4º DOMINGO DO TEMPO COMUM
29 de Janeiro
de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 5,1-12ª
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“ALEGRAI-VOS E EXULTAI...” – Olivia Coutinho
4º OMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 29 de Janeiro de 2017
Evangelho de Mt5,1-12a
Jesus nos convida a darmos um sentido novo a
nossa existência, uma única e fundamental direção, a santidade como meta para
chegarmos à vida eterna! Fomos criados e orientados por Deus, a direcionar a
nossa existência como uma flecha que busca o seu alvo e o alvo de quem busca a
santidade é o próprio Deus, Deus deve ser o nosso objetivo primeiro!
Optamos pelo caminho da santidade, quando
deixamos de projetar a nossa vida em nós mesmos para nos envolver no projeto de
Deus que tem como referência Jesus.
O evangelho que a liturgia deste Domingo nos
convida a refletir, apresenta-nos as Bem-Aventuranças. É importante
conscientizamos, de que as Bem-Aventuranças, não são mandamentos, afinal, Deus
não exige sofrimento para cobrir seus filhos de felicidade! Podemos dizer, que
as Bem-Aventuranças, são uma consolação de Deus a todos aqueles que o mundo
despreza, os que são perseguidos por amar e obedecer a Deus. Jesus deixa claro:
é feliz, quem vive dentro do plano de Deus!
Todo aquele que vive de acordo com o plano de
Deus, passa pelo o sofrimento, pois vai encontrar pelo o caminho, muitos
adversários do projeto de Deus tentando intimidá-lo, o que não o fará desistir,
afinal, quem adere ao projeto de Deus, não hesita em caminhar na contramão do
mundo.
Jesus Proclama: “Bem-aventurados (Felizes) os
pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça os
misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos e injuriados por causa do
reino”. Estes, são maltratados pelo o mundo, mas são felizes, por se colocarem
na dependência de Deus, para eles, o mais importante é a sua fidelidade a Deus.
Ser perseguido, odiado, injuriado por causa de
Jesus, são situações que não agradam a Deus, mas quem suporta tudo isso em nome
da sua fidelidade a Ele, é feliz, pois tem em Deus a sua consolação, o seu
abraço de Pai, um abraço que não tem preço, que vale mais do que todas as
benéficas do mundo.
Quem sofre as consequências do seguimento a
Jesus e mesmo assim se mantem fiel a Ele começa a receber a sua recompensa já
aqui na terra, pois Deus o conforta, transformando todo o mal que lhe fora
causado, em benefício para ele.
Alegremo-nos por confiar na realização das
promessas de Deus, é o próprio Jesus quem nos garante: “Alegrai-vos e exultai,
pois será grande a vossa recompensa no Céu”.
É desejo de Deus, que todos nós sejamos felizes,
e ser feliz, é também, tudo o que mais desejamos, mas temos ter o cuidado para
não nos deixar enganar, pois o conceito de felicidade, na visão do mundo, é
completamente diferente da felicidade que Deus planejou para nós.
Para o mundo, felicidade se baseia no ter, no
poder, enquanto que para Deus, felicidade está no ser e em ser! O ser, que se
faz morada de Deus é feliz em qualquer circunstancia! Quando conscientizamos,
de que a vida não nos pertence, de que não somos donos de nada, aí sim, vamos
compreender que a nossa felicidade está no simples fato de sermos de Deus!
Assim como foram os Santos, sejamos também,
fieis ao Evangelho, não tenhamos medo de ser de Deus, de dar testemunho de Jesus
em qualquer circunstancia, ainda que para isso, tenhamos que navegar contra a
maré.
Percorrer o caminho da santidade, é o grande
desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo.
Todos nós queremos ser felizes, ninguém busca o
sofrimento, mas ele é inevitável em nossas vidas, faz parte da natureza humana,
saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão é buscar a santidade, é
estar no caminho da felicidade plena.
Tenhamos em mente: a santidade não se alcança no
céu, e sim, no decorrer da nossa vida aqui na terra.
Nunca esqueçamos: o mais Santo de todos os
Santos será sempre um pecador perdoado.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olivia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no
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Evangelho (Mt 5, 1-12) - Lugar paralelo Lc. 8,20-23
AS BEM-AVENTURANÇAS
Dois evangelistas
narram o que se tem chamado as bem-aventuranças. Mateus como parte do sermão da
montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e Lucas que coloca o
pequeno discurso paralelo numa planície (6,17). Isso indica que a circunstância
é redacional, independente das palavras e idéias a expressar. Também há uma
grande diferença entre as oito ou nove bem-aventuranças de Mateus e as quatro
de Lucas. Ambos, porém, usam a mesma palavra makarioi para designar os
contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos lábios de
Jesus essa palavra e de que idéias hebraicas era tradução, de modo que os
ouvintes a pudessem entender ? O grego makários significa tanto ditoso ou feliz
como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado. No primeiro
caso, indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem ligação com
ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso, a palavra tem um conteúdo
teológico de modo que implica uma providência divina que, pelo contraste com o
sentir comum dos dirigentes religiosos, apontava uma nova era completamente
revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso. No final do
capítulo IV, em que Jesus percorre a Galileia pregando nas sinagogas a metânoia
e a fé na Boa Nova. Agora, pela primeira vez, ele enfrenta as multidões. Não
são unicamente os judeus, mas também acodem os gentios de Transjordânia, dos
arredores de Tiro e de Sidônia, e da Idumeia (Mc. 3,8). Reunia-os especialmente
a fama de curandeiro de Jesus e escutavam sua voz como a de um homem enviado
por Deus. Na primeira parte do discurso, Jesus anuncia a esperança dos
desvalidos [pobres]: São as bem-aventuranças. Logo apresenta a metânoia,
conversão, com uma nova moral iniciada com a frase se vossa justiça não exceder
a dos escribas e fariseus (5,20). Por isso retifica a mesma dizendo: ouvistes
que foi dito; eu, porém vos digo (5,21). Logicamente era necessária uma
conversão ou metânoia para esta nova ética que Jesus apresenta. E são os
capítulos 5,6 e 7 os que narram a chamada radicalidade cristã. A fé racional da
crítica não pode substituir a fé razoável eclesiástica, como afirma o Papa
atual, pois seria a nossa razão o princípio de nossa vida religiosa e não a fé.
A fé racional seria o mesmo que acreditar na ciência, como afirma Bacon, e não
a fé transmitida pela boca dos apóstolos e profetas como fundamento da mesma
(Ef. 2,20). Hoje, em que damos máxima importância à crítica [científica]
devemos ler esta página das bem-aventuranças com a fé simples de quem ouve a
verdade da boca do Filho de Deus, com fé religiosa [razoável=acreditável pelo
testemunho; mas não racional = como imposta pela evidência crítica da razão].
O MONTE. Tendo, pois,
visto as multidões, subiu ao monte e tendo-se ele assentado, se aproximaram a
ele seus discípulos (1). Então, tendo aberto sua boca, os ensinava dizendo (2).
Os comentaristas unem
o sermão da montanha com a entrega da Lei por Javé-Deus no monte Sinai no A T.
MONTE: é usado por
Mateus como um ambiente paralelo ao lugar em que Moisés recebeu a lei no Sinai,
sendo que o cumprimento do primeiro mandamento receberia uma gratificação
especial para os que fielmente o guardavam (Ex 20,6). Jesus também, do monte,
ensina a nova lei a seus discípulos. Porém, antes deve escolher o novo Israel,
e daí as chamadas bem-aventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo
Israel e, portanto, podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus
começa, pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e
descendência como parte para formar a elite de Jahvé, e contrariamente, suscita
um novo modelo de povo de Deus, cuja base é precisamente o infortúnio material.
A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei, para os
judeus, não era unicamente o nomos [preceito], mas também abrangia declarações,
propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido
total e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros
escolhidos. Logo propõe seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação
aperfeiçoada da antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu, porém vos digo
(Mt. 5,21). Como mestre da nova Lei, Jesus adota uma postura frequente entre os
rabinos ou mestres em Israel. Ele fica sentado, tendo seus discípulos e
ouvintes ao seu redor, geralmente de pé, pendentes de suas palavras. Os rabinos
explicavam a lei segundo as tradições [ouvistes que foi dito], mas Jesus
explica a nova Lei como quem tem autoridade para propô-la e anunciá-la como
novidade feliz a um público geralmente esquecido e desprezado. Constituía a
esperança messiânica, já atuando como realidade nova e definitiva. Finalmente,
uma palavra sobre o monte: Realmente, segundo Lucas, Jesus subiu ao monte para
orar durante a noite (Lc. 6,12). Na manhã, escolheu seus doze discípulos e logo
ao descer do monte, se deteve num lugar plano onde a multidão o esperava para
ser curada de suas doenças. Lucas, pois, circunscreve as bem-aventuranças
a uma planície, embora tivesse como fundo o monte do qual acabava de descer.
Também Lucas diz que elevando os olhos aos discípulos dizia (Lc. 2,20).
AFORTUNADOS. Ditosos os pobres
em espírito, porque deles é o Reino dos céus (3).
A palavra, usada
tanto por Mateus como por Lucas, no início de cada versículo é MAKARIOI, em
grego, plural de Makarios. Logicamente Mateus e Lucas usam a palavra como
tradução de um original aramaico usado por Jesus. Qual é essa palavra e que
significado se encerra na raiz da mesma?
