3º DOMINGO DA DA PÁSCOA
30
de Abril de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Lc 24,13-35
· Os discípulos tristes e cabisbaixos a caminho de
Emaús, não perceberam quando ...o
próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar do lado deles. Os
discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. Continuar lendo
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"FICA CONOSCO, POIS JÁ É TARDE..." Olivia Coutinho
3º DOMINGO DA PÁSCOA
DIA 30 De Abril de 2017
Evangelho de Lc24,13-35“
Quantas vezes, caminhamos sem rumo, sem motivação e no declinar do
dia sentimos cansados, desanimados, pois não chegamos a lugar nenhum.
Quando a nossa vida começa a perde o sabor, quando nossos passos já
não nos levam a lugar nenhum, é sinal de que não estamos reconhecendo a
presença de Jesus junto de nós, de que está nos faltando algo
imprescindível para o nosso bem viver, o alimento que nos sustenta
verdadeiramente que é a fé. É a fé que nos fortalece, que mantém viva a nossa
esperança, que nos aponta horizontes! A fé movimenta a nossa
vida, nos segura nos momentos de desolações, nos matem de pé nos vendavais da
vida!
O evangelho que a liturgia deste terceiro Domingo da Páscoa nos
convida a refletir sobre a importância de confiarmos nas palavras de
Jesus. Foi o que faltou para dois discípulos de Jesus, que não vendo
mais razões para permanecerem em Jerusalém, após a morte do seu Mestre e
Senhor, decidem retornar para Emaús, um povoado distante onze
quilômetros de Jerusalém.
Tristes e porque não dizer, decepcionados com tudo que acontecera com Jesus, a quem eles haviam depositado o destino de suas vidas, eles deram como encerrada, aquela história de amor.
Tristes e porque não dizer, decepcionados com tudo que acontecera com Jesus, a quem eles haviam depositado o destino de suas vidas, eles deram como encerrada, aquela história de amor.
Enquanto comentavam entre si o acontecido, Jesus
se ajuntou a eles no caminho para Emaús e logo entrou na conversa, mas eles não
o reconhecera de imediato, estavam como que cegos, carregando dentro de
si, um Jesus morto.
Como podemos perceber, esses discípulos, havia perdido a esperança
muito rápido, um sinal de que eles não haviam confiado no que Jesus lhes
dissera pouco antes de sua morte: “O filho do homem vai ser entregue nas mãos
dos homens. Eles o matarão, mas no terceiro dia ele ressuscitará.” Mt 17,22-23.
A falta de fé destes dois discípulos, intitulados como discípulo de
Emaús, ofuscou os seus olhos diante o Jesus vivo que caminhava com eles,
levando-os a confundi-lo com um forasteiro. Jesus só foi
reconhecido por eles, no momento em que Ele partiu o pão. Foi a partir
deste instante, que os seus olhos se abriram e eles puderam vivenciar a
alegria de estarem diante do Cristo Ressuscitado!
Movidas pela alegria do reencontro com Jesus , eles tomam o caminho
de volta, indo falar com os outros
discípulos sobre a experiência que tiveram com o Cristo Ressuscitado!
Estes dois discípulos que demoraram tanto para reconhecer Jesus,
representam todos os que ainda não tem uma fé consistente, os que perdem
a esperança facilmente, que se dão como vencidos diante a um suposto
fracasso.
Que esta lentidão dos discípulos de Emaús, não se repita conosco,
que nós não sejamos cegos, lentos, para perceber a presença de Jesus em nossa
vida!
Busquemos sempre nos alimentar na fé, pois é a fé que nos faz
enxergar a presença do Cristo Ressuscitado caminhando junto de nós!
A narrativa nos desperta também, sobre a importância de
buscarmos sempre um jeito atencioso de viver a fé, chama a nossa atenção para
algo que quase não praticamos nas nossas relações humanas: o ouvir o outro, o
caminhar com ele, o conhecer a sua história, seus sonhos, reconhecer nele, a
presença do próprio Cristo! Foi isto que Jesus fez ao caminhar com os
discípulos de Emaús, Ele falou, ouviu, inteirou-se...
Muitos de nós, somos indiferentes ao outro, até mesmos dentro de
nossas próprias casas,quantos filhos
mal se falam com seus pais, quantos pais não reservam tempo para dialogar com
os filhos, estamos sempre
apressados e com isso, muitas vezes, não temos tempo para perceber no outro a
presença do Cristo Ressuscitado.
A nossa missão nasce a partir do nosso encontro pessoal com o
Cristo Vivo e cresce à medida do nosso envolvimento com Ele, através das
nossas relações humanas.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Jesus
ressuscitado caminha conosco
A fé na Ressurreição não deve ser
reduzida a uma pura experiência mística, muito menos a uma espécie de um mito
ou conto a ser passado adiante pelos séculos afora. É sim, uma experiência que
se evidencia através de compromissos de vida (1ª leitura) e toma forma em
atitudes concretas (2ª leitura). Dessa feita, a vivência da solidariedade e da
partilha é a tradução concreta do reconhecimento de que Jesus é o nosso mestre
e continua vivo. Ele disse: “vocês serão meus discípulos se fizerem o que eu
peço de vocês” (Jo 15,14).
1ª
leitura: Atos 2,14.22-33
O anúncio
da fé no ressuscitado gera conversão
A essência do conteúdo desse
discurso de Pedro aparece outras vezes no livro Atos dos Apóstolos (cf. At.
4,8-10), porque constitui a síntese básica do anúncio da fé Cristã, o kerígma.
Vejamos o conteúdo desse texto.
a) A atitude de liderança:
“Pedro, de pé, junto com os onze discípulos, levantou a voz, falou à multidão”
(At. 2,14). A iniciativa da manifestação de Pedro é uma atitude que revela sua
firme liderança; trata-se de uma postura que sempre tomará nos momentos
solenes, em situações de conflito, em momentos de discernimento e em outras
circunstâncias de pressão externa. Ele encarna as atitudes de Jesus na
liderança dos seus discípulos: Pedro é autoridade movida pelo entusiasmo da Fé
no Ressuscitado; “de pé” e com “voz alta”, revelam uma atitude de coragem, de
firmeza, de consciência da própria liderança gerindo o direito-dever de
posicionar-se em nome da comunidade dos discípulos. O número indicado nos faz
pensar em 12 (Pedro mais os outros onze – cf. At. 2,14); isso quer dizer que
Matias (cf. At. 1,23-26) já tinha se inserido no grupo substituindo Judas
Escariotes, o traidor que, após a trair Jesus, enforcou-se (cf. Mt. 27,5);
“junto com os onze”, indica senso de comunhão; quer dizer que Pedro não é um
líder isolado e seu serviço de liderança, está profundamente comunhão dele com
os demais e dos outros com ele.
