1º DOMINGO ADVENTO
27 de Novembro de 2016-Ano A
1ª Leitura - Is 2, 1-5
Salmo - Sl 121
2ª Leitura - Rm 13,11-14a
Evangelho - Mt 24,37-44
FICAR ATENTO E PREPARADO significa estar prevenido, ligado na
parada, não descuidar, pois a qualquer momento pode ser o nosso fim. E não
podemos estar em pecado nesse instante último da nossa vida.
========================================
“... NA HORA EM QUE MENOS PENSAIS, O FILHO DO HOMEM VIRÁ.”- Olivia
Coutinho
1º DOMINGO DO ADVENTO
DIA 27 de Novembro de 2016
Evangelho de Lc21,37-44
Iniciamos hoje o tempo do advento! Um tempo de profunda
espiritualidade que deve ser marcado pelo o nosso desejo de conversão, algo
fundamental para quem deseja fazer do seu coração uma manjedoura para acolher
Jesus!
Sem um retorno de todo o nosso ser a Jesus, não tem como vivermos o
verdadeiro sentido do Natal!
O tempo do advento, não se limita na preparação para o Natal, pois
enquanto nos preparamos para esta grande festa, estamos nos preparando também,
para a segunda vinda de Jesus que pode acontecer a qualquer momento.
A liturgia deste tempo, nos insere em toda a história da salvação,
levando-nos a reviver a mesma esperança da vinda do Messias, vivida pelo povo
de Deus no início da história, com uma só diferença: o Messias tão esperado por
aquele povo, já veio, já está entre nós!
O advento é um tempo propício para nos reconciliarmos com Deus, o
que fazemos, quando reconciliamos com o nosso irmão!
Neste tempo de espera, de nascimento e de renascimento, o
nosso coração se rejubila torna maleável aberto para acolher Jesus que
vem reacender em nossos corações, a chama da esperança, uma esperança, que
transcende às coisas materiais, porque inclui uma visão de mundo, onde
ainda é possível haver justiça, paz e amor, valores que mantém o equilíbrio da
vida.
O evangelho que a liturgia deste Domingo nos apresenta, nos
convida a refletir quanto à consciência que devemos ter do nosso tempo de vida
terrena, é importante conscientizarmos de que este nosso tempo
presente deve ser um tempo bem vivido, pois ele é o único espaço sagrado
que Deus nos concede para buscarmos em Jesus, o nosso encontro
definitivo com Ele.
O texto vem nos acordar para uma realidade que ninguém pode fugir:
a certeza da nossa morte. Quanto ao dia e hora da nossa passagem, Deus preferiu
ocultar de nós, Jesus só nos deu uma pista: se trata de
algo inesperado, o que pode nos deixar apreensivos, no entanto,
para quem vive de acordo com a vontade de Deus, o dia e a hora não
importa, o importante é estar o tempo todo em sintonia com Deus, ciente
de que há uma vida melhor por vir, uma vida em
plenitude que é a vida eterna!
No texto escolhido
para marcar o início deste Advento, Jesus exorta os
discípulos, sobre a importância de uma constante vigilância, fazendo
menção ao tempo de Noé, no sentido
de recomendá-los para que eles não se distraíssem com as
coisas do mundo, como fizeram as pessoas antes do dilúvio, e esquecerem
do principal, que é a busca pela santidade!
As palavras
de Jesus, respondem as indagações de muitos que ainda
hoje perdem tempo buscando explicações sobre o fim dos tempos, ao
invés de aproveitarem bem, este precioso tempo na preparação para a vida
futura!
A mensagem de
Jesus, que chega até a nós no dia de hoje, não é ameaçadora, pelo
contrário, é uma mensagem encorajadora, pois o nosso futuro, depende do nosso
comportamento de hoje, de não desperdiçarmos a graça de Deus.
“Dois homens
estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado.” Como
será o critério desta seleção de pessoas? A resposta está
na diferença de suas atitudes, duas pessoas, podem até estarem juntas
fisicamente, mas buscando diferentes horizontes, há os
que se preparam para a vida futura vivendo de acordo com a vontade
de Deus, como há também, os que estão alheios a sua vontade. Os que
não estiverem preparados no momento da vinda do Senhor, perecerão,
enquanto que, os que estiverem preparados serão levados para junto do Pai.
Jesus
nos alerta sobre a importância de estarmos atentos, vigilantes o tempo
todo, o que não significa ficarmos apáticos, parados, pelo
contrário, devemos esperar por sua segunda vinda, no exercício
da nossa missão, no lugar onde fomos plantados por Deus, para produzir
frutos!
Que neste tempo de
preparação para o Santo Natal, o nosso coração seja inundado por um amor
que liberta, que nos torna flexíveis, dóceis a ponto de nos transformar em
sinal vivo de Jesus no meio em que vivemos.
Deixemo-nos tocar e
nos envolver pelo advento do Senhor Jesus, redescobrindo a alegria, o sentido
da fé e do viver segundo a vontade de Deus.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de
reflexão no Facebook
=========================================
Perspectiva cristã
do tempo e do mundo
O ensinamento deste domingo brota tanto
do texto das leituras quanto do seu lugar no início do ano litúrgico:
orientando-nos para o Senhor que vem, esboça a perspectiva global do “tempo
cristão”. Desde o início nos é apresentada a perspectiva final: a vinda do
Filho do Homem (evangelho). Nesta perspectiva, porém, não dominam ameaça e
medo, e sim, a luz orientadora para nosso caminho: “A ti, Senhor, elevo
minh’alma” (canto da entrada).
