8º DOMINGO TEMPO COMUM
26 de Fevereiro de 2017
Evangelho - Mt 6,24-34
O instinto de sobrevivência e de
autopreservação nos faz cuidadosos e preparados para o que der e vier. Por
vezes ficamos estressados, e perdemos o sono quando a pressão ou ameaça contra
a nossa sobrevivência é muito forte. Até aí, tudo é natural, pois somos fracos
e limitados. Continuar lendo
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“VÓS NÃO PODEIS SERVIR A DEUS E AO DINHEIRO.”-
Olívia Coutinho
8º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 26 de Fevereiro de 2017
Evangelho de Mt 6,24-34
Quantas maravilhas, Deus coloca diariamente
diante de nós, e nós, como filhos ingratos, nem nos damos conta destes bens
gratuitos! Temos a tendência de colocar a nossa segurança nos bens materiais,
desprezando os favores de Deus! E assim, muitos de nós, vamos passando pela
vida sem vivê-la, nos desgastando com preocupações desnecessárias, preocupações
com o dia de amanhã que nós nem sabemos se Deus vai nos permitir vivê-lo.
Se tomássemos os ensinamentos de Jesus, como
manual de instrução para conduzir a nossa vida, com certeza, não perderíamos
tempo com tantas preocupações. Quando deixamo-nos orientar pelos os
ensinamentos de Jesus, o nosso viver torna mais leve, pois à Luz de Cristo,
fazemos escolhas certas! É a confiança na providencia Divina, que nos possibilita
a leveza da vida!
Confiar na providencia Divina, não significa
cruzar os braços e ficar esperando que as coisas caiam do céu, pelo contrário,
a confiança na providencia Divina, nos coloca em movimento, pois a certeza de
que temos um Pai que nos ama, que cuida de nós, que irá nos ajudar, através do
nosso esforço, a termos o que nos for necessário, é que nos motiva a ir a luta!
Ao nos criar, Deus não se contentou em somente
nos dar a vida, como quis também nos cercar de cuidados, cuidados, para com o
nosso corpo, como para com o nosso espírito! Para nos garantir uma boa
qualidade de vida, Deus nos deu uma rica natureza de onde é tirado o nosso
alimento físico e para o nosso alimento espiritual, Deus nos deu Jesus!
Cada dia, é uma oportunidade que Deus nos
concede para revermos a nossa vida, rever os valores sobre os quais estamos
construindo o nosso futuro, um futuro que vai além desta vida.
O evangelho que a liturgia de hoje coloca diante
de nós, vem nos conscientizar, do quanto estamos apegados às coisas terrenas!
O olhar prazeroso para as coisas do mundo nos
impede de enxergarmos as maravilhas que Deus coloca a todo instante de nós!
Jesus é bem claro: “Não podemos servir a Deus e ao Dinheiro”. Esta afirmação de
Jesus provoca-nos a um questionamento: a quem de fato, estamos servindo: a
Deus, ou ao dinheiro? É preciso definir, fazer escolha, afinal, a Deus e ao
dinheiro não podemos servir!
Não sejamos ingênuos de achar que Jesus condena
o dinheiro, Jesus não condena o dinheiro, afinal, quando é fruto do nosso
trabalho, o dinheiro é abençoado, pois é dele que provém o nosso alimento. O
que Jesus reprova, é o acúmulo de dinheiro, como se ele garantisse o nosso
futuro, e o lugar que o colocamos na nossa vida. O acúmulo de dinheiro nos
escraviza-nos, nos leva a ganancia, ao consumismo que é o motor
alimentador deste sistema que aí está, um sistema gerador de excluídos, que
descarta os que não consomem.
Busquemos em primeiro lugar o Reino de Deus, e
tudo mais nos será acrescentado! É priorizando os bens eternos, que estaremos
construindo o nosso futuro!
É fazendo um caminho de volta às nossas raízes,
que vamos redescobrindo a nossa verdadeira origem: viemos do Pai e para o Pai
retornaremos. Esta certeza, deve nos conscientizar de que nós não precisamos de
tantas coisas enquanto estamos aqui, afinal, deste mundo, nada levaremos a não
ser o bem que fazemos!
Preocupação, medo, angustia, estão fora de
questão, quando se confia na providencia Divina.
FIQUE NA PAZ DE JESUS!
– Olívia Coutinho
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Um apelo à
confiança
A liturgia deste domingo coloca um
problema da maior atualidade: “Em quem coloco a minha confiança?”
Vive-se num tempo de enormes
dificuldades. A perda de um emprego, o baixo salário, um certo desnorte de
adolescentes e jovens, a desestruturação das famílias, tudo isto contribui para
agravar a angústia que caiu sobre a vida da maioria das pessoas. No dia mundial
da luta contra a pobreza, dizia-se que havia 30 milhões de pessoas a viverem em
escravidão; também se afirmava que estavam a morrer à fome, por ano, 5 milhões
de crianças; e a viver abaixo do nível de pobreza é uma constante em inúmeras
famílias. Só na Europa, em pobreza extrema, são mais de 120 milhões. Em
Portugal são 2 milhões e meio.
