mundo, com todo o amor. Até ao fim. Para
sempre. Até à última gota de sangue. Até à eternidade. Até Deus. Junto de Deus,
conosco, pelo Espírito Santo, nos sacramentos e nos pobres deste tempo. À
direita de Deus Pai atrai-nos com a Sua bondade.
Não
se impõe. Testemunha. Vive. Exemplifica. Mostra como viver em qualidade. Dá-Se
por inteiro. Dá-nos o seu corpo, a sua vida. Precede-nos no peregrinar
temporal. Encaminha-nos para o coração do Pai.
“Quereis
ir embora?”
A
liberdade integra o plano salvador de Deus. Sem ameaças. Apela à decisão. A
proposta está feita, as cartas lançadas! Cabe a cada um, ainda que com a ajuda
generosa dos irmãos, decidir. É este o jeito de Deus, como os pais em relação
aos filhos seus. Quer o melhor para nós, como os nossos pais o querem. Mas
cabe-nos a nós viver a nossa vida, com as escolhas que fizermos.
“Josué
disse então a todo o povo: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a
quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do
rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família
serviremos o Senhor». Mas o povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor
para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a
nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão”.
3
– Quando uma criança descobre que não pode ter dois brinquedos, opta pelo que
lhe parece melhor. O buscador de pérolas, ou de pedras preciosas, nas parábolas
de Jesus sobre o Reino de Deus, quando encontra a mais bela pérola, ou a pedra
mais preciosa, deixa/vende tudo o que tem de valioso para ficar com a que é
mais preciosa e bela.
As
escolhas podem exigir renúncia. Não podemos ter todos os brinquedos. Há
escolhas que devem fazer-nos sentir preenchidos, a transbordar de paz e de
júbilo. Se escolho este marido, esta esposa, se escolho este caminho, não fico
a chorar pelo que deixo, ou será que não encontrei o amor maior, a melhor das
pérolas?! Quando escolho Jesus Cristo, escolho a vida, a verdade, escolho ser
livre e, em consequência, escolho não ficar refém do tempo e da finitude e
abrir-me ao futuro, à graça de Deus, a uma vida sem fim, com o fim na
eternidade de Deus.
Quando
crescemos, dá-mo-nos conta que aqueloutro brinquedo já não nos satisfaz, ou já
diz muito pouco. No plano da fé temos que dar o salto, como Pedro e os
Apóstolos, apostar em Deus, nada perderemos, ganharemos o essencial, a VIDA que
nos abre os horizontes de Deus. Quando lançamos as mãos ao arado para lavrar a
terra, olhamos para o campo que se estende à nossa frente, para a beleza do
campo depois de lavrado e semeado.
Faz
mais sentido acentuar o que temos, o caminho a percorrer, do que ficar a
moer-se com o que se deixou para trás ou arrependidos na incerteza do que o
tempo nos trará. Deus está à nossa frente, e ao nosso lado, e em nós.
Confiemos. Não nos deixemos levar pela multidão ou pelos muitos discípulos que
seguiram outro caminho ou se desviaram por atalhos. Vivamos. Neste concreto,
não importa tanto a maioria, mas saber que o caminho é verdade e vida para nós.
E na certeza que os outros continuarão a ser atraídos por Deus, ainda que por
meio da Sua luz em nós.
4
– Ele é o Pão vivo. A sua carne e o Seu sangue são alimento que nos salva. Se O
acolhemos como Pão de Deus, se Ele tem para nós palavras de vida eterna, se Ele
é o Santo de Deus, consideramo-nos como Corpo Seu. Comungamos o mesmo corpo,
constituímos um só Corpo de Cristo. Daí a certeza que a eucaristia, mistério
maior da nossa fé, nos implica e compromete com os outros. Recebemos para dar,
para partilhar, para entrar em comunhão.
Como
nos diz o papa Bento XVI, “o pão é para mim e também para o outro. Assim Cristo
une todos nós a Si mesmo e une-nos todos uns aos outros. Na comunhão recebemos
Cristo. Mas Cristo une-se de igual modo ao meu próximo: Cristo e o próximo são
inseparáveis na Eucaristia. E assim todos nós somos um só pão, um só corpo. Uma
eucaristia sem solidariedade com os outros é uma Eucaristia abusada... Na
eucaristia, Cristo entrega-nos o Seu corpo, doa-se a Si mesmo no Seu corpo e
assim faz-nos Seu corpo, une-nos ao Seu corpo ressuscitado”.
