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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 4 de setembro de 2018

23º DOMINGO TEMPO COMUM ANO B


23º DOMINGO TEMPO COMUM
ANO B
9 DE SETEMBRO DE 2018

EVANGELHO - MC 7,31-37

-ESTAMOS SURDOS?-José Salviano

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·        Como  já fora anunciado pelo profeta, Jesus abre os ouvidos daquele homem e sua língua se soltou, e ele que era mudo, voltou a falar fluentemente.

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“ELE TEM FEITO BEM TODAS AS COISAS.”- Olivia Coutinho

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 09 de Setembro de 2018

Evangelho de Mc7,31-37
No mundo atual, são muitos, os que permanecem fechados no seu egoísmo, pessoas que não se abrem ao novo, que alicerçam  suas vidas sobre suas próprias verdades. Estes, são os portadores da pior de todas as surdezes: a surdez de quem não quer ouvir, pra não ter que tomar atitude.
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro, que só o amor constrói, que só o amor gera vida. Na sua trajetória terrena, Jesus fazia longas caminhadas ao encontro dos sofredores, todas as suas ações convergiam  para  o bem maior que é a vida!
Quem carrega no peito, os mesmos anseios de Jesus, sente necessidade de partilhar a vida, de se fazer caminho de libertação para os que se encontram aprisionados pelas as correntes da exclusão.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, vem nos falar de um Deus comprometido com a vida, um Deus que investiu alto no ser  humano, que aposta continuamente na renovação e na transformação do homem. Deus não desiste de nós, mesmo quando na nossa ingratidão, o rejeitamos.
A narrativa nos mostra que o amor de Deus,  manifestado nas ações misericordiosas de Jesus não tem fronteira, foi este amor que levou Jesus ao um território pagão, quebrando as muralhas do preconceito, reafirmando, que Ele não havia vindo somente para os judeus e sim, para todos os povos.
Antes de abrir os ouvidos de um surdo e de soltar sua língua, Jesus, num gesto de ligação com o Pai, olhou para o céu, suspirou e disse: “Efatá”,  que quer dizer: abre-te!
Na sua humanidade, Jesus  revelou a sua Divindade, nos convidando  a sermos mais humanos, presença Dele na vida dos excluídos.
Como filhos do céu, caminhando aqui na terra, devemos  ter um olhar voltado para os sofredores, os excluídos, irmãos nossos,  jogadas às margens do caminho.
O homem, curado por Jesus, vibrou de alegria diante as maravilhas que Deus realizou à seu favor, e mesmo tendo sido recomendado para não divulgar  o ocorrido, ele não consegue guardar tamanha alegria.
Livre da surdez, que o impedia de viver socialmente, aquele homem, agradecido, retoma a sua vida, a sua identidade!
Em sua missão, Jesus iniciou uma nova criação, hoje, Ele coloca em nossas mãos a responsabilidade de dar continuidade a essa missão libertadora: devolver a dignidade aos mutilados por esta sociedade excludente que tenta a todo custo abafar o grito dos excluídos. 
Vivemos numa cultura geradora de surdos e  mudos, pessoas impedidas de ouvir e de falar.
Como continuadores da presença de Jesus no mundo devemos quebrar as correntes da exclusão, sendo a voz dos excluídos a clamar  por justiça.
Não podemos esquecer, de que  no rosto do excluído está estampada a imagem desfigurada de Jesus, o que deixamos de fazer em  seu favor, é a Jesus que deixamos de fazer.
O amor cria e recria vida, abre caminhos, leva-nos ao encontro do outro! 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! Olivia Coutinho
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Fé em deus: amor aos pobres
A fé em Deus implica em amar prioritariamente as pessoas empobrecidas. É o tema central das leituras da liturgia deste segundo domingo do mês dedicado à Bíblia. Deus se revelou ao povo de Israel como libertador de todos os males que afligem a vida humana.
O profeta Isaías, inserido numa realidade de marginalização e sofrimento do povo, torna-se o anunciador da esperança militante, capaz de transformar a tristeza em alegria, a fraqueza em força, o medo em confiança (1ª leitura). Afinal, Deus jamais abandona o povo que sofre. Jesus, o Filho de Deus, solidariza-se com a dor das pessoas doentes e excluídas e oferece-lhe a cura e a libertação (Evangelho). Deixando-nos tocar pela sua graça, recuperamos a integridade do nosso ser. A carta de Tiago lembra que numa comunidade cristã não pode haver acepção de pessoas. Pelo contrário, deve-se acolher com todo carinho as que são pobres e sem fama (2ª leitura). Assim como Deus Pai revelou-se sempre próximo e atencioso com as pessoas sofredoras, e assim como Jesus assumiu a dores da humanidade, também nós, como filhos de Deus e irmãos de Jesus, somos instados a ser coerentes: a fé em Deus implica no amor prioritário às pessoas em situação de necessidade.
1ª leitura (Is. 35,4-7a): “Sede fortes, não temais!”
O movimento profético de Isaías I (cap. 1-39) situa-se pelo final do século VIII a.C. Internamente, o regime monárquico produziu frutos amargos para o povo de Israel. Onde deveria ser promovido o direito, o que apareceu foi a injustiça; onde deveria ser garantido o bem-estar do povo, o que se ouviu foram gritos de desespero (Is. 5,7). Além da opressão interna, o exército assírio, pelo ano 722 a.C., invadiu e destruiu o Reino do Norte com sua capital, a Samaria, deportando muita gente (cf. 2Rs. 17) e, em 701, tomou Jerusalém e as cidades da região sul, impondo altos impostos e mais opressão sobre o povo (cf. 2Rs. 18).
Isaías é testemunha desses acontecimentos e profetiza a partir do lugar social das vítimas do poder tanto interno como externo.
A profecia exerce uma função muito importante no meio das pessoas que sofrem a opressão política e econômica. Através das palavras proféticas, Deus manifesta seu amor e sua solidariedade com o povo. É um Deus sensível, um pastor cheio de ternura, o protetor das pessoas indefesas. Deus é o padrinho dos pobres, o redentor dos oprimidos, o resgatador da dignidade humana.
O texto é um anúncio de uma boa notícia que revigora os fracos e encoraja os desanimados.
Deus fala aos corações conturbados dizendo para serem fortes e não temerem. Os poderosos deste mundo podem oprimir, mas não podem impedir a intervenção amorosa de Deus em favor dos oprimidos. “Ele vem para salvar!”. Os cegos e os surdos recobrarão a capacidade de ver e ouvir, libertos da ideologia dominante. Os coxos poderão andar, e