Compreende-se o lamento que faz o Profeta
Isaías, cinco séculos antes de Cristo: “O Senhor abandonou-me, esqueceu-se de
mim” (Is 49, 14). Apesar deste lamento do profeta, nós sabemos que Deus nunca
abandona o seu povo. Mesmo quando o Povo de Israel lhe era infiel, Deus vinha
sempre em seu auxílio. É este o espírito que , em tempo de dificuldade, é
preciso manter.
Quem quer que seja, o cristão é sempre
um servidor. Resta saber quem é que quer servir. Esta é a questão central do
Evangelho. “Não procures servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”. Com a
crise econômica em que se vive, compreende-se com clareza que, quem quer servir
o dinheiro, com facilidade o perde. Ao contrário, quem servir a Deus, mesmo no
tempo de dificuldade, em que a confiança esmorece, tem a certeza de que o
Senhor lhe não vai faltar. O Evangelho prossegue com o desafio à confiança. O
Senhor não falta nem às aves do céu, nem às flores do campo e vai faltar aos
homens que O amam? Isso não é possível. Ele estará sempre connosco, para nos
dar força nas dificuldades, coragem nas iniciativas, ou suporte nas
adversidades e a capacidade de esperar para além de toda a esperança.
O Senhor falou com uma clareza extrema
ao dizer: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos
será dado por acréscimo” (Mt.6, 33). Promessa absolutamente extraordinária. E o
Senhor não falta às suas promessas.
Da parte do cristão exige-se
fidelidade. É o que diz Paulo na Carta aos Coríntios: “Todos nos devemos
considerar como servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1
Cor. 4, 1). Então cada um receberá da parte de Deus tudo o que merece.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
“Naquele tempo, disse Jesus aos
discípulos: «Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao
dinheiro.»” (Mt. 6,24-34).
Ora nós construímos tudo, ou quase
tudo, sobre a economia. Não concebemos desenvolvimento que não tenha por base o
desenvolvimento econômico. Os nossos santuários já não estão em Roma, nem em
Jerusalém, nem em Benarés. Adoramos os ídolos que se guardam no Fundo Monetário
Internacional e no Banco mundial.
Se somos coerentes, resta-nos escolher.
Podemos pensar, como toda a gente, que
quem manda é o dinheiro. Nesta perspectiva, Jesus foi um doce sonhador, capaz
de alimentar, quando muito, os nossos momentos de poesia. Se esta perspectiva é
a verdadeira, teimar no Evangelho é continuar na ilusão.
Podemos pensar como Ele: o que vale é o
amor; uma economia que deixa morrer todos os anos 30 milhões de pessoas à fome
e deixa morrer vários milhões de doenças que podiam ser tratadas, mas não são,
uma economia que consome em guerras mais dinheiro do que era necessário para
salvar estes pobres, não pode ser aceite.
Eu não contesto que os problemas da
Terra têm de ser enfrentados com recurso ao saber às técnicas. O que digo é que
o saber e as técnicas não podem fechar-se sobre si mesmas. Os próprios
matemáticos começaram a descobrir nos anos 1930 que a Matemática não se
justifica a si mesma, tem de encontrar razões fora de si. A economia não pode
ser a ciência, ou a arte, do lucro, tem de se justificar pelo destino do homem.
A primeira leitura vem alimentar esta
reflexão: “Pode a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do
fruto das suas entranhas? Pois, ainda que ela o esquecesse, Eu não te
esqueceria.” (Is. 49,14-15). Uma criança é um absoluto, não é um simples
acrescento às alegrias e às dificuldades dos pais. O destino dos pobres da
Terra é outro absoluto, que não pode ser subalternizado ao destino dos países
ricos. E se se provasse que os povos ricos não poderiam manter os seus padrões
de riqueza sem o aniquilamento dos povos pobres, eram os povos ricos que não
teriam o direito de subsistir. Nós esquecemos isto todos os dias; Deus manda
dizer, através do profeta Isaías, que não esquece.
O Evangelho é um imenso convite à
esperança, nós rejeitamos o convite. Jesus veio dizer-nos que é possível
transformar a Terra. Num primeiro momento, até aguçamos os ouvidos. Depois, Ele
explicou-nos a maneira: se nos convertermos ao amor. Nós queremos todas as
maneiras, menos essa.
Na segunda leitura (1Cor. 4,1-5), são
Paulo recorda que os apóstolos não são donos, são administradores dos mistérios
de Deus. Era talvez uma palavra que devia ser mais meditada por nós. Dizemos
todos os dias que somos servidores de Cristo. Não temos outra preocupação, não
temos outra razão de ser, senão transmitir e, vá lá, explicar a sua mensagem.
Infelizmente, não é isso que fazemos. Não temos coragem para repetir as suas
palavras mais ousadas, por exemplo, esta que vem no mesmo Evangelho: “Procurai
primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por
acréscimo”. E, inconscientemente ou por manha, misturamos as nossas “certezas”.
Estas “certezas” que vêm do fundo dos tempos, que sem dinheiro e sem poder nada
se pode alcançar.
