O BATISMO DE JESUS
Domingo dia 15
SEGUNDO DOMINGO DO
TEMPO COMUM
Ano A
Primeira leitura Is
49,3-56
Salmo 40
Segunda leitura 1 cor
1,1-3
Evangelho Jo 1,29-34
O batismo de Jesus marca o início da
sua missão, o início da sua vida pública. Também na liturgia da Igreja hoje tem
início o tempo comum de cor verde.
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“EIS O CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO!”- Olivia
Coutinho.
2º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 15 Janeiro de 2017
Evangelho de Jo1,29-34
O mundo necessita urgentemente de pessoas que façam a diferença, de
homens e mulheres comprometidos com o evangelho, que assim como João Batista,
nos apontem algo novo, no sentido de suscitar sentimentos positivos nos
muitos corações desesperançados!
É grande a necessidade de profetas que devolva ao povo, a
esperança, a alegria de se sentirem amados por Deus, profetas que não se
curvam diante os inimigos, porque acreditam numa força Maior!
O evangelho que a liturgia deste Domingo nos convida a refletir,
narra o acontecimento que marcou a passagem do tempo de espera para o tempo
da realização das promessas de Deus. Com três afirmações, João Batista,
apresenta Jesus aos seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado
do mundo”; “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre
ele”; “Eu vi e dou testemunho, este é o Filho de Deus”.
“Eis o cordeiro de Deus...” João se refere a Jesus como Cordeiro,
porque como o cordeiro, que era sacrificado pelos pecados do povo, Jesus também
seria sacrificado pelos os pecados da humanidade.
Mesmo não tendo convivido diretamente com o Messias, João Batista
dá testemunho Dele, por acreditar nas promessas de Deus que o enviou para
anunciá-Lo! Ele não
somente anunciou a vinda do Messias, como também, preparou o caminho para a
entrada desta Luz num mundo envolto em trevas!
Este grande profeta que anunciou e apresentou o Messias ao povo,
desempenhou um papel importantíssimo na história da salvação, foi ele quem
convenceu o povo da necessidade de se converterem, abrindo assim, o
caminho para que Jesus pudesse entrar no coração humano e nele fazer sua
morada!
João Batista veio dar testemunho da Luz, foi ele quem preparou o
encontro do humano com o Divino! Foi a partir do seu testemunho, que Jesus foi
reconhecido pelo o povo como o Messias, o Filho de Deus que veio ao nosso
encontro!
Depois
de ser apresentado ao povo por João Batista, Jesus começa a formar a sua
primeira comunidade, um grupinho de doze pessoas que passou a conviver
diretamente com Ele fazendo parte do seu cotidiano, aprendendo a fazer o
que Ele fazia. É graças ao testemunho desta primeira comunidade cristã, que
conviveu diretamente com Jesus, que hoje, também nós, podemos viver e dar
testemunho de Jesus no meio em que vivemos.
João
Batista foi um grande exemplo de quem viveu exclusivamente a vontade de Deus,
ele não se acomodou nas tradições do seu povo, pelo contrário, ele buscou
algo novo, se fazendo anunciador das realizações das promessas de Deus,
anunciando um tempo de graça que traria um sentido novo para a humanidade corrompida
pelo pecado, uma humanidade que se distanciava da sua verdadeira origem.
Assim
como João Batista, nós também viemos a este mundo com uma missão: realizar a
vontade de Deus, dando testemunho de Jesus em qualquer circunstancia, pois é
com o nosso testemunho de fidelidade ao projeto de Deus, que apontamos Jesus ao
outro.
João
Batista não se intimidou diante os poderosos, nem mesmo na prisão, ele deixou
de anunciar o Messias, de chamar o povo à conversão.
A
sua cumplicidade com o projeto de Deus, o levou a experimentar a força dos dois
lados do coração humano: a força do amor que é capaz de resgatar vidas e a
força do ódio, capaz de levar a morte, como aconteceu com ele.
Tiraram
a vida de João Batista, mas não conseguiram calar a voz do profeta, voz, que
continua ressoando nos ouvidos de cada geração: “Convertei-vos e crede no
evangelho”. “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
E
nós, que recebemos o Espírito Santo no nosso Batismo, que conhecemos os
ensinamentos de Jesus, estamos dando testemunho Dele, como fez João Batista?
Estamos mostrando Jesus a aquele que ainda não o conhece?
Ao
Apresentar Jesus ao povo, João Batista, dá como encerrada a sua missão, naquele
momento ele sai de cena, deixando o “palco” livre para Jesus que é o centro de
tudo!
Colocar
Jesus como centralidade da nossa vida, como fez João Batista, é pensar, é
viver, é falar é mover-se em função do amor.
FIQUE NA PAZ
DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Chamados a ser
santos
A história da humanidade mostra que o
pecado cavou um abismo entre o Criador e a criatura. A humanidade por si só não
pode superar esse abismo. Para realizar o que era impossível ao ser humano,
Deus prometeu um redentor. Jesus revelou que essa promessa, renovada através
dos séculos, não se restringia apenas a Israel, mas almejava atingir a
humanidade inteira. Paulo afirma na segunda leitura que todos são “chamados a
ser santos” (1Cor. 1,2). Isso só é possível porque o “Cordeiro de Deus”, ou
seja, o consagrado por excelência, “tira o pecado do mundo”. Jesus associa cada
ser humano à sua própria vida como oferta ao Pai. O Deus santo e santificador
aceita, em Jesus, a consagração da vida de cada pessoa. Dessa forma, supera a
ruptura abissal entre Criador e criatura.
Evangelho (Jo
1,29-34)
Eis o Cordeiro de
Deus, que tira o pecado do mundo!
No evangelho de hoje, João dá
testemunho sobre Jesus Cristo, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
O batismo de Jesus apresenta-se como ocasião de sua manifestação a Israel.
O Antigo Testamento admite vários tipos
de sacrifícios. Quando o israelita ofertava a si mesmo por meio do sacrifício
de um cordeiro, acreditava que com esse rito entrava em comunhão com Deus. É
nesse sentido que o evangelho nomeia Jesus como o “Cordeiro de Deus”. A vida de
Jesus foi inteiramente consagrada ao Pai, pois sua existência terrena foi
vivida em obediência amorosa à vontade divina. O Filho amado de Deus tornou-se
humano para conduzir os seres humanos à amizade com Deus. Ele é o Cordeiro
porque destrói de uma vez por todas a inimizade entre o Criador e a criatura,
realizando entre ambos a comunhão plena.
