23º DOMINGO TEMPO COMUM
ANO B
9 DE SETEMBRO DE 2018
EVANGELHO - MC
7,31-37
-ESTAMOS SURDOS?-José Salviano
·
·
Como já fora anunciado pelo
profeta, Jesus abre os ouvidos daquele homem e sua língua se soltou, e ele que
era mudo, voltou a falar fluentemente.
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“ELE TEM FEITO BEM TODAS AS COISAS.”- Olivia Coutinho
23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 09 de Setembro de 2018
Evangelho de Mc7,31-37
No mundo atual, são muitos, os que permanecem fechados no seu
egoísmo, pessoas que não se abrem ao novo, que alicerçam suas vidas sobre
suas próprias verdades. Estes, são os portadores da pior de todas as surdezes:
a surdez de quem não quer ouvir, pra não ter que tomar atitude.
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro, que só o
amor constrói, que só o amor gera vida. Na sua trajetória terrena, Jesus fazia
longas caminhadas ao encontro dos sofredores, todas as suas ações
convergiam para o bem maior que é a vida!
Quem carrega no peito, os mesmos anseios de Jesus, sente
necessidade de partilhar a vida, de se fazer caminho de libertação para os que
se encontram aprisionados pelas as correntes da exclusão.
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, vem nos
falar de um Deus comprometido com a vida, um Deus que investiu alto no ser
humano, que aposta continuamente na renovação e na transformação do
homem. Deus não desiste de nós, mesmo quando na nossa ingratidão, o rejeitamos.
A narrativa nos mostra que o amor de Deus, manifestado nas
ações misericordiosas de Jesus não tem fronteira, foi este amor que levou Jesus
ao um território pagão, quebrando as muralhas do preconceito, reafirmando, que
Ele não havia vindo somente para os judeus e sim, para todos os povos.
Antes de abrir os ouvidos de um surdo e de soltar sua língua,
Jesus, num gesto de ligação com o Pai, olhou para o céu, suspirou e disse:
“Efatá”, que quer dizer: abre-te!
Na sua humanidade, Jesus revelou a sua Divindade, nos
convidando a sermos mais humanos, presença Dele na vida dos excluídos.
Como filhos do céu, caminhando aqui na terra, devemos ter um
olhar voltado para os sofredores, os excluídos, irmãos nossos, jogadas às
margens do caminho.
O homem, curado por Jesus, vibrou de alegria diante as maravilhas
que Deus realizou à seu favor, e mesmo tendo sido recomendado para não
divulgar o ocorrido, ele não consegue guardar tamanha alegria.
Livre da surdez, que o impedia de viver socialmente, aquele homem,
agradecido, retoma a sua vida, a sua identidade!
Em sua missão, Jesus iniciou uma nova criação, hoje, Ele coloca em
nossas mãos a responsabilidade de dar continuidade a essa missão libertadora:
devolver a dignidade aos mutilados por esta sociedade excludente que tenta a
todo custo abafar o grito dos excluídos.
Vivemos numa cultura geradora de surdos e mudos, pessoas
impedidas de ouvir e de falar.
Como continuadores da presença de Jesus no mundo devemos quebrar as
correntes da exclusão, sendo a voz dos excluídos a clamar por justiça.
Não podemos esquecer, de que no rosto do excluído está
estampada a imagem desfigurada de Jesus, o que deixamos de fazer em seu
favor, é a Jesus que deixamos de fazer.
O amor cria e recria vida, abre caminhos, leva-nos ao encontro do
outro!
FIQUE NA PAZ
DE JESUS! Olivia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:
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Fé em deus: amor
aos pobres
A fé em Deus implica em amar
prioritariamente as pessoas empobrecidas. É o tema central das leituras da
liturgia deste segundo domingo do mês dedicado à Bíblia. Deus se revelou ao
povo de Israel como libertador de todos os males que afligem a vida humana.
O profeta Isaías, inserido numa
realidade de marginalização e sofrimento do povo, torna-se o anunciador da
esperança militante, capaz de transformar a tristeza em alegria, a fraqueza em
força, o medo em confiança (1ª leitura). Afinal, Deus jamais abandona o povo
que sofre. Jesus, o Filho de Deus, solidariza-se com a dor das pessoas doentes
e excluídas e oferece-lhe a cura e a libertação (Evangelho). Deixando-nos tocar
pela sua graça, recuperamos a integridade do nosso ser. A carta de Tiago lembra
que numa comunidade cristã não pode haver acepção de pessoas. Pelo contrário,
deve-se acolher com todo carinho as que são pobres e sem fama (2ª leitura).
Assim como Deus Pai revelou-se sempre próximo e atencioso com as pessoas
sofredoras, e assim como Jesus assumiu a dores da humanidade, também nós, como
filhos de Deus e irmãos de Jesus, somos instados a ser coerentes: a fé em Deus
implica no amor prioritário às pessoas em situação de necessidade.
1ª leitura (Is.
35,4-7a): “Sede fortes, não temais!”
O movimento profético de Isaías I (cap.
1-39) situa-se pelo final do século VIII a.C. Internamente, o regime monárquico
produziu frutos amargos para o povo de Israel. Onde deveria ser promovido o
direito, o que apareceu foi a injustiça; onde deveria ser garantido o bem-estar
do povo, o que se ouviu foram gritos de desespero (Is. 5,7). Além da opressão
interna, o exército assírio, pelo ano 722 a.C., invadiu e destruiu o Reino do
Norte com sua capital, a Samaria, deportando muita gente (cf. 2Rs. 17) e, em
701, tomou Jerusalém e as cidades da região sul, impondo altos impostos e mais
opressão sobre o povo (cf. 2Rs. 18).
