3º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Domingo dia 22
Is 8,23b-9,3
Salmo 26
1Cor 1,10-13.17
Evangelho Mt 4,12-23
“SEGUI-ME, EU FAREI DE VÓS PESCADORES DE HOMENS.”- Olivia Coutinho.
3º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 22 de Janeiro de 2017
Evangelho de Mt4,12-23
Cruzar os braços diante à realidade que aí está achando que o mundo não tem mais jeito, é como apagar um pavio que ainda fumega, é como quebrar uma taquara rachada, é dar como encerrada a mais bela história de amor iniciada por Deus na criação!
A exemplo de Jesus, não podemos nos dar como vencidos diante aos adversários do projeto de Deus, pois em nós, que somos enxertados em Cristo, existe uma força maior que transcende a força do mal.
Não podemos esquecer de que o amor de Deus pelo o humano, é um amor persistente, Deus não desiste da sua Criação!
Se o mal está ganhando força no mundo, temos também uma parcela de culpa, talvez, não estamos deixando aflorar o bem plantado por Deus em nossos corações, pois a única arma capaz de vencer o mal é o bem. Se o mundo está envolto em trevas, é porque estamos ofuscando a Luz de Deus que brilha em nós, com a nossa omissão!
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, narra os primeiros passos de Jesus na sua vida pública, quando Ele começa a desenvolver o projeto de Deus que tem como prioridade a vida humana em toda a sua dimensão!
Tudo, começa num momento conflituoso, logo após a prisão de João Batista. A prisão de João Batista, o grande profeta que chamou o povo a conversão, não intimidou Jesus como muitos pensavam, pelo o contrário, o encorajou ainda mais!
Jesus começa as suas pregações, aos arredores da Galileia, uma região conflituosa, considerada como reduto da infidelidade a Deus, o que vem nos mostrar, que é no meio dos conflitos que um seguidor de Jesus é chamado a atuar!
Às margens do mar da Galileia, Jesus começa a formar a sua primeira comunidade, o embrião da sua Igreja, uma Igreja Missionária que vai ao encontro do outro, do excluído do abandonado. Tudo vai acontecendo dentro da simplicidade, Jesus não vai atrás de pessoas letradas, de início, o seu olhar paira sobre alguns pescadores, pessoas simples, dotadas de qualidades e defeitos que deixaram suas redes para se tornarem pescadores de homens!
Com a colaboração destes homens, que deram o seu sim ao projeto de Deus, Jesus começa a implantar o reino dos céus aqui na terra! Diferente do humano, Ele não questiona o passado dos seus escolhidos, não lhes exige alguma formação, apenas uma condição: a conversão do coração!
É graças ao testemunho desta pequena comunidade formada por Jesus, que hoje, mais uma vez, estamos aqui, eu e você, buscando o crescimento na fé através do entendimento da palavra de Deus!
Hoje, Jesus continua chamando mais colaborares para a construção do Reino de Deus, pessoas que estejam dispostos a enfrentar à desafiante missão de tornar presença Dele, em meio aos conflitos!
Há uma grande necessidade de operários na obra do Senhor, que é uma obra permanente, o próprio Jesus afirma: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos.”L10,2
Isentar da responsabilidade de administradores do que é de Deus, é rejeitar o seu projeto de vida plena, é condenar-se a uma vida vazia.
Sabemos que no mundo há muito por fazer, pois precisamos, reconstruir o que Deus criou, mudando a realidade que aí está, afinal, não podemos perder de vista, o horizonte que nos aponta um mundo novo, um mundo novo, onde o amor a justiça e a paz haverão de triunfar!
Jesus continua nos falando do Reino dos céus, Ele é a própria presença deste Reino, quando deixamos nos conduzir pelos os seus ensinamentos, ocorre uma mudança radical no nosso modo de viver, passamos a ver o irmão com outros olhos, a não nos dar como vencidos diante as forças do mal, a acreditar que o mal não sobrepõe o bem, que o mundo ainda tem jeito!
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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-CONVERTEI-VOS DIANTE DA LUZ!-José
Salviano
O
povo que vivia na escuridão da iniquidade viram uma grande Luz, que brilhou
para os mortais entorpecidos pelo pecado e pelo vício. E Jesus começou a pregar
dizendo: CONVERTEI-VOS, por que o Reino dos Céus está próximo. CONTINUAR LENDO
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Vós sois a minha
luz e a minha salvação
Mateus, ao iniciar a narrativa da
atividade apostólica de Jesus, viu a profecia de Isaías tornar-se realidade perante
seus olhos. A luz que ilumina a Galileia e de lá se difunde para o mundo
inteiro é Cristo e o Reino por ele anunciado. Cristo e o Reino são
inseparáveis. O início da pregação de Jesus é que o Reino está próximo, não
porque está chegando, como afirmava o Batista, mas porque está ali ao lado, o
Reino está em Jesus. A vocação dos apóstolos e a cura das enfermidades são
sinais de que o Reino chegou e sua luz está se expandindo e dissipando as
trevas do pecado e do mal. A resposta imediata e o generoso abandono das redes
por parte dos primeiros discípulos significam que a propagação desse Reino é
urgente. Na atividade missionária, há muitos carismas e ministérios que não
devem ser concorrentes, pois a todos foi dado o mandato de anunciar o evangelho
de formas diversificadas.
1. Evangelho (Mt
4,12-23)
O povo que jazia nas
trevas viu uma grande luz
O tema da luz, já mencionado na
narrativa da infância de Jesus, continua aqui, no relato inicial de sua
atividade na Galileia. A atuação pública de Jesus apresenta-se como realização
das promessas de Deus para salvar seu povo. As cidades de Zabulon e Neftali,
que no Antigo Testamento estavam dominadas pelos estrangeiros, representam
agora a realização da profecia messiânica. Deus realiza a salvação prometida:
uma luz surge onde há sombras e trevas, porque o Reino de Deus está próximo,
está presente no Cristo.
Na atuação de Jesus na Galileia, cidade
miscigenada por diversos povos que viviam nas trevas do pecado e do politeísmo,
a luz começa a brilhar e se expandir, pois o Reino de Deus é anunciado. A cura
dos enfermos testemunha a expansão desse Reino. Mas esse é só o início, pois o
Reino deve ser anunciado a todos os povos. Por isso, o apelo de Jesus é forte,
o chamado dos apóstolos é urgente. Para que a luz chegue a todas as nações, é
necessário que os cristãos se empenhem em responder prontamente ao chamado de
Cristo, como fizeram os apóstolos, que, deixando suas redes de pesca, o
seguiram.
