1º DOMINGO DA QUARESMA
5 de Março de 2017
Cor: Roxo
Evangelho - Mt
4,1-11
Jesus foi levado ao deserto para ser tentado pelo próprio diabo, o
qual lhe disse para transformar pedras em pães, para matar a sua fome. Continuar lendo.
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"NÃO TENTARÁS O SENHOR TEU DEUS!" – Olivia Coutinho
1º DOMINGO DA QUARESMA
Dia 05 de Março de 2017
Evangelho de Mt4,1-11
Estamos no início da Quaresma, um tempo forte na vida da
Igreja e de todos os que se dispõe a caminhar com o Cristo vencedor!
A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em
nós, o desejo de mudança, de reavermos os valores, que às vezes deixamos de
lado, por estarmos buscando os "valores" do mundo!
Nas palavras de Jesus, que meditamos neste tempo reflexivo, há
sempre um apelo de conversão e todos nós sabemos que não é fácil percorrer este
caminho, pois mudanças, é sempre um grande desafio, requer coragem,
determinação, renuncias e acima de tudo, o constante exercício do perdão! Mas
mesmo sendo um caminho difícil, vale a pena segui-lo, afinal, não tem alegria
maior do que o nosso retorno ao coração do Pai!
Somos chamados a viver esse tempo no espírito de fé,
a deixarmos para trás a escuridão do passado para vivermos uma vida nova,
alicerçada nos valores do evangelho, a transformar o nosso coração de
pedra, num coração de carne, num templo sagrado onde Deus possa habitar!
O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do
seu coração de Pai, nunca fecha, ela está sempre aberta para nos receber de
volta, basta querermos voltar! Aproveitemos, pois, este tempo em que a
graça e a misericórdia transbordam do coração do Pai, para
voltarmos ao seu convívio!
No evangelho que a liturgia deste primeiro Domingo da
Quaresma nos convida a refletir, vemos que Jesus, na sua condição humana, foi
tentado a desistir da sua missão, a trocar o projeto de Deus por bens
materiais, mas a sua resposta foi taxativa: “Não só de pão vive o homem, mas de
toda palavra que sai da boca de Deus”. Jesus foi tentado a aceitar e a confiar
no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu
Deus.”
O Filho de Deus, venceu o inimigo por estar fortalecido no Espírito
do Pai, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente a sua missão:
libertar a humanidade da escravidão do pecado!
Assim como aconteceu com Jesus, acontece também conosco, a tentação
do TER, do PODER, está sempre a nos rondar, precisamos estar vigilantes o tempo
todo, para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é oportunista, ela
surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida ou
quando estamos enfraquecidos na fé! Para nos seduzir, o mal chega até a nós,
disfarçado do bem, por isto, precisamos estar sempre atentos para não tornarmos
presas fácies do inimigo deixando-nos enganar pelas aparências!
Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda
parte, principalmente onde existe o bem, para vencê-la, é importante estarmos sempre
em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa que
temos ao nosso alcance, que é a oração!
Ser tentado, não significa pecar, pecar é cair na tentação. Todos
nós, já passamos pela a experiência de ser tentado, o próprio Jesus viveu esta
experiência, é a nossa ligação com Ele, que nos torna resistentes as tentações,
que não nos deixa cair nas ciladas preparadas pelo o inimigo.
Que o Espírito Santo de Deus, que fortaleceu Jesus nas tentações,
nos fortaleça também e que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o
SER pelo o TER!
Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “E não nos
deixeis cair em tentação”... Peçamos a Ele todos os dias esta graça!
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do
meu grupo de reflexão no Facebook
1º DOMINGO DA
QUARESMA
5 de Março de 2017
Cor: Roxo
Evangelho - Mt
4,1-11
Jesus foi levado ao deserto para ser tentado pelo próprio diabo, o
qual lhe disse para transformar pedras em pães, para matar a sua fome. Continuar
lendo.
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"NÃO TENTARÁS O SENHOR TEU DEUS!" – Olivia Coutinho
1º DOMINGO DA QUARESMA
Dia 05 de Março de 2017
Evangelho de Mt4,1-11
Estamos no início da Quaresma, um tempo forte na vida da
Igreja e de todos os que se dispõe a caminhar com o Cristo vencedor!
A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em
nós, o desejo de mudança, de reavermos os valores, que às vezes deixamos de
lado, por estarmos buscando os "valores" do mundo!
Nas palavras de Jesus, que meditamos neste tempo reflexivo, há
sempre um apelo de conversão e todos nós sabemos que não é fácil percorrer este
caminho, pois mudanças, é sempre um grande desafio, requer coragem,
determinação, renuncias e acima de tudo, o constante exercício do perdão! Mas
mesmo sendo um caminho difícil, vale a pena segui-lo, afinal, não tem alegria
maior do que o nosso retorno ao coração do Pai!
Somos chamados a viver esse tempo no espírito de fé,
a deixarmos para trás a escuridão do passado para vivermos uma vida nova,
alicerçada nos valores do evangelho, a transformar o nosso coração de pedra,
num coração de carne, num templo sagrado onde Deus possa habitar!
O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do
seu coração de Pai, nunca fecha, ela está sempre aberta para nos receber de
volta, basta querermos voltar! Aproveitemos, pois, este tempo em que a
graça e a misericórdia transbordam do coração do Pai, para
voltarmos ao seu convívio!
No evangelho que a liturgia deste primeiro Domingo da
Quaresma nos convida a refletir, vemos que Jesus, na sua condição humana, foi
tentado a desistir da sua missão, a trocar o projeto de Deus por bens
materiais, mas a sua resposta foi taxativa: “Não só de pão vive o homem, mas de
toda palavra que sai da boca de Deus”. Jesus foi tentado a aceitar e a confiar
no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu
Deus.”
O Filho de Deus, venceu o inimigo por estar fortalecido no Espírito
do Pai, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente a sua missão:
libertar a humanidade da escravidão do pecado!
Assim como aconteceu com Jesus, acontece também conosco, a tentação
do TER, do PODER, está sempre a nos rondar, precisamos estar vigilantes o tempo
todo, para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é oportunista, ela
surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida ou
quando estamos enfraquecidos na fé! Para nos seduzir, o mal chega até a nós,
disfarçado do bem, por isto, precisamos estar sempre atentos para não tornarmos
presas fácies do inimigo deixando-nos enganar pelas aparências!
Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda
parte, principalmente onde existe o bem, para vencê-la, é importante estarmos
sempre em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa
que temos ao nosso alcance, que é a oração!
Ser tentado, não significa pecar, pecar é cair na tentação. Todos
nós, já passamos pela a experiência de ser tentado, o próprio Jesus viveu esta
experiência, é a nossa ligação com Ele, que nos torna resistentes as tentações,
que não nos deixa cair nas ciladas preparadas pelo o inimigo.
Que o Espírito Santo de Deus, que fortaleceu Jesus nas tentações,
nos fortaleça também e que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o
SER pelo o TER!
Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “E não nos
deixeis cair em tentação”... Peçamos a Ele todos os dias esta graça!
FIQUE NA PAZ DE
JESUS! – Olívia Coutinho
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Logo no início deste santo caminho para
a Páscoa, a Palavra de Deus nos desvenda dois mistérios tremendos: o mistério
da piedade e o mistério da iniqüidade! Esses dois mistérios atravessam a
história humana e se interpenetram misteriosamente; dois mistérios que nos
atingem e marcam nossa vida, e esperam nossa decisão, nossa atitude, nossa
escolha! Um é mistério de vida; o outro, mistério de morte.
Comecemos pelo mistério da iniqüidade:
“O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E
a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. Eis! A vida que
vivemos, a vida da humanidade é uma vida de morte, ferida por tantas
contradições, por tantas ameaças físicas, psíquicas, morais... Viver tornou-se
uma luta e, se é verdade que a vida vale a pena ser vivida, não é menos verdade
que ela também tem muito de peso, de dor, de pranto, de fardo danado. Mas, como
isso foi possível? Escutemos a primeira leitura: “O Senhor Deus formou o homem
do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um
ser vivente”. Somos obra de Deus, do seu amor gratuito: do nada ele nos tirou e
encheu-nos de vida. Mais ainda: “O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao
oriente, e ali pôs o homem que havia formado”. Vede: o Senhor não somente nos
tirou do pó do nada, não somente nos encheu de vida; também nos colocou no
jardim de delícias, pensou nossa vida como vida de verdade toda banhada pela
luz do oriente. E mais: nosso Deus passeava no jardim à brisa do dia (cf. Gn
3,8), como amigo do homem. Eis o mistério da piedade, o projeto que Deus
concebeu para nós desde o início, apresentado pela Palavra de modo poético e
simbólico: um Deus que é Deus de amor, de ternura, de carinho, de respeito pela
sua criatura, com a qual ele deseja estabelecer uma parceria; um homem chamado
a ser plenamente homem: feliz na comunhão com Deus, feliz em ter no seu Deus
sua plenitude e sua vida; homem plenamente homem nos limites de homem. O homem
é homem, não é Deus! Somente o Senhor Deus é o Senhor do Bem e do Mal. Por isso
as duas árvores no Éden: a do conhecimento do Bem e do Mal (isto é, o poder de
decidir por si mesmo o que é bem ou mal, certo ou errado) e a árvore da Vida
(da vida plena, da vida divina). Se o homem confiasse em Deus, se cumprisse seu
preceito, se reconhecesse seus limites, um dia comeria do fruto da árvore da
Vida...