Isaías é testemunha desses
acontecimentos e profetiza a partir do lugar social das vítimas do poder tanto
interno como externo.
A profecia exerce uma função muito
importante no meio das pessoas que sofrem a opressão política e econômica.
Através das palavras proféticas, Deus manifesta seu amor e sua solidariedade
com o povo. É um Deus sensível, um pastor cheio de ternura, o protetor das
pessoas indefesas. Deus é o padrinho dos pobres, o redentor dos oprimidos, o
resgatador da dignidade humana.
O texto é um anúncio de uma boa notícia
que revigora os fracos e encoraja os desanimados.
Deus fala aos corações conturbados
dizendo para serem fortes e não temerem. Os poderosos deste mundo podem
oprimir, mas não podem impedir a intervenção amorosa de Deus em favor dos
oprimidos. “Ele vem para salvar!”. Os cegos e os surdos recobrarão a capacidade
de ver e ouvir, libertos da ideologia dominante. Os coxos poderão andar, e
os mudos poderão falar com a liberdade
de filhos de Deus. A terra seca será regada com a água da justiça que produz
frutos de vida em abundância para todos. Enfim, a Palavra de Deus provoca a
esperança militante e incute um novo ânimo para a construção de um mundo de paz
e de fraternidade. É importante nos deixar invadir pela palavra profética,
libertando-nos de todas as amarras que nos impedem de abraçar com consciência e
liberdade nossa missão no mundo.
Evangelho (Mc.
7,31-37): “Ele fez tudo bem!”
Esse texto do evangelho de Marcos
mostra uma das ações de Jesus em terra estrangeira. Ele vem trazer a salvação a
todos os povos. Os seus discípulos estão com Jesus, porém manifestam uma grande
dificuldade de entender os seus ensinamentos e o seu modo de agir. Alimentam a
expectativa de que Jesus manifeste em algum momento todo o poder de um messias
triunfalista, dominando os inimigos e restabelecendo o reino de Israel. Eles
não entendem por que Jesus vai pregar o seu evangelho e realizar ações de
libertação no meio dos estrangeiros, pessoas consideradas impuras conforme o
ensinamento dos fariseus; não entendem o significado da multiplicação dos pães,
têm o coração endurecido, têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem. Na
verdade, os discípulos estão totalmente contaminados pelo “fermento dos
fariseus e de Herodes”, isto é, pela ideologia do poder religioso e político
(cf. Mc. 8,14-21).
Podemos perceber, então, qual é a
intenção de Marcos ao relatar a cura do surdo-gago.
Os verdadeiros surdos são os discípulos
de Jesus, que, apesar de estarem na companhia do Mestre, ouvirem os seus
ensinamentos e verem a sua prática, ainda não entendem que tipo de Messias é
Jesus. São surdos e cegos. E ainda são gagos: porque não entendem quem é Jesus,
também não conseguem anunciar o seu Evangelho com lucidez.
A cura do surdo-gago se dá na Decápole
(região de dez cidades), situada além do rio Jordão, fora do país da Palestina.
Nesse episódio, essa região representa todos os países estrangeiros para os
quais os discípulos serão enviados para anunciar o Evangelho de Jesus e
continuar a sua obra. Para isso, precisam ser libertados do seu nacionalismo
exclusivista. Devem abrir os ouvidos para acolher a nova proposta de Jesus,
diferente daquela dos escribas e fariseus. Portanto, a narrativa da cura do
surdo-gago é mensagem diretamente dirigida aos discípulos de Jesus no tempo em
que Marcos escreve seu evangelho (ao redor do ano 70), e também é mensagem
dirigida a todos nós, hoje, pois também podemos nos deixar influenciar pela
ideologia dominante, que nos torna surdos aos apelos de Deus e gagos por falta
de convicção e coragem de seguir e anunciar o seu Evangelho.
É importante perceber a maneira como
Jesus cura o surdo-gago. Primeiro, ele o leva para longe da multidão, depois
coloca os dedos nas suas orelhas, em seguida toca-lhe a língua com sua saliva
e, por fim, levanta os olhos para o céu, geme ou suspira profundamente, e
pronuncia a palavra que liberta: “Abre-te”. Esse processo revela que, para ser
discípulo de Jesus, é necessário afastar-se da ideologia dominante que
massifica a consciência; é necessário deixar-se conduzir pela mão do Mestre,
permitir que ele o toque com sua graça e que a vida divina (simbolizada pela
saliva de Jesus) penetre a vida humana. Assim, a pessoa torna-se capaz de
entender Jesus, de viver o seu Evangelho e de anunciá-lo com toda convicção.
Ao ver a prática de Jesus, as pessoas
exclamavam: “Ele fez tudo bem!”. Assumindo a missão que lhe foi confiada, Jesus
alimenta sua íntima amizade com o Pai (com os olhos voltados para o céu) e
permanece solidário com as dores do próximo (geme e suspira profundamente),
indicando-lhe o caminho da vida em plenitude. Assim, ele fazia todas as coisas
bem-feitas. A amizade com Deus e a solidariedade com o próximo são o que
caracteriza o jeito de ser do discípulo missionário de Jesus.
2ª leitura (Tg.
2,1-5): Não fazer acepção de pessoas
A carta de Tiago foi escrita no final
do século I e dirigida às “doze tribos da Dispersão”, isto é, ao novo povo de
Deus formado pelas comunidades cristãs primitivas espalhadas pelo Império
Romano. Percebe-se que, no meio dessas comunidades, existem condutas que não
condizem com o Evangelho de Jesus. Uma delas diz respeito à relação com os
pobres, conforme indicação do texto deste domingo. Até quando se reúnem para as
celebrações litúrgicas constatam-se atitudes de discriminação intoleráveis para
um cristão. Há líderes ou recepcionistas que acolhem as pessoas ricamente
vestidas dando-lhes atenção privilegiada e oferecendo-lhes lugares
confortáveis. Com os pobres, no entanto, o tratamento é outro...