Para entender o espírito do advento e
da escatologia cristã é preciso ver a relação entre a espera do Messias (A.T.)
e a expectativa cristã. A espera veterotestamentária do Messias (Cristo)
prefigura a expectativa cristã do “Senhor que vem”, na “segunda vinda” (no fim
dos tempos), e, sobretudo, cada dia (no encontro de cada um e de toda a
comunidade com Jesus, Senhor de nossa vida). Por isso, podemos “acorrer ao
encontro do Cristo que vem” (oração do dia).
Neste e nos próximos domingos aparecem,
nas leituras de Isaías, as “utopias do Antigo Testamento”, imagens daquilo que
se espera de Deus quando vier o seu Cristo-Messias (1ª leitura). O Messias
implantará a “paz” (= harmonia e felicidade) no monte santo, ao qual todas as
nações, inclusive nós, somos convidadas a subir com alegria. Consideremos: 1) a
utopia: transformar lanças em foices... tanques de guerra em tratores...; 2) o
“caminhar”: o passo que nós fazemos, nossa participação ativa na salvação que
vem de Deus. O salmo responsorial dá eco a isso: subir ao recinto do tempo,
caminhar para o lugar onde habita Deus e onde está a sua paz.
A 2ª leitura acentua que corremos ao
encontro do Senhor não de mãos vazias, mas com as nossas boas obras como
presente a oferecer. Levantar-nos de nossa imobilidade, revestir-nos de Cristo.
Nossa participação na salvação que vem de Deus é uma participação prática,
ética. Os dons que de Deus recebemos transformam-se, assim, em antecipação da
realidade escatológica e nossa vida (oração sobre as oferendas), enquanto
caminhamos entre as coisas que passam rumo às que não passam (oração final).
Tal é a perspectiva cristã da vida e do
mundo: revivendo a sempre atual expectativa messiânica (isto é, da salvação que
vem de Deus), animamo-nos a assumir, por nossa parte, uma atitude ética
renovadora, que transforma nós mesmos, nossa sociedade e o mundo.
A vinda de Cristo
Estamos iniciando um novo ano
litúrgico, o ano A (do ciclo trienal da liturgia dominical), no qual os
evangelhos, via de regra, são tomados de Mateus. As quatro primeiras semanas do
ano litúrgico chamam-se Advento, termo que significa ‘vinda’: a vinda de
Cristo. Todavia, não se trata da lembrança apagada de um fato ocorrido há dois
mil anos atrás. Avinda de Cristo tem atualidade ainda hoje.
A 1ª leitura recua longe para olhar
melhor: descreve a visão “utópica” de Isaías, por volta de 700 a.C: todos os
povos se unirão em tomo do templo de Jerusalém. As armas serão transformadas em
instrumentos agrícolas. Haverá paz... Setecentos anos depois, a primeira vinda
de Cristo marcou o irreversível início da realização desse “projeto” de Deus.
Sua nova vinda, no fim dos tempos, marcará o ponto final. O evangelho fixa
nossa atenção nesta nova vinda. Não podemos viver dormindo. Devemos viver em
estado desperto, à luz do dia de Cristo, para que ele sempre nos possa
encontrar dispostos para a vinda de incansável caridade que ele nos ensinou (2ª
leitura).
Jesus veio inaugurar o projeto
definitivo de Deus para o mundo. Ele será também o juiz da História na sua
vinda final. Esse projeto de Deus, que Jesus veio inaugurar e que ele julgará,
é comunitário. É a constituição de um povo de Deus, formado por todas as
nações, dispostos a praticar a justiça e a caridade fraterna. Para que isso se
realize, deve acontecer uma transformação histórica. Nós devemos dar os
necessários passos históricos, para que o plano de Deus chegue até nós:
preparar, pela transformação de nossos corações e de nossa sociedade, a
plenitude que vem de Deus. Nossa participação no projeto de Deus consiste em
tornar nossa sociedade “digna” de uma nova vinda de Cristo. Nisto se inserem,
além de nosso empenho pessoal, os passos da comunidade para maior
solidariedade: mutirões, cooperativismo etc.
O Cristo vem também, cada dia, na vida
de cada um. Que ele nos encontre comprometidos com a construção da História
como ele a “sonhou” e com os critérios que ele usará para julgar: o amor aos
mais pequenos dos irmãos, sustentado pela oração, na qual expomos nossa vida
diante dele. Atentos às coisas do Senhor, teremos paz profunda e seremos
capazes de dedicação total na alegria, no trabalho e na luta.
Johan Konings
"Liturgia dominical"
Hoje inicia-se o ano litúrgico A, tempo
que tem como pano de fundo o Evangelho de Mateus.
Todo ano litúrgico
inicia-se com o Advento, que são quatro semanas de preparação para o Natal. Se
o Natal é tempo de amor, de fraternidade e de paz, o advento deve ser o tempo
de semear, de preparar o coração de cada cristão para essa grande festa da
chegada do Salvador.
