MARIA, MÃE DE JESUS
Dia 01 de janeio – Ano A
Primeira leitura – Nm.6,22-27
Salmo 66
Segunda leitura – Gl 4,4-7
Evangelho Lc 2,16-21
A Igreja hoje celebra a festa de MARIA
MÃE DE DEUS. É a solenidade da Santa Mãe de Deus. Maria foi aquela
escolhida que aceitou colaborar com o projeto do Pai.
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Nascido de mulher”
para nos tornar filhos de deus
“Deram-lhe o nome de Jesus, como fora
chamado pelo anjo” (Lc. 2,21). Essa afirmação do Evangelho de Lucas
harmoniza-se com a primeira leitura: “assim invocarão o meu nome... e eu os
abençoarei” (Nm. 6,27). Essa bênção, reservada outrora ao povo de Israel,
estende-se agora a todos os povos por intermédio de Jesus, o Filho de Deus
“nascido de mulher” (Gl. 4,4). Em Jesus, a face de Deus (Nm. 6,25-26) está
voltada para o ser humano. Porque é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus
viveu integralmente a humanidade e a elevou à mais alta dignidade de filiação
divina. Por sua encarnação participou em tudo da condição humana, para que o
ser humano participasse em tudo da condição divina por sua ressurreição.
Evangelho (Lc.
2,16-21) - Foi-lhe dado o nome de Jesus
As promessas de Deus haviam sido feitas
a pastores tais como Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e outros. Por isso os
anjos anunciam o cumprimento dessas promessas aos pastores nos arredores de
Belém. O evangelho destaca o sinal da salvação: o recém-nascido está na
manjedoura, lugar onde é posto o alimento. Jesus, desde o início, vem ao mundo
como alimento, e o lugar do reconhecimento do Salvador dá-se na eucaristia,
fonte e ápice da vida cristã.
Com a circuncisão, Jesus é inserido na
comunidade judaica e na primeira aliança. Isso significa que Jesus não é um
mito, mas participa em tudo da realidade histórica, é alguém inserido no mundo
e sujeito às suas leis.
“Deram-lhe o nome de Jesus, como lhe
chamara o anjo” (v. 21). É o próprio Deus, e não os seres humanos, quem dá o
nome Jesus (Salvador), e com isso o evangelho assegura que todas as promessas
feitas a Israel agora foram realizadas, o tempo da espera pelo Messias
terminou.
1ª leitura (Nm.
6,22-27) - “Porão o meu nome sobre os filhos de Israel”
O livro dos Números certifica aos
sacerdotes levitas que, ao pronunciarem essa bênção, o nome de Deus estará
sobre os filhos de Israel (6,27). Era nessa ocasião que os sacerdotes tinham a
permissão de pronunciar o nome de Deus dentro do templo de Jerusalém. Com a
destruição do Templo, o nome de Deus deixou de ser pronunciado e foi substituído
pelo termo “Senhor”.
“O Senhor te abençoe e te guarde” (v.
24). “Abençoar”, na cultura de Israel, inclui almejar todo tipo de coisas boas,
sejam materiais, sentimentais, sociais, espirituais. “Guardar” se refere à
proteção de Deus. “Fazer resplandecer a face” (v. 25) significa lançar um olhar
favorável. “Mostrar a face” (v. 26) quer dizer fixar a atenção em alguém com um
propósito benevolente, em contraste com a angústia experimentada quando Deus
esconde o rosto.
O último pedido, para que Deus conceda
a paz (shalom), é o mais importante de todos. Em hebraico, shalom significa
muito mais que a ausência de conflitos, mas inclui todo tipo de bem-estar,
entre os quais a salvação.
Então, a bênção de Nm. 6,22-27 nos
apresenta Deus como um Pai bondoso que deseja dar tudo o que é bom ao ser
humano, também a salvação, que é seu próprio Filho, Jesus.
2ª leitura (Gl.
4,4-7) - O Espírito clama em nós: Abba, Pai!
Paulo utiliza uma alegoria para falar
sobre nossa participação na filiação divina. Na Antiguidade, ainda que
potencialmente um menino fosse o herdeiro da família, não poderia exercer a
plena liberdade e autonomia de um adulto enquanto não adquirisse a idade
previamente estabelecida pelo pai.
Em se tratando de um órfão, era comum o
recurso a um curador (v. 2) ou tutor que representasse legalmente o menor até
que este alcançasse a maioridade. Durante o período da menoridade, o herdeiro
não usufruía totalmente da herança.
Na alegoria de Paulo, algo semelhante
se verificou com a humanidade antes da encarnação, morte e ressurreição de
Jesus. Quando se completou o tempo previamente estabelecido pelo Pai, o Filho
de Deus nasceu de uma mulher (tornou-se humano) para elevar a humanidade
inteira à maioridade e pleno usufruto da herança eterna que é a filiação divina.
Jesus nasceu submisso à Lei para
redimir os que estavam sob a lei da menoridade e assim elevá-los a uma relação
superior, a adoção de filhos com plenos direitos de cidadania no reino de Deus.
Paulo afirma que o Espírito foi enviado
após o Cristo. Isso significa que a Trindade está envolvida na realização da
filiação divina do ser humano. É pelo Espírito do Ressuscitado que o cristão
clama Abba. No idioma aramaico, a palavra Abba significa “Pai”. Jesus usava
esse termo quando se referia a Deus, e agora também nós o podemos usar porque,
pelo Espírito de Cristo, somos herdeiros de todas as bênçãos recapituladas na
salvação integral do ser humano.
Pistas para reflexão
A homilia deve ter um viés cristológico
e soteriológico, ou seja, a ênfase deve estar no mistério da encarnação em
vista da salvação do ser humano. Uma homilia exageradamente devocional a Maria
tira a liturgia de seu eixo principal. O objetivo do Filho de Deus ao tornar-se
humano foi nos tornar filhos de Deus. Maria colabora nesse mistério da salvação
como modelo do perfeito discípulo que penetra o mistério de maneira mais
íntima, associando-se a seu Filho, servindo-o no mistério da redenção (LG 56).
A filiação divina resulta na exigência de que se viva o cotidiano de acordo com
a vontade do Pai, a exemplo de Maria, que obedecia a Deus mesmo quando não
compreendia totalmente a vontade dele.
Aíla Luzia Pinheiro
Andrade, nj
Nascido de mulher,
nascido sob a lei
Celebramos a oitava de Natal, a
solenidade da Santa Mãe de Deus. Até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano
II, era chamada festa da Circuncisão de Nosso Senhor. O Evangelho relata que
Jesus recebeu a circuncisão, acompanhada da imposição do nome, como prescreve a
tradição de Israel. Esse rito significava a integração do “nascido de mulher”
na comunidade judaica, como ressalta a segunda leitura. A inserção de Jesus na
humanidade e no povo passa pelo útero de Maria. Jesus nasce de mãe judia e
submetido à Lei judaica.
Como, no século IV, foi escolhido
o dia 25 de dezembro para celebrar o Natal, a oitava coincide com o ano-novo
romano, fixado em 1º de janeiro por Júlio Cesar. Assim, a festa de hoje
coincide com o início do ano civil, atualmente celebrado como dia da paz
mundial. Neste contexto, cabe bem a primeira leitura, que evoca a bênção do
ano-novo israelita (Nm 6,27), reforçada pelo salmo responsorial. Aliás, o
próprio nome que Jesus recebe sugere que ele é a bênção: yeshua, “o Senhor
salva”. Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4º domingo
do Advento), e Deus faz “brilhar sua face” sobre o povo e sobre a humanidade no
nome de Jesus. (No dia 3 de janeiro há uma celebração própria do Santíssimo
Nome de Jesus.)
Recentemente, a solenidade de hoje foi
posta sob o patrocínio de Maria, “Mãe de Deus”, lembrando o título de Theotokos,
“Genitora (Mãe) de Deus”, que lhe foi dado pelo Concílio de Éfeso em 431 d.C.