1ª leitura (Is
8,23b-9,3)
Aos que viviam na
sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz
A Galileia era sempre a primeira região
a sofrer os estragos provocados pelos impérios estrangeiros que guerreavam
contra a terra de Israel. Isso porque era uma rota mais acessível que o deserto
ou o mar Mediterrâneo.
Além de ser a primeira região a sofrer
o ataque dos inimigos, a Galileia é a região por onde o povo de Israel foi
deportado para o estrangeiro. Por isso, as expectativas messiânicas
concentravam a atenção na Galileia como cenário da primeira manifestação da luz
messiânica, já que seria a primeira região a receber a libertação, como antes
tinha sido a primeira a experimentar a escravidão.
O “caminho do mar” ficava na região da
Galileia. Era uma estrada entre a terra de Neftali (ao norte) e a terra de
Zabulon (ao sul). Os judeus acreditavam que nessa estrada se manifestaria o
Messias, trazendo de volta para a Terra Prometida os judeus dispersos pelo
mundo. Essa região sombria, testemunha de tantos sofrimentos, converter-se-ia
em cenário de alegria. Porque o cetro (o poder) dos inimigos seria totalmente
destruído pelo Messias. A vitória messiânica é apresentada em analogia com o
“dia de Madiã”, quando Gedeão venceu o inimigo de modo excepcional (Jz
7,16-25).
2ª leitura (1Cor
1,10-13.17)
Cristo me enviou para
pregar o evangelho
Paulo agradece a Deus por não ter
batizado nenhum coríntio. Isso não significa que desvalorize o batismo, mas
apenas que recebeu outro encargo, a pregação do evangelho aos gentios (os não
judeus). Encargo que ele exercia com base no conteúdo fundamental do evangelho,
e não na eloquência da retórica (sabedoria das palavras), tão valorizada pelos
coríntios. A vida, morte e ressurreição de Cristo constituem o núcleo básico (o
conteúdo fundamental) da proclamação do evangelho, e nisso Paulo desejava que
os coríntios concentrassem toda a atenção.
Além do uso da retórica, os
destinatários supervalorizavam alguns missionários. Isso causava sério problema
de divisões dentro da comunidade. A formação de grupos e a antipatia entre eles
impediam a unidade da comunidade.
Com a expressão “vós sois de Cristo”, o
apóstolo condena o partidarismo dentro da Igreja. Pelo batismo, os cristãos se
identificam com Cristo, não com o ministro que está a serviço da comunidade. Já
que a Igreja é o corpo de Cristo, não deve estar dividida sob nenhum pretexto.
Pistas para reflexão
Enfatizar a união dos membros da
Igreja. A unidade na Igreja não pode ser entendida como simples união de
pessoas afins ou com os mesmos ideais, como se fossem membros de um sindicato
ou partido político. É algo mais profundo. É uma união misteriosa; em palavras
teológicas, é uma união mística. Mas não metafórica, e sim vital e real, que
supera todas as realidades que causam a divisão. Cada membro é distinto dos
demais e os carismas são diversos, mas isso não significa divisão, e sim que
Deus respeita a identidade de cada ser humano. A união entre os diversos
membros da Igreja é como o feixe de luz, cuja diversidade não é notada a olho
nu, mas no prisma ou no arco-íris é visto em cores variadas. A união na Igreja
deve-se ao Espírito Santo presente como vínculo que une e vivifica cada membro
em função da edificação do Reino de Deus. Se há divisão entre os membros da
Igreja, isso significa que as trevas do pecado estão tomando o espaço destinado
à luz. A unidade na Igreja é luz que irradia para o mundo a fraternidade
universal instaurada por Cristo.
Aíla Luzia Pinheiro
Andrade
Há muitos caminhos de realização
humana. Dentro de cada ser humano há um apelo a ir em frente. Corpo,
inteligência, vontade formam o ser humano que é um peregrino da realização, um
buscador da felicidade. Não somos coisas, não somos pedras, não somos objetos.
Há dentro dos seres retos um desejo de plenitude.
Ninguém pode passar pelo mundo em
brancas nuvens. Através do trabalho de nossas mãos, das elocubrações da nossa
inteligência e decisões de nosso querer vamos nos transformando, transformando
o mundo que nos cerca. Somos “ativados” pelo chamado da vida. Ghandi, Martin
Luther King, Madre Teresa são alguns desses exemplos de vidas que valeram à
pena. Responderam generosamente ao apelo da vida. Somos convidados a ser irmãos
de nossos irmãos os homens.
Há um chamamento a
sermos de Cristo. Trata-se de revolução que se opera na vida de uma pessoa.
Cristo Jesus, vivo e ressuscitado, se apresenta numa existência e quer arrancar
de uma liberdade a decisão de seu seguimento. No seio de uma família cristã,
freqüentando uma comunidade cristã, fazendo experiências de desejo de plenitude
ou de não sentido da vida (desânimo e pecado) há aqueles que decidem livre e
generosamente a serem seguidores de Cristo. O evangelho deste domingo descreve
o chamamento ou a vocação de alguns apóstolos segundo a versão do quarto
evangelho. Trata-se do chamamento para o seguimento de Jesus na qualidade de
apóstolos, de enviados, de estreitos colaboradores da missão do Mestre.
Pedro e André são
chamados por primeiro. Foram chamados no momento em que faziam seu trabalho de
todos os dias. A ordem é: Segui-me. De pescadores de peixes, eles serão
transformados em pescadores de homens. João faz questão de observar que eles
imediatamente seguiram a Jesus. Não houve hesitação. Não consultaram nem este
nem aquele. Muitos dos relatos de vocações são marcados pela urgência. Não se
pode adiar o sim. Mais adiante o evangelista fala do apelo feito a Tiago e
João.
Não basta ser marido
e mulher. É preciso viver a vocação conjugal e familiar com garra. Viver o
relacionamento familiar à luz da fé. Ser um casal e uma família chamados a
deixar as coisas pequenas e a seguir Cristo. Não basta ser religioso ou ser
religiosa. Não é suficiente rezar de manhã, colocar as rendas em comum, fazer
isto ou aquilo. Será preciso ser profundamente “religioso”, profundamente
consagrado a Deus. Não há vocação perfeita sem uma verdadeira mística. Não
basta ter sido ordenado presbítero. Será fundamental ser instrumento, agir na
pessoa de Cristo. Será importante celebrar a Eucaristia não por rotina mas na
convicção mais profunda de que se está continuando a obra de Cristo. Precisamos
de sacerdotes com zelo apostólico.