O povo de Deus vive
em constante Advento, antes da vinda de Jesus. Esse tempo era de espera por Sua
chegada, mas Ele veio e nem todos O reconheceram. Hoje, porém, a espera é pela
volta de Cristo e, cabe a cada cristão permanecer vigilante para reconhecer Sua
chegada.
O texto do Evangelho
de hoje, escolhido para marcar o início do Tempo do Advento, é parte do
capítulo no qual Mateus descreve o discurso proferido por Jesus voltado para o
futuro, que fala sobre as revoltas e as batalhas, e acreditava-se que isso
estava indicando o fim do mundo.
Jesus responde à
pergunta dos apóstolos sobre o momento em que ocorreria o final dos tempos: na
primeira parte de sua fala, depois de descrever os sinais que precederiam a
vinda do Filho do Homem, Jesus esclarece que o momento de sua vinda não era
conhecido por ninguém, somente pelo Pai. E aproveita para exortá-los sobre a
necessidade de se prepararem.
A lembrança de Noé
traz uma recomendação: não se distraiam com as coisas da vida e do mundo,
esquecendo-se de que o mais importante é a busca, o anúncio e a prática do
amor.
Qual terá sido o
critério para a seleção das pessoas, se ambas faziam a mesma coisa? A resposta
está em como as pessoas agem, há quem vive o presente preparando o futuro, e há
quem não aprendeu nada com a história, e não sabe viver o presente.
É preciso permanecer
consciente porque não se sabe quando Deus irá pedir contas. Por isso os que não
estiverem preparados perecerão como quando ocorreu o dilúvio. Diante do
desconhecimento do dia e da hora em que virá o Filho do Homem, a única atitude
deve ser a de vigilância constante, lembrando-se sempre de que os tempos de
Deus não são os nossos. O que compete a humanidade é estar atento a todo
momento, com uma única e inevitável preocupação: “amar”. Só assim se tem a
certeza de estar vivendo a vontade do Pai.
Pequeninos do Senhor
Prontos para
receber o Senhor
O tempo litúrgico do Advento
convida-nos à preparação para acolher o Senhor que vem. O apelo insistente da
Igreja questiona a tendência dos cristãos a serem acomodados, quando não
contaminados pela mentalidade mundana, centrada na busca desenfreada do prazer
e na consecução de interesses pessoais.
Desconhecendo o dia e a hora em que o
Senhor virá, o discípulo deve estar sempre pronto para recebê-lo. A prontidão
cristã é feita de pequenos gestos de amor, na simplicidade do quotidiano. Nada
de ações mirabolantes nem de tarefas heróicas a serem cumpridas! Exige-se do discípulo
apenas amor sincero e gratuito a Deus e ao próximo.
O episódio bíblico acerca da figura de
Noé e do dilúvio ilustra a atitude contrária àquela do discípulo do Reino. A
devastação diluviana tomou de surpresa a humanidade. Ninguém, além de Noé e de
sua família, deu-se conta do que estava para acontecer. Por isso, comia-se,
bebia-se e se celebravam bodas, na mais total ignorância da fúria destruidora
da natureza que se abateria sobre a terra.
O Senhor espera encontrar os discípulos
do Reino vigilantes, quando de sua chegada. A menor desatenção pode revelar-se
perigosa. Por isso, o egoísmo jamais poderá ter lugar no coração de quem quer
ser encontrado pelo Senhor. Só existe uma maneira de preparar-se para este
momento: amar.
padre Jaldemir
Vitório
Atitude de vigilância
O primeiro domingo do
Advento é o início do ano litúrgico. Para os cristãos, é o verdadeiro “ano
novo”, pois a nossa vida de fé é marcada e ritmada pela celebração do Mistério
de Deus. O Advento é tempo de preparação para o Natal; tempo que deve ser
vivido numa dupla atitude: intensificar a leitura e a meditação da Palavra de
Deus e a penitência.
O texto da liturgia
de hoje é parte do discurso escatológico de Jesus (Mt. 24,1–25,46); discurso
sobre o fim. Entenda-se fim não como término, mas como aquilo que é definitivo
para a existência humana. Normalmente, a linguagem utilizada para este tipo de
discurso é a apocalíptica, que tem um tom um tanto dramático e, por vezes,
causa certo medo nas pessoas que não ultrapassam o sentido primeiro do texto.
Em nosso caso, o discurso é exortação aos discípulos a colocarem a sua
confiança naquilo que não passa. O precursor deste tipo de linguagem na Bíblia
é o livro de Daniel (Dn. 7–12), escrito em meados do segundo século antes de
Cristo.
A evocação do tempo
de Noé e o dilúvio servem para colocar os discípulos, destinatários do discurso
(cf. Mt. 24,1), de alerta e para os convidar a uma atitude de engajamento e
coerência com sua vocação cristã. O dilúvio, como evento de purificação, é água
divisora entre um antes e um depois. Parece que o dilúvio os faz abrir os olhos
quanto ao modo como viviam: nada percebiam, “até que veio o dilúvio e arrastou
a todos” (v. 39). A vida do ser humano não se encerra nos limites da história,
nem se resume em comer e beber, nem em procurar “aproveitar a vida”. Na
descrição sumária do tempo de Noé, Deus não aparece; é como se ele não contasse
para nada. A excessiva preocupação com questões relativas à vida de cada dia e
com o bem-estar pode não só nos distanciar das coisas do céu, como também nos
fazer prescindir do próprio Deus ou até ignorar sua presença. A história do
tempo de Noé, antes do dilúvio, serve para ilustrar esta situação e interpelar
os discípulos a que mantenham a vida referida a Deus. A fé em Deus exige uma
vida conforme a sua vontade: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor!,
entrará no Reino dos céus, mas o que faz a vontade do meu Pai que está nos
céus” (Mt. 7,21). A vida de quem crê deve ser a expressão da fé que ele
professa e do Deus em quem ele põe a sua esperança e confiança. O principal é
buscar o Reino de Deus, que antecede todas as coisas, e por Deus o necessário é
dado (Lc. 12,22-31).
