6º DOMINGO DA PÁSCOA
Evangelho - Jo 14,15-21
21
de Maio de 2017 - Ano A
-JESUS PROMETE O
DEFENSOR-José Salviano
Neste Evangelho Jesus nos faz várias promessas.
Porém, com uma condição: Que guardemos e pratiquemos os seus ensinamentos, o seu
Evangelho.
"Se me amais, guardareis os meus mandamentos".
Esta
é a marca do cristão. É a demonstração do nosso amor a Deus. É a resposta que
daremos ao Pai pelo seu imenso amor para conosco. Praticar os seus
ensinamentos. Jesus promete rogar ao Pai que nos dê um outro defensor que
permanecerá sempre ao nosso lado, dentro de nós. E este defensor é o
Espírito de verdade, o qual o mundo não recebe porque não reconhece aquele do
qual ele procede. Quanto a nós, fiéis ao Evangelho, temos o privilégio
de receber o Espírito Santo.
Jesus
promete que não nos deixará órfãos. Mesmo que a vida nos deixe sozinhos, O
Espírito de Deus estará sempre do nosso lado nos fazendo companhia. Só tem medo
da solidão quem não está com Deus. A solidão apavora somente aqueles que
viraram as costas para Deus, e tenta viver com seus próprios recursos.
Não vemos Deus do nosso lado, mas podemos sentir a sua presença o tempo
todo. Para que isso aconteça cada vez mais com intensidade, é necessário
que nos afastemos do pecado e das suas causas, com oração constante e com
eucaristia diária, penitência, jejum, caridade e evangelização, com toda
certeza Deus estará sempre conosco. "...eu estou no meu Pai e vós em
mim e eu em vós."
Com
a prática do pecado, nós nos distanciamos de Deus. Não conseguimos rezar
direito, nem conseguimos perceber Deus do nosso lado. E com a consciência
pesada, somos presas fáceis do maligno.
Jesus
insiste que quem acolher e observar os seus mandamentos, esse O ama na teoria e
na prática. E essa é a vida em abundância! Ser um cristão, uma cristã não só na
teoria, mas principalmente na prática. Por em prática o que aprendemos de
Jesus, o que aprendemos pela palavra e pelo testemunho dos ministros da Igreja
e dos nossos familiares e bons amigos. E assim, seremos também amados
pelo Pai, e por Jesus Cristo, que se manifestará através da nossa pessoa.
Essa foi a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quando
Jesus esteve a Terra Ele estava fisicamente visível a todos. Hoje Jesus está presente entre nós de uma forma diferente, não
mais visível, palpável, mas através do Espírito da Verdade. É uma presença
menos atingida pelos nossos sentidos mas ela é real. Real apenas para aqueles
que têm fé. Aqueles que o reconhecem, acreditam e o aceitam. Jesus nos
faz companhia principalmente nas horas difíceis como nos momentos de
solidão, nos confortando, nos protegendo de todo o mal principalmente das
tentações. Você pode sentir a sua presença. Fale com Jesus. Peça o que você
precisa. Agradeça, ouça-O, Ele está sempre preenchendo as lacunas do seu
ser faminto e sedento de amor e carinho, gerado pela solidão. Jesus é o consolo
que lhe acalma, o hóspede da alma, o doce alívio, que sempre vem no trabalho e
no descanso, na aflição e no remanso, no calor e na friagem.
Deus
Pai sempre se importou conosco. O seu primeiro socorro enviado par
aliviar o nosso sofrimento e nos salvar, foi o
seu Filho Jesus, que cumpre e revela o conteúdo da sua própria missão. O
segundo enviado do Pai é o Espírito Santo Paráclito.
"Pouco
tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo
e vós vivereis." Palavras um tanto enigmáticas, difíceis de
entender. É o estilo de Jesus. Nem sempre Ele falava claramente. Pois queria
que cada um de nós fizéssemos por onde merecer a iluminação do Espírito Santo
no entendimento e interpretação da sua palavra.
...mas vós me vereis" Com estas palavras Jesus está se
referindo a sua segunda vinda no
fim do mundo e o encontro com cada alma quando se separar do corpo.
Caríssimos. Não tenhamos medo da morte. Ela,
além de ser apenas a separação do nosso corpo e da nossa alma, será mais do que
isso. Significa o encontro com Cristo. Este Cristo que durante a nossa vida
procuramos servir. É Ele que nos conduzirá à plenitude da glória eterna!
"Ninguém jamais imaginou quão maravilhosos
será o que o Pai preparou para aqueles que o ama...". Será
o encontro com Aquele com quem falamos diariamente nas nossas orações, aquele a
quem fomos caridosos na pessoa do irmão carente. Será um encontro maravilhoso,
com Jesus que embora um dia foi visível, agora permanece invisível, e que tanto
gostaríamos de vê-lo!
A morte nos amedronta por ser uma viagem ao
desconhecido. E este medo é muito maior para aqueles que vivem no pecado, e
embora estejam com a consciência embrutecida, lá no fundo sabem que existe um
Deus justo que vai dar a cada um o que ele merece.
Mas para aqueles que acreditam de verdade nos
mistérios de Deus, a fé faz a diferença; Ela faz uma filtragem das
asperezas da morte, ao ponto de desejarmos logo este encontro com Jesus. A
nossa fé e o amor a Deus por Jesus, muda completamente o sentido desse momento
final da nossa existência que chegará para todos, mas que não gostamos de
pensar nele. A esperança da glória eterna nos ajudará a superar o medo do
desconhecido e os momentos difíceis desta vida.
Meu irmão, minha irmã. Nas horas difíceis desta
vida, e também nos momentos de tentações, pense nas maravilhas que nos esperam
no Céu! E assim você terá forças para superar tudo por amor àquele que nos ama
de verdade, e não por interesse.
O mundo de hoje está repleto de coisas
que nos convidam a desanimar do amor de Deus. Meus irmãos, coragem! Não estamos
sós. Deus está conosco. Ele está de maneira invisível, mais está sempre
presente através do Seu Espírito de Verdade. A sua ação principal é de
nos predispor a enfrentar as adversidades deste mundo sem nos intimidar.
Assim, cheios da sua força, continuemos
a nossa missão de levar a luz de Cristo para quem caminha na escuridão do
pecado, no erro e na mentira. Esse mesmo Espírito nos dá coragem de levar a
palavra de Jesus a humanidade marcada pela violência, pelo medo por estar
afastada de Deus.
Finalizando. Jesus nos fez várias
promessas, assim como nos fez advertências aparentemente duras de se cumprir,
como foi aquela de cortar a mão direita que nos leva a pecar. Ele só
queria nos mostrar que a nossa salvação é a coisa mais importante que
deveremos buscar a todo instante. A todo momento de nossa vida deveremos estar
voltados às coisas do alto, e procurando a cada momento nascer de novo, isto é,
zerar sempre os nossos pecados e caminhar na direção da perfeição. Cortar tudo
que nos leva a pecar, cortar tudo o que nos afasta do caminho, da verdade e da
verdadeira
vida.
E nessa busca diária pela nossa
salvação, nos deparamos com uma grande dificuldade, que é a procura de um bom
relacionamento com o nosso irmão, nossa irmã, a começar pela nossa casa. Como é
difícil nos entender! E isto porque o nosso egoísmo fala mais alto do que a
nossa fraternidade. Cada um de nós se acha certo e os outros é que estão
errados. Cada pessoa que comete um erro e é advertido por outra, seja a mãe, a
professora, o pai, não reconhece o seu erro. É muito difícil admitirmos
que estamos errados, principalmente quando somos advertidos por alguém. Na
nossa família é comum um invadir a privacidade do outro, e quando o outro
reclama, este um ou uma, argumenta-se como se não estivesse fazendo nada de
errado. E assim se vai... Se você é perversa, descrente, falam mal de você. Se
você é caridosa, dizem que você é boba, se você é religiosa, dizem que você é carola
e beata...
Se você é preguiçoso, falam mal de você.
Se você é trabalhador, esforçado, também é criticado. Se alguém é
"burro", fazem chacotas dele, desprezam-no. Se outro é inteligente e
talentoso, temos inveja, e buscamos inventar defeitos para ele!...
É... Infelizmente nós somos assim.
Cheios de defeitos, e não os vemos. Mas temos uma grande facilidade de
enxergar os defeitos dos outros.
Jesus nos fez muitas outras promessas,
porém, para que possamos recebê-las, precisamos praticar os dois mandamentos.