Todos os que são
chamados a seguir a Cristo nos diferentes caminhos e nas diversas estradas
serão pessoas que vivem um fogo interior. São como Cristo. Querem que o mundo
incendeie!. O mundo não precisa de pessoas meramente “religiosas”, mas daqueles
que respondem ao apelo de total seguimento.
frei Almir Ribeiro Guimarães
A Luz do Evangelho
O evangelho de Mateus é o evangelho do
cumprimento das Escrituras, como já notamos várias vezes. Toda a
“história de Jesus” é narrada como realização daquilo que, no Antigo
Testamento, parecia anúncio ou prefiguração do definitivo agir salvífico
de Deus. Quando Jesus se muda de Nazaré para Cafarnaum, Mt vê aí a realização
última e definitiva daquilo que já acontecera uma vez no tempo de Isaías.
Pois, naquele tempo, o nascimento de um
príncipe parecia prometer tempos melhores para a população da Galiléia
(Zabulon e Neftali), terrorizada pelas deportações assírias: o povo que ficara
nas trevas veria uma nova luz, Para Mt, a mudança de Jesus para aquela região
realiza plenamente o plano de Deus. É o que nos mostram a 1ª leitura e o
evangelho de hoje. Nessa realização, soa o clamor messiânico: “Convertei-vos, o
Reino de Deus chegou!”
Na efervescência desta nova
consciência, pescadores são transformados em pescadores de homens. Dando
seqüência à palavra de Jesus, abandonam suas redes e suas famílias e se engajam
com ele para fazer acontecer o Reino de Deus. Jesus inicia suas pregações nos
arredores, sua mensagem é confirmada pelos prodígios que realiza, prodígios que
falam da comiseração de Deus para com seu povo oprimido. Como canta o salmo
responsorial, Deus se revela como luz e salvação para os seus; o povo pode
animar-se e pôr nele toda a confiança.
Com isto, desenhamos o espírito
fundamental deste domingo: um novo ânimo apodera-se do povo no qual Jesus
inicia sua pregação. Ao largarem tudo, os pescadores do lago de Genesaré
representam a transformação que a pregação da proximidade do Reino causou.
A liturgia nos toma contemporâneos
desses primeiros que ouviram a pregação e seguiram o apelo. A pregação de Jesus
não perdeu nada de sua atualidade. Nisto consiste a “plenitude” daquilo que
Cristo veio fazer: o que aconteceu “uma vez” é também “para sempre”. Sua
pregação tornou-se, de algum modo, um eterno presente. Também hoje devemos
ouvir a voz que nos diz que Deus veio até nós, para que nós voltemos a ele.
Pois a nossa existência e a nossa história, por si mesmas, sempre se degradam.
O Reino de Deus nunca é definitivamente conquistado, pelo menos não enquanto
dura a história humana. É uma realidade que deve aproximar-se sempre de novo; e
nós, portanto, devemos converter-nos, voltar-nos para ele sempre de novo, como
indivíduos, como sociedade, como Igreja, como cultura. Evangelização é isso aí:
o evangelho, o clamor de Cristo na terra de Zabulon e Neftali, ressoa sempre de
novo nossa vida adentro.
Já no começo da Igreja, Paulo sentiu
que o evangelho não foi um mero grito passageiro lá na margem do lago de
Genesaré, mas um chamado sempre novo à conversão. Aos seus cristãos de Corinto,
que generosamente aceitaram a fé, ele deve lembrar, depois de algum tempo, o
evangelho, que, diferente das considerações humanas, não permite a divisão, mas
une a todos no nome do Cristo, no qual são batizados. O evangelho não é de
belas palavras, mas da cruz de Cristo.
“Evangelho” significa “boa-nova”. É uma
luz para os que estão nas trevas. Os prodígios que acompanham a pregação de
Jesus revelam o luminoso amor de Deus para seu povo. O que nós anunciamos como
mensagem de Deus tem estas características? Alivia o povo oprimido, anima os
desanimados?
Johan Konings
"Liturgia dominical"
Mateus, várias vezes em seu Evangelho,
confronta os fatos da vida de Jesus com as previsões das profecias sobre o
Messias, como no Evangelho de hoje que ele cita a profecia de Isaías segundo a
qual o Messias iluminaria toda a terra.
Com a prisão de João Batista,
encerra-se a atividade do Precursor e inicia a atividade do Filho de Deus.
Fecha-se assim as atividades do
Primeiro Testamento e inicia-se o Segundo Testamento. Jesus entra em cena
proclamando o mesmo anúncio: “Convertam-se, porque o Reino do Céu está
próximo.”
Ele inicia as suas pregações em
Cafarnaum, uma cidade pequena e humilde, distante dos grandes centros, uma
região sofrida, lugar das trevas e escuridão, do sofrimento e da dor, onde o
povo vivia na miséria por causa da opressão que era submetido. Região das
tribos de Zabulon e Neftali, especialmente dominadas e corrompidas pelos
estrangeiros, cumprindo assim o que foi anunciado por Isaías.
É, pois nesta região onde o povo de
Deus encontrava-se desfigurado e sem identidade que Jesus vem anunciar a
justiça do Reino, a libertação, dando assim início a uma nova perspectiva de
vida para aquelas pessoas. É, portanto, no meio desse povo que surge uma nova
luz para iluminar a todos.
Cafarnaum, ponto de partida da ação de
Jesus, ficava às margens do lado de Genesaré também chamado mar da Galiléia,
visto por gananciosos como mero “caminho do mar”, rota de caravanas e
exércitos. E é no meio do povo que vive ali que Jesus encontra os seus
primeiros colaboradores, homens simples, pescadores, aos quais pede uma entrega
sem restrições.
Ele chama primeiro dois irmãos – Simão
(Pedro) e André e, depois, outros dois: Tiago e João, sinalizando que o projeto
do Reino de Deus é fundamentado na fraternidade. Jesus escolhe trabalhadores
para mostrar que o Seu projeto, mais que uma teoria, necessita de ação e
absoluta dedicação. É também uma proposta de ruptura, deixar as redes, os barco
e o pai, para se envolver e se entregar ao desafio que se apresenta, e
disponibilidade por colocarem-se prontamente a serviço do Reino.