Tiago é um animador cristão que conhece
a maneira como Deus se revelou na tradição de fé judaica: acolhendo e
libertando os oprimidos.
Conhece também o ensinamento de Jesus e
sua proposta do Reino aos simples e pequeninos: “Atentai para isso, amados
irmãos: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé
e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?”. Como seguidor de Jesus,
Tiago não usa de meias palavras ao advertir os membros da comunidade a respeito
dessa conduta que contradiz a fé. Ele se revela como um discípulo que não é
cego, nem surdo e nem gago. Tem clareza e convicção de sua missão. Uma Igreja
fiel ao Evangelho de Jesus não poderá jamais abdicar da opção preferencial
pelos pobres.
Pistas para reflexão
– A fé em Deus manifesta-se no amor às
pessoas que sofrem. Por isso, uma das dimensões que caracterizam a missão da
Igreja no mundo é a dimensão profética. Deve renunciar ao espírito de
poder-dominação para solidarizar-se com as pessoas oprimidas e promover a
justiça. Deve deixar-se conduzir pelo espírito de Deus e anunciar a esperança
militante aos sofredores e abatidos, a fim de que se tornem protagonistas de um
novo mundo. Como a dimensão profética está sendo vivida em nossas comunidades
eclesiais? Que tipo de “acomodações” devem ser rompidas para manter a
fidelidade ao projeto de Deus?...
– Mudar de mentalidade para seguir a
Jesus.
Os discípulos tiveram muita dificuldade
de entender e seguir a Jesus com liberdade e convicção.
Jesus dedicou-se para curá-los de sua
situação de surdos-gagos. Ajudou-os a se libertarem da ideologia dominante e
ofereceu-lhes um novo modo de pensar e de agir. É muito importante que nós
tenhamos consciência de nossa condição de seguidores de Jesus: nós o conhecemos
de fato? Ou o transformamos à imagem de nossas conveniências? Nós o seguimos e
o anunciamos com convicção pelo testemunho de vida, pelas palavras honestas e
pelas ações em favor do próximo necessitado? Em que tipos de discriminações
incorremos hoje em dia? O que nos diz a Palavra de Deus a esse respeito?
Celso Loraschi
Felizes os ouvidos desimpedidos
Uma das experiências
mais doloridas que possamos fazer é a da perda da audição. O surdo ou o quase
surdo vive uma constante inquietação. Não pode participar de conversas
porque tem que ficar sempre pedindo que as pessoas repitam o que disseram.
Vai ficando desconfiado de tudo e de todos. As novidades não lhe chegam…
Está sempre defasado. O evangelho proclamado neste domingo fala de um
“surdo que falava com dificuldade”. O Messias viera, segundo as
Escrituras, para abrir os ouvidos dos surdos e desatar a língua dos
mudos. Podemos ver atrás da trama dessa cura traços do sacramento do batismo.
Jesus se afasta para
fora da multidão. Parece que Jesus faz isso porque vai realizar alguma
coisa que precisa ser vivenciada com interioridade, sem burburinho.
Coloca um gesto concreto: toca os ouvidos e cospe e com a saliva toca a
língua do homem. Não entramos aqui nas explicações exegéticas a respeito
desses pormenores. Jesus, olhando para o céu, quer que o doente
fique curado. Diz “Éfata”, que quer dizer “abre-te”. No
ritual do batismo há esse gesto de tocar os lábios e o ouvido do
batizando. Jesus quer extirpar o mal do mundo e do coração dos homens.
Aquele que é mergulhado na água, que é batizado, que morre a si e nasce para
uma vida nova, que se lava na água do peito aberto de Cristo tem os seus
lábios tocados para que nunca deixe de louvar o Senhor, de cantar suas
palavras. Que não seja mudo para dizer palavras de reconhecimento ao que
destrava a língua. O celebrante do batismo também, como Jesus, toca os
ouvidos…Um dos dramas mais pungentes que um ser humano pode viver é essa
incapacidade de ouvir a voz do Senhor. Ao longo do tempo da vida, aquele
que nasceu da água e do Espírito, ficará em estado de atenção para
ler os desígnios de Deus na trama do cotidiano, na Palavra proclamada, nos
acontecimentos que se sucedem, na voz daquele que está perto de nós.
A cura do surdo e mudo aponta para a renovação do ser humano,
agora em estado de prontidão diante de Deus. “Imediatamente seus ouvidos
se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
Jesus faz tudo bem
feito
Com sua apresentação do
“humanismo” de Jesus (cf. dom pass.), Mc não quer apenas mostrar que
Jesus era um grande filantropo, mas que nesta atitude consiste o
cumprimento do plano de Deus, aquilo que tradicionalmente se chama a
“paz”, o dom de Deus trazido presente por seu Ungido, o Messias.
O evangelho de hoje mostra isso claramente. Chegamos quase ao fim da
primeira metade do evangelho de Mc, em que ele mostrou que em Jesus
há um “quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é
messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje
deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Mc: “Tu és
o Messias” (cf. próximo dom.).
Unindo em uma só pessoa dois defeitos,
a surdez e a mudez, Mc lembra imediatamente o texto de Is 35, lido na 1ª
leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo
messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”,
vislumbrando a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35).
Lembra como Deus “fez tudo bem” no início (Gn 1,31 etc.). Porém, a
intenção de Mc vai mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso
que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir”
(8,14-21!). Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração
para ver o Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela
seu amor. Por isso, Mc insiste quase exageradamente no gesto material com que
Jesus faz seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos,
gemer, dizereffatá, “abre-te” … Não é fácil abrir o homem para o mistério
de Deus.