Decerto Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo
realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho
assumiu a humanidade. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de
receber Deus. Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e
por dentro! Para captar isso, talvez tenhamos de modificar um pouco nosso
conceito de Deus.
Deus não ama em geral abstratamente,
mas por meio de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode
ser realidade. Assim como Maria foi, no seio do povo de Israel, o caminho
concreto para o Salvador, comunidades concretas serão portadoras de Cristo,
salvação de Deus para o mundo hoje. Por isso, Maria é protótipo da Igreja e das
comunidades eclesiais.
1ª leitura (Nm.
6,22-27)
A 1ª leitura é a bênção do sacerdote de
Israel sobre o povo. Na manhã da criação, Deus abençoou os seres humanos e os
animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30). A bênção de Deus é
um augúrio de paz para a natureza e o ser humano. Para quem se coloca diante
dessa bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua graciosa presença. Só
Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os humanos abençoam
invocando o nome de Deus. Em continuidade com este pensamento, o salmo
responsorial expressa um pedido de bênção (Sl. 67[66],2-3.5-6.8).
2ª leitura (Gl.
4,4-7)
A 2ª leitura é tomada da carta de Paulo
aos Gálatas, que é a “carta” (no sentido de documento) da liberdade cristã.
Cristo veio para nos tornar livres (Gl. 5,1). “Nascido de mulher, nascido sob a
Lei” (Gl. 4,4), viveu entre nós sob o regime passageiro que vigorava no Antigo
Testamento. Vivendo conosco sob o regime da Lei, ensinou-nos a perceber e
interpretar a Lei como dom do Pai e não como escravidão, à diferença dos
contemporâneos de Paulo. Estes queriam impô-la como um jugo aos cristãos da
Galácia, que nem sequer eram judeus de origem. Já não somos escravos, diz
Paulo, mas filhos; portanto, livres. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão,
nele temos o Espírito que, em nosso coração, ora: “Abba, Pai” (4,6 –
provavelmente uma alusão ao pai-nosso rezado nas comunidades, cf. Mt. 6,9-13;
Lc. 11,2-4).
Comemorando a vinda de Cristo, pensamos
especialmente na “mulher” que o integrou em nossa comunidade (Gl. 4,4).
“Nascido de mulher” é uma maneira bíblica para designar o ser humano (cf. Mt.
11,11; Lc. 7,28).
Evangelho (Lc.
2,16-21)
O evangelho de hoje menciona dois
temas: a adoração dos pastores junto ao presépio de Belém e a circuncisão de
Jesus no oitavo dia, acompanhada da imposição de seu nome. O primeiro tema já
foi focalizado no evangelho da missa da aurora no Natal, e na mesma linha
podemos destacar, na festa da Mãe de Deus, que “Maria guardava todos estes
fatos e meditava sobre eles no seu coração”.
Nossa atenção, porém, vai para o
segundo tema, a circuncisão com a imposição do nome, que se harmoniza com o da
2ª leitura. Jesus sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura) e recebe o nome dado
pelo anjo, ou seja, por Deus mesmo (Lc 1,31-33; Mt 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “O
Senhor salva”. Jesus é o salvador enviado por Deus à humanidade.
Dicas para reflexão
– O nome e a cidadania de Jesus.
Celebramos hoje a “cidadania” de Jesus:
seu nome, sua identidade, seu lugar na sociedade humana. A 2ª leitura evoca
duas dimensões da inserção de Jesus na sociedade humana: nasceu de mulher,
membro da família humana; e nasceu sujeito à Lei, cidadão de uma comunidade
política e religiosa. Exatamente por assumir a lei de um povo concreto, ele é
verdadeiro representante da humanidade. Quem não pertence a nada não representa
ninguém. Porque, concretamente, por ser judeu é que Jesus pôde ser o salvador
da humanidade toda. Integrado na comunidade judaica pela circuncisão, no oitavo
dia recebe o nome de Jesus, escolhido por Deus mesmo. Muita gente, quando
escolhe o nome do filho, projeta nisso uma expectativa. Maria e José não
escolheram o nome. Alinharam-se com Deus, que projeta seu próprio plano de
salvação no nome de Jesus: “O Senhor salva”. O nome de Jesus assinala a
participação pessoal de Deus na história da comunidade humana e política. Por
isso, assim como o sacerdote Aarão abençoava os israelitas invocando o nome do
Senhor Deus, podemos benzer a nós e a todos com o nome de Jesus (1ª leitura).
Deus respeita a Lei que ele mesmo
comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a Lei e foi circuncidado conforme a
Lei. As estruturas políticas e sociais do povo, quando condizentes com a
vontade de Deus, são instrumentos para Deus se tornar presente em nossa
história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis e estruturas são
manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus as assume para
transformá-las no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu por causa da Lei injustamente
aplicada a ele.
– Maria, “porta do céu”.
Em Jesus, Deus quis ter uma mãe. A
inserção de Deus em nossa história passa pela ternura materna. Sem esta não se
pode construir a história conforme o projeto de Deus. Assim, Deus, na “sua”
história salvífica, santificou uma dimensão especificamente feminina. Nas
ladainhas chamamos Maria “Porta do Céu”. Porta para nós subirmos e para Deus
descer.
Jesus nasceu de mulher e sob a Lei, de
mãe humana e dentro de uma sociedade humana. Foi acolhido na sociedade judaica
pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer
indivíduo do sexo masculino entre nós que tivesse nascido naquela sociedade.
Maria é, portanto, mãe do verdadeiro homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a
celebramos hoje como Mãe de Deus. Esse título deve ser entendido como “Genitora
(é assim que o Concílio de Éfeso a chama) do Filho de Deus”. Este Filho foi
igual a nós em tudo, menos no pecado, e viveu e sofreu na carne de maneira
verdadeiramente humana (cf. Hb 4,15; 5,7-8). Duas décadas depois de Éfeso, o
Concílio de Calcedônia o chamou “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”.
É por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a
humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo,
Maria faz Deus nascer no meio do povo. Ela é o ponto de inserção de Deus na
humanidade. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo.
Em Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da
maternidade que ele mesmo criou.
Assim como Maria se tornou “Porta do
Céu”, a comunidade humana é chamada a tornar-se acesso de Deus ao mundo e do
mundo a Deus. A vida do povo, sua “lei”, suas tradições, cultura e estruturas
políticas e sociais devem ser um caminho de Deus e para Deus, não um obstáculo.
Por isso é preciso transformar a vida humana e as estruturas da sociedade
quando não servem para Deus e não condizem com a dignidade que Deus lhes
conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob a Lei.
– Jesus de Maria, bênção do povo.
Para os cristãos, o novo ano litúrgico
já começou no 1º domingo do Advento, mas no dia 1 de janeiro os cristãos
participam como cidadãos do ano-novo civil com a festa de Maria, Mãe do Deus
Salvador, Jesus Cristo. Queremos felicitar de modo especial a Mãe da família
dos cristãos – pois, ao visitarmos hoje a casa de nossos amigos, não
cumprimentamos primeiro a dona da casa?
A Igreja marcar este dia com a festa de
Maria, Mãe de Deus, é um voto de paz e bênção para o mundo! A bênção maior da
parte de Deus: o seu Filho, Jesus. Os nossos votos de paz e bênção devem ser a
extensão da bênção que é Jesus e que Maria fez chegar até nós. Desejamos paz e
bênção aos nossos amigos em Jesus. Então, nossos votos serão profundamente
cristãos, não apenas fórmula social. Desejaremos aos nossos semelhantes aquilo
que veio até nós em Jesus: o amor de Deus na doação da vida para os irmãos. É
isso que se deve desejar neste dia mundial da paz. Somente onde reinam os
sentimentos de Jesus pode existir a paz que vem de Deus.
Luiz Alexandre Solano
Rossi
Nascido de mulher,
nascido sob a lei
Celebramos a oitava de Natal, a
solenidade da Santa Mãe de Deus. Até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano
II, era chamada festa da Circuncisão de Nosso Senhor. O Evangelho relata que
Jesus recebeu a circuncisão, acompanhada da imposição do nome, como prescreve a
tradição de Israel. Esse rito significava a integração do “nascido de mulher”
na comunidade judaica, como ressalta a segunda leitura. A inserção de Jesus na
humanidade e no povo passa pelo útero de Maria. Jesus nasce de mãe judia e
submetido à Lei judaica.