Aos quatro, Jesus promete que fará
deles pescadores de homens. Aqueles homens simples da Galiléia saíram então de
uma vida sem horizontes para seguirem o Mestre. Eles partiram após serem
contemplados com a Sua luz. Colocaram-se a seu serviço a fim de levar esta
mesma luz para muitos e fazer chegar a estes o projeto de Deus, a mensagem de
Salvação.
Pequeninos do Senhor
A luz brilhou e iluminou todo o povo oprimido
Encerrada a missão de
João Batista, começa a missão de Jesus. É como se a história da salvação fosse
dividida em dois períodos (cf. Lc. 16,16). Ao texto de Marcos (Mc.
1,14-15.16-20), Mateus acrescenta Is 8,3–9,1. A Galileia é iluminada pela
presença de Jesus. A citação do trecho do livro do profeta Isaías, que
inclusive temos como primeira leitura, no interior do texto de Mateus serve
para indicar que a profecia de Isaías é realizada. Em Jesus, a promessa de Deus
se realiza, não é preciso esperar mais (cf. Mt 4,17). O texto de Isaías é uma
profecia messiânica. O ponto culminante do texto encontra-se num versículo mais
adiante do trecho que nos é proposto, a saber, em 9,5, que anuncia o nascimento
de um menino que é um dom de Deus e garantia da continuidade da dinastia
davídica. Se a guerra cessou, se a luz brilhou e iluminou todo o povo oprimido,
se foi devolvida a esperança e a alegria, é porque esse menino nasceu; a ele se
atribui os títulos: “Conselheiro Admirável”, “Deus Forte”, “Chefe Perpétuo”,
“Príncipe da Paz” (Is. 9,5). A comunidade cristã que relê a Escritura à luz da
Páscoa de Jesus Cristo reconhece nesse texto a profecia que diz respeito ao
próprio Jesus. Nele eles identificam os atributos conferidos ao menino de Is
9,5.
O início do
ministério público de Jesus está em continuidade com a pregação e o Batismo de
João: trata-se de um apelo à conversão (cf. Mt. 3,2; 4,17). A conversão é
necessária para poder reconhecer e acolher o Reino de Deus como dom e que já se
faz presente na pessoa de Jesus. No início de sua vida pública, Jesus associa a
si um grupo que ele chama por sua própria iniciativa. A tarefa é dupla:
acompanhar Jesus onde quer que ele vá e aceitar participar da missão de Jesus
de arrancar as pessoas do mal (cf. Mt. 4,19). A pronta resposta das duas duplas
de irmãos revela, por um lado, o poder de atração de Jesus e, por outro, a
necessidade de uma resposta sem demora. Para seguir o Senhor é preciso
desapego, não permitir que os laços afetivos nem o apego às coisas impeçam de
segui-lo incondicionalmente.
Carlos Alberto Contieri,sj
Jesus dá continuidade ao anúncio de João Batista
Jesus, reconhecendo o
valor e a autenticidade de João Batista com seu anúncio e exortação para
conversão à justiça, sinalizada pelo batismo nas águas do rio Jordão, vai ao
seu encontro e recebe o batismo. João Batista desenvolve sua atividade em
território fora da influência do Judaísmo, na Pereia, à margem leste do rio
Jordão. Após sua prisão, Jesus volta para a Galileia e, deixando Nazaré, passa
a morar em Cafarnaum, às margens do mar galileu. Embora grandiosamente fosse
chamado de "mar", na realidade trata-se de um extenso lago de água
doce formado pelo rio Jordão, em uma depressão em seu leito. Jesus, como João,
também proclama a Boa-Nova nas regiões de presença gentílica, na Galileia e nos
territórios vizinhos. A Galileia é caracterizada pelo profeta Isaías como
território "dos gentios" (cf. primeira leitura). Jesus dá
continuidade ao anúncio de João Batista ao exortar à conversão diante da
proximidade do Reino dos Céus. Contudo, com Jesus, o Reino adquire o sentido do
convívio, neste mundo, na plenitude do amor, no Espírito, na misericórdia e no
acolhimento, em comunhão de vida eterna com o Pai. O reino de amor contrapõe-se
ao reino de poder da tradição judaico-davídica. A conversão à justiça é uma das
dimensões concretas da manifestação do amor. A ordem tradicional que favorece
os privilegiados opressores é substituída pela libertação dos oprimidos, os
quais resgatam sua dignidade e levantam-se com novo ânimo e nova vida. Jesus
caminha à beira do mar da Galileia e chama quatro de seus discípulos. São de
famílias de humildes pescadores. Simão e André, nomes de origem grega, e Tiago
e João, de origem hebraica. Todos eles abandonam seu antigo sistema de vida,
econômico e familiar, não para fugir do mundo, mas para iniciarem uma nova
prática social transformadora. A conversão se faz quando se olha para Jesus e
deixa-se contagiar pelo seu amor misericordioso e por suas palavras. Assim nos
vamos libertando das ideologias de sucesso, riqueza e poder, para incorporarmos
valores de comunhão com o próximo, na mansidão e no carinho, construindo um
mundo novo possível, na justiça e na fraternidade. Constrói-se assim a paz, na
unidade (cf. segunda leitura) estabelecida pelos laços da humildade, do perdão
e da acolhida, porém na diversidade que expressa os vários dons de Deus.
José Raimundo Oliva
A primeira leitura da Missa de hoje é,
em parte, a mesma da Noite do Natal: "O povo que andava na escuridão viu
uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz
resplandeceu! Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade! Todos se
regozijam em tua presença". Irmãos, esta luz que ilumina as trevas, que
dissipa as sombras da morte, que traz a felicidade, é Jesus. O texto do
Evangelho que escutamos no-lo confirma: Jesus é a bendita luz de Deus que
brilhou neste mundo! Ele mesmo afirmou: "Eu sou a luz do mundo! Quem me
segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida!" (Jo 8,12). Já
escutamos tanto tais afirmações, que corremos o risco de não perceber o quanto
são revolucionárias, o quanto nos comprometem, o quanto são capazes de
transformar a nossa vida!