Ora, se acreditamos que, com Jesus,
chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão
bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um
pouco mais de atenção à Carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo
passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus:
tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª leitura). Então,
para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre.
Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres.
Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que
normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar
pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros.
Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em
ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como
uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A
própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída
pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganismo
desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a
sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo
tomam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele
mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge
divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele …
Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do
rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus
o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu
coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e criança,
frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então,
entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne
melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
padre Johan Konings
"Liturgia
dominical"
Jesus faz tudo bem
feito
Com sua apresentação do “humanismo” de
Jesus, Marcos não quer apenas mostrar que Jesus era um grande filantropo,
mas que nesta atitude consiste o cumprimento do plano de Deus, aquilo
que tradicionalmente se chama a “paz”, o dom de Deus trazido presente
por seu Ungido, o Messias. O evangelho de hoje mostra isso claramente.
Chegamos quase ao fim da primeira
metade do evangelho de Marcos, em que ele mostrou que em Jesus há um
“quê” de messiânico. Na segunda parte, ele mostrará o que exatamente é
messiânico em Jesus e como deve ser entendido. O evangelho de hoje
deve preparar a exclamação de Pedro que inaugura a segunda metade de Marcos:
“Tu és o Messias” (cf. próximo domingo).
Unindo em uma só pessoa dois defeitos,
a surdez e a mudez, Marcos lembra imediatamente o texto de Is. 35, lido na 1ª
leitura, onde a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico.
E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando
a obra messiânica de restauração do paraíso (cf. também Is 35). Lembra como
Deus “fez tudo bem” no início (Gn. 1,31 etc.). Porém, a intenção de Marcos vai
mais fundo. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja
aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de “abrir” (8,14-21!). Jesus
não apenas “faz as coisas bem feitas”, ele abre também o coração para ver o
Reino de Deus, que está aí, onde se faz a sua vontade e se revela seu amor. Por
isso, Marcos insiste quase exageradamente no gesto material com que Jesus faz
seu “trabalho”: impor as mãos, aplicar saliva, elevar os olhos, gemer, dizer
effatá, “abre-te”… Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Ora, se acreditamos que, com Jesus,
chegou o Reino de Deus, não dá mais para voltar para trás. O que ele fez tão
bem feito, nós o devemos continuar fazendo. É hoje o momento para prestar um
pouco mais de atenção à carta de Tiago, cuja leitura foi iniciada no domingo
passado. Ensina o que é o Reino de Deus na prática da Igreja; fazer como Deus:
tudo bem feito. Para Deus não há acepção de pessoas (2ª leitura). Então,
para a Igreja também não. O rico não tem nenhuma precedência sobre o pobre.
Mais ainda. Para mostrar seu amor, Deus escolhe quem mais precisa: os pobres.
Para provar que não rejeitamos ninguém, devemos dar a preferência àqueles que
normalmente são rejeitados. Quem quer provar seu amor por todos deve começar
pelos últimos. É por isso que, no Reino de Deus, os últimos serão os primeiros.
Claro, isso não se deve fazer “para ser visto”, transformando o pobre em
ocasião de ostentação caritativa. Deve ser a expansão espontânea do amor, como
uma mãe espontaneamente consagra atenção maior à criança que mais precisa. A
própria Igreja surgiu, graças a este princípio. Não foi a Igreja constituída
pelos que o judaísmo rejeitou, os “ignorantes”? Pelos que o paganismo
desconsiderou: os escravos, os migrantes, os que não “contavam” para a
sociedade pagã? No próprio evangelho, os sofridos e carentes de todo o tipo
tomam-se os destinatários dos sinais do Reino e seus melhores propagandistas.
Não que Deus seja contra os ricos. Ele
mesmo criou a riqueza para o bom uso. Mas é quanto a esse bom uso que surge
divergência entre Deus e o rico, que acha que Deus fez tudo isso só para ele…
Para poder repartir, a gente sempre deve receber de Deus. Aí está o problema do
rico. Se está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus
o que é graça e gratuidade; perde também a capacidade de abrir sua mão e seu
coração. Por isso, quem é grande e poderoso deve admitir que é pobre e criança,
frágil e carente. Então, Deus poderá consagrar sua atenção também a ele. Então,
entenderá também que deve contribuir para mudar o mundo, para que encarne
melhor a bondade de Deus que ele mesmo experimentou.
padre Johan Konings
Deus não escolheu
os pobres deste mundo para serem ricos na fé
e herdeiros do
reino que prometeu aos que o amam? (Tg. 2,5)
Toda a liturgia da Palavra deste
domingo gira em torno da Salvação de Deus para os homens.
Assim os homens aqui lembrados são os
necessitados de Salvação em todos os tipos de sofrimentos. Uns são de origem
física, outros de origem espiritual, outros originados na natureza inóspita
para a vida, e outros na injustiça que os próprios homens praticam.
No entanto, perante esta visão da
humanidade necessitada de Salvação, a grandeza de Deus salvador é a conclusão
desta contemplação deste mundo de sofrimentos. E, para os cristãos, a figura da
Salvação se apresenta clara: é Jesus, o Salvador, que passou pelo mundo fazendo
tudo bem. E este bem não é um bem qualquer. É o cumprimento das profecias do
passado sobre a chegada do Messias Salvador de Israel e de toda a humanidade.
Nesta obra salvadora, o Pai e o Filho
socorrem e salvam todos os necessitados da Salvação. E esta Salvação não é para
um dia ou dois, mas para sempre no Reino de Deus, para os que Nele confiam
porque somente a Ele amam.