Como, no século IV, foi escolhido
o dia 25 de dezembro para celebrar o Natal, a oitava coincide com o ano-novo
romano, fixado em 1º de janeiro por Júlio Cesar. Assim, a festa de hoje
coincide com o início do ano civil, atualmente celebrado como dia da paz
mundial. Neste contexto, cabe bem a primeira leitura, que evoca a bênção do
ano-novo israelita (Nm 6,27), reforçada pelo salmo responsorial. Aliás, o
próprio nome que Jesus recebe sugere que ele é a bênção: yeshua, “o Senhor
salva”. Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4º domingo
do Advento), e Deus faz “brilhar sua face” sobre o povo e sobre a humanidade no
nome de Jesus. (No dia 3 de janeiro há uma celebração própria do Santíssimo
Nome de Jesus.)
Recentemente, a solenidade de hoje foi
posta sob o patrocínio de Maria, “Mãe de Deus”, lembrando o título de Theotokos,
“Genitora (Mãe) de Deus”, que lhe foi dado pelo Concílio de Éfeso em 431 d.C.
Decerto Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo
realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho
assumiu a humanidade. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de
receber Deus. Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e
por dentro! Para captar isso, talvez tenhamos de modificar um pouco nosso
conceito de Deus.
Deus não ama em geral abstratamente,
mas por meio de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode
ser realidade. Assim como Maria foi, no seio do povo de Israel, o caminho
concreto para o Salvador, comunidades concretas serão portadoras de Cristo,
salvação de Deus para o mundo hoje. Por isso, Maria é protótipo da Igreja e das
comunidades eclesiais.
1ª leitura (Nm.
6,22-27)
A 1ª leitura é a bênção do sacerdote de
Israel sobre o povo. Na manhã da criação, Deus abençoou os seres humanos e os
animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30). A bênção de Deus é
um augúrio de paz para a natureza e o ser humano. Para quem se coloca diante
dessa bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua graciosa presença. Só
Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os humanos abençoam
invocando o nome de Deus. Em continuidade com este pensamento, o salmo
responsorial expressa um pedido de bênção (Sl. 67[66],2-3.5-6.8).
2ª leitura (Gl.
4,4-7)
A 2ª leitura é tomada da carta de Paulo
aos Gálatas, que é a “carta” (no sentido de documento) da liberdade cristã.
Cristo veio para nos tornar livres (Gl. 5,1). “Nascido de mulher, nascido sob a
Lei” (Gl. 4,4), viveu entre nós sob o regime passageiro que vigorava no Antigo
Testamento. Vivendo conosco sob o regime da Lei, ensinou-nos a perceber e
interpretar a Lei como dom do Pai e não como escravidão, à diferença dos
contemporâneos de Paulo. Estes queriam impô-la como um jugo aos cristãos da
Galácia, que nem sequer eram judeus de origem. Já não somos escravos, diz
Paulo, mas filhos; portanto, livres. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão,
nele temos o Espírito que, em nosso coração, ora: “Abba, Pai” (4,6 –
provavelmente uma alusão ao pai-nosso rezado nas comunidades, cf. Mt. 6,9-13;
Lc. 11,2-4).
Comemorando a vinda de Cristo, pensamos
especialmente na “mulher” que o integrou em nossa comunidade (Gl. 4,4). “Nascido
de mulher” é uma maneira bíblica para designar o ser humano (cf. Mt. 11,11; Lc.
7,28).
Evangelho (Lc.
2,16-21)
O evangelho de hoje menciona dois
temas: a adoração dos pastores junto ao presépio de Belém e a circuncisão de
Jesus no oitavo dia, acompanhada da imposição de seu nome. O primeiro tema já
foi focalizado no evangelho da missa da aurora no Natal, e na mesma linha
podemos destacar, na festa da Mãe de Deus, que “Maria guardava todos estes
fatos e meditava sobre eles no seu coração”.
Nossa atenção, porém, vai para o
segundo tema, a circuncisão com a imposição do nome, que se harmoniza com o da
2ª leitura. Jesus sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura) e recebe o nome dado
pelo anjo, ou seja, por Deus mesmo (Lc 1,31-33; Mt 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “O Senhor
salva”. Jesus é o salvador enviado por Deus à humanidade.
Dicas para reflexão
– O nome e a cidadania de Jesus.
Celebramos hoje a “cidadania” de Jesus:
seu nome, sua identidade, seu lugar na sociedade humana. A 2ª leitura evoca
duas dimensões da inserção de Jesus na sociedade humana: nasceu de mulher,
membro da família humana; e nasceu sujeito à Lei, cidadão de uma comunidade
política e religiosa. Exatamente por assumir a lei de um povo concreto, ele é
verdadeiro representante da humanidade. Quem não pertence a nada não representa
ninguém. Porque, concretamente, por ser judeu é que Jesus pôde ser o salvador
da humanidade toda. Integrado na comunidade judaica pela circuncisão, no oitavo
dia recebe o nome de Jesus, escolhido por Deus mesmo. Muita gente, quando
escolhe o nome do filho, projeta nisso uma expectativa. Maria e José não
escolheram o nome. Alinharam-se com Deus, que projeta seu próprio plano de
salvação no nome de Jesus: “O Senhor salva”. O nome de Jesus assinala a
participação pessoal de Deus na história da comunidade humana e política. Por
isso, assim como o sacerdote Aarão abençoava os israelitas invocando o nome do
Senhor Deus, podemos benzer a nós e a todos com o nome de Jesus (1ª leitura).
Deus respeita a Lei que ele mesmo
comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a Lei e foi circuncidado conforme a
Lei. As estruturas políticas e sociais do povo, quando condizentes com a
vontade de Deus, são instrumentos para Deus se tornar presente em nossa
história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis e estruturas são
manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus as assume para
transformá-las no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu por causa da Lei
injustamente aplicada a ele.
– Maria, “porta do céu”.
Em Jesus, Deus quis ter uma mãe. A
inserção de Deus em nossa história passa pela ternura materna. Sem esta não se
pode construir a história conforme o projeto de Deus. Assim, Deus, na “sua”
história salvífica, santificou uma dimensão especificamente feminina. Nas
ladainhas chamamos Maria “Porta do Céu”. Porta para nós subirmos e para Deus
descer.
Jesus nasceu de mulher e sob a Lei, de
mãe humana e dentro de uma sociedade humana. Foi acolhido na sociedade judaica
pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer
indivíduo do sexo masculino entre nós que tivesse nascido naquela sociedade.
Maria é, portanto, mãe do verdadeiro homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a
celebramos hoje como Mãe de Deus. Esse título deve ser entendido como “Genitora
(é assim que o Concílio de Éfeso a chama) do Filho de Deus”. Este Filho foi
igual a nós em tudo, menos no pecado, e viveu e sofreu na carne de maneira
verdadeiramente humana (cf. Hb 4,15; 5,7-8). Duas décadas depois de Éfeso, o
Concílio de Calcedônia o chamou “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”.
É por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a
humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo,
Maria faz Deus nascer no meio do povo. Ela é o ponto de inserção de Deus na
humanidade. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo.
Em Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da
maternidade que ele mesmo criou.
Assim como Maria se tornou “Porta do
Céu”, a comunidade humana é chamada a tornar-se acesso de Deus ao mundo e do
mundo a Deus. A vida do povo, sua “lei”, suas tradições, cultura e estruturas
políticas e sociais devem ser um caminho de Deus e para Deus, não um obstáculo.
Por isso é preciso transformar a vida humana e as estruturas da sociedade
quando não servem para Deus e não condizem com a dignidade que Deus lhes
conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob a Lei.
– Jesus de Maria, bênção do povo.