b) Conteúdo do discurso: Jesus
Cristo, homem aprovado por Deus em milagres, prodígios e sinais; foi morto
pelos judeus, pregado numa cruz; mas Deus o ressuscitou, pois não era possível
que a morte dominasse sobre ele. O filho de Deus encarnado é solidário conosco
na morte, pois é Deus conosco... Mas em sua divindade, enquanto Deus imortal, é
a fonte da Vida (cf. Rm. 1,23; 1Tm. 6,16; 1Pd. 1,23). Por isso, em tudo, tem
última palavra. Essa é alegria dos apóstolos quando dizem: “disso nós somos
testemunhas”! Pedro não faz uma narração fria da história de Jesus Cristo, mas
ao fazer breve memória de sua história, vai simultaneamente tirando lições que
se tornam um convite à sensibilização dos seus ouvintes. Dessa forma diz com
clareza: “foi um homem aprovado por Deus” – convite implícito: sejam bons
também! (At. 2,22); “isso aconteceu entre vós”; “vós bem o sabei” - convite
implícito: tomem consciência!; “vós o matastes” - convite implícito:
arrependam-se! (cf. At. 2,22-23). O anúncio do evangelho não é uma atividade
ideológica, mas um projeto de vida anunciado que deve promover a conversão;
para que isso aconteça é necessário que o ouvinte seja sensibilizado.
Nossa
vida
Algumas lições práticas para a
nossa vida:
a) A primeira diz respeito ao
papel da liderança: o líder movido pela consciência da missão recebida é aquele
que “se levanta”, “toma iniciativa”, “fica em pé” e, também, de acordo com os
contextos, deve ter a coragem de “levantar a voz” diante dos desafios; ou seja,
que age com segurança, clareza, que não foge por medo; o líder é aquele que
zela pela comunhão do grupo em torno de um mesmo projeto de vida.
b) A unidade da história de
Jesus: vários são os conteúdos que compõem o anúncio salvífico: encarnação,
vida, paixão (sofrimento), morte de cruz, ressurreição de Jesus. Com essas
palavras Pedro sintetiza os mistérios da Vida de Jesus, o mesmo mistério revelado
e rejeitado. A tônica acusativa de Pedro visa gerar nos ouvintes, a
sensibilização, o arrependimento e a conversão. A escuta com fé da Palavra de
Deus também deve nos levar às mesmas atitudes. A Palavra de Deus sempre nos
chama à revisão de vida. Não basta escutarmos a narração da história completa
de Jesus; esse anúncio deve nos levar à inquietude e a partir daí, a uma
mudança de vida, ou seja, uma tomada de compromisso que deriva da fé no
ressuscitado. Anunciar Jesus ressuscitado, a fé na ressurreição, significa
proclamar o sentido da vida rejeitando todo e qualquer sinal de morte.
SALMO 17 (16): Este salmo é uma
forte súplica a Deus de um fiel que está passando por uma situação de grande
ameaça por seus inimigos (cf. Sl. 17,1.7.8-12). Apesar de perseguido, o
salmista tem consciência do seu bem-viver e da sua fidelidade, dizendo: “eu
observei os caminhos prescritos, meus pés não vacilaram, meus passos ficaram
nas tuas pegadas” (cf. Sl. 17,4-5). Sua fé em Deus alimenta sua esperança
de total libertação: “Quanto a mim, com justiça verei a tua face; ao despertar,
eu me saciarei com a tua imagem” (cf. Sl. 17,15).
2ª
leitura: 1 Pedro 1,17-21
Invocar a
deus como pai, exige comunhão com ele
Pedro chama atenção de seus
destinatários para uma idéia básica: quem invoca a Deus como Pai deve, ser
consequente e respeitar a Deus. Essa é uma atitude de filho. A palavra
“respeito”, aqui mencionada, não significa aquela certa atitude de distância e
prudência diante do outro, mas é, sobretudo, sinônimo de comunhão, de sintonia
afetiva e efetiva, de mente e coração. Quem respeita a Deus, entra em comunhão
com Ele. Logo, como consequência, como sinal de fé, se esforça para testemunhar
com suas atitudes que, sua “fé e esperança, estão em Deus” (1Pd 1,21). Como
menciona Pedro, não se afeicionará mais a uma vida fútil (cf. Pd 1,18)
desapegando-se do seu passado e de toda e qualquer atitude que não honre o
sacrifício da cruz (cf. Pd. 1,19). Nossa comunhão com Deus nos convoca a nos
opor a tudo aquilo que não se harmoniza com o ser-quer de Deus.
Nossa
vida
“A fé sem obras é morta” (Tg.
2,26): temos sempre muita dificuldade de traduzir o nosso culto em compromissos
concretos. Nossas liturgias, muitas vezes, ornamentadas por preces e louvores,
cântico e coreografias, flores e incenso, às vezes, morrem logo que saímos do
templo e continuamos a nossa vida normal como se nada tivesse acontecido.
Continuamos com os mesmos problemas, padecemos com as mesmas limitações,
seguimos com as mesmas idéias. Talvez porque vamos à Igreja ou rezamos formalmente,
por hábito! E o novo!? Na verdade a fé é compromisso, nunca deveria ser
reduzida a costume. Não basta a Fé... é preciso vida espiritual,
espiritualidade... A fé deve provocar em nós um dinamismo de inquietudes capaz
de nos motivar a abraçar processos de crescimento, de autodesafios de
“passagem” (transformação), de luta de perseverança no bem. A fé não deveria
jamais ser um momento de oásis espiritual-litúrgico uma vez por semana, mas sim
uma experiência mística contínua que alimenta a qualidade do nosso cotidiano
nos proporcionando subsídios para nos estimular a tomar decisões em sermos mais
sensíveis, honestos, solidários, verdadeiros, justos... profetas capazes de
provocar inquietudes, processos de transformação social. Pois “se alguém pensa
ser piedoso, mas não refreia a sua língua e engana o seu coração, então é vã a
sua religião. A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é
esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da
corrupção deste mundo” (Tg. 1,26-27).
3ª
Evangelho: Lc 24,13-35
Na
partilha solidária nos reconhecemos como discípulos de Jesus
Esta maravilhosa narração é muito
rica em detalhes. Fiquemos com os aspectos mais relevantes e objetivos do
texto.