os mudos poderão falar com a liberdade de filhos de Deus. A terra seca será regada com a água da justiça que produz frutos de vida em abundância para todos. Enfim, a Palavra de Deus provoca a esperança militante e incute um novo ânimo para a construção de um mundo de paz e de fraternidade. É importante nos deixar invadir pela palavra profética, libertando-nos de todas as amarras que nos impedem de abraçar com consciência e liberdade nossa missão no mundo.
Evangelho (Mc. 7,31-37): “Ele fez tudo bem!”
Esse texto do evangelho de Marcos mostra uma das ações de Jesus em terra estrangeira. Ele vem trazer a salvação a todos os povos. Os seus discípulos estão com Jesus, porém manifestam uma grande dificuldade de entender os seus ensinamentos e o seu modo de agir. Alimentam a expectativa de que Jesus manifeste em algum momento todo o poder de um messias triunfalista, dominando os inimigos e restabelecendo o reino de Israel. Eles não entendem por que Jesus vai pregar o seu evangelho e realizar ações de libertação no meio dos estrangeiros, pessoas consideradas impuras conforme o ensinamento dos fariseus; não entendem o significado da multiplicação dos pães, têm o coração endurecido, têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem. Na verdade, os discípulos estão totalmente contaminados pelo “fermento dos fariseus e de Herodes”, isto é, pela ideologia do poder religioso e político (cf. Mc. 8,14-21).
Podemos perceber, então, qual é a intenção de Marcos ao relatar a cura do surdo-gago.
Os verdadeiros surdos são os discípulos de Jesus, que, apesar de estarem na companhia do Mestre, ouvirem os seus ensinamentos e verem a sua prática, ainda não entendem que tipo de Messias é Jesus. São surdos e cegos. E ainda são gagos: porque não entendem quem é Jesus, também não conseguem anunciar o seu Evangelho com lucidez.
A cura do surdo-gago se dá na Decápole (região de dez cidades), situada além do rio Jordão, fora do país da Palestina. Nesse episódio, essa região representa todos os países estrangeiros para os quais os discípulos serão enviados para anunciar o Evangelho de Jesus e continuar a sua obra. Para isso, precisam ser libertados do seu nacionalismo exclusivista. Devem abrir os ouvidos para acolher a nova proposta de Jesus, diferente daquela dos escribas e fariseus. Portanto, a narrativa da cura do surdo-gago é mensagem diretamente dirigida aos discípulos de Jesus no tempo em que Marcos escreve seu evangelho (ao redor do ano 70), e também é mensagem dirigida a todos nós, hoje, pois também podemos nos deixar influenciar pela ideologia dominante, que nos torna surdos aos apelos de Deus e gagos por falta de convicção e coragem de seguir e anunciar o seu Evangelho.
É importante perceber a maneira como Jesus cura o surdo-gago. Primeiro, ele o leva para longe da multidão, depois coloca os dedos nas suas orelhas, em seguida toca-lhe a língua com sua saliva e, por fim, levanta os olhos para o céu, geme ou suspira profundamente, e pronuncia a palavra que liberta: “Abre-te”. Esse processo revela que, para ser discípulo de Jesus, é necessário afastar-se da ideologia dominante que massifica a consciência; é necessário deixar-se conduzir pela mão do Mestre, permitir que ele o toque com sua graça e que a vida divina (simbolizada pela saliva de Jesus) penetre a vida humana. Assim, a pessoa torna-se capaz de entender Jesus, de viver o seu Evangelho e de anunciá-lo com toda convicção.
Ao ver a prática de Jesus, as pessoas exclamavam: “Ele fez tudo bem!”. Assumindo a missão que lhe foi confiada, Jesus alimenta sua íntima amizade com o Pai (com os olhos voltados para o céu) e permanece solidário com as dores do próximo (geme e suspira profundamente), indicando-lhe o caminho da vida em plenitude. Assim, ele fazia todas as coisas bem-feitas. A amizade com Deus e a solidariedade com o próximo são o que caracteriza o jeito de ser do discípulo missionário de Jesus.
2ª leitura (Tg. 2,1-5): Não fazer acepção de pessoas
A carta de Tiago foi escrita no final do século I e dirigida às “doze tribos da Dispersão”, isto é, ao novo povo de Deus formado pelas comunidades cristãs primitivas espalhadas pelo Império Romano. Percebe-se que, no meio dessas comunidades, existem condutas que não condizem com o Evangelho de Jesus. Uma delas diz respeito à relação com os pobres, conforme indicação do texto deste domingo. Até quando se reúnem para as celebrações litúrgicas constatam-se atitudes de discriminação intoleráveis para um cristão. Há líderes ou recepcionistas que acolhem as pessoas ricamente vestidas dando-lhes atenção privilegiada e oferecendo-lhes lugares confortáveis. Com os pobres, no entanto, o tratamento é outro...
Tiago é um animador cristão que conhece a maneira como Deus se revelou na tradição de fé judaica: acolhendo e libertando os oprimidos.
Conhece também o ensinamento de Jesus e sua proposta do Reino aos simples e pequeninos: “Atentai para isso, amados irmãos: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?”. Como seguidor de Jesus, Tiago não usa de meias palavras ao advertir os membros da comunidade a respeito dessa conduta que contradiz a fé. Ele se revela como um discípulo que não é cego, nem surdo e nem gago. Tem clareza e convicção de sua missão. Uma Igreja fiel ao Evangelho de Jesus não poderá jamais abdicar da opção preferencial pelos pobres.
Pistas para reflexão
– A fé em Deus manifesta-se no amor às pessoas que sofrem. Por isso, uma das dimensões que caracterizam a missão da Igreja no mundo é a dimensão profética. Deve renunciar ao espírito de poder-dominação para solidarizar-se com as pessoas oprimidas e promover a justiça. Deve deixar-se conduzir pelo espírito de Deus e anunciar a esperança militante aos sofredores e abatidos, a fim de que se tornem protagonistas de um novo mundo. Como a dimensão profética está sendo vivida em nossas comunidades eclesiais? Que tipo de “acomodações” devem ser rompidas para manter a fidelidade ao projeto de Deus?...
– Mudar de mentalidade para seguir a Jesus.
Os discípulos tiveram muita dificuldade de entender e seguir a Jesus com liberdade e convicção.
Jesus dedicou-se para curá-los de sua situação de surdos-gagos. Ajudou-os a se libertarem da ideologia dominante e ofereceu-lhes um novo modo de pensar e de agir. É muito importante que nós tenhamos consciência de nossa condição de seguidores de Jesus: nós o conhecemos de fato? Ou o transformamos à imagem de nossas conveniências? Nós o seguimos e o anunciamos com convicção pelo testemunho de vida, pelas palavras honestas e pelas ações em favor do próximo necessitado? Em que tipos de discriminações incorremos hoje em dia? O que nos diz a Palavra de Deus a esse respeito?
Celso Loraschi