Mas, o homem foi seduzido; é seduzido
inda agora: deseja ser seu próprio Deus, sem nenhum limite, sem nenhuma
abertura à graça! Somente sua vontade lhe importa, somente sua medida! Hoje,
como no princípio, ele pensa que é a medida de todas as coisas! Eis aqui o seu
pecado! O Diabo o seduz: primeiro distorce o preceito de Deus (“É verdade que
Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim’?”), semeando no
coração do homem a desconfiança e o sentimento de inferioridade; depois, mente
descaradamente: “Não! Vós não morrereis! Vossos olhos se abrirão e sereis como
Deus, conhecendo o bem e o mal!” Ser como Deus, decidindo de modo autônomo o
que é certo e o que é errado; decidindo que a libertinagem é um bem, que as
aventuras com embriões humanos, que o aborto, que a infidelidade feita de
preservativos, são um bem... Decidindo loucamente que levar a sério a religião
e a Palavra de Deus é um mal... Ser como Deus... Eis nosso sonho, nossa
loucura, nossa mais triste ilusão! Tudo tão atraente, tudo tão apto para dar
conhecimento, autonomia, felicidade... O resultado: os olhos dos dois se
abriram: estavam nus... estamos nus... somos pó e, por nós mesmos, ao pó
tornaremos, inapelavelmente!
Então, nosso destino é a morte? Não há
saída para a humanidade? O mistério da iniqüidade destruiu o mistério da
piedade? Não! De modo algum! Ao contrário: revelou-o ainda mais: “A
transgressão de um só levou a multidão humana à morte; ma foi de modo bem
superior que a graça de Deus... concedida através de Jesus Cristo, se derramou
em abundância sobre todos. Por um só homem a morte começou a reinar. Muito mais
reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom
gratuito e superabundante da justiça”. Eis aqui o mistério tão grande, o
mistério da piedade, o centro da nossa fé: em Cristo revelou-se todo o amor de
Deus para conosco; pela obediência de Cristo a nossa desobediência é redimida;
pela morte de Cristo na árvore da cruz, nós temos acesso ao fruto da Vida, da
Vida plena, da Vida em abundância, da Vida que nunca haverá de se acabar! Pela
obediência de Cristo, pelo dom do seu Espírito, nós temos a vida divina, nós
somos divinizados, somos, por pura graça, aquilo que queríamos ser de modo
autônomo e soberbo! Assim, manifestou-se a justiça de Deus: em Jesus morto e
ressuscitado por nós – e só nele! – a humanidade encontra vida!
Mas, esta salvação em Jesus teve alto
preço: a encarnação do Filho de Deus e sua humilde obediência, até a morte e
morte de cruz. O Senhor desfez o nó da nossa desobediência, da nossa
auto-suficiência, da nossa prepotência, renunciando ser o senhor de sua
existência humana: ele acolheu a proposta do Pai, ele se fez obediente: à
glória do pão (dos bens materiais, dos prazeres, do conforto) ele preferiu a
Palavra do Pai como único sentido e única orientação de sua vida; à glória do
sucesso (a honra, a fama, o aplauso), ele preferiu a humildade de não tentar
Deus; à glória do poder (da força, das amizades poderosas e influentes, do
prestígio político para impor e conseguir tudo) ele preferiu o compromisso
absoluto e total com o Absoluto de Deus somente. Assim, Cristo Jesus, o Homem
novo, o novo Adão (de quem o primeiro era somente figura e sombra) abriu-nos o
caminho da obediência que nos faz retornar ao Pai!
Este é também o nosso caminho. Nossa
vocação é entrar, participar, da obediência de Cristo pela oração, a penitência
e a caridade fraterna para sermos herdeiros de sua vitória pascal! Este sagrado
tempo que estamos iniciando é tempo de combate espiritual, para que voltemos,
pelo caminho da obediência Àquele de quem nos afastamos pela covardia da
desobediência. Convertamo-nos, portanto! Deixemos a teimosia e a ilusão de
achar que nos bastamos a nós mesmos! Sinceramente, abracemos os sentimentos de
Cristo, percorramos o caminho de Cristo, convertamo-nos a Cristo!
Concluamos com as palavras da Coleta de
hoje: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta quaresma, possamos
progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma
vida santa”.
dom Henrique Soares
da Costa
No início da nossa caminhada quaresmal,
a Palavra de Deus convida-nos à “conversão” – isto é, a recolocar Deus no
centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com Ele, a escutar as suas
propostas, a concretizar no mundo – com fidelidade – os seus projetos.
A primeira leitura afirma que Deus criou
o homem para a felicidade e para a vida plena. Quando escutamos as propostas de
Deus, conhecemos a vida e a felicidade; mas, sempre que prescindimos de Deus e
nos fechamos em nós próprios, inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de
prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte.
A segunda leitura propõe-nos dois
exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe ignorar as
propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida
plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus e
que vive na obediência aos projetos do Pai. O esquema de Adão gera egoísmo,
sofrimento e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva.
O Evangelho apresenta, de forma mais
clara, o exemplo de Jesus. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à
margem de Deus e dos seus projetos. A Palavra de Deus garante que, na
perspectiva cristã, uma vida que ignora os projetos do Pai e aposta em esquemas
de realização pessoal é uma vida perdida e sem sentido; e que toda a tentação
de ignorar Deus e as suas propostas é uma tentação diabólica e que o cristão
deve, firmemente, rejeitar.
1ª leitura Gn.
2,7-9;3,1-7 – AMBIENTE
O texto de Gn. 2,4b-3,24 – conhecido
como relato jahwista da criação – é, de acordo com a maioria dos comentadores,
um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei
Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante, colorido, pitoresco. Parece ser
obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas
e fortes.
Não podemos, de forma nenhuma, ver
neste texto uma reportagem jornalística de acontecimentos passados na aurora da
humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica:
mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que
na origem da vida e do homem está Jahwéh. Trata-se, portanto, de uma página de
catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens
do mundo e da vida.
Para apresentar essa catequese aos
homens do séc. X a.C., os teólogos jahwistas utilizaram elementos simbólicos e
literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do
pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem
mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das
narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova
interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Ou seja: a
linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação
apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do
Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre
Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são muito
diferentes.
MENSAGEM
A primeira parte (cf. Gn. 2,7-9) do
texto que nos é proposto apresenta-nos dois quadros significativos.
O primeiro quadro (v. 7) pinta – com
cores quentes e sugestivas – a origem do homem: “o Senhor Deus formou o homem
do pó da terra e insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida”. O verbo utilizado
para descrever a ação de Deus é o verbo “yasar” (“formar”, “modelar”), que é um
verbo técnico ligado ao trabalho do oleiro. Deus aparece, assim, como um
oleiro, que modela a argila. Estamos muito próximos das concepções
mesopotâmicas, onde o homem é criado pelos deuses a partir do barro (o jogo de
palavras “’adam” – “homem” – e “’adamah” – “terra”, sugere que o homem –
“’adam” – vem da “terra” – “’adamah” – e, morrendo, voltará à terra de onde foi
tirado).
No entanto, o homem formado da terra
não é apenas terra, pois ele recebe também o “sopro” (“neshamá”) de Deus. A
palavra hebraica utilizada significa “sopro”, “hálito”, “respiração”. É a vida
que vem de Deus que torna o homem vivo… O homem tem qualquer coisa de divino; a
vida do homem procede, diretamente, de Deus.
É significativa a forma como o jahwista
sublinha o cuidado de Deus na criação do homem: Deus é o oleiro que modela
cuidadosa e amorosamente a sua obra; e, ainda mais, transmite a esse homem
formado da terra a sua própria vida divina. O homem aparece, assim, como o
centro do projeto criador de Deus: ele ocupa um lugar especial na criação e é
para ele que tudo vai ser criado.
No segundo quadro (vs. 8-9), o autor
jahwista reflete sobre a situação do homem criado por Deus… Para que é que Deus
criou o homem? Para ser escravo dos deuses e prover ao sustento das divindades,
como nos mitos mesopotâmicos? Não. Na perspectiva do nosso catequista, o homem
foi criado para ser feliz, em comunhão com Deus. Para descrever a situação
ideal do homem, criado para a felicidade e a realização plena, o jahwista
coloca-o num “jardim” cheio de árvores de fruta. Para um povo que sentia pesar
constantemente sobre si a ameaça do deserto árido, o ideal de felicidade seria
um lugar com muitas árvores e muita água. Os mitos mesopotâmicos apresentam,
aliás, as mesmas imagens.