A situação dos dois discípulos:
eles caminham rumo ao povoado de Emaús, estão muito entristecidos, como que
cegos, presos ao passado (conversam e discutem sobre o que aconteceu em
Jerusalém), assustados, decepcionados, desiludidos e trazem na mente idéias
errôneas a respeito de Jesus Cristo. Conforme dizem para eles Jesus é um
simples profeta, um messias que lhes deu esperança de libertação política.
Justamente essa tinha sido uma das idéias que em diversas ocasiões Jesus tinha
combatido. Não haviam assimilado o ensinamento em sua essência!
A intervenção de Jesus: Jesus se
aproxima discretamente, os interroga, escuta com paciência caminhando,
acompanha... e, percebendo a errônea mentalidade deles os corrige com firmeza e
liberdade (diz-lhes: “como sois sem inteligência, lentos para crer...” – Lc.
24,25), baseando-se nas Escrituras... A formação desce ao fundo de seus
corações e os provoca à mudança de mentalidade, de atitude: deixam de se
lamentar...desaparece a tristeza, esquecem o passado dramático, olham para
frente...
A experiência da partilha do pão
– a Eucaristia: chegando ao povoado os discípulos convidam Jesus para estar com
eles; na hora das refeições Jesus tomou o pão, abençou-o, partiu-o e distribuiu
a eles; “nisso os olhos dos discípulos de abriram e eles reconheceram Jesus”
(Lc. 24,31). A Eucaristia é memória-encontro com Jesus... escondido em seu
mistério!
O retorno a Jerusalém: “naquela
mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém” (Lc. 24,33).
Significa, o retorno às origens, é o reencontro com a comunidade. A Eucaristia,
quando celebrada autenticamente, nos estimula a ir ao compromisso
comunitário... comunhão!
Nossa
vida
Os discípulos desiludidos
representam a humanidade sem fé, frustrada, enfraquecida, decepcionada com seus
sonhos errantes, enganosas ilusões, sem esperança que vaga sem rumo
distanciando-se do centro da experiência da fé no ressuscitado (Jerusalém),
aquele que nos dá a esperança da Vida Eterna e nos confere um sentido para esta
vida. O afastamento de Jerusalém é um aspecto significativo. Em Jerusalém está
o testemunho do ressuscitado, o sepulcro vazio, a comunidade dos apóstolos...
Afastar-se de Jerusalém significa desviar-se da Fé que dá um sentido diferente
para a vida. Sem fé a existência humana fica sem perspectiva de futuro e tudo
termina na morte como um fracasso que aniquila os sonhos todos. Quando deixamos
de lado a alimentação da nossa fé, andamos murmurando da vida, desiludidos e em
direção oposta ao nosso bem.
Jesus acompanha a humanidade
errante, sua presença é discreta e, inicialmente, imperceptível, mas nunca nos
deixa sozinhos em nossas estrada e crises. O início do processo de mudança que
conduz à experiência da fé começa no ato da acolhida da pessoa de Jesus (mesmo
ainda não reconhecido como tal). Esses dois discípulos, abatidos como estão,
não rejeitam aquele “peregrino” que se aproxima deles, e assim caminha com
eles, os escuta, finge ser ignorante - “tu és o único peregrino em Jerusalém
que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?” (Lc. 24,28”). Também hoje
Jesus de tantas formas se aproxima de nós e quer caminhar conosco, mas nem
sempre o reconhecemos... Caminhando com a Palavra de Deus, ele também nos
educa.
A experiência da partilha e da
solidariedade é a tradução concreta da nossa fé em Jesus Ressuscitado. A
Eucaristia é o compromisso no qual assumimos a experiência da partilha e da
solidariedade como carimbo de autenticação de Jesus como nosso mestre.
Antônio
de Assis Ribeiro - SDB (Pe. Bira)
Na primeira leitura de Atos, encontramos Pedro
pronunciando sua primeira pregação pós-pascal, dirigida, tanto aos judeus
presentes, como a todos os habitantes de Jerusalém. O sermão é do tipo
kerigmático, com a apresentação de três aspectos da vida de Jesus, que compõem
a profissão de fé mais antiga do cristianismo: um Jesus histórico, confirmado
por Deus com milagres, prodígios e sinais; sua morte a mando das autoridades
judaicas e, finalmente, sua ressurreição, realizada por Deus para a salvação de
toda a humanidade.
Pedro termina seu discurso com um selo de autenticidade:
de tudo isto “nós somos testemunhas” (Atos 2,23). Crer em Jesus ressuscitado
era reconhecê-lo como Messias, o que, segundo as Escrituras, abria portas para
sua segunda vinda e no final dos tempos. Isto explica as atitudes de
recolhimento e medo que leva os discípulos a se fecharem à base de chave.
Contudo, Pentecostes muda para sempre as coisas,
pois antes do medo do fim do mundo, o Espírito indica que o mundo está apenas
no começo e que a Igreja nascente tem o compromisso de contribuir na reconstrução
deste mundo com a chave do amor. Assim começou a missão da Igreja, combinando
os medos do fim do mundo, a alegria, o otimismo e o compromisso de fazer com
que a cada manhã o mundo renasça com mais amor, mais justiça e paz.
A referencia à primeira comunidade cristã nos faz
descobrir a importância que a práxis do amor e da solidariedade teve no
surgimento do cristianismo. Não foi sem mais uma teoria, mas uma mudança de
vida, uma práxis, uma transformação social, o que estava em jogo. Importante
ter isso presente, quando tantos pensam que o cristianismo é questão de
aceitação intelectual de um pacote de verdades, teorias e dogmas.
Na segunda leitura, o apóstolo Pedro convida a
manter a fidelidade a Deus em situação de desterro, exclusão, marginalidade, porque
Deus, em um novo Êxodo, nos liberta de uma sociedade submetida a leis injustas
e desumanas, que protegem somente quem paga com ouro ou prata. Esta libertação
foi assumida por Jesus com o selo de seu próprio sangue, como uma opção de
amor, consciente e voluntária, pelos homens e mulheres do mundo inteiro.
O preço que devemos pagar a Jesus por tanto
generosidade, não é com ouro e prata, mas dando vida aos irmãos que continuam
morrendo, vítimas da injustiça e da desumanização. Isto será realmente “devolver
com a mesma moeda”.
No evangelho, os discípulos que não eram do grupo
dos onze (v.33) dirigem-se a Emaús. Provavelmente trata-se de um homem e uma
mulher, casados, (havia também mulheres discípulas), que retornavam à sua casa,
frustrados por causa dos últimos acontecimentos da capital. Enquanto
conversavam, Jesus se aproxima e começa a caminhar com eles, pois é o Emanuel.