A Palavra de Deus nos ensina que o
mundo é marcado pelas trevas: trevas na natureza (tais como a tragédia do
tsunami), trevas na história, trevas no coração da humanidade e de cada um de
nós. Olhemos em volta! O mundo não é bonzinho: há forças destrutivas, caóticas,
desagregadoras, forças diabólicas, que destroem a alegria de viver e ameaçam
devorar o sentido da nossa existência... Hoje, tantos e tantos julgam que podem
passar sem Deus, que a religião é uma bobagem e uma humilhação para o homem...
Há tantos que zombam de Deus, do Cristo Jesus, da Igreja... O que vale no mundo
atual? O que é importante? O que conta realmente? O sucesso, os bens materiais,
o prazer e a curtição da vida ao máximo, sem limites, sem peias... Será que não
nos damos conta ainda que vivemos num mundo novamente pagão, novamente bárbaro,
novamente entregue ao seu próprio pensar tenebroso? Será que não percebemos que
o que vemos e lemos e ouvimos dos meios de comunicação é a defesa de uma
humanidade sem Deus e sem fé, de uma humanidade que tenha somente a si própria
como deus? Num mundo assim, Jesus nos diz: "Eu sou a Luz!" A luz não
está nas universidades, a luz não está nos famosos deste mundo, a luz não está
nos que têm o poder político, econômico ou social! A Luz é Cristo! Só ele nos
ilumina, só ele nos revela o sentido da existência, só ele nos mostra o caminho
por onde caminhar! Ser cristão é crer nisso, é viver disso!
Pois, esse Jesus, hoje, no Evangelho,
nos convida a convertermo-nos a ele, a segui-lo de verdade, a colocar os passos
de nossa vida no seu caminho: "Convertei-vos! O Reino dos céus está
próximo!" Eis o apelo que Jesus nos faz - far-nos-á sempre! Converter-se
significa mudar totalmente o rumo de nossa existência, alicerçando-a nele e não
em nós, abraçando o seu modo de pensar e deixando o nosso, seguindo sua Palavra
e não nossa razão, nossas idéias, nossa cabeça dura, nosso entendimento curto!
Quem vai arriscar? Quem vai caminhar com ele? Quem vai abraçar sua Palavra, tão
diferente do que o mundo quer, do que o mundo prega, do que o mundo valoriza?
"Convertei-vos!" Jesus nos exorta porque sabe que também nós andamos
em trevas, também nós, simplesmente entregues à nossa vontade e aos nossos
pensamentos, jamais poderemos acolher o Reino dos céus! Não nos iludamos! Não
pensemos que somos sábios, centrados e imunes! Somos, nós também, cegos, curtos
de entendimento, pecadores duros e teimosos! Nosso coração é embotado por
tantas paixões e por tantas cegueiras! "Convertei-vos!" O Governo
Lula, neste carnaval, vai convidar tantos e tantos brasileiros a vestir-se de
camisinha; o Senhor pede a todos que se vistam dele: "Revesti-vos de
Cristo e não satisfareis os desejos da carne!" (Rm. 13,14) Compreendem,
irmãos e irmãs? O mundo vai para um lado; Jesus nos convida a ir para o outro!
Converter-se é pensar diferente de nós mesmos e do mundo; é andar na contramão
para caminhar com Cristo! Converter-se é deixar-se, como Pedro e André, Tiago e
João que, "imediatamente deixaram as redes... deixaram a barca e o
pai" e seguiram o Senhor!
Caríssimos, como não recordar a
exortação do Apóstolo? "Não andeis como andam os pagãos, na futilidade de
seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da vida de
Deus!" (Ef. 4,17) Quando aceitamos esse desafio, esse convite, o sentido de
nossa existência muda, porque começamos a enxergar e avaliar as coisas de um
modo novo, um modo diferente: o modo de Cristo Jesus! Aí se realiza em nós a
palavra da Escritura: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor!
Andai como filhos da luz!" (Ef. 5,8).
Caríssimos, deixar-se iluminar pelo
Senhor, permitir que ele dissipe nossas trevas, é um trabalho, um processo que
dura todo o nosso caminho neste mundo. Jamais estaremos totalmente convertidos,
totalmente iluminados. Na segunda leitura da Missa, São Paulo convidava os
cristãos de Corinto à conversão para uma vida de união e de amor. É assim: a
Igreja toda inteira e cada um de nós pessoalmente, seremos sempre chamados a
essa mudança, a esse deixar que a luz de Cristo invada a nossa existência
tenebrosa! Nunca esqueçais, caríssimos, porque é verdade: "Outrora, sem
Cristo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor! Andai, pois, como filhos
da luz!" Seja esse o nosso trabalho, seja essa a nossa identidade, seja
essa a nossa herança, seja essa a nossa recompensa! E que o Senhor nos socorra
com a força da sua graça, ele que é fiel e bendito para sempre! Amém.
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia deste domingo apresenta-nos
o projeto de salvação e de vida plena que Deus tem para oferecer ao mundo e aos
homens: o projeto do “Reino”.
Na primeira leitura, o profeta/poeta
Isaías anuncia uma luz que Deus irá fazer brilhar por cima das montanhas da
Galileia e que porá fim às trevas que submergem todos aqueles que estão
prisioneiros da morte, da injustiça, do sofrimento, do desespero.
O Evangelho descreve a realização da
promessa profética: Jesus é a luz que começa a brilhar na Galileia e propõe aos
homens de toda a terra a Boa Nova da chegada do “Reino”. Ao apelo de Jesus,
respondem os discípulos: eles serão os primeiros destinatários da proposta e as
testemunhas encarregadas de levar o “Reino” a toda a terra.
A segunda leitura apresenta as
vicissitudes de uma comunidade de discípulos, que esqueceram Jesus e a sua
proposta. Paulo, o apóstolo, exorta-os veementemente a redescobrirem os
fundamentos da sua fé e dos compromissos assumidos no batismo.
1º leitura: Is
8,23b-9,3 - AMBIENTE
O livro do profeta Isaías propõe-nos um
conjunto de oráculos ditos “messiânicos”, que alimentam a esperança do Povo
nesse mundo de justiça e de paz que Deus, num futuro sem data marcada, vai
oferecer aos seus. Há quem defenda, no entanto, que esses textos messiânicos
não provêm de Isaías, mas são oráculos posteriores, enxertados no texto
original do profeta pelo editor final da obra isaiana.