No meio dessa vegetação abundante, o
autor coloca duas árvores especiais: a “árvore da vida” e a “árvore do
conhecimento do bem e do mal”. A “árvore da vida” é o símbolo da imortalidade
concedida ao homem. Provavelmente, ao falar da “árvore da vida”, o autor está a
pensar na “Lei”: desde o início, Deus ofereceu ao homem a possibilidade da vida
plena e imortal, que passa por uma vida percorrida no caminho da Lei e dos
mandamentos… Ao lado da “árvore da vida” e em contraposição a ela (pois traz a
morte), está a “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Provavelmente,
representa o orgulho e a auto-suficiência de quem acha que pode conquistar a
sua própria felicidade, prescindindo de Deus. “Comer da árvore do conhecimento
do bem e do mal” significa fechar-se em si próprio, querer decidir por si só o
que é bem e o que é mal, pôr-se a si próprio em lugar de Deus, reivindicar
autonomia total em relação ao criador. O homem que renuncia à comunhão com Deus
está a seguir o caminho da morte.
A ideia do nosso catequista é esta:
Deus criou o homem para ser feliz; deu-lhe a possibilidade de vida imortal; mas
o homem pode escolher prescindir de Deus e percorrer caminhos onde Deus não
está.
Na segunda parte do nosso texto (cf.
Gn. 3,1-7), o autor jahwista reflete sobre a questão do mal. De onde vem o mal
que desfeia o mundo e que impede o homem de ter vida plena? Esse mal – sugere o
nosso teólogo jahwista – vem das opções erradas que, desde o início da
história, o homem tem feito.
Para dizer isto, o autor jawista
recorre à imagem da serpente. Entre os povos antigos, a serpente aparece como
um símbolo por excelência da vida e da fecundidade (provavelmente por causa da
sua configuração fálica). Entre os cananeus, estava também bastante difundido o
culto da serpente. Nos santuários cananeus invocavam-se os deuses da
fertilidade (representados muitas vezes pela serpente) e realizavam-se rituais
mágicos destinados a assegurar a fecundidade dos campos… Ora, os israelitas,
instalados na Terra, depressa se deixaram fascinar por esses cultos e
praticavam os rituais dos cananeus destinados a assegurar a vida e a fecundidade
dos campos e dos rebanhos. No entanto, isso significava prescindir de Jahwéh e
abandonar o caminho da Lei e dos mandamentos. A “serpente” surge aqui,
portanto, como símbolo de tudo o que afasta os homens de Deus e das suas
propostas, sugerindo-lhes caminhos de orgulho, de egoísmo e de
auto-suficiência.
Em conclusão: Deus criou o homem para
ser feliz e indicou-lhe o caminho da imortalidade e da vida plena; no entanto,
o homem escolhe muitas vezes o caminho do orgulho e da auto-suficiência e vive
à margem de Deus e das suas propostas. Na opinião do autor jahwista, é essa a
origem do mal que destrói a harmonia do mundo.
ATUALIZAÇÃO
• De onde vimos? Para onde vamos?
Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas,
que o homem de todos os tempos coloca a si próprio. A Palavra de Deus que hoje
nos é proposta responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não
somos um minúsculo e insignificante grão de areia perdido numa galáxia
qualquer; mas somos seres que Deus criou com amor, a quem Ele deu o seu próprio
“sopro”, a quem animou com a sua própria vida. O fim último da nossa existência
não é o fracasso, a dissolução no nada, mas a vida definitiva, a felicidade sem
fim, a comunhão plena com Deus.
• Como é que chegamos a essa felicidade
que está inscrita no projeto que Deus tem para os homens e para o mundo? Deus
nada impõe e respeita sempre – de forma absoluta – a nossa liberdade; no
entanto, insiste em mostrar-nos, todos os dias, o caminho para essa plenitude
de vida que Ele sonhou para os homens. Quando aceitamos a nossa condição de
criaturas e reconhecemos em Deus esse Pai que nos dá vida, que nos ama e que
nos indica caminhos de realização e de felicidade, construímos uma existência
harmoniosa, um "paraíso" onde encontramos vida, harmonia, felicidade
e realização.
• E o mal que vemos, todos os dias,
tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo: vem de Deus ou do homem?
A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas
escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e auto-suficiência. Quando
o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e
prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de
prepotência, de sofrimento, de pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As
propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a
felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, prescindindo
das indicações de Deus?
2ª leitura – Rm.
5,12-19 – AMBIENTE
No final da década de 50 (a carta aos
Romanos apareceu por volta de 57/58), multiplicavam-se as “crises” entre os
cristãos oriundos do mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão. Uns e
outros tinham perspectivas diferentes da salvação e da forma de viver o compromisso
com Jesus Cristo e com o seu Evangelho. Os cristãos de origem judaica
consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras
da Lei (nomeadamente a prática da circuncisão) para ter acesso à salvação; mas
os cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das
práticas judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja.
Este problema também era sentido pela comunidade cristã de Roma.
Neste cenário, Paulo vai mostrar a
todos os crentes (a carta aos Romanos, mais do que uma carta para a comunidade
cristã de Roma, é uma carta para as comunidades cristãs, em geral) a unidade da
revelação e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma,
chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que
nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de
salvação que Deus faz a todos, por Jesus Cristo.
O texto que nos é proposto faz parte da
primeira parte da carta aos Romanos (cf. Rm. 11,18-11,36). Depois de demonstrar
que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rm. 1,18-3,20)
e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rm. 3,21-5,11),
Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens
e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rm. 5,12-8,39).
MENSAGEM
Para deixar bem claro que a salvação
foi oferecida por Deus aos homens através de Jesus Cristo, Paulo recorre aqui a
uma figura literária que aparece, com alguma frequência, nos seus escritos: a
antítese. Em concreto, Paulo vai expor o seu raciocínio através de um jogo de
oposições entre duas figuras: Adão e Jesus.
Adão é a figura de uma humanidade que
prescinde de Deus e das suas propostas e que escolhe caminhos de egoísmo, de
orgulho e de auto-suficiência. Ora, essa escolha produz injustiça, alienação,
sofrimento, desarmonia. Porque a humanidade preferiu, tantas vezes, esse
caminho, o mundo entrou numa economia de pecado; e o pecado gera morte. A morte
deve ser entendida, neste contexto, em sentido global – quer dizer, não tanto
como morte físico-biológica, mas sobretudo como morte espiritual e escatológica
que é afastamento temporário ou definitivo de Deus (a fonte da vida autêntica).
Cristo propôs um outro caminho. Ele
viveu numa permanente escuta de Deus e das suas propostas, na obediência total
aos projetos do Pai. Esse caminho leva à superação do egoísmo, do orgulho, da
auto-suficiência e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em
comunhão com o Deus que é fonte de vida autêntica (a vitória de Cristo sobre a
morte é a prova provada de que só a comunhão com Deus produz vida definitiva).
Foi essa a grande proposta que Cristo fez à humanidade… Assim, Cristo libertou
os homens da economia de pecado e introduziu no mundo uma dinâmica nova, uma
economia de graça que gera vida plena (salvação).
Não é claro que Paulo se esteja a
referir, aqui, àquilo que a teologia posterior designou como “pecado original”
(ou seja, um pecado histórico cometido pelo primeiro homem, que atinge e marca
todos os homens que nascerem em qualquer tempo e lugar). O que é claro é que,
para Paulo, a intervenção de Cristo na história humana se traduziu num
dinamismo de esperança, de vida nova, de vida autêntica. Cristo veio propor à
humanidade um caminho de comunhão com Deus e de obediência aos seus projetos; é
esse caminho que conduz o homem em direção à vida plena e definitiva, à
salvação.
ATUALIZAÇÃO
• A modernidade ensinou-nos que a fonte
da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Disse-nos que as
propostas de Deus são resquícios de uma época pré-científica, obscurantista,
ultrapassada, e que a plenitude da vida está no corte radical com qualquer
autoridade exterior à nossa Razão – inclusive com Deus. Exaltou o
individualismo e a auto-suficiência e ensinou-nos que só nos realizaremos
totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho e o
nosso destino. No entanto, onde nos leva esta cultura que prescinde de Deus e
das suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz, ou
tem potenciado o aparecimento de homens perdidos e sem referências, que muitas
vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência
de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados?
• Alguns acontecimentos que marcam a
história do nosso tempo confirmam que uma história construída à margem das
propostas de Deus é uma história marcada pelo egoísmo, pela injustiça, pela
prepotência e, portanto, é uma história de sofrimento e de morte. Quando o
homem deixa de dar ouvidos a Deus, dá ouvidos ao lucro fácil, destrói a
natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em
proveito próprio a vida dos seus irmãos… Qual é o nosso papel de crentes, neste
processo? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da história
e a as suas propostas sejam acolhidas?