Felizes os ouvidos desimpedidos
Uma das experiências mais doloridas que possamos fazer é a da perda da audição. O surdo ou o quase surdo  vive uma constante inquietação. Não pode participar de conversas porque tem que ficar sempre pedindo que as pessoas repitam o que disseram.  Vai ficando desconfiado de tudo e de todos.  As novidades não lhe chegam… Está sempre defasado. O evangelho proclamado neste domingo  fala de um “surdo que falava com dificuldade”.  O Messias viera, segundo as Escrituras,  para abrir os ouvidos dos surdos e desatar  a língua dos mudos. Podemos ver atrás da trama dessa cura traços do sacramento do batismo.
Jesus se afasta para fora da multidão.  Parece que Jesus faz isso porque vai realizar alguma coisa que precisa ser  vivenciada com interioridade, sem burburinho.  Coloca um gesto concreto:  toca os ouvidos e cospe e com a saliva toca a língua do homem.  Não entramos aqui nas explicações exegéticas a respeito desses pormenores.  Jesus, olhando para o céu, quer que o doente  fique curado.  Diz  “Éfata”, que quer dizer  “abre-te”. No ritual do batismo há esse gesto de tocar os lábios e o ouvido do batizando.  Jesus quer extirpar o mal do mundo e do coração dos homens. Aquele que é mergulhado na água, que é batizado, que morre a si e nasce para uma vida nova, que se lava na água do peito aberto de Cristo  tem os seus lábios tocados para que nunca deixe de louvar o Senhor, de cantar suas palavras.  Que não seja mudo para dizer palavras de reconhecimento ao que destrava a língua.  O celebrante do batismo também, como Jesus, toca os ouvidos…Um dos dramas mais pungentes que um ser humano pode viver é essa incapacidade de ouvir a voz do Senhor. Ao longo do tempo da vida,  aquele que nasceu da água e do Espírito,   ficará em estado de atenção para ler os desígnios de Deus na trama do cotidiano, na Palavra proclamada, nos acontecimentos que se sucedem,  na voz daquele que está perto de nós.    A cura do surdo e mudo aponta para a renovação do ser humano, agora em estado de prontidão diante de Deus.  “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e  ele começou a falar sem dificuldade”.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Jesus faz tudo bem feito
Com sua apresentação do “humanismo” de Jesus (cf. dom pass.), Mc não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente. Chegamos quase ao fim da primeira metade do evangelho de Mc, em que ele mostrou que em Jesus há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Mc: “Tu és o Messias” (cf. próximo dom.).
Unindo em uma só pessoa dois defeitos, a surdez e a mudez, Mc lembra imediata­mente o texto de Is 35, lido na 1ª  leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35). Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn 1,31 etc.). Porém, a intenção de Mc vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o co­ração para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por isso, Mc insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizereffatá, “abre-te” … Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Ora, se acreditamos que, com Jesus, chegou o Reino de Deus, não dá mais para vol­tar para trás. O que ele fez tão bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um pouco mais de atenção à Carta de Tiago, cuja leitura foi ini­ciada no domingo passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus: tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª  leitura). Então, para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre. Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres. Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros. Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como uma mãe espontaneamente consagra atenção ma­ior à criança que mais precisa. A própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganis­mo desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo tomam-se os destina­tários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele … Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e cri­ança, frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então, entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"