Porém, eles não conseguem reconhecê-lo, seus olhos estavam como que fechados.
Por quê? Porque no fundo ainda tinham a idéia de um
messias profeta-nacionalista, que conquistaria o mundo inteiro para ser
dominado pelas autoridades de Israel, um messias necessariamente triunfador.
Por isso estavam vendo na cruz e na morte do mestre, o fracasso de um projeto
no qual haviam posto suas esperanças.
Serão as Escrituras as primeiras sinais de
esperança que Jesus coloca nos olhos do coração dos discípulos, para que possam
ver e entender que não é com o triunfalismo messiânico, mas com o sofrimento do
servo de Javé que se conquista o Reino de Deus; um sofrimento que não é
masoquismo, mas um assumir conscientemente as conseqüências da opção de amar a
humanidade, atitude difícil de entender em uma sociedade dominada pelo poder de
domínio que mata a quem se interpõe no caminho. Pela vida, até dar a própria
vida, é o testemunho de Jesus diante dos seus dois companheiros.
O relato dos discípulos de Emaús é uma peça
belíssima, evidentemente teológica, literária. Não é, em absoluto, uma narração
ingênua, direta, de um acontecimento, como se fosse um fato jornalístico. É uma
composição elaborada, simbólica, que quer transmitir uma mensagem. E como todo
símbolo, não leva consigo um manual de explicação, mas permanece “aberto”, isto
é, é suscetível de múltiplas interpretações. E a partir de cada novo contexto social,
em cada novo momento da historia, os crentes podem confrontar-se com esses
símbolos e deles extrair novas lições.
Postal
Clarete
“Ao repartir o pão, reconheceram
Jesus!”
(...) dois dos discípulos estavam a caminho de um
povoado, chamado Emaús, distante uns doze quilômetros de Jerusalém. Eles
conversavam sobre todos estes acontecimentos. Enquanto conversavam e discutiam,
o próprio Jesus se aproximou e pôs-se a acompanhá-los. Seus olhos, porém,
estavam como que vendados e não o reconheceram. (...) Quando se aproximaram do
povoado para onde iam, Jesus fez menção de seguir adiante. Mas eles o obrigaram
a parar: “Fica conosco, pois é tarde e o dia já está terminando”. Ele entrou
para ficar com eles. E aconteceu que, enquanto estava com eles à mesa, tomou o
pão, rezou a bênção, partiu-o e lhes deu. Então, abriram-se os olhos deles e o
reconheceram (...) ao partir o pão.
Estamos ainda vivendo o período Pascal. O tempo
Pascal vai até o Domingo de Pentecostes, por isso dizemos que hoje é o terceiro
Domingo da Páscoa e não o terceiro Domingo depois da Páscoa.
Mais uma vez nos reunimos para meditar nossa
caminhada junto com Jesus. Infelizmente, nem sempre nos lembramos disso. Parece
coisa de ficção ou lenda dizer que Jesus caminha conosco.
Apesar das dificuldades para percebermos Jesus
andando ao nosso lado, nós vamos caminhando. O caminho é cheio de altos e
baixos, com momentos de esperança, alegria e tristeza; momentos de entusiasmo e
depressão. Muitas vezes, desesperançados como os discípulos de Emaús.
Neste evangelho, eles caminham sem esperança. Falam
dos acontecimentos tristes dos últimos dias. Alguém cruza com eles na caminhada
e quer saber a razão de tanta tristeza. Com a voz embargada contam o ocorrido,
choram a ausência do Mestre, mas não reconhecem Jesus naquele estranho.
Como demoramos para perceber a presença de Jesus.
Esses dois tinham convivido com Jesus por tanto tempo. Sabiam que Ele era o
Messias prometido. Ouviram suas pregações, acompanharam tantos e tantos
milagres. Eles viram Jesus fazer coisas incríveis e, mesmo assim, parece que
tudo isso não foi suficiente para acreditarem.
Recentemente Jesus lhes havia dito que deveria
sofrer, morrer e ressuscitar dos mortos e eles se esqueceram. Por isso, levaram
um tremendo “puxão de orelhas” do Mestre. Tiveram que ouvir estas palavras:
“Como vocês custam para entender, como demoram a acreditar em tudo o que os
profetas falaram!”
O evangelista nos diz que um dos discípulos
chama-se Cléofas. O nome do outro não sabemos. É provável que Lucas não tenha
mencionado quem seria o outro discípulo, justamente para que, cada um de nós
possa colocar-se em seu lugar.
Seríamos nós esse parceiro de viagem de Cléofas?
Quantas vezes seguimos nossa estrada desanimados e desesperançados. Outras
vezes choramos, lamentamos, falamos até perder o fôlego, porém, sem levar fé e
sem transmitir esperança aos que caminham ao nosso lado.
A fé vem aos poucos, é um crescimento diário, um
processo lento. Leva tempo, porque não depende só do conhecimento. Fé é um
compromisso de vida. Ao explicar-lhes a escritura, Jesus devolve à esses homens
a confiança, a alegria da fé e da esperança no Messias.
Se de fato acreditarmos, entendermos e vivermos a
escritura, nós seremos excelentes companheiros de viagem, ótimos companheiros
de caminhada. A longa jornada será recompensada pela alegria do reencontro com
o Messias.
Chegando ao vilarejo, sentam-se à mesa e no
instante em que o misterioso viajante parte o pão, eles o reconhecem. Eles vêm
naquele estranho o Mestre partindo e repartindo o alimento. Esse gesto resume
toda a vida de Jesus.
Tudo em Jesus sempre foi doação. Doação do pão
multiplicado, das curas, do perdão, da misericórdia, do pão da Palavra que
salva; enfim, doação da sua própria vida, sacrificada na cruz. Foi na partilha
que os discípulos reconheceram Jesus.
O mesmo deve acontecer conosco. O cristão que não
vive a partilha torna-se irreconhecível. Passa despercebido pelos irmãos. Só
através da partilha poderemos encontrar e apresentar Jesus.
Ao partilharmos o pão material, o pão do
acolhimento, da escuta, do perdão e da presença constante junto aos menos
favorecidos, nossos companheiros de viagem poderão reconhecer em nós o Cristo
Ressuscitado.
O testemunho é luz que clareia os ambientes, é a
chave que abre os corações para a fé, para a esperança e para o amor de Deus.
Por isso vamos gritar bem alto o que o evangelho de hoje nos diz: Jesus
ressuscitou e Caminha conosco!