O nosso texto pertence, provavelmente,
à fase final da vida do profeta. Estamos no final do séc. VIII a.C.. Os
assírios (que em 721 a.C. conquistaram Samaria, a antiga capital do reino de
Israel) oprimem e humilham as tribos do Povo de Deus instaladas na região norte
do país (Zabulão e Neftali); as trevas da desolação e da morte cobrem toda a
região setentrional da Palestina.
No sul, em Jerusalém, reina Ezequias. O
rei, desdenhando as indicações do profeta (para quem as alianças políticas com
os povos estrangeiros são sintoma de grave infidelidade para com Jahwéh, pois
significam colocar a confiança e a esperança nos homens), envia embaixadas ao
Egito, à Fenícia e à Babilônia, procurando consolidar uma frente contra a maior
e mais ameaçadora potência da época – a Assíria. A resposta de Senaquerib, rei
da Assíria, não se faz esperar: tendo vencido sucessivamente os membros da
coligação, volta-se contra Judá, devasta o país e põe cerco a Jerusalém (701
a.C.). Ezequias tem de submeter-se e fica a pagar um pesado tributo aos
assírios.
Por essa época, desiludido com os reis
e com a política, o profeta teria começado a sonhar com uma intervenção de Deus
para oferecer ao seu Povo um mundo novo, de liberdade e de paz sem fim. Este
texto pode ser dessa época.
MENSAGEM
O nosso texto está construído sobre um
jogo de oposições: “humilhar/cobrir de glória”, “trevas/luz”, “caminhar nas
sombras da morte (desolação, desespero)/alegria e contentamento”. Os conceitos
negativos (“humilhar”, “trevas”, “caminhar nas sombras da morte”) definem a
situação atual; os conceitos positivos (“cobrir de glória”, “luz”, “alegria e
contentamento”) definem a situação futura.
Como se passará da atual situação de
opressão, de frustração, de desespero, à situação futura de alegria, de
contentamento, de esperança?
O profeta fala de “uma luz” que irá
começar a brilhar por cima dos montes da Galileia e que irá iluminar toda a
terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantinham o Povo oprimido e sem
esperança e inaugurará o dia novo da alegria e da paz sem fim. O jugo da
opressão que pesava sobre o Povo será, então, quebrado e a paz deixará de ser
uma miragem para se tornar uma realidade. Para descrever a alegria que, nesse
novo quadro, encherá o coração do Povo, o profeta utiliza duas imagens
extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente
dança feliz, celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a caçada,
os caçadores dividem a presa abundante.
Qual a origem dessa luz libertadora e
recriadora? O sujeito dos verbos do versículo 3 é, indubitavelmente, Deus: será
Deus quem quebrará a vara do opressor, quem levantará o jugo que oprime o Povo
de Deus, quem triturará o bastão de comando que gera escravidão e humilhação. O
mundo novo de alegria e de paz sem fim é um dom de Deus.
O nosso texto fica por aqui; mas, na
sequência, o oráculo de Isaías ainda fala num “menino”, enviado por Deus para
restaurar o trono de David e para reinar no direito e na justiça (cf. Is
9,5-6). É a promessa messiânica em todo o seu esplendor.
ATUALIZAÇÃO
• É Jesus, a luz que ilumina o mundo
com uma aurora de esperança, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de
Isaías. Ele é “Aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da
morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz, da
felicidade. No entanto, a luz de Jesus é, hoje, uma realidade instituída, viva,
atuante na história humana? Porquê?
• Acolher Jesus é aceitar esse projeto
de justiça e de paz que Ele veio propor aos homens. Esforçamo-nos por tornar
realidade o “Reino de Deus”? Como lidamos com as situações de injustiça, de
opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não
tem nada a ver com isso enquanto essas realidades não nos atingem diretamente,
ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do “Reino de
Deus” entre os homens?
• Em que, ou em quem, coloco eu a minha
esperança e a minha segurança: nos políticos que me prometem tudo e se servem
da minha ingenuidade para fins próprios? No dinheiro que se desvaloriza e que
não serve para comprar a paz do meu coração? Na situação sólida da minha
empresa, que pode desfazer-se diante das próximas convulsões sociais ou durante
a próxima crise energética? Isaías sugere que só podemos confiar em Deus e na
sua decisão de vir ao nosso encontro para nos apresentar uma proposta de vida e
de paz.
2º leitura: 1 Cor
1,10-13.17 - AMBIENTE
Após ter abandonado a cidade de
Corinto, Paulo continuou em contacto com a comunidade cristã. Mesmo distante,
continuava a acompanhar a vida da comunidade e inteirava-se regularmente das
dificuldades e problemas que os seus queridos filhos de Corinto tinham de
enfrentar.
Quando escreveu a primeira carta aos
Coríntios, Paulo estava em Éfeso. De Corinto haviam chegado, entretanto,
notícias alarmantes. Após a partida de Paulo, tinha aparecido na cidade um
pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Antioquia, convertido ao
cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade
para a comunidade na polêmica com os judeus. Era mais brilhante do que Paulo –
conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2Cor. 10,10). Formaram-se partidos
na comunidade (embora Apolo não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns
admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1Cor. 1,12).
Formaram-se “partidos”, à imagem do que acontecia nas escolas filosóficas da
cidade, que tinham os seus mestres, à volta dos quais circulavam os adeptos ou
simpatizantes: o cristianismo tornava-se, dessa forma, mais uma escola de
sabedoria, na qual era possível optar por mestres distintos.
A situação preocupou enormemente Paulo:
além dos conflitos e rivalidades que a divisão provocava, estava em causa a
essência da fé. O cristianismo corria, dessa forma, o perigo de se tornar mais
uma escola de sabedoria, cuja validade dependia do brilho dos mestres que
apresentavam a ideologia e do seu poder de convicção.
MENSAGEM
Para Paulo, contudo, o cristianismo não
era a escolha de uma determinada filosofia de vida, defendida mais ou menos
brilhantemente por um mestre qualquer; mas era a adesão a Jesus Cristo, o único
e verdadeiro mestre.