1º) No AT: existem no
hebraico bíblico dois verbos com o sentido de abençoar. Um deles é Barak que é
só empregado por Deus no Piel [intensivo ativo] indicando uma ação contínua,
como em Gn. 1,22 : E Deus os abençoou dizendo: sede fecundos. Usando a mesma
raiz, Deus abençoou também o dia sétimo. A setenta traduz por eulogesen louvar
ou falar bem, que no inglês é traduzido por blessed. De barak temos baruk
[bendito] e a palavra beraká [bênção], cujo plural é berakoth. Todas as
berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser traduzido por louvado seja
meu Senhor [= Deus]. Os setenta traduzem baruk [bendito] por eulogetos ou
eulogemenos (Dt 28, 3 +). O outro é Ashar cujo significado primitivo é avançar;
também no piel significa pronunciar feliz; e pela primeira vez o encontramos em
Gn 30,13 em boca de Lia: Feliz, eu, porque chamar-me-ão ditosa todas as
mulheres. Nos setenta, os termos em colchetes são traduzidos por makaria e
makarizousin, a mesma raiz empregada nas bem-aventuranças. Não entramos em
maiores detalhes. Só com o dito podemos dizer que barak é a palavra reservada
para a ação divina, quando declara bendita uma pessoa; e asher é a ação do povo
que vê uma circunstância que torna feliz uma vida. Logicamente essa
circunstância provém de Deus como causa principal. (Os números correspondem aos
de Sprong). Os evangelistas têm muito cuidado nas palavras com que escolhem as
ipsissima verba Christi e, portanto acreditamos que se ambos os evangelistas
escolheram makarios como tradução das palavras de Jesus, este não quis dizer
que eram abençoados por Deus, mas declarados felizes pelos homens. Jesus quer
mudar o modo de pensar dos discípulos para que estes pudessem ver nos pobres,
nos aflitos, nos humildes, nos famintos, uma classe de predileção divina que os
tornava desejáveis e invejáveis. Jesus, praticamente, na sua primeira lição
pública define a conduta humana diante da pobreza tanto material como
espiritual do mundo que o rodeia.
2º) No grego
clássico, a palavra makarios inicialmente significava livre dos cuidados e
preocupações de todos os dias. O significado é afortunado. Assim, a ilha de
Chipre é chamada de ‘e makaria [a afortunada] por ser uma ilha verde e
próspera. Homero chama os deuses de ‘oi makarioi [os felizardos] em comparação
com os humanos que devem trabalhar para poder viver. Na linguagem poética,
descreve a condição dos deuses e daqueles que compartilham da existência feliz
deles. Aos poucos, perdeu seu significado original para se tornar num
equivalente de nosso Feliz. Quando acompanhada de tu ou vós, se transforma em
bem-aventurado, ou bem-aventurados, indicando um elogio por parte dos
conhecedores do caso. Como tais, são parabenizados os pais por causa dos seus
filhos, os ricos por causa de suas riquezas, os sãos pela sua saúde, os sábios
por causa de seu conhecimento, os piedosos por causa de seu bem-estar interior,
os mortos por terem escapado à vaidade das coisas. Indica, pois, como motivo,
uma circunstância especial que acompanha uma certa classe de homens e que por
esse requisito podem ser considerados afortunados.
3º) No grego bíblico
makarios traduz o hebraico esher [felicidade], ashar [declarar bem-aventurado],
ou asheré [bem-estar]. Vemos o asheré traduzido por makarios no salmo 2,12:
Bem-aventurados todos os que nele se refugiam; ou o salmo 32,1 e 2:
Bem-aventurado aquele…e bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui
iniquidade. Em ambos os casos makarios é usado como tradução de asheré. O homem
é bendito, e especialmente esta bênção, provém de Deus. No NT é claro que
substituímos o asheré hebraico por Makarios. Makarios aparece 13 vezes em
Mateus e 15 em Lucas e apenas duas em João: Bem-aventurados, pois, se
praticares estas coisas(13,17) e Bem-aventurados os que não viram e creram
(20,29). No caso de Mateus, os bem-aventurados não são os discípulos; mas,
estando a frase em terceira pessoa é qualquer um que se encontra em semelhantes
circunstâncias. A estimativa predominante do Reino de Deus leva consigo uma
inversão de todas as avaliações costumeiras. E todos os que compartilham dessa
experiência da chegada do Reino, nas circunstâncias reveladas na frase inicial,
serão benditos por esse dom recebido de Deus de modo gratuito.
4º) Mas vejamos
as traduções: Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano,
Fortunate em inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e
Hereux em francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade.
Todas elas cumprem as palavras de Dt. 33,29 em que o hebraico asherê é
traduzido por makários e por ditoso : Ditoso tu Israel. Quem como tu povo
vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao
triunfo. Ou o salmo 144,15: Ditoso o povo que tem tudo isso; ditoso o povo cujo
Deus é o Senhor. Em Baruc 4,4 temos: Felizes somos Israel, pois podemos
descobrir o que agrada o Senhor.
5º) Como Conclusão
podemos afirmar que a palavra grega makários tem o significado de homem, cuja
vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos seus planos beneficentes.
Em definitivo, podemos facilmente traduzi-la por BENDITO ou ABENÇOADO. Deus
está no meio, por ser a causa de todos e verdadeiros bens. O Makarioi de Jesus
entra, pois, nos planos divinos, como causa principal ao ser Deus o observador
que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu canto: Exultou meu espírito
em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na insignificância de sua
escrava (Lc. 1,47-48). Até agora no mundo católico, quase de forma geral, as
bem-aventuranças eram vistas como prêmio oferecido às virtudes dos que mereciam
semelhante elogio. Hoje não são consideradas como recompensa de virtudes, mas
como escolha divina, que em sua misericórdia quer favorecer os mais
desamparados. Não é a virtude interior alcançada, que obtém um prêmio, mas são
as circunstâncias que favorecem a ação divina em sua misericórdia. Deste ponto
de vista, podemos enxergar todo o contexto como sendo uma política divina que dá
uma reviravolta na totalidade do pensar e atuar humanos. Jesus, em nome de
Deus, como seu profeta, declara quais deveriam ser chamados de ditosos ou
afortunados. Assim começa a nova economia que inicia uma nova visão do mundo
dos sofridos e despossuídos. Esta situação, no lugar de ser uma situação de
infortúnio, ou um estado aparente de desdita, é, pelo contrário, uma condição
de sorte, porque as riquezas divinas estão à disposição dos que se supõem ter
herdado o azar como condição de suas vidas. Como diria Paulo, na fraqueza é que
se manifesta (mais) o poder [de Deus] (2 Cor 12, 9). Por isso, todas as
bem-aventuranças terminam com um porque em que Deus entra como causa ativa,
subentendido na passiva do verbo correspondente, passiva que era praticamente usada
só para atuações divinas. Talvez a melhor tradução seria: Sois abençoados por
Deus vós os…
O ESQUEMA: temos em
cada bem-aventurança uma prótasis [primeira parte de uma poema teatral] e uma
apódosis [explicação]. A prótasis ou primeira parte de cada oração é uma
circunstância da vida, independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis
é a explicação do porquê e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso
podemos ver que as quatro primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi
[mendigos], penthountes [chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos].
Quando se sabe que a kabala era característica da interpretação das Escrituras,
há uma pequena razão para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei,
tivesse alguma razão, por nós hoje desconhecida, de seguir seus ocultos
princípios.
PTÔCHOI: no AT
ptochos aparece perto de 100 vezes e são a tradução de 7 palavras hebraicas:
1º) `anav é sinônimo
de humilde, especialmente quando em forma adjetivada acompanhado de Jahvé. Com
seu número de Sprong <06035> aparece 24 vezes, especialmente nos
salmos e em Isaías, a começar por Moisés que é declarado o mais humilde, ou
mais manso dos homens como traduz a vulgata. O anav desse número é geralmente
traduzido por prays [manso](12), penes [pobre] (11) e tapeinós [baixo] (1). Na
vulgata temos mites (6) mansuetus (6) e pauper (12). Existem duas frases em que
anav acompanha terra anave heretz. E que em ambos são traduzidos por prays ou
mansos.
2º) ‘ani [37 vezes]
que tem o significado de pobre, humilde, modesto, oprimido. A primeira vez que
aparece é em Ex 22,24: Se emprestares prata ao meu povo, ao pobre que está
contigo. Quando não se menciona o opressor, a palavra significa realmente pobre
material, os que não têm terra. A Setenta traduz, indistintamente, ani por
pobre ou humilde. 3º) `anah. A única vez que anah sai é em Daniel 4, 27: redime
tua iniquidade para com os pobres em grego penetön [= dos pobres].
4º) dal [22 vezes]
baixo, fraco, pobre, magro. Fisicamente dal significa fraco e passa a ser
empregado para as classes sociais mais baixas como camponeses, pobres,
necessitados, sem importância.
5º) ebyon [11 vezes]
significa pedinte de esmolas, mendigo; ou seja, os muito pobres e sem lar.
6º) rush [11 vezes]
necessitado, pobre, é uma palavra que se emprega como contraste de rico.
7º) Misken. Nos
tempos mais modernos usa-se misken, um termo que os mendigos orientais empregam
para definir a si mesmos. Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o
ebyon e equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa
bem-aventurança pode ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos, cujo
único goel [defensor] era Jahvé, em oposição aos ricos que dependiam de suas
riquezas como base fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos descartam
o pobre material e traduzem o Ptochós como humilde, ou humilde de espírito
(AV), ou os que têm o coração de pobre (francesa). A melhor exegese será, sem
dúvida, a feita por Maria: Depôs poderosos de seus tronos e aos humildes [de
baixa condição] exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu ricos de mãos
vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de sua mãe esta política divina que tão
bem se realizou na sua família. Os rabinos louvavam a simplicidade e a
humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo eles, nenhum dos males podia se
equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus, legista e conhecedor das tradições
judaicas, teve que acrescentar uma explicação ao simples fato de pobreza. Pois
para esses mestres da Lei a riqueza era o prêmio justo da virtude e a pobreza
era considerada como legítimo castigo. Porém, a pobreza entra nos planos de
Deus e a sua aceitação coloca os pobres como escolhidos às portas do Reino do
qual Jesus era o arauto ao proclamar as condições que o limitavam, segundo Is.