Da Segunda Leitura é que a mensagem da
Liturgia da Palavra deste domingo se esclarece de maneira nítida. São Tiago em sua
epístola defende os socialmente necessitados de salvação. Pode-se dizer que
esta é a epístola da opção preferencial pelos pobres de Deus. Foi São Tiago, de
fato, quem escreveu: “Deus não escolheu os pobres deste mundo para serem ricos
na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam?” (Tg. 2,5)
Não se trata aqui de uma Teologia da
Libertação sem contornos definidos.
Os que Deus salva são os pobres, seja
social seja espiritualmente falando.
Os que Deus salva são os que O amam.
Deus dá aos deserdados, social e
espiritualmente, a participação, como herança, de Seu Reino. Esta é a
realização da bem-aventurança pronunciada por Jesus em Lc. 6,20:
“Bem-venturados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”.
Mesmo que estas afirmações sejam um
resumo da teologia da Liturgia da Palavra deste domingo, esta mesma Liturgia
não deixa de se esclarecer em detalhes. Quem são estes pobres, estes
necessitados da Salvação de Deus?
Segundo a Primeira Leitura são os
judeus oprimidos por pagãos vizinhos de Israel, no tempo do profeta Isaías:
“Vede, é o vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é Ele que
vem para nos salvar” (Isaías 35,4).
Foi assim que, no passado, o Povo
Eleito conheceu o poder do Reino de Deus a se realizar num futuro por Ele
determinado. E este futuro será o da vinda ao mundo do Salvador, Jesus Cristo.
O Novo Povo Eleito, a Igreja, verá realizada esta profecia de Isaías na pessoa
de Jesus.
O Salmo Responsorial reforça esta
compreensão da Salvação no Reino de Deus: “Ó Sião, o teu Deus reinará para
sempre e por todos os séculos!” [Sl. 145(146),10].
Toda Sião, imagem do Povo Eleito
inteiro, é que terá a certeza de que a Salvação de Deus não virá somente para
um dia. Será eterna. E para qual tipo de necessitados?
O Salmo os enumera:
- aos oprimidos pelas injustiças
humanas, Deus, o Rei de Israel fará a justiça [Sl 145(146),7a].
- aos famintos, Deus, o Rei de Israel,
saciará a fome [Sl. 145(146),7b].
- aos cativos, Deus, o Rei de Israel,
dará a liberdade [Sl. 145(146),7c].
- aos cegos, Deus, o Rei de Israel,
dará a visão [Sl. 145(146),8a].
- aos caídos, Deus, o Rei de Israel,
dará apoio e firmeza [Sl. 145(146),8b].
- aos estrangeiros, Deus, o Rei de
Israel, manifestará seu amor [Sl. 145(146),9a].
- das viúvas e órfãos, Deus, o Rei de
Israel, será o amparo [Sl. 145(146),9bc].
Quando estas promessas e profecias se
tornaram realidade?
Isto o vemos no Evangelho de hoje.
Um homem surdo e com deficiências de
fala foi levado a Jesus.
Ele o curou com poucos gestos
acompanhados pelas pessoas presentes.
E as pessoas presentes deram este
testemunho de Jesus: “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e
aos mudos falar” (Mc. 7,37).
Qual profecia antiga se realizava neste
momento pela cura do surdo-mudo por Jesus?
Encontramos uma pista em Mt. 11,4-5:
“ide contar a João [Batista] o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a
vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os
mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”.
Ora, todas estas curas, ressurreições e
evangelização dos pobres são realização da profecia feita por Isaías 61,1: “O
Espírito do Senhor está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu; enviou-me
para dar a Boa Nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção
para os cativos e a libertação dos que estão presos”.
Mesmo que esta passagem de Isaías não
contenha todas as palavras que encontramos acima em Mt. 11,4-5, os evangelistas
viram em Is. 61,1 realizado em Jesus, confirmando sua condição do Messias
esperado por Isaías e por outros profetas.
O Reino de Deus anunciado e inaugurado
por Jesus é a Boa Nova profetizada por Isaías.
No Reino de Deus os pobres encontrarão
sua herança eterna e não passageira.
No Reino de Deus, já presente nesta
vida terrena, mas pleno no céu, vemos realizado o que disse o Salmo
Responsorial de hoje:
“Ó Sião, o teu Deus reinará para sempre
e por todos os séculos!” [Sl 145(146),10].
padre Valdir
Marques, SJ
Jesus percorre um território pagão ao
sair de Tiro até chegar à Galiléia. Ali, Ele cura um homem pagão surdo-mudo, e
esse milagre simboliza a libertação das pessoas, pois com os ouvidos e a boca
abertos elas são capazes de ouvir, falar, discernir a realidade, criticar a
situação que oprime e fazer o anúncio.
O homem surdo-mudo não vem sozinho até
Jesus, mas é trazido por outras pessoas. Jesus o tira do meio delas para que
ele tenha um encontro pessoal com o Senhor e se sinta responsável, após o
milagre, pela Boa Nova, anunciando que verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus.
O profeta Isaías assim falava sobre o
Messias, (Is. 35,5-6): “Então os olhos dos cegos enxergarão e os ouvidos dos
surdos se abrirão.” Porém não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo e
sim sua palavra, embora Marcos insista exageradamente nos gestos materiais com
que Jesus realiza a sua missão como imposição das mãos, pois, é o próprio Deus
cuidando diretamente daquele que foi privado da vida; usando a saliva que era
considerada como tratamento; elevando os olhos aos céus; suspirando como
indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas
e fechadas à Palavra de Deus, e dizer Efatá, que significa ‘abre-te’. Ele toca
primeiro os ouvidos e depois a boca, primeiramente para ouvir e compreender e
depois anunciar a Palavra sem dificuldades.