Para os cristãos, o novo ano litúrgico
já começou no 1º domingo do Advento, mas no dia 1 de janeiro os cristãos
participam como cidadãos do ano-novo civil com a festa de Maria, Mãe do Deus
Salvador, Jesus Cristo. Queremos felicitar de modo especial a Mãe da família
dos cristãos – pois, ao visitarmos hoje a casa de nossos amigos, não
cumprimentamos primeiro a dona da casa?
A Igreja marcar este dia com a festa de
Maria, Mãe de Deus, é um voto de paz e bênção para o mundo! A bênção maior da
parte de Deus: o seu Filho, Jesus. Os nossos votos de paz e bênção devem ser a
extensão da bênção que é Jesus e que Maria fez chegar até nós. Desejamos paz e
bênção aos nossos amigos em Jesus. Então, nossos votos serão profundamente
cristãos, não apenas fórmula social. Desejaremos aos nossos semelhantes aquilo
que veio até nós em Jesus: o amor de Deus na doação da vida para os irmãos. É
isso que se deve desejar neste dia mundial da paz. Somente onde reinam os
sentimentos de Jesus pode existir a paz que vem de Deus.
Luiz Alexandre
Solano Rossi
No início era a
bênção!
No início de um novo ano muitas vezes
somos relembrados de que devemos adequar ou, até mesmo, readequar nossas
expectativas; o ideal, dizem, é que tenhamos nossos corações e mentes tomados
pela plenitude da esperança. Não há como discordar dessas palavras. No entanto,
faz-se necessário refletir que não existimos sozinhos. Nossas esperanças e
expectativas não devem ser pensadas e construídas sem a presença do outro que
nos acompanha na história de nossas vidas. Todo ano-novo também deveria ser um
novo ano para a comunidade da qual fazemos parte. Quando nos pensamos de forma
plural, estamos dizendo aos outros que também eles fazem parte das nossas
esperanças e expectativas e que o novo ano que se apresenta não poderá ser
construído sem ou até mesmo contra eles. Pensar nos outros é sair de nós mesmos
e romper as estruturas que criamos ao nosso redor e que nos impedem de conhecer
novas pessoas e com elas interagir. Quando caminhamos em direção aos outros,
não somente conhecemos novas pessoas, mas, principalmente, passamos a conhecer
melhor a nós mesmos.
1ª leitura: Nm.
6,22-27
Todo ano-novo deveria ser iniciado sob
os auspícios de uma bênção. Mas devemos sempre pensar a bênção sob dois
aspectos que estão extremamente ligados entre si, ou seja, devemos pensar a
bênção de forma individual e comunitária. Somos indivíduos e, por isso,
trazemos dentro de nós anseios profundos. Porém, somos também comunitários –
vivemos em comunidades – e, assim, a bênção deve ser partilhada dentro do
grupo. Nela não há espaço para projetos individualistas.
A beleza da primeira leitura reside no
fato de que a bênção é partilhada – “vocês abençoarão” – de maneira gratuita.
Quem abençoa, nesse sentido, não se aproxima das outras pessoas fazendo cálculos
do que poderia ganhar. O abençoador não transforma a bênção em mercadoria.
Infelizmente vivemos imersos numa cultura capitalista que estimula o consumo e,
por conta disso, costumamos colocar etiquetas em tudo, até mesmo no sagrado.
Muitos, hoje, compreendem Deus como se fosse um grande shopping
center que oferece produtos a preços vantajosos!
Aquele que abençoa tem o privilégio de
ser um instrumento que o aproxima das outras pessoas, ajudando a tecer a bênção
com três fios de ouro: a bênção do abrigo e da proteção, a bênção da
misericórdia de Deus e a bênção da paz. Nessa perspectiva, Deus nos chama a
olhar primeiramente para as pessoas que nos rodeiam e, dessa forma, trazer uma
pergunta no coração, que se faz constante: como poderia eu ser bênção de Deus
na vida dos meus irmãos e irmãs?
2ª leitura: Gl. 4,4-7
Todos aqueles que creem em Cristo vivem
uma novidade de vida. As coisas velhas ficaram para trás e tudo se fez
completamente novo. Em Jesus se insere a certeza da construção de um novo
programa de vida, ou seja, de um novo modo de viver. Por causa de Jesus, somos
chamados a viver outro estilo de vida. Nele também se apresenta o Espírito do
Filho que clama em nós com a linguagem carinhosa da criança: “Abba, Pai”.
Trata-se de uma relação especial com Deus. Somente aqueles que se relacionam
com Deus podem chamá-lo de Pai. E por causa dessa nova relação é que podemos
estabelecer novas formas de relacionamento.
Em Jesus todas as relações são
renovadas: de escravos para filhos; de subjugados pela lei para vida em
liberdade; de desprovidos de qualquer valor para herdeiros. As coisas velhas já
se passaram e tudo vai se fazendo novo. Uma nova realidade se instala na vida
dos fiéis que se refletirá na própria maneira de ser e de viver. O que Jesus
fez por nós jamais outra pessoa poderia fazer. Nele e por causa dele somos
transformados e alcançamos a plenitude do ser humano. É importante e salutar
recordar que a posição que alcançamos em Jesus não é para nos tornar
Super-Homens e Mulheres Maravilhas, e sim para que a vida de Cristo reflita
novas formas de relacionamento social por meio das quais nos relacionamos com
os outros da mesma forma que Cristo se relacionou conosco. Cristo não nos
liberta para que sejamos supercristãos, e sim para que nos humanizemos a cada
dia. Na verdade, não existe essa categoria de supercristãos. O que de fato
existe é aquele/a que, ao aderir a Jesus Cristo, se torna servo/a a fim de
viver o discipulado e ser missionário/a do Reino.
Evangelho: Lc.
2,16-21
A profundidade da espiritualidade de
Maria é impressionante. Ela não somente possui imensa preocupação consigo
própria, mas também com o menino Jesus. Por isso, leva-o a Jerusalém para
apresentá-lo a Deus. Ela é a primeira e a maior de todas as catequistas. Mas,
para ela, a catequese tem início na própria casa. De nada adianta a preocupação
com tudo aquilo que é externo quando deixamos de lado aquilo que está próximo e
não lhe damos a devida atenção. Há uma igreja doméstica na casa de Maria e, com
a consciência de que tudo começa na própria casa, ela pode caminhar em direção
à casa de Deus. Aqui se encontra a chave da questão: o ponto de partida é que
se faz vital. Maria somente podia olhar para o templo depois que lançasse seu
olhar para a sua própria casa. De que adiantaria ter um altar na casa de Deus e
não edificar um altar na própria casa? Maria não é displicente. Ela é sabedora
de que o relacionamento com Deus tem início muito antes de chegar ao templo.
Quantas e quantas vezes desejamos catequizar os outros e nos esquecemos de nossas
próprias casas.
No entanto, Maria também conhece o
caminho que leva ao templo. Ela não resume sua vida espiritual aos espaços de
sua casa. Reconhece tal importância, é claro. Mas tem consciência de que é
preciso algo mais. Por isso, sai de sua casa e caminha em direção a Jerusalém.
Ela não se esquece do templo. Provavelmente muitos cristãos hoje se esquecem de
Jerusalém e percorrem outros caminhos. E ao se esquecerem do caminho que leva à
Igreja, também deixam de construir parte importante de sua espiritualidade e de
seu compromisso com o discipulado de Jesus, No entanto, para Maria, não havia
outro caminho além daquele que levava para a casa de Deus. A experiência de
Maria é contundente: devemos pegar o caminho que leva à casa de Deus e aí nos
apresentar a Deus e apresentar a ele todos os que nos acompanham.
Possivelmente, hoje, Maria ficaria com
o coração entristecido ao nos ver trilhando por tantos caminhos que não nos
aproximam da casa de Deus e até, quem sabe, nos afastam. Para ela não devia
haver, naquele momento, nada mais emocionante e maravilhoso do que trilhar o
caminho que levava de sua casa ao templo de Jerusalém. E, mais do que isso, um
caminho que ela trilhava acompanhada. Maria não tinha um projeto pessoal. Era
um projeto familiar e integrador. A unidade da família sagrada também acontecia
pelo caminho, ou seja, quando juntos buscavam a Deus.