61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em grego e
humildes nas versões mais modernas como a italiana]. Na Historia do Israel
antigo, após a economia inicial de troca, uma vez consolidada a monarquia, o
dinheiro tomou conta da economia e muitos dos agricultores passaram a depender
dos homens das cidades. Este empobrecimento não só se tornou um problema
social, mas religioso como fruto da quebra da Lei, tornando-se uma injustiça,
atacada pelos profetas do século VIII a.C. que ameaçavam com o juízo divino os
ricos que eram culpados. E é nesta situação histórica que podemos entender o
significado de pobre e necessitado. O pobre que sofre injustiça porque outros
se tornaram gananciosos, volta-se indefeso e humilde a Deus em oração, pensando
que a ajuda divina em suas necessidades é a base da glória a Deus. Pobres, são
os que se voltam a Deus em suas necessidades pois é um Deus-protetor dos pobres
(Sl. 72,2): Com justiça ele [o rei] julgue o teu povo, salve os filhos dos
indigentes e esmague seus opressores. No salmo 132,15 diz: De pão fartarei seus
pobres. A desgraça do exílio levou temporariamente ao emprego das palavras
pobre e necessitado como termos coletivos para o povo. No judaísmo tardio,
tanto a pobreza material como o aspecto da sua espiritualização têm características
novas: Todos os grupos religiosos tinham suas formas especiais de obras de
caridade. Nas sinagogas havia uma organização para ajuda dos pobres, existindo
esmolas públicas semanais. Cada sexta feira, aqueles que viviam na localidade,
recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres para 14 refeições ; os
estrangeiros recebiam comida diariamente da comida dos pobres; esta comida
tinha sido coletada antes, de casa em casa, pelos oficiais dos pobres. Na
diáspora, as sinagogas frequentemente estabeleciam uma comissão de sete para
esse serviço, como fizeram os apóstolos em Atos 6,1-6. A distribuição das
esmolas era considerada particularmente meritória, se feita na cidade santa. A
semelhança entre hoje e antigamente é tão grande –escreve J. Jeremias- que há algumas
dezenas de anos encontravam-se leprosos, pedindo esmolas nos seus lugares
habituais, no caminho de Getsêmani, fora dos muros da cidade. Em Jerusalém a
mendicância concentrava-se em torno do Templo, como vemos em At. 3,1-8. Como
temos visto, os setenta traduzem anawim por ptochoi. Portanto, esta palavra
perdeu o significado de mendigo para denotar o homem indefeso, que só tem como
avaliador Jahweh e que nele depositou sua inteira confiança. A palavra pobre
não significava a mesma coisa para um grego que para um judeu. Para o grego era
um mendigo; para o judeu era aquele que não possuía terras (Ex. 22,24).
Naturalmente, neste último caso, os pobres eram também gentes desprovidas de
influência social, frequentemente exploradas e humilhadas. Em grego, temos a
palavra Ptochós [mendigo] com necessidade de pedir esmola para subsistir e a
palavra Penes, o pobre que não é rico, mas tem necessidade de trabalhar para
poder viver. Como temos visto, ao explicar as diversas palavras usadas no
hebraico, pobres podem ocupar o lugar da palavra anawin, que tem um significado
contrário ao de rico, com conotações religiosas de confiança em Deus.
TO PNEUMATI: que pode
ser traduzido em espírito ou de espírito. Evidentemente, o espírito é o
espírito humano. Portanto, temos: Ou pobres de espírito, que significaria
acanhados; ou pobres por espírito, por eleição, pessoas estas que aceitavam a
pobreza como natural ou como voluntária. O texto grego presta-se, pois, a duas
interpretações: 1) pobres quanto ao espírito 2) pobres pelo espírito. A
primeira pode ter um sentido pejorativo como homem de qualidades diminuídas. Ou
um positivo como aqueles desapegados do dinheiro, embora o possuam em
abundância, sentido este excluído pelo próprio Jesus em Mt. 6,19-24 e pela
condição imposta ao jovem rico. Na tradição judaica, os termos anawim/aniyim
designavam os pobres sociológicos, que punham sua esperança em Deus por
não achar apoio, nem justiça na sociedade. Jesus recolhe este sentido e convida
a escolher a condição de pobres [opção contra o dinheiro e a posição social]
entregando-se nas mãos de Deus. O termo “espírito” na concepção semita, conota
sempre força e atividade vital. Neste texto, denota o espírito do homem. Na
antropologia do AT o homem possui “espírito” e “coração”. Ambos os termos
designam sua interioridade; o primeiro, enquanto dinâmica, sua atividade em
ato; o segundo, enquanto estática, os estados interiores ou disposições
habituais que orientam e matizam sua atividade. A interioridade do homem passa
à atividade enquanto inteligência, decisão e sentimento. Dado o que Jesus
propõe, é uma opção pela pobreza, e o ato que a realiza é a decisão da vontade.
O sentido da bem-aventurança é, portanto “os pobres por decisão”, opondo-se aos
“pobres por necessidade”. Transpondo o nome decisão pela forma verbal, tem-se
“os que decidem escolher ser pobres”. A vulgata usa pauperes spiritu do
grego ptochoi to pneuma. A tradução da bíblia protestante na sua VA [versão
autorizada] é: Bem-aventurados, os humildes em espírito. As bíblias católicas
conservam a palavra pobres e traduzem pobres de espírito ou em espírito e
algumas pobres de coração. Duas traduções fazem uma exegese particular: A
versão AL [América latina] os que têm o espírito de pobres e a francesa: ceux
qui ont um coeur de pauvre [que têm um coração de pobre]. A bíblia de King
James traduz poor in spirit e comenta que ptochós é uma pessoa que não pode se
ajudar, ao contrário de pénes, que, sendo pobre, pode se virar, como
dizem. E comenta: o primeiro passo para ser abençoado é a admissão da própria
inutilidade espiritual. Enquanto Mateus dá uma explicação sobre o significado
de Ptochoi [pobres], Lucas nada diz sobre a natureza da pobreza, aludida por
Jesus na primeira bem-aventurança. Segundo Lucas, é a pobreza material a que
abre as portas do Reino. Segundo Mateus, essa pobreza tem um matiz necessário:
é a pobreza fomentada no espírito, no desejo, no interior ou pensamento, ou
tomada como objetivo na vida, que implica não considerar as riquezas materiais
como finalidade da vida. Na realidade, ambos os termos podem ser vistos com uma
convergência: a pobreza material é um pré-requisito para a pobreza espiritual,
muito mais difícil de se conseguir quando a riqueza é o berço em que fomos
aninhados. Uma interpretação moderna é de que os homens só podem ser abençoados
por Deus quando diante dele se comportarem como mendigos às portas de sua
misericórdia. Vejamos duas interpretações:
1) Do ponto de vista
católico e fundamentada em Mateus: a) a primeira Bem-aventurança seria a bênção
divina para os que escolhem ser pobres, porque no lugar da riqueza, estes terão
a Deus por seu único Rei, que por sua parte escolhe os válidos e preferidos
entre os pobres e oprimidos. No texto de Mateus podemos interpretar pobres no
espírito como aqueles que não têm ambições de riqueza, que não se deixam levar
pela avareza. b) Finalmente, pobres no espírito podem significar aqueles que
carecem de qualidades humanas. c) Qual delas é a mais correta na interpretação
das palavras de Jesus? Segundo a maioria dos autores, Ptochoi traduz o hebraico
Anawim que Jesus explicará em Mateus 6,19-21; 24 em que Jesus rejeita o
desejo das riquezas e as antepõe ao serviço devido a Deus, já que não podemos
servir a dois senhores. Quando da recusa do jovem a abandonar suas riquezas,
Jesus comentará que é difícil para um rico entrar no Reino, pois na realidade
ele está dominado pelo senhor contrário ao verdadeiro Senhor: Deus (Mt 19,16+).
E é nesta última situação que as palavras de Lucas adquirem o verdadeiro valor
como Bem-aventurança. d) Um último comentário: Pelo que Mateus nos dá a
conhecer sobre o sermão da montanha parece que as bem-aventuranças foram
redigidas sobre a frase tão repetida neste capítulo V: Ouvistes que foi dito
aos antigos; eu, porém vos digo. Isto é: nas sinagogas vos foi ensinado; porém,
a verdade é outra diferente que eu vos declaro agora. Por isso a melhor
tradução, sob o ponto de vista exegético, seria: Ouvistes que vos foi ensinado
que os ricos eram benditos de Deus; eu porém, vos digo que são os mais pobres
os escolhidos e os que verdadeiramente são os benditos de Deus, que na terra
vão constituir seu Reino. De fato, Paulo dirá aos de Corinto: Não há entre vós
muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família
prestigiosa… Deus escolheu o que no mundo é vil e desprezado… a fim de que
aquele que se gloria, glorie no Senhor. (1Cor. 1,26-31). A bênção era tão
inusitada para a época em que a pobreza era considerava pior que a lepra como
castigo divino, que Mateus ou o seu copiador, se sentiu obrigado a introduzir
um pequeno parêntese explicativo para restringir a pobreza a limites aceitáveis
pelos seus leitores e assim fala dos pobres de coração que hoje chamaríamos
pobres sem ambição, e que os evangélicos traduzem por humildes de espírito.
Porém, devemos manter o original de Lucas que fala dos simplesmente pobres,
indigentes, porque a bênção divina é tanto mais completa quanto mais miserável
aparecer a condição humana. Assim se cumpre o dito de Jesus que afirma ter
vindo salvar o aparentemente perdido. Como consequência, não devemos desprezar
esses mendigos que tratamos de vagabundos, porque eles merecem um lugar de
destaque no reino, e nosso amor para com eles só será um espelho do amor de
Deus exemplificado nesta bênção. Em termos gerais, podemos considerar que se
Lucas é o taquígrafo das palavras de Cristo, Mateus é seu intérprete e
catequista. Daí as diferenças. Segundo as palavras de Jesus, citando, em Lucas,
Isaías 61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [anawim e ptochoi, o
latim mansueti, que traduz o italiano umili e a VA quebrantados] os
pobres poderiam ser os aflitos por suas necessidades materiais. De fato, as
classes inferiores, escravos e necessitados se beneficiaram do evangelho em
forma tal, que Jesus teve que afirmar que dificilmente um rico entraria dentro
do esquema do mesmo. Serão, pois, os pobres materiais os sujeitos da
bem-aventurança embora devam ser excluídos da mesma, os que se rebelam contra
sua pobreza e não a aceitando, rejeitam os planos de Deus que prefere os
deserdados aos ricos e opulentos.