Evangelho: Mt. 4,1-11
- AMBIENTE
A cena das tentações antecede, em
Mateus (e nos outros sinópticos), a vida pública de Jesus. A cena segue-se
imediatamente – quer em termos cronológicos, quer em termos lógicos – ao
Batismo (cf. Mt. 3,13-17): porque recebeu o Espírito (batismo), Jesus pode
afrontar e vencer a tentação de uma proposta de atuação messiânica que o
convida a subverter a proposta do Pai.
A cena coloca-nos no deserto. Mateus
diz explicitamente que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de
ser tentado pelo demônio”. Os quarenta dias e quarenta noites que, de acordo
com o relato, Jesus aí passou, resumem os quarenta anos que Israel passou em
caminhada pelo deserto. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”,
onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono
de Jahwéh e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do
encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo
fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade
e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à
tentação e dizer “não” ao projeto de Deus – como aconteceu com os israelitas?
O relato que hoje nos é proposto não é,
contudo, uma reportagem histórica elaborada por um jornalista que presenciou um
combate teológico entre Jesus e o diabo, algures no deserto… É, sim, uma página
de catequese, cujo objetivo é ensinar-nos que Jesus, apesar de ter sentido –
como nós – a mordedura das tentações, soube pôr acima de tudo o projeto do Pai.
O relato de Mateus (bem como o de
Lucas) parte, sem dúvida, do relato – muito mais breve – de Marcos (cf. Mc. 1,12-13);
mas o texto que hoje nos é proposto amplia o relato original de Marcos, com um
diálogo entre Jesus e o diabo, feito de citações do Antigo Testamento
(sobretudo do livro do Deuteronômio).
MENSAGEM
A catequese sobre as opções de Jesus
aparece em três quadros ou “parábolas”.
A primeira “parábola” (vs. 3-4) sugere
que Jesus poderia ter escolhido um caminho de realização material, de
satisfação de necessidades materiais. É a tentação – que todos nós conhecemos
muito bem – de fazer dos bens materiais a prioridade fundamental da vida. No
entanto, Jesus sabe que “nem só de pão vive o homem” e que a realização do
homem não está na acumulação egoísta dos bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3
e sugere que o seu alimento – isto é, a sua prioridade – não é um esquema de
enriquecimento rápido, mas é o cumprimento da Palavra (isto é, da vontade) do
Pai.
A segunda “parábola” (vs. 5-7) sugere
que Jesus poderia ter escolhido um caminho de êxito fácil, mostrando o seu
poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas
multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático dos
super-heróis). Jesus responde a esta tentação citando Dt 6,16, e sugere que não
está interessado em utilizar os dons de Deus para satisfazer projetos pessoais
de êxito e de triunfo humano. “Não tentar” o Senhor Deus significa, neste
contexto, não exigir de Deus sinais e provas que sirvam para a promoção pessoal
do homem e para que ele se imponha aos olhos dos outros homens.
A terceira “parábola” (vs. 8-10) sugere
que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de
prepotência, ao jeito dos grandes da terra. No entanto, Jesus sabe que a
tentação de fazer do poder e do domínio a prioridade fundamental da vida é uma
tentação diabólica; por isso, citando Dt. 6,13, diz que, para Ele, só o Pai é
absoluto e que só Ele deve ser adorado.
As três tentações aqui apresentadas não
são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de
Deus, de escolher um caminho de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência, à
margem das propostas de Deus. Mas, para Jesus, ser “Filho de Deus” significa
viver em comunhão com o Pai, escutar a sua voz, realizar os seus projetos,
cumprir obedientemente os seus planos. Ao longo da sua vida, diante das diversas
“provocações” que os adversários Lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua
“opção fundamental” e vai procurar concretizar, com total fidelidade, o projeto
do Pai.
Israel, ao longo da sua caminhada pelo
deserto, sucumbiu frequentemente à tentação de ignorar os caminhos e as
propostas de Deus. Jesus, ao contrário, venceu a tentação de prescindir de Deus
e de escolher caminhos à margem dos projetos do Pai. De Jesus vai nascer um
novo Povo de Deus, cuja vocação essencial é viver em comunhão com o Pai e concretizar
o seu projeto para o mundo e para os homens.
ATUALIZAÇÃO
• A questão essencial que a Palavra de
Deus hoje nos propõe é, portanto, esta: Jesus recusou, de forma absoluta,
conduzir a sua vida à margem de Deus e das suas propostas. Para Ele, só uma
coisa é verdadeiramente decisiva e fundamental: a comunhão com o Pai e o
cumprimento obediente do seu projeto… E nós, seguidores de Jesus? É essa também
a nossa perspectiva? O que é que é decisivo na minha vida: as propostas de
Deus, ou os meus projetos pessoais?
• Quando o homem esquece Deus e as suas
propostas, e se fecha no egoísmo e na auto-suficiência, facilmente cai na
escravidão de outros deuses que, no entanto, estão longe de assegurar vida
plena e felicidade duradoura. Quais são os deuses que, hoje, dominam o
horizonte desse homem moderno que prescindiu de Deus? Quais são os deuses que
estão no centro da minha própria vida e que condicionam as minhas decisões e
opções?
• Deixar-se conduzir pela tentação dos
bens materiais, do acumular mais e mais, do subordinar toda a vida à lógica do
“ter mais”, é seguir o caminho de Jesus? Olhar apenas para o seu próprio
conforto e comodidade, fechar-se à partilha e às necessidades dos outros, pagar
salários de miséria e malbaratar fortunas em noitadas de jogo ou em coisas
supérfluas… é seguir o exemplo de Jesus?
• Usar Deus ou os seus dons para saciar
a nossa vaidade, para promover o nosso êxito pessoal, para brilhar, para dar
espetáculo, para levar os outros a admirar-nos e a bater-nos palmas… é seguir o
exemplo de Jesus?
• Procurar o poder a todo o custo (às
vezes, entregando ao diabo os nossos valores mais importantes e as nossas
convicções mais sagradas) e exercê-lo com prepotência, com intolerância, com
autoritarismo (quantas vezes humilhando e magoando os pobres, os débeis, os
humildes)… é seguir o exemplo de Jesus?
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Iniciamos o período
da Quaresma com a disposição renovada de mergulhar em Deus, deixando-nos
iluminar por suas palavras, questionando-nos sobre nossas atitudes e
comprometendo-nos com uma nova vida. Somos fruto da iniciativa amorosa de Deus.
Ele nos modelou a partir do barro e deu-nos a vida, insuflando em nós o seu
sopro divino. Presenteou o ser humano com uma habitação especial, um jardim que
produz toda espécie de frutos. Para conservar o estado de bem-estar e alegria,
ordenou-lhe que não tocasse na “árvore da ciência do bem e do mal”. Porém, a
rebeldia dos homens e das mulheres, representados por Adão e Eva, originou toda
espécie de males (I leitura). Deus, no entanto, não abandona as suas criaturas.
Ele é criador e também libertador. Por isso, como máxima expressão do seu amor,
enviou o seu Filho, Jesus Cristo, para nos libertar de todos os males com suas
consequências. Se pelo pecado de Adão entrou a morte no mundo, pela graça de
Jesus Cristo nos é dada a redenção (II leitura). Para isso, Jesus assumiu
plenamente a condição humana, sofreu toda espécie de tentações durante toda a
sua vida. Porém, não caiu nelas. Permaneceu fiel à vontade do Pai,
alimentando-se permanentemente de sua palavra e cultivando a sua intimidade
pelo silêncio e pela oração (Evangelho). Portanto, a palavra e o exemplo de
nosso irmão maior, Jesus Cristo, devem tornar-se o pão nosso de cada dia, que
nos sustenta na caminhada desta vida e nos mantém na fidelidade ao projeto de
Deus.
1ª leitura (Gn. 2,7-9; 3,1-7)
Da argila da terra Deus criou o ser humano
A figura de Deus
apresentada nesse relato da criação é a de um oleiro com uma incrível capacidade
artística. Percebe-se a intenção dos autores de ressaltar a origem do ser
humano, que tem íntima ligação com Deus e com a terra que ele criou. O próprio
nome Adão vem de adamah, termo hebraico que designa a terra. É a palavra que
deu origem ao homem, entendido aqui como nome genérico da raça humana. Homens e
mulheres são seres originados do húmus da terra. A terra, portanto, Deus a fez
e a usou como “mãe” da humanidade. Ela é fonte de vida, é fértil e produz todas
as espécies de frutos.
Deus é pai, amigo e
conselheiro dos seus filhos e filhas. Dá-lhes as instruções necessárias para
que possam viver sobre a terra em íntima comunhão com ele e, como decorrência,
em solidariedade com todas as coisas. Por isso, Deus pede que não comam do
fruto da “árvore da ciência do bem e do mal”. Em outras palavras: os seres
humanos devem respeitar a soberania de Deus sobre todas as coisas e submeter-se
ao seu desígnio. Tudo o que ele faz é muito bom.