O
caminho da eucaristia é o caminho de Jesus, de Deus à terra, do nascimento à
cruz, da morte à vida nova de graça e ressurreição. É o caminho do amor. É uma
escolha que nos liberta, preenchendo os nossos vazios e anseios. Só na caridade
descobrimos a beleza e a grandeza de sermos gente, de sermos irmãos, de sermos
filhos de Deus.
A
este propósito vale a pena mastigar as palavras de são Paulo, exemplificado o
amor entre marido e mulher, expressão do Amor único de Cristo à Igreja e pela
humanidade, paradigma do amor que nos há de mobilizar uns para os outros e para
Deus: “Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de fato, odiou jamais
o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja;
porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe,
para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este mistério,
digo-o em relação a Cristo e à Igreja”.
padre Manuel Gonçalves
A
eucaristia, pacto de vida
1ª
leitura: Josué (24,1-18) Israel nas mãos de Deus
1. A primeira
leitura fala-nos do famoso pacto de Siquém, segundo o qual o sucessor de
Moisés, à frente do povo liberto da escravidão do Egito e já introduzido e dono
da terra prometida, convoca todas as tribos para fazer um pacto, uma aliança
com Iavé. Por quê? Quando os israelitas chegaram a Canaã, defrontaram-se com os
respectivos habitantes que têm os seus deuses, os seus santuários – o que vai
ter bastante influência nos intrusos. Ninguém muda da noite para o dia uma
cultura religiosa centrada na situação social e antropológica desse pequeno
território. Este pacto é, desde logo, apresentado na Bíblia como o protótipo da
unidade das tribos, em que cada uma das quais tinha os seus interesses sociais
e políticos; inclusive, o mais provável é que nem todas as tribos tivessem tido
a experiência da escravatura do Egito e da passagem pelo deserto.
2. Para a leitura
deste texto de Josué seria necessário considerar uma série de propostas sobre a
origem de "Israel" na terra prometida, que hoje são proporcionadas na
perspectiva da arqueologia e de uma explicação de sociologia religiosa.
Chegou-se a afirmar que a origem de Israel na Palestina é fruto de uma
"revolta camponesa" (cito os autores mais famosos: G. Mendenhall e N.
K. Gottwald) que foi transmitida à posteridade sob a forma de um pacto
religioso das tribos para dar coerência e unidade. Não quer isto dizer que se
devam descartar as teses tradicionais da Bíblia que admitem que um grupo de
escravos sai do Egipto sob a liderança de Moisés. Mas a forma como a Bíblia
narra as coisas não pode ser aceite sem ter em conta os dados da arqueologia,
da antropologia e da sociologia religiosa. A Bíblia escreveu a sua
"história" a partir de cima, do projeto de Deus e isso é importante.
Mas tal não significa que "Israel" seja um verdadeiro projeto divino
em todos os seus pormenores.
3. O autor desta
narrativa quer dizer que a unidade das tribos haveria de ser conseguida com um
pacto religioso, segundo o qual se comprometiam a servir Iavé e a abandonar os
deuses cananeus. Eis o que alguns chamaram a "anfictionía" (associação
de cidades gregas, com caráter religioso, sob o patrocínio de um deus), à
imagem do que se conhece da Grécia e da Itália, em torno de um santuário comum.
Este assunto não está esclarecido e hoje é, historicamente, menos interessante.
Para o autor deuteronomista o que importa é o repto constante da religião de
Israel, nunca conseguido, como combatem frequentemente os profetas e os
responsáveis pela ortodoxia religiosa de Israel e Judá. O texto de hoje é
próprio de uma escola teológico-catequética, chamada deuteronomista (porque se
inspira no livro de Deuteronômio) idealizando as origens e as fidelidades do
povo ao seu Deus. É, além disso, uma proposta de futuro: só Deus pode salvar o
seu povo em todas situações. Isto é assim?
Para um povo que se
construiu em torno de Iavé como identidade não é e nem ser nada estranho. Do
ponto de vista teológico e espiritual ter confiança (emunah) em Deus é
decisivo.