Jesus está presente no nosso dia-a-dia, é solidário
em nossas lutas e dificuldades. Celebra conosco o seu Banquete e se faz
alimento na Eucaristia. Jesus está permanentemente ao nosso lado e podemos
testemunhá-lo através deste convite: “Fica conosco, Senhor!”
Jorge Lorente
No Evangelho, o Peregrino aponta aos discípulos de
Emaús o caminho para reconhecer o Cristo Ressuscitado (Lc. 24,13-35)
Os discípulos estão tristes, desanimados,
decepcionados, frustrados, abandonam a comunidade e voltam para casa, dispostos
a esquecer o sonho. Aguardavam um Messias glorioso, um Rei poderoso, um
Vencedor e encontram-se diante de um derrotado, que tinha morrido na cruz.
Aparece um peregrino, que caminha com eles e
começam a falar do assunto do momento: Jesus, Profeta poderoso em obras e
palavras, diante de Deus e dos homens, mas que teve um fim inesperado...
O Peregrino interpreta as escrituras, que falam do
Messias. Eles escutam com interesse e seus corações começam a
"arder".
No final da tarde, os discípulos chegam em casa e
fazem um convite: "Fica conosco". Querem prolongar a agradável
companhia. Após ter acolhido a palavra do Peregrino, lhe oferecem
hospedagem em sua casa e Ele aceita não apenas para "passar a noite",
mas para "ficar com eles".
À mesa: um gesto conhecido: o mesmo gesto da última
ceia, quando Jesus instituiu a Eucaristia. Os olhos se abrem e reconhecem o
Ressuscitado... A Palavra faz "arder" o coração, a fração do Pão faz
"abrir os olhos". E Cristo desaparece porque agora a comunidade já
possui os sinais concretos de sua presença: a sua palavra e o pão partilhado.
Agora é só testemunhar. E partem logo para anunciar a descoberta aos irmãos e,
junto com eles, proclamam a fé: "O Senhor ressuscitou." A Proclamação
da alegria pascal não pode esperar o dia amanhecer. A escuta atenta da Palavra
e o repartir do pão abre os olhos e impulsiona para a missão.
Onde encontrar o Ressuscitado? O episódio de Emaús
nos aponta o caminho:
- na palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada,
acolhida, Jesus nos indica caminhos, nos aponta novas perspectivas, nos dá a
coragem de continuar, depois de nossos fracassos. Acolhem a Palavra do
Peregrino e lhe oferecem hospedagem em sua casa;
- na partilha do pão eucarístico.
A narração apresenta o esquema da missa: liturgia
da Palavra e do Pão.
É na celebração comunitária da eucaristia, que nós
fazemos a experiência do encontro pessoal com Jesus vivo e ressuscitado.
Na comunidade: a comunidade sempre foi e continua
sendo o lugar privilegiado do encontro... (experiência dos discípulos... e de
Tomé...)
O Caminho de Emaús
Muitas vezes, também nós andamos pelos caminhos da
vida, "tristes", cansados e desiludidos... Caíram os nossos castelos
e a vida parece ter perdido sentido. Esperávamos tanto... mas tudo terminou...
(quem sabe lá... a morte de um parente amigo, um fracasso em nossos
empreendimentos... a família desunida...) É triste quando a esperança morre...
Parece nada mais ter sentido. Somos tentados a abandonar a luta e voltar...
Eles estavam angustiados por aquilo que aconteceu
em Jerusalém. Mas, na medida em que participaram da celebração da Palavra e do
banquete da fração do pão, o interior deles se abriu à luz, a vida do
Ressuscitado invadiu seus corações e os fez voltar à comunidade.
Nesses momentos, mais do que nunca, como os dois
discípulos, necessitamos do Peregrino de Emaús: "Fica conosco,
Senhor".
Que possamos reconhecê-lo nos pequenos gestos de
cada dia. Hoje queremos recordar os gestos de doação de nossas mães. Que a
bondade divina abençoe e recompense todas as nossas mães.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
Reconheceram
Jesus ao partir o pão
Este Evangelho, da quarta-feira
da oitava da Páscoa, narra a cena do encontro de Jesus ressuscitado com os
discípulos de Emaús. Após a morte de Jesus, a tristeza tomou conta dos
discípulos. E junto com ela veio o desânimo. Estes dois discípulos estavam
desistindo da vida em Comunidade e voltando para as suas casas. Jesus, apesar
de não ser mais a sua vez de se manifestar na terra desta forma, resolveu dar
um apoio à Igreja nascente, aparecendo fisicamente. Ele chega e entra no meio
da conversa dos dois, mostrando a forma correta de encarar os fatos, que é à
luz das Sagradas Escrituras. Os discípulos estavam tão abatidos que nem perceberam
que era o próprio Jesus. O acolhimento ao desconhecido foi bonito: "Fica
conosco, pois já é tarde e a noite vem chagando!" E a recompensa ao gesto
de caridade foi generosa: "Reconheceram Jesus ao partir o pão".
Recuperam a alegria, e junto com
ela o ânimo, voltando imediatamente para a Igreja, a Comunidade cristã.
O que Jesus quis dizer é que ele
não desapareceu, mas continua presente no meio dos seus discípulos, agora na
Eucaristia, que no começo da Igreja era chama de "O partir do pão".
Os discípulos estavam desanimados
e até desistindo da Comunidade cristã. O motivo eles mesmos falaram: "Nós
pensávamos que ele fosse libertar Israel..." Jesus veio realmente
libertar, não só Israel mas toda a humanidade. Entretanto, não é assim, de mão beijada;
Deus quer fazer as coisas junto conosco e através de nós.
"Não estava ardendo o nosso
coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?"
A Bíblia é a nossa força, a nossa luz na caminhada. Ela nos ajuda a entender os
fatos e nos mostra a resposta certa a cada situação. Se aqueles discípulos
lessem a Bíblia, talvez não tivessem desanimado.
Mas é na Eucaristia que os nossos
olhos se abrem e encontramos forças para continuar a caminhada. A Missa
realimenta a nossa fé, e nos dá o dom do discernimento, mesmo no meio das
maiores provações.
Logo que os olhos dos discípulos
se abriram, Jesus desapareceu da frente deles. Com isso ele quis dizer: eu já
estou com vocês na Eucaristia. Por que caminhar tristes, referindo-se a mim
como alguém do passado, se estou no meio de vocês na Eucaristia?
Imediatamente eles "se
levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os
outros". A Eucaristia nos integra ou reintegra na Comunidade cristã.