A narrativa busca
explicar o motivo do sofrimento pessoal e dos males sociais. A origem de todas
as coisas está fundamentada na bondade divina. Foram feitas para o bem dos
seres humanos. Por que, então, o sofrimento? Os autores do texto expressam
profunda consciência crítica sobre a opressão. Esta se constitui a causa de
todos os males. Ao tomarem a figura da serpente como a provocadora da violação
da ordem divina, apontam para a sagacidade do poder em “dar o bote” para morder
e alienar a consciência humana.
Certamente, o grupo
que está por trás do texto conhece muito bem as consequências da monarquia
israelita. Analisam a realidade social, denunciando a ambição de grandeza e de
sabedoria do regime monárquico, que pretende ser “igual a Deus”, usurpando o
poder divino e revelando o domínio sobre os bens e as pessoas. Mas, como diz o
adágio popular, “o rei está nu”. A nudez revela que a fraqueza e a condição de
mortalidade fazem parte da pessoa. De que lhe adiantam as pretensões de poder e
de possessão? Confrontado honestamente com o desígnio divino, o ser humano,
pretensamente poderoso, sente-se envergonhado. É claro, pois a conquista e a
manutenção do poder envolvem mentiras, enganação, usurpação de bens... Deus,
porém, é justo e verdadeiro. Diante dele, nenhuma “folha de figueira” cobre
essa nudez, a transparência de sua verdade, por mais que a pessoa busque
justificativas.
2ª leitura (Rm. 5,12-19)
O novo ser humano em Jesus Cristo
Um dos temas
dominantes na carta aos Romanos é a justificação pela graça. Para são Paulo, o
pecado entrou no mundo trazendo a morte. Esta deve ser entendida não apenas em
seu aspecto físico, mas também como realidade pessoal e social, proveniente do
egoísmo humano. É herança da transgressão de Adão, representante dos seres
humanos. Essa condição de pecadores nos torna incapacitados de nos redimir. Nenhum
mérito humano possibilita a salvação. Ela nos é dada por pura graça de Deus,
que se revela plenamente em Cristo Jesus.
Com a Lei, ficou
explícito em que consiste o pecado. Com Jesus, a Lei foi superada e, sem ela, o
pecado já não é levado em conta. Isso acontece porque a graça de Deus foi
derramada sobre todos nós, pecadores, redimindo-nos do pecado. Se o pecado de
Adão trouxe a morte, a fidelidade de Jesus Cristo trouxe a vida definitiva. Se
a rebeldia do ser humano diante do Criador trouxe a condenação para todos, o
dom gratuito de Jesus Cristo para todos trouxe a justificação. Se a
transgressão do ser humano é fonte de morte, a graça de Deus, por meio de
Jesus, é fonte de vida plena. A graça nos reconcilia com Deus e resgata a nossa
integridade. Pela graça, é-nos dada a vida eterna.
São Paulo nos
convence de que o pecado foi instrumento que possibilitou a manifestação da
misericórdia divina. A transgressão do “primeiro Adão” não conseguiu impedir o
fluxo da graça. Pelo contrário, fê-la fluir ainda mais abundantemente. Essa
certeza nos torna abertos para acolher o perdão gratuito de Deus e nos
incentiva a mergulhar sempre mais em sua graça. Deus nos criou por amor e
também por amor nos liberta do mal e da morte. O ato de expiação de Jesus, o
novo Adão, anulou definitivamente o poder do pecado.
Evangelho (Mt. 4,1-11): Jesus vence as tentações
Desde o início do seu
ministério, Jesus enfrenta o embate com propostas diabólicas que buscam
desviá-lo de sua missão de defender e promover a vida digna das vítimas do
poder em sua tríplice dimensão. O “diabo”, a antiga serpente, inimigo do plano
de Deus para a humanidade (cujas expressões se encontram dentro de cada um de
nós como nas próprias estruturas sociais), convida Jesus a seguir outro
caminho, procurando fazê-lo abandonar a missão que iria realizar como Messias
sofredor. Em toda a sua vida (este é o sentido dos “40 dias e 40 noites”),
Jesus foi tentado a dar preferência a uma lógica criada segundo intentos
egoístas. Tem a possibilidade de, ou apresentar um falso messianismo,
satisfazendo as expectativas dos seus contemporâneos, ou optar pela realização
da vontade do Pai, assumindo o serviço de libertação junto às pessoas
excluídas.
A primeira tentação
indica a dimensão econômica do poder. Jesus, como ser humano, sentiu-se
certamente atraído pela proposta de orientar a sua vida para o acúmulo de bens
e para o desfrute dos prazeres que eles podem oferecer. Podia até mesmo
ancorar-se na “teologia da retribuição”, tão presente nos ensinamentos oficiais
dos doutores da Lei, legitimando a riqueza e o bem-estar físico como bênçãos
divinas. Porém, Jesus vai por outro caminho. Ele dedica todo o seu tempo e
sacrifica a própria vida no cumprimento da missão que o Pai lhe deu em favor do
resgate da vida digna sem exclusão. Ao responder que a pessoa vive não só de
pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus, aponta para a perspectiva
essencial que deve conduzir todos os nossos passos. A palavra de Deus constitui
a fonte e a autoridade das quais emana todo ensinamento capaz de realizar as
aspirações mais profundas de cada um de nós; é alimento capaz de satisfazer a
fome do coração humano, desejoso de inteireza e autenticidade.
A segunda tentação
refere-se à dimensão religiosa do poder. O “pináculo”, para além da parte física
mais alta do Templo, representa os elevados cargos que um judeu poderia galgar
na hierarquia religiosa. Esse caminho de poder, pela via religiosa,
proporcionaria a Jesus prestígio e proteção muito especiais. A pessoa envolvida
na “auréola” de uma espiritualidade legitimada pela ideologia do sistema
religioso oficial, como era o caso do templo de Jerusalém, sente-se assegurada
pela “blindagem” que seu status religioso proporciona. Jesus poderia apegar-se
à sua condição divina e mostrar “sinais do céu”, como queriam os fariseus e
saduceus. Poderia “forçar” a providência de Deus, solucionando magicamente os
problemas humanos. A resposta de Jesus de não tentar o Senhor Deus informa-nos
de que a lógica humana deve submeter-se à lógica divina e não o contrário. A
vontade do Pai, de forma desconcertante, manifesta-se no caminho da obediência
de seu Filho até a morte de cruz. Com isso, cai por terra toda a presunção de
querer usar a Deus para a vanglória humana.
A terceira tentação
indica a dimensão política do poder. Equivale à tentação da idolatria por
excelência: adoração a satanás. É posicionar-se como um ser divino, com o poder
de agir, de forma absoluta, sobre pessoas e bens. É a tentação de querer
alcançar a felicidade suprema pela auto-afirmação e pelo domínio sobre os
outros. Jesus, com certeza, confrontou-se com essa possibilidade de orientar
toda a sua vida no sentido de galgar cargos políticos que lhe conferissem força
e fama social. As multidões queriam fazê-lo rei... O posicionamento de Jesus,
ao rejeitar essa tentação, transforma-se no caminho de superação de todo
domínio e também de todo servilismo. Coloca a Deus como o único Ser digno de
adoração. Jesus propõe uma nova ordem social como realização da vontade do Pai
e orienta toda a sua missão para a organização dessa nova ordem. Revela, assim,
a verdadeira origem do reino de justiça, fraternidade e paz: é dom de Deus e
serviço abnegado dos seus filhos e filhas.
Pistas para reflexão
– Deus é criador e
libertador. Em seu desígnio de amor, criou o ser humano em íntima união com a
mãe terra. Em sua providência generosa, garante as condições de vida digna para
todas as pessoas. Deu-nos a missão de cuidar de todas as coisas, sem cair na
tentação de “comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal”, isto é, de
entrar na ideologia do poder, que tende a dominar as pessoas e se apossar do
que é de todos. É preciso respeitar e promover o princípio da soberania de Deus
sobre todas as coisas e administrá-las com justiça, evitando toda espécie de
exploração.
– Não cair em
tentação. Durante toda a nossa vida, somos tentados a abdicar do compromisso
com o projeto de Deus, deixando-nos levar por propostas diabólicas. Jesus nos
ensinou o caminho de superação das tentações do poder em sua tríplice dimensão:
econômica, política e religiosa. É claro que a economia, a política e a
religião podem ser meios privilegiados para a construção do reino de justiça,
paz e fraternidade no mundo, desde que sejam organizadas como serviço dedicado
e honesto ao próximo, principalmente às pessoas mais necessitadas.
– Ser portadores da
graça divina. Com sua obediência radical à vontade do Pai, Jesus nos trouxe a
graça da libertação de todos os males e a vida em plenitude. Seguindo seus
passos, podemos ser portadores da graça divina, defendendo e promovendo o
direito à vida digna sem exclusão. Para isso, são fundamentais o cuidado e o
respeito para com a natureza. A Campanha da Fraternidade nos aponta sugestões
práticas.