Jesus faz tudo bem feito
Com sua apresentação do “humanismo” de Jesus, Marcos não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente.
Chegamos quase ao fim da primeira metade do evangelho de Marcos, em que ele mostrou que em Jesus há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Marcos: “Tu és o Messias” (cf. próximo domingo).
Unindo em uma só pessoa dois defeitos, a surdez e a mudez, Marcos lembra imediata­mente o texto de Is. 35, lido na 1ª leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35). Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn. 1,31 etc.). Porém, a intenção de Marcos vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por isso, Marcos insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizer effatá, “abre-te”… Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Ora, se acreditamos que, com Jesus, chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um pouco mais de atenção à carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus: tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª  leitura). Então, para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre. Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres. Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros. Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganismo desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo tomam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele… Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e criança, frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então, entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
padre Johan Konings



Deus não escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé
e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? (Tg. 2,5)
Toda a liturgia da Palavra deste domingo gira em torno da Salvação de Deus para os homens.
Assim os homens aqui lembrados são os necessitados de Salvação em todos os tipos de sofrimentos. Uns são de origem física, outros de origem espiritual, outros originados na natureza inóspita para a vida, e outros na injustiça que os próprios homens praticam.
No entanto, perante esta visão da humanidade necessitada de Salvação, a grandeza de Deus salvador é a conclusão desta contemplação deste mundo de sofrimentos. E, para os cristãos, a figura da Salvação se apresenta clara: é Jesus, o Salvador, que passou pelo mundo fazendo tudo bem. E este bem não é um bem qualquer. É o cumprimento das profecias do passado sobre a chegada do Messias Salvador de Israel e de toda a humanidade.
Nesta obra salvadora, o Pai e o Filho socorrem e salvam todos os necessitados da Salvação. E esta Salvação não é para um dia ou dois, mas para sempre no Reino de Deus, para os que Nele confiam porque somente a Ele amam.
Da Segunda Leitura é que a mensagem da Liturgia da Palavra deste domingo se esclarece de maneira nítida. São Tiago em sua epístola defende os socialmente necessitados de salvação. Pode-se dizer que esta é a epístola da opção preferencial pelos pobres de Deus. Foi São Tiago, de fato, quem escreveu: “Deus não escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam?” (Tg. 2,5)
Não se trata aqui de uma Teologia da Libertação sem contornos definidos.
Os que Deus salva são os pobres, seja social seja espiritualmente falando.
Os que Deus salva são os que O amam.
Deus dá aos deserdados, social e espiritualmente, a participação, como herança, de Seu Reino. Esta é a realização da bem-aventurança pronunciada por Jesus em Lc. 6,20: “Bem-venturados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”.
Mesmo que estas afirmações sejam um resumo da teologia da Liturgia da Palavra deste domingo, esta mesma Liturgia não deixa de se esclarecer em detalhes. Quem são estes pobres, estes necessitados da Salvação de Deus?
Segundo a Primeira Leitura são os judeus oprimidos por pagãos vizinhos de Israel, no tempo do profeta Isaías: “Vede, é o vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é Ele que vem para nos salvar” (Isaías 35,4).
Foi assim que, no passado, o Povo Eleito conheceu o poder do Reino de Deus a se realizar num futuro por Ele determinado. E este futuro será o da vinda ao mundo do Salvador, Jesus Cristo. O Novo Povo Eleito, a Igreja, verá realizada esta profecia de Isaías na pessoa de Jesus.
O Salmo Responsorial reforça esta compreensão da Salvação no Reino de Deus: “Ó Sião, o teu Deus reinará para sempre e por todos os séculos!” [Sl. 145(146),10].
Toda Sião, imagem do Povo Eleito inteiro, é que terá a certeza de que a Salvação de Deus não virá somente para um dia. Será eterna. E para qual tipo de necessitados?
O Salmo os enumera:
- aos oprimidos pelas injustiças humanas, Deus, o Rei de Israel fará a justiça [Sl 145(146),7a].
- aos famintos, Deus, o Rei de Israel, saciará a fome [Sl. 145(146),7b].