Nenhum motivo justifica o afastamento da Comunidade. Temos um compromisso com
ela, feito no batismo, mais forte que o compromisso matrimonial. É um
compromisso na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até o fim da nossa
vida.
Ao longo das nossas viagens,
cercadas às vezes de inquietações, o divino viajante continua a fazer-se nosso
companheiro, a fim de nos instruir. Depois que Jesus subiu para o céu, não age
mais dessa forma, manifestando-se fisicamente. Entretanto, em seu poder divino,
Jesus usa de mil outras maneiras. Geralmente socorre os cristãos através dos
próprios cristãos. O que ele não quer é ver ninguém desanimado, e muito menos
se afastando da comunidade.
E quando e encontro se torna
pleno, à luz da Palavra de Deus, segue-se a luz que brota do próprio Jesus,
presente no pão da vida.
"A Comunidade é força de
Deus. Lugar abençoado onde moram os filhos seus."
Certa vez, um pai de família fez
o Cursilho de cristandade e chegou entusiasmado em casa. Na hora da refeição,
ele disse: "De hoje em diante, nós vamos rezar todos os dias antes da
refeição. Sou eu que vou puxar a oração".
Assim fizeram durante vários
dias. Num domingo, veio um amigo dele visitá-lo, o qual não era muito de
Igreja. Quando chegou a hora do almoço, o pai ficou com vergonha de rezar na
frente do amigo, e simplesmente convidou o amigo para se sentar e começar a
comer.
O seu filhinho de cinco anos
disse: "Paiê, o senhor não disse que ia rezar todos os dias antes da
refeição?" O pai deu um sorrisinho amarelo e acabou rezando, na frente do
amigo.
Bem feito! Quem manda ter
respeito humano e desobedescer a Deus por causa da presença de um amigo! Sinal
que a sua fé, apesar de renovada no Cursilho, ainda precisava alguns retoques.
E o alerta veio através da inocência de uma criança. "Quem não receber o
Reino de Deus como uma criança não entrará nele!"
"A família que reza unida
permanece unida." Isso vale também para a Família de Deus. Se
perseverarmos na oração, nunca nos afastaremos da Comunidade.
Maria Santíssimo nunca se afastou
da Comunidade. Pelo contrário, lá estava ela apoiando a Igreja nascente. Mãe da
Igreja, rogai por nós! Que tenhamos a graça de perseverar na vida em
Comunidade, e nunca desistir, como queriam fazer aqueles dois discípulos de
Emaús.
Reconheceram Jesus ao partir o
pão.
padre
Queiroz
Jesus
aparece aos discípulos de Emaús
A liturgia deste 3º domingo da
Páscoa convida-nos a descobrir esse Cristo vivo que acompanha os homens pelos
caminhos do mundo, que com a sua Palavra anima os corações magoados e
desolados, que se revela sempre que a comunidade dos discípulos se reúne para
"partir o pão"; apela, ainda, a que os discípulos sejam as
testemunhas da ressurreição diante dos homens.
É no Evangelho, sobretudo, que
esta mensagem aparece de forma nítida. O texto que nos é proposto põe Cristo,
vivo e ressuscitado, a caminhar ao lado dos discípulos, a explicar-lhes as
Escrituras, a encher-lhes o coração de esperança e a sentar-Se com eles à mesa
para "partir o pão". É aí que os discípulos O reconhecem.
A primeira leitura mostra
(através da história de Jesus) como do amor que se faz dom a Deus e aos irmãos,
brota sempre ressurreição e vida nova; e convida a comunidade de Jesus a
testemunhar essa realidade diante dos homens.
A segunda leitura convida a
contemplar com olhos o projeto salvador de Deus, o amor de Deus pelos homens
(expresso na cruz de Jesus e na sua ressurreição). Constatando a grandeza do
amor de Deus, aceitamos o seu apelo a uma vida nova.
Celebrar
a Eucaristia no caminho da vida
A história dos dois de Emaús é já
muito conhecida. O ponto de partida é um momento da história que talvez não
gostemos de recordar. A cruz de Jesus produziu uma verdadeira debandada nas
filas de seus seguidores. Os que tinham deixado tudo para segui-lo decidiram
voltar a deixar tudo para começar de novo. A decepção, a desesperança, a
sensação de fracasso instalaram-se em seus corações. E decidiram voltar-se
sobre seus passos ao que eram e tinham dantes de conhecer Jesus. Tanto esforço
não tinha valido a pena! Num momento, os chefes dos judeus e os romanos tinham convertido
em pedaços o sonho do Reino. Não tinha nada que fazer!
Tudo isto é já conhecido. Não nos
resulta difícil nos sentir identificados com estes dois discípulos que voltam
desencantados a sua terrinha, que abandonam o sonho do Reino. Mas não é isso o
melhor do relato. O melhor é que ao final os discípulos voltam sobre seus
passos. Retornam a Jerusalém, lugar da cruz e a decepção, mas com o coração
cheio de entusiasmo e de vida ("Não ardia nosso coração...?"), como
fruto do encontro com um caminhante, com um desconhecido.
Aparece
um caminhante
Simplificando, podemos dizer que
se trata de um dos relatos da aparição de Jesus ressuscitado. Mas, como alguma
outra, é um aparecimento misterioso. Jesus não é reconhecido à primeira vista -
como foi possível que não lhe reconhecessem seus discípulos? É só um caminhante
com o qual eles tem um encontro casual, que escuta aos dois discípulos e
compartilha com eles a trilha e a direção (para o fracasso?). O caminhante não
tem nome nem rosto. É um mais. Caminha com eles. Escuta-lhes pacientemente.
Depois intervém. Alumia-lhes o sucedido desde a Escritura. Falam, dialogam,
compreendem... Ao longo do caminho.
Entretanto os discípulos não
mudaram de direção em sua caminhada. Mas, ao menos, decidem que é tempo de
fazer uma parada no caminho. É tempo de descansar, de deter-se, de compartilhar
a ceia. Convidam ao desconhecido. Aí se produz o reconhecimento, ao partir o
pão. Dão-se conta de que o que caminhou com eles, o que lhes falou, o que lhes
partiu o pão, é Jesus mesmo.
Mas então desaparece. Não há mais
Jesus visível. Os discípulos ficam sozinhos. Com suas forças. Com sua fé. Mas o
pão e a palavra abriram-lhes à vida. O caminhante desconhecido tocou-lhes o
coração e ajudou-lhes a encontrar o sentido do sucedido. E retomam o caminho a
Jerusalém, agora o lugar da ressurreição e do triunfo, da esperança e da vida.