Os milagres que Jesus realiza confirmam
as profecias do Primeiro (Antigo) Testamento.
O evangelho de Marcos se destina a
pagãos dispostos a abraçar a fé. A expressão ‘Efatá’ fazia parte da liturgia
batismal da Igreja primitiva para aqueles que iniciavam a caminhada de
discípulo.
No rito do Batismo, o celebrante toca a
boca e os ouvidos do batizando e diz: “O Senhor Jesus que fez os surdos ouvirem
e os mudos falarem, te conceda que possas logo ouvir a Palavra e professar a fé
para louvor e glória de Deus Pai.” Pais e padrinhos devem instruir a criança na
fé pela escuta da Palavra e ela deve ser educada para expressar essa mesma fé
na oração e na vida.
A desobediência aos ensinamentos torna
os homens e as mulheres surdos-mudos, pessoas incrédulas e fechadas ao
conhecimento da Palavra de Deus e da Vida, e quando se abrem para a leitura e a
proclamação dos ensinamentos de Jesus, reconhecem que Deus é o mais importante
na vida.
A cura da surdez e do mutismo significa
nas Escrituras a iniciação à fé. Jesus comunica vida nova! É preciso aprender a
ouvir para poder acreditar e proclamar, pois a fé vivida faz o cristão atento
ao cumprimento da verdade. Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.
Todo discípulo sente a necessidade
desta cura, para receber o dom da fé, abrir seu coração para o que Deus quer
chamar, para entender o que Deus quer falar e para proclamar os ensinamentos de
Jesus.
O pedido de sigilo que Jesus faz é para
se proteger dos seus perseguidores e para preservar sua missão. Não se trata de
uma proibição, pois quanto mais Ele recomendava, mais o povo falava.
Pequeninos
do Senhor
Jesus revela o rosto misericordioso de Deus
Jesus atravessa as
aldeias, passa pela vida de cada um de nós praticando o bem, revelando o rosto
misericordioso de Deus, fazendo sentir seu imenso amor e suscitando em cada um
a fé na vida. O território é pagão, modo de o texto afirmar o chamado dos
gentios à salvação. Apresentam a Jesus um homem surdo e com dificuldade de
falar. Um surdo-mudo é incapaz de se comunicar por palavras, por isso, é
excluído da vida social.
A sua situação é
humilhante, uma vez que não compreende o que é dito nem pode responder. O seu
mal está na sua surdez: ele é mudo porque é surdo. Algumas pessoas levam o
homem até Jesus. Quem são os que conduzem a Jesus o surdo que tinha muita
dificuldade em falar, o texto nãos nos diz. No entanto, há de supor que se
trate de pessoas que creem no poder de Jesus, pois pedem que o Senhor imponha
as mãos sobre ele. Jesus age com discrição, levando o homem à parte, longe da
multidão. Jesus não busca o sucesso, nem impressionar. Ele quer somente fazer o
bem; e o bem, fruto do seu amor, é silencioso e discreto. Jesus toca os ouvidos
do homem com os dedos. Os dedos transmitem o poder (cf. Ex. 8,15) que abre os
ouvidos (cf. Sl. 40[39],7). A propriedade terapêutica da saliva, sobretudo,
cicatrizante, já era conhecida na antiguidade. É do céu que vem a ajuda, por
isso, Jesus olha para o céu, e o seu “gemido” é expressão da súplica a Deus
(cf. Rm. 8,26).
Os gestos são
acompanhados da palavra que liberta: “Abre-te!”. A palavra dá o significado dos
gestos. A cura remete o leitor ao advento messiânico em que a realidade é
transformada (cf. Is 35,5-6). Agora, o homem pode ouvir e falar corretamente.
Jesus pede discrição sobre o acontecido. É o que, em Marcos, se chama o
“segredo messiânico”. O enorme espanto que se apossa da multidão a faz dizer
algo que evoca o relato da criação (Gn. 1,10.12.18.21.31): “todo ele tem feito
bem”. Em Jesus Cristo se dá, efetivamente, uma nova criação, pois ele devolve à
criatura a possibilidade de reconhecer que Deus fez tudo bem.
Carlos Alberto Contieri,sj
O Evangelho deste domingo apresenta-nos
um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que ele o cure.
Quem é o surdo-gago? É a humanidade,
enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz. Surda, porque incapaz
de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração: “tem
ouvido para ouvir, mas não ouve” (Jr. 5,21; cf. Mt. 13,14-15).
Esta é a tendência do coração humano,
que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que
Deus nos faz, de um caminho com ele, a tendência de nos fechar em nós e viver a
vida como se fosse nossa de modo absoluto: “Escutai, prestai ouvidos, não
sejais orgulhosos, porque o Senhor falou!” (Jr. 13,15); “Ah! Se meu povo
me escutasse, se Israel andasse em meus caminhos... Mas meu povo não ouviu a
minha voz, Israel não quis saber de obedecer-me; então os entreguei ao seu
coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!” (Sl. 81/80,14.13).
Assim, no fundo, é o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a
resistência em realmente levar a sério o primeiro mandamento: “Ouve, ó Israel!”
(Dt. 6,4).
Nossa civilização ocidental tem sido particularmente
fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida
privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente
ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os
especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos...
mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas
e psicólogos, é o Paulo Coelho, são os livros de auto-ajuda... Somos uma
geração de surdos!
Ora, se somos surdos, também não
podemos falar com clareza: nossas idéias são embotadas, nossos debates, nossas
palavras, não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não
podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe
de onde vem e para onde vai. A comunicação se torna oca, alienada e alienante.