2) A evangélica de
Robert H. Mounce; em resumo será: Jesus exclama que não são os ricos e
poderosos, mas os pobres e humildes de quem se pode dizer, na verdade, que são
bem-aventurados. A apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como
deve ser vivida, ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional… Na
linguagem hebraica, pobre não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas
todos quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda (Sl. 69,32 e
Is. 81,11). Estes são os anawim, “os humildes pobres que confiam na ajuda de
Deus”. Pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda
segundo o Salmo 34,6: Clamou este pobre e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas
as suas angústias.
REINO DOS CÉUS: A
promessa mais explícita, como esperança de cada Bem-aventurança, é a entrada no
Reino, que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na primeira e na
última, oitava e final, da lista por ele apresentada. Mateus é praticamente o
único evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto os outros dois
denominam Reino do (sic) Deus. Em que consiste esse Reino que parece ser a base
da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve como um banquete
nupcial (Mt. 22,1+), como um precioso tesouro (Mt. 13,44). Mas, em que
consiste? No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus
[basiléia theou] no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos
evangélicos: Ela [a sabedoria] guiou por sendas retas o justo [Jacó], que fugia
da ira de seu irmão [Esaú], lhe mostrou o reino de Deus e deu-lhe o
conhecimento das coisas santas [significando o governo do mundo por meio
de seus anjos e em particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Sb 10, 10).
Por Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro reinos
procedentes do mar [do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo reino
que procedia das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo Mateus
ou Reino de Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura de
Filho do Homem (Dn. 7, 13). Das palavras de Jesus dificilmente saberemos a
resposta positiva; sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres,
crianças] (Mt. 5,3 e 19,14) e quais as que têm dificuldade [ricos, autoridades
religiosas] (Mt 19,23 e 21,31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade
própria [mais estrita que a dos escribas e fariseus] ( Mt 5,20). Que para um
escriba era necessária uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da
água e do espírito (Jo 3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus,
não em forma aparente e externa, mas interior (Lc. 17, 21). Um reino que
consiste essencialmente em que a vontade divina seja a norma indispensável da
vida (Mt. 6,10). Um reino que se mostrará patente após a morte de Cristo porque
muitos dos ouvintes de Jesus estarão presentes a seu início visível (Lc. 9, 27)
para o qual haverá sinais prévios (Lc. 21,31). Reino que terá Pedro como
supremo supervisor (Mt. 16,19). Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos
dizem que o Reino consiste em honestidade, paz e alegria no E. Santo (Rm.
14,17), não em palavras, mas em poder (1Cor. 4,20). Não em comilanças e
bebedeiras, mas em honestidade, paz e gozo no Espírito Santo; que nem
luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem efeminados, nem
sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem injuriosos herdarão o
mesmo (1Cor. 6, 9-10); coisa que repetirá Paulo em Gl. 5,21. Trabalham pelo
reino os apóstolos e com eles os que os ajudam (Cl. 4,11). Deste reino, que
podemos chamar na sua face terrena, chegamos ao definitivo ao eschaton do qual
temos a palavra de Jesus que beberá do fruto da vide quando chegar o Reino de
Deus (Lc. 22,18). Este é o reino que Jesus admite como próprio e do qual, como
gozo definitivo, promete participar aos que nele confiam (Lc 23,42-43).
Podemos, pois, responder à pergunta qual é esse reino que a eles é prometido?
Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor parte desse novo povo de Deus que
constitui o Reino por Cristo fundado e do qual ele era Senhor. Não é sem uma
idéia proposta e preconcebida que Mateus escolhe no monte onde pronuncia a
novidade do reino: os doze que deveriam ser os novos pais das novas tribos do
novo Israel, não como genitores materiais mas como pais espirituais, dos quais
todos nós recebemos a nova vida no Espírito.
TÊM A DEUS POR REI:
esta é a tradução preferida pelos modernos intérpretes. Assim, o grego Basileia
não significa aqui reino mas ‘reinado’. “Seu é o reinado de Deus” quer dizer
que esse reinado se exerce sobre eles, que somente sobre eles age Deus como
rei. A pobreza a que Jesus convida é a renúncia a acumular e reter bens, a
considerar algo como exclusivamente próprio; esses pobres estarão sempre
dispostos a compartilhar o que têm. A opção final que Jesus propõe, realiza o
prescrito pelo primeiro mandamento de Moisés: Não terás outros deuses diante de
mim (Dt 5,7). A idolatria concretizava-se na posse da riqueza (6,24); por isso
o enunciado desta bem-aventurança é porque estes e não outros, têm a Deus
por Rei. A opção proposta pela primeira bem-aventurança leva à sua perfeição a
metânoia ou emenda, pois quem escolhe ser pobre, renunciando a
monopolizar riquezas, e com isso, à posição social e ao domínio, exclui de sua
vida a possibilidade de injustiça. É a visão da teologia da libertação.
CONCLUSÃO. As
palavras de Jesus são um convite a refletir de forma nova sobre fatos que
consideramos desafortunados, mas que o evangelho torna afortunados. Entre eles
a pobreza, considerada como um castigo divino, mas que agora devemos ver como
uma circunstância providencial, uma verdadeira bênção do céu, porque facilitará
a entrada no reino dos que a sofrem.
OS QUE CHORAM. Ditosos os que
pranteiam. Eles serão consolados (4).
O latim e a maioria
das traduções modernas modificam a ordem desta bem-aventurança colocando-a em
terceiro lugar. Mas que significa o verbo grego penthountes? Ele significa
propriamente lamentar os mortos ou seja prantear, derramar lágrimas por alguém,
estar de luto. Precisamente a palavra luto deriva do latim lugere de onde
luctus. O grego pentheö sai 4 vezes nos evangelhos: Duas em Mateus e uma em
Marcos e Lucas. É traduzido por lugere, enquanto o pranto ou choro como o de um
menino é klaiö. Pedro chorou amargamente após suas negações (Mt. 26,75). As
carpideiras, ou pranteadeiras, choravam na casa de Jairo por causa da morte da
filha (Mc. 5,38). Lucas, neste lugar paralelo, usa klaiö em vez de pentheö de
Mateus (Lc. 5,21). Sobre pentheö temos Mt 9,15 que diz que os amigos do noivo
não podem estar de luto no dia da boda do mesmo. Marcos diz que a Madalena
anunciou a Ressurreição aos que estavam lamentando e chorando. Os mesmos dois
verbos sucessivos usa Lucas em 6,25. Também o grego admite como tradução os que
se lamentam ou estão afligidos, como aceitam traduções modernas. Poderíamos
traduzir por os que sofrem. A razão que motiva esta bem-aventurança é a de que
encontrarão consolação a sua dor. Logicamente o pranto não é devido a uma dor
física mas a uma perda de uma pessoa amada ou de bens estimados necessários
para a vida: um infortúnio, uma desgraça. Alguns traduzem: os que sabem o que
significa a tristeza. É o próprio Deus que será seu consolo, segundo Is. 61,2:
A consolar todos os que choram. Lucas, como a vulgata de Mateus, traz esta
bem-aventurança em terceiro lugar e a palavra usada é Klaiontes [o latim
flentes, derramando lágrimas] que como sempre traduz muito literalmente o
grego. O texto não diz as razões que motivaram as lágrimas. Mas no texto de Isaías,
citado por Jesus quando do início de sua missão, encontramos: que foi enviado a
consolar os que estão tristes. Usa, pois, Mateus os dois verbos que a setenta,
a bíblia-guia dos primitivos cristãos, emprega. Poderíamos afirmar que o
consolador é o próprio Jesus na sua função de Messias Salvador, ou Cristo. Ele
toma as funções divinas atribuídas a Deus na passiva do verbo correspondente.
Recorda a passagem: Vinde a mim todos vós que estais cansados…e eu vos
aliviarei (Mt. 11,28).
OS MANSOS. Ditosos os mansos
porque eles herdarão a terra (5).
PRAEYS: é palavra
própria dos mansos, benignos, não violentos, o mites ou mansuetus latino, que
aceitam sua fragilidade e sua situação social sem revolta, mas com a confiança
em Deus que será o último fautor da História. É uma imagem tomada do Salmo
37,11: Pois os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância da paz. É
notável como as palavras prays e klëronomeö são também as usadas pelo salmista.
O sentido claro é que definitivamente o Reino é um reino de paz e que os não
violentos são os herdeiros desse reino que substitui o antigo Israel, a
verdadeira terra bíblica. Por isso, Jesus afirma que os contrários do Reino são
os violentos que estão a destruí-lo (Mt. 11,12). No tempo de Jesus os Zelotas
pensavam fosse a terra [nome dado à Palestina pelos israelitas] matéria de
conquista e guerra. Jesus, porém, toma a palavra do profeta no salmo 37,8-9
para indicar que não é a violência que conquista a terra. Deixa a violência,
abandona o furor, não te inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser
extirpados e os que aguardam o Senhor possuirão a terra. De Si mesmo dirá que
devemos aprender porque é manso e humilde de coração (Mt. 11,29). De novo temos
a presença de Jesus nesta bem-aventurança, agora como modelo humano e não como
Deus que cumpre uma promessa. Esta bem-aventurança é uma antecipação da número
7: os fazedores da paz. Só que neste último caso a situação é ativa e na nossa
3a bem-aventurança o sujeito é passivo: pacífico. Terra [gë] era o termo com o qual
declaravam os judeus a porção geográfica que Jahweh tinha dado a eles por
herança (Dt. 1,36 e Nm. 26,53) que Dt. 9,29 identifica com o povo de Israel, de
modo que podemos afirmar que unicamente os pacíficos ocuparão o espaço dos que
pertencem ao Reino.
FOME E SEDE DE
JUSTIÇA. Ditosos os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados (6).
