SANTÍSSIMA TRINDADE
Tempo Comum
11 de Junho de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Jo
3,16-18
Deus enviou seu Filho ao mundo, para
que o mundo seja salvo por ele.
que o mundo seja salvo por ele.
16Deus amou tanto o
mundo,
que deu o seu Filho unigênito,
para que não morra todo o que nele crer,
mas tenha a vida eterna.
17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por ele.
18Quem nele crê, não é condenado,
mas quem não crê, já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
Palavra da Salvação.(CNBB).
que deu o seu Filho unigênito,
para que não morra todo o que nele crer,
mas tenha a vida eterna.
17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por ele.
18Quem nele crê, não é condenado,
mas quem não crê, já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
Palavra da Salvação.(CNBB).
Eis o Mistério da Fé! Um
Deus em três pessoas. O mistério da Santíssima Trindade, o qual não pode ser
compreendido pela nossa inteligência humana, mas sim, pelos olhos da fé.
Mistério forte que não cabe na nossa cabecinha. Continuar lendo
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
PELO BATISMO SOMOS INSERIDOS NA FAMÍLIA
TRINITÁRIA! –
Olivia Coutinho
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE.
Dia 11 de Junho de 2017
Evangelho de Jo3,16-18
Neste Domingo, nos unimos no mesmo espírito de
fé, para celebrarmos a Festa da Santíssima Trindade!
A Festa da Santíssima Trindade é a festa da
Família, a Festa do amor, quando a Igreja nos convida a contemplar o Mistério
inefável e insondável da Trindade Santa!
Mergulhar neste
Mistério, é fazer a experiência do amor do Pai, que se doou por nós através do
seu Filho que ao morrer na cruz, nos devolveu a vida no seu Espírito!
O Pai nos enviou o
Filho, o Filho veio nos ensinar a sermos filhos solícitos, obedientes ao Pai
como Ele!
Ao Colocar esta
festa, no domingo seguinte à Solenidade de Pentecostes, quando celebramos o
envio do Espírito Santo sobre a Igreja nascente, a Igreja vem nos lembrar
de que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia
do Senhor, dia, em que contemplamos o Mistério do Deus Família, participando da
Eucaristia, a comunhão Trinitária!
No antigo testamento,
não se fala da Família Trinitária, foi Jesus quem a revelou, entreabrindo
o véu que encobria dos nossos olhos, o Deus amor, que para relacionar conosco,
quis se fazer família: Como Pai, Ele nos criou, como Filho nos redimiu e como
Espírito Santo nos santifica...
O Espírito Santo é o
guia que nos remete ao coração do Pai, que nos faz entender com clareza, os ensinamentos
do Filho, que pelo Batismo, nos inseriu na Família Trinitária!
“O Espírito Santo não
falará por si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido...” Essas palavras de
Jesus, vem confirmar, que mesmo sendo distintas, nenhuma pessoa da
Santíssima Trindade age individualmente. Este exemplo, deve ser
seguido por cada um de nós!
O evangelho que a liturgia desta solenidade nos
apresenta, vem nos falar da grandiosidade do amor de Deus, um amor tão grande,
que ultrapassou todos os limites, que não levou em conta as nossas ingratidões!
A nossa felicidade está em Deus, é amando-nos,
que Deus nos ensina a amar e é a nossa capacidade de amar, que nos identifica
como filhos e filhas de Deus!
Quem tem o coração fechado, é incapaz de amar,
por isto está longe de estabelecer um relacionamento íntimo com Deus!
A única condição que Deus estabelece para que
tenhamos vida Nele, é crer Naquele que Ele enviou, é Crendo no Filho, que
entramos em intimidade com o Pai!
É no seguimento a Jesus , que vamos respondendo
ao amor ao amor de Deus!
Deus enviou Jesus ao mundo para nos ensinar o
caminho da vida, quem não o acolhe, escolheu a morte. A morte não está
nos planos de Deus, o que Deus quer, é a vida, vida em plenitude que só
alcançamos, no seguimento a Jesus!