Celso Loraschi
“Adorarás o senhor teu Deus!”
Tudo começa de novo.
Mais uma Quaresma. Mais uma vez somos convidados a penetrar no deserto
com Jesus. Lá, distante dos sons, no recolhimento dos
recolhimentos, sem distrações, na crueza e na nudez do seu interior,
Jesus vai fazer a grande opção: responderá com um efusivo e decidido sim
aos apelos do Pai. O tentador mostra-lhe os reinos, as vaidades, o poder,
o que se ganha usufruindo de todos os bens, do pão, de todas as
benesses. Nada abala seu interior. Ele é o Filho que escuta, o
Filho obediente, amorosamente obediente, aquele que tem como pão e alimento
fazer a vontade do Pai. O homem não vive só de pão, de passeios, de lucros, de
vantagens, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Esse Filho igual
ao Pai, é homem, ao mesmo tempo fragilidade e, na verdade do deserto, sem
apoios exteriores, coloca sua vida em sintonia com o Pai. Nunca pedirá
sinais, nunca tentará a Deus embora por vezes seu coração fique apertado: “Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste... afasta este cálice”. Não pode e não
quer receber do abjeto tentador reinos e vantagens. Jesus está sempre
querendo fazer a amorosa, delicada e exigente vontade do Pai. Vencidas as
tentações Lucas conclui: “Os anjos se aproximaram e serviram a
Jesus”.
Somos todos seres com
saudade de harmonia. No momento temos o coração em caos. Mas houve um
tempo em que tudo era ordenado. Os primeiros pais passeavam pelo Jardim do
Eden, com o Criador, na brisa da tarde. Tudo era harmonia. Os primeiros
habitantes da terra feliz, o homem e a mulher, Adão e Eva, foram testados,
postos à prova.
O Senhor Deus queria
seu carinhoso assentimento à sua vontade. Ele e ela, ou ela e ele caíram nas
malhas do tentador. Quiseram ser donos de sua história. Quiseram ser como
Deus. E a desordem se instalou. “A mulher viu que seria bom comer da
árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para alcançar o
conhecimento. E colheu um fruto e o deu a seu marido, que estava com ela e ele
comeu”. Nesse momento se instala a desordem e a harmonia é quebrada.
Perde-se a inocência. “Os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus,
teceram tangas para si com folhas de figueira”.
Não num jardim, mas
num deserto, sozinho, Jesus começa a escrever uma outra história e a esboçar
uma nova criação. Porque ele é o filho amado que faz a vontade do Pai e
inaugura os novos e definitivos tempos.
Sim, os anjos do
paraíso que haviam mostrado as portas da rua aos primeiros pais agora
servem a Jesus.
Quais a principais
tentações dos cristãos? Quais as tentações de nossas famílias cristãs? Onde
está o deserto que venha a nos acordar?
frei Almir Ribeiro Guimarães
Pecado e
Restauração
A Quaresma é, originariamente, o tempo
de preparação para o batismo, via de regra, administrado aos catecúmenos
(adultos) na noite de Páscoa. Nesta perspectiva situa-se a recordação do pecado
nas origens da humanidade: todos precisam de ser salvos em Cristo – o que é o
efeito do batismo.
A1ª leitura de hoje narra o pecado do
ser humano (Adão e Eva) nas origens(o recorte litúrgico parece um pouco
truncado demais) (*). Evoca o contraste entre o carinho do criador e a
leviandade do ser humano, que, tentado pelo desejo da experiência do bem e do
mal, com a ilusão de se tomar igual a Deus, acaba encontrando-se nu e sem nada.
A 2ª leitura é o comentário de Paulo sobre esse episódio: se, solidários com
Adão, todos pecam e morrem, muito mais encontram a justiça, a amizade com Deus,
em Cristo, pelo qual a graça e a vida entram em nossa existência. (A morte
física, para Paulo,já não é aquele “castigo de Adão”, mas a transformação da
vida: 1 Cor. 15,35-53.)
O evangelho mostra Jesus sendo posto à
prova pelo Tentador. Na forma como narra Mt, a última das três tentações é
exatamente a de se igualar a Deus. Assim, a resistência de Jesus aparece como a
reparação do pecado de Adão. Enquanto Adão preferia conhecer o mal por
experiência própria, Jesus é todo obediência a Deus, respondendo ao Tentador
com três frases da Escritura, para mostrar que obedecer a Deus está acima do
pão, do sucesso e do poder. Nenhuma realidade humana deve ter para nós mais
peso do que Deus. No fundo, o pecado é orgulho, achar-se mais importante que
Deus. Jesus faz o contrário. E assim fará quem é batizado em seu nome.
Na programação musical desta liturgia
observe-se a riqueza dos cânticos, especialmente do salmo responsorial (Sl. 51
[50]).
(*) Podemos dizer que o “pecado
original” é o mal moral que está na raiz de toda desordem moral do ser humano:
a auto-suficiência, a tentação de não reconhecer Deus como última palavra sobre
a vida. Mas esse mal foi vencido pela obediência de Jesus, que se uniu à
vontade salvadora do Pai até morrer por amor a nós.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Quero falar hoje dos primeiros capítulos da Bíblia, Gênesis 1–11. A liturgia
do primeiro domingo da Quaresma, de fato, nos apresenta a história de Adão e
Eva (cap. 2-–3 do Gênesis). Estes textos sempre causam muitos problemas, porque
são considerados em contradição com os dados da ciência. Apesar das altas
idades alcançadas pelos primeiros patriarcas (Matusalém!), tem-se a impressão
de que Adão viveu apenas uns vinte séculos antes de Abraão (Gn. 12). A ciência,
entretanto, recua milhões de anos para situar a aparição do primeiro ser que se
comportava como a gente. Para não falar da teoria que faz o homem descer do
macaco. Quem, então, está certo, a Bíblia ou a ciência?
A resposta está numa atenta
consideração dos 11 primeiros capítulos do Gênesis. Não pretendem narrar
nenhuma história científica. Na realidade, não falam do homem pré-histórico.
Falam da pessoa humana de hoje e de sempre. Quando se escreveu a Bíblia, não se
tinha a mínima noção de paleontologia e das outras ciências modernas que tentam
rastrear o trilho da espécie humana e dos outros animais... Não se conhecia tais
ciências, e isso tampouco interessava. O que interessava era compreender o
lugar do ser humano diante de Deus. Ora, visto sob este ângulo, Gn. 1–11 é uma
literatura maravilhosa.
Gn. 1,1–2,4a é um hino, que canta a
criação do universo no ritmo dos sete dias da semana. No primeiro dia, Deus
cria a luz. Onde está Deus, há luz. E no sexto dia, depois de todas as outras
criaturas, ele coroa seu trabalho criando o ser humano, homem e mulher, em
igualdade (mensagem muito revolucionária para aquele tempo, e ainda hoje). O
sétimo dia, o sábado, é o dia em que Deus cessa sua obra, e que o israelita
fiel santificará pelo descanso.
Os capítulos 2–11 narram, então, como
esse ser humano se relaciona com seu Deus. Gn. 2,4b–3,24, é uma história
didática acerca do primeiro casal humano, Adão e Eva. Ensina-nos que o mal não
vem de Deus, mas do próprio ser humano que se entrega ao desejo desmedido que
está à espreita, não debaixo de alguma árvore, mas dentro de seu próprio
coração: quer ser igual a Deus... (Gn. 2,5). Ele perde sua situação de príncipe
vivendo nos jardins do palácio de Deus (o “paraíso”), e sua vida fica marcada
pela negatividade, que se revela no sofrimento.
Uma outra história, Gn 4, conta como,
desde os inícios, a inveja torna as pessoas inimigos mortais: Caim e Abel. Mas
a história conta também como Deus protege Caim para que não haja vingança
interminável, que significaria o fim da espécie humana. E dá a Adão, que
representa a espécie humana, um outro descendente no lugar de Abel.
A história seguinte (Gn. 6–10) é a do
dilúvio. Inspira-se nas gigantescas enchentes que ocorrem na Mesopotâmia
(Síria, Assíria e Babilônia). Essas catástrofes são símbolos do mal da
humanidade degenerada (pela promiscuidade dos “filhos dos deuses”, aquelas
figuras que pululam no universo religioso pagão). Mas no meio dessa história
está a figura de Noé, no qual a humanidade é salva. A história termina com uma
bela lição tirada daquela maravilha que é o arco-íris: o arco-íris significa
que Deus faz um pacto para nunca mais exterminar a humanidade (= a “Aliança de
Deus com Noé”, Gn. 9,8-9).
A última dessas histórias é a da torre
de Babel (Gn. 11). Os israelitas conheciam as gigantescas torres-templos da
Babilônia, construídas em patamares sobrepostos e terminando numa plataforma
onde se ofereciam sacrifícios. Eram consideradas escadarias para chegar ao céu.