A vocação dos profetas era despertar os
homens, tirá-los das suas seguranças ilusórias, pô-los a caminhar no caminho
“insensato” do amor. Nesse sentido, Gandhi, Luther King e João XXIII foram
grandes profetas. Rezemos para que venham mais!
padre João Resina
A mensagem central deste domingo é de
confiança. Nos dá a oportunidade de contemplar a verdadeira imagem de Deus que
é, ao mesmo tempo, MÃE carinhosa e PAI providente O nosso relacionamento com
Deus tem que de estar envolvido por esta certeza de que Ele cuida de nós e, se
estamos em suas mãos, nada temos a temer.
Confiar naquilo que chamamos de “Divina
Providência” outra coisa não é do que acreditar firmemente que Deus
“providencia” tudo aquilo de que precisamos para o nosso bem, com a mesma
dedicação que uma mãe cuida do seu filho (1ª leitura) e, mais ainda, pelo amor
d'Ele ser infinito. Esta confiança é algo que temos que irradiar em nosso
comportamento como servos de Deus.
(2ª leitura) que buscam em primeiro
lugar o seu Reino e sua justiça (evangelho), sabendo que tudo o mais nos será
dado por acréscimo.
1ª leitura: Isaias
49,14-15
O texto do profeta Isaías foi escrito
na época da deportação do povo de Israel para a Babilônia, durante a qual a
confiança e a esperança entraram em crise e o povo sentiu-se esquecido e
abandonado por Deus, achando que, se as promessas feitas a seus pais não se
cumpriam, deveriam entregar-se ao domínio babilônico.
A tarefa do profeta é animar a
esperança de um povo conformado, fazendo-o ver que Deus não o esqueceu mas
continuava a seu lado, preparando a libertação com amor maior do que o amor de
uma mãe pelo seu filho (“ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de
você”). É assim que Isaias manifesta a ternura de Deus, sua preocupação pelo
bem dos seus filhos a pesar do sofrimento da Babilônia. Mesmo que não pareça,
Deus está cuidando a tomar conta do seu povo sofredor com ternura e
misericórdia. Trata-se de um dos poucos textos bíblicos em que o amor de Deus é
comparado com o amor de mãe. É a expressão bíblica mais profunda e eloquente da
ternura maternal de Deus e de seu amor pelo ser humano. A mãe não ama seu filho
por ser bom, mas simplesmente por ser seu filho...
2ª leitura:
1Corintios 4,1-5
Paulo considera que a missão dele não é
um privilégio, e sim, uma responsabilidade. Por isso, responde às criticas
surgidas em Corinto daqueles que tomavam partido por um pregador em particular
ou por uma forma de anunciar o Evangelho, julgando o modo de agir do mesmo
Paulo de forma apressada, imatura e sem fundamento. Lembra-lhes que o
importante é que ele e seus companheiros sejam apenas “servidores de Cristo e
administradores dos mistérios de Deus”, pois é isso o que se pode esperar deles
e nada mais. Portanto, o julgamento sobre a forma de servir a comunidade e
anunciar o Evangelho pertence unicamente a Deus (“quem me julga é o Senhor”) e
o que Deus julga realmente é se foram fiéis e “dignos de confiança”, que é o
que distingue o verdadeiro apóstolo de Cristo.
Certamente as críticas podem ser convenientes
e até mesmo necessárias mas o julgamento definitivo pertence Àquele que conhece
o ser humano em profundidade para além das aparências e aí, sim, “cada um vai
receber de Deus o louvor que lhe corresponde”.
Evangelho: Mateus
6,24-34
O evangelho de hoje começa citando uma
frase de Jesus sobre a tentação de fazer da riqueza um deus (“Ninguém pode
servir a dois senhores.... Vocês não podem servir a Deus e às riquezas”) e em
lugar de depositar a confiança no Deus vivo, vir a depositá-la numa realidade morta,
como são os bens materiais, cuja força de atração é tão efêmera quanto eles
mesmos.
O dinheiro, convertido em ídolo
absoluto, é para Jesus o maior inimigo daquele mundo mais digno, justo e
solidário que Deus quer e será sempre o maior obstáculo que a humanidade
encontrará para progredir rumo a uma convivência mais humana. Deus não pode
reinar no mundo e ser Pai de todos, sem exigir justiça para os que são
excluídos de uma vida digna. Por isso, não podem trabalhar pelo mundo que Deus
quer aqueles que, dominados pelo desejo de acumular riqueza, promovem uma
economia que exclui os mais pobres e os abandona à fome e à miséria.
O resto do texto fala da confiança em
Deus resumida na frase que se repete varias vezes (“não fiquem preocupados”)
para mostrar que as necessidades materiais (“o que comer... o que vestir”) não
podem se tornar motivo de ansiedade e preocupação obsessiva ocupando o lugar
central da nossa vida. É preciso não perder de vista o essencial (“a vida”, “o
corpo”) sem o qual não teria sentido a comida ou o vestido. Certamente não
somos apenas matéria; por causa disso, o cultivo das relações humanas, a
partilha e a fraternidade não podem ficar esquecidas. Daí o convite de Jesus:
“Busquem o Reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo,
todas essas coisas”. O necessário para a vida virá junto com a prática da
justiça como o fruto natural que se desprende de uma árvore boa.
Isto não é um convite a esquecer do
trabalho, mas um apelo a não permitir que as necessidades da vida nos absorvam
de tal modo que esqueçamos do essencial. A preocupação com o dia de amanhã não
pode tornar-nos incapazes de viver plenamente o momento presente.