O nosso fim, não é o fim da nossa
vida física, e sim, a nossa ruína, que é consequência de nossas
más escolhas, e Deus não quer isso para nenhum de nós, Ele não quer
que nenhum de seus filhos, se perca.
O texto nos traz a certeza de que
a realização plena do homem, é a prioridade de Deus, Ele provou isto, ao
investir alto no resgate deste bem que lhe é precioso,
permitindo que o seu Filho pagasse com a vida o preço da
nossa liberdade.
Podemos escolher, em dar a Deus, uma resposta de
fé, ou de descrença. A fé e descrença já contêm o juízo de Deus: salvação, ou
condenação.
A condenação não vem de Deus, não é Deus
quem nos condena, somos nós mesmos que nos condenamos quando não
colocamos a verdade de Deus no nosso existir!
É o próprio Jesus quem diz: ”Quem crê não é
condenado, mas quem não crê já está condenado”... Quem não crê, já está
condenado porque não irá viver de acordo com a vontade de Deus!
Crer em Jesus é continuar a sua presença atuante
aqui na terra, não crer, é recusar a sua proposta de vida nova, é
rejeitar a luz!
O caminho da nossa salvação passa pela a
cruz, foi pela cruz que Jesus abriu definitivamente as portas do céu para
nós.
“A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram
as trevas à luz porque suas ações eram más.”Jo3,19
Não rejeitemos a graça de Deus, busquemos Jesus,
Ele é o respiro de Deus que soprou sobre nós o Espírito Santo, nos tornando
novas criaturas! É o Espírito Santo que clareia a nossa mente, que nos faz
enxergar com clareza, a vereda segura a qual devemos seguir.
A palavra
central, desta celebração que deve nortear a nossa vida, é a
“confiança”, a confiança na família Trinitária, onde encontramos o amparo do
Pai, a segurança do Filho e a força iluminadora do Espírito Santo.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no
Facebook:
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Três pessoas em um
só Deus
Para muitas pessoas, inclusive cristãs,
a SS. Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver três
pessoas divinas em um só Deus? Parece que nada tem a ver com sua vida.
Se a Trindade fosse um problema
matemático, deveríamos procurar uma “solução”. Mas, na realidade, não se trata
de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé: 1)
Deus é um só; 2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à
“contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para a gente
colocá-lo dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça nele...
Na 1ª leitura, Moisés invoca o nome de
Deus: “O Senhor (Javé), Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico
em amor e fidelidade...”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um
Deus que ama. Segundo o evangelho, Jesus revela em que consiste a manifestação
maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho, que quis morrer
por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua
carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se
manifestou entre nós: Deus enviou o seu filho único ao mundo, para que tenhamos
a vida por ele” (1Jo 4,9)
Assim, tanto no Antigo Testamento como
no Novo, Deus é conhecido como sendo “amor e fidelidade”. Estas são as
qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade”
de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus aparece como comunhão de amor: o Pai,
Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por
nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo
4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.
Se Deus é comunidade de amor, também
nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho,
que deu sua vida por nós, nós também devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os
com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a
“imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn. 1,26).
O conceito clássico do homem é
individualista. Isso não é cristão... Se Deus é comunidade, e nós também
devemos sê-lo, não realizaremos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso
individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de
modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos quais
o povo se assemelha ao Deus-Trindade: bondade, fidelidade, comunicação,
espírito comunitário etc.
Como pode haver três pessoas em um só
Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é
comunidade, e nós também devemos sê-lo.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
O evangelho de hoje faz parte de um
diálogo de Jesus com Nicodemos, um fariseu – homem reconhecido pelo fiel
cumprimento das leis – um judeu importante que no futuro, durante o julgamento
que levará Jesus à morte, irá se posicionar pelo Seu direito à defesa.
Jesus mostra a Nicodemos, o projeto de
Deus para os homens, um projeto de amor que é traduzido em obras, pois, foi por
amor que Deus enviou o seu único Filho, Jesus, que, em condições humanas,
derramou seu sangue na cruz, morrendo para salvar a humanidade do pecado. Tudo
o que Jesus fez, em nome do Pai foi a favor da vida, para que a humanidade
fosse salva.