A imprevisibilidade
da vinda do Filho do Homem exige uma atitude diferente das pessoas do tempo de
Noé, anteriores ao dilúvio (cf. v. 39b-41). A atitude requerida é a da
vigilância (cf. v. 42). Vigilância é trabalho de discernimento, é empenho na
atividade cotidiana que engaja o homem na sua missão, fruto do seguimento de
Jesus Cristo. “É hora de despertarmos do sono”, diz Paulo, “abandonemos as
obras das trevas, e vistamos as armas da luz; procedamos honestamente como em
pleno dia […]. Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm. 13,11-14).
Carlos Alberto Contieri,sj
=============================
Este o primeiro domingo do Advento, o
tempo de quatro semanas que nos prepara para o Natal do Senhor. Tudo, na
liturgia, nos ajudará nessa preparação, na espera, cheia de esperança: o roxo
significa a vigilância de quem aguarda com ânsia de amor, a moderação das
flores ajuda-nos a concentrar nossa atenção naquele que vem, o “Glória” não
cantado prepara-nos para cantá-lo como novidade na Noite Santa do Natal. Os
sentimentos do nosso coração devem ser a vigilância, a piedade humilde de Maria
Virgem, de José, dos pastores, de Simeão, Zacarias e Isabel, o espírito de
conversão anunciado por João Batista, o sonho de um mundo “cheio da sabedoria
do Senhor como as águas enchem o mar” (Is. 11,9), como Isaías profetizou...
Aproveitemos essas quatro semanas tão doces, que recordam a espera de Israel e
da humanidade pelo Messias! Ele vem... vem vindo sempre! Celebraremos o
mistério do seu Natal em Belém, recordando que ele vem a cada dia e virá na
Glória no final dos tempos. Preparemo-nos para ele!
Nos textos bíblicos que a Igreja hoje
nos propõe, o Senhor sonda as angústias, carências, pobrezas e saudades do
coração humano e nos fala precisamente da esperança: ele é o Deus que vem ao
encontro dos nossos anseios mais profundos, o Deus pronto para nos saciar...
Mas também nos exorta a vigiar, a nos preparar para acolher o Dom esperado - e
o Dom é o seu próprio Filho, que vem ser Emanuel - Deus-conosco. Aliás, é esta
a miséria do mundo atual: busca a paz, procura a vida, tem sede de plenitude e
felicidade, mas não busca naquele que é a saciedade do nosso coração e a
salvação da nossa existência. O homem tem sede e Deus, misericordiosamente
envia-lhe a água, que é o Messias... e o nosso mundo não o reconhece; antes,
renega-o! Vejamos se não é assim; vejamos se Deus não é todo doação para nós, e
recordemos a palavra do Profeta: “Acontecerá nos últimos tempos que o monte da
casa do Senhor estará firmemente estabelecido no ponto mais alto das montanhas.
A ele acorrerão todas as nações, para lá irão povos numerosos.. porque de Sião
provém a lei e de Jerusalém, a Palavra do Senhor”. Eis: de Israel, Deus prepara
uma salvação, uma luz, uma direção para toda a humanidade. O homem sozinho não
encontra o caminho, por mais que teime em se julgar grande e auto-suficiente.
No entanto, à nossa pobreza, o Senhor vem com uma promessa tão grande. E, se o
coração da humanidade acolher a salvação que vem, a luz que brilha, então,
encontrará a paz: “Ele há de julgar as nações e argüir numerosos povos; estes
transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegaram em
armas uns contra os outros em não mais travarão combate”. Eis a promessa de
Deus: dá-nos a salvação; eis o sonho do Senhor: encontrar uma humanidade que
acolha o Salvador, dele bebendo a paz! Se acolhermos o Messias que Deus nos
envia, nele veremos a luz verdadeira e nossas guerras interiores e exteriores
se transformarão em paz... Nossas armas que destroem, serão transformadas em
arados que geram alimento de vida!