- aos cativos, Deus, o Rei de Israel, dará a liberdade [Sl. 145(146),7c].
- aos cegos, Deus, o Rei de Israel, dará a visão [Sl. 145(146),8a].
- aos caídos, Deus, o Rei de Israel, dará apoio e firmeza [Sl. 145(146),8b].
- aos estrangeiros, Deus, o Rei de Israel, manifestará seu amor [Sl. 145(146),9a].
- das viúvas e órfãos, Deus, o Rei de Israel, será o amparo [Sl. 145(146),9bc].
Quando estas promessas e profecias se tornaram realidade?
Isto o vemos no Evangelho de hoje.
Um homem surdo e com deficiências de fala foi levado a Jesus.
Ele o curou com poucos gestos acompanhados pelas pessoas presentes.
E as pessoas presentes deram este testemunho de Jesus: “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (Mc. 7,37).
Qual profecia antiga se realizava neste momento pela cura do surdo-mudo por Jesus?
Encontramos uma pista em Mt. 11,4-5: “ide contar a João [Batista] o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”.
Ora, todas estas curas, ressurreições e evangelização dos pobres são realização da profecia feita por Isaías 61,1: “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a Boa Nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a libertação dos que estão presos”.
Mesmo que esta passagem de Isaías não contenha todas as palavras que encontramos acima em Mt. 11,4-5, os evangelistas viram em Is. 61,1 realizado em Jesus, confirmando sua condição do Messias esperado por Isaías e por outros profetas.
O Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus é a Boa Nova profetizada por Isaías.
No Reino de Deus os pobres encontrarão sua herança eterna e não passageira.
No Reino de Deus, já presente nesta vida terrena, mas pleno no céu, vemos realizado o que disse o Salmo Responsorial de hoje:
“Ó Sião, o teu Deus reinará para sempre e por todos os séculos!” [Sl 145(146),10].
padre Valdir Marques, SJ



Jesus percorre um território pagão ao sair de Tiro até chegar à Galiléia. Ali, Ele cura um homem pagão surdo-mudo, e esse milagre simboliza a libertação das pessoas, pois com os ouvidos e a boca abertos elas são capazes de ouvir, falar, discernir a realidade, criticar a situação que oprime e fazer o anúncio.
O homem surdo-mudo não vem sozinho até Jesus, mas é trazido por outras pessoas. Jesus o tira do meio delas para que ele tenha um encontro pessoal com o Senhor e se sinta responsável, após o milagre, pela Boa Nova, anunciando que verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus.
O profeta Isaías assim falava sobre o Messias, (Is. 35,5-6): “Então os olhos dos cegos enxergarão e os ouvidos dos surdos se abrirão.” Porém não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo e sim sua palavra, embora Marcos insista exageradamente nos gestos materiais com que Jesus realiza a sua missão como imposição das mãos, pois, é o próprio Deus cuidando diretamente daquele que foi privado da vida; usando a saliva que era considerada como tratamento; elevando os olhos aos céus; suspirando como indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas e fechadas à Palavra de Deus, e dizer Efatá, que significa ‘abre-te’. Ele toca primeiro os ouvidos e depois a boca, primeiramente para ouvir e compreender e depois anunciar a Palavra sem dificuldades.
Os milagres que Jesus realiza confirmam as profecias do Primeiro (Antigo) Testamento.
O evangelho de Marcos se destina a pagãos dispostos a abraçar a fé. A expressão ‘Efatá’ fazia parte da liturgia batismal da Igreja primitiva para aqueles que iniciavam a caminhada de discípulo.
No rito do Batismo, o celebrante toca a boca e os ouvidos do batizando e diz: “O Senhor Jesus que fez os surdos ouvirem e os mudos falarem, te conceda que possas logo ouvir a Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus Pai.” Pais e padrinhos devem instruir a criança na fé pela escuta da Palavra e ela deve ser educada para expressar essa mesma fé na oração e na vida.
A desobediência aos ensinamentos torna os homens e as mulheres surdos-mudos, pessoas incrédulas e fechadas ao conhecimento da Palavra de Deus e da Vida, e quando se abrem para a leitura e a proclamação dos ensinamentos de Jesus, reconhecem que Deus é o mais importante na vida.
A cura da surdez e do mutismo significa nas Escrituras a iniciação à fé. Jesus comunica vida nova! É preciso aprender a ouvir para poder acreditar e proclamar, pois a fé vivida faz o cristão atento ao cumprimento da verdade. Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Todo discípulo sente a necessidade desta cura, para receber o dom da fé, abrir seu coração para o que Deus quer chamar, para entender o que Deus quer falar e para proclamar os ensinamentos de Jesus.
O pedido de sigilo que Jesus faz é para se proteger dos seus perseguidores e para preservar sua missão. Não se trata de uma proibição, pois quanto mais Ele recomendava, mais o povo falava.
Pequeninos do Senhor