Deus é o amor que salva e comunica a
vida plena. Ele ama o mundo e toda a humanidade, e o Seu amor é uma oferta
gratuita que atinge todo ser humano em profundidade. Ele não ama a humanidade
porque é boa, mas porque Ele é bom.
A presença de Jesus no meio dos homens
torna-se incômoda porque provoca uma tomada de posição, e exige decisão: ou se
é a favor da palavra e ação de Jesus, tomando-se assim o partido da vida; ou se
posiciona contra o seu projeto de amor, colocando-se a favor da morte.
É isso que o evangelho de João chama de
julgamento. Jesus, porém, não julga ninguém, nem condena, mas provoca
simplesmente esta tomada de decisão. Ele aponta o que cada um é a partir
daquilo que faz a favor ou contra a vida. São as próprias pessoas que se julgam
a partir das escolhas que fazem.
Deus manifesta todo o seu amor e
derrama sua graça aos homens por meio de seu Filho Jesus, e os chama à comunhão
com Ele no Espírito Santo derramado sobre cada um no batismo.
A Santíssima Trindade é a comunidade de
amor mais perfeita. Ela é a união do Pai e do Filho e do Espírito Santo
formando a comunidade trinitária que é um mistério, uma realidade que está
acima de toda e
qualquer compreensão humana. É a união
de três pessoas em uma só unidade através do amor infinito.
Porém, é essa comunhão que Deus quer
que todo homem tenha com Ele, uma comunhão de vida plena e única de filhos com
o Pai, condição oferecida por Jesus e impulsionada pelo Espírito Santo.
Pequeninos do Senhor
omos amados por
Deus
A contemplação da Santíssima Trindade
abre o nosso coração para o Deus amoroso, revelado por Jesus Cristo. Consciente
de ser Filho, Jesus nos falou do Pai e prometeu o dom do Espírito Santo a quem
tivesse fé. Revelou que tinha vindo do Pai e para o Pai voltaria, confiando ao
Espírito Santo a missão de dinamizar a caminhada da comunidade de fé. Sempre
que falava de Deus, referia-se à Trindade.
O envio do Filho, por parte do Pai, foi
uma prova de amor imenso ao ser humano corrompido pelo pecado. Visando libertar
da morte a humanidade, Jesus veio, na qualidade de portador de vida eterna.
Entretanto, a perfeita salvação – o dom da vida eterna – depende de como se
acolhe Jesus, e se adere à sua pessoa. Deste modo, vive-se como verdadeiros
filhos e filhas de Deus, regenerados pelo Espírito.
Engana-se quem atribui a Jesus a missão
primordial de julgar e condenar o mundo. A condenação depende da incredulidade
em relação ao Filho enviado pelo Pai. Rejeitar o Filho significa, por extensão,
rejeitar o Pai que o enviou. Por sua vez, recusar a este comporta a rejeição da
vida eterna, que só ele pode oferecer. Esta insensatez, em última análise,
resulta do fechamento ao dom do Espírito Santo, o único que tem o poder de
atrair o ser humano para Deus. Portanto, embora o desígnio primeiro da Trindade
seja o de salvar a humanidade, resta sempre a possibilidade de o ser humano
servir-se de sua liberdade para fazer-se prisioneiro de seu egoísmo.