Palavra de Deus na
vida
Seguir Jesus significa mudar de
mentalidade, de forma que a riqueza e o sucesso não sirvam para acumular e
triunfar, e sim, para partilhar e servir (“Vocês não podem servir a Deus e às
riquezas”).
Jesus sabe muito bem que a sedução do
dinheiro faz enxergar a vida como uma oportunidade de ganhar e acumular quanto
mais melhor sem pensar nos demais. O que está em jogo é a fidelidade a Deus
contra a idolatria do dinheiro. É preciso optar. Seguir Jesus é incompatível
com o serviço a dois senhores tão opostos entre si como Deus e o dinheiro,
especialmente quando este se torna-se um ídolo.
Existem coisas muito mais importantes
como a convivência, a amizade, a família, a capacidade de apreciar e desfrutar
das coisas mais simples e profundas que a vida nos oferece. O convite poético
de Jesus (Olhem os pássaros do céu... lírios do campo... Não fiquem preocupados
com... o que comer... o que vestir”) é um convite a buscar o fundamental, a
viver de forma mais serena, dando a cada coisa a importância exata que ela tem
(“Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que
a roupa?”). Ficar preocupados e obsesionados não resolve problema nenhum. Só o
agrava ainda mais.
Jesus quer mostrar não apenas que a
felicidade não depende dos bens materiais, mas, também, que o desejo de acumular,
usurpar e garantir privilégios afasta do amor generoso e gratuito do Pai e
rompe a solidariedade entre os irmãos. Ele nos assegura que a cobiça, a
ansiedade, a ambição, a luta pelo poder não é o caminho que conduz à
felicidade. O que nos torna felizes é o respeito a nós mesmos e aos outros, a
prática da generosidade, a bondade, o amor..., colocando nossa fé e confiança
em suas mãos. Só o amor é digno de fé.
Isto, não quer dizer que Jesus aprove a
passividade e a irresponsabilidade; ficar de braços cruzados esperando a Divina
Providência agir. É um convite, isso sim, a confiar plenamente em Deus,
colaborando na construção de um mundo mais justo, mais solidário e mais humano
para todos. Se buscarmos “o Reino de Deus e a sua justiça” estaremos participando
ativamente na erradicação do sistema que gera a situação de injustiça e criando
uma sociedade que privilegia a partilha.
“Esvaziar-se de toda vontade de poder,
e do instinto de posse, é tornar possível o Reino de Deus” (escreve Leonardo
Boff).
Pensando bem...
A Proposta do Mundo leva ao Culto ao
Dinheiro e ao Consumismo. As consequências são perversas no sentido em que
degrada a dignidade humana, tornando as pessoas simples máquinas de produção e
consumo de bens, bloqueia a solidariedade, a partilha e a fraternidade, ao
tempo em que favorece o egoísmo e a exploração e nos faz escravos das coisas e
dos bens materiais.
Mesmo que, do ponto de vista teológico,
não exista problema em dizer que Deus é Pai e Mãe ao mesmo tempo, é importante
destacar isto porque embora Deus não tenha sexo o certo é que durante muito
tempo a imagem que fizemos d'Ele tem sido claramente masculina e tanto na
sociedade quanto na Igreja o homem tem tido um status mais destacado que a
mulher. Isto não é «feminismo», mas apenas uma realidade que devemos reconhecer
e remediar no sentido de continuar avançando para uma sociedade e uma Igreja
igualitárias.
Se assim não fosse a Palavra de Deus,
que hoje lemos, não estaria apresentando-nos esse modo de ser maternal de Deus
que tem muito a ver com o que tradicionalmente chamamos de «Divina
Providência». A tradição espiritual popular sempre descobriu esta dimensão do
amor de Deus que tudo “providencia” na nossa vida diária. As continuas
referências à ação “maternal” de Deus sempre presentes em nosso modo de falar
diário (“se Deus quiser”, “graças a Deus”, “vá com Deus”) indicam isto. Mesmo
sem o perceber, este costume tem sido uma forma de exercitar a fé no cuidado
maternal que Deus tem por nós, sempre evitando-nos problemas e atendendo às
nossas necessidades.
Mesmo assim, o amor maternal de Deus
não significa que Ele seja uma espécie de “quebra-galho” a nos proteger sem que
movamos um dedo por aquilo que é da nossa inteira responsabilidade. Devemos
crer de forma adulta, como pessoas que se consideram inteiramente responsáveis
pelo seu destino, sem esperar que Deus venha fazer aquilo que Ele já nos deu
capacidade de fazer por nossa conta. É o sentido de responsabilidade e de
coragem, unido à confiança da presença de Deus em nossa vida, que nos ilumina e
abre o nosso caminho permitindo-nos superar a angustia existencial que sempre
está a nos espreitar, seres limitados que somos, contingentes y submetidos a
toda classe de ameaças.
padre Ciriaco
Madrigal
Vós não podereis
servir a Deus e ao dinheiro
Domingo da busca do Reino de Deus.
Devemos concentrar todas as nossas energias e preocupações na busca do Reino de
Deus e sua justiça, pois tudo o mais nos vem por acréscimo. Na Eucaristia,
sentimos que nosso Deus não nos abandona nem esquece, demonstrando a cada um
amor infinito. Podemos, portanto, depositar Nele nossa confiança.