Basta observar o que os meios de comunicação veiculam! Por isso, Jesus cura
primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o
Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de
Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a
esperança eterna!
Sigamos os detalhes da narração de
Marcos: (1) Trouxeram o homem surdo-gago para que Jesus o curasse. “Jesus afastou-se
com o homem para fora da multidão” – bem ao contrário dos curadores
pentecostais de televisão, que exploram seus “milagres” e “curas” como shows,
Jesus procura evitar todo sensacionalismo: ele quer encontrar-se realmente com
aquele homem, pessoa a pessoa, quer que aquele homem o descubra como sua
salvação; (2) “Em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a
saliva tocou a língua dele” – o homem, sendo surdo, somente poderia compreender
a linguagem dos símbolos, dos sinais; é a que Jesus empregou: toca os dedos
que, para os antigos, transmitiam poder (cf. Ex. 8,15) e, depois, toca sua
língua com a saliva, significando o dom do Espírito que cura e liberta. Para os
antigos, a saliva era o Espírito em estado líquido (a idéia é estranha, mas é
preciso que nos transportemos para o modo de pensar semítico)! (3) “Olhando
para o céu, suspirou e disse: ‘Ephatà’”. Assim, Jesus indica que a salvação que
ele traz procede do Pai, que o enviou. Mais ainda: ao suspirar, ao gemer, ele
exprime sua compaixão, sua dor pela situação humana; (4) “Imediatamente seus
ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem
dificuldade”. Somente Jesus, com o poder do seu Espírito, pode curar o homem de
seu fechamento para escutar e para proclamar. Sim, porque também nossa geração
cristã é, muitíssimas vezes, covarde para proclamar, para professar sem medo e
respeito humano nossa fé. O cristão ou é testemunha ou não é cristão: “Não
podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Nós somos testemunhas
destas coisas, nós e o Espírito Santo” (At. 4,20; 5,32).
Este caminho do surdo-gago é urgente
para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus (= crer nele de verdade)
e falar dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade
atual encontrará a paz que tanto almeja. Somente em Cristo aquilo que a
primeira leitura vislumbra e anuncia de modo tão belo, pode realizar-se: “Dizei
às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que
vem; é ele que vem para salvar!’ Então se abrirão os olhos dos cegos e se
descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a
língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no
ermo. A terá árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes
d’água” – Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem,
quando ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria!
Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua
soberba – nós, fechados na nossa auto-suficiência e no nosso comodismo! –
jamais vai experimentar isso!
Para acolher na alegria e simplicidade,
é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-gago, que procurou Jesus,
para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se
reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e
recebê-la do Senhor! Daí a lembrete de são Tiago: “Não escolheu Deus os pobres
deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o
amam?” São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os
pobres... porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar
dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades
para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de
Deus! Com nossas posses e nossas seguranças, apoiamo-nos em nós mesmos,
tornando-nos surdos e mudos para o Senhor! O pobre é profético sempre, porque
recorda o que nós somos e, quando descobrimos isso, podemos ser curados de
nossa auto-suficiência surda e libertados de nossa preguiça muda. O salmo da
Missa de hoje canta exatamente esta experiência: Deus salva o pobre, o pequeno,
o desvalido!
Se o pobre é sempre profeta, sempre uma
palavra de Deus ao nosso lado e, mais ainda, é presença do próprio Cristo, que
sendo rico se fez pobre (cf. 2Cor. 8,9) - “O que fizestes ao menor dos meus
irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25,40) -, então, o nosso modo de tratar o pobre,
de ver o pobre, de nos aproximar do pobre – seja pessoal, seja comunitariamente
– diz muito daquilo que nós e nossa Comunidade somos em relação a Deus; diz
muito dos nossos critérios: se são segundo Deus ou segundo nosso coração
mundano!
Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira;
faça-nos atentos à sua Palavra e ao seu testemunho; dê-nos olhos para
reconhecê-lo nos irmãos, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for...
sobretudo os pobres, social e economicamente falando!
dom Henrique Soares
da Costa
Hoje a santa Palavra do Senhor nos fala
de um Deus que vem. E ele vem sempre, amados! Vem porque está entre nós na
potência do seu Santo Espírito, que age constantemente nos sacramentos da
Igreja, que proclamam a Palavra da Salvação e tornam realidade essa Palavra
salvífica! Eis, portanto, nosso Deus vem, vem sempre no seu Filho Jesus pleno
do Santo Espírito. E quando ele vem, a nossa sorte muda: “Criai ânimo, não
tenhais medo! Vede, é vosso Deus: é ele que vem para vos salvar! Abrir-se-ão os
olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um
cervo e se desatará a língua dos mudos... brotarão águas no deserto e jorrarão
torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta,
em fontes d’água”. Ó caros! Não é coxo o mundo atual, não é cego, não é seco?
Vede ao redor em que tem se tornado a nossa existência! Tanto mais o homem se
feche para Deus, tanto menos vive, tanto menos se realiza, tanto menos é
feliz... E, no entanto, se nos abrirmos, se nos deixarmos curar, o Senhor
transformará a nossa pobre vida: nossa surdez será curada e escutaremos a doce
voz do Senhor que nos guia, nossa mudez transformar-se-á em canto de exultação
e da sequidão do nosso coração sem vida, a água fresca e vivificante brotará em
abundância! Humanidade dura e teimosa, a nossa, que procura vida sem Deus e não
encontra a não ser desilusão! Pois bem, caríssimos, é de paz, é de vida, é de
felicidade que o Senhor nos fala hoje, nos fala sempre nos anúncios dos
profetas! E o que eles anunciaram para os tempos do Messias, tempos de
salvação, o Senhor Jesus realiza em plenitude: hoje, no Evangelho que ouvimos,
ele coloca os dedos nos ouvidos dum surdo-mudo e, com a saliva, toca-lhe a
língua. Que significa esse gesto? A saliva, para os judeus, era o ar feito
líquido. Assim, Jesus dá seu Sopro, seu Espírito ao homem. Agora aquele
zé-ninguém, aquele surdo-mudo de vida semi-humana é homem novo: pode ouvir o
Senhor, pode proclamar suas maravilhas! Mas, não é isso que somos? Não é isso
que devemos testemunhar com a nossa vida?