Por seu batismo, prefiguração do
batismo cristão, Jesus é ungido pelo Espírito Santo, que o conduzirá em sua
missão. Esse mesmo Espírito que estava sobre Jesus é que foi dado aos cristãos.
Isso significa que, pelo batismo, somos associados a Cristo para viver nossa
consagração como oferta ao Pai. Quando a consagração batismal é assumida numa
verdadeira vida cristã, supera-se a ruptura entre o ser humano e seu criador.
1ª leitura (Is.
49,3.5-6)
Para que a salvação
chegue até a extremidade da terra
Esse texto da primeira leitura da
liturgia de hoje trata da missão universal do Servo de Deus.
Em primeiro lugar, no v. 3, o Servo é o
povo de Israel personificado em um indivíduo. Mas no v. 5 ele recebe a missão
de fazer Israel voltar a seu Deus e à Terra Prometida. Nesse caso, o texto se
refere a outra pessoa, geralmente identificada como o Messias. Segue-se o v. 6,
que afirma que não basta reconduzir Israel a Deus e à terra da promessa: o
Servo tem de ser luz para as nações. Ele deverá cumprir o desígnio divino e a
vocação de Israel, fazendo que os reis (os povos) adorem o Deus uno.
Os cristãos crêem que o povo de Israel
foi conduzido, por meio de uma série de acontecimentos históricos, até a
consumação da redenção na pessoa de Jesus Cristo. Jesus realizou a missão do
Servo, pois com Jesus a redenção foi estendida até os extremos da terra, ou
seja, a todos os povos.
2ª leitura (1Cor.
1,1-3)
Aos santificados em
Cristo Jesus
No v. 1, Paulo se identifica em
primeiro lugar como “apóstolo”, isto é, o “enviado”. Esse termo define sua
vocação e missão entre os gentios (os não judeus).
Em seguida, ao identificar os
destinatários da carta, Paulo utiliza o vocábulo “Igreja”, cujo significado é
“assembléia do povo congregado por Deus”. Por isso, os membros da Igreja são
santos e eleitos.
Ao considerar uma comunidade cristã
como povo de Deus, Paulo quer dizer que cada comunidade local condensa as
características do povo de Deus em seu sentido mais amplo. Assim, a Igreja de
Corinto é povo de Deus e grupo de santificados. Ou seja, é uma assembléia de
pessoas consagradas a Deus. Tal consagração é obra de Deus mesmo em cada membro
e na comunidade como tal. A santificação ou consagração das pessoas é realizada
por meio de Cristo Jesus. Somente a obra redentora de Cristo pode haurir a
santificação/consagração dos que formam a Igreja.
Pistas para reflexão
A ênfase da liturgia é a vocação para
uma vida de santidade, isto é, para uma vida ofertada a Deus. Mas a santidade,
em sentido cristão, é engajamento para transformação do mundo, e não uma busca
do extraordinário ou fuga da realidade. Pelo batismo, somos associados à
consagração (oferta) de Jesus e, à medida que o cristão consagra a própria vida
como oferta, orientando todas as suas atividades, sem exceção, ao cumprimento
da vontade do Pai, o pecado é tirado do mundo, ou seja, a rebeldia contra o
plano de Deus cede lugar ao Reino de justiça e paz.
Aíla Luzia Pinheiro
Andrade
A pertença da
comunidade cristã
A vocação da comunidade cristã é
testemunhar a alegria de pertencer a Jesus Cristo. Essa pertença é o sentido
íntimo da missão. Por isso a comunidade só é viva se consciente dessa sua
condição. De outra forma, correria o risco de se considerar autossuficiente e
cair na tentação do amor ao poder. Quem pertence a Jesus é guiado pelo poder do
amor. Esse é o poder que conta.
Quando João Batista testemunha que
Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1,29), ensina à
comunidade que seu Mestre é o homem da misericórdia, do perdão. Logo os
seguidores devem ter as mesmas atitudes do Mestre. Isso só pode ocorrer se
houver um encontro pessoal com ele. É preciso conhecer o amor para amar. A
comunidade ama quando conhece Jesus, o amor de Deus feito homem.
Quando João Batista testemunha que
Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, evoca a tradicional
imagem bíblica do servo sofredor. Jesus é o servo fiel. Ele assume os pecados
do seu povo, carrega nos ombros a dor de todo o mundo. Evoca também a imagem do
cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus, outrora em favor de
Israel e agora ligada à libertação de toda a humanidade.
Desse modo, a comunidade tem a
obrigação de saber quem é Jesus. Daí a necessidade da experiência do encontro verdadeiro
com ele. Esse encontro se dá por meio da oração. A comunidade cristã tem a
vocação de viver em contínua oração. Isso quer dizer que, mesmo nas ocupações e
correrias do dia a dia, a comunidade persevera na oração, fazendo o bem. É
justamente a bondade cristã que está presente no apelo do apóstolo Paulo em sua
clássica saudação às comunidades: “A graça e a paz de Deus nosso Pai e do
Senhor Jesus Cristo estejam convosco”.
A graça e a paz são distintivos da
comunidade cristã. Não é à toa que na liturgia eucarística, antes da comunhão,
quem preside reza pela paz e convida todos ao abraço. Além disso, por três
vezes, pelo menos, pede-se que o Cordeiro de Deus tire o pecado do mundo.
A comunidade cristã, portanto, tem a
missão de semear a bondade, o perdão, o amor. Ela é serva. Cristo é o modelo
por excelência. É nele que somos, nos movemos e existimos (At. 17,28). Dele,
por ele e para ele são todas as coisas (Rm. 11,36). Graça e paz a você!
padre Antonio
Iraildo Alves de Brito, ssp
A força do testemunho
O início da atividade pública de Jesus
é marcado pela presença de João Batista, o “precursor”, aquele que vem antes
para anunciar a chegada do Messias, um rei diferente que se faz batizar por
João.
O batismo de João se fazia apenas uma
vez, por imersão na água, para significar o desejo de uma mudança profunda de
vida. Este chamado à conversão, à mudança de mentalidade e de vida, preparava
para a chegada de Jesus, aquele que vinha batizar com o Espírito Santo.
E então João aponta Jesus como o
Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. O cordeiro era o animal que se
costumava sacrificar a Deus para que os pecados fossem perdoados. Agora o
Cordeiro que leva embora o pecado do mundo, aquilo que não é conforme ao
projeto de vida de Deus, é o próprio Filho.
Jesus é, de fato, aquele que nos tira
de uma história de pecado, condenação e morte ao nos mostrar que Deus é bondade
e graça e que seu amor consiste em servir e doar a própria vida. Em Jesus, Deus
deixa em segundo plano nossas faltas, para nos animar com o Espírito que
transforma e santifica.