Celebramos em comunhão com as pessoas
empenhadas na construção da nova sociedade, fundada nos valores do Reino:
partilha solidária, respeito pela cultura, diálogo com o diferente, justiça e
paz.
Antífona de entrada: O Senhor é meu
apoio, da angústia me livrou; o Senhor é meu amigo e por isso me salvou! (Salmo
17/18,19-20).
Primeira leitura:
Isaias 49,14-15
Aos exilados da Babilônia, tomados pelo
desânimo e pelo desalento, o profeta Isaias diz esta pequena palavra anunciada
neste domingo.
Os dois versículos de Isaias 49 são
escolhidos para acompanharem a leitura de Mateus 6,24-34. Ambos os trechos
contêm um raciocínio com maior força ou de mais ou menos importante para o mais
importante, aplicando-o à relação amorosa de Deus e as pessoas. Em Isaias
focaliza-se o sujeito, em Mateus o objeto deste amor. Isaias 49,14-15: mesmo se
uma mãe esquecesse o seu filho, Deus jamais esqueceria o Seu povo; Mateus 6: se
Deus cuida das plantas e dos animais, quanto mais cuidaria de vocês, Seus
filhos. Encontra-se aqui o amor de Deus comparado com o amor de um pai e de uma
mãe para com os seus filhos. O texto de Isaias é um triunfo na teologia
feminina. O alvo principal do texto é introduzir no povo derrotado, fora da
pátria e humilhado, a certeza da fé e a firme esperança de que eu - apesar dos
pesares, apesar da destruição da capital Jerusalém e apesar do exílio para
longe da pátria - Deus permanece o Senhor da história e se manifestará de novo
como o Santo de Israel, o Poderoso de Jacó, o Redentor e Salvador.
Deus é o Salvador de Seu povo que
precisa de libertação e de salvação. O amor que move Deus pode ser comparado
como o amor que uma mãe tem para com o filho de suas entranhas. Este amor
materno de Deus encontra-se também em Isaias 42,14 e 66,13.
Salmo responsorial
61/62,2-3.6-9ab
O Salmo é uma invocação e súplica. O
salmista descreve rapidamente sua situação, "dos confins da terra";
seus sentimentos internos. O salmista tem a certeza de ser ouvido. O pedido do
rei, referindo-se também à "presença de Deus".
O salmista canta: "Só em Deus a
minha alma tem repouso, porque Dele é que me vem a salvação!" Este é um
salmo de confiança individual. Vale a pena confiar em Deus a salvação, refúgio
e rochedo, pois Ele resgata a dignidade da pessoa.
O rosto de Deus neste salmo. O rosto de
Deus aparece, sobretudo, nos versículos 2-3.6-9 e também nos versículos 12-13.
É chamado de rocha, salvação e fortaleza (versículos 3.7), que faz repousar a
alma do fiel (versículos 2a. 6a), de onde vem a esperança das pessoas
(versículo 6b), tornando-as inabaláveis (versículos 3b. 7b). duas vezes
afirma-se que é refúgio (versículos 8.9), capaz de fazer justiça, isto é,
defender a fama (versículo 8a) de quem confia nele. O povo pode confiar em Deus
em qualquer situação (versículo 9a).
Várias vezes nos evangelhos Jesus
ensinou a todos Jesus ensinou a confiar nele e em Deus (João 14,1; 16,33;
Marcos 4,40). Não se trata, porém, de confiança inconseqüente (confiar sem
fazer nada), mas de confiar fazendo e de caminhar confiando. Quando expressamos
em atos nossa confiança, então Deus age e podemos nos surpreender com Sua ação
em nós.
O cristão pode rezar este salmo
desejando a presença de Deus no templo. Contudo, chegando ao templo terreno,
sente uma nova saudade daquele templo celeste, onde se manifesta a face de
Deus: ali poderá habitar para sempre junto a Deus, ali terá a herança dos que
temem o nome do Senhor Jesus.
Em certo sentido, o cristão repete o
que a Carta aos Hebreus diz de Abraão (Hebreus 11,13-16).
Cantando este salmo, invoquemos ao
Senhor cheios de confiança, porque só Nele encontramos a segurança da nossa
vida.
Segunda leitura: 1
Coríntios 4,1-5
Dos dezesseis capítulos que compõem a
Primeira Carta de São Paulo aos coríntios, os quatro primeiro capítulos são
dedicados à solução do grave problema das divisões que surgiram naquela
comunidade. A Igreja de Corinto se dividira em grupos, uns que se diziam de
Paulo, outros de Apolo, outros de Pedro (1 Coríntios 1,12). Surge um grave
problema: Os convertidos de Paulo, em vez de considerarem a Deus como o agente
primordial da salvação e a Cristo como o fundamento do edifício da vida cristã,
agruparam-se em torno das figuras do Evangelho. Estes eram vistos não como
instrumentos da graça, mas como agentes de uma atividade salvífica totalmente
autônoma, separada de sua fonte, o Cristo Senhor.