Uma
eucaristia feita relato
O relato dos de Emaús é o relato
de uma Eucaristia daqueles primeiros tempos. Ainda não há formalismos. Não
existem os missais nem os ritos. Tudo é mais singelo, mais simples, mais
próximo. Os discípulos reúnem-se, recordam, comentam, alumiam-se uns a outros.
E compartilham o pão, fazendo memória de Jesus, utilizando as mesmas palavras
de Jesus na última ceia. Os desconhecidos fazem-se família em torno do pão e da
palavra. Nesse compartilhar e recordar, se faz presente Jesus
ressuscitado. Sentem a força da vida presente Nele. Comungam com sua missão.
Na Eucaristia encontram as forças
para voltar a Jerusalém, para sair de novo para o caminho, a manchar os pés e
as mãos com o barro da história, a falar e dialogar, a nos encontrar como
desconhecidos, com os diferentes, a não deixar um rincão sem que chegue a
palavra misericordiosa e cheia de esperança que Jesus pronunciou
definitivamente na história da humanidade.
Fazer do
caminho encontro e Eucaristia
Aquelas primeiras Eucaristias
foram o detonante da vida e a esperança nos discípulos que se deixavam levar
pela morte e o desengano. Os caminhos eram os mesmos, mais a direção tinha
mudado. Os desconhecidos descobriam-se irmãos. Tinham um tesouro para
compartilhar com os homens e mulheres de seu tempo. Fazer realidade na vida
diária o Reino de Deus. Até nós, longe no tempo e no espaço, chegou seu
estimulo, sua capacidade de escuta. Graças a Deus!
O caminho da vida é nossa
oportunidade para fazer encontro, fraternidade, Eucaristia, para fazer presente
o Reino. A eucaristia põe-nos a caminho e o caminho em fraternidade faz-se
Eucaristia.
Fernando
Torres
"Caminha
conosco Jesus!"
O evangelista Lucas narra o
caminhar de Jesus com seus discípulos para o povoado de Emaús distante alguns
quilômetros de Jerusalém. Nesta caminhada seus discípulos não perceberam que o
viajante que os acompanhava era o Mestre. Meios perdidos por causa da dor,
estavam cegos e não percebiam que ao seu lado estava o Grande filho de Deus.
Porém, Jesus coloca-se ao seu lado para garantir a força na caminhada e na
crença de que os ensinamentos devem perpassar gerações sempre objetivando
preparar para o Reino de Paz e Justiça.
Jesus percebendo que seus dois
discípulos não se convenciam da tragédia entra no diálogo e pergunta: 'O que
ides conversando pelo caminho?' Jesus está provocando um entendimento. Meio
triste um deles chamado Cléofas lhe disse: 'Tu és o único peregrino em
Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?' Então
Jesus interpela: 'O que foi?' Veja a resposta longa aferida pelos
discípulos: 'O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso
em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. Nossos sumos
sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o
crucificaram. Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de
tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! É verdade que
algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao
túmulo e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto
anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo
e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o
viu.'
A insatisfação pela morte de
Jesus era notória nos rostos dos amigos e discípulos. Ninguém queria acreditar
no que tinha acontecido. Mas a dor era tamanha que chegavam a descrever tudo o
que tinha acontecido, porém era incapazes de perceber a presença de Jesus
em seu meio. Jesus caminhando com seus discípulos pela estrada é o Jesus ainda
ensinado seus fieis a caminhar rumo a terra prometida. É o Jesus peregrino que
pede para não parar sua obra de levar os bons ensinamentos para todos. É o
Jesus viajante levando novos ares e novas perspectivas de vida. É um Jesus
caridoso que não abandona seus escolhidos de forma alguma.
Ao revelar que era Jesus, os
corações dos discípulos encheram de alegria. Mesmo desconfiando de que havia
sentido palpitações diferentes no caminhar com Aquele estranho, só sentiram a
plena certeza do anuncio das mulheres quando Jesus partiu o pão. A fala não
poderia ser outra: ficai conosco Jesus. Não os abandone, permanece conosco,
porque sua presença nos guarda de todo o perigo.
Pedimos, caros leitores, a
presença de Cristo em nosso meio. Oramos por ele e clamamos para permanecer
conosco sempre. Como é bom estar perto de Jesus e poder contar com ele em todas
as situações. Mesmo, às vezes, não enxergamos sua força divina ou não querendo
vê-lo, jamais ficaremos sozinhos. Este Deus é teimoso por amar tanto seus
filhos, mas os filhos são teimosos em querer distanciar da verdade.
O que precisamos é fazer como os
discípulos sair por ai falando deste Deus e denunciando as injustiças que tanto
faz o povo de sofrer. A garantia da presença do Salvador em todos os momentos
está confirmada, então, porque não começamos a falar de Jesus. Garanto que tem
muita gente querendo ouvir você. Vá à luta. Deus lhe dá sabedoria e
inteligência. O convite está feito. Abraça a causa. Amém.
Claudinei
M. de Oliveira
O caminho
de Emaús
Aqueles dois discípulos de Jesus
os quais iam pelo caminho que os conduziria a sua aldeia natal não pressentiam
que passariam por momentos alternativos impressionantes. Com efeito, estavam
tristes, decepcionados com o que havia ocorrido com o seu Mestre
ignominiosamente morto sobre uma Cruz. Encontram-se, porém, com alguém que era
o mesmo Jesus que não se deu a conhecer, mas que lhes explicava as Escrituras
sobre os acontecimentos ocorridos em Jerusalém. Seus corações abrasavam-se
dentro deles, enquanto Cristo lhes falava. Depois, tendo sido tão fidalgos com
aquele desconhecido, convidando-O para ficar com eles, ao se porem à mesa Jesus
lhes abre os olhos. Foi quando Cristo tomou o pão, o abençoou, o partiu e lhes
fez entrega do mesmo. Jesus desaparece, mas que transformação na mente e no
coração daqueles seus dois seguidores! À melancolia, ao desânimo seguiram-se o
entusiasmo, a coragem. Tornam-se então importantes testemunhas de que Jesus
ressuscitara e vão a Jerusalém anunciar, também eles, que Cristo estava vivo.
A trajetória de Emaús é uma rota
que todo homem alguma vez percorre na sua vida. O caminho para Deus é uma
vereda que pode se envolver em providenciais sombras para que brilhem
depois, ainda mais, as virtudes teologais da fé, da esperança e da
caridade. Deus, porém, está sempre perto dos que o temem, iluminando sua
peregrinação rumo ao céu. O principal é que não prevaleçam as ilusões e o
desânimo, mas reinem a tranquilidade, a serenidade, a imperturbabilidade.