2
leitura: Epístola aos Efésios (5, 21-32)
A
família cristã vive no amor de entrega
1. A segunda leitura
é um dos textos mais expressivos e polémicos do Novo Testamento, já que o
simbolismo da cabeça e do corpo (Cristo e a Igreja), aplicado às relações homem
e mulher no casamento, deu muito que falar nestes tempos de reivindicações dos
direitos da mulher. Mas este texto não está escrito em termos
polémico-reivindicativos. Trata-se de fazer uma leitura da família
(tecnicamente é conhecido como "código familiar"), aplicando os
princípios de eclesiologia: a Igreja não é nada sem o seu Senhor, que deu a
vida por ela. Não é assim no casamento em que homem e mulher estão no
mesmo plano de igualdade, mas onde cada um desempenha o seu papel e a sua
missão. A submissão é de um perante o outro se é entendido de forma
positiva, já que no casamento não há submissão, mas entrega mútua.
2. Portanto, apesar
de tudo, tal como o protótipo desta forma de falar é o romance de Cristo com a
sua Igreja, assim deve ser entendido o casamento, na sua realidade
radical. É um romance de amor, de entrega, de generosidade, de dar a vida
um pelo outro, como Cristo e a Igreja. Este romance de amor faz todo o seu
sentido se o amor dos esposos toma como modelo o de Cristo à sua Igreja. Tal
quer dizer que o amor de que aqui se fala não é erótico, nem o da pura amizade,
nem sequer o amor "familiar" que é um amor específico. Os cristãos
vivem, podem, sem dúvida, viver todos estes amores e até precisam deles. Mas o
que dá sentido ao matrimónio "cristão" é o amor de entrega absoluta,
a exemplo de como Cristo Se entregou pela Igreja.
Evangelho:
João (6, 60-69) - Eucaristia e vida
1.O Evangelho do dia
é a última parte do capítulo sobre o pão da vida e a Eucaristia. Como momento
culminante e, perante as afirmações tão rotundas da teologia joânica sobre
Jesus e a Eucaristia, está aberta a polêmica face aos ouvintes que não aceitam
que Jesus possa dar a vida eterna. Fala-se, inclusive, de discípulos que,
escandalizados, abandonam Jesus. Devemos entender também que abandonam a
comunidade que defendia aquela forma de comunicação tão íntima da vida do
Senhor ressuscitado. Mas a Eucaristia é apenas uma antecipação, não é toda a
realidade do que nos espera na comunhão com a vida de Cristo. Por isso se
recorre à comparação do Filho do homem que há-de ser glorificado, como nós
havemos de ser ressuscitados.
2. Atualmente, o autor
ou os autores permitem-se uma contradição com as afirmações anteriores sobre a
"carne": o Espírito é o que dá vida, a carne não serve para
nada". Nunca puderam explicar bem estas palavras, em todo o contexto do
discurso de pão da vida, onde a identidade "carne" é o equivalente à
vida concreta que vivemos neste mundo. É a história do Filho do homem, de Jesus
neste mundo. Por que é que agora é suprimido do texto? Porque neste final do
discurso o horizonte está carregado de tons escatológicos, daquilo que aponta
para a vida depois da morte, para a ressurreição e a vida eterna. E a vida
eterna, a da ressurreição, não é como viver neste mundo e nesta história. Tem
de ser algo de novo e "recriado". Esta é uma afirmação muito na linha
de 1Cor. 15,50: "a carne e o sangue não podem herdar o Reino dos
céus."
3. Este é um dos
grandes valores da Eucaristia cristã e, neste caso, da teologia joânica. A
Eucaristia não se celebra apenas a partir da memória do passado: a morte de
Jesus na cruz. É também um sacramento escatológico que antecipa a vida que nos
espera depois da morte. É isto que é admirável da Eucaristia. Jesus pergunta,
pois, aos seus discípulos, aos que ficam com Ele, se estão dispostos a ir até
ao fim, a estarem sempre com Ele, mais para além desta vida. E dá-lhes,
inclusive, a oportunidade de poderem ir embora livremente. As palavras de
Pedro, que são uma confissão de fé em toda a regra, descobrem a verdadeira
resposta cristã. "Para onde iremos? Tu tens palavras de vida
eterna!". Tudo isto acontece na Eucaristia, quando se celebra como
"mimesis" real e verdadeira do que Jesus quer entregar aos seus,
razão por que é um pacto de vida eterna.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Assinar:
Postagens (Atom)