O Espírito do batismo, aliás, é o
Espírito enviado por Deus que nos permite testemunhar hoje o amor maior de
Deus, manifestado em seu Filho, Jesus.
Diz o ditado: “As palavras convencem,
mas os exemplos arrastam”. Quão importante é hoje nosso testemunho de
seguidores desse Cordeiro-Servo. Olhando o testemunho de João, temos muito a
aprender: nunca conheceremos Jesus suficientemente. Mas abrir-nos ao seu
Espírito é dar espaço para que Deus aja em nós e, por meio de nós, continue se
manifestando ao mundo como amor que não tem fim.
Já não sacrificamos animais a Deus,
carregando-os com os nossos pecados. Mas há certamente uma carga bem pesada
jogada nos ombros dos sofredores, que somos chamados a aliviar com o testemunho
de quem segue o Mestre que, por amor, perdoa e se doa até o fim.
padre Paulo
Bazaglia, ssp
“Este é o Filho de Deus”
João Batista caminhou
na vida em função de Jesus. Pode ter mesmo acontecido que alguns de seus
contemporâneos tenham acreditado que ele fosse o Messias. Há todo um cuidado
dos evangelistas em mostrar que João não é a realização das profecias. No meio
do povo, dirá João, está aquele que é o esperado das nações.
O Batista viu que
Jesus chegava. Procurou delinear diante de todos traços do perfil do Messias:
“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
Conhecemos essa frase
que sempre nos toca. No momento da comunhão da missa, escutamos o celebrante
pronunciá-la e ela penetra nosso interior.
Isaías, na primeira
leitura, fala de um personagem chamado de servo. “O Senhor me disse: Tu és o
meu servo, Israel, em quem serei glorificado”. Esse personagem misterioso era o
povo tomado em sua totalidade. Aos poucos, porém, essa figura foi se individualizando.
Jesus era o
verdadeiro servo de Javé que haveria de ser luz do mundo e dar a sua vida pelo
povo. “Não basta seres meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir
os remanescentes de Israel: eu te farei a luz das nações, para que minha
salvação chegue até os confins da terra”.
João afirma que esse
veio depois dele e o passou. Ele existia antes de João. “Depois de mim vem um
homem que passou à minha frente porque existia antes de mim.
João viveu um tempo
no ocultamento do deserto, na vida recolhida e reclusa. Ele não conhecia a
Messias. “Eu não o conhecia, mas se vim batizar com água, foi para que ele
fosse manifestado a Isarael”.
Esse Jesus, o Servo
de Javé, se apresenta a João. Vem no meio dos pecadores. Associa-se ao cortejo
dos que reconhecem seu pecado, sem ser pecador. E o Batista declara com toda
solenidade: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu e permanecer sobre
ele”. Jesus é o ungido, aquele que recebe o Espírito. Ele é o Cristo, o ungido.
Finalmente, o
evangelista João coloca nos lábios do Batista a profissão de fé mais radical:
“Eu vi e dou testemunho: esse é o Filho de Deus”. Sim, por detrás desse homem,
desse que vai na direção das águas, desse que tem o Espírito está o Filho de
Deus. O Menino das Palhas é a presença de Deus na teia humana. A segunda pessoa
da Trindade, o Verbo que existe desde toda a eternidade é o Filho de Deus. Esse
que veio nos trazer luz vem também ser portador da vida. Os cristãos sabem que
esse é desejado das colinas eternas que agora, a partir de seu batismo, vai ser
o grande libertador. Mas sobretudo ele é o Filho de Deus.
O servo glorifica o
Pai.
frei Almir Ribeiro Guimarães
Vocação de Filhos
de Deus
Os domingos do tempo comum seguem, em
grandes linhas, os passos da vida pública de Jesus, desde seu batismo por João
(Batismo do Senhor, fim do tempo de Natal) até o conflito final em Jerusalém e
o anúncio do Último Juízo. Em regra, segue-se a leitura contínua do evangelho
de Mt. Hoje, porém, é intercalado um trecho de Jo (que normalmente não é lido
no tempo comum).
Na festa do Batismo do Senhor figurou o
relato mateano deste fato. Hoje, o evangelho traz como que a “interpretação”por
Jo do mesmo fato (Jo. 1,29-34). Enquanto Mt. conta o acontecimento sob o ângulo
do cumprimento da vontade de Deus, Jo. o considera sob o ângulo da revelação:
João Batista veio para que o “Cordeiro de Deus” seja conhecido por Israel (Jo é
o evangelho da manifestação de Deus em Jesus Cristo e atribui ao Batista o
papel de testemunha; cf. Jo 1,6-8.15; cf. v. 34).
No testemunho do Batista segundo Jo
podemos destacar dois elementos: 1) A antítese”batizar com água” – “batizar com
o Espírito Santo” (cf. Mt3, 11 = Mc 1,7-8 Lc 3,16). Mas, enquanto para os
evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc) isso significa que em Jesus vem até nós o
batismo escatológico (“em espírito santo e fogo”; Mt 3,11), Jo reinterpreta
isso a partir de sua experiência eclesial: desde a morte e ressurreição de
Cristo, a Igreja é guiada por seu Espírito. Cristo é aquele que dá o Espírito
como dom permanente: o espírito desce sobre Jesus e permanece. 2) 0 evangelho
de Jo atribui a Jesus o título bem particular de Cordeiro de Deus. É uma alusão
ao Servo de Deus, que, tal um cordeiro, não abre a boca e dá sua vida em prol
dos seus irmãos. Mas isso parece relacionar-se com o cordeiro pascal e com o
dom do Espírito (cf. os cânticos do Servo de Deus, esp. Is 42,1). Pois tirar o
pecado do mundo é precisamente o legado que Jesus, com o dom do Espírito, deixa
aos seus quando de sua ressurreição (Jo 20,19-23; cf. Pentecostes).
É nesta perspectiva que devemos ler a
1ª leitura, o 2° Canto do Servo de Deus (Is 49,3.5-6). Ele é chamado, desde o
seio de sua mãe, para reerguer Israel e – conforme a teologia específica do
Segundo Isaías – ser uma luz diante das nações, no meio dos quais o povo vivia
disperso. O Servo é também o protótipo veterotestamentário do “Filho” de Deus,
como Jesus é proclamado na hora de seu batismo. O salmo responsorial mostra a
prontidão do justo para assumir o chamamento do Senhor.
A 2ª leitura se une às duas outras
mediante o tema da vocação – vocação de Paulo como apóstolo, vocação dos fiéis
de Corinto (e de toda a Igreja) à santidade. Toda vocação participa da vocação
que Deus suscitou nos seus “filhos”, desde antigamente; participa,
especialmente e de maneira incomparável, da vocação de Cristo.