Pelo caminho ia toda a sagrada família.
Unidos faziam o mesmo trajeto, comungavam do mesmo ideal e da mesma
espiritualidade. Para ela, não era possível iniciar a vida sem Deus nem
continuar a vida negando a Deus. Por isso, juntos percorriam o caminho que
levava ao encontro do Deus da vida. Há unidade na diversidade. Maria, José e
Jesus. Tão diferentes e tão iguais. Tão diferentes e buscadores do mesmo alicerce
que fundamentava aquilo que eram: uma família.
O comportamento de Maria é exemplar.
Não mede esforços para indicar a seu filho que o único caminho verdadeiro é
aquele que nos conduz ao coração do Pai. Nada mais belo do que ver uma mãe
ensinando a seu filho o caminho que leva à fonte de toda sabedoria, vida e
salvação. Maria é a guia e a catequista de seu filho. Nela, ele encontra não
somente a mãe, mas também a educadora que o conduz para o interior do próprio
Deus. É interessante observar que Maria é guia que de fato cumpre o papel de
guia, isto é, ela vai junto! Não é muito difícil encontrar pais que desejam
fortemente que seus filhos frequentem a Igreja, desde que percorram o caminho
sozinhos. Nesse caso os pais não agem como guias, e sim como antiguias e, por
que não dizer, antipais.
Pistas para reflexão
– A cultura contemporânea muitas vezes
e insistentemente nos leva a viver uma espiritualidade desvinculada da
comunidade. Nessa espiritualidade reina o individualismo e a busca incessante
do sucesso pessoal, mesmo que tal sucesso signifique prejuízo para outras
pessoas. De que vale o sucesso construído sobre o fracasso de outros? Seria
possível viver o evangelho sem a comunidade? Como ser cristão e negar tantos
irmãos e irmãs que formam o Corpo de Cristo?
– Vivemos tempos diferentes. Em muitos
momentos até mesmo parece que o evangelho foi falsificado e/ou transformado em
qualquer outra coisa que não o evangelho gratuito de Jesus. Numa sociedade em
que o valor econômico determina o preço de todas as coisas, até mesmo a bênção
de Deus passa a ser vendida como se fosse produto que pode ser adquirido nas
prateleiras de um supermercado. Seria, por acaso, possível colocar uma etiqueta
com preço nos atos graciosos de Deus?
Luiz Alexandre Solano
Rossi
Nossa Senhora do Ano Novo
No umbral de um ano
novo a Igreja coloca diante de nossos olhos a figura de Maria. O Menino
que foi dado precisava de braços, mãos, coração e vida humana para nos falar e
transmitir os segredos do seu Pai e sobretudo precisava ter um corpo para viver
e morrer. O corpo de Deus devemos ao sim de Maria que acolhe a vida
de Deus na carne de sua carne. Respeitosamente nós, cristãos,
vivemos sob o patrocínio dessa que chamamos de Mãe de Deus e nossa Mãe.
Eu vos saúdo, cheia
de graça, vós cujo seio é mais amplo que o céu porque ele abrigou Quem os
céus não podem conter. Eu vos saúdo, fonte da luz que iluminais o mundo;
eu vos saúdo, sol brilhante que estais sempre no levante e nunca no
poente. Eu vos saúdo porque carregais em vós o Autor da vida. Eu vos
saúdo porque és jardim do Pai Celeste, prado embelezado pelas
delicadas flores do Espírito Santo, Eu vos saúdo, ó fonte de todos os
bens: eu vos saúdo, pedra preciosa cujo brilho e valor não têm preço. Eu
vos saúdo, videira misteriosa, que carregaste o fruto mais rico, nuvem benéfica
que mataste a sede dos santos pela abundância de vossas águas, poço
místico de onde haurimos as águas vivas da graça, sarça ardente queimando
o fogo divino, sem se consumir, porta aberta unicamente para o grande Rei,
monte do qual se desprendeu a pedra angular sem o recurso das mãos dos homens.
(Crísipo de Jerusalém, monge palestino - aproximadamente entre 407-460).
“Coração, o mais puro
que já existiu. Coração mais humilde, Coração mais fervoroso no amor para
com Deus e para com o próximo. Coração que soube guardar cuidadosamente as
coisas que iam acontecendo na infância e juventude de vosso Filho,
Coração que tanto sofrestes no tempo da Paixão, Coração sempre file. Coração
sempre assíduo não oração: por vossos méritos obtende pelos
vossos méritos a graça do Senhor a graça do Senhor para todos os homens”
(Santa Mechtilde de Marburg, séc. XIII)
Nossa Senhora do ano novo
Primeiro dia do ano
novo. Em nossos lábios e em nossos ouvidos essa saudação tão bonita: feliz ano
novo! Um santo ano novo! Festa universal marcada por música, alegria,
fogos de artifício, danças, bebidas e comidas. Começa um ano novo, ano de graça
e de bênção do Senhor. A liturgia da Igreja coloca diante de nossos olhos a Mãe
do Menino. Hoje é festa de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela vai nos
acompanhar através do tempo que nos será dado viver neste ano que agora
chamamos de novo.
Estamos uma vez mais
diante da simplicidade do presépio. Pastores chegam ao local onde estava o Menino,
atendendo ao apelo do anjo. Lucas diz que eles, avisados do nascimento do
menino, foram às pressas a Belém. Maria vendo tudo, guardava esses fatos
e meditava sobre eles em seu coração. Vemos a alegria dos que chegam e damo-nos
conta da atitude de fé de Maria. Nesse tempo do Natal o mistério do Deus
encarnado é colocado diante de nós no rosto da criança. Vamos também levando
essas coisas ao fundo de nosso coração e nos acostumando alegremente a conviver
com Deus que se fez Emanuel no seio de sua Mãe e nossa Mãe. Viver de maneira
fecunda os dias do ano novo será levar as coisas de Deus até o fundo do
coração, cada dia, em cada circunstância, em todos os momentos.
Aquela mulher que
colocou no mundo o Menino das Palhas é Maria, Mãe de Deus. Paulo lembra que,
quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho nascido de mulher.
Ficamos muito felizes de ouvir a proclamação da benção vétero-testamentária
dada aos filhos de Israel (Números 6,22-27). Tal bênção se materializa no Filho
de Deus que nos foi dado por Maria. “O Senhor te abençoe e te guarde, faça
brilhar sobre ti a sua face, se compadeça de ti, volva para ti o seu rosto e te
dê a paz”. Tais palavras, no primeiro dia do ano, constituem garantia do amor
de Deus que quer acompanhar nossos passos no tempo que corre e que é dom de seu
amor.
Neste dia de ano novo
comemora-se o dia mundial da paz. “Desejaremos aos nossos amigos aquilo que
veio até nós em Cristo: o amor de Deus na doação de vida para os irmãos. Esta é
a verdadeira paz que convém desejar nesse dia mundial da Paz. Somente onde
reinam os sentimentos de Jesus – o esquecimento de si para o bem dos irmãos,
como pessoas e como sociedade, pode existir a paz que vem de Deus. É este o
espírito de Jesus, no qual chamamos a Deus de Pai e aos outros, irmãos” (Johan
Konings, SJ, Liturgia dominical, Vozes, p 61).
Ó Deus, que pela
virgindade fecunda de Maria destes à humanidade a salvação eterna, dai-nos
contar sempre com sua intercessão, pois ele nos trouxe o autor da vida (Oração
da solenidade)
frei Almir Ribeiro Guimarães
Nascido de mulher,
nascido sob a lei
Quem se lembra da antiga liturgia
gregoriana terá saudades, hoje, da maravilhosa antífona Salve sancta
parens (“Salve, santa genitora”), a participação de Maria no
mistério da Encarnação. Celebramos a oitava de Natal. Ora, ao oitavo dia do
parto confere-se ao filho a circuncisão (nome antigo desta festa), acompanhada
da imposição do nome.