Recordam, irmãos amados, do rito
batismal, quando o sacerdotes traçou o sinal da cruz nos nossos ouvidos e nos
nossos lábios, repetindo o gesto de Jesus? Recordam quando ele exclamou:
“Efatá!”, como o próprio Jesus, naquele tempo? Recordam? Surdos curados por
Jesus, é o que somos; mudos libertados pelo Senhor, é a nossa realidade! Agora
curados, aprendamos a escutar realmente a palavra e os apelos daquele que nos
curou; agora libertos, proclamemos ante o mundo incréu as maravilhas daquele
que nos livrou e nos chamou das trevas para a sua luz admirável! Somos novos em
Cristo, somos novas criaturas! Externemos essa realidade com nossa vida pessoal
e comunitária! Ó cristão, quantas vezes será necessário exortar-te a viver de
acordo com aquilo que tu és? Por que és frouxo, por que covarde, por que sem
entusiasmo, por que omisso, por que és duro e surdo para a voz do teu Senhor?
Por que, caríssimos meus, o nosso modo de viver não impressiona? Por que nosso
testemunho do Senhor não contagia os outros? Por que nossas ações não iluminam
o mundo em trevas? Porque fugimos do Senhor, porque não deixamos que ele nos
toque, nos cure, nos liberte! Sufocamos a graça recebida no batismo! E
como a sufocamos? Pela vida frouxa, pela existência displicente, que não
leva a sério realmente a ação libertadora do Senhor em nós!
Somos novos de uma nova vida! Novos,
cada um de nós; novos, nós todos como Igreja! Somos a comunidade dos que
experimentam essa vida nova, dos que vivem já neste mundo o sonho de um novo
modo de existir. Não se trata, meus caros, de um ideal sociológico ou
simplesmente humanístico: o motivo da vida nova é o Cristo de Deus que, nos
dando o seu Santo Espírito, faz-nos criaturas novas, capazes de viver no seu
amor e do seu amor. A Igreja é isso: uma comunhão brotada do amor do Cristo – e
este amor é o Santo Espírito. Uma comunidade que vive neste Espírito, que não é
o do mundo, que não é o da esquerda festiva ou da direita egoísta, do centro
omisso ou dos extremos exaltados... Nossa vida, nossa inspiração, nossa força é
o Espírito no qual o Pai e o Filho se amam e se dão! Pois bem! Uma comunidade
que vive nesse Espírito não admite discriminações injustas, não admite o
desprezo de uns pelos outros, sobretudo dos seus membros mais frágeis e pobres.
Uma comunidade “espiritual” julga segundo os critérios do Evangelho e descobre
que aquilo que para o mundo é frágil, é perdido, é sem valor, na verdade é o
que há de mais precioso aos olhos de Deus: “Meus queridos irmãos, escutai: não
escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino
que prometeu aos que o amam?” Aqui não se trata de bom-mocismo, de uma
filantropia meramente humana; trata-se, antes, de uma consciência que brota da contemplação
do próprio modo de agir de Deus: ele ama o miserável porque é misericordioso,
ele se volta para o pobre, de qualquer pobreza que seja, porque nos ama
gratuitamente, e lhe apraz retirar o pobrezinho do monturo e elevá-lo com os
nobres do seu povo! Neste sentido, São Tiago nos chama atenção para uma
realidade bem concreta, palpável em cada geração: são os pobres, os débeis, os
fracos que mais têm fé, que mais se abandonam no Senhor. Quem enche nossas
igrejas? Quem é mais generoso para com Deus? Quem mais se esforça para levar a
sério os preceitos do Senhor? Quem mais teme a Deus? Em geral, os pobres, os
sofredores, os desvalidos! E por quê? Porque ali, na humana miséria, podemos
ver sem máscaras aquilo que somos o tempo todo: pobres! Ainda que não queiramos
admitir, somos todos pobres, todos necessitados, todos dependentes diante de
Deus. Precisamente aqui está a grande bem-aventurança: ser pobre diante de
Deus. E são os pobres do mundo e os pobres de nossas comunidades quem melhor
nos lembram isso! Olhemos os pobres e vejamos o que somos; sirvamos e honremos
os pobres, e serviremos e honraremos aquele por quem e para quem somos!
Neste sentido, a segunda leitura deste
hoje é um sério convite a que nos perguntemos sobre como nossa comunidade e
nossa casa se comportam em relação aos pobres e carentes do mundo. Damos-lhe
atenção? Preocupamo-nos com eles? Uma comunidade cristã – a de casa, da
paróquia ou do grupo e movimento de Igreja – que não abra o coração para os
pobres, não é comunidade cristã! É incômodo isso que eu digo; mas, é a verdade
da Palavra de Deus, que não pode ser maquiada nem domesticada! Nosso
comportamento em relação aos pobres definirá nossa situação para sempre diante
de Cristo no Último Dia! Disso não tenhamos a mínima dúvida! Portanto, ouçamos
e tremamos!
Calem no coração as
palavras que o Senhor hoje nos dirigiu. E que esta Eucaristia cure nossa
surdez, desate nossa língua e converta o nosso coração.
dom Henrique Soares
da Costa