Em 1 Coríntios 4,1-5, Paulo adverte os
destinatários de sua carta contra o juízo temerário sobre os seus guias
espirituais. Somente a Deus cabe tal julgamento. Somente a Ele, Senhor comum
dos pregadores e dos fiéis, é reservado um juiz soberano e definitivo. É ele
quem escolheu os apóstolos a serem servidores de Cristo e administradores de
seus mistérios. A Ele apenas, conhecedor dos segredos do coração humano, os
encarregados de dispensar tais mistérios deverão prestar, contas: "Quanto
a mim pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal...Quem me julga é
o Senhor" (1 Coríntios 4,3-4).
Tal verdade, obviamente, não livra os
pregadores de uma necessária e constante autocrítica: "Verdade é que a
minha consciência de nada me acusa" (1 Coríntios 4,4), e "o que se
requer dos administradores, é que cada qual seja fiel" (1 Coríntios 4,2).
Dessas reflexões de Paulo, segue-se que
uma vez que os fiéis não devem julgar os seus ministros, não devem também tomar
partido por um ou por outro. Com efeito, quem pode medir a importância de um
serviço eclesial? Quem pode julgar a eficiência no plano da salvação de
palavras simples ou de um chefe de comunidade aparentemente inapto? Uma homilia
simples pode possuir uma eficiência maior do que um discurso magistral. Um
simples Cura D'Ars pode ter feito mais pelo crescimento do Reino de Deus do que
um Jean Paul Sartre, um Rousseau.
Evangelho: Mateus
6,24-34
Em grande parte este passo do Sermão da
Montanha (Mateus capítulos de 5 a 7) tem seus paralelos em Lucas, no Sermão da
Planície (Lucas 6,17-49). Podemos ler em Mateus 6,24-34 como um comentário da
primeira, quarta e oitava bem-aventurança. Primeira: "Bem-aventurados os
pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu". Quarta:
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão
saciados". Oitava: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa
da justiça, porque deles é o Reino do Céu".
Em Mateus 6,24 o discípulo de Jesus é
colocado diante da alternativa bem clara: Deus ou as posses. E, Mateus 6,33
espera-se do cristão uma não menos clara opção em favor do Reino e da Justiça
do Pai co céu. Aos ricos, Jesus colocou, diante da alternativa: ou Deus ou as posses;
aos pobres Ele pregou, porém, a primazia do Reino e da Justiça do Pai celeste
sobre os cuidados terrenos. A personificação da posse, que dá poder absoluto
sobre a pessoa humana, é produto da febril fantasia daqueles mesmos que
perseguem as posses como algo absoluto. Nessas pessoas, a posse ocupa o lugar
de Deus como fonte de vida e felicidade e como sumo bem.
Originalmente estas parábolas seriam
destinadas aos pobres. Eles correm o perigo de serem tão absorvidos pelas
preocupações pelo mínimo necessário que se esquecem de Deus, pelo motivo
oposto. Em nome de Deus Jesus vem oferecer a ricos e pobres o Reino e a Justiça
de Deus-Pai.
O Evangelho fornece uma mensagem única:
sejamos embora ricos ou pobres, nossa vida se acha orientada para o Reino dos
Céus, e esta orientação não pode ser anulada por exigências ou preocupações que
venham a eliminar esta opção fundamental na vida cristã.
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
Jesus lembra a todos nós que o
discipulado é opção, acima de tudo, por Deus e pelo seu Reino. O dinheiro
iníquo é rival irreconciliável com o Deus verdadeiro, que é doador generoso.
Jesus quer ver os seus seguidores livres da preocupação excessiva com comida e
roupa. Eles são convidados a olharem os pássaros do céu e os lírios do campo e
perceberem o cuidado de Deus com a sua criação, e, mais ainda, com o ser
humano. Com isso, Jesus não está orientando a desocupação nem a despreocupação,
mas apenas acertando a "pré-ocupação", aquilo que precede a toda
ocupação. Pois, se a pré-ocupação não está bem certa, as nossas ocupações são
todas elas em vão. Inventamos muitas preocupações mal aplicadas (em dinheiro,
comida, bebida, vestuário, carro, apartamento, etc.). A cobiça está
profundamente ligada à ansiedade e leva a pessoa a ser possuída por seus bens,
mais do que a possuí-los. O que está em jogo é a concentração nos valores do
Reino e a confiança em Deus.
Comer e beber deveriam ser ocupações
tão naturais, que não precisaríamos fazer delas uma pré-ocupação, algo que
predisse a todas as nossas ações. Não devemos criar problemas antecipado com
relação a tudo isso, porque cada dia já traz ocupação que chega.
Vivemos num mundo em que, cada vez
mais, consumir parece ser a meta fundamental para ser feliz. A pessoa fica
dividida entre o seu desejo mais profundo a as "coisas" que o mercado
oferece. Há uma profunda relação entre a procura do Reino e o desapego das
preocupações consumistas que a sociedade nos impõe pela propaganda e pela
ideologia individualista. Esse apelo nada tem a ver com o desencanto pela vida
e pelas coisas que ela oferece. Jesus nos ensina a mudar o objetivo da
preocupação e colocar o Reino como valor absoluto.
Na assembléia litúrgica, expressamos
essa opção fundamental por Deus e pelo seu Reino e recebemos o seu carinho na Palavra
que nos orienta e na mesa que sacia a nossa sede e fome de amor e de
felicidade.