No nosso mundo ferido, cansado,
incerto... mundo que já não mais crê de verdade em nada, a promessa do Senhor é
como um alento. Acreditemos, irmãos! Quão triste o mundo se os cristãos viverem
sem esperança, sem certeza, sem ânimo, como os pagãos... Este Tempo do sagrado
Advento quer levantar nosso ânimo: o Senhor, cujo Natal celebraremos dentro de
quatro semanas, é o mesmo que virá um dia, na sua Manifestação gloriosa! Nossa
vida tem rumo e sentido. Vigiemos: “Vós sabeis em que tempo estamos! Já é hora
de despertas. Agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a
fé. A noite deste mundo já vai adiantada, o Dia vem chegando” – o Dia é Cristo,
Salvação que Deus nos prometeu e nos preparou! Então: “Despojemo-nos das ações
das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno
dia” – como quem vive já agora, durante a noite deste mundo, no Dia, que é
Cristo-Deus: “nada de glutonarias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e
imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário: revesti-vos do
Senhor Jesus”. Eis o modo de vigiar na noite deste mundo, eis o modo de
testemunhar que esperamos, na vigilância, o Salvador que nos foi prometido e
virá. Vigia pela vinda de Cristo quem rejeita as obras das trevas! É oportuno
recordar que este texto que escutamos da carta aos Romanos, foi o que provocou a
conversão de santo Agostinho, lá no distante século V. A Palavra de Deus é
sempre um apelo gritante e forte para nós! Que ela nos converta também
agora!
A grande tentação para os discípulos de
Cristo, hoje, é conformar-se com o marasmo do pecado do mundo, é viver
burguesamente, uma vida cômoda e sem uma fé verdadeira e operante, sem aquela
atitude de alegre expectativa por aquilo que o Senhor nos prometeu, sem a
vontade de transformar a nossa vida por amor daquele que vem. Vamos nos
ocupando e distraindo com uma vida fútil, dispersa em mil bobagens, esquecendo
daquilo que realmente importa! Vale para nós a advertência seriíssima do Senhor
Jesus: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé”: naqueles dias,
todos vivam tranquilamente: “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em
casamento, até que Noé entrou na arca e eles nada perceberam...” Como agora:
vive-se na farra do paganismo, do consumismo, do relaxamento moral, de tantos
absurdos contrários ao Evangelho... e não percebemos que haverá um juízo
decisivo de Deus para nós e para o mundo, um juízo no qual o bem e o mal, o
santo e o pecador, serão separados: “um será levado e o outro será deixado”...
Triste de quem for deixado, triste de quem perder a companhia do Senhor, nossa
paz! Feliz de quem for levado com o Senhor! Pois bem: logo neste iniciozinho de
Advento, a advertência do Senhor é dramática: “Ficai atentos, porque não sabeis
em que dia virá o Senhor! Na hora em que menos pensais, o Filho do homem virá!”
Então, enquanto o mundo dorme no seu
pecado, na sua auto-satisfação, elevemos, humildemente, nosso olhar e nosso
coração para Aquele que vem: “A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em
vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meu inimigos, pois não
será desiludido quem em vós espera!” – Marana thá! Vem, Senhor Jesus!
dom Henrique Soares
da Costa
============================
A liturgia deste
domingo apresenta um apelo veemente à vigilância. O cristão não deve
instalar-se no comodismo, na passividade, no desleixo, na rotina; mas deve
caminhar, sempre atento e sempre vigilante, preparado para acolher o Senhor que
vem e para responder aos seus desafios.
A primeira leitura
convida os homens – todos os homens, de todas as raças e nações – a
dirigirem-se à montanha onde reside o Senhor… É do encontro com o Senhor e com
a sua Palavra que resultará um mundo de concórdia, de harmonia, de paz sem fim.
A segunda leitura
recomenda aos crentes que despertem da letargia que os mantém presos ao mundo
das trevas (o mundo do egoísmo, da injustiça, da mentira, do pecado), que se
vistam da luz (a vida de Deus, que Cristo ofereceu a todos) e que caminhem, com
alegria e esperança, ao encontro de Jesus, ao encontro da salvação.
O Evangelho apela à
vigilância. O crente ideal não vive mergulhado nos prazeres que alienam, nem se
deixa sufocar pelo trabalho excessivo, nem adormece numa passividade que lhe
rouba as oportunidades; o crente ideal está, em cada minuto que passa, atento e
vigilante, acolhendo o Senhor que vem, respondendo aos seus desafios, cumprindo
o seu papel, empenhando-se na construção do “Reino”.
1ª leitura - AMBIENTE
O texto de Is. 2,2-4
encontra-se – com algumas variantes e uma adição – em Mi. 4,1-3, o que parece
favorecer a hipótese de uma fonte comum, anterior a Isaías e a Miquéias, na
qual os redatores dos dois livros se teriam inspirado (embora haja quem
defenda, mais simplesmente, que o texto original é de Isaías e que Miquéias
apenas o reproduziu com variantes).
Pelo conteúdo
estamos, provavelmente, diante de um oráculo inspirado nas grandes
movimentações de peregrinos que, por alturas das festas, sobem para Jerusalém.
Imaginemos, como
hipótese, que o poeta contempla desde o monte Sião a chegada das caravanas
israelitas que acorrem em peregrinação para celebrar uma festa popular – por
exemplo, a festa das Tendas… Ele nota que essas caravanas procedem de todas as
partes do território habitado pelo Povo de Deus; vê-las convergir para a cidade
santa, subir pela colina em direção ao Templo onde reside Deus; à medida que se
aproximam, o poeta ouve distintamente os “cânticos de ascensão” com que os
peregrinos saúdam o Senhor e pedem a paz para Jerusalém e para toda a nação…
Subitamente, na
fantasia do poeta, a cena transforma-se: ele vê, num futuro sem data definida,
uma multidão de povos de todas as raças e nações que, atraídas por Jahwéh, se
dirigem ao encontro da salvação de Deus. É, provavelmente, um “sonho” destes
que dá origem a este oráculo escatológico. Estamos diante de um dos oráculos
mais inspirados, mais profundos e mais bonitos de todo o Antigo Testamento.