A oração do dia reza por todos os que
se empenham pela justiça de Deus, os “servos” e “filhos” de Deus, pois o tema
de hoje é a vocação a ser filho de Deus, conforme o modelo de Jesus Cristo,
proclamado tal na ocasião de seu batismo. A nossa vocação é uma participação na
do Cristo, mediante o Espírito que permanece nele e nos faz permanecer nele,
para que nós, como novos servos de Deus, tiremos de todos os modos possíveis o
pecado do mundo, empenhando-nos pela justiça de Deus. A oração final pede que
este Espírito, dom permanente de Cristo, nos faça viver unidos no amor do Pai.
Johan Konings
"Liturgia dominical"
Testemunho de João
Com o fim do Tempo do Natal, inicia-se
um novo Tempo do Ano Litúrgico que narra a vida de Jesus. Nota-se que o Tempo
Comum inicia-se a partir do Segundo Domingo, e isso se dá pelo fato de o
Primeiro Domingo ser substituído pela Festa do Batismo do Senhor.
João Batista após aceitar batizar
Jesus, O apresenta à multidão: “Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do
mundo”. Ele apresenta ao mesmo tempo, um Jesus Servo Sofredor, que vem cumprir
docilmente a vontade do Pai, que carrega todo o pecado dos homens. É o Cordeiro
Pascal, símbolo da libertação de Israel por ocasião da primeira Páscoa.
A palavra Cordeiro, com referência à
Jesus, tem significados importantes como mansidão, pureza e inocência,
satisfação de sacrifício e oferenda.
Todo israelita conhecia bem o texto em
que o profeta Isaías comparava os sofrimentos do “Servo de Javé”, o Messias, ao
sacrifício de um cordeiro (Is 53,7). Todos eles sabiam também o significado do
cordeiro pascal cujo sangue foi derramado na noite em que os judeus tinham sido
libertados da escravidão do Egito. O cordeiro pascal que, a partir dessa
ocasião, era sacrificado no Templo significava a libertação e a aliança que
Deus tinha feito com o seu povo escolhido: a promessa do verdadeiro Cordeiro
que se sacrificaria para a salvação de muitos.
A profecia de Isaías é, pois,
concretizada no Calvário. Como um Cordeiro, manso e humilde, Jesus veio cumprir
a vontade do Pai, limpar os pecados e conduzir ao caminho do Reino do Céu todo
aquele que Nele crer.
“A morte de Jesus é, ao mesmo tempo, o
sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens pelo “Cordeiro
que tira o pecado do mundo” e o sacrifício da Nova Aliança, que reconduz o
homem à comunhão com Deus.”
O Evangelho se refere à missão de
Jesus, que vem do Pai e se realiza na comunidade que está em comunhão com Ele
que a santifica e a capacita para o testemunho.
Pequeninos do
Senhor
O Messias
reconhecido
A atividade frenética do Batista, às
margens do Jordão, não o fez perder a consciência de sua missão. No afluxo de
penitentes à procura do batismo, ele se deu conta da presença do Messias Jesus.
Por isso, advertiu a multidão para a presença do Cordeiro de Deus, enviado para
abolir o pecado do mundo.
A situação do batismo de Jesus estava
carregada de evocações. Sua exclamação lembrava o cordeiro pascal. As águas do
Jordão recordavam o mar Vermelho. A eliminação do pecado do mundo aproximava
Jesus de Moisés, condutor do povo de Israel para a terra prometida. Tudo isso
servia para alertar a multidão acerca da presença do Messias.
João só reconheceu Jesus, por que
movido pelo Pai, uma vez que já tinha declarado, por duas vezes, não ter um
conhecimento prévio do Messias. Para não se enganar na identificação do
Messias, João colocou-se numa atitude de contínuo discernimento. Teria sido
desastroso um falso reconhecimento e a conseqüente atribuição do título de
Cordeiro de Deus à pessoa indevida. João, ao contrário, não titubeou quando viu
Jesus diante de si. Seu testemunho foi firme, pois estava certo de não ter sido
induzido ao erro. Diante dele, estava, realmente, o Filho de Deus. Foi o Pai
quem lhe revelara a identidade do Filho, e o movera a reconhecê-lo
publicamente.
padre Jaldemir
Vitório
O Servo escolhido por Deus
O livro do profeta
Isaías abrange um período de quase três séculos. Convenhamos que o profeta do
século VIII não viveu tanto tempo assim. Certamente, há uma longa tradição
literária que subjaz ao livro que leva o nome do profeta. O texto de Isaías
proposto para este domingo faz parte do que se convencionou chamar
Dêutero-Isaías, que, normalmente, retrata fatos do período do exílio, na
Babilônia. É parte de um dos cânticos do “servo sofredor”. Num enorme esforço
apologético, os cristãos encontraram em textos como esse o apoio para
justificarem, ante a oposição dos judeus, a paixão e morte daquele que eles
professavam como Messias. Na releitura cristã deste texto, a personalidade
coletiva, Israel, passa a ser um indivíduo, reconhecido como Messias, Jesus. Ele
é o servo escolhido por Deus.
O tema do testemunho
de João Batista sobre Jesus já está antecipado no prólogo do quarto evangelho
(cf. Jo 1,15). O “dia seguinte” (v. 29) refere-se a Jo. 1,19-28, episódio em
que João é submetido a um verdadeiro interrogatório por parte dos sacerdotes e
levitas, enviados pelos judeus de Jerusalém. Esse interrogatório serve ao
leitor do evangelho para esclarecer que João não é o Cristo (cf. Jo 1,20). A
declaração de João continua ao apontar Jesus como o “cordeiro de Deus” (cf. Jo.
1,29). Essa é a única ocorrência, no Novo Testamento, do título cristológico
atribuído a Jesus. Trata-se de um título carregado de evocações
veterotestamentárias: pode evocar o “servo sofredor” (Is. 53,7) e/ou o cordeiro
pascal cujo sangue aspergido nas portas das casas livraram os hebreus das
pragas do Egito (cf. Ex. 12,1ss), aspecto que recorre em Jo. 19,14.31-36; pode
ainda ligar-se a Ap. 17,14, em que o Cordeiro imolado é apresentado como
vitorioso. O “cordeiro de Deus” é aquele a quem a missão de João Batista está
subordinada (cf. Jo. 1,30-31). O reconhecimento do Filho de Deus se dá por uma
“visão” (cf. Jo. 1,32-34), entenda-se, por revelação, por uma experiência
interna e pessoal de Deus. O critério do reconhecimento é a inabitação do
Espírito em Jesus. Essa visão em que o Espírito Santo é tangível na pessoa de
Jesus faz com que João declare a filiação divina do Nazareno (cf. Jo. 1,34).