Paulo não mede as palavras: a Cristo e
unicamente a Cristo os cristãos, todos, foram consagrados pelo batismo. É
Cristo e só Cristo a única fonte de salvação. Ser batizado é entrar a fazer
parte do corpo de Cristo e participar no acontecimento salvador do qual Cristo
é o único mediador. Dizer que se é de Paulo, ou de Cefas, ou de Pedro é,
portanto, desvirtuar gravemente a essência da fé cristã. Foi Paulo quem foi
crucificado em benefício dos coríntios? O batismo significou uma adesão à
doutrina de Paulo, ou de outro qualquer mestre?
Deve ficar bem claro que o importante não é quem batizou ou quem anunciou o Evangelho: o importante é Cristo, do qual Paulo, Cefas e Apolo são simples e humanos instrumentos. Os coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua atenção em mestres humanos e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida a todos, como a essência da sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a comunidade será uma verdadeira família de irmãos, que recebe vida de Cristo, que vive em unidade e comunhão.
Deve ficar bem claro que o importante não é quem batizou ou quem anunciou o Evangelho: o importante é Cristo, do qual Paulo, Cefas e Apolo são simples e humanos instrumentos. Os coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua atenção em mestres humanos e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida a todos, como a essência da sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a comunidade será uma verdadeira família de irmãos, que recebe vida de Cristo, que vive em unidade e comunhão.
ATUALIZAÇÃO
• O texto recorda que a experiência
cristã é, fundamentalmente, um encontro com Cristo; é d’Ele e só d’Ele que
brota a salvação. A vivência da nossa fé não pode, portanto, depender do
carisma da pessoa tal, ou estar ligada à personalidade brilhante deste ou
daquele indivíduo que preside à comunidade. Para além da forma mais ou menos
brilhante, mais ou menos coerente como tal pessoa anuncia ou testemunha o
Evangelho, tem de estar a nossa aposta em Cristo; é n’Ele e só n’Ele que
bebemos a salvação; é a Ele e só a Ele que o nosso compromisso batismal nos
liga. Cristo é, de fato, a minha referência fundamental? É à volta d’Ele e da
sua proposta de vida que a minha experiência de fé se constrói? Em concreto:
que sentido é que faz, neste contexto, dizer que só se vai à missa se for tal
padre a presidir? Que sentido é que faz afastar-se da comunidade porque não
gostamos da atitude ou do jeito de ser deste ou daquele animador?
• Neste contexto, ainda, que sentido
fazem os ciúmes, os conflitos, os partidos, que existem, com frequência, nas
nossas comunidades cristãs? Cristo pode estar dividido? Os conflitos e as
divisões não serão um sinal claro de que, algures durante a caminhada, os
membros da comunidade perderam Cristo? As guerras e rivalidades dentro de uma
comunidade não serão um sinal evidente de que o que nos move não é Cristo, mas
os nossos interesses, o nosso orgulho, o nosso egoísmo?
• Há casos em que as pessoas com
responsabilidade de animação nas comunidades cristãs favorecem, consciente ou
inconscientemente, o culto da personalidade. Não se preocupam em levar as
pessoas a descobrir Cristo, mas em conduzir o olhar e o coração dos fiéis para
a sua própria e brilhante personalidade. Tornam-se imprescindíveis e
inamovíveis, são incensadas e endeusadas e potenciam grupos de pressão que as
admiram, que as apóiam e que as seguem de olhos fechados. Que sentido é que
isto faz, à luz daquilo que Paulo nos diz, neste texto?
Evangelho: Mt.
4,12-23 - AMBIENTE
O texto que nos é proposto como
Evangelho funciona um pouco como texto-charneira, que encerra a etapa da
preparação de Jesus para a missão (cf. Mt. 3,1-4,16) e que lança a etapa do
anúncio do Reino.
O texto situa-nos na Galileia, a região
setentrional da Palestina, zona de população mesclada e ponto de encontro de
muitos povos. Refere, ainda, a cidade de Cafarnaum: situada no limite do
território de Zabulão e de Neftali, na margem noroeste do lago de Genezaré, no
enfiamento do “caminho do mar” (que ligava o Egito e a Mesopotâmia), era
considerada a capital judaica da Galileia (Tiberíades, a capital política da
região, por causa dos seus costumes gentílicos e por estar construída sobre um
cemitério, era evitada pelos judeus). A sua situação geográfica abria-lhe,
também, as portas dos territórios dos povos pagãos da margem oriental do lago.
MENSAGEM
Na primeira parte (cf. Mt. 4,12-16),
Mateus refere como Jesus abandona Nazaré, o seu lugar de residência habitual, e
se transfere para Cafarnaum. Mateus descobre nesse fato um significado
profundo, à luz de Is. 8,23-9,1: a “luz” que havia de eliminar as trevas e as
sombras da morte de que fala Isaías é, para Mateus, o próprio Jesus. Na terra
humilhada de Zabulão e Neftali, vai começar a brilhar a luz da libertação; e
essa libertação vai atingir, também, os pagãos que acolherem o anúncio do Reino
(para Mateus, é bem significativo que o primeiro anúncio ecoe na Galileia,
terra onde os gentios se misturam com os judeus e, concretamente, em Cafarnaum,
a cidade que, pela sua situação geográfica, é uma ponte para as terras dos
pagãos). O anúncio libertador de Jesus apresenta, desde logo, uma dimensão
universal.
Na segunda parte (cf. Mt. 4,17-23),
Mateus apresenta o lançamento da missão de Jesus: define-se o conteúdo básico
da pregação que se inicia, mostra-se o “Reino” como realidade viva actuante,
apresentam-se os primeiros discípulos que acolhem o apelo do “Reino” e que vão
acompanhar Jesus na missão.
Qual é, em primeiro lugar, o conteúdo
do anúncio? O versículo 17 di-lo de forma clara: Jesus veio trazer “o Reino”. A
expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos céus”, como prefere dizer Mateus)
refere-se, no Antigo Testamento e na época de Jesus, ao exercício do poder
soberano de Deus sobre os homens e sobre o mundo. Decepcionado com a forma como
os reis humanos exerceram a realeza (no discurso profético aparecem, a par e
passo, denúncias de injustiças cometidas pelos reis contra os pobres, de
atropelos ao direito orquestrados pela classe dirigente, de responsabilidades
dos líderes no abandono da aliança, de graves omissões no que diz respeito aos
compromissos assumidos para com Jahwéh), o Povo de Deus começa a sonhar com um
tempo novo, em que o próprio Deus vai reinar sobre o seu Povo; esse reinado
será marcado – na perspectiva dos teólogos de Israel – pela justiça, pela misericórdia,
pela preocupação de Deus em relação aos pobres e marginalizados, pela
abundância e fecundidade, pela paz sem fim.
Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. O seu primeiro anúncio resume-se, para Mateus, no seguinte slogan: “arrependei-os ('metanoeite') porque o Reino dos céus está a chegar”.
Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. O seu primeiro anúncio resume-se, para Mateus, no seguinte slogan: “arrependei-os ('metanoeite') porque o Reino dos céus está a chegar”.
O convite à conversão (“metanoia”) é um
convite a uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura vital.
Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um
reequacionar a vida, de modo a que Deus e os seus valores passem a estar no
centro da existência do homem; só quando o homem aceita que Deus ocupe o lugar
que lhe compete, está preparado para aceitar a realeza de Deus… Então, o
“Reino” pode nascer e tornar-se realidade no mundo e nos corações.
Na sequência, Mateus apresenta Jesus a
construir ativamente o “Reino” (vs. 23-24): as suas palavras anunciam essa nova
realidade e os seus gestos (os milagres, as curas, as vitórias sobre tudo o que
rouba a vida e a felicidade do homem) são sinais evidentes de que Deus começou
já a reinar e a transformar a escravidão em vida e liberdade.
Finalmente, Mateus descreve o
chamamento dos primeiros discípulos (vs. 18-22). Não se trata, segundo parece
(a comparação deste relato, que Mateus toma de Marcos, com os relatos paralelos
de Lucas e João, mostra que estamos diante de um relato estilizado, cujo
objetivo é pôr em relevo os passos fundamentais da vocação) de um relato
jornalístico de acontecimentos, mas de uma catequese sobre o chamamento e a
adesão ao projeto do “Reino”. Através da resposta pronta de Pedro e André,
Tiago e João, propõe-se um exemplo da conversão radical ao “Reino” e de adesão
às suas exigências.
O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão.
O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão.
A resposta dos quatro discípulos ao
chamamento é paradigmática: renunciam à família, ao seu trabalho, às seguranças
instituídas e seguem Jesus sem condições. Esta ruptura (que significa não só
uma ruptura afetiva com pessoas, mas também a ruptura com um quadro de
referências sociais e de segurança econômica) indicia uma opção radical pelo
“Reino” e pelas suas exigências.
Uma palavra para a missão que é
proposta aos discípulos que aceitam o desafio do “Reino”: eles serão pescadores
de homens. O mar é, na cultura judaica, o lugar dos demônios, das forças da
morte que se opõem à vida e à felicidade dos homens; a tarefa dos discípulos
que aceitam integrar o “Reino” será, portanto, libertar os homens dessa
realidade de morte e de escravidão em que eles estão mergulhados, conduzindo-os
à liberdade e à realização plenas.
Estes quatro discípulos representam
todo o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares… Eles devem responder
positivamente ao chamamento, optar pelo “Reino” e pelas suas exigências e
tornarem-se testemunhas da vida e da salvação de Deus no meio dos homens e do
mundo.
ATUALIZAÇÃO
• Jesus é o Deus que vem ao nosso
encontro para realizar os nossos sonhos de felicidade sem limites e de paz sem
fim. N’Ele e através d’Ele (das suas palavras, dos seus gestos), o “Reino”
aproximou-se dos homens e deixou de ser uma quimera, para se tornar numa
realidade em construção no mundo. Contemplar o anúncio de Jesus é abismar-se na
contemplação de uma incrível história de amor, protagonizada por um Deus que
não cessa de nos oferecer oportunidades de realização e de vida plena.
Sobretudo, o anúncio de Jesus toca e enche de júbilo o coração dos pobres e
humilhados, daqueles cuja voz não chega ao trono dos poderosos, nem encontram
lugar à mesa farta do consumismo, nem protagonizam as histórias balofas das
colunas sociais. Para eles, ouvir dizer que “o Reino chegou” significa que Deus
quer oferecer-lhes essa vida plena e feliz que os grandes e poderosos insistem
em negar-lhes.
• Para que o “Reino” seja possível,
Jesus pede a “conversão”. Ela é, antes de mais, um refazer a existência, de
forma a que só Deus ocupe o primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto,
despir-se do egoísmo que impede de estar atento às necessidades dos irmãos;
implica a renúncia ao comodismo, que impede o compromisso com os valores do
Evangelho; implica o sair do isolamento e da auto-suficiência, para estabelecer
relação e para fazer da vida um dom e um serviço aos outros… O que é que nas
estruturas da sociedade ainda impede a efetivação do “Reino”? O que é que na
minha vida, nas minhas opções, nos meus comportamentos constitui um obstáculo à
chegada do “Reino”?
• A história do compromisso de Pedro e
André, Tiago e João com Jesus e com o “Reino” é uma história que define os
traços essenciais da caminhada de qualquer discípulo… Em primeiro lugar, é
preciso ter consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino; em
segundo lugar, é preciso ter a coragem de aceitar o chamamento e fazer do
“Reino” a prioridade essencial (o que pode implicar, até, deixar para segundo
plano os afetos, as seguranças, os valores humanos); em terceiro lugar, é
preciso acolher a missão que Jesus confia e comprometer-se corajosamente na
construção do “Reino” no mundo. É este o caminho que eu tenho vindo a
percorrer?
• A missão dos que escutaram o apelo do
“Reino” passa por testemunhar a salvação que Deus tem para oferecer a todos os
homens, sem exceção. Nós, discípulos de Jesus, comprometidos com a construção
do “Reino”, somos testemunhas da libertação e levamos a Boa Nova da salvação
aos homens de toda a terra? Aqueles que vivem condenados à marginalização (por
causa do fraco poder econômico, por causa da doença, por causa da solidão, por
causa do seu inexistente poder de reivindicação), já receberam, através do
nosso testemunho, a Boa Nova do “Reino”?
• Em certos momentos da história,
procura vender-se a ideia de que o mundo novo da justiça e da paz se constrói a
golpes de poder militar, de mísseis, de armas sofisticadas, de instrumentos de
morte… Atenção: a lógica do “Reino” não é uma lógica de violência, de vingança,
de destruição; mas é uma lógica de amor, de doação da vida, de comunhão
fraterna, de tolerância, de respeito pelos outros. A tentação da violência é
uma tentação diabólica, que só gera sofrimento e escravidão: aí, o “Reino” não
está.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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