É a integração na comunidade judaica. A
2ª leitura ressalta a maternidade e o rito judaico: “Nascido de mulher, nascido
sob a Lei” (Gl. 4,4). Mediante a figura de Maria é celebrada a inserção de
Jesus na humanidade, especificamente, na comunidade judaica. Pois Jesus não era
“bom demais” para nascer como homem, nem para ser submetido à lei judaica. Com
isso combina bem o fato de celebrarmos essa festa no início do ano civil,
lembrando a bênção do ano novo israelita (1ª leitura), reforçada pelo pedido de
bênção no salmo responsorial. Aliás, o nome que Jesus recebe (evangelho) é uma
bênção: Ieshua (‘= “Javé salva”).
Através do nascimento maravilhoso,
Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4° dom. do Advento),
no seio de um povo com leis e costumes, povo sobre o qual Deus faz “brilhar sua
face”, e o nome de Jesus traz a bênção do Senhor Deus. Jesus, “o Senhor salva”,
este é o nome que doravante será invocado sobre a humanidade (cf. Nm. 6,27).
A mediação da comunidade de Israel no
projeto salvífico de Deus nos ensina que Deus não ama em geral, abstratamente,
mas através de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode
ser realidade. Assim como Maria, no seio do povo de Israel, foi o caminho
concreto para o Salvador, serão comunidades concretas as portadoras de Cristo
como salvação de Deus para o mundo hoje. Assim, Maria é protótipo da Igreja e
das comunidades eclesiais (cf. oração do dia)
A festa de hoje remete também à renhida
discussão teológica que reclamou para Maria o titulo de Theótokos,
“Genitora (Mãe) de Deus” (Concílio de Éfeso). Decerto, Deus não tem mãe, mas
escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo realiza a obra de Deus.
Santificou em Maria a maternidade quando o Filho assumiu a humanidade. Deus
experimentou a realidade íntima da maternidade em Cristo. A maternidade é, como
a humanidade, capax Dei, capaz de receber Deus... Deus é tão grande
que conhece também o mistério da maternidade, e por dentro! (Para captar isso
talvez tenhamos de modificar um pouco nosso conceito de Deus.)
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Santa Mãe de Deus,
Maria
Naquele tempo os pastores foram às
pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na
manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E
todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam.
Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu
coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que
tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. Quando se completaram os
oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora
chamado pelo anjo antes de ser concebido.
Explicação do Evangelho
Os pastores eram homens e crianças
simples que viviam no campo, cuidando das ovelhas, e foram eles os primeiros a
serem avisados pelos anjos de Deus, sobre o nascimento do menino Jesus,
demonstrando a Sua opção pelos excluídos e marginalizados.
Eles foram ao encontro do Menino e O
encontraram com sua Mãe e seu pai, e contaram a eles o que tinham ouvido.
O relato dos pastores causava admiração
a todos, porém Maria se mantinha em silêncio, pois tudo aquilo já havia sido
revelado pelo anjo, no momento em que aceitou a missão de conceber e dar à luz
a Jesus, agora ela se ocupava de tentar entender o sentido.
Os pastores retornam à rotina cantando
de alegria e louvando a Deus pela graça de terem ficado diante de Seu Filho
Jesus que estava ali diante deles. Este sentimento de alegria e louvor é o
mesmo de todas as pessoas que se colocam diante de Jesus.
Depois de oito dias, Maria e José
levaram o menino para circuncidar, pois a circuncisão era uma prática que os
judeus realizavam em todos os meninos que nasciam, no qual a criança começava a
fazer parte do povo eleito. No momento da circuncisão a criança recebia do pai
seu nome que mostrava a missão que assumiria junto ao povo de Deus. Jesus, que
significa ‘aquele que vem trazer a salvação’, recebe o nome dado, pelo anjo
Gabriel, na anunciação à Maria e depois ao próprio José.
Jesus pelo fato de ter sido concebido,
gerado e nascido de uma mulher, além de submeter-se às leis dos homens sendo
circuncidado e receber um nome que o torna cidadão com um lugar definido na
sociedade, adquire uma situação de humanidade.
O Evangelho de hoje é dedicado à Maria,
que recebeu no Concílio de Éfeso em 431 d.C o título de “Mãe de Deus” (Theotókos).
Pequeninos do Senhor
O mistério de Deus em
Maria
A figura de Maria foi toda envolvida
pelo mistério de Deus. Ao aceitar ser a mãe do "Filho do Altíssimo",
ela estabeleceu um relacionamento profundo com a divindade. Lenta e
gradativamente, Maria foi compreendendo a real dimensão desta experiência, que
exigiu dela empenho e discernimento.
A visita dos pobres pastores ao Menino
Jesus, na gruta de Belém, ofereceu a Maria elementos de reflexão. Eles falavam
do que lhes fora revelado sobre o recém-nascido, sua identidade e sua missão de
Salvador, o Messias esperado. Sua origem divina evidenciava-se pela presença do
anjo do Senhor. Ele estava todo envolvido pelo mistério divino.
A história do Menino ligava-se
radicalmente à existência de Maria. Foi com ela que o Pai havia contado para a
gestação física de seu filho amado, que haveria de ser, também, filho dela. A
vida de Maria, portanto, definia-se pela relação com o Pai e com o filho Jesus,
redundando em serviço exclusivo a ambos.
Por que Deus escolheu aquela pobre
mulher de Nazaré, para concretizar seu plano de amor em relação à humanidade?
Nem mesmo Maria deve ter sabido dar uma resposta definitiva a esta questão. Por
isso, ela guardava, no coração, todas as palavras dos pastores, tentando
discernir o sentido e as exigências da presença de Deus em sua vida.
padre Jaldemir
Vitório
1ª leitura (Nm. 6,22-27) -
Bênção do ano novo sobre o povo
Na manhã da criação, Deus abençoou os
seres humanos e os animais, dando-lhes alimento e força de vida (Gn. 1,28-30).
Paz na natureza e no mundo dos homens, eis a bênção de Deus. Para quem se
coloca diante desta bênção, Deus deixa brilhar “a luz de sua face”, sua
graciosa presença. Só Deus pode realmente abençoar, benzer, “dizer bem”; os
humanos abençoam invocando o nome de Deus.
* Cf. Sl. 121[120],7-8; Dt. 28,6; Sl.
4,7; 122[121],6-7; Eclo. 50,22-23 [20-21].
2ª leitura (Gl 4,4-7) - “Nascido de
mulher, nascido sob a Lei”
Gl. é a “carta da liberdade cristã”.
Cristo veio para nos tornar livres (5,1), veio “sob a lei” passageira do A.T.,
para nos libertar dela. O Filho de Deus tornou-se nosso irmão, nele temos o
Espírito do Pai. – Comemorando a vinda de Cristo, pensamos especialmente na
“mulher” (4,4) que o integrou em nossa comunidade. * Cf . Ef. 1,10; Rm. 1,3; Jo
1,14; Rm. 8,15-17; Jo 3,16-21.
Evangelho (Lc 2,16-21) -
Adoração dos pastores, circuncisão e nome de Jesus
Dois assuntos: 1) os pastores ao
presépio de Belém; 2) a circuncisão e imposição do nome (no 8º dia). Jesus
sujeita-se à antiga Lei (cf. 2ª leitura). Recebe o nome dado pelo anjo (Lc.
1,31-33; Mt. 1,21; cf. Hb. 1,4-5): “Javé salva”.
Maria, “porta do
céu”
Nas ladainhas chamamos Maria “Porta do
Céu”. Porta para nós subirmos, ou para Deus descer? A festa de hoje confirma as
duas interpretações.
“Nascido de mulher, nascido sob a Lei”,
assim qualifica Paulo Jesus (1ª leitura). Jesus nasceu como todo ser humano de
uma mãe humana, Maria, e dentro de uma sociedade humana, a sociedade de Israel,
com sua “lei”, regime ao mesmo tempo religioso e sociopolítico. O evangelho
narra que Jesus, no oitavo dia do nascimento, foi acolhido na sociedade judaica
pela circuncisão e pela imposição do nome, como teria acontecido a qualquer
masculino dentre nós se tivesse nascido naquela sociedade.