(ver 3 de janeiro)
Carlos Alberto Contieri, sj
Jesus é apresentado como Filho de Deus
No evangelho de João
não encontramos a narrativa do batismo de Jesus. Tal referência limita-se ao
testemunho de João Batista: "Eu vi o Espírito descer do céu. e permanecer
sobre ele. é ele quem batiza com o Espírito Santo.
Eu vi. e dou
testemunho: ele é o Filho de Deus!". Ao escrever seu evangelho, João faz
dois relatos teológicos básicos: da preexistência e da filiação divina de
Jesus. Estes dois temas, presentes no Prólogo (Jo. 1,1-18), reaparecem aqui, na
fala de João Batista: "antes de mim ele já existia", " ele é o
Filho de Deus"; e, ao longo do evangelho, desenvolvem-se na seguinte linha
dinâmica: o Filho, descido do céu, se faz carne, vive conosco e volta ao Pai,
abrindo caminho para nosso ingresso na casa de Deus.
Em todo o evangelho,
Jesus é apresentado como Filho de Deus, não como filho de Davi. A alusão ao
"cordeiro de Deus", quando João Batista apresenta Jesus, remete ao
cordeiro sacrifical abundantemente mencionado em Levítico, e também em Isaías
53,7, no quarto canto do Servo. Vê-se aí a prefiguração simbólica da morte de
Jesus, inocente, nas mãos dos sacerdotes que procuram preservar o poder. O
próprio João afirma que não conhecia Jesus. Porém, com o seu batismo na água,
simbolizando o apelo em favor da conversão à prática da justiça que supera o
pecado, abria caminho para Jesus, que com seu Espírito liberta a todos da
morte, dando acesso às portas da vida eterna em Deus. O Espírito sobre Jesus é
a confirmação da sua divindade e da divinização de toda a humanidade nele
assumida, em todos seus valores e em toda sua dignidade, pela própria
humanidade de Jesus.
Este é o sentido da
encarnação: assumir os valores humanos, resgatando a dignidade humana e
elevando-a à condição de filiação divina. Nesse sentido, Jesus assume o batismo
de João. Os evangelistas, em seus evangelhos, procuram projetar a figura de
Jesus a partir das exaltações atribuídas a João Batista: "Vem aquele que é
mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das
sandálias". Com isso procuravam, em seu tempo, atrair os discípulos de
João Batista, que seguiam de maneira autônoma ao movimento de Jesus.
Com bastante certeza,
pode-se entender que João Batista não tinha percepção da profundidade da missão
de Jesus, o que os próprios discípulos de Jesus tiveram, também, dificuldade de
entender até o fim de seu ministério. João Batista tem uma atuação fundamental
no projeto de Deus realizado em Jesus. O seu batismo tinha características
originais, e sua proclamação foi tão marcante que o tornou conhecido como
"o Batista". Enquanto as abluções rituais de purificação com água,
tradicionais entre os judeus, eram repetidas com frequência, o mergulho nas
águas do batismo, com João, era feito uma única vez e tinha o sentido de
sinalizar uma mudança de vida, para um compromisso perene com a prática da justiça
que remove o pecado e fortalece a vida. Jesus assume a proclamação de João
dando-lhe novo sentido de atualidade e eternidade, identificando-a com o
projeto de Deus de conferir vida plena e eterna à humanidade. A libertação dos
pecados não se dá pelos sacrifícios cultuais sangrentos, mas pelo amor e pela
prática da justiça, para que todos tenham vida plenamente.
José Raimundo Oliva
Na segunda-feira passada, entramos no
tempo comum. Hoje, com este domingo, estamos iniciando a segunda semana desse Tempo
verde; verde de quem caminha no pequeno dia-a-dia cheio de esperança, porque
sabe que o Filho de Deus veio habitar entre nós, entrou nos nossos tempos para
santificar os pequenos e aparentemente insignificantes momentos de nossa vida:
“O Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo. 1,14). Para nós, nunca
mais o tempo, a vida e a história humana serão a mesma coisa! Agora, tudo tem o
gosto da presença de Deus, nossos tempos têm sabor de eternidade, gostinho da
vida de Deus, do companheirismo misericordioso de Deus. Então, que este Tempo
Comum seja, para todos quantos, tempo de graça, tempo de vigilância amorosa,
tempo de esperança invencível!
Neste segundo domingo comum, a Palavra
de Deus ainda nos liga ao Batismo do Senhor, celebrado no domingo passado.
Recordemo-nos do que vimos na Festa que encerrou o santo tempo do Natal: Jesus
foi batizado por João Batista e ungido pelo Pai com o Espírito Santo como
Messias de Israel: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu
bem-querer!” (Mt. 3,17). Recordemos que o Pai lhe revelou o caminho pelo qual
ele deveria passar para cumprir sua missão: o caminho do Servo Sofredor de
Isaías, pobre e humilde: “Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz
ouvir pelas ruas”. Servo manso e misericordioso: “Não quebra a cana
rachada nem apaga o pavio que ainda fumega”. Servo perseverante no serviço de
Deus: “Não esmorecerá nem se deixará abater”. Servo que será redenção para o
povo de Israel e para todas as nações, dando-lhes a luz, o perdão e a paz: “Eu
o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te
constitui como aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos aos
cegos, tirar os cativos das prisões, livrar do cárcere os que viviam nas
trevas!” (Is. 42,2-4.6-7)
Pois bem, o Evangelho de hoje aprofunda
ainda mais este quadro impressionante, que nos revela a missão de Cristo
Jesus: “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo!” Em aramaico, língua que João e Jesus falavam,
“cordeiro” diz-se talya, que significa, ao mesmo tempo “servo” e “cordeiro”.
Então, “eis o Cordeiro-Servo de Deus, que tira o pecado do mundo!” Mas, que
Cordeiro? Aquele, expiatório, que segundo Levítico 14, era mandado para o
deserto, colocado fora da cidade, carregando os pecados de Israel… Como Jesus
que “para santificar o povo por seu próprio sangue, sofreu do lado de fora
da porta” (Hb. 13,12) de Jerusalém, como um rejeitado, um condenado renegado.