Esta bem-aventurança
está refletida, mas de modo material, na segunda de Lucas: Os famintos agora,
pois serão saciados. Esta oposição à materialidade de Lucas nos descobre uma
interpretação espiritualista de Mateus das palavras de Jesus. Ao mesmo tempo,
Mateus conecta com o AT segundo sua proposição de que Jesus veio não para
revogar a Lei mas para completá-la (Mt. 5,17). São duas as passagens de Isaías
que falam sobre sede e fome: 55,1 e 65,13. Especialmente nesta última Jahweh se
refere a seus servos que terão comida e bebida em abundância. Mas que significa
a justiça que é a fonte ou motivo de sede e fome? Em grego dikaiosyne
significa:
1) Justiça divina que
premia o bem e castiga o mal.
2) Justiça humana
equivalente a santidade moral. Homem justo é um homem virtuoso.
3) Fidelidade divina
que cumpre sempre suas promessas, que vem ser sinônimo de salvação.
4) Justiça
distributiva humana que respeita o direito e defende em nome de Deus os mais
necessitados. Qual delas é a justiça de nosso versículo? Provavelmente, a
terceira. A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou correção de vida em
conformidade com a vontade divina. Não é a justiça comutativa mas a essencial da
qual nos fala Paulo e que em certo modo se identifica com salvação e santidade.
O lugar paralelo é Mt. 6,33 no qual a justiça está unida ao Reino. Justos eram
aqueles cujo sangue foi derramado desde Abel até o último profeta (Mt. 23,33).
Uma salvação que inclui também o primeiro significado. Era o desejo manifestado
por Simeão: Meus olhos viram a tua salvação (Lc. 2,30) porque essa salvação foi
comparada a um banquete no qual todos podiam entrar, ricos e pobres, sãos e
aleijados, bons e maus. A entrada é livre, pois a justiça divina se transformou
em misericórdia. Unicamente os convivas deveriam ter uma veste limpa: não
buscar a própria exaltação como os fariseus, mas revestidos de Cristo (Rm.
13,14) de sentimentos de compaixão, benevolência, humildade, doçura, paciência
(Cl. 3,12).
OS
MISERICORDIOSOS. Ditosos os misericordiosos porque serão tratados com misericórdia (7).
Eleëmones é o termo
grego significando que tem compaixão. Eles alcançarão essa mesma compaixão que
têm com os homens, mas da parte de Deus. Eleemones só sai esta vez nos
evangelhos. A palavra que é usada da mesma raiz é eleeö, [miserere, ter
compaixão]. É o verbo usado pelos pedintes para uma cura de Jesus, como os
cegos, a mulher cananéia, o pai do filho epiléptico, etc. É o verbo usado por
Jesus na parábola do servo devedor, a palavra que usa o rico para pedir de
Abraão uma gota d’água. É a compaixão para com aquele que está necessitado ou
pede perdão de uma dívida impagável. O próprio Lucas traduz a perfeição cristã
por misericórdia: sede misericordiosos como vosso Pai (Lc. 6,36). A palavra
usada por Lucas oiktirmon [misericors, que tem pena de] é mais próxima de
compaixão que de misericórdia. Precisamente a eleëmosunë eleemosina latina
[esmola portuguesa] provém dessa raiz grega. Daí o grande motivo para dar
esmolas entre os cristãos.
LIMPOS DE
CORAÇÃO. Ditosos os limpos no coração porque eles verão a Deus(8).
KATHAROI [mundi,
limpos]. Na verdade, o latim com mundo corde diria: ditosos (aqueles) com
coração limpo. O coração limpo, por outros traduzido por os puros de coração
nada tem a ver com a castidade, mas visa os de intenções limpas, os não
malvados, nem torcidos em seu íntimo entre pensamento, palavra e ação por terem
o pensamento diverso de sua palavra mentirosa. Ou seja, os não hipócritas, os
que só pensam em fazer o bem, sem outras intenções espúrias ou indignas por
segundos interesses. Limpos de coração é tomado do Salmo 24,4: Quem é
limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem
jura dolosamente. O salmo 15,2 fala de quem vive com integridade e
pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade, o que não difama com sua
língua, não faz mal ao próximo nem lança injúria contra seu vizinho. Esta é a
limpeza do coração, mente, ou intenção diríamos hoje. O prêmio desta vez é que
verão a Deus. Quando? Evidentemente na figura de Jesus. Como exemplo: os
fariseus viram o demônio expulsando seu colega, quando a gente simples via o
dedo de Deus na expulsão do demônio feita por Jesus (Mt. 12,22-24). Por outro
lado, eles, os limpos de coração, são os que buscam a verdade e a encontrarão e
por isso verão a Deus em suas vidas porque Deus é a única verdade. Na epístola
aos Hebreus se afirma que sem a santificação é impossível ver a Deus (Hb.
12,14). Não se trata unicamente do além, mas do tempo presente em que a
premissa básica para encontrar o verdadeiro Deus é a pureza de intenção.
Precisamente Jesus dirá que é no coração onde se prepara e cozinha a maldade
(Mt 16,19). A presença de Deus era o Templo, onde Deus estava assentado sobre
os querubins da arca (1Sm 4,4). Agora o verdadeiro templo é o crente (1Cor
3,16), e só se Deus é adorado em verdade (Jo 4,24) é que estará ali como estava
sobre os querubins no antigo Templo (1Sm. 4,4). E nesse templo interior, Ele se
manifestará.
OS QUE TRABALHAM PELA
PAZ. Ditosos os que trabalham pela paz porque eles serão chamados filhos de
Deus (9).
Os EIRËNOPOIOI grego,
têm como tradução direta os que fabricam a paz, que infelizmente o latim traduz
impropriamente por pacifici e que a maioria das bíblias adotou como pacífico;
mas pacífico corresponde a 3a bem-aventurança com o nome de praeis. Uma coisa é
ser pacífico ou afável, e outra é trabalhar pela paz. Um comentarista diz que
um trabalhador pela paz é um homem que experimentou a paz de Deus e pretende
levar a mesma aos que com ele convivem. De fato, esta é a única vez que é
empregada no NT.
SERÃO CHAMADOS
FILHOS, está no lugar de serão verdadeiros filhos de Deus. Precisamente,
segundo Isaías, o filho que nos foi dado, terá como nome Emanuel [Deus conosco]
e será chamado Príncipe da paz (9,5). Esse Jesus que, como rei da paz, entra em
Jerusalém montado num jumento e não num cavalo, montaria de guerra, para
anunciar a paz às nações (Zc. 9,9-10). Os pacificadores são os verdadeiros
continuadores do labor feito por Jesus, levam a paz entre os homens e a paz
para com Deus. Trabalham como Jesus trabalhou, com o mesmo objetivo e o mesmo
motivo: reconciliação e amor.
OS PERSEGUIDOS. Ditosos os
perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (10).
PERSEGUIDOS,
perseguidos é o particípio passado passivo do verbo Diökö buscar ou acossar
alguém de modo a ter que fugir por causa do acossamento. Esta deveria ser
a oitava e última bem-aventurança, mas nos encontramos com um makarismo a mais,
o nono. A justiça é, como temos explicado no parágrafo de sede e fome de
justiça, a correção de vida que se ajusta aos planos divinos, e que no AT
consistia no cumprimento exato dos preceitos da Lei, como era o caso de José,
esposo de Maria, que devia por lei denunciar Maria publicamente, mas pensava em
repudiá-la ao modo antigo, ou seja secretamente (Mt. 1,19). Jesus claramente
abona a idéia de que a moral entra dentro dos planos divinos.
A JUSTIÇA DO
REINO. Ditosos sois quando vos tenham reprovado e perseguido e dito palavra má
contra vós, mentindo por minha causa (11).
Parece que este é o
nono macarismo, porém os autores afirmam que ele é a explicação do oitavo,
indicando qual é a justiça e a perseguição dos justos. De fato, neste último
macarismo Jesus passa da terceira pessoa, em termos gerais, para a segunda
pessoa dirigindo-se a seus ouvintes: vós. A justiça é a que está representada
na pessoa de Jesus [por causa de mim]. A perseguição ou os perseguidos, do
verbo diökö, são os buscados ou acossados pelos inimigos de Jesus, porque
atrás deles está o Mestre, como Ele disse a Saulo, perseguidor dos seus
discípulos (At. 9,4): Saulo, Saulo, por que me persegues? O grego usa neste
versículo o mesmo verbo diökö. Dentro da explicação, vemos que a perseguição
implica a injúria, o acossamento e a mentira. Todos eles, os perseguidos,
pertencerão ao Reino e são os verdadeiros membros do mesmo, o constituem. A
última bem-aventurança promete a mesma recompensa do que a primeira: o Reino.
A RECOMPENSA. Ficai alegres e
exultai porque vossa recompensa (é) grande nos céus. Assim também perseguiram
os profetas, os anteriores vossos (12).
A recompensa, ou
melhor, o salário é uma remuneração que só Deus pode dar e que ninguém poderá
diminuir ou anular, como é o tesouro que as riquezas bem repartidas adquirem
para os que delas se desprendem. Assim podeis comparar-vos com os profetas que
me precederam. A ação profética é precisamente o testemunho de suas vidas,
aparentemente desperdiçadas inutilmente, maltratadas e vilipendiadas pelos que
tinham a obrigação de ouvir e respeitar seus testemunhos. É uma profecia do que
aconteceria após a morte e ressurreição de Jesus, do qual eles se tornariam
testemunhas e profetas.
PISTAS
1) Jesus [ou a Igreja
primitiva] coloca as bem-aventuranças no início da sua atuação pública,
imediatamente após a escolha dos doze. Pelos detalhes de Mateus elas ocupam o
lugar dos mandamentos recebidos por Moisés no Sinai; ou seja, Jesus prega uma
Boa Nova em oposição a Moisés que proclama uma lei de servidão.
2) É um evangelho
positivo no qual Deus quer mostrar a sua face de bondade e salvação. E são
precisamente esses homens passivos da ação divina que o mundo pensaria serem os
de pior sorte, os que são beneficiados [makarioi, ditosos] pela riqueza e
misericórdia de Deus.