padre Jaldemir
Vitório
Deus se mostra como um Deus próximo de nós
A festa da Santíssima
Trindade é, depois do ciclo Quaresma-Páscoa, a primeira festa na retomada do
tempo comum. O termo “trindade” não aparece no Novo Testamento; é fruto da
abstração típica da teologia que busca compreender o conteúdo próprio da fé
cristã. O que Deus é, ele nos deu a conhecer ao longo de toda a história vivida
como o lugar da manifestação da salvação de Deus. O conhecimento de Deus só é
possível através da revelação, só é possível se Deus se mostra. Para a tradição
bíblica, o que Deus é só pode ser dito narrativamente, isto é, na longa
história de sua revelação ao seu povo até chegar à plenitude dos tempos em que
Deus enviou ao mundo o seu Filho único, nascido de uma mulher (Gl. 4,4). Em
toda a história, Deus se revelou como um Deus próximo, que caminha, orienta e
conduz o seu povo. Na plenitude dos tempos, Deus armou a sua tenda no meio de
nós (Jo 1,14). Essa peregrinação de Deus na história da humanidade foi
revelando pouco a pouco o seu rosto. Mas na plenitude dos tempos, pela
encarnação do Verbo eterno de Deus em Jesus de Nazaré, pudemos conhecer Deus
sem sombra, sem véu (Mc. 15,38), pois Jesus Cristo é a imagem do Deus invisível
(Cl. 1,15); estando diante dele, estamos diante de Deus mesmo (Jo 14,9-10). O
que Deus é desde toda a eternidade, só pôde ser conhecido a partir da
ressurreição de Jesus Cristo e com a graça do Espírito Santo. O que era desde
toda a eternidade nós só chegamos a compreender depois: o último na ordem da
compreensão é o primeiro na ordem do ser. Deus é amor (1Jo 4,8). A criação, a
encarnação do Verbo de Deus, a redenção, tudo é fruto do amor de Deus pela
humanidade. Um amor que não condena nem exclui quem quer que seja, mas que a
todos, indistintamente, oferece a sua salvação. Cada um dos evangelhos, cada
qual a seu modo, apresenta a dificuldade dos discípulos de entrarem no mistério
de Deus revelado em Jesus Cristo. Essa dificuldade continua a ser nossa
contemporânea. O que Deus é não se pode conhecer simplesmente por um esforço
racional. A experiência própria da fé é que permite entrar nos umbrais do
mistério de Deus. O Espírito Santo, Deus em nós, continua a missão de Jesus e,
por isso, é ele nosso apoio e guia no conhecimento de Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj
E o Verbo se fez carne e veio morar entre nós
Neste texto, como
núcleo do discurso de Jesus a Nicodemos, João reapresenta a encarnação
salvífica de Jesus, já anunciada no prólogo de seu evangelho. "E o Verbo
se fez carne e veio morar entre nós e vimos a sua glória, que ele recebe do seu
Pai como Filho único" (Jo 1,14). "Ele estava no mundo. A quantos,
porém, o acolheram deu o poder de se tornarem filhos de Deus: são os que crêem
no seu nome" (Jo 1,12). Temos aqui o anúncio fundamental que pervaga o
evangelho de João. Deus, no seu grande amor, enviou seu Filho ao mundo para
comunicar a vida eterna a todos que nele crêem. O objeto do amor de Deus é o
mundo. A palavra "mundo", principalmente nas cartas paulinas (1Co.
2,12; 3,19; Ef. 6,12) e no evangelho de João, significa a sociedade alienada de
Deus pela dominação daqueles que são seduzidos pela ambição do dinheiro e do
poder. No evangelho de João o mundo está submisso ao príncipe das trevas. Não é
necessário pensar em entidades demoníacas. Trata-se do poder da morte. São os
poderosos deste mundo que semeiam a morte em vista de garantir e consolidar
suas riquezas, seu poder econômico, militar, e ideológico, apelando para
contra-valores seculares ou religiosos. Este "mundo" tem uma
estrutura que se opõe a Deus, mas Deus vem, com amor, para transformar e
libertar este mundo. O mundo é criação de Deus e Deus dá seu Filho único ao
mundo para elevá-lo à plenitude da paz e da vida eterna.
O Filho é a "luz
do mundo" (Jo 1,9; 3,19; 8,12; 9,5; 12,46), e Jesus dá a vida pelo mundo
(Jo 6,33). "Deus amou tanto o mundo que deu seu filho único",
enviando-o pela sua concepção no ventre de Maria, na encarnação. Jesus, o novo
Adão, já é a realidade da nova humanidade: é o homem que, na condição de filho
de Deus, já é divino e eterno. O fruto do amor não é a condenação mas a
libertação de toda opressão, que é realizada por Deus com o dom gratuito da
vida eterna, e alcançada pela fé. Jesus, a luz do mundo, vem como dom e prova
do amor de Deus. Sua glória, que é a glória do Pai é a comunicação deste amor.