Repitamos a pergunta: Que Cordeiro? Aquele cordeiro pascal de Ex 12, cujos
ossos não poderiam ser quebrados (cf. Jo 19,36); cordeiro comido como aliança
de Deus com Israel! Que cordeiro? – insistamos na pergunta! Aquele, cujo
sangue, aspergido sobre o povo, selará a nova e eterna aliança entre Deus e o
povo santo (cf. Ex. 24,8; Mt. 26,27). Jesus é esse Cordeiro de Deus, que tira o
pecado do mundo, tomando-o sobre si! E que Servo? O Servo sofredor anunciado
pelo Profeta Isaías. Já ouvimos falar dele no Domingo passado; fala-nos dele
novamente a Liturgia deste Domingo hodierno: Servo predestinado desde o
nascimento: o Senhor “me preparou desde o nascimento para ser seu Servo”;
Servo destinado a recuperar e salvar Israel: “que eu recupere Jacó para
ele e faça Israel unir-se a ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória”;
Servo destinado não só a Israel, mas a todas as nações: “Não basta seres
meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de
Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue aos confins
da terra”. Eis, portanto, quem é o nosso Jesus: o Cordeiro, o Servo! Nele,
feito homem, nele, sofrido como nós, nele, morto e ressuscitado, no seu corpo
macerado e transfigurado em glória, Deus reuniu e formou um novo povo, o
verdadeiro Israel, a Igreja – esta que aqui está reunida em torno do altar e
esta mesma, reunida em toda a terra e, como diz são Paulo hoje,“em qualquer
lugar” onde o nome do Senhor Jesus é invocado! Eis: este povo que Cristo veio
reunir, esta Igreja que o Senhor veio formar somos nós, já santificados no
Batismo e chamados a ser santos por nosso procedimento, por nosso seguimento ao
Senhor!
João reconheceu em Jesus este Messias,
tão humilde e tão grande: ele é o próprio Deus: “passou à minha frente
porque existia antes de mim!” E como Deus feito homem, ele é o único e absoluto
Salvador de todos – e não há salvação sem ele ou fora dele! João reconhece nele
o ungido, aquele sobre quem o Espírito “desceu e permaneceu”. O próprio Jesus
dará testemunho desta realidade: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim,
porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a
remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a
liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc.
4,18-19). João reconhece nele ainda aquele que, cheio do Espírito Santo,
batizará no Espírito Santo:“Aquele sobre quem vires o Espírito descer e
permanecer, este é o que batiza com o Espírito Santo”. Batizando-nos no
Espírito, este Santíssimo Jesus-Messias dá-nos o perdão dos pecados, a sua
própria vida divina e a graça de, um dia, ressuscitar dos mortos!
Enfim, João dá testemunho de que esse
Jesus bendito é mais que um Servo, mais que um Cordeiro, mais que um Profeta:
ele é o Filho de Deus: “Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”
Que mais dizer, ante um Messias tão
humilde e tão grande? “Senhor Jesus Cristo, Santo Messias, Servo e Cordeiro de
Deus, cremos em ti, a ti seguimos, em ti colocamos nossa vida e nossa morte!
Sustenta-nos, pois em ti esperamos: tu és o sentido de nossa existência, a
razão de nossa vida e o rumo da nossa estrada! Queremos seguir-te, a ti, tão
pequeno e tão grande; queremos morrer contigo e contigo ressuscitar-nos para a
vida eterna; queremos ser testemunhas do Reino do Pai que plantaste com tua bendita
vinda. Senhor Jesus, a ti amamos, em ti esperamos, em ti vivemos! Sê bendito
para sempre. Amém”.
dom Henrique Soares
da Costa
A liturgia deste domingo coloca a questão da
vocação; e convida-nos a situá-la no contexto do projeto de Deus para os homens
e para o mundo. Deus tem um projeto de vida plena para oferecer aos homens; e
elege pessoas para serem testemunhas desse projeto na história e no tempo.
A primeira leitura apresenta-nos uma
personagem misteriosa – Servo de Jahwéh – a quem Deus elegeu desde o seio
materno, para que fosse um sinal no mundo e levasse aos povos de toda a terra a
Boa Nova do projeto libertador de Deus.
A segunda leitura apresenta-nos um
“chamado” (Paulo) a recordar aos cristãos da cidade grega de Corinto que todos
eles são “chamados à santidade” – isto é, são chamados por Deus a viver
realmente comprometidos com os valores do Reino.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, “o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Ele é o Deus que veio ao nosso
encontro, investido de uma missão pelo Pai; e essa missão consiste em libertar
os homens do “pecado” que oprime e não deixa ter acesso à vida plena.
1º leitura: Is.
49,3.5-6 - AMBIENTE
O Deutero-Isaías (o autor do texto que
nos é hoje proposto e que mais uma vez nos aparece como veículo da Palavra de
Deus) é um profeta da época do exílio, que desenvolveu o seu ministério na
Babilônia, entre os exilados (como, aliás, já dissemos no passado domingo). A
sua mensagem – de consolação e de esperança – aparece nos capítulos 40-55 do
Livro de Isaías.
Contudo, há nesses capítulos quatro
textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que se distinguem – quer
em termos literários, quer em termos temáticos – do resto da mensagem… São os
quatro cânticos do Servo de Jahwéh. Apresentam um misterioso servo de Deus, a
quem Jahwéh confiou uma missão. A missão do Servo cumpre-se no sofrimento e no
meio das perseguições; mas do sofrimento do Servo resultará a redenção para o
Povo. No fim, o Servo será recompensado por Jahwéh e será exaltado.
A primeira leitura de hoje propõe-nos
parte do segundo cântico do Servo de Jahwéh. Aqui, esse Servo é explicitamente
identificado com Israel (embora alguns autores suponham que a determinação
“Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma
interpretação): seria a figura do Povo de Deus, chamado a ser testemunha de
Jahwéh no meio dos outros povos.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta-se como uma
declaração solene do Servo (Israel) “às ilhas” e “às cidades longínquas” (v.
1).
Na sua declaração, o Servo manifesta,
em primeiro lugar, a consciência da eleição: ele foi escolhido por Deus desde o
seio materno (vs. 5a.b). A expressão põe em relevo a origem de toda a vocação
profética: é Deus que escolhe, que chama, que envia. Referindo-se a Israel, a
expressão faz alusão às origens do Povo, à eleição e à aliança: Israel existe
porque Deus o escolheu entre todos os povos, revelou-lhe o seu rosto,
constituiu-o como Povo, libertou-o da escravidão, conduziu-o através do deserto
e estabeleceu com ele uma relação especial de comunhão e de aliança.