MENSAGEM
O nosso oráculo é o
poema da paz universal e da convergência de todos os povos à volta de Deus.
Na visão do profeta,
o “monte do Senhor” (o monte do Templo) eleva-se e transformasse no centro do
mundo, sobressaindo entre todos os montes, não por ser o mais alto, mas por ser
a morada de Jahwéh (vs. 2a.b). De todas as partes do mundo vêem-se convergir
caravanas de povos e de nações que avançam, confluem e sobem montanha acima, ao
encontro do Senhor (vs. 2c-3a)… Quem foi que os convocou, que força os atrai?
A resposta está no
próprio cântico que acompanha a caminhada de toda esta gente: eles vêm atraídos
pela força irresistível da Palavra de Deus; querem conhecer o ensinamento
(Torah) e ser instruídos nos caminhos de Jahwéh (vs. 3b.c.d.e). A Palavra
salvadora e libertadora de Jahwéh atrai e agarra todos os povos que percorrem
os caminhos do mundo, lança-os num movimento único e universal, reúne os à
volta de Deus.
À medida que todos se
juntam à volta de Deus, escutam a sua Palavra e aprendem os seus caminhos, as
divisões, as hostilidades, os conflitos da humanidade vão-se desvanecendo.
Primeiro, eles aceitam a arbitragem justa e pacífica de Deus (vs. 4a); depois,
compreendem que não são necessárias armas: as máquinas de guerra transformam-se
em instrumentos pacíficos de trabalho e de vida (vs. 4b.c.d). Do encontro com
Deus e com a sua Palavra, resulta a harmonia, o progresso, o entendimento entre
os povos, a vida em abundância, a paz universal.
Este quadro é o
reverso de Babel… Na história da torre de Babel (cf. Gn. 11,1-9), os homens
escolheram o confronto com Deus, o orgulho e a auto-suficiência; e isso
conduziu à divisão, ao conflito, à confusão, à falta de entendimento, à
dispersão…
Agora, os homens
escolheram escutar Deus e seguir os caminhos indicados por Ele; o resultado é a
reunião de todos os povos, o entendimento, a harmonia, o progresso, a paz
universal. Quando se realizará esta profecia?
ATUALIZAÇÃO
O sonho do profeta
começa a realizar-se em Jesus. Ele é a Palavra viva de Deus, que Se fez carne e
que veio habitar no meio de nós, a fim de trazer a “paz aos homens” amados por
Deus (cf. Lc. 2,14); da escuta dessa Palavra, nasce a comunidade universal da salvação,
aberta a todos os povos da terra (cf. At. 2,5-11), de que fala a leitura que
nos é proposta. Se é verdade que todo o processo tem a marca da iniciativa
divina, também é verdade que o homem tem de responder positivamente à ação de
Deus: tem de escutar essa proposta, acolhê-la no coração e na vida, partir ao
encontro de Deus (a nossa leitura fala de uma peregrinação à montanha sagrada).
Estamos a começar o tempo de preparação para acolher Jesus (Advento) e a
proposta de salvação que, através d’Ele, o Pai quer fazer aos homens: estamos
dispostos a ir ao seu encontro, a acolhê-l’O, a escutar a sua Palavra, a aderir
a essa proposta de vida que Ele veio fazer?
Um olhar, ainda
que desatento, ao mundo que nos rodeia, revela que estamos muito longe dessa terra
ideal de justiça e de paz, construída à volta de Deus e da sua Palavra – apesar
de Jesus, a Palavra viva de Deus, ter vindo ao nosso encontro há já dois mil
anos… O que é que está a impedir ou, pelo menos, a atrapalhar a chegada desse
mundo de justiça e de paz? Nisso, eu não terei a minha parte de
responsabilidade? Que posso eu fazer para que o sonho de Isaías – o sonho de
todos os homens de boa vontade – se concretize?
2ª leitura - AMBIENTE
Quando Paulo redige a
Carta aos Romanos, está em Corinto, no termo da sua terceira viagem
missionária… Prepara-se para partir para Jerusalém com o produto da coleta que
organizou na Macedônia e na Acaia em benefício dos “santos de Jerusalém que
estão na pobreza” (1Cor. 16,1; cf. Rom. 15,25-26). Paulo acha que terminou a
sua missão no oriente (cf. Rom. 15,19-20) e quer, agora, levar o Evangelho ao
ocidente.
Estamos no ano 57 ou
58.
O pretexto da carta é
preparar a ida de Paulo a Espanha (cf. Rom. 15,24)… Na realidade, Paulo
aproveita para contatar a comunidade de Roma e para apresentar aos romanos (e
aos crentes, em geral) os principais problemas que o preocupam…
Estamos numa altura
em que o perigo da divisão ameaça a Igreja: de um lado estão as comunidades de
origem judeo-cristã e de outro as comunidades pagano-cristãs; uns e outros têm
algumas dificuldades de entendimento e há um perigo real de cisão.
Paulo escreve, então,
sublinhando a unidade da fé e chamando a atenção para a igualdade fundamental
de todos – judeo-cristãos e pagano-cristãos – no processo da salvação.