Deus que "dá" seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo, foi
entendido dentro das categorias do judaísmo, como oferta sacrifical. Jesus
seria sacrificado na cruz nos moldes dos cordeiros no altar do Templo de
Jerusalém ou como Isaac que é levado ao sacrifício por seu pai Abraão. Terrível
compreensão! Deus é amor! Deus envia Filho Jesus não para julgar e condenar,
mas como portador do amor divino, no Espírito Santo, para comunicar a vida aos
homens e mulheres. É um renascer para a eternidade, é a ressurreição.
"Deus enviou seu Filho ao mundo, não para julgar o mundo, mas para que o
mundo seja salvo por ele". A salvação, na tradição de Israel, é
compreendida como sendo o resgate do castigo e da condenação dos ímpios
pecadores, um povo de "cabeça dura", sob o ponto de vista das elites
religiosas (primeira leitura). Com Jesus esta idéia de salvação vai sendo
didaticamente substituída pela idéia da libertação da opressão que impera no
mundo e o anúncio do dom da vida eterna. O estar julgado ou não estar julgado é
substituído pelas atitudes de não crer ou crer em Jesus, Filho único de Deus.
Quem crer em Jesus não será julgado porque libertou-se e recebe o dom da vida
eterna. Quem não crer é julgado por permanecer conivente com as estruturas de
poder deste mundo, distanciando-se deste dom. Os discípulos eram do mundo, mas
foram libertados de seu poder e de sua ideologia pela adesão ao projeto de
Jesus. Eles são a semente da libertação do mundo. O crer é a porta para a vida
eterna. Crer no nome do Filho é seguir Jesus. É ser portador da misericórdia e
da vida ao mundo. Viver o amor na comunidade, desvelando a presença do amor de
Deus no mundo.
José Raimundo Oliva
Após termos celebrado o Natal do
Senhor, quando contemplamos o amor do Pai, que enviou seu Filho ao mundo na
potência do Espírito, que tornou fecundo o seio virginal de Maria Mãe de Deus;
após a celebração do santo tempo pascal, quando fizemos memorial da paixão,
morte, sepultura e ressurreição do Senhor, que por nós ofereceu-se ao Pai num
Espírito eterno; após concluirmos a Santa Páscoa com a celebração do dom do
Espírito em Pentecostes, neste Domingo a Igreja nos faz proclamar a glória da
Trindade Santa, o Deus uno e trino que é amor e deu-se a nós e nos salvou por
amor! Na Liturgia, no correr do ano, é o Mistério e a história do nosso Deus
conosco que celebramos, contemplamos e experimentamos na nossa vida!
Mas, o que nos revela essa história de
Deus, do Pai que nos enviou o Filho na força do Espírito Santo? Revela-nos que
o Deus uno e único, o Santo Deus de Israel é, ao mesmo tempo e de modo
misterioso e impenetrável, uma eterna e perfeita Comunidade de amor! Ele é um só!
Ele é comunidade de amor! Absolutamente Um e absolutamente comunidade! Eis o
Mistério que nem no céu poderemos esquadrinhar! Não é a toa que, na primeira
leitura de hoje o Senhor se revela se escondendo na noite e na nuvem: “Ainda
era noite... e o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés”. Eis! Nosso
Deus se faz próximo, desce até nós por amor, mas não podemos compreendê-lo,
domá-lo, domesticá-lo! Ele se revela como amor puro e generoso: seu nome é Amor
e Misericórdia: “Senhor, Senhor! Deus misericordiosos e clemente, paciente,
rico em bondade e fiel...”, mas para experimentá-lo, para caminhar com ele, e
preciso a atitude de Moisés: “ele curvou-se até o chão, prostrado por terra...
E disse: ‘Senhor, acolhe-nos como propriedade tua’”. Nosso Deus nos ama, nosso
Deus faz-se próximo, mas jamais será nosso parceiro, nosso amiguinho, nosso
coleguinha, que pode por nós ser subornado e com o qual podemos negociar! Não!
Ele é Deus! O seu nome é Eternidade, o seu nome é Infinitude, o seu nome é
Amor! Ele é Deus!