A eleição e a aliança pressupõem,
contudo, a missão e o testemunho. A missão deste Servo a quem Deus chamou é, em
primeiro lugar, “reconduzir Jacob e reunir Israel” a Jahwéh (vs. 5c.d). Aqui
faz-se referência, provavelmente, ao regresso do Povo à órbita da aliança
(considerada rompida pelo pecado do Povo), à reunião de todos os exilados e ao
regresso à Terra Prometida.
A missão do Servo é, depois, ampliada
“às nações” (v. 6): Israel deve dar testemunho da salvação de Deus, de forma a
que a proposta salvadora e libertadora chegue, por intermédio do Servo/Povo aos
homens e mulheres de toda a terra. Não deixa de impressionar a grandiosidade da
missão confiada, em contraste com a situação de opressão, de apagamento, de
fragilidade em que vivem os exilados… Aqui afirma-se o jeito de Deus, que age
no mundo, salva e liberta recorrendo a instrumentos frágeis e indignos.
ATUALIZAÇÃO
• A leitura propõe à nossa reflexão
esse tema sempre pessoal, mas sempre enigmático que é a vocação. Somos
convidados, na sequência, a tomar consciência da vocação a que somos chamados e
das suas implicações. Não se trata de uma questão que apenas atinge e empenha
algumas pessoas especiais, com um lugar à parte na comunidade eclesial (os
padres, as freiras…); mas trata-se de um desafio que Deus faz a cada um dos
seus filhos, que a todos implica e que a todos empenha.
• A figura do Servo de Jahwéh
convida-nos, em primeiro lugar, a tomar consciência de que na origem da vocação
está Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada um uma missão. A
nossa vocação é sempre algo que tem origem em Deus e que só se entende à luz de
Deus. Temos consciência de que somos escolhidos por Deus desde o seio materno,
isto é, desde o primeiro instante da nossa existência? Temos consciência de que
é Deus que alimenta a nossa vocação e o nosso compromisso no mundo? Temos
consciência de que só a partir de Deus a nossa vocação faz sentido e o nosso
empenhamento se entende? Temos consciência de que a vocação implica uma relação
de comunhão, de intimidade, de proximidade com Deus?
• A vocação não se esgota, contudo, na
aproximação do homem a Deus, mas é sempre em ordem a um testemunho e a uma
intervenção no mundo (mesmo que se trate de uma vocação contemplativa). O homem
chamado por Deus é sempre um homem que testemunha e que é um sinal vivo de
Deus, dos seus valores e das suas propostas diante dos outros homens. Sinto que
a minha vocação se realiza no testemunho da salvação e da libertação de Deus
aos meus irmãos? A vocação a que Deus me chama leva-me a ser uma luz de
esperança no mundo? A salvação de Deus atinge o mundo e torna-se uma realidade
concreta no meu testemunho e no meu ministério?
• Ao refletirmos na lógica da vocação,
é preciso estarmos cientes de que toda a vocação tem origem em Deus, é
alimentada por Deus, e de que Deus se serve, muitas vezes, da nossa
fragilidade, caducidade e indignidade para atuar no mundo. Aquilo que fazemos
de bom e de bonito não resulta, portanto, das nossas forças ou das nossas
qualidades, mas de Deus. O coração do profeta não tem, portanto, qualquer razão
para se encher de orgulho, de vaidade e de auto-suficiência: convém ter
consciência de que por detrás de tudo está Deus, e que só Deus é capaz de
transformar o mundo, a partir dos nossos pobres gestos e das nossas frágeis
forças.
2º leitura: 1Cor.
1,1-3 - AMBIENTE
Nos próximos seis domingos, a liturgia
vai propor-nos a leitura da primeira carta de Paulo aos cristãos da comunidade
de Corinto. Para entendermos cabalmente a mensagem, convém determo-nos um pouco
sobre o ambiente em que o texto nos situa.
No decurso da sua segunda viagem
missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia,
e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At. 18,2-4, Paulo
começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos.
No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e
Timóteo (2 Cor 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do
Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da
sinagoga.
Corinto era uma cidade nova e muito
próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas
das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era
a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o
Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a
cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram
escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo,
nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade
eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Cor 11,26-29;
8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At.
18,8; 1Cor. 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era
viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente
corrupto: moral dissoluta (cf. 1Cor. 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas
(cf. 1Cor. 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se
introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Cor.
1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e
vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Na comunidade
de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente
hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em
profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.
MENSAGEM
Paulo começa esta carta com a saudação
e a ação de graças, típicas das cartas paulinas. Na saudação, carregada de
conteúdo teológico, Paulo reivindica a sua condição de escolhido por Deus (de
apóstolo), sugerindo que está revestido de autoridade para proclamar com plena
garantia o Evangelho. Esta reivindicação sugere que, no contexto coríntio,
havia quem punha em causa a sua autoridade apostólica e o seu testemunho. Os
destinatários da carta são, evidentemente, os membros da comunidade cristã de
Corinto; no entanto, a mensagem serve para os cristãos de todas as épocas e de
todas as latitudes.
Neste parágrafo inicial, o vocábulo
chamado assume um lugar especial: Paulo foi chamado por Deus a ser apóstolo e
os coríntios são uma comunidade de chamados à santidade. Transparece aqui, como
na primeira leitura, a convicção de que Deus tem um projeto para os homens e
para o mundo e que todos – quer Paulo, quer os cristãos de Corinto, são
chamados a um compromisso efetivo com esse projeto.
O que é que significa ser chamado à
santidade? No contexto paulino, os santos são todos aqueles que acolheram a
proposta libertadora de Jesus e aceitaram os valores do Evangelho. Os “santos”
são os “separados”: os coríntios são “santos” porque, ao aceitar a proposta de
Jesus, escolheram viver “separados” do mundo. “Separados” não significa
“alheados”; mas significa viver de acordo com valores e esquemas diferentes dos
valores e esquemas consagrados pelo mundo.
A palavra “klêtos” (“chamado”), aqui
usada, supõe Deus como sujeito: foi Deus que chamou Paulo; é Deus que chama os
coríntios. Mais uma vez fica claro que o chamamento provém da iniciativa divina
e que só se compreende a partir de Deus e à luz da ação de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Deus chama os homens e as mulheres à
santidade. Tenho consciência do apelo que Deus, nesta linha, me faz também a
mim? Estou disponível e bem disposto para aceitar esse desafio?
• Realizar a vocação à santidade não
implica seguir caminhos impossíveis de ascese, de privação, de sacrifício; mas
significa, sobretudo, acolher a proposta libertadora que Deus oferece em Jesus
e viver de acordo com os valores do Reino. É dessa forma que concretizo a minha
vocação à santidade? Tenho a coragem de viver e de testemunhar, com radicalidade,
os valores do Evangelho, mesmo quando a moda, o orgulho, a preguiça, os
interesses financeiros, o “politicamente correto”, a opinião dominante me
impõem outras perspectivas?