A primeira parte da
Carta aos Romanos (cf. Rom. 1,18-11,36) é de caráter dogmático e procura
mostrar que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente; a
segunda parte (cf. Rom. 12,1-15,13) é de caráter prático e exorta judeo-cristãos
e pagano-cristãos a viver no amor.
O texto que hoje nos
é proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de exortar os cristãos que
pertencem à comunidade de Roma ao amor mútuo (cf. Rom. 13,8-10),
Paulo pede-lhes que
estejam vigilantes e preparados, a fim de acolher o Senhor que vem.
MENSAGEM
Referindo-se à “hora”
que os cristãos estão a viver, Paulo pede-lhes que se levantem “do sono, porque
a salvação está mais perto”. Ao dizer que a salvação está perto, o que é que
Paulo está a sugerir?
Paulo pensava,
certamente, na vinda mais ou menos iminente de Jesus Cristo, a fim de concluir
a história da salvação; no entanto, a ausência de especulações apocalípticas
mostra claramente que o interesse de Paulo não é no “quando” e no “como”, mas
no significado e nas consequências dessa vinda. O fato que aqui interessa é,
portanto, que os cristãos estão a viver os “últimos tempos” (que começaram
quando Jesus deixou o mundo e encarregou os discípulos de serem testemunhas da
salvação diante dos homens) antes da vinda de Jesus… Quais as consequências
disso? Antes de serem batizados, os cristãos viviam nas trevas e a sua vida
estava pontuada pelo egoísmo (excessos de comida e de bebida, devassidões,
libertinagens, discórdias e ciúmes); mas, com o batismo, eles nasceram para uma
nova realidade…
É para essa realidade
de uma vida nova, liberta do egoísmo e do pecado, que eles devem acordar
definitivamente, enquanto esperam o Senhor que vem: quando o Senhor chegar,
deve encontrá-los despidos do velho mundo das trevas; e deve encontrá-los
atentos e preparados, revestidos dessa vida nova que Cristo lhes ofereceu,
vivendo na fé, no amor, no serviço.
Fundamentalmente, há
aqui um convite a que os crentes vivam este “tempo” como um tempo último e
definitivo, que tem de ser um tempo de caminhada ao encontro de Jesus Cristo e
ao encontro da salvação.
ATUALIZAÇÃO
A questão fundamental
que está em jogo neste texto é a da conversão: os crentes são convidados a
deixar a vida das trevas e embarcar, decididamente, na vida da luz… As “trevas”
caracterizam essa realidade negativa que produz mentira, injustiça, opressão,
medo, cobardia, materialismo (e que é uma realidade que toca tantas vezes,
direta ou indiretamente, a nossa existência); a “luz” é a realidade de quem
vive na dinâmica de Deus… Falar de “conversão” implica falar de uma
transformação profunda das estruturas e dos corações… Quais são, na sociedade,
as estruturas que são responsáveis pelas “trevas” que envolvem a vida de tantos
homens? O que é que na Igreja é menos “luminoso” e necessita de conversão? O
que é que em mim próprio é necessário transformar com urgência?
Quase todos nós
somos pessoas razoáveis e sérias e não andamos todos os dias em bebedeiras,
devassidões, libertinagens e discórdias; mas, apesar da nossa bondade e seriedade,
é possível que o cansaço, a monotonia, a preguiça nos adormeçam, que caiamos na
indiferença, na inércia, na passividade, no comodismo; é possível que deixemos
correr as coisas e que esqueçamos os compromissos que um dia assumimos com
Jesus e com o “Reino”… É para nós que Paulo grita: “acordai!; renovai o vosso
entusiasmo pelos valores do Evangelho; é preciso estar preparado – sempre
preparado – para acolher o Senhor que vem”.
Há também,
neste texto, um convite à esperança: “o Senhor vem! A noite vai adiantada e o
dia está próximo”. Deus não nos abandona; Ele continua a vir ao nosso encontro
e a construir conosco esse mundo novo de justiça e de paz… Por muito que nos
assustem as trevas que envolvem o mundo, a presença de Deus garante-nos que a
injustiça, a exploração, a morte não são o final inevitável: a última palavra
que a história vai ouvir é a Palavra libertadora e salvadora de Deus.
Evangelho – AMBIENTE
Os capítulos 24 e 25
do Evangelho segundo Mateus apresentam o último grande discurso de Jesus antes
da sua paixão e morte. Para compô-lo, Mateus reelaborou o chamado “discurso
escatológico” de Marcos (cf. Mc. 13), ampliando-o e mudando substancialmente o
tema central: se no discurso transmitido por Marcos a questão principal é a dos
sinais que precederão a destruição de Jerusalém e do Templo, no discurso
reelaborado por Mateus a questão central é a da vinda do Filho do homem e das
atitudes com que os discípulos devem preparar a dita vinda.
Esta mudança de
perspectiva pode explicar-se a partir da situação em que vivia a comunidade de
Mateus e com as suas necessidades. Estamos na década de 80.
Passaram dez anos
sobre a destruição de Jerusalém e ainda não aconteceu a segunda vinda de Jesus.