E, no entanto, ele quis caminhar
conosco, veio a nós e revelou-se no Mistério da sua intimidade. Que coisa: um
Deus que nos procura e quer nos unir a ele. Como dizia santa Teresa: “Juntais
aquela que não é com a Plenitude acabada: sem acabar, acabais; sem ter que
amar, amais, e engrandeceis nosso nada!” Ele, gratuitamente, deu-se a nós, para
nos salvar, fazendo-nos viver com ele, participando da sua vida: por isso o Pai
entregou ao mundo o seu Filho amado: para viver conosco, sonhar conosco, sofrer
e morrer conosco e, assim, dá-nos sua vitória e seu céu: “Deus, o Pai, amou
tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra quem nele
crer, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho para condenar o
mundo, mas que o mundo seja salvo por ele”. No Filho único, Jesus, o Pai
mostrou o seu rosto, o Pai mostrou sua bondade, o Pai mostrou o seu amo. Jesus
mesmo disse: “Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma só coisa! (Jo 14,9s).
Mas, não bastava para Deus viver no nosso meio, entre nós! Ele quis viver em
nós, dentro de nós, sendo mais íntimo de nós que nós mesmos! Por isso, o Filho
Jesus, Deus entre nós, Deus conosco, após sua morte e ressurreição, deu-nos o
seu Espírito Santo, que ele mesmo recebera do Pai: “Porque sois filhos, Deus, o
Pai, enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!
(Gl. 4,6). Deus foi grande para conosco! Foi bom demais! Não só nos revelou
coisas, mas revelou-se a si mesmo. Ele, no mais íntimo de si, sem deixar de ser
um só, é Pai, eterno Amante, é Filho, eterno Amado, é Espírito, eterno Amor! E
não somente revelou-se a nós como é, mas deu-se a nós: o Pai, pelo Filho, no
Espírito deu-nos a própria vida divina! Deus veio a nós, quis fazer história na
nossa história, quis viver a nossa vida para nos elevar à vida dele, vida
feliz, vida plena, vida eterna!
É nessa fé que vivemos, é na vida desse
Deus uno e trino que fomos batizados. Aquele amor eterno entre o Pai, o Filho e
o Espírito, é o amor que nos invade e que devemos viver entre nós! A Trindade
não é uma teoria para os doutores em teologia. Ela é uma realidade concreta que
deve invadir a nossa vida e a vida da Igreja: “Amemo-nos uns aos outros, pois o
amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele
que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor!” (1Jo 4,7-8). Porque somos
cristãos, nascidos nas águas batismais, em nome da Trindade, nossa vida deve
ser vida e comunhão de amor: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus
Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” Estas palavras de
são Paulo revela o que nós somos, o que devemos ser, o que devemos testemunhar
diante do mundo: uma comunidade que nasceu do amor, vive no ninho do Deus de
amor e caminha para o Deus de amor. Por isso o Apóstolo recomenda-nos:
“Alegrai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, saudai-vos com o ósculo
santo!”
Crer e experimentar que Deus é uno e
trino é viver no amor que nos faz uma só coisa no Filho Jesus e nos conserva
respeitosos das diferenças e diversidades entre nós. Uma comunidade que não
seja unida e respeitosa das diferenças de dons, carismas, ministérios e
sensibilidades, não é uma comunidade realmente nascida da Trindade, que vive o
mistério da Trindade e caminha para a Trindade. Nunca esqueçamos: vimos do Pai
pelo Filho no Espírito; caminhamos, peregrinos, para o Pai, pelo Filho no
Espírito. A Trindade é nosso berço, nosso ninho e nosso destino. Contemplá-la e
adorá-la é viver o amor. Como dizia Santo Agostinho: viste o amor, viste a
Trindade. “Bendito seja Deus Pai, bendito seja o Filho unigênito, bendito seja
o Espírito Santo! Deus foi misericordioso para conosco!” A ele, a glória pelos
séculos.
dom Henrique Soares
da Costa
A solenidade que hoje celebramos não é
um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três
pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é
comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
Na primeira leitura, o Deus da comunhão
e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem,
auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de
misericórdia.