3) Não se trata de
uma moral nova a ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de umas circunstâncias
nas quais Deus quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso as
Bem-aventuranças estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira
encontram em Jesus o seu Mestre e Salvador.
4) As
bem-aventuranças resumem o espírito evangélico, ou apresentam um modo novo de
olhar para a realidade crua, dos discípulos de Jesus? Antes parece um juízo
feito pela sabedoria divina dos momentos e das pessoas que nós consideramos
desafortunados. Nessas situações tão indesejáveis, a esperança provém do olhar
para a verdadeira essência das coisas: ver a realidade como Deus a vê.
5) As primeiras
constituem a bênção de circunstâncias que podemos chamar de infortúnio. Estar
nas mesmas não é um azar, mas uma sorte do ponto de vista da providência
divina. As segundas implicam uma recompensa para determinadas virtudes que são
essencialmente cristãs. Todas constituem a Boa Nova para necessitados ou almas
de boa vontade. A Boa Vontade divina agora inclui a boa vontade humana.
EXEMPLO: um mestre
oriental contava de si mesmo: Na juventude, eu era um verdadeiro chefe
revolucionário e rezava assim: dá-me energia, ó Deus, para mudar o mundo! Mas notei,
ao chegar à meia-idade, que metade da vida já havia passado sem que eu tivesse
mudado homem algum. Então mudei a minha oração, dizendo a Deus: Dá-me a graça,
Senhor, de transformar os que vivem comigo, dia a dia, como os meus familiares
e os meus amigos. Com isto eu já fico satisfeito! Agora que sou velho e com os
dias contados, percebo bem o quanto fui tolo rezando assim. A minha oração
agora é apenas esta: Dá-me a graça, Senhor, de mudar a mim mesmo! Se eu tivesse
rezado assim desde o princípio, não teria esbanjado a minha vida e o mundo
seria bem melhor.
padre Ignácio de Nicolás Rodríguez
O consolo do perdão
“Bem-aventurados os
que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4)
Santo Ambrósio, santo
Hilário, são João Crisóstomo e santo Agostinho entenderam que essa
bem-aventurança se refere às lágrimas derramadas por causa dos nossos pecados;
a consolação é o perdão dos pecados. “Todo pecador deve chorar. A quem se chora
senão a um morto? E quem está mais morto senão o malvado? Coisa admirável:
chore por si mesmo e reviverá; chore fazendo penitência e será consolado com o
perdão” (santo Agostinho).
Santo Agostinho
também deixou escrito que todo convertido é ferido por certa tristeza porque,
além de não alegrar-se nas antigas “alegrias” da sua vida pecaminosa, tampouco
possui ainda o amor das coisas eternas. É o Espírito Santo, o Consolador, quem
o vai enriquecendo com a eterna alegria aqueles que perderam a alegria das
coisas pecaminosas.
Que consolador é
chorar os próprios pecados! Aquele que já teve essa experiência bem o sabe. Que
alívio! Pode ser uma boa preparação para o sacramento da confissão ou até mesmo
um fruto dela. Pode ser o começo da conversão, como também pode significar uma
maior união com Deus. De fato, quem entende o que é o pecado são os santos, os
pecadores o ignoram!
Os pecadores, sem
saber ou sabendo, vão se destruindo a si mesmos. Que pena! Não dá vontade de
chorar ao ver tantos jovens afundados nas escravidões das drogas, do sexo, da
violência. Rapazes e moças que podem ter um futuro brilhante estão se
destruindo pouco a pouco, encontrando nisso um prazer que poderíamos
qualificá-lo como “quase macabro”. A imagem de Deus sendo destruída nessas
pessoas! Não é triste?
É bom chorar os
próprios pecados e alcançar de Deus a consolação do perdão. É meritório chorar
os pecados alheios suplicando e conseguindo a misericórdia e o perdão de Deus
para eles. Isso é caridade! Quem chora os próprios pecados alcança, por graça
de Deus, a própria salvação; quem chora, ademais, os pecados dos outros,
alcança a salvação – dom de Deus – para os outros e para si. Uma pessoa que é
capaz de se com-padecer encontra-se muito próxima do Coração de Deus. Caso
alguém diga que Deus não pode sofrer, responderemos sem discordar, mas levando em
sério o quanto Deus se implica na situação das pessoas: “Deus est
impassibilis, sed non incompassibilis” (são Bernardo de Claraval), ou seja,
Deus é impassível, mas não incompassível, ele se compadece de nós. Os nossos
pecados realmente e de uma maneira misteriosa ofendem a Deus, mas ele tem a
iniciativa: vem ao nosso auxílio, nos perdoa e nos salva.
É comum ler nas
biografias dos santos que eles choravam pelos próprios pecados e também pelos
pecados da humanidade. Esses cristãos que tinham intimidade com Deus sentiam
delicadamente o que é uma ofensa a Deus. Pecar é ofender a Deus. Assim como nós
nos sentiríamos mal se ofendessem alguém que consideramos o nosso melhor amigo,
de maneira semelhante é-nos doloroso ver que se ofende a Jesus, nosso melhor amigo.
Os santos choravam pelos pecados porque amavam a Deus. Eles tinham uma ideia um
pouco mais clara de quem é Deus e do quanto ele nos ama. Eles chegavam a
penetrar nos abismos da miséria porque viviam nos abismos do amor e da
misericórdia de Deus.
Nós sempre estamos
sendo convertidos e nos convertemos. Deus nos uniu a si, mas temos que seguir
crescendo nessa união. Também nós, sentimos no coração que se ofenda tanto a
Deus, bondoso e generoso para com todos, e sentimos também por essas pessoas
que vão se destruindo paulatinamente no pecado.
No coração de um
filho de Deus há uma espécie de paradoxo irremediável, pelo menos até que
chegue a Parusia: por um lado, está sempre feliz e cheio de paz, o sorriso está
estampado no seu rosto; por outro, sente uma espécie de dor pela situação
presente. Entre a Trindade beatíssima, onde o cristão tem a cabeça e o coração,
e a miséria mundana, onde tem a cabeça, o coração e os pés, o cristão deve
viver sempre levando a esse mundo e a todas as pessoas a esperança, a misericórdia
e a paz.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
Onde está a felicidade?
Jesus está diante de
uma multidão imensa! Esperam dEle a sua doutrina salvadora, que dará sentido às
suas vidas. Então Jesus subiu ao monte e começou a ensinar-lhes (Mt. 5,1-12).
É esta a ocasião que
Jesus aproveita para traçar uma imagem profunda do verdadeiro discípulo.
Trata-se do Evangelho
das bem-aventuranças que constitui um resumo do Sermão da Montanha e de todo o
Evangelho de Jesus Cristo.
“Bem-aventurado”
significa feliz, ditoso, e em cada uma das Bem-Aventuranças Jesus começa por
prometer a felicidade e por indicar os meios para consegui-la. Por que Jesus
começa falando da felicidade? Porque em todos os homens há uma tendência
irresistível para serem felizes; esse é o fim que têm em vista em todos os seus
atos; mas muitas vezes buscam a felicidade no lugar em que ela não se encontra,
em que só acharão tristeza.
“Jesus começou a
ensiná-los: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos
céus” (Mt 5, 2-3).
A atitude fundamental
exigida para participar do Reino dos Céus é a pobreza em espírito. Pobre em
espírito é todo aquele que tem a atitude de confiança da criança em relação a
seus pais. Pobre em espírito é quem coloca toda a sua confiança no Senhor. É o
que não coloca sua segurança nos bens materiais, na glória e na fama, mas em
Deus. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem
nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. A pobreza em
espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o despreendimento dos bens
materiais e austeridade no uso deles.
O espírito de
pobreza, a fome de justiça, a misericórdia, a pureza de coração, o suportar
injúrias por causa do Evangelho são aspectos de uma única atitude da alma: o
abandono em Deus, a confiança absoluta e incondicional no Senhor.
Em geral o homem
antigo, mesmo no povo de Israel, procurava a riqueza, o gozo, a estima, o
poder, e considerava tudo isso como a fonte de toda a felicidade. Jesus traça
um caminho diferente. Exalta e abençoa a pobreza, a doçura, a misericórdia, a
pureza, a humildade.
Com as
Bem-aventuranças, o pensamento fundamental que Jesus queria inculcar nos
ouvintes era este: só o servir a Deus torna o homem feliz.
O conjunto de todas
as Bem-aventuranças traça, pois, um único ideal: o da santidade. Ao escutarmos
hoje novamente essas palavras do Senhor, reavivamos em nós esse ideal como eixo
de toda a nossa vida. Como nos diz o Apóstolo S. Paulo: “Esta é a vontade de
Deus: a vossa santificação” (1Ts. 4,3). Chama cada um à santidade e a cada um
pede amor: a jovens e velhos, a solteiros e casados, aos que têm saúde e aos
enfermos, a cultos e ignorantes; trabalhem onde trabalharem, estejam onde
estiverem.
Sejam quais forem as
circunstâncias por que atravessemos na vida, temos que sentir-nos convidados a
viver em plenitude a vida cristã. Não pode haver desculpas, não podemos dizer a
Deus: “Esperai, Senhor, que se solucione este problema, que me recupere desta
doença, que deixe de ser caluniado ou perseguido…, e então começarei de verdade
a buscar a santidade”. Seria um triste engano não aproveitarmos precisamente
essas circunstâncias duras para nos unirmos mais a Deus.
“Bem-aventurados sois
vós quando vos injuriarem e perseguirem…Alegrai-vos e exultai, porque será
grande a vossa recompensa nos céus” (Mt. 5,11-12). Assim como nenhuma coisa da
terra nos pode proporcionar a felicidade que todos procuramos, assim nada nos
pode tirá-la se estivermos unidos a Deus. A nossa felicidade e a nossa
plenitude procedem de Deus. Peçamos ao Senhor que transforme as nossas almas,
operando uma mudança radical nos nossos critérios sobre a felicidade e a
infelicidade.