Maria é, portanto, mãe do verdadeiro
homem e judeu Jesus de Nazaré, mas nós a celebramos hoje como “Mãe de Deus”...
Como se conjugam essas duas maternidades? Não são duas, são uma só!
O título “Mãe de Deus” foi conferido a
Maria pelo concílio de Éfeso no ano 431 d.C. Este mesmo concílio insistiu que
Jesus foi igual a nós em tudo menos o pecado (cf. Hb. 4,15) e viveu e
sofreu na carne de maneira verdadeiramente humana. Vinte anos depois, o concílio
de Calcedônio chamou Jesus “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. É
por ser mãe de Jesus humanamente que Maria é chamada Mãe de Deus, pois a
humanidade e a divindade em Jesus não se podem separar. Dando Jesus ao mundo
Maria deu Deus a todos nós.
Em Jesus, Maria faz Deus nascer no meio
do povo. Maria é o ponto de inserção de Deus na humanidade. Neste sentido ela é
“porta do Céu”, porta para Deus que desce até nós e pela qual nós temos acesso
a Deus. Toda mulher-mãe é ponto de inserção de vida nova no meio do povo. Em
Maria, essa vida nova é vida divina. Deus se insere no povo por meio da
maternidade que ele mesmo criou.
De maneira semelhante, Deus respeita
também a Lei que ele mesmo criou e comunicou ao povo. Seu Filho nasceu sob a
Lei e foi circuncidado conforme a Lei. As estruturas políticas e sociais do
povo, quando condizentes com a vontade de Deus, são instrumento para Deus se
tornar presente em nossa história. Deus mostrou isso em Jesus. E quando as leis
e estruturas são manipuladas a ponto de se tornarem injustas, o Filho de Deus
as assume para as transformar no sentido do seu amor. Por isso, Jesus morreu
por causa da Lei, injustamente aplicada a ele.
Assim como pela maternidade
humano-divina Maria se tornou “Porta do Céu”, a comunidade humana é chamada a
tornar-se acesso de Deus ao mundo e do mundo a Deus. A vida do povo, suas
tradições, cultura e estruturas políticas e sociais devem ser um caminho de
Deus e para Deus, não um obstáculo. Por isso é preciso transformar a vida
humana e as estruturas da sociedade, quando não servem para Deus e não condizem
com a dignidade que Deus lhes conferiu pelo nascimento de Jesus de mulher e sob
a Lei.
Johan Konings
Hoje é a oitava do Natal. Nesta eucaristia, é
necessário que tenhamos em vista alguns aspectos importantes.
No Oriente, era costume, no dia
seguinte ao parto, cumprimentar uma mulher que houvesse dado à luz. Por isso,
nossos irmãos orientais, desde o século IV, no dia seguinte ao Natal, celebram
a festa da congratulação da Mãe de Deus – uma homenagem Àquela que deu à luz o
Salvador. No Ocidente, a congratulação da Virgem é hoje, oito dias após o santo
Natal. A Igreja, com os pastores, vai ao encontro do Menino e o encontra com
sua Mãe; e proclama que este Menino é o Deus verdadeiro. Ele não é somente a
criancinha frágil; mas o Deus forte, feito pequeno por nós! Por isso, o povo de
Deus saúda, hoje, a Virgem, com o título antiqüíssimo de Mãe de Deus, isto é,
Mãe de Deus Filho! “Bendita sejais, Virgem Maria! Trouxestes no ventre quem fez
o universo! Vós destes à luz a quem vos criou e permaneceis Virgem para
sempre!” Este Menino, o Deus verdadeiro, fez-se realmente um de nós, nascido
realmente de uma Virgem. Ele não é a mãe de Deus Pai - isto seria uma
blasfêmia! Também não é mãe do Espírito Santo - isto seria loucura! Não se pode
tampouco dizer que ela é mãe da natureza divina - isto seria heresia! O que a
Igreja crê, professa, testemunha e ensina com todo acerto e toda piedade é que
a sempre Virgem Maria é Mãe santíssima do Deus Filho feito homem! Tudo quanto o
Filho é na sua humanidade, ele o recebeu de Maria! O Filho não somente nasceu
através de Maria, mas de Maria!
Mais ainda: os orientais gostam de
invocar Jesus exclamando: Deus nascido da Virgem, salvai-nos! Estejamos
atentos! Não somente Deus concebido de Maria, a Virgem, mas também Deus nascido
de modo inefável, miraculoso, misterioso, da Virgem: Deus nascido da Virgem!
Admirada com um nascimento assim, tão divino, tão único, a Igreja exclama:
“Como a sarça, que Moisés viu arder sem se consumir, assim intacta é a vossa
admirável virgindade. Virgem Maria, Mãe de Deus, por nós intercedei”. Deste
modo, a Solenidade de hoje nos recorda não somente que a Virgem é
verdadeiramente Mãe de Deus, mas que ela é sempre virgem: antes, durante e
depois do parto! O Cristo nosso Deus não somente foi concebido da Virgem Maria,
mas o Credo diz que ele nasceu da Virgem Maria! Nasceu sem destruir a
virgindade da Mãe! Para o nosso mundo atual, que supervaloriza o sexo e faz com
que os jovens tenham até mesmo vergonha de admitir que são virgens, proclamar a
virgindade perpétua de Maria, recorda-nos que a castidade é uma preciosa e cara
virtude cristã e a virgindade deve ser vista por nós como um valor e um ideal a
ser buscado! Em Maria, a Virgem, o permanecer na virgindade exprime que ela
sempre foi toda de Deus, absolutamente de Deus, em corpo e alma, em todo o seu
ser, de modo constante e absoluto!
Não é por acaso que, segundo o
Evangelho de Mateus, os magos encontraram o Menino com Maria, sua Mãe (cf.
2,11). É assim que Aquele que nos nasceu é sempre encontrado, pois o Deus que
de nada necessita, contou com o “sim” da Virgem e dela, como de uma terra nova
e virgem, gerou segundo a natureza humana o seu Filho para nossa salvação. É
este mistério que a Igreja hoje celebra: este Menino é o Deus verdadeiro e sua
Mãe faz parte do plano da salvação, pois “quando chegou a plenitude do tempo,
Deus enviou o seu Filho, nascido de uma Mulher... a fim de resgatar os que eram
sujeitos à Lei”. Na nossa salvação, esteve, está e estará sempre presente a
Mulher, a Virgem Maria. Alegremo-nos, portanto, com a Virgem Maria e, com toda
Igreja, digamos: “Virgem Santa e Imaculada, eu não sei com que louvores poderei
engrandecer-vos! Pois Aquele a quem os céus não puderam abranger, repousou em
vosso seio. Sois bendita entre as mulheres e bendito é o fruto que nasceu do
vosso ventre!”
Há um segundo aspecto deste hoje. O
primeiro do ano e dia da confraternização universal, início do ano civil. A
pedido do papa Paulo VI, a ONU transformou esta data em dia festivo para todas
as nações. É dia da paz, dia da confraternização entre os povos, nações,
culturas... Ora, nós cristãos sabemos que a paz não é uma idéia, um sonho, um
desejo; a paz é uma pessoa. São Leão Magno dizia, no século V: “O Natal do Senhor
é o Natal da Paz. Cristo é a nossa paz!” Não foi a respeito dele que o profeta
afirmou: “Ele será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do mundo
novo”? (Is. 9,2-6) Não foi ele mesmo quem disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz
vos sou; não vo-la dou como o mundo a dá?” (Jo 14,27). Que tenhamos cada vez
mais sólida esta convicção: a paz que almejamos, a paz tão sonhada, a paz para
o mundo e para a nossa vida, somente no Cristo poderá ser encontrada de modo
definitivo e pleno! Nele, nem as tristezas, nem as desilusões, nem as
angústias, nem as provações, poderão nos fazer perder a paz! Cristo, nossa Paz!