Na segunda leitura, Paulo expressa –
através da fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a
comunhão do Espírito Santo estejam convosco” – a realidade de um Deus que é
comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de
amor.
No Evangelho, João convida-nos a
contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao
mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua
vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida
definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho
único e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.
1ª leitura: Ex.
34,4b-6.8-9 - AMBIENTE
O nosso texto faz parte das “tradições
sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo
denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que
Israel teria assumido com Jahwéh.
O texto situa-nos no deserto do Sinai,
“em frente do monte” (cf. Ex. 19,1). No texto bíblico, não temos indicações
geográficas suficientes para identificar o “monte da aliança”. Em si, o nome
“Sinai” não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com
mais ou menos 420 quilômetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar
Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o
golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, de
terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2.400 metros de
altura.
Segundo alguns autores, este texto pode
ter sido a primitiva versão jahwista da aliança do Sinai (séc. X a.C.); mas, na
versão final do Pentateuco (séc. V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a
renovação da primeira aliança, entretanto rompida pelo pecado do Povo. No
estado atual do Pentateuco, o esquema é o seguinte: Israel comprometeu-se com
Jahwéh (cf. Ex. 19); mas, durante a ausência de Moisés, no cimo do monte, o
Povo construiu um bezerro de ouro para representar Jahwéh – o que lhe estava
interdito pelos mandamentos da aliança (cf. Ex. 32,1-29); então, Moisés
intercedeu pelo Povo e Deus renovou a aliança com Israel (cf. Ex. 34,1-10).
MENSAGEM
Depois de ter obtido o perdão de Deus
para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Jahwéh. Consigo, levava as duas
novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os
mandamentos da aliança.
Precisamente aqui, o autor insere a teofania (“manifestação de Deus”). Deus aproxima-se de Moisés “na nuvem”: a nuvem, que paira a meio caminho do céu e da terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem; ao mesmo tempo a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha.
Precisamente aqui, o autor insere a teofania (“manifestação de Deus”). Deus aproxima-se de Moisés “na nuvem”: a nuvem, que paira a meio caminho do céu e da terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem; ao mesmo tempo a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha.
A teofania continua, depois, com uma
auto-apresentação do próprio Jahwéh. Como é, então, que o próprio Deus Se
define? Que é que Ele diz de Si próprio?
Nesta apresentação, Deus não menciona a
sua grandeza e onipotência, o seu poder e majestade; mas menciona as
“qualidades” que fazem d’Ele o parceiro ideal na “aliança”: Jahwéh é o “Deus
clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e
fidelidade” (v. 6). Num desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a
nossa leitura de hoje não conservou (v. 7), Jahwéh fala ainda da sua
misericórdia (“até à milésima geração”), que é ilimitada e desproporcional
quando comparada com a sua ira (“até à terceira e à quarta geração”). Aqui, os
números não significam nada e não devem ser tomados à letra: são apenas uma
forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente
mais inclinado para o perdão do que para o castigo. De resto, Israel é
convidado a descobrir e a comprometer-se com esse Deus que é sempre fiel aos
seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.
A questão essencial é esta: Deus ama o
seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua misericórdia é ilimitada e,
aconteça o que acontecer, irá sempre triunfar. Israel, o Povo da aliança, pode
estar tranquilo e confiante, pois Jahwéh, o Deus do amor e da misericórdia,
garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caracterizam o seu ser.
Moisés responde a esta apresentação com
as petições habituais: que Jahwéh continue a acompanhar o seu Povo em caminhada
da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Jahwéh entenda a dureza
do coração do Povo e que perdoe os seus pecados; que Jahwéh renove a eleição
(v. 9).
E Deus, confirmando a sua
auto-apresentação (Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de
misericórdia), não só perdoa o Povo, como até lhe propõe a renovação da aliança
(v. 10).