Seremos
necessariamente felizes se estivermos abertos aos caminhos de Deus em nossas
vidas. Quando os homens, para encontrarem a felicidade, experimentam caminhos
diferentes do da vontade de Deus, diferentes daquele que o Mestre nos traçou,
no fim só encontram solidão e tristeza. Longe do Senhor, só se colhem frutos
amargos e, de uma forma ou de outra, acaba-se como o filho pródigo enquanto
esteve longe da casa paterna: comendo bolotas e cuidando de porcos (Lc.
15,11-32).
São felizes aqueles
que seguem o Senhor, aqueles que lhe pedem e fomentam dentro de si o desejo de
santidade.
Quando nos falta
alegria, com certeza, é porque não procuramos a Deus de verdade, no trabalho,
naqueles que nos rodeiam, nas dificuldades. Não será, talvez, porque ainda não
estamos inteiramente desprendidos? “Alegre-se o coração dos que procuram o
Senhor”!
mons. José Maria Pereira
As oito
bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava,
constituem como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt. 5–7), «a expressão
mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento
humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o
discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As
bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um
caráter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos,
não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do
Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico
então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do
paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie
de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos
e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao
conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na
força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos
débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que,
quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o
demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade
em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza,
na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso,
faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá
direito ao gozo das promessas de Cristo.
3 «Bem-aventurados».
Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a
felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao
dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma
felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora
ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças
têm uma dimensão escatológica e atual: correspondem a um futuro já iniciado.
«Os pobres em
espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito»,
para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação
econômico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de
reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da
misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade
de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apóia
não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati), e
não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em
contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de ação,
e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza
voluntária». É de notar que a expressão de Mateus é uma expressão religiosa
coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7:‘anawê rûah).
4-5 - A ordem destes
versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso
a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a
uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui;
pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a
memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo
entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram
(os aflitos) e os que têm fome e sede.
«Os que choram», isto
é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos
(Is. 61,1-3; cf. Lc. 4,1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo
16,20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a
salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc. 2,25; At. 3,20; 2Tes. 2,16-17).
O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a
Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a
«Deus os consolará».
«Os mansos», tradução
que consideramos preferível à adotada e proposta por um com um bom número de
exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao
hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37,10-11 (mas
traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e
Neovulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem
grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e
humilde» (Mt. 11,29), na linha das profecias de Is. 42,1-4 citada
em Mt. 12,18-21 e de Zac 9,9 citada em Mt. 21,5. Por isso não
nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente
equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que
vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade,
como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt. 5, 21-26.38-42.43-48; 6,
12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não
violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou
abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra»
(prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra
prometida ao povo eleito (cf. Hb. 4,2,11; 11,10.16; 12,22; 13,14).
6 «Fome e sede de
justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela
especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza
religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5,10.20; 6,1.31.33): a
submissão à vontade de Deus e aos seus desígnios de amor, uma vida justa,
inocente, santa e perfeita (cf. 5,48).
7 «Os
misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela
o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com
efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9,36; 9,9-13; 12,1-7) para com os
necessitados que a Ele clamam (cf. 9,27; 15,22; 17,15; 20,30.34); e esta tem de
ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6,14-15;
18,23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem
apelo (cf. 25,31-46).
8 «Os puros de
coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma
simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se
estar em condições de realizar atos de culto (recordem-se as prescrições de Lv.
11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, atividade sexual, doença e morte),
mas de uma pureza moral que não fica hipocritamente em exterioridades
farisaicas (cf. Mt. 23,25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf.
Is. 1,15-16; 29,13; Sl. 24,3-4; 51, 12; Prov. 22,11), até ao mais profundo do
interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt. 15,1-20; 5,
28; 12,34). A pureza do coração é fundamentalmente a retidão total dos
pensamentos, das palavras e das ações, não apenas as boas intenções, segundo o
Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg. 4,8;
1Tim. 1,5; 2Tim. 2,22; Hb. 10,22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na
e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a
Deus» (cf. Hebr 12,14; Ap. 22,3-4; 1Jo 3,3; Catecismo da Igreja Católica, nº
2517-2533).
9 «Os que promovem a
paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito
conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg. 3,3-18), mas a
maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham
em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar
– a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes
«serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade
filhos de Deus» (cf. Mt. 5,45).
10 «Os que sofrem
perseguição por amor da justiça» (cf. 1Pe 3,14), isto é, ao fim e ao cabo, por
causa de Jesus (cf. Mt. 10,24-28), por viver piamente (cf. 2Tim 3,12). Esta
«justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas
corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida reta e santa.
11-12 - Depois das 8
bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela
fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e
uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.
Finalmente quero
chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua recente obra, Jesus
de Nazaré, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não
raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do
Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos
do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das
palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo
(ver, por exemplo, Mc. 10,19; Lc. 16,17); no Sermão da Montanha são assumidos e
aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt. 5,
21-48)».
Sugestões para a homilia
Deus quer-nos felizes
já na terra e, depois, para sempre no Céu. O sofrimento existe no mundo por
causa do pecado do homem, que trouxe consigo todas as desgraças. Jesus veio
salvar-nos, libertando-nos do pecado: não nos tirou os sofrimentos, mas
ensinou-nos a aproveitá-los para nosso bem e para salvação dos que nos rodeiam.
A felicidade
encontra-se em Deus e só nEle. Santo Agostinho exclamava depois da sua triste
experiência longe de Deus: «Senhor fizeste-nos para Ti e o nosso coração anda
inquieto enquanto não descansa em Ti» (Confissões 1,1).
Já na terra podemos
ser felizes se procuramos a Deus, se O amamos de verdade. Carlos IX, rei de
França, perguntava um dia ao grande poeta, Torcato Tasso:
- Quem achas que é a
pessoa mais feliz?
- Deus, sem dúvida.
- Já sei. Mas dos
homens cá na terra, quem é mais feliz?
- O homem mais feliz?
Quem esteja mais perto de Deus.
Tinha razão o poeta.
Santa Teresa de Ávila
conta no livro da sua vida muitos dos sofrimentos físicos e morais que lhe
foram aparecendo no decorrer dos anos e, a certa altura, exclama: Senhor, ou
sofrer ou morrer. Sem o lastro do sofrimento a sua alma voaria para Deus,
separando-se do corpo. Os santos foram as pessoas mais felizes, mesmo no meio das
contradições da vida.
As bem-aventuranças
do Evangelho falam-nos da felicidade, que podemos encontrar já na terra. Não
está nas riquezas, nos prazeres da vida, nas glórias humanas. Deus quer-nos
felizes e indica-nos o caminho, para não nos deixarmos iludir pelos vendedores
de promessas.
As bem-aventuranças
chocam frontalmente com a maneira de pensar em moda. Mas Jesus tem razão. Só
Ele tem «palavras de vida eterna» (Jo 6,69). Ao desejar a felicidade os homens,
sem saber, estão à procura de Deus, que é o bem e a beleza infinita e a fonte
da verdadeira alegria.
As bem-aventuranças
são um resumo do Evangelho. «Ensinam-nos qual o fim último a que Deus nos
chama: o Reino, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida
eterna, a filiação, o repouso em Deus» (Cat.I. Católica, 1726)
Bem aventurados os
pobres
Tantos homens de hoje
continuam a pensar que o dinheiro, a riqueza os torna felizes. Em vez de adorar
o verdadeiro Deus, adoram a casa, o automóvel, as comodidades. O cristão
aprendeu de Jesus a usar as coisas terrenas, que são boas porque dadas por
Deus, mas sem se deixar prender a elas, sem pôr nelas a sua segurança. Por isso
Jesus diz: «bem aventurados o pobres em espírito, porque deles é o reino dos
céus».
Outra ilusão de
felicidade para o homem do nosso tempo é a ambição das glórias humanas, a
cobiça do poder e domínio dos outros. Jesus lembra também: «bem-aventurados os
mansos (os humildes) porque possuirão a terra». E convidou-nos a aprender
com Ele: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis o
descanso para as vossas almas» (Mt.11,29)
É aos humildes que
Deus Se revela: «Eu Te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos
sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Mt. 11,25). O orgulho
fecha os corações a Deus, porque estão cheios de si mesmos.
Deus resiste aos
soberbos e dá a Sua graça aos humildes. A explicação do ateísmo e do
agnosticismo, que nega a possibilidade de conhecer para além das ciências
experimentais, está o orgulho do homem que se fia apenas no que pode tocar.
Acaba por ser como a toupeira, que não vê e só conhece o que palpa na sua toca
escura.
A fé é como os olhos
para a alma. Leva a fiar-nos em Deus e naquilo que Ele ensina, abre-nos
horizontes novos e maravilhosos, dá-nos a possibilidade de contemplar a beleza
à nossa volta e dá sentido a toda a vida humana.
A fé abre o nosso
coração para a esperança, que nos leva a abandonar-nos em Deus que nos tornou
Seus filhos e cuida de nós a todo o momento. Que até os cabelos da nossa cabeça
tem contados (cf. Mt. 10,30), que está atento aos mais pequenos problemas da
nossa vida.
Se vivemos como
filhos de Deus andaremos sempre felizes mesmo no meio das dores e sofrimentos.
Porque sabemos «que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus»
(Rm. 8,28).
Mesmo as perseguições
por causa de Jesus serão para nós caminho de felicidade já na terra e, depois,
um dia no céu. Disso nos falam os mártires de todos os tempos. Os primeiros
cristãos, condenados à morte pelos imperadores romanos, iam para a arena a
cantar. Isso impressionava as multidões pagãs embrutecidas pelos espetáculos
sanguinários. Foi assim que muitos descobriram as belezas do cristianismo.
A esperança leva a
gozar antecipadamente a felicidade que nos foi prometida. Como a criança que
está já muito contente quando a mãe lhe promete o brinquedo que sonhava. S.