Amar a Deus e amar o próximo como a nós mesmo. Só isto nos basta para
sermos dignos das promessas de Cristo.
Desejo-lhe um bom
domingo. José Salviano.
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Os dons do espírito
santo
O Espírito Santo oferece a cada um os
dons particulares que lhe são necessários para se realizar completamente. Cada
um de nós precisa de progredir no caminho da verdade, da fidelidade, da
coerência, cada qual tem necessidade de ser mais ele próprio e,
simultaneamente, de se assemelhar mais e mais a Cristo.
A cada um correspondem os dons que o
Espírito concede. A nós cabe reconhecê-los. Podemos interrogar-nos sobre que
presentes gostaríamos que Ele nos oferecesse, esses dons para mudar a nossa
vida, para sermos mais felizes conosco mesmos.
Ninguém é esquecido na distribuição.
Mas uma importante característica nas dádivas do Espírito Santo é que elas não
mudam apenas os que as recebem; inovam também o mundo em que estamos. As
ofertas do Espírito Santo são riquezas que nos são oferecidas para que mudemos
o mundo que nos rodeia.
E mudando o nosso coração, o Espírito
Santo favorece o nascimento de um mundo de justiça, de paz e de bem. Os dons do
Espírito Santo não são, portanto, oferecidos para ficar nos armários nem para
serem deitados fora.
dom Marc Stenger
tradução de Maria
Madalena Carneiro
Os apóstolos e os diáconos, na Igreja
de Jerusalém, sentiam a urgência de anunciar o Evangelho em toda a parte.
Aliás, Jesus dissera-o na última vez que tinha estado com eles: “ide por todo o
mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mt. 28,19). Filipe, diácono,
entendeu esta urgência do anúncio e foi até à região da Samaria onde criou uma pequena
comunidade cristã. A Boa Nova da Ressurreição de Cristo foi anunciada e muitos
aderiram à mensagem do Evangelho. Surpreendidos com o entusismo da comunidade
da Samaria, os Apóstolos pediram a Pedro e João que fossem levar o Espírito
Santo aos membros desta comunidade que estava a nascer. De fato, não é possível
construir assembleia cristã sem o sopro do Espírito. O Espírito Santo ilumina
os crentes, estabelece laços de amor entre as pessoas e é o vínculo da unidade.
Com razão Paulo na Carta aos Romanos diz, com toda a clareza: “Só os que se
deixam conduzir pelo Espírito são de verdade filhos de Deus”.
Poderá perguntar-se qual o papel do
Espírito Santo nas comunidades cristãs. A resposta é-nos dada por Jesus, quando
no discurso da Ceia, ao afirmar que vai partir, imediatamente garante aos
discípulos que os não deixará órfãos. Jesus enviar-lhes-á o Espírito Santo, o
Consolador, o Paráclito, o que está sempre ao seu lado para os defender. Jesus
chega mesmo a dizer que o Espírito Santo dirá aos Apóstolos tudo o que Ele não
teve tempo de lhes dizer e, simultâneamente, recordar-lhes-á o que lhes foi
dito e eventualmente, tenham esquecido. A presença do Espírito Santo nas
comunidades cristãs é elemento fundamental para cada um crescer na fé e todos
se comprometerem na transformação do mundo. É animados pelo Espírito que
os cristãos dão a todos a razão da sua esperança, se mantém serenos no tempo da
perseguição, contribuem sempre para o bem comum e proclamam Cristo
Ressuscitado.
Sem a influência do Espírito Santo na
vida da Igreja não seria possível à mesma Igreja contribuir tão fortemente para
a constante renovação do mundo. Sem a presença do Espírito Santo na vida de
cada cristão não seria possível a cada um superar as dificuldades, crescer na
fé e aproximar-se da santidade desejada. Por isso pode rezar-se: “Vem Espírito
Santo”.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
Os tribunais antigos aceitavam que uma
pessoa de honestidade reconhecida e grande mérito se colocasse ao lado do
acusado, ou aceitasse ser chamada para o lado do acusado, em sinal de apoio.
“Advogado” (ad+vocatus) e “paráclito”(para+kaleō) têm inicialmente este
significado.
A 1ª epístola de são João chama
paráclito a Jesus: ”Se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado (paráclito),
Jesus Cristo, o justo” (1Jo 2,1). O Evangelho desta missa (Jo 14,15-21) chama
paráclito ao Espírito Santo: “Se me tendes amor, guardareis os meus
mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro paráclito, para que
esteja sempre convosco, o Espírito da verdade…” (Jo 14,15-16) (o primeiro
Paráclito é Ele próprio, Jesus).
O Pai enviou o Filho ao mundo, para nos
salvar e nos ensinar; o Pai e Jesus enviam o Espírito Santo. É claro que o
Espírito Santo não vem repetir a missão de Jesus, vem ajudar-nos a entender e a
cumprir o que Jesus disse e fez por nós. “O Paráclito, o Espírito Santo que o
Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo e há-de recordar-vos tudo
o que Eu vos disse” (14,26). “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que
procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, Ele dará testemunho
a meu favor” (15,26). “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois
capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade,
há-de guiar-vos para a Verdade completa” (16,12-13).
Jesus diz primeiro que o Espírito é
enviado pelo Pai em seu nome, diz depois que Ele próprio vai enviar o Espírito
que procede do Pai. A Igreja Católica afirma que o Espírito Santo “procede do
Pai e do Filho” e “é enviado pelo Pai e pelo Filho”.
Ao longo do primeiro milênio, as
Igrejas cristãs tiveram grande respeito pela obra do Espírito Santo. Entenderam
que, sem a sua ajuda, nem os homens nem as comunidades mantêm a fidelidade ao
Evangelho. Por isso invocaram constantemente a Sua presença. As grandes
teologias medievais sublinharam – e bem – que a Igreja continua a obra de
Jesus. Infelizmente isto levou alguns a supor que a Igreja estava definida uma
vez por todas e que o “trabalho” do Espírito Santo terminara.
Hoje parece muito claro que a Igreja
não está nunca totalmente feita, precisa de se fazer em cada tempo. Sem dúvida,
na fidelidade ao Evangelho, na gratidão pelo que de bom se realizou nos séculos
passados. Mas O Senhor mandou-nos estar atentos “aos sinais dos tempos” (Mt.
16,1-4; Lc. 12,54-56). Precisamos do Espírito Santo: para entender Jesus e o
Evangelho, para nos entendermos a nós mesmos e à sociedade humana, para
entendermos o tempo em que nos é dado viver.
Jesus diz ainda do Espírito Santo: “O
mundo O não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Vós é que O conheceis,
porque permanece em vós, e está em vós”(14,17). Como comenta um autor recente,
o “mundo” não são fundamentalmente os descrentes, os pagãos, os “pecadores”.
Este mundo impenetrável ao Espírito são todos aqueles – crentes ou descrentes –
que não entenderam que o mandamento supremo é o amor. O Espírito permanece em
quem ama, e ajuda-o a amar mais.
A segunda leitura (1ª Pedro 3,5-8)
encerra uma mensagem muito importante: “Estai sempre prontos a responder, a
quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas seja sempre com
brandura e respeito”. Certamente Pedro não espera que cada um dos cristãos da
Ásia Menor, por volta do ano 60, seja capaz de grandes discursos teológicos.
Suponho que os convida a contar o testemunho da ressurreição, ouvido da boca de
Paulo. Com brandura e respeito. Estamos longe da cegueira das cruzadas e das
Inquisições.
padre João Resina
A liturgia da Palavra deste 6º domingo
da Páscoa convida-nos a descobrir a presença discreta, mas eficaz, de Deus na
caminhada histórica da Igreja. A promessa de Jesus (“Não deixarei vocês
órfãos”) encheu de confiança os discípulos do Senhor ao longo da história e dá
sentido a esta nossa celebração.