Finalmente, hoje, também, é dia da
circuncisão do Menino. Como descendente de Abraão, ele foi circuncidado,
passando a fazer parte do Povo da antiga Aliança, e recebeu o nome de Jesus,
isto é, Deus salva! Que nome belo, que nome eloqüente, que nome bendito a nos
encher de certa esperança para os dias de 2004 que chegou! Jesus, nome acima de
todo nome, único nome no qual podemos encontrar salvação no céu e na terra.
Jesus, doce lembrança do nosso coração, doce alívio nas dores, forte certeza
nos momentos difíceis. Jesus, amigo certo de todas as horas, única certeza e
apoio de nossa existência! Por isso mesmo, a primeira leitura da Missa de hoje,
faz-nos ouvir a bênção de Aarão, que, por três vezes, invoca o nome do Senhor
sobre o povo! Para os cristãos, o Senhor é Jesus, e não há outro! Pois é neste
nome bendito que todos e cada um queremos iniciar o novo ano civil: “O Senhor
te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se
compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu olhar e te dê a paz!”
Hoje é a oitava do Natal. É um
antiqüíssimo costume da Igreja de Roma, voltar seu coração e sua mente, neste
dia, para Aquela de quem nasceu o Salvador do mundo. O Evangelho de são Mateus
afirma que os magos, ao entrarem onde estava a Sagrada Família, “viram o Menino
com Maria, sua Mãe e, prostrando-se, o homenagearam” (2,11). Trata-se da
homenagem solene e ritual prestada aos reis orientais. E, no Oriente, a Mãe do
rei, chamada gebirah, exercia um papel importantíssimo. Pois, eis aqui, na cena
do Evangelho, o Rei dos judeus, o Rei-Messias, o Rei que é Deus, e sua
Rainha-Mãe, sua gebirah, a Virgem Maria! Agradecida pelo seu “sim” ao plano de
Deus, a Igreja chama-a, desde os primórdios da fé cristã, de “Mãe de Deus”,
isto é, “Mãe de Deus-Filho feito homem”! Com isto, nós confessamos que o Menino
nascido da Virgem é Deus verdadeiro e perfeito, uma Pessoa divina com a
natureza divina completa e uma verdadeira natureza humana. Ele, Filho do eterno
Pai, fez-se realmente, como homem, filho de Maria Virgem, sem deixar de ser
Deus! Na Virgem Santíssima, que trouxe em seu seio a segunda Pessoa da Trindade
Santa, o divino e o humano se encontraram para sempre, os céus e a terra se
abraçaram para nunca mais se deixarem!
Ao recordar a maternidade divina de
Nossa Senhora, a Igreja recorda também as condições maravilhosas dessa
maternidade: ela aconteceu de modo virginal! Com efeito, a Mãe do Senhor
concebeu virginalmente, virginalmente deu à luz e virgem permaneceu para
sempre! A Virgem não somente concebeu, mas também virginalmente deu à luz um
filho – eis a profecia de Isaías (cf. 7,14). A Igreja canta esse mistério com
palavras admiráveis: “Na sarça que Moisés via arder sem se consumir, admiramos
o sinal da vossa incomparável virgindade, ó Mãe de Deus!” e ainda,
pensando na porta selada, pela qual somente o Senhor passaria, como profetizou
Ezequiel (cf. 44,2), a Igreja exclama: “A porta eterna do Templo eternamente
fechado feliz e pronta se abre somente ao Rei esperado!”. Aqui silencia a
imaginação humana, pois que pertence ao segredo de Deus o modo como, Virgem, Nossa
Senhora concebeu e ainda como, virginalmente, deu à luz! Uma coisa é certa: sua
virgindade perpétua quer nos mostrar o quanto esse Menino todo vindo de Deus é
um novo começo, um novo início para toda a criação e toda a humanidade! Além do
mais, revela o quanto Maria Virgem foi integralmente de Deus, de corpo e alma.
Num mundo que endeusa o sexo e exalta de modo abusivo a sensualidade, a
Santíssima Virgem nos aponta outros valores e revela a beleza da virgindade e
da castidade como expressão do ser humano vivendo livre, debaixo do senhorio de
Cristo, no seu corpo, no seu afeto e na sua alma! Quanto mais alguém vive
totalmente para o Senhor, mais fecundo se torna em sua vida e mais traz Jesus
ao mundo, como testemunha do Reino dos céus. Por isso a saudação que a Igreja
hoje dirige à Virgem Maria: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei
que governa o céu e a terra pelos séculos eternos!”
Hoje também, oitavo dia do nascimento
do Fruto do ventre da Virgem, a Igreja recorda a circuncisão do Menino. Ele,
circuncidado, passou a fazer parte do Povo de Israel. Assim, cumpriu-se a
promessa que Deus fizera a Abraão, nosso Pai. Da sua descendência o Senhor
fizera surgir um Salvador para todas as nações: “Quando se completou o tempo
previsto, Deus enviou o seu filho, nascido de uma Mulher, nascido sob a Lei!”.
Circuncidado, o Menino recebeu o nome de Jesus, que significa “o Senhor salva”.
Seu nome revela sua identidade, sua missão e a causa da nossa alegria! Ele é a
salvação que Deus nos concede, ele é a nossa Paz, pois nos reconcilia com Deus
e nos abre as portas dos céus. Por isso mesmo, os cristãos hoje, juntamente com
toda a humanidade, celebram o Dia da Paz. Para nós, essa Paz tem um nome, tem
um rosto, tem um sorriso. Podemos encontrar tudo isso naquele que veio de
Maria, a Virgem! Somente abrindo-se para ele, o mundo encontrará a verdadeira
paz!
Confiemos, pois, os dias do novo ano
civil que está começando, a este Menino, o Príncipe da Paz. Que o seu nome
repouse sobre nós, como uma bênção! Certamente, neste ano choraremos e
sorriremos, venceremos e fracassaremos, cairemos e nos ergueremos... Não
importa! Importa, sim, que estejamos com o Senhor, ele, que estará sempre
conosco. Ele foi apelidado – não esqueçamos – de Emanuel, Deus-conosco! Que
este ano seja, como se colocavam nos antigos documentos, “Ano da Graça de Nosso
Senhor Jesus Cristo!”
Estamos iniciando o ano novo
profundamente feridos e perplexos com a tragédia da Ásia. Escapa-nos o porquê
de tanta dor, sofrimento e morte. Mas, teimamos em acreditar que há um Deus no
céu, que, em Cristo, esse Deus fez-se presente como amor, como companhia, como
ternura e consolo para toda a humanidade. Cremos que, neste Menino que nasceu e
cresceu e chorou e sofreu e morreu, Deus faz-se, para sempre, solidário conosco.
Queremos recordar cada morto e cada sobrevivente dessa tragédia; queremos
recordar aqueles montes de cadáveres em decomposição, sem tempo para uma
sepultura digna; queremos dizer que tudo isso é muito triste, é absurdamente
incompreensível! Mas, queremos também colocar tudo isso nas mãos desse
Menininho; também ele pobre, também ele perseguido, também ele sem abrigo,
também ele sofredor até a morte de cruz, até o silêncio da sepultura, para dar
sentido às nossas dores e vencer a nossa morte. Nesse Menino crucificado, a dor
humana não se explica, mas encontra consolo; nesse Emanuel, nós sabemos que
Deus está conosco, mesmo quando parece se calar ante uma tragédia como a que
estamos assistindo!
Coloquemos, pois, os dias de nossa vida
nas mãos do Salvador. E, como penhor de que nossas preces serão ouvidas,
supliquemos à Mãe de Deus toda Santa: “À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe
de Deus! Protegei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pela
Igreja, protegei o clero, ajudai-nos todos, sede nossa salvação! Santa Maria,
sois a Mãe dos homens, sois a Mãe do Cristo que nos fez irmãos! Rogai pela
Igreja, pela humanidade e fazei que, enfim, tenhamos paz e salvação!”
dom Henrique Soares
da Costa
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