Mas não chegavam... O narrador ironiza essas torres dizendo que foram
interrompidas por causa da confusão das línguas, problema que complicava muito
a vida no império babilônico! Nenhuma ambição imperialista, quer da Babilônia,
quer de outro “império”, é capaz de unir a humanidade (“aldeia global”) e de
forçar o acesso ao lugar de Deus.
Embora apresentando a degradação humana, essas
histórias têm um final feliz. Deus está sempre presente e disposto a salvar sua
obra-prima, o ser humano (ver sobretudo a aliança com Noé, Gn 8,20-22; 9,8-17).
A infidelidade do ser humano não desvia Deus de seu caminho. Ele é fiel e
fidedigno (ver 2Tm 2,13).
padre Johan Konings
"Descobrir a
Bíblia partir da liturgia"
“Não só de pão vive
o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”
(Mt. 4,4b).
Primeira Leitura: Gn
2,7-9;3,1-7
“Deus sabe que no dia
em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão
e vós sereis como
Deus conhecendo o bem e o mal”. (Gn. 3,5).
Eva se deixou iludir pela serpente,
porque achou que estaria certo o que dela ouviu: ... vós sereis como Deus
conhecendo o bem e o mal”.
Antes do aparecimento da serpente, Eva
já se defrontava com a questão de sua liberdade: por qual motivo Deus proibira
comer daquele fruto? A liberdade com que Eva fora criada estava instigada pela
curiosidade pelo gesto de desobediência. Eva estava usando mal de sua
liberdade, dada por Deus para que ela fizesse o que Deus tinha mandado, pois
Deus não manda ninguém pecar: "Não mandou que ninguém fosse ímpio,
não deu a ninguém permissão de pecar" (Eclo. 15,20).
Com o aparecimento da serpente a
curiosidade de Eva aumenta, pois não tinha pensado que poderia ser igual a Deus
conhecendo o bem e o mal. Portanto Eva decide desobedecer a Deus e obedecer à
sua curiosidade e à sedução da serpente.
Mas Eva não estava sozinha no paraíso.
Adão chega e ela o convence de comer do fruto proibido.
Somente neste momento se dão conta de
terem desobedecido e se escondem de Deus.
Foi inútil. Deus que conhece não
somente o bem e o mal, conhecia o coração de Adão e Eva. Onde quer que eles
estivessem Deus os encontraria. E encontrando-os, Deus os puniu. Puniu por
necessidade, por amor e como foi por amor, foi por justiça.
Assim por meio de uma mulher e de um
homem, o gênero humano em sua origem, toda a humanidade ficou culpada e punida.
Deus lhes dissera que morreriam se comessem o fruto proibido. Portanto toda a
humanidade herda a morte do primeiro casal criado sobre a terra.
É o que são Paulo dirá na segunda
leitura de hoje: o pecado entrou no mundo por um só homem.
Através do pecado entrou a morte.
E a morte passou para todos os homens,
porque todos pecaram (Rm. 5,12).
Antes de comerem do fruto proibido nem
Eva nem Adão passavam fome.
No paraíso tinham alimento suficiente.
O pecado não foi de gula. Não foi de fome. Foi de desobediência à vontade de
Deus e esquecimento das consequências antes anunciadas.
Nesta Quaresma pensemos nos nossos
pecados. São de desobediência à vontade de Deus.
Portanto quando nos examinarmos para
uma confissão antes da Páscoa, passemos todos os mandamentos da Lei de Deus e
da Igreja.
Encontraremos aí nossas desobediências.
Delas nos arrependeremos, tendo certeza
do perdão de Deus, pois para isto Ele enviou seu filho: “Eu não vim chamar os
justos, mas sim os pecadores para a conversão” (Lc. 5,32).
Salmo responsorial
50(51),3-17.
Foi contra vós, só
contra vós, que eu pequei,
E pratiquei o que é
mal aos vossos olhos! [Sl. 50(51),6a].
O Salmo Responsorial descreve a trajetória
de todo pecador arrependido.
1. Constatado o pecado, o Salmo mostra
o arrependimento que motiva o pedido de perdão.
Mas não somente de perdão necessitamos.
2. Precisamos da Graça de Deus que nos
dá um coração novo, um coração puro.
3. Precisamos mudar nossa vida por um
espírito decidido.
4. Precisamos nos firmar no amor
agradecido a Deus.
5. Precisamos permanecer, perdoados,
diante da face de Deus: que Ele não a esconda de nós.
6. Precisamos voltar à alegria de viver
em União com Deus, única fonte de felicidade para todo ser humano.
7. E, por fim, precisamos ser gratos a
Deus: perdoados, com nossa alegria recuperada, com nossa segurança espiritual
reafirmada por um espírito decidido, cantaremos louvores a Deus.
Depois deste percurso, o relacionamento
normal com Deus fica restabelecido. Que não seja, jamais, perdido.
Aqui, neste Salmo, portanto, nos é dado
o itinerário da conversão, do retorno ao Pai.
Jesus não narra, na parábola do filho
pródigo, qual sentimento de alegria, paz, segurança que aquele filho recuperou
uma vez perdoado e amado por seu pai.
Isto cabe a nós descobrir em nossa
experiência pessoal, em nosso relacionamento pessoal com Deus, percorrendo o
itinerário que este Salmo Responsorial nos traça. Vamos segui-lo fielmente.
Que este Salmo seja nosso programa de
conversão nesta Quaresma, para nossa reconciliação feliz com Deus, mergulhados
no Seu amor de Pai.
Segunda leitura: Rm.
5,12.17-19.
O pecado entrou no
mundo por um só homem.
Através do pecado entrou a morte.
E a morte passou para todos os homens,
porque todos pecaram. (Rm 5,12).
Na Primeira Leitura consideramos como o
Pecado entrou no mundo pela desobediência de Eva e de Adão.
Nesta Segunda Leitura São Paulo nos
mostra isto também. Porém vai além.
Deus não quis, jamais, que a humanidade
permanecesse no pecado e sujeita à morte por culpa do primeiro casal criado
sobre a terra.
Deus quis que todo o gênero humano
fosse livre do pecado, de sua culpa, e da pena devida, a morte.
Em sua infinita justiça, nascida de seu
amor infinito por suas criaturas, Deus enviou ao mundo Seu Filho.
Convinha que um homem perfeitamente
obediente a Deus tirasse da humanidade a marca da culpa e o destino de morte.
Foi assim que o Filho de Deus se encarnou e recebeu um nome: “Salvador”, “Jesus
”.
São Paulo conclui:
“... como pela desobediência de um só
homem a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também
pela obediência de um só, toda a humanidade passará para a situação de
justiça”. (Rm 5,19).
Por “justiça” São Paulo entende o
estado de purificação do coração perante Deus.
Jesus a consegue para nós, de modo que
assim:
- possamos estar diante da face de Deus
[Sl. 50(51),13a],
- sem temer a morte,
- mas sentir a alegria da vida
exuberante proporcionada pela Graça divina.
Evangelho: Mt.
4,1-11.
“Não só de pão vive o
homem, mas de toda palavra
que sai da boca de
Deus” (Mt. 4,4b).
Tentado no deserto, depois de quarenta
dias e quarenta noites Jesus teve fome.
Ao contrário de Adão e Eva que no paraíso
não jejuavam, Jesus jejuou e sentiu fome.
O demônio não lhe apresenta um fruto
proibido, como apresentara a Eva e Adão.
Mas lhe propõe, insidiosamente, que
faça um milagre, “se for Filho de Deus” (Mt. 4,3b).
Jesus se encontra diante da fome, da
possibilidade de dar ouvidos ao tentador, de desobedecer à Lei de Deus.
Mas ao contrário de Eva e Adão, não
cede à fome, não cede ao tentador e não desobedece à vontade de Deus.
Pelo contrário, usa de sua inteligência
e sabedoria para dar a resposta exata ao tentador: “Não só de pão vive o
homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4,4b).
O que esta resposta de Jesus nos diz?
Pensemos devagar em suas palavras:
"Não só de pão vive o homem": isto é, o alimento material não é tudo.
Há uma vida a ser garantida não pelo pão material, mas pela sustentação divina
que somente Deus pode garantir. Era esta a vida que Adão e Eva tinham recebido
de Deus ao serem criados no paraíso. Esta vida eles jamais deveriam perder.
Mas de toda palavra: o que é “Palavra”?
Nesta frase de Jesus é o pão que alimenta, que faz a vida persistir sem
perspectiva de fim. Ora, deste modo esta palavra somente pode provir de Deus:
que sai da boca de Deus”.
Quando Deus criou Adão e Eva não se
contentou em dar-lhes a vida.
Faltava garantir a continuidade desta
vida no paraíso.
E isto Deus lhes deu por meio da
Bênção:
28 E Deus os abençoou
e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a;
dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que
rasteja pela terra”. 29 E disse Deus ainda: “Eis que vos dou todas as ervas que
dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que
há fruto que dê semente. Isso será vosso alimento” (Gn. 1,28-29).