Confiando nesta presença, aconteceu a primeira
expansão missionária da Igreja, por meio de Filipe, justamente entre o povo da
Samaria, tido como herege, numa região fora do ambiente do judaísmo (1ª
leitura). Por outro lado, são Pedro anima-nos a divulgar o Evangelho, sim, mas
explicando os motivos da nossa esperança a todo aquele que estiver interessado
em conhecer a nossa fé (2ª leitura) e mostrando que o Senhor ressuscitado é a
única razão de ser da nossa vida. Finalmente, São João manifesta que a grande
promessa de Cristo foi a de que enviaria o Espírito Santo (evangelho), como dom
do Pai, aos que pela fé e o amor se entregarem a Cristo. Este dom de Deus é o
Espírito da Verdade, fonte de vida e de santidade para toda a Igreja
Não deixareis vocês órfãos
1ª leitura: Atos dos
Apóstolos 8,5-8.14-17
A primeira leitura deste domingo
fala-nos de Filipe – um dos sete diáconos, do mesmo grupo do mártir Estevão –
que, deixando Jerusalém foi anunciar o Evangelho aos habitantes da região
central da Palestina, a Samaria.
O autor apresenta a pregação do
apóstolo Filipe aos samaritanos como uma noticia especial, considerando a velha
inimizade entre samaritanos e judeus. O sucesso de Filipe foi tão grande que “a
cidade se encheu de alegria”, escreve ele.
Isto vem mostrar que, no inicio da
Igreja, a evangelização se propagava a partir de Jerusalém, rompendo barreiras,
superando ódios e rivalidades ancestrais e favorecendo a unidade e a concórdia
como sinal de que o Espírito Santo já estava agindo entre eles. O anúncio do
Evangelho aos samaritanos, demonstra que, desde o inicio, a Igreja não tinha
fronteiras e estava disposta a anunciar o Evangelho ao mundo pagão.
Foi isto que Pedro e João puderam
comprovar quando chegaram em missão à Samaria. Sendo assim, “rezaram pelos
samaritanos, a fim de que eles recebessem o Espírito Santo” e, com sua
presença, confirmaram o apostolado de Filipe. Ao saber, porém, que os
samaritanos “tinham apenas recebido o batismo em nome do Senhor Jesus”,
quiseram completar a sua iniciação à vida cristã e “impuseram as mãos sobre os
samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo”. Era uma forma, também, de
reconhecer oficialmente a nova comunidade como parte integrante da Igreja.
O gesto da imposição das mãos, para a
comunicação do dom do Espírito Santo, representa um Pentecostes renovado sobre
estes novos cristãos, procedentes de um grupo tão desprezado pelos judeus, e
mostra que não há barreiras nem fronteiras para o surgimento das comunidades
cristãs porque elas nascem sob o impulso de unidade e paz do Espírito Santo.
2ª leitura: 1 Pedro
3,15-18
O nosso texto mostra como é que os
cristãos devem reagir, diante das provocações e das injustiças. Antes de tudo,
devem “reconhecer de coração o Cristo como Senhor”, isto é, fundamentar a sua
confiança e esperança na santidade e soberania de Cristo como “o Senhor” (o
“Kyrios”) do mundo e da história. Desse reconhecimento brota a confiança e a
esperança para nada temer e poder enfrentar a injustiça e a perseguição.
Devem, também, estar sempre dispostos
“a dar a razão de sua esperança a todo aquele que a pede... mas com bons modos,
com respeito e mantendo a consciência limpa”. Isto vale para os cristãos de
todos os tempos. Devemos dar testemunho daquilo em que acreditamos mostrando o
nosso amor por todos, mesmo pelos nossos perseguidores. Dessa forma, os
perseguidores ficarão desarmados e sem argumentos; e todos perceberão mais
facilmente de que lado está a verdade e a justiça.
Os cristãos são chamados (mesmo diante
do ódio e da hostilidade dos perseguidores) a preferir fazer o bem antes que o
mal. A razão fundamental desta forma é que “o próprio Cristo morreu uma vez por
todas pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de os conduzir a Deus”.
Com certeza, o projeto de vida dos
cristãos, é bem diferente do ambiente em que vivemos, mas não se trata de
sofrer por sofrer e sim de transformar este tipo de sofrimento numa
bem-aventurança (“felizes os que sofrem por causa da justiça”) por ser
consequência direta do testemunho cristão. É assim que compreendemos o amor que
levou o Senhor a padecer por nós a fim de abrir-nos o caminho da união com
Deus.
Evangelho: João
14,15-21
A partida do Senhor está próxima. Como
poderão os discípulos continuar unidos a Ele? Só através do amor que leva à
comunhão com Ele e se expressa na observância dos seus mandamentos (”se vocês
me amam, obedecerão aos meus mandamentos”). O único mandamento que nos deu o
Senhor, porém, é o amor. A palavra e o amor estão muito relacionados entre si.
Quem ama, escuta. Ninguém escuta se não ama. Quem ama acolhe as palavras e os
desejos da pessoa amada. Jesus mostra-nos que o amor a Deus e ao próximo não é
questão de obediência ou obrigação nem é uma lei; é a resposta agradecida e
feliz ao amor incondicional do Pai.
Por isso, o amor a Jesus é condição
necessária para cumprir seus preceitos com plena liberdade ao passo que,
cumprindo-os, estaremos dando prova do nosso amor por Ele. Quando os
mandamentos do Senhor são realizados por amor, perdem aquele caráter de imposição
e abrem-nos à ação do Espírito Santo, que é o maior dom de Jesus ressuscitado à
sua Igreja e a cada um de nós em particular.
Ele é “o Espírito da Verdade, que o
mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece”. O “mundo” (a “ordem
injusta”, no entender de João) não o pode receber porque vive à margem do amor
e, por isso, gera desolação: gastos incalculáveis em armamento, torturas a
partir do poder, terrorismo indiscriminado, desigualdade econômica, exploração
da juventude, comercialização de drogas e de tudo o que torna o ser humano cada
vez mais escravo e indiferente ao sofrimento dos outros.
Os discípulos, sim, conhecerão o
Espírito de Deus pela sabedoria que vem da fé (“ele mora com vocês, e estará
com vocês”) e poderão sentir sua presença mística na convivência dentro da
comunidade cristã (“vocês me verão, porque eu vivo, e também vocês viverão”). A
presença iluminadora de Cristo no mundo continua no trabalho dos seus
discípulos que, pela ação do Espírito Santo, seguem seu caminho tentando convencer
o “mundo” de sua injustiça para libertá-lo de seu pecado.
Receber o Espírito Santo é viver a fé
até as últimas consequências porque Ele nos anima a caminhar e dar testemunho
de Cristo a pesar de todas as contradições. Por tanto, não há o que temer (“Eu
não deixarei vocês órfãos”). Caminhamos para a vida em plenitude, para a
perfeita comunhão com o Pai, com Cristo e entre nós mesmos (“vocês conhecerão
que eu estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês”). A presença do Espírito
é o modo de Jesus ressuscitado estar entre seus discípulos e preencher o vazio
de sua ausência física.
PALAVRA DE DEUS NA
VIDA
O termo “órfão”, na Bíblia tem uma
ressonância toda especial. Os “órfãos” e as ”viúvas”, eram uma classe de
pessoas extremamente marginalizada e vulnerável. Numa sociedade (como a judaica
daquela época) dominada em tudo pela figura do varão, perder o pai ou o marido,
era perder o apoio vital e ficar sem proteção.
A partida de Jesus poderia significar
isso para os discípulos, a falta de sua presença física poderia gerar
insegurança. As palavras de Jesus estão cheias de afeto e de carinho paternal
(“Eu não deixarei vocês órfãos, mas voltarei para vocês”). Ele promete
permanecer na sua Igreja ao longo dos séculos, de uma forma pessoal, pelo seu
Espírito, e irá estabelecer uma comunhão de amor entre Ele, o Pai e seus
discípulos (“Quem me ama, será amado por meu Pai. Eu também o amarei e me
manifestarei a ele”), tudo através do seu Espírito.
O Espírito de que fala João é a memória
do Senhor que continua viva e presente na comunidade, ajudando-a a discernir os
acontecimentos para continuar o processo de libertação, diferenciando o que é
vida do que é morte, e continuando a ação salvadora do Senhor na história.
A presença do Senhor ressuscitado na
comunidade cristã há de manifestar-se no comportamento dos discípulos que
seguem seus mandamentos, tornando efetivo e real o amor que dizem professar
pelo Senhor. Não se trata de cumprir muitas normas. Pelo evangelho de São João
sabemos que os mandamentos de Jesus se reduzem a um só, o mandamento do amor:
amor a Deus que se mede e manifesta pelo amor com que tratamos os irmãos.
PENSANDO BEM...