Jesus revela o rosto misericordioso de Deus
Jesus atravessa as aldeias, passa pela vida de cada um de nós praticando o bem, revelando o rosto misericordioso de Deus, fazendo sentir seu imenso amor e suscitando em cada um a fé na vida. O território é pagão, modo de o texto afirmar o chamado dos gentios à salvação. Apresentam a Jesus um homem surdo e com dificuldade de falar. Um surdo-mudo é incapaz de se comunicar por palavras, por isso, é excluído da vida social.
A sua situação é humilhante, uma vez que não compreende o que é dito nem pode responder. O seu mal está na sua surdez: ele é mudo porque é surdo. Algumas pessoas levam o homem até Jesus. Quem são os que conduzem a Jesus o surdo que tinha muita dificuldade em falar, o texto nãos nos diz. No entanto, há de supor que se trate de pessoas que creem no poder de Jesus, pois pedem que o Senhor imponha as mãos sobre ele. Jesus age com discrição, levando o homem à parte, longe da multidão. Jesus não busca o sucesso, nem impressionar. Ele quer somente fazer o bem; e o bem, fruto do seu amor, é silencioso e discreto. Jesus toca os ouvidos do homem com os dedos. Os dedos transmitem o poder (cf. Ex. 8,15) que abre os ouvidos (cf. Sl. 40[39],7). A propriedade terapêutica da saliva, sobretudo, cicatrizante, já era conhecida na antiguidade. É do céu que vem a ajuda, por isso, Jesus olha para o céu, e o seu “gemido” é expressão da súplica a Deus (cf. Rm. 8,26).
Os gestos são acompanhados da palavra que liberta: “Abre-te!”. A palavra dá o significado dos gestos. A cura remete o leitor ao advento messiânico em que a realidade é transformada (cf. Is 35,5-6). Agora, o homem pode ouvir e falar corretamente. Jesus pede discrição sobre o acontecido. É o que, em Marcos, se chama o “segredo messiânico”. O enorme espanto que se apossa da multidão a faz dizer algo que evoca o relato da criação (Gn. 1,10.12.18.21.31): “todo ele tem feito bem”. Em Jesus Cristo se dá, efetivamente, uma nova criação, pois ele devolve à criatura a possibilidade de reconhecer que Deus fez tudo bem.
Carlos Alberto Contieri,sj