A Palavra se faz
celebração
O Senhor é nosso apoio
A antífona de entrada traz o Salmo 17:
"O Senhor se tornou meu apoio". O tom de toda a celebração é dado por
este refrão, lembrando que aos fiéis basta a confiança na mão de Deus que
retira os seus da morte. Harmonicamente, todos os textos da Liturgia da Palavra
coincidem nesse ponto. A eucologia, por sua vez vai um pouco além,
interpretando a Escritura na insistência de que a confiança em Deus se desdobra
numa vida de paz (cf. oração do Dia). Assim, para os fiéis, a maior riqueza
advém desta mesma confiança de que Deus cuida dos seus e lhes cumula de bens
(cf. Oração sobre as oferendas). No fim das contas, viver na terra - o que
engloba as relações de posse e administração - configura-se sinal do que é do
céu. (cf. Oração depois da comunhão). A conclusão de São Paulo é perfeita:
"Que todo mundo se considere como servidores de Cristo e administradores
do mistério de Deus". (II Leitura).
Buscar o Reinado de Deus
A Liturgia celebrada tem por finalidade
gerar a confiança fundamental do fiel em Deus, de modo que subordinando-lhe a
existência, torne-se no mundo um sinal de seu amor e sua bondade que são faces
da salvação que o povo espera (cf. Salmo Responsorial). Deus vem em socorro de
todos os mortais com a sua divindade, reza o Prefácio do Tempo Comum III e
nisto consiste sua glória, isto é, Deus se mostra à sua criação para auxiliá-la
a perseverar nos caminhos da vida e chegar àquela condição de imagem e
semelhança com a qual nasceu. De sua parte (da criação), resta o conforto de
aninhar-se no colo divino, regozijando-se por suas carícias que humanizam, pois
livram da morte. (cf. Prefácio TC III). Deitar-se no colo de alguém, além de
intimidade, conota confiança e esperança. É, portanto, uma boa metáfora
oferecida pela liturgia deste domingo.
Ligando a Palavra com
a ação eucarística
Na assembléia litúrgica, reunida em
nome do Senhor, expressamos nossa opção fundamental pela Trindade a fonte da
unidade e recebemos seu amo na Palavra proclamada que nos conduz e na mesa que
o Senhor com seu Corpo e sangue nos sacia.
A Eucaristia nos leva à justiça do
Reino para que possamos lutar contra a injustiça que desfigura a vida de tantos
irmãos e irmãs que clamam por justiça e paz. Participar da Eucaristia é
comprometer-se com a prática do amor solidário para que todos tenham "vida
e vida em abundância" (João 10,10).
A Eucaristia é o momento em que os
discípulos missionários do Senhor Jesus renovam sua confiança no Deus da vida e
amadurecem na esperança de dias melhores onde todos possam ter esperança de uma
sociedade fraterna.
É, na Eucaristia, Pão Vivo descido do
céu, que encontramos força para seguir na caminhada pascal, para eliminar da sociedade
todas as forças da morte e assim testemunhamos o Pai que está no céu, mas que
quer a justiça na terra.
padre Benedito
Mazeti
1 – «Não vos
inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas
inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».
Por mais esforços que
façamos, não é possível dispensarmos o que somos ou o futuro que almejamos.
Todavia, o passado não pode ser empecilho para vivermos e nos comprometermos
com a atualidade, no trabalho, na família, na Igreja. Más experiências podem
tirar-nos confiança e deixar-nos com pouca vontade para insistirmos... O futuro
pode assustar-nos. Perante o mundo que nos envolve, cujo pessimismo é
justificado por milhentas situações destrutivas, também o amanhã poderá surgir
sombrio.
E, no entanto, a
palavra de Deus desafia-nos à temperança, caldeada na esperança e na fé,
colocando o nosso olhar e a nossa vida em Deus. Só Ele garante que o chão não
nos foge debaixo dos pés, mesmo quando experimentamos a instabilidade do mar
alto, com o nevoeiro das nossas limitações, com as tempestades dos nossos
fracassos. Ele está no nosso barco, ainda que pareça que vai a dormir. Ele
está. Quantas situações nos apetece gritar por Ele, que Ele nos dê um sinal,
uma prova, uma evidência?
Aos seus discípulos,
e hoje somos nós, Jesus mostra um CAMINHO claro de salvação e vida: «Ninguém
pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se
dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao
dinheiro».
Aí está mais uma
chave de leitura, uma escolha a fazer, uma prioridade a assumir. Se o fim da
nossa vida é colocado nos outros ou nos bens materiais, vamos pouco a pouco
perdendo o pé e sairemos desiludidos. E por quê? Quanto às pessoas, por mais
queridas que sejam, são seres humanos, limitados, finitos, e por mais perfeitas
que sejam há aspetos em que nos desiludem, ou pelo menos não plenizam o que
esperávamos. Por outro lado, temporalmente não nos acompanharão sempre, alguém
deixará esta vida mais cedo.