Os crentes estão desanimados e desiludidos… O evangelista contempla com
preocupação os sinais de abandono, de desleixo, de rotina, de esfriamento que
começam a aparecer na comunidade e sente que é preciso renovar a esperança e
levar os crentes a comprometer-se na história, construindo o “Reino”.
Nesta situação, Mateus
descobre que as palavras de Jesus encerram um profundo ensinamento e compõe com
elas uma exortação dirigida aos cristãos. Esta exortação fundamenta-se numa
profunda convicção: a vinda do “Filho do homem” é um fato certo, ainda que não
aconteça em breve; enquanto não chega o momento, é preciso preparar este grande
acontecimento, vivendo de acordo com os ensinamentos de Jesus.
A linguagem destes
capítulos é estranha e enigmática… Trata-se, no entanto, de um gênero usado com
alguma frequência por alguns grupos judeus e cristãos da época de Jesus. É a
linguagem “apocalíptica”, porque o seu objetivo é “revelar algo escondido”
(“apocaliptô). Em muitas ocasiões, esta revelação é dirigida a comunidades que
vivem numa situação de sofrimento, de desespero, de perseguição; o objetivo é
animá-las, dar-lhes esperança, mostrar-lhes que a vitória final será de Deus e
dos que lhe forem fiéis.
MENSAGEM
Para Mateus, a vinda
do Senhor é certa, embora ninguém saiba o dia nem a hora (cf. Mt. 24,36); aos
crentes resta estar vigilantes, preparados e ativos… Para transmitir esta
mensagem, Mateus usa três quadros…
O primeiro (vs.
37-39) é o quadro da humanidade na época de Noé: os homens viviam, então, numa
alegre inconsciência, preocupados apenas em gozar a sua “vidinha” descomprometida;
quando o dilúvio chegou, apanhou-os de surpresa e desreparados… Se o “gozar” a
vida ao máximo for para o homem a prioridade fundamental, ele arrisca-se a
passar ao lado do que é importante e a não cumprir o seu papel no mundo.
O segundo (vs. 40-41)
coloca-nos diante de duas situações da vida quotidiana: o trabalho agrícola e a
moagem do trigo… Os compromissos e trabalhos necessários à subsistência do
homem também não podem ocupá-lo de tal forma que o levem a negligenciar o
essencial: a preparação da vinda do Senhor.
O terceiro (vs.
43-44) coloca-nos frente ao exemplo do dono de uma casa que adormece e deixa
que a sua casa seja saqueada pelo ladrão… Os crentes não podem, nunca,
deixar-se adormecer, pois o seu adormecimento pode levá-los a perder a oportunidade
de encontrar o Senhor que vem.
A questão fundamental
é, portanto, esta: o crente ideal é aquele que está sempre vigilante, atento,
preparado, para acolher o Senhor que vem. Não perde oportunidades, porque não
se deixa distrair com os bens deste mundo, não vive obcecado com eles e não faz
deles a sua prioridade fundamental… Mas, dia a dia, cumpre o papel que Deus lhe
confiou, com empenho e com sentido de responsabilidade.
ATUALIZAÇÃO
O que é que significa
para nós “estar vigilantes”, “estar atentos”, “estar preparados” para acolher o
Senhor? Significa ter a “alminha” na “graça de Deus” para que, se a morte
chegar de repente, Deus não consiga encontrar em nós qualquer pecado não
confessado e não tenha qualquer razão para nos mandar para o inferno?
Significa,
fundamentalmente, acolher todas as oportunidades de salvação que Deus nos
oferece continuamente… Se Ele vem ao meu encontro, me desafia a cumprir uma
determinada missão e eu prefiro continuar a viver a minha “vidinha” fácil e sem
compromisso, estou a perder uma oportunidade de dar sentido à minha vida; se
Ele vem ao meu encontro, me convida a partilhar algo com os meus irmãos mais
pobres e eu escolho a avareza e o egoísmo, estou a perder uma oportunidade de
abrir o meu coração ao amor, à alegria, à felicidade…
O Evangelho que
nos é proposto apresenta alguns dos motivos que impedem o homem de “acolher o
Senhor que vem”… Fala da opção por “gozar a vida”, sem ter tempo nem espaço
para compromissos sérios (quanta gente, ao domingo, tem todo o tempo do mundo
para dormir até ao meio dia, mas não para celebrar a fé com a sua comunidade
cristã); fala do viver obcecado com o trabalho, esquecendo tudo o mais (quanta
gente trabalha quinze horas por dia e esquece que tem uma família e que os
filhos precisam de amor); fala do adormecer, do instalar-se, não prestando
atenção às realidades mais essenciais (quanta gente encolhe os ombros diante do
sofrimento dos irmãos e diz que não tem nada com isso: é o governo ou o papa
que têm que resolver a situação). E eu: o que é que na minha vida me distrai do
essencial e me impede, tantas vezes, de estar atento ao Senhor que vem?
Neste tempo de
preparação para a celebração do nascimento de Jesus, sou convidado a centrar a
minha vida no essencial, a redescobrir aquilo que é importante, a estar atento
às oportunidades que o Senhor, dia a dia, me oferece, a acordar para os
compromissos que assumi para com Deus e para com os irmãos, a empenhar-me na
construção do “Reino”… É essa a melhor forma – ou melhor, a única forma – de preparar
a vinda do Senhor.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Nenhum comentário:
Postar um comentário