O Evangelho deste domingo apresenta-nos um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que ele o cure.
Quem é o surdo-gago? É a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz. Surda, porque incapaz de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração: “tem ouvido para ouvir, mas não ouve” (Jr. 5,21; cf. Mt. 13,14-15).
Esta é a tendência do coração humano, que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com ele, a tendência de nos fechar em nós e viver a vida como se fosse nossa de modo absoluto: “Escutai, prestai  ouvidos, não sejais  orgulhosos, porque o Senhor falou!” (Jr. 13,15); “Ah! Se meu povo me escutasse, se Israel andasse em meus caminhos... Mas meu povo não ouviu a minha voz, Israel não quis saber de obedecer-me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!” (Sl. 81/80,14.13). Assim, no fundo, é o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a resistência em realmente levar a sério o primeiro mandamento: “Ouve, ó Israel!” (Dt. 6,4).
Nossa civilização ocidental tem sido particularmente fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos... mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas e psicólogos, é o Paulo Coelho, são os livros de auto-ajuda... Somos uma geração de surdos!
Ora, se somos surdos, também não podemos falar com clareza: nossas idéias são embotadas, nossos debates, nossas palavras, não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. A comunicação se torna oca, alienada e alienante. Basta observar o que os meios de comunicação veiculam! Por isso, Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a esperança eterna!
Sigamos os detalhes da narração de Marcos: (1) Trouxeram o homem surdo-gago para que Jesus o curasse. “Jesus afastou-se com o homem para fora da multidão” – bem ao contrário dos curadores pentecostais de televisão, que exploram seus “milagres” e “curas” como shows, Jesus procura evitar todo sensacionalismo: ele quer encontrar-se realmente com aquele homem, pessoa a pessoa, quer que aquele homem o descubra como sua salvação; (2) “Em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” – o homem, sendo surdo, somente poderia compreender a linguagem dos símbolos, dos sinais; é a que Jesus empregou: toca os dedos que, para os antigos, transmitiam poder (cf. Ex. 8,15) e, depois, toca sua língua com a saliva, significando o dom do Espírito que cura e liberta. Para os antigos, a saliva era o Espírito em estado líquido (a idéia é estranha, mas é preciso que nos transportemos para o modo de pensar semítico)! (3) “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Ephatà’”. Assim, Jesus indica que a salvação que ele traz procede do Pai, que o enviou. Mais ainda: ao suspirar, ao gemer, ele exprime sua compaixão, sua dor pela situação humana; (4) “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. Somente Jesus, com o poder do seu Espírito, pode curar o homem de seu fechamento para escutar e para proclamar. Sim, porque também nossa geração cristã é, muitíssimas vezes, covarde para proclamar, para professar sem medo e respeito humano nossa fé. O cristão ou é testemunha ou não é cristão: “Não podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo” (At. 4,20; 5,32).
Este caminho do surdo-gago é urgente para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus (= crer nele de verdade) e falar dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrará a paz que tanto almeja. Somente em Cristo aquilo que a primeira leitura vislumbra e anuncia de modo tão belo, pode realizar-se: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que vem; é ele que vem para salvar!’ Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terá árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água” – Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem, quando ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria! Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba – nós, fechados na nossa auto-suficiência e no nosso comodismo! – jamais vai experimentar isso!
Para acolher na alegria e simplicidade, é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-gago, que procurou Jesus, para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e recebê-la do Senhor! Daí a lembrete de são Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os pobres... porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de Deus! Com nossas posses e nossas seguranças, apoiamo-nos em nós mesmos, tornando-nos surdos e mudos para o Senhor! O pobre é profético sempre, porque recorda o que nós somos e, quando descobrimos isso, podemos ser curados de nossa auto-suficiência surda e libertados de nossa preguiça muda. O salmo da Missa de hoje canta exatamente esta experiência: Deus salva o pobre, o pequeno, o desvalido!
Se o pobre é sempre profeta, sempre uma palavra de Deus ao nosso lado e, mais ainda, é presença do próprio Cristo, que sendo rico se fez pobre (cf. 2Cor. 8,9) - “O que fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40) -, então, o nosso modo de tratar o pobre, de ver o pobre, de nos aproximar do pobre – seja pessoal, seja comunitariamente – diz muito daquilo que nós e nossa Comunidade somos em relação a Deus; diz muito dos nossos critérios: se são segundo Deus ou segundo nosso coração mundano!
Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; faça-nos atentos à sua Palavra e ao seu testemunho; dê-nos olhos para reconhecê-lo nos irmãos, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for... sobretudo os pobres, social e economicamente falando!
dom Henrique Soares da Costa