O Espírito é que da origem à comunidade
cristã, como lemos na primeira leitura. È o mesmo Espírito que recebemos no
Batismo e na Crisma, mas que, às vezes, não o reconhecemos. Jesus diz: “Ele
mora com vocês, e estará com vocês”. Precisamos acreditar neste Espírito de
Deus que habita em todo ser humano. O mesmo Espírito que conduziu Jesus e mora
dentro de nós, assim como nós moramos n'Ele. Mesmo que não consigamos
acolhe-lo, Ele sempre nos acolhe e protege docemente, como uma mãe. Este
Espírito de Deus é a alma de Jesus e a alma de cada comunidade cristã; é a alma
do mundo, a alma de nossa alma e a alma de cada criatura. Ele continua a criar
o mundo até transformá-lo em templo de Deus.
Sintamo-nos acompanhados por este
Espírito consolador! Abramos o nosso coração a Ele para deixá-lo agir,
derrubando as barreiras que o mantém afastado. As barreiras da nossa preguiça,
do nosso comodismo, do nosso egoísmo..., que nos levam a ignorá-Lo. E,
ignorando-O, ignoramos o necessitado, ignoramos a falta que faz a nossa
colaboração para melhorar as condições de vida das pessoas ao nosso redor ou
ignoramos aquela pessoa enferma que precisa de uma visita fraterna... Que bom
seria reconhecer, na celebração desta Eucaristia, a presença do Espírito que
nos dá o Corpo e Sangue de Cristo e nos envia a dar testemunho do amor que
torna possível a autêntica comunhão com Deus e com os irmãos!
padre Ciriaco
Madrigal
"Não vos
deixarei órfãos"
Domingo da promessa do Espírito Santo.
A liturgia nos coloca neste domingo, o sexto da Páscoa, em clima de
Pentecostes. Aprofunda o significado da ressurreição, preparando-nos para a
grande celebração que irá concluí-la com a vinda do Espírito Santo sobre os
apóstolos, a manifestação pública da Igreja. Podemos dizer que é a sua
inauguração. O Senhor não nos deixou órfãos de sua presença, mas mandou-nos o
Defensor para permanecer juntos de nós, dentro de nós.
O Senhor nos garante sua presença entre
nós por intermédio do Espírito Santo e nos revela a alegria da sua ressurreição
para que possamos ser portadores deste anúncio por onde andarmos.
O Espírito Santo é nosso defensor e
aquele que nos revela a verdade do Pai. A Páscoa de Jesus se realiza nas
pessoas e comunidades que se deixam iluminar e conduzir pelo Espírito de Deus.
Primeira leitura:
Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17
Os samaritanos, embora com a mesma
origem dos judeus, eram desprezados por estes e considerados supersticiosos.
Conforme Lucas o cristianismo se
expandiu a partir de Jerusalém em círculos concêntricos sempre mais largos. Ele
mesmo indica estes círculos em Atos 1,8: "Serão minhas testemunhas tanto
em Jerusalém, como em toda a região da Judéia e Samaria e até os lugares mais
distantes da terra".
Para cada uma das etapas de extensão
Lucas destaca duas figuras-chaves. Para Jerusalém são os apóstolos Pedro e
João; para a Judéia e Samaria, Estevão e Filipe; para "os lugares mais
distantes da terra", Barnabé e Paulo.
Para cada etapa ele marca também uma
efusão do Espírito Santo que apresenta como "repetições" da
descida do Espírito Santo sobre os apóstolos em Jerusalém no dia de Pentecostes
(Atos 2,4-8.38); Samaria: 8,15-17; Cesaréia: 10,44-46; Éfeso: 19,6).
Um dado importante aqui consiste na
ligação das novas comunidades cristãs com a Igreja-Mãe de Jerusalém. No caso da
Samaria ela é assegurada pela missão de Pedro e João da parte da Igreja-Mãe e
do colégio apostólico (Atos 8,14). Como emissários ou delegados, eles
incorporam a nova comunidade de Samaria plenamente na "Igreja
apostólica".
Este texto é considerado o mais antigo
testemunho da celebração do sacramento da confirmação. Com certeza, os
apóstolos aí garantem a comunicação do Espírito Santo (vs. 15-17) pela
imposição das mãos após a celebração do batismo e durante uma reunião de
orações, modalidades que a Tradição Ocidental impõe em seu ritual de
confirmação (Atos 19,1-7).
Portanto, não podemos afirmar que os
Apóstolos estivessem conscientes de administrar a confirmação: distribuíam,
antes, aos batizados, os bens e os carismas dos tempos cristãos. Sua imposição
das mãos tornou-se, um dia, uma das bases do sacramento da confirmação, mas não
podemos dizer que esta passagem já permite esta interpretação.
A visita de Pedro e João à Samaria
também é um modo de proceder destinado a promover a unidade da Igreja. A
Samaria é, com efeito, um campo de apostolado onde os próprios apóstolos não
semearam e onde apenas vêm colher (cf. João 4,27-38).
A experiência de Filipe na Samaria,
descrita na primeira leitura, acrescenta que é necessário guardar-se de certas
polêmicas estéreis, enquanto é eficaz a pregação do Evangelho como Boa Notícia.
Salmo responsorial -
65/66,1-7.16.20
É um salmo de ação de graças pública e
de caráter universal, ação litúrgica feita por um fiel que, juntamente com
outros viveu uma dura prova e foi dela libertado (cf. vs. 16.20). Na festa
litúrgica, na oração do povo, voltam a tornar-se presentes as obras históricas
de Deus. Sobretudo a grande obra redentora, resumida na passagem milagrosa do
mar Vermelho "Mudou o mar em terra firme" (versículo 6a). Neste
acontecimento, relembrado, Deus manifesta seu acontecimento duradouro.
A grande obra redentora de Cristo volta
a desdobrar seu poder salvador em nossa vida; o cristão recebe e proclama esta
salvação no seio da comunidade eclesial. Com seu sacrifício, Cristo pôs fim aos
sacrifícios antigos: "Não com sangue de bodes e novilhos, mas com o
próprio sangue, obtendo uma redenção eterna" (Hebreus 9,12). Por isso o
cristão oferece este sacrifício na Eucaristia, recordando o que Deus realizou
com Cristo, o que Cristo realizou pelo ser humano.
O rosto de Deus no salmo 65/66. O salmo
fala do Deus aliado de uma pessoa e de um povo e, poderíamos dizer, aliado da
terra inteira (v. 1b). Aliado na defesa da promoção da vida. Onde a vida corre
perigo, aí está Deus, libertando e introduzindo na terra da liberdade (v. 6),
preservando a terra da promessa (v. 7).
Ao longo de sua vida, Jesus continuou
fazendo as obras do Pai (João 5,17), sinal de que não há ruptura entre o
primeiro e o segundo. "Quem me viu, viu o Pai" (João 14,9). De acordo
com Lucas 7,16, Jesus é a visita de Deus para com o povo que sofre. Mas, na
verdade, poucos são os que se lembram de agradecer a presença e a visita de
Deus na vida das pessoas (Lucas 17,11-19).
Cantando este Salmo neste Sexto Domingo
da Páscoa, agradeçamos ao Pai por ter realizado a maior obra de salvação em
Jesus Cristo através de sua morte e ressurreição.
Segunda leitura: 1
Pedro 3,15-18
Pedro os novos cristãos no estilo de
vida pascal. Já falou de sua atitude em relação aos pagãos e às autoridades (1
Pedro 2,11-17), elaborou uma moral do escravo cristão e dos esposos cristãos (1
Pedro 2,18-3,7). Trata, agora, das relações interpessoais: primeiramente, em
comunidade (1 Pedro 3,8-12), em seguida, em face dos perseguidores que está na
leitura de hoje.
No capítulo 3,14-15 Pedro cita Isaias
8,12, mas com mudanças interessantes, isto é, ele faz uma releitura do profeta.
Isaias escreveu: "Não tenham medo e nem se assustem diante dele!
Santifiquem o Senhor!" Em 1 Pedro 3,14-15 lê-se: "Não tenham medo
diante deles, nem se assustem. Santifiquem Cristo, o Senhor, em seus
corações". O profeta Isaias referia-se ao rei da Assíria, o grande imperialista
da segunda parte do século VIII antes de Cristo, que se apoderou dos pequenos
reinos do Oriente Médio e também ameaçava apoderar-se do povo de Deus. Isaias
lembra aos seus conterrâneos: quem acreditar no Senhor não precisa ter medo do
rei da Assíria.