• Convém ter sempre presente que a
Igreja, a comunidade dos “chamados à santidade”, é constituída por “todos os
que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. É
importante termos consciência de que, para além da cor da pele, das diferenças
sociais, das distâncias sociais ou culturais, das perspectivas diferentes sobre
as questões secundárias da vivência da religião, o essencial é aquilo que nos
une e nos faz irmãos: Jesus Cristo e o reconhecimento de que Ele é o Senhor que
nos conduz pela história e nos oferece a salvação.
Evangelho: Jo 1,29-34
- AMBIENTE
A perícope que nos é proposta integra a
secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com
consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento
cênico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar
Jesus. Um a um, os atores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações
carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta
destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que
possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem
Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista, o profeta/precursor do
Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu
testemunho aparece no início e no fim da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele
vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens. Ao não assinalar-se o
auditório, sugere-se que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens de
todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.
MENSAGEM
João é, portanto, o apresentador
oficial de Jesus. De que forma e em que termos o vai apresentar?
A catequese sobre Jesus que aqui é
feita expressa-se através de duas afirmações com um profundo impacto teológico:
Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que
possui a plenitude do Espírito.
A primeira afirmação (“o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo” – Jo 1,29) evoca, provavelmente, duas imagens
tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo
sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu
Povo e realiza a expiação (cf. Is. 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem
do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (cf.
Ex. 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está
ligada à libertação dos homens.
A ideia é, aliás, explicitada pela
definição da missão de Jesus: Ele veio para tirar (“eliminar”) “o pecado do
mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados”
dos homens, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse
“pecado” parece ter a ver, no contexto da catequese joânica, com a recusa da
proposta de vida com que Deus, desde sempre, quis presentear a humanidade (é
dessa recusa que resulta o pecado histórico, que desfeia o mundo e que oprime
os homens). O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à
salvação, reduzida à escravidão e que recusa a luz/vida que Jesus lhe pretende
oferecer… Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que
esta se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo
êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A segunda afirmação (o “Filho de Deus”
que possui a plenitude do Espírito Santo e que batiza no Espírito – cf. Jo
1,32-34) completa a anterior. Há aqui vários elementos bem sugestivos: o
“cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por
missão baptizar os homens no Espírito.
Dizer que Jesus é o Filho de Deus é
dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro dos homens, que
monta a sua tenda no meio dos homens, a fim de lhes oferecer a plenitude da
vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que torna o homem
escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.
Dizer que o Espírito desce sobre Jesus
e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da
vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do
Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” =
“ungido”). O quadro leva-nos aos textos do Deutero-Isaías, onde o “Servo”
aparece como o eleito de Jahwéh, sobre quem Deus derramou o seu Espírito (cf.
Is. 42,1), a quem ungiu e a quem enviou para “anunciar a Boa Nova aos pobres,
para curar os corações destroçados, para proclamar a libertação aos cativos,
para anunciar aos prisioneiros a liberdade” (Is. 61,1-2).
Jesus é, finalmente, aquele que batiza
no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas
traduções: “submergir” e “empapar (como a chuva empapa a terra)”; refere-se, em
qualquer caso, a um contacto total entre a água e o sujeito. “Batizar no
Espírito” significa, portanto, um contacto total entre o Espírito e o homem,
uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e lhe empapa o coração. A missão de
Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre o homem; e o homem que
adere a Jesus, “empapado” do Espírito e transformado por essa fonte de vida que
é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança o seu
pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.
A declaração de João convida os homens
de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e a acolherem a proposta libertadora
que, em nome de Deus, Ele faz: só a partir do encontro com Jesus será possível
chegar à vida plena, à meta final do Homem Novo.
ATUALIZAÇÃO
• Em primeiro lugar, importa termos
consciência de que Deus tem um projeto de salvação para o mundo e para os
homens. A história humana não é, portanto, uma história de fracasso, de
caminhada sem sentido para um beco sem saída; mas é uma história onde é preciso
ver Deus a conduzir o homem pela mão e a apontar-lhe, em cada curva do caminho,
a realidade feliz do novo céu e da nova terra. É verdade que, em certos
momentos da história, parecem erguer-se muros intransponíveis que nos impedem
de contemplar com esperança os horizontes finais da caminhada humana; mas a
consciência da presença salvadora e amorosa de Deus na história deve
animar-nos, dar-nos confiança e acender nos nossos olhos e no nosso coração a
certeza da vida plena e da vitória final de Deus.
• Jesus não foi mais um “homem bom”,
que coloriu a história com o sonho ingênuo de um mundo melhor e desapareceu do
nosso horizonte (como os líderes do Maio de 68 ou os fazedores de revoluções
políticas que a história absorveu e digeriu); mas Jesus é o Deus que Se fez
pessoa, que assumiu a nossa humanidade, que trouxe até nós uma proposta
objetiva e válida de salvação e que hoje continua presente e ativo na nossa
caminhada, concretizando o plano libertador do Pai e oferecendo-nos a vida
plena e definitiva. Ele é, agora e sempre, a verdadeira fonte da vida e da
liberdade. Onde é que eu mato a minha sede de liberdade e de vida plena: em
Jesus e no projeto do Reino ou em pseudo-messias e miragens ilusórias de
felicidade que só me afastam do essencial?
• O Pai investiu Jesus de uma missão:
eliminar o pecado do mundo. No entanto, o “pecado” continua a enegrecer o nosso
horizonte diário, traduzido em guerras, vinganças, terrorismo, exploração,
egoísmo, corrupção, injustiça… Jesus falhou? É o nosso testemunho que está a
falhar? Deus propõe ao homem o seu projeto de salvação, mas não impõe nada e
respeita absolutamente a liberdade das nossas opções. Ora, muitas vezes, os
homens pretendem descobrir a felicidade em caminhos onde ela não está. De
resto, é preciso termos consciência de que a nossa humanidade implica um quadro
de fragilidade e de limitação e que, portanto, o pecado vai fazer sempre parte
da nossa experiência histórica. A libertação plena e definitiva do “pecado”
acontecerá só nesse novo céu e nova terra que nos espera para além da nossa
caminhada terrena.
• Isso não significa, no entanto,
pactuar com o pecado, ou assumir uma atitude passiva diante do pecado. A nossa
missão – na sequência da de Jesus – consiste em lutar objetivamente contra “o
pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da
nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a
vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na
história.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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