Hoje a santa Palavra do Senhor nos fala de um Deus que vem. E ele vem sempre, amados! Vem porque está entre nós na potência do seu Santo Espírito, que age constantemente nos sacramentos da Igreja, que proclamam a Palavra da Salvação e tornam realidade essa Palavra salvífica! Eis, portanto, nosso Deus vem, vem sempre no seu Filho Jesus pleno do Santo Espírito. E quando ele vem, a nossa sorte muda: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus: é ele que vem para vos salvar! Abrir-se-ão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos... brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água”. Ó caros! Não é coxo o mundo atual, não é cego, não é seco? Vede ao redor em que tem se tornado a nossa existência! Tanto mais o homem se feche para Deus, tanto menos vive, tanto menos se realiza, tanto menos é feliz... E, no entanto, se nos abrirmos, se nos deixarmos curar, o Senhor transformará a nossa pobre vida: nossa surdez será curada e escutaremos a doce voz do Senhor que nos guia, nossa mudez transformar-se-á em canto de exultação e da sequidão do nosso coração sem vida, a água fresca e vivificante brotará em abundância! Humanidade dura e teimosa, a nossa, que procura vida sem Deus e não encontra a não ser desilusão! Pois bem, caríssimos, é de paz, é de vida, é de felicidade que o Senhor nos fala hoje, nos fala sempre nos anúncios dos profetas! E o que eles anunciaram para os tempos do Messias, tempos de salvação, o Senhor Jesus realiza em plenitude: hoje, no Evangelho que ouvimos, ele coloca os dedos nos ouvidos dum surdo-mudo e, com a saliva, toca-lhe a língua. Que significa esse gesto? A saliva, para os judeus, era o ar feito líquido. Assim, Jesus dá seu Sopro, seu Espírito ao homem. Agora aquele zé-ninguém, aquele surdo-mudo de vida semi-humana é homem novo: pode ouvir o Senhor, pode proclamar suas maravilhas! Mas, não é isso que somos? Não é isso que devemos testemunhar com a nossa vida?
Recordam, irmãos amados, do rito batismal, quando o sacerdotes traçou o sinal da cruz nos nossos ouvidos e nos nossos lábios, repetindo o gesto de Jesus? Recordam quando ele exclamou: “Efatá!”, como o próprio Jesus, naquele tempo? Recordam? Surdos curados por Jesus, é o que somos; mudos libertados pelo Senhor, é a nossa realidade! Agora curados, aprendamos a escutar realmente a palavra e os apelos daquele que nos curou; agora libertos, proclamemos ante o mundo incréu as maravilhas daquele que nos livrou e nos chamou das trevas para a sua luz admirável! Somos novos em Cristo, somos novas criaturas! Externemos essa realidade com nossa vida pessoal e comunitária! Ó cristão, quantas vezes será necessário exortar-te a viver de acordo com aquilo que tu és? Por que és frouxo, por que covarde, por que sem entusiasmo, por que omisso, por que és duro e surdo para a voz do teu Senhor? Por que, caríssimos meus, o nosso modo de viver não impressiona? Por que nosso testemunho do Senhor não contagia os outros? Por que nossas ações não iluminam o mundo em trevas? Porque fugimos do Senhor, porque não deixamos que ele nos toque, nos cure, nos liberte! Sufocamos a graça recebida no batismo! E como  a sufocamos? Pela vida frouxa, pela existência displicente, que não leva a sério realmente a ação libertadora do Senhor em nós!
Somos novos de uma nova vida! Novos, cada um de nós; novos, nós todos como Igreja! Somos a comunidade dos que experimentam essa vida nova, dos que vivem já neste mundo o sonho de um novo modo de existir. Não se trata, meus caros, de um ideal sociológico ou simplesmente humanístico: o motivo da vida nova é o Cristo de Deus que, nos dando o seu Santo Espírito, faz-nos criaturas novas, capazes de viver no seu amor e do seu amor. A Igreja é isso: uma comunhão brotada do amor do Cristo – e este amor é o Santo Espírito. Uma comunidade que vive neste Espírito, que não é o do mundo, que não é o da esquerda festiva ou da direita egoísta, do centro omisso ou dos extremos exaltados... Nossa vida, nossa inspiração, nossa força é o Espírito no qual o Pai e o Filho se amam e se dão! Pois bem! Uma comunidade que vive nesse Espírito não admite discriminações injustas, não admite o desprezo de uns pelos outros, sobretudo dos seus membros mais frágeis e pobres. Uma comunidade “espiritual” julga segundo os critérios do Evangelho e descobre que aquilo que para o mundo é frágil, é perdido, é sem valor, na verdade é o que há de mais precioso aos olhos de Deus: “Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” Aqui não se trata de bom-mocismo, de uma filantropia meramente humana; trata-se, antes, de uma consciência que brota da contemplação do próprio modo de agir de Deus: ele ama o miserável porque é misericordioso, ele se volta para o pobre, de qualquer pobreza que seja, porque nos ama gratuitamente, e lhe apraz retirar o pobrezinho do monturo e elevá-lo com os nobres do seu povo! Neste sentido, São Tiago nos chama atenção para uma realidade bem concreta, palpável em cada geração: são os pobres, os débeis, os fracos que mais têm fé, que mais se abandonam no Senhor. Quem enche nossas igrejas? Quem é mais generoso para com Deus? Quem mais se esforça para levar a sério os preceitos do Senhor? Quem mais teme a Deus? Em geral, os pobres, os sofredores, os desvalidos! E por quê? Porque ali, na humana miséria, podemos ver sem máscaras aquilo que somos o tempo todo: pobres! Ainda que não queiramos admitir, somos todos pobres, todos necessitados, todos dependentes diante de Deus. Precisamente aqui está a grande bem-aventurança: ser pobre diante de Deus. E são os pobres do mundo e os pobres de nossas comunidades quem melhor nos lembram isso! Olhemos os pobres e vejamos o que somos; sirvamos e honremos os pobres, e serviremos e honraremos aquele por quem e para quem somos!
Neste sentido, a segunda leitura deste hoje é um sério convite a que nos perguntemos sobre como nossa comunidade e nossa casa se comportam em relação aos pobres e carentes do mundo. Damos-lhe atenção? Preocupamo-nos com eles? Uma comunidade cristã – a de casa, da paróquia ou do grupo e movimento de Igreja – que não abra o coração para os pobres, não é comunidade cristã! É incômodo isso que eu digo; mas, é a verdade da Palavra de Deus, que não pode ser maquiada nem domesticada! Nosso comportamento em relação aos pobres definirá nossa situação para sempre diante de Cristo no Último Dia! Disso não tenhamos a mínima dúvida! Portanto, ouçamos e tremamos!
Calem no coração as palavras que o Senhor hoje nos dirigiu. E que esta Eucaristia cure nossa surdez, desate nossa língua e converta o nosso coração.
dom Henrique Soares da Costa