Pedro atualiza este texto de Isaias,
passando o singular para o plural, referindo-se a todos quantos importunam os
cristãos por causa da fé. "O Senhor Javé", é mudado em "Cristo,
o Senhor". Por fim Pedro acrescenta "em seus corações",
interiorizando assim a santificação. "Santificar" significa
"reconhecer", "respeitar", "dar ao Cristo, Senhor, e à
sua vontade o lugar que Lhe compete". Em outras palavras, o reconhecimento
de Cristo como Senhor há de se interiorizar no coração para, daí, marcar a
personalidade e a existência dos cristãos na estabilidade da vida.
Este texto não apresenta nenhuma
dificuldade particular. Mesmo que se desencadeia a perseguição contra os
cristãos, eles poderão revelar sua boa consciência pela mesma maneira como
reagirão sem a menor agressividade para com seus adversários, mas, ao
contrário, com generosidade e respeito (versículo 16). Portanto, Pedro,
recomenda a não-violência no âmago mesmo dos conflitos que não cessam de opor
os cristãos a certos poderes do mundo. Pedro se inspira nas palavras de Jesus
quando disse: "Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, a fim
de serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai que está nos céus, pois ele faz
nascer o sol sobre os maus e os bons, e cair a chuva sobre os justos e injustos"
(Mateus 5,44b-45).
Evangelho: João
14,15-21
Depois do anúncio da Sua partida (João
14,1-12, Evangelho do domingo passado), Jesus promete o Seu regresso. Ele
voltará através do Espírito Santo. Temos no versículo 16 a primeira das cinco
promessas do Espírito Santo, prometidas por Jesus durante a Última Ceia, mas a
vinda do Espírito significará também a presença do próprio Cristo de um modo
novo: já não como uma pessoa alheia aos discípulos, mas como alguém que habita
neles, numa comunhão que torna presente a mesma união do Filho com o Pai:
"Eu estou no Pai, vós em Mim e Eu em vós" (v. 20).
As palavras do Evangelho devem ser
entendidas tendo presente que Jesus está ainda respondendo ao pedido do
apóstolo Filipe: "Senhor, mostra-nos o Pai" (João 14,8). Jesus reage
à pergunta dizendo que o Pai é visto no Filho, mas oferece-Se aos discípulos um
modo que ultrapassa a relação visual: o Pai vem habitar com Jesus no ser
humano, o Filho torna acessível ao ser humano na mesma comunhão de vida que O
une ao Pai. É necessário, porém, que o ser humano deposite toda a sua confiança
no Senhor.
Extraído do primeiro discurso após a
Ceia, este trecho proclamado na liturgia deste domingo traz presente para a
assembléia a maioria dos temas das despedidas do Senhor de seus apóstolos: a
exigência de guardar a Palavra (v. 15), o sentido da oração do Filho (v. 16), o
Paráclito (v. 10), o conhecimento de Deus (vs. 17 e 19; cf. João 16,16-22), a
morada (v. 17; cf. João 14,23-24).
A originalidade desta passagem é a de
fazer a síntese de todos estes temas em torno do "mandamento do
amor". Amar é guardar os mandamentos, pois estes se resumem num só: o
amor. Amar é conhecer Deus e seu Filho, pois este conhecimento não é
intelectual, nem romantismo, mas comunhão e partilha.
Em João 14,1-14 o verbo-chave é
"crer, acreditar, confiar" (vs. 1.10-12; num total de 6 vezes). Em
João 14,15-26 domina o verbo "amar" (vs. 14.21.23s; num total de 8
vezes). Em João 14,1-14 o pensamento vai em direção do Pai para onde vai Jesus.
Ele vai, mas os que crêem Nele podem acompanhá-Lo. Quem crê em Jesus está em
condições para, como Ele, chegar ao Pai e para fazer o que o Pai deu a fazer a
Ele.
Em João 14,15-26 o pensamento vai em
direção oposta. Jesus vai. Mas a sua ida não causará um abandono, um vazio.
Pelo contrário! Ela criará condições para uma presença muito mais plena e
perfeita. A presença humana, por mais intima que seja, sempre permanece uma
presença de uma pessoa ao lado de outra e, pois, revestida de exterioridade e
de uma grande margem de incomunicabilidade. É uma presença que apóia. A nova
presença de Jesus Ressuscitado não estará mais limitada por esta exterioridade
e por esta margem de incomunicabilidade. O Espírito Santo interiorizará a Sua
presença exterior pré-pascal.
É pura verdade! Pois a nova presença
não se limitará a uma presença Dele. Ele não voltará sozinho, mas com Ele virão
o Pai e o Espírito Santo, que estarão com eles e neles agirão. No trecho
14,15-26 volta três vezes o mesmo raciocínio por assim dizer
"Trinitário". "Se vocês me amam, o Pai lhes dará o Espírito para
ficar sempre com vocês" (vs. 15s). "Quem me ama, será amado por meu
Pai, e eu me revelarei a ele" (v. 21). Como se realizará este
auto-revelação? É mediante o Espírito Santo, como esclarece o raciocínio dos
versículos 23-26, que pode ser resumido nas ligações: "Quem me ama, será
amado por meu Pai e Ele, em meu nome, mandará o Espírito Santo.
A presença de Jesus terrestre junto aos
discípulos será, portanto, substituída por uma presença da Santíssima Trindade
no interior deles, isto é, no coração dos discípulos.
A assistência do Espírito Santo
conferirá a infalibilidade para a Igreja (vs. 16-17). O Espírito da verdade
permanecerá solidário com a aventura missionária da Igreja e se oporá ao
Espírito da mentira (João 8,44; 1 João 4,3). Isso não quer dizer que a Igreja
não possa cometer erros: mesmo sua mensagem, ao ser humanamente anunciada, não
está isenta de ambigüidade. A maravilha da assistência do Espírito da Verdade,
não é que não se cometa nenhum erro na Igreja, mas que apesar destes erros e
para além de todos os erros, a Igreja jamais será abandonada pela verdade de
Deus. Isto quer dizer que a verdade possuída pela Igreja é um dom e não o fruto
de suas reflexões.
DA PALAVRA CELEBRADA
AO COTIDIANO DA VIDA
Depois da morte e ressurreição de
Jesus, a comunidade encontra-se diante do mundo hostil do Império Romano, que
perseguia a matava quem acreditava em Jesus. É o mundo da injustiça, da
opressão contra os pobres, da idolatria do dinheiro e do poder, das vaidades
que costumam encher de orgulho as pessoas.
O Ressuscitado permanece de uma forma
nova na comunidade e, ainda mais, envia o Defensor que Lhe revela todo o plano
de Deus. Com o Espírito Santo, os discípulos são capazes de penetrar no coração
de Deus e descobrir seu amor e seu projeto para toda a humanidade.
O Espírito Santo vive e permanece
sempre em nós, dando-nos consciência e compreensão da verdade que Jesus nos
revelou com sua vida, paixão, morte e ressurreição. A condição para ter este
Espírito é a vivência dos mandamentos que se resumem em um só: o amor. Jesus
nos chama a viver no amor como Ele viveu.
A presença do Senhor Ressuscitado na
comunidade deve se manifestar através de um compromisso efetivo, de uma aliança
firme, do cumprimento de seus ensinamentos por parte dos discípulos. Esta é a
única forma de tornarmos real e concreto o amor que dizemos ter pelo Senhor.
Não se trata de uma volta ao legalismo judaico. O Evangelho declarou o amor
como a lei máxima: o amor a Deus e amor entre os irmãos, amor que deve ser criativo,
manifestado por obras concretas e comprometido com a vida, motivo principal do
projeto de Jesus.
A ação evangelizadora narrada na
primeira leitura, é trabalho do Espírito Santo. Ele rompe fronteiras nacionais,
supera ódio e rivalidades ancestrais, provocando pelo contrário, a unidade e a
concórdia dos que crêem, como bem comprovam os Apóstolos Pedro e João, que com
sua presença na Samaria confirmam o trabalho de Filipe. Trata-se de uma espécie
de Pentecostes a vinda do Espírito Santo sobre esses novos cristãos procedentes
de um grupo de samaritanos, tão desprezados pelos judeus.
Para o Espírito Divino, não há
barreiras nem fronteiras. Ele é Espírito de unidade e de paz.
A PALAVRA SE FAZ
CELEBRAÇÃO
"O amor de Cristo nos uniu"
No começo de toda celebração eucarística,
nossa resposta à saudação do presidente é: "Bendito seja Deus que nos
reuniu no amor de Cristo". Temos aqui uma bênção e louvação a Deus pela
sua ação de convocar o povo para tornar-se assembléia, Igreja.