Jesus, tentado, com fome, mas ainda com
forças para vencer a tentação, permanece vivo.
O jejum não o levou à morte.
Permanecer vivo foi, para Ele, a
confirmação da continuidade daquela vida que Deus prometera a Adão e Eva, por
efeito da bênção divina.
Jesus, portanto, jejuou, passou fome,
não morreu, e, mais importante de tudo, permaneceu sem pecar: cumpriu a vontade
de Deus mesmo em tempo de penitência e tentação. Foi em tudo diferente de Adão
e Eva.
Pensemos em nosso tempo de jejum na
Quaresma.
Seremos tentados a não jejuar e a não
comer carne.
Seremos tentados pelas tentações
cotidianas com que o inimigo nos persegue sempre.
Temos, porém diante de nós, tanto o
pecado de Adão e Eva como a obediência de Jesus Cristo.
Vamos imitar Jesus Cristo. Venceremos
as tentações, não faremos pecados e permaneceremos na União com Deus.
A Jesus que amamos, peçamos a conversão
de vida, o perdão de Deus de todos os nossos pecados presentes e
passados. Sintamos a alegria de sermos salvos, e cantemos a Deus seus
louvores [Sl. 50(51),17b].
padre Valdir Marques,
SJ
O primeiro domingo da Quaresma
inicia-se com Mateus citando a solidão de Jesus no deserto, após ser batizado
por João. Fortalecido pela presença do Espírito de Deus, Jesus é submetido a duras
provas propostas pelo demônio que questiona a sua atitude filial para com Deus,
tentando desestabilizá-lo.
Diabo é uma palavra grega que
representa uma pessoa ou situação que lança uma coisa no meio para separar, e
diabólica é a ação que separa, que cria divisões.
As tentações acontecem no deserto –
lugar das dificuldades, necessidades e injustiças pelas quais passou o povo
hebreu ao sair do Egito, uma vez chamado por Deus para colaborar na construção
de uma nova sociedade. E é no deserto que Jesus permanece por quarenta dias e
quarenta noites, retomando assim a história de seu povo que permaneceu ali
quarenta anos antes de ingressar na Terra Prometida.
Mateus descreve três situações em que
Jesus é tentado a forjar a sua missão e trair o plano de justiça de Deus: na
abundância, no prestígio e, no poder e na riqueza.
Ao resistir as tentações do demônio,
Jesus sela definitivamente o seu compromisso com Deus e com a sua justiça.
A quaresma é um tempo de preparação, de
meditação e, com isso, momento de perceber a injustiça que é fruto do acúmulo
dos bens da 1ª tentação, da busca de prestígio da 2ª tentação, e da
concentração do poder da 3ª tentação.
A igualdade para todos precisa ser uma
prática, mas que só pode acontecer quando os homens crerem que é possível mudar
os rumos da sociedade, onde alguns são privilegiados à custa da ignorância, da
manipulação e da omissão de muitos.
Pequeninos do Senhor
A provação do filho
do homem
A cena das tentações, inserida no
início da vida pública de Jesus, é um claro indício de que o exercício de seu
ministério seria pontilhado de provas e dificuldades. Na aritmética teológica
da época, que consistia em atribuir valor simbólico-teológico aos números, o
número três designava a constituição do ser humano (espírito - alma - corpo). A
tríplice tentação significava que Jesus, enquanto ser humano, seria submetido a
contínuas provações, pelas quais teria chance de dar provas de sua absoluta
fidelidade a Deus. De fato, até os instantes finais de sua caminhada terrena,
Jesus viu-se tentado.
O tentador insistia sempre no mesmo
ponto: "Se você, de fato, é Filho de Deus", passando a fazer-lhe
propostas extravagantes. Com isto, pretendia levar Jesus a exigir do Pai uma
manifestação desnecessária de sua providência, bem como levá-lo a oferecer
espetáculos formidáveis com os quais atrairia a atenção sobre si, granjeando a
admiração das multidões, mas também o risco de ser vítima do orgulho e da
vaidade.
As tentações foram capciosas. Com uma
interpretação superficial, podiam parecer inocentes, sem maiores conseqüências.
Só uma leitura arguta, como a de Jesus, foi capaz de desmascará-las e revelar
as verdadeiras intenções do tentador.
O fato de vencer as tentações já foi um
primeiro sinal da fidelidade de Jesus ao Pai. Por ser Filho de Deus,
recusava-se a exigir do Pai manifestações insensatas de amor.
padre Jaldemir
Vitório
Jesus não permite que a voz do mal ressoe nele
Os domingos do tempo
da Quaresma são como que etapas que nos preparam para a celebração do mistério pascal
de Jesus Cristo. O tempo da Quaresma deve ser marcado por uma dupla
característica: deve ser a ocasião para recordarmos o nosso Batismo e a vocação
a que somos chamados pela graça desse mesmo Batismo, e tempo para a penitência,
isto é, o desejo e o consequente esforço de verdadeira e profunda conversão
para que possamos tirar do mistério pascal de Jesus Cristo toda a sua riqueza.
O autor do segundo
relato da criação do livro do Gênesis tem a preocupação de responder à seguinte
pergunta: se tudo o que Deus criou é bom, por que existe o mal? Por que, muitas
vezes, o mal domina sobre o ser humano? Em primeiro lugar, o autor afirma a
bondade de Deus. Deus chama o ser humano à existência; Ele pôs o seu próprio
“sopro” no ser humano (2,7b). O homem, tirado do pó, é obra do coração de Deus,
do seu amor. No jardim que Deus plantou havia tudo o que o ser humano precisava
para realizar-se como plenamente humano. No entanto, enigmaticamente, aparece a
serpente, símbolo do mal do homem; ela aparece como uma força de sedução que
distorce o mandamento de Deus e leva o ser humano a negar a sua própria
condição de criatura e, portanto, a negar sua referência a Deus. É o mal que,
segundo o nosso autor, coloca no coração do ser humano a suspeita com relação a
Deus. O mal desumaniza na medida em que leva a negar-se a qualidade de criatura
e sua referência ao Criador. O ser humano é colocado diante da alternativa pela
qual deve decidir: confiar em Deus ou se deixar levar pela sedução do mal.
Infelizmente, o primeiro homem se deixou envolver pela sedução do mal.
O relato das
tentações de Jesus segundo Mateus é um sumário das tentações que acompanharam
Jesus ao longo de toda a sua vida. Ao contrário do primeiro ser humano, Jesus
não permite que a voz do mal ressoe nele. Pela apropriação da Palavra de Deus,
por sua comunhão com o Pai, ele vence o mal; ele vence o mal pela confiança
inabalável em Deus. As tentações de Jesus dizem respeito à sua filiação divina
e à sua missão. É na sua condição de Filho de Deus e em relação ao seu
messianismo que Jesus é tentado. Jesus não se prosterna diante do mal, pois sua
vida está profundamente enraizada em Deus; somente a Deus ele adora. Foi por
nós que Jesus venceu as tentações.
Carlos Alberto Contieri,sj
O deserto é o lugar de purificação e decisão
Na tradição do Êxodo,
no Primeiro Testamento, o deserto é o lugar de purificação e decisão, em um
processo de mudança de vida. As condições ambientais de despojamento, próprias
do deserto, são propícias à reformulação de valores pessoais ou comunitários,
previamente assumidos. Assim, o povo hebreu, conforme a tradição, ao sair do
Egito, permaneceu quarenta anos no deserto, que serviram como preparação para
as novas condições de vida na "terra prometida", que invadiram
exterminando os povos que aí habitavam. Os três evangelistas sinóticos, fazendo
analogia com os episódios ma saída do Egito, narram que Jesus, após receber o
batismo de João, passou também "quarenta dias" no deserto, como um
tempo de provação. O agente da provação é o diabo, que propõe a Jesus,
sucessivamente, que transforme pedras em pães, que se prostre diante dele e que
se lance do alto do Templo. Estas tentações delineiam o perfil do messias
glorioso: promessa demagógica de pão para todos, ostentar-se como o protegido
pelo poder divino, e assumir o poder sobre todos os reinos do mundo. Assim, o
evangelista associa tal messias ao projeto do diabo. E a "tentação"
de Jesus exprime um momento de decisão de Jesus pelo início de seu ministério,
optando por suas linhas mestras: Jesus vem para instaurar o Reino da partilha,
da humildade e do serviço, com a comunicação do amor de Deus a todos os povos,
sem exclusões. A quaresma é o tempo propício a um maior amadurecimento da fé em
Jesus, que toca os corações por sua palavra. É a palavra humilde e amorosa que
tem a força transformadora renovando a vida no mundo, pela prática da justiça e
pela fidelidade à vontade do Pai que quer vida plena para todos. Fica assim
removido o pecado do mundo (primeira e segunda leituras), libertando-o da dominação
dos adoradores do dinheiro e do poder.
José Raimundo Oliva
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