Quanto aos bens
materiais, ao dinheiro, sabendo que são necessários para vivermos com
dignidade, não os podemos assumir como fim da nossa vida, pois seria de uma
pobreza estéril. No final o que precisaremos é da companhia, da presença de
alguém que nos compreenda, e nos apóie, que goste de nós e a quem possamos
confiar os nossos segredos mais íntimos. Se o dinheiro for o nosso deus maior,
então nunca estaremos satisfeitos, mesmo que tenhamos o justo para viver bem
quereremos sempre mais, mais não seja para termos mais que os outros. E também
isto nos tira o sono e a tranquilidade. Também isto nos traz fadiga e
desilusão, nos traz doença e traz a morte ao humano que existe em nós.
2 – «Não vos
inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas
inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». O convite de Jesus é
verdadeiramente libertador. A ambição, com conta peso e medida, ambição
solidária, que procura melhorar o mundo e não apenas a própria vida à custa dos
outros, sabendo que estamos no mesmo barco, para o bem e para o mal. O que se
descarta é a ganância, pura e simples, pela qual os fins justificam todos os
meios, e até as pessoas são usadas enquanto geram lucro. Isto é algo
destrutivo, desumano.
Precisamos de pouco
para viver bem: saúde, amor, amigos, companhia, saber que ALGUÉM nos sustem
para lá da instabilidade e para lá do tempo.
Vale a pena
ler/escutar o texto do Evangelho:
«Não vos preocupeis,
quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com
o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do
que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem
em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que
elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só
côvado à sua estatura? ... Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo
isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será
dado por acréscimo».
A nossa humildade
passa por aqui, tomarmos consciência que o essencial da nossa vida está dentro
de nós, na atitude que assumimos perante os outros, na postura face à vida, com
as suas dificuldades e com as suas potencialidades. Há muitas coisas que não
dependem de nós. Estas podem paralisar-nos, se queremos controlar todas as
coordenadas, ou podem libertar-nos se, reconhecendo as nossas limitações, nos
apoiamos na bondade de Deus sem temermos arriscar a própria vida. As
coordenadas são-nos interiores: Deus, bem, amor, verdade, perdão, comunhão. E
estão ao nosso alcance.
3 – «Não vos
inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas
inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». O futuro por vezes serve de
desculpa para hoje não nos comprometermos. Duas razões: por medo, pois não
sabemos o que trará o dia de amanhã, assusta-nos, e também face à nossa
história de vida que não nos permite agir com confiança. E para quê sofrermos
por antecipação? Por outro lado, adiamos, logo se vê, amanhã as coisas podem
estar melhor, quando tivermos tempo, quando tivermos mais dinheiro, quando as
condições forem mais favoráveis. Mas as circunstâncias nunca serão ideais, e o
que deixarmos de fazer hoje, amanhã poderá escapar-nos ou não teremos mais
tempo, como aquele filho que foi adiando o encontro com o pai para lhe pedir
perdão pela distância, pela arrelia, pela rebeldia; quando se resolveu já não
chegou a tempo, o pai tinha falecido na semana anterior. E agora? Muitas vezes
está macambúzio pelo tempo que perdeu longe da ternura do Pai lamentando-se
pelas vezes que esteve quase a telefonar e a visitá-lo.
"O amor começa
hoje. Hoje alguém sofre. Hoje alguém está na rua. Hoje alguém tem fome. Hoje
temos de começar. Ontem já passou. Amanhã ainda não chegou. Somente hoje
podemos anunciar Deus, amando, servindo, alimentando os que têm fome, vestindo
os que estão nus, dando aos pobres um teto sobre as suas cabeças. Não espereis
até amanhã. Amanhã eles estarão mortos, se nada lhes dermos hoje" (Madre
Teresa de Calcutá).
A vida não é preto e
branco, é multicolor. Nem todos conseguem exercitar-se de tal forma que nem o
passado nem o futuro paralisem as suas vidas, mas é pelo menos um desafio,
deverá ser um compromisso, para nos tornarmos mais saudáveis, para não nos
arrependermos depois, para potenciarmos os nossos talentos, para ajudarmos o
mundo a ser uma casa para todos.
4 – «Não vos
inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas
inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». Quantas preocupações me afetam
agora? Pode acontecer que não saiba para onde me virar e em quem poderei
confiar.
Em Isaías vêm ao de
cima do lamento de Sião: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim».
Mas logo a resposta pronta do Senhor: «Poderá a mulher esquecer a criança que
amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se
esquecesse, Eu não te esquecerei».
É nesta certeza que
rezamos: "Só em Deus descansa a minha alma, d’Ele me vem a salvação. D’Ele
vem a minha esperança. Ele é meu refúgio e salvação, minha fortaleza: jamais
serei abalado". Ainda que os meus pés vacilem, nada temerei porque o
Senhor está comigo.
À semelhança do
salmista, também o Apóstolo São Paulo confia no Senhor e na Sua misericórdia,
pelo que não receia o juízo rápido e impaciente dos homens: «De nada me acusa a
consciência, mas não é por isso que estou justificado: quem me julga é o
Senhor. Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o
Senhor, que há de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnios
dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece».
Saber que só Deus em
definitivo me julgará e que posso contar com a Sua misericórdia infinita,
alarga as possibilidades de hoje me comprometer sabendo que o futuro está
assegurado por Ele, e não será em vão todo o bem que possa fazer pelos que me
acompanham nesta viagem pelo tempo e pela história.
padre Manuel Gonçalves
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