A reunião da comunidade, portanto, é a
manifestação histórica e espiritual do Amor de Deus por nós. De modo visível,
sensível podemos contemplá-Lo de fato no povo reunido e unido para celebrar.
Este acontecimento se funda na ação que é própria do Espírito Santo: gerar
unidade. Aquela mesma relação que enlaça Pai e Filho se derrama na assembléia e
a envolve na vida interior de Deus. É neste sentido que dizemos que a
Eucaristia é adoração ao Pai, no Filho na força do Espírito Santo. Assumimos o
lugar do Filho, tornando-nos Seu Corpo e travamos uma relação de diálogo com o
Pai. O Senhor nos fala através das Escrituras. Nós Lhe respondemos através de
nossa vida, cujas "ações rituais" antecipam e realizam.
Se temos algum vínculo com alguém, se
cultivamos laços, precisamos de alguma forma externar essa relação. Os que amam
querem se ver, tocar-se, conviver. Isso se dá geralmente num encontro, numa
reunião, ou festa (celebração). "É preciso ritos" nos diria o pequeno
príncipe de Exupéry. Os ritos, ou a celebração, nada mais são do que uma
relação que migrou do universo interior para o universo exterior da pessoa.
Manifestando-se ela se realiza, concretiza-se e se qualifica como algo
fundamental que ocupa todos os espaços do ser e da vida humana.
Deste modo, já no início da celebração
realizamos aquilo que significamos através dos diversos ritos litúrgicos,
conforme suplica a oração doa dia. "Bendito seja Deus que nos reuniu no
amor de Cristo". Antes também do abraço da paz respondemos: "O amor
de Cristo nos uniu".
"Transbordando de alegria
pascal"
Todos os prefácios pascais trazem a
expressão "transbordando/ transbordamos de alegria pascal" ao
prenunciar o louvor que se seguirá com o canto do Triságio, isto é, nome dado
ao canto do Santo. De fato, uma comunidade que se entende mergulhada na vida de
Deus não pode experimentar outro sentimento senão de imensa alegria porque
nossa morte foi vencida através da vitória de Cristo Jesus.
Nossa participação nesta vitória se dá
mediante nosso vínculo com Jesus. Esta ação de vincular-se a Jesus, vivendo a
partir do Seu amor, é a graça maior que buscamos em cada Eucaristia. Dizendo do
ponto de vista bíblico, conforme a segunda leitura, é a própria santificação de
Jesus em nossos corações e uma maneira de dar a razão de nossa esperança.
Esta alegria pascal não pode ser
refreada. Ela transborda primeiro para além das paredes de nosso eu, quando nos
dirigimos aos irmãos e irmãs e lhes comunicamos a paz de Cristo, no rito da
paz; e transborda para fora das paredes do templo, para além do qual
confeccionamos uma vida justa, solidária e que é fonte de alegria para muitos
entristecidos no mundo.
Uma vez que nos contagia, não há quem a
controle. Evidenciamos esta força da alegria do Ressuscitado quando, ao sermos
despedidos nos ritos finais, respondemos: Graças a Deus, Aleluia! Aleluia!
LIGANDO A PALAVRA COM
A AÇÃO EUCARÍSTICA
Em cada celebração, neste Tempo Pascal
estamos renovando a aprofundando nosso Batismo pelo qual fomos inseridos em
Cristo, como ramos enxertados no tronco da vida.
E, hoje, o Espírito da Verdade nos é prometido!
Ele permanece em nós! Somos habitação Dele! Como mãe, Ele nos guia, anima-nos e
santifica-nos. Não estamos órfãos!
Com Ele estamos prontos para dar razão
de nossa experiência em todas as circunstâncias, o que ritualmente faremos a
seguir, professando com coragem a nossa fé cristã.
Na Eucaristia, cantamos o louvor de
Deus e proclamamos suas maravilhas realizadas na Páscoa de Jesus e na Páscoa
acontecendo entre nós e no mundo. O Espírito da Verdade nos fará passar da
morte para a vida. Ele será invocado sobre os dons que apresentamos no Altar,
pão e vinho, frutos da terra e do trabalho humano pra torná-los sacramento,
sinal eficaz de nossa passagem, nossa saída do fechamento egoísta do pecado
para abertura do amor. Amor que resgata nossa dignidade, nossa liberdade, nossa
vocação à transcendência e sacia nossa profunda sede de Deus. Amor que vai até
onde nenhum outro pode ir.
padre Benedito
Mazeti
O Nosso Defensor
Em uma sociedade onde
a família é descaracterizada do seu papel e de seu valor, a orfandade não é
mais tão impactante como em outros tempos quando, ser órfão de Pai era algo
tenebroso, ainda mais se o filho fosse criança ou adolescente. A
comunidade dos discípulos é preparada por Jesus para os tempos difíceis que
estão por vir, após a sua morte. Este evangelho faz parte do chamado “Discurso
de Consolação” onde Jesus promete que eles nunca estarão sozinhos.
Entre a inauguração
do Reino de Deus, realizado no meio dos homens por Jesus, e a Plenitude dos
tempos, que ainda virá, está a Igreja dos que crêem, e que alimenta no coração
essa esperança, estamos no meio da caminhada, rumo a um acontecimento definitivo
para onde converge toda humanidade. Nos tempos das promessas de Deus, a
referência era a Lei de Moisés, portanto, a obediência aos mandamentos, nesses
novos tempos o amor vem por primeiro, depois vem a Lei, a nossa relação com
Deus em Jesus Cristo, tem que ser pautada primeiramente pelo amor e não pela
lei, mesmo porque Jesus já resumiu toda a Lei nesse único Mandamento: Amai-vos
uns aos outros...
O amor agora
divinizado por Jesus é dado como mandamento maior e essencial a quem se
dispuser ao discipulado, mas esse amor grandioso, gratuito, incondicional e sem
medidas, não caberia jamais nos horizontes tão limitados do ser humano se não
fosse Aquele que , dado pelo Pai a rogo de Jesus, alargou os horizontes do
coração humano, tornando-o sim,capaz de amar na mesma medida com que o Senhor
amou a todos, é o Espírito Santo, o Defensor, o assistente de nossas fraquezas,
a água abundante que irriga a secura do nosso egoísmo, a luz Fulgurosa que
ilumina os pontos obscuros da nossa caminhada, mas há algo ainda de maior
importância que o Espírito Santo realiza em nós...
Como se aproximar do
Deus altíssimo, Todo Poderoso, onipotente e perfeito? Em quem podemos olhar
para enxergarmos esse modelo do homem novo, primogênito de todas as criaturas,
dos vivos e dos mortos? Como fazer esta comunhão entre a nossa Fraqueza e a
Fortaleza de Deus, entre a nossa fraqueza e a sua Santidade Gloriosa, isso
equivaleria a tênue chama de uma pequenina vela tendo a pretensão de iluminar o
sol. Jesus é esse caminho a ser percorrido, esse Homem totalmente novo a ser
imitado. Talvez os discípulos naquele momento, já tinham até feito esta
descoberta... Entretanto, se Ele os consola, parece que descobriram tarde
demais... Daria para recomeçar? Com Deus tudo é possível, até um recomeço
quando chegamos ao fundo do “poço”
Pois o Espírito
Santo, entranhado nas profundezas do Homem, o une a Deus, impulsionando-o á
santidade, destinando-o á glória futura, na vivência de um amor que já não é
mais humano, mas que foi perpassado pela divindade. É isso exatamente que o
Espírito Santo faz em nossa vida, nos diviniza! No paraíso, a serpente
enganadora insinuou ao homem que ele poderia ser igual ao Criador, e Deus,
parece ter gostado dessa “idéia” e pensou, “o homem será divinizado, mas com a
minha ajuda”
A proposta da
serpente era de que, o homem se divinizasse sozinho, em sua prepotência
egoísta, Deus encapa essa idéia, mas a partir de uma comunhão profunda, que irá
agora se cumprir com o envio do Espírito Santo prometido por Jesus.
Com este enfoque
podemos compreender melhor a denominação de Defensor, como Jesus o chama, pois
Ele nos defende da idéia tenebrosa e dessa tentação de sermos iguais a Deus
petrificados em nosso egoísmo, que é exatamente o sentimento mesquinho que
domina o coração de muitos, descartando a Salvação que Deus ofereceu em Jesus,
para apegar-se á salvação oferecida pelo próprio homem.