Paulo lembra: «os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória
que se manifestará em nós» (Rm. 8,18) Se vivemos com os olhos na eternidade as
agruras deste mundo não poderão roubar-nos a alegria.
Se olhamos para Jesus
crucificado entendemos o valor do sofrimento por amor de Deus e aprendemos a
não ter medo dos sacrifícios que Deus nos pede e daqueles que voluntariamente
fazemos por Seu amor.
Verão a Deus
«Bem aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus». Para ver a Deus, para conhecê-Lo cá na
terra e contemplá-Lo um dia no Céu, temos de purificar o coração, limpá-lo do
pecado, sobretudo da impureza.
Muitos não acreditam
porque têm o coração e os olhos cobertos de lama.
Um dia um jovem
universitário perguntava a são Josemaria:
- Padre, tenho um
amigo que não tem fé. Que posso fazer por ele?
- Foi batizado?
- Sim, padre.
- Recebeu formação
cristã, de pequeno?
- Sim, padre.
- Olha, leva-o a
confessar-se e virá de lá com uma fé muito grande.
O passarinho com as
asas enlameadas não pode voar para as alturas. Se temos os olhos sujos de lama
não podemos ver. Nem abri-los sequer muitas vezes.
A pureza da alma e do
corpo prepara-nos para entender as verdades da fé, para captar mais facilmente
as coisas espirituais. São Paulo diz que «o homem animal(animalizado) não capta
aquelas coisas que são do Espírito de Deus, porque para ele são loucura e não
as pode entender» (1Cor. 14). Acaba por ser como o filho pródigo reduzido a guardar
porcos. Todo sujo e cheio de fome desejava matar a fome com as bolotas que os
porcos comiam.
Vamos pedir a Jesus
que saibamos entender as bem-aventuranças, deixar-nos guiar por elas. Que
saibamos ter fome e sede de justiça, de santidade. Que saibamos ser
misericordiosos para com todos. Que saibamos semear a paz à nossa volta.
Que saibamos viver a
sério como filhos de Deus, abandonando-nos totalmente nEle, pondo nEle a nossa
segurança. Foi assim que viveu Nossa Senhora. Foi assim que viveu são José. Eles
são para nós modelos práticos para vivermos as bem-aventuranças.
Celebração litúrgica - www.presbiteros.com.br
1- Deus do monte “Sermão das Bem-aventuranças,
sermão do monte”, dizemos indistintamente. É clara a preferência de Deus em
escolher os montes, como lugares de culto e de revelação. Repassemos alguns
nomes: Moriah, Sinai, Horeb, Sión, Tabor, Calvário, Olivete. A liturgia
convida-nos: “Vinde, subamos ao monte do Senhor”.
Hoje surpreendemos Jesus num monte sem nome, um
morro sobre o mar de Tiberíades.
É um momento solene. Jesus proclama a
Carta Magna do Reino, a Constituição Fundamental de seu projeto missionário.
Estas sim que são as senhas de identidade do seguidor de Jesus. (Que pena que
muitos nos identifiquem com outros proclamas que aparecem nos meios!).
Aqui está o reverso do Sinai, e seu
decálogo. As Bem-aventuranças não chegam entre trovões e raios senão em
comunicação cordial; não é lei de mínimos senão ideal máximo; não se redigem em
proibições senão em chamadas aos valores maiores; não vêm escritas em tabuas de
pedra senão chegam diretamente ao coração.
As Bem-aventuranças é um projeto para
todos, não para as minorias. Inclusive, ao final do sermão do monte, nos é
aberto infinitamente o horizonte: “Sede perfeitos como vosso Pai do céu”.
“Demasiado bonito”. Pois de nós depende que seja credível. Muitos cristãos o
fazem.
2- Palavra de Deus
Mateus ressalta a solenidade da
ocasião: Jesus sobe ao monte da nova lei e permanece sentado, tendo diante seus
discípulos e um grande gentio. Três tempos aparecem nas Bem-aventuranças: a
proclamação de ditosos, os sujeitos de tal felicidade e, finalmente, a recompensa
que lhes espera.
Nove vezes repete: “Ditosos!”, grito
tão paradoxal ante as razões pelas que assim se proclama: por ser pobres sem
outra esperança do que Deus; por ser mansos e recusar toda violência; por
chorar ante o pecado e os sofrimentos do outro; por ter fome de justiça; por
ser misericordiosos; por ter o coração limpo; por lutar pela paz; por saber-se
perseguidos pelas coisas de Deus.
A recompensa, no fundo, é sempre a
mesma: o Reino dos céus.
Sofonías e São Paulo fazem questão dos
mesmos sujeitos das Bem-aventuranças: os humildes, os pobres, o néscio do
mundo, o que não conta. Isso sim - e aqui também a recompensa - Cristo será
para eles “sabedoria, justiça, santificação e redenção”. Há quem dê mais?
3- Hoje se cumpre esta palavra
Ditosos, benditos, felizes.
Que é que mais profundamente deseja o
homem senão ser feliz? E, no mais fundo, ser feliz é querer e ser querido;
querido por Deus e pelos demais. A cada cristão dissemos como Maria: “Feliz
porque creste”. Estamos alegres porque cremos que Deus é Boa Notícia, que tudo
é aliança de amor. Somos felizes porque Deus é feliz. Está antes a graça que o
mandamento. “A alegria do Senhor é vossa força”. Que feliz uma freira, toda uma
vida junto aos doentes!
Verdadeiro é que a felicidade não se
detém num mero bem-estar material, com os sentidos satisfeitos “no máximo”,
pois a capacidade de nosso desejo é infinita. Mas é igualmente verdadeiro que
uma alegria, tão profunda que não tenha reflexo no desfrutar da vida, não
merece o nome de cristã. Seguimos a Jesus, não ao Batista.
Navegar contra corrente
A moral cristã descobre luzes onde o
mundano só encontra sombras. Olhando a Jesus, entende-se estupendamente que há
fundamentos morais pelas quais se pode viver e lutar.
Seguir Jesus é cumprir as
Bem-aventuranças. Queremos e prometemos ser como Jesus de Nazaré: que não tinha
onde reclinar a cabeça, sempre aberto ao Pai (nada de instalação, de domínio,
de dignidades); que era doce e suave com os pecadores e os simples (nada de
poderio e violência); que consolava aos que sofrem e repetia: “Tem ânimo, ficas
curado” (nada de dureza de coração ou mera resignação); que procurava, antes de
mais nada, o Reino e sua justiça (nada de opressão ou discriminação); que nos
fez um canto à misericórdia quando nos falou da Ovelha Perdida (nada de gente
sem entranhas ou rigorismos); que era singelo de coração (nada de hipocrisias);
que nos disse: “minha paz deixo-vos, minha paz dou-vos” (nada de espadas,
rancores, discórdias); que, ao fim, morreu na cruz, perseguido por seus
inimigos (nada de fugir do sacrifício, de não ser fiéis ao ideal; a Igreja era
mais fiel sendo mártir que aceitando inquisidores).
“Vinde benditos. Tomai posse do Reino”.
Jesus oferece três tipos de recompensa:
Primeiro, herdar o Reino dos céus; segundo, ver a Deus e chamar-se filho seu;
terceiro, e como conseqüência, conseguir o consolo, a misericórdia e a justiça.
Vivendo as Bem-aventuranças, o Reino
será nosso , segundo rezamos na Missa: “Nos reunimos a cerca de Ti, para
celebrar em teu Reino a grande festa do céu”; como Jesus, podemos chamar a Deus
“Pai”; nos damos conta de que é verdadeiro o que disse São João: “Olhai que
amor nos tem o Pai, que nos faz filhos de Deus”; como o salmista, gritamos:
“Minha alma tem sede de ti” e de tua justiça; copiando a Miguel Unamuno
(pensador espanhol): “Amor de Ti nos queima”; nos alegramos na expressão
bíblica: “Deus do consolo”.
Bem entendido que este Reino começa
aqui, nesta terra. Nada de droga. A fé é compromisso, não morfina.
Assim o pedimos na Prece Eucarística:
“Que tua Igreja seja um recinto verdadeiro, de liberdade, de justiça e
amor”.
Conrado Bueno Bueno
- www.coracaodemaria.org.br
Deles é o reino dos
Céus
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.» Sim, bem-aventurados aqueles que rejeitam os
fardos sem valor, mas cheios de peso, deste mundo; aqueles que não querem ser
ricos, a não ser pela posse do Criador do mundo, e só por Ele; aqueles que,
nada tendo, por Ele tudo possuem (2Cor 6,10). Pois tudo possuem estes que
possuem Aquele que tudo contém e de tudo dispõe, estes de quem Deus é a parte e
a herança (Nm. 18,20). «Nada falta aos que O temem» (Sl. 34,10): Deus dá-lhes
tudo o que sabe ser-lhes necessário; e dar-Se-lhes-á a Si mesmo um dia, para que
eles encontrem a alegria. [...] Glorifiquemo-nos, pois, meus irmãos, pelo fato
de sermos pobres por Cristo, e esforcemo-nos por ser humildes com Cristo. Pois
não há coisa mais detestável nem mais miserável que um pobre orgulhoso. [...]
«O reino de Deus não é uma questão de
comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rom 14, 17).
Se sentimos que temos tudo isto em nós, proclamemos com segurança que o reino
de Deus está dentro de nós (Lc. 17,21). Ora, aquilo que está dentro de nós pertence-nos
verdadeiramente; ninguém no-lo pode arrancar. É por isso que, quando proclama a
bem-aventurança dos pobres, o Senhor não diz: «deles será o reino dos Céus»,
mas: «deles é o reino dos Céus». E é deles, não apenas por um direito
firmemente estabelecido, mas também por um penhor inteiramente seguro, que já é
uma experiência da felicidade perfeita. E não apenas porque o reino foi
preparado para eles desde o começo do mundo (Mt. 25,34), mas também porque eles
já começaram a entrar na sua posse: eles já possuem o tesouro celeste em vasos
de barro (2Cor. 4,7), já trazem a Deus no seu corpo e no seu coração.
Beato Guerric de
Igny
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