Cumpre, contudo, não atingir o grau de inquietação de Cléofas e seu companheiro
aos quais assim recriminou Jesus: “Como sois sem inteligência e lentos
para crer em tudo o que os profetas falaram! Seja como for, o principal é estar
atento às inspirações divinas, alimentando a fé na oração e na Eucaristia,
aguardando o momento no qual Deus intervirá para afastar qualquer dubiedade ou
incerteza. A pergunta feita por Jesus foi repleta de significado: “O que ides
conversando pelo caminho?” É preciso que se examinem com cuidado a cada passo
os próprios interesses, os questionamentos, os propósitos que se têm em vista
para poder deixar a palavra de Deus penetrar nas trevas que podem envolver a
quantos peregrinam nesta terra de exílio. O que se deu um dia com Santa Teresa
de Ávila esclarece o modo de agir do Ser Supremo.
No meio de tribulações, agitações
interiores esta santa estava rezando, quando de repente tudo passou. Ela
então interrogou a Cristo: “Onde estavas, meu Senhor, enquanto eu tanto
padecia”. A resposta foi clara: “Teresa, estava em teu coração para que não
desfalecesses”. É preciso estar sempre consciente desta presença do Mestre
divino que nunca abandona os que O amam. Como ensinou São Paulo aos Efésios
caminhamos para Deus pelo caminho da fé em Cristo que está continuamente junto
de seus seguidores. É preciso, porém, não ficar em Emaús, mas sair anunciando
por toda parte que Jesus ressuscitou e está presente entre nós. A alegria desta
certeza deve ser levada para dentro de casa, para os lugares de trabalho, de
diversão sadia e, deste modo, outros compreenderão como é feliz quem
confia no Senhor Jesus. Este júbilo deve se refletir nas palavras, nos gestos,
no modo de ser, irradiando o fogo desta presença divinal. Trata-se de uma
partilha de grande repercussão na vida dos que cercam um cristão autêntico. É
necessário para isto cultivar em todas as circunstâncias a calma.
Os discípulos de Emaús, talvez,
tenham deixado Jerusalém um pouco precipitadamente com medo dos judeus e
estavam envoltos em decepção. Ao cristão cumpre ter coragem e nunca duvidar
para poder levar, seja onde estiver, as mensagem que fluem da Ressurreição de
Cristo. Isto é tanto mais importante quanto maior é a cegueira espiritual do
contexto pós-moderno atual. Neste impera o relativismo e não se admitem as
verdades objetivas e o que nelas é essencial. Estas verdades devem ser
anunciadas sem dubiedades ou ambiguidades. São Paulo na carta aos Hebreus
mostrou a necessidade de se estar penetrado pela fé. Esta supõe a adesão a
verdades absolutas longe de todo e qualquer relativismo (Hb. 1,4,2).
Resta sempre esta certeza de que todas as vezes que escutarmos Jesus nosso
coração estará abrazado, iluminado como aconteceu com os discípulos de Emaús.
cônego
José Geraldo Vidigal de Carvalho
Emaús aqui tão perto
A localização de Emaús tem diversas tradições,
todas a Oeste de Jerusalém. Deste Evangelho, próprio de Lucas, discute-se a
origem. Talvez seja um convite a percorrer o próprio itinerário de fé,
caminhando com Jesus? – Esta visão basta para o que se pretende refletir.
Toda a Páscoa é um convite a seguir o caminho da
vida a bom passo. Nessa caminhada escuta-se a voz de Jesus Vivo e Ressuscitado,
que garante que estará conosco mesmo que não o vejamos. O caminho faz-se
andando, se quisermos fazer uma alusão aos poetas quando afirmam que «o amor
faz-se amando» e a São João da Cruz que dirá: «o caminho faz-se caminhando».
Ora bem no texto do Evangelho descobrimos a imagem
da humanidade em dois discípulos a fazer a caminhada até Emaús, mas, caminham
consternados, derrotados e desiludidos com os fatos recentes passados em
Jerusalém. Qual humanidade hoje a fazer o caminho com o desalento e o desanimo,
porque afundada pelas crises monetárias, pelas guerras inacabáveis, pelas
violências constantes... Nesse caminho, Jesus lança-nos a pergunta: «que
fizestes do dom da Minha Morte Pascal?» E nós fazemos outras: foi em vão a Sua
morte? Não serviu para percebermos que só pelo amor a humanidade será feliz?
Não percebemos ainda que a dignidade humana e os Direitos Humanos devem ser
respeitados para que a humanidade inteira se realize na harmonia do bem? Não
serviu para perceber ainda que Deus nos criou para a vida e não para a morte?
Para onde caminhas humanidade, que te auto flagelas e matas frequentemente? (…)
Todas estas questões fazem sentido porque a
humanidade continua atada às suas razões e por isso não vê as potencialidades
de vida em abundância que Jesus nos oferece com a Sua Páscoa. Jesus, ao falar
da Bíblia aos discípulos, revela-lhes o caminho e a mensagem que se levada à
prática pode libertar do lamaçal em que a humanidade tantas vezes se deixa
atolar.
Então Jesus faz-nos esta pergunta, «porque vos
evadis das noites escuras?» E responde na intimidade de cada um, «quando
anoitece Eu fico convosco partilhando as vossas trevas». Esta proximidade faz
com que cada pessoa encontre força e ausência de medo para seguir adiante
fazendo o caminho que conduz ao Emaús da felicidade que a Ressurreição de Jesus
nos oferece.
A refeição é o lugar do encontro, o Sacramento
dessa presença misteriosa, porque só «reunidos à mesa Me reconhecereis
Ressuscitado». A importância da Eucaristia vê-se claramente neste encontro de
Emaús. No partir do pão Jesus é reconhecido e convida à saída de si mesmo para
se lançar ao encontro dos outros, especialmente, os mais necessitados, para
viver a densidade eucarística da partilha fraterna. Cada momento desse encontro
é uma meta que dá entusiasmo à vida, porque retempera na coragem e lava ao
desprendimento de si para se abrir aos outros.
Nesta abertura à partilha no itinerário da fé,
sentir-nos-emos comunidade que peregrina para a Páscoa definitiva. Por isso,
pedimos «Senhor, Tu que fazes conosco este caminho aberto ao Transcendente, faz
que não nos detenhamos até chegar ao encontro definitivo». Afinal, o Emaús de
cada um de nós pode estar longe materialmente falando, mas com Jesus
Ressuscitado ao nosso lado, podemos afirmar, «Emaús aqui tão perto».
padre José Luís Rodrigues
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