Esse Espírito com o
qual Deus nos envolve na comunhão para nos divinizar, só o discípulo do Senhor
conhece, o mundo não o conhece e nem parece ter interesse em conhecê-lo.
Este mundo as vezes tenebroso, na reflexão de João é a Força do mal,
presente em nosso coração, temos portanto um lado que busca a Santidade e
o Divino, mas temos também um outro lado que quer estagnar-se dentro dos seus
limites.
Impulsionados pelo
Espírito Santo, o homem que crê descobre o sentido da Vida naquilo que faz, e
que pensa, esse Sentido da Vida a que nos conduz o Espírito é precisamente
Jesus Cristo, aquele que ilumina toda nossa existência, que nos torna íntimos
do Pai, na vivência de um amor que extrapola o Humano.
diácono José da Cruz
– O que é que
faz uma pessoa quando vai partir? A resposta dependerá do tipo de partida: se
vai de viagem, em trabalho para um país estrangeiro ou para uma cidade distante
para voltar seis meses depois, ou se a partida é definitiva, para a eternidade.
Há, porém, pontos comuns e um deles é a casa arrumada, no aspeto mais físico
mas sobretudo espiritual. Fazer as malas. Despede-se dos amigos. Passa os
últimos momentos com a família, aproveitando para tranquilizar os que ficam,
com a presença e o estímulo dos que o veem partir. Deixa recomendações, para a
sua ausência, prometendo não se esquecer e não querendo, consequentemente, ser
esquecido. Se é por algum tempo, terá meios, e hoje mais que nunca, de
permanecer ligado, contactável, para que não seja tão intensa e desgastante a
saudade e a distância. Se a partida é para sempre... para quem tem fé, o apelo
à esperança, a certeza de um reencontro na eternidade, a fé de uma presença na
Presença de Deus, pela oração. Para quem não tem fé, as palavras poderão não
ser muito diferentes, esperando um "quem sabe!"
Jesus, tomando
consciência da HORA que se aproxima, prepara os seus discípulos. Pode ver-se,
no evangelho HOJE proposto, a tensão para a Cruz mas também para a Ascensão ao
Céu. "Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a
pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós
vivereis... Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre
convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não
O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em
vós".
Foram tão intensos
aqueles três anos com os discípulos, que estes terão oportunidade para reviver
os momentos e as palavras, descobrindo novos significados, colocando em prática
o que antes experimentaram. O passado não será uma prisão, ou um tempo para
esquecer, mas um desafio para novas vivências, seguindo a postura
do Mestre.
2 – Ele vai
partir. Há que esclarecer os seus discípulos, os amigos mais próximos,
sossegando-os e fixando a condição para manterem a CONEXÃO: guardar o Seus
Mandamentos. Não é propriamente um conjunto de regras ou normas que abriguem
uma cartilha de pecados e de proibições. Guardar os Mandamentos significa
acolher o amor de Deus, o amor que une o Pai e o Filho, enlaçado pelo Espírito
Santo. Quem ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Quem O ama, procura em
tudo ser-Lhe agradável, como procuramos ser agradáveis para com as pessoas de
quem gostamos. Sublinhe-se, que agradar a Deus não é um capricho divino, mas é
a forma, o conteúdo, o instrumento, de entrarmos em lógica de salvação. Seremos
agradáveis a Deus amando e servindo o próximo. Sentindo-nos úteis e
protagonistas da história que se refaz pela compaixão, pelo amor, pelo serviço
aos outros.
«Se Me amardes,
guardareis os meus mandamentos. Se alguém aceita os meus mandamentos e os
cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu
amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele». Esta é a condição e a certeza de
estar em Deus: cumprindo os Seus Mandamentos, viver amando. Exatamente a
atitude que assumimos com aqueles que respeitamos, por aqueles a quem nos unem
laços de amizade, ou por aqueles a quem temos a obrigação de servir.
3 – Depois da morte
de Jesus, os discípulos precisam de tempo para processar e atualizar tudo o que
Ele lhes tinha dito, mas sobretudo precisam do Espírito Santo, dado com a Sua
Ressurreição. Só à luz da Ressurreição se torna possível entender a Mensagem de
Jesus e torná-la acessível para todos. Ressuscitando, Jesus aparece aos
discípulos e logo lhes dará o Espírito Santo, para que a Sua Ascensão
signifique sobretudo uma presença mais espiritual, mais abrangente, mais
profunda. Doravante prevalecerá a fé e a esperança, animadas com a caridade,
ligando deste modo a profissão de fé ao mundo e à história. Foi o Seu
compromisso, terá de ser o dos seus discípulos, é o horizonte, o chão, o
ambiente da nossa vida.
Tudo se altera a
partir da Vida Nova que Ele traz aos Seus, com a força do Espírito Santo, com a
Luz que vem das alturas e inunda o mundo inteiro, a começar pelo túmulo onde
fora colocado.
É HORA de os
discípulos espalharem a Boa Notícia da salvação. Aquele que foi morto, Deus O
ressuscitou dos mortos. O projeto de perdão e de compaixão, de amor e de
serviço, protagonizado por Jesus, volta agora com toda a força do Ressuscitado,
a vastidão do Céu – feliz expressão de Bento XVI – chega até nós.
O tempo das portas
fechadas já lá vai: "Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou
a pregar o Messias àquela gente. Houve muita alegria naquela cidade. Quando os
Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a
palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Quando chegaram lá, rezaram pelos
samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido
sobre eles: só estavam batizados em nome do Senhor Jesus. Então impunham-lhes
as mãos e eles recebiam o Espírito Santo".
Os dons de Deus não
são um exclusivo dos primeiros, são privilégio que se estende ao mundo inteiro,
a todos aqueles e aquelas que se predispuserem a acolher o próprio Deus. Deus
não dá nada menos que a Si mesmo (Ratzinger/Bento XVI). Os Apóstolos recebem o
Espírito Santo, anunciam o Evangelho, e comunicam-n'O a outros, aumentando o
número dos discípulos de Jesus.
4 – Eloquente e
luminosa a mensagem de são Pedro, anunciando Jesus, convocando outros para O
anunciarem, dando razões da fé professada, mas pedindo cuidado e respeito por
todos, mesmo quando maltratados. Em tudo, o importante é fazer o bem, seguindo
as pegadas de Jesus:
"Venerai Cristo
Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja,
sobre a razão da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito, conservando
uma boa consciência, para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados, sejam
confundidos os que dizem mal do vosso bom procedimento em Cristo. Mais vale
padecer por fazer o bem, se for essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal.
Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o Justo pelos
injustos – para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida
pelo Espírito".
A alegria que nos vem
da fé há de ser ponte de diálogo, de encontro, de partilha, de comunhão, com
novos laços, vida nova, libertando-nos para construir um mundo novo, inundado
de Deus. O nosso testemunho há de ser perfume que atrai, que envolve, que
provoca adesão e seguimento de Jesus Cristo. As palavras e os gestos que usamos
deverão ser promotores de vida e de felicidade. Fazer o bem, sempre. Amor com
amor se paga (são João da Cruz). Ao Amor recebido, de Deus, amor partilhado,
com os irmãos. Mesmo à ofensa, responder com este Amor maior.
5 – O anúncio da Boa
Nova, que nos compromete, gera alegria em nós e a quem escuta de coração leve,
disponível, humilde. É na humildade que Maria Se enche de Alegria, e prepara o
Seu Corpo e a Sua vida por inteiro para acolher o Corpo de Deus e no-l’O dar.
A primeira Igreja,
Maria, alegra-se no Seu Senhor. A Sua alma rejubila em Deus, predispondo-Se a
engrandecer a presença de Deus. E tal é o Seu sim, que a Palavra Se faz Carne e
Vida n’Ela. E com este jeito simples, belo, humilde, de acolher Deus, a alegria
que se estende a Isabel, aos noivos de Caná, e se renova com a vinda do
Espírito Santo, em dias de Pentecostes, que breve celebramos como quem se
dispõe a transparecer o Deus que também em nós quer ser carne e vida.
padre Manuel Gonçalves
Não vos deixarei
órfãos
1ª leitura: At.
8,5-8. 14-17
A palavra de Deus
abre-nos ao Espírito
1. Este texto mostra-nos mais um passo
da comunidade cristã primitiva. A crise originada na comunidade de Jerusalém
por causa dos "helenistas" que tinham uma mentalidade mais aberta e
mais atenta ao que tinha significado a mensagem do Evangelho e da Páscoa
dispersou estes cristãos para fora da cidade santa e vai constituir a semente
missionária e decisiva para que o "caminho", outro dos nomes com que
eram conhecidos os seguidores de Jesus, romperá as barreiras do judaísmo. Do
relato, para a leitura deste domingo exclui-se o caso de Simão, o Mago, que
queria fazer o que Filipe fazia, comprá-lo se fosse necessário – daí o nome de
"simonia" por querer adquirir, por meio do dinheiro, os bens
espirituais.
2. O programa que o autor (Lucas)
desenhou em At. 1,8 deve ser cumprido com precisão. Mas é o Espírito que toma
estas iniciativas que, mais à frente, se adianta aos mesmos apóstolos. Porque a
Igreja, sem o Espírito do Senhor, não estaria aberta a novos modos e
territórios de evangelização e presença. O Espírito é quem outorga sempre à
comunidade cristã a liberdade e o valor necessários. Na leitura de hoje vemos
Filipe, um dos sete eleitos e, provavelmente, o líder e sucessor de Estevão que
chega ao território maldito dos samaritanos. O ódio entre judeus e samaritanos
já aparece no Evangelho (Lc. 9,52ss.; Jo 4). Este era um passo muito
importante, porque eram considerados pagãos. Esta era uma aposta decisiva, um
compromisso orientado pelo Espírito de Pentecostes para cuja festa nos
preparamos. Os samaritanos acolheram a palavra de Deus, diz-nos Lucas neste
relato, e enviaram Pedro e João para que pudessem atender e confirmar na fé
esta nova comunidade que se tinha aberto à força da palavra salvadora.
3. Por isso, convém salientar que não
são os "doze" os discípulos de Jesus e os testemunhos
"diretos" da Ressurreição os que levam a cabo esta iniciativa
eclesial. Filipe, o helenista, é o que se atreve a cumprir esta promessa do
Ressuscitado de At. 1, 8 (embora conte muito a perseguição em Jerusalém contra
eles). O que faz é o mesmo que fazia Jesus (Lc. 7,21; 8,2; 9,1). Destaquemos,
pois, as iniciativas dos de segundo plano que têm a mesma importância ou mais,
já que levam a pregação, a palavra de Deus a "lugares de fronteira".
Em Lucas, a "palavra de Deus" é a verdadeira protagonista, junta com
o Espírito, da segunda parte da sua obra.
4. Num segundo momento, Pedro e João
têm de assumir a realidade de que os samaritanos, aonde eles não se atreviam a
ir, acolheram a pregação evangélica. Isto contrasta com a cena do Evangelho
(Lc. 9,51-56) em que Jesus e os seus, passando por território samaritano ao
irem a Jerusalém, e não sendo recebidos, Tiago e João, os filhos de Zebedeu,
pediram um castigo apocalíptico para aquele lugar maldito. Mas Jesus reprova,
de forma rotunda, esta atitude de vingança. Para Lucas era como a primeira
semente que agora vê crescer por meio de uma nova pregação. E João, o filho de
Zebedeu, é o protagonista naquele momento.
5. O relato, deve, portanto ser lido e
interpretado no sentido de que os que não esperam resposta são capazes de
acolher a mensagem da salvação com maior solicitude e entusiasmo do que os que
estavam religiosamente predestinados para tal. A chegada de Pedro e João não
deve ser entendida como imposição da sua autoridade apostólica ou hierárquica,
mas, pelo contrário, fazer ver, pela sua parte e por parte da Igreja-Mãe
Jerusalém, o mistério de "comunhão" que os hereges samaritanos
(concepção do judaísmo ortodoxo) são capazes de dar.
6. Por isso, este é um segundo
"Pentecostes" que aqui acontece pela imposição das mãos dos
apóstolos. E foi assim que na Igreja primitiva aconteceram diferentes momentos
de "Pentecostes" como presença do Espírito de Jesus ressuscitado.
2ª leitura: 1 Pedro
3,15-18
Dar a razão da nossa
esperança
1. O nosso texto oferece uma tese
teológica que deve ser determinante para os seguidores de Jesus: que devemos
estar sempre dispostos a dar a razão da nossa esperança. Os primeiros cristãos
tiveram de explicar muitas vezes a quem lho pedia os motivos da sua fé e da sua
esperança. Eram tempos de perseguição. Hoje vivemos a fé com menos ambição, mas
não podemos ocultar a luz debaixo de nada.
2. Ser cristão, ser discípulo de Jesus
concede-nos o seu Espírito e estamos convocados então para dar testemunho. Hoje
não há perseguições como então, mas se o mundo tem outros valores e reduzimos o
nosso testemunho a certas manifestações cultuais. Mas a fé cristã não existe
para o culto, mas deve dar sentido a toda a nossa vida. Por que acreditamos?
Por que esperamos, por que amamos e perdoamos? Não podemos esconder a nossa
verdade, mas devemos comunicá-la, mesmo que tenhamos de sofrer apesar da
adversidade ou da incompreensão.
3. Não se trata de fazer uma defesa
apologética da nossa esperança, mas se for necessário viver com esperança: a
esperança em Cristo, num mundo de paz e de concórdia, num mundo que tem, além
disso, um futuro mais para além desta história, porque Jesus, o Senhor,
conquistou para todos nós esse mundo novo.
Evangelho: João
14,15-21
O Espírito, nosso
"Defensor"
1. No Evangelho de João, com o seu
discurso de revelação da Última Ceia existe uma conexão entre amor e
mandamentos. Se amamos Jesus somos chamados a amar-nos uns aos outros, porque
na teologia de João esse é o mandamento novo e único que nos deixou para que
tenhamos a nossa identidade no mundo. Seria isto novo? Era novo na forma em que
o entendeu Jesus, inclusive, porque temos de amar os que nos odeiam; assim
seremos seus discípulos.
2. Para levar por diante este
mandamento, Jesus pedirá um "defensor", um "ajudante": o
Espírito. Voltamos a colocar-nos em linha aberta com a festa de Pentecostes que
celebraremos daqui a dois domingos. O Espírito da Verdade, não de uma verdade
abstrata, mas da Verdade maior, de uma Verdade que o mundo "odeia",
porque o mundo em João é o mistério da mentira, do ódio, das trevas.
Provavelmente detectamos aqui um dualismo um pouco exagerado, mas é verdade que
o mundo da mentira existe e, frequentemente, nos rodeia.
3. Jesus promete que não nos deixará
órfãos: o Espírito é mais forte que o mundo, como o amor e a verdade são mais
fortes que o mundo, embora nos pareça o contrário. Se queremos viver outra vida
verdadeira devemos fiar-nos em Jesus que, do regaço de Deus como Pai não se
instalou lá, mas que ao enviar-nos um Defensor conduz-nos ao mundo da verdade,
da luz, do amor que reina no coração de Deus.
4. O Evangelho fala-nos do
"Paráclito" que Jesus promete aos seus. O termo grego parákletos (do
verbo kaleo que significa "interceder por") tem a
sua origem no mundo jurídico e designa alguém que era chamado como defensor num
tribunal, em suma, um advogado. Sabe-se que os discípulos terão de enfrentar
uma luta, no mundo. O autor do Evangelho já o está a ver com os seus olhos e,
por isso, constrói este discurso sobre o "Paráclito" que "estará
convosco para sempre" (Jo 14,16) É este espírito da "Verdade que é
uma das formas em que Jesus Se apresentou neste Evangelho (14,6), um tema
dominante da catequese de João. Pela mesma razão, o Espírito virá a fazer o que
fazia Jesus enquanto estava com eles.
5. Que sentido tem todo este discurso?
Pois ainda que Jesus falte não nos faltará o seu Espírito. É uma presença nova
de Jesus, uma presença que surge depois da Ressurreição e que não podemos
duvidar de que existe e existirá. E embora não esteja definida essa
personalidade do Espírito, como será feito na teologia posterior, devemos estar
abertos a essa promessa de comunhão e de vida. Neste nosso mundo de disputas
intermináveis e de interesses muito humanos, ter um advogado "defensor"
é como uma necessidade para não estarmos desamparados. Do mesmo modo, os
cristãos, têm o seu e podem apoiar-se nele, porque Ele é um advogado da verdade
que liberta" as nossas consciências.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
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