ATUALIZAÇÃO
• Deus é sempre, para o homem, o
mistério que a “nuvem” esconde e revela: detectamos a sua presença, mas sem O
ver; percebemos a sua proximidade, sem conseguirmos definir os contornos do seu
rosto. A ânsia do homem em penetrar o mistério de Deus leva-o, com frequência,
a inventar rostos de Deus; mas, muitas vezes, esses rostos são apenas a
projecção dos sonhos, dos anseios, das necessidades e até dos defeitos dos
homens e têm pouco a ver com a realidade de Deus. Para entrarmos no mistério de
Deus, é preciso estabelecermos com Ele uma relação de proximidade, de comunhão,
de intimidade que nos leve ao encontro da sua voz, dos seus valores, dos seus
desafios (“subir ao monte”). Procuro, dia a dia, “subir ao monte” da “aliança”
e estabelecer comunhão com Deus através do diálogo com Ele (oração) e da escuta
da sua Palavra?
• No nosso texto, Deus apresenta-Se. Fundamentalmente,
Ele define-Se como o Deus da relação e da comunhão. Deixa claro que é um Deus
“com coração” – e com um coração cheio de amor, de bondade, de ternura, de
misericórdia, de fidelidade. Apesar de o seu Povo ter violado os compromissos
que assumiu, Deus não só perdoa o pecado do Povo, mas propõe o refazer da
“aliança”: é que, acima de tudo, este Deus do amor preza a comunhão com o
homem: o seu objetivo é integrar os homens na família de Deus. É este Deus em
que eu acredito? É deste Deus que eu dou testemunho?
• Deus, da sua parte, faz tudo para
viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a
liberdade do homem. Eu sou livre de aceitar, ou não, a proposta de “aliança”
que Deus me faz. Como é que eu respondo ao Deus da “aliança”? Eu aceito esta
vontade que Ele manifesta de viver em relação de comunhão comigo? O que é que
eu faço para responder a este desafio?
2 leitura: 2Cor.
13,11-13 - AMBIENTE
A Primeira Carta aos Coríntios (que
criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os
valores cristãos) provocou uma reação extremada e uma campanha organizada no
sentido de desacreditar Paulo. Este, informado de tudo, dirigiu-se
apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores.
Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil
diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.
Paulo, entretanto, partiu para Tróade.
Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por
Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam,
outra vez, em comunhão com Paulo.
Reconfortado, Paulo escreveu uma
tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma
coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda
Carta de Paulo aos Coríntios. Estamos nos anos 56/57.
O texto que nos é proposto é,
precisamente, a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Se
compararmos esta despedida com a da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1Cor.
16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e impessoalidade. Não
parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas antes uma despedida
entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação.
MENSAGEM
Paulo começa por deixar algumas
recomendações de caráter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam
alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações
fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz.
São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e tensões
vividas recentemente pela comunidade.
O mais notável desta carta é, contudo,
a fórmula final de saudação: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e
a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta fórmula – a mais
claramente trinitária de todo o Novo Testamento – é, certamente de origem
litúrgica. Provavelmente, era a fórmula que os cristãos utilizavam quando, no
contexto da celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.
Esta fórmula constitui uma
impressionante confissão de fé no Deus trino. Ela manifesta a fé dos crentes
nesse Deus é amor e, portanto, que é “família”, que é comunidade. Ao utilizarem
esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros dessa “família de Deus”; e
reconhecem também que ser “família de Deus” é fazerem todos parte de uma única
família de irmãos. São, portanto, convocados para viverem em unidade: em
comunhão com Deus e em união com todos os irmãos.
ATUALIZAÇÃO
• A comunidade cristã é convidada a
descobrir que Deus é amor. A fórmula “Pai, Filho e Espírito Santo” expressa
essa realidade de Deus como amor, como família, como comunidade.
• Os membros da comunidade cristã, que
pelo batismo aderiram ao projeto de salvação que Deus apresentou aos homens em
Jesus e cuja caminhada é animada pelo Espírito, são convidados a integrarem
esta comunidade de amor. O fim último da nossa caminhada é a pertença à família
trinitária.
• Esta “vocação” deve expressar-se na
nossa vida comunitária. A nossa relação com os irmãos deve refletir o amor, a
ternura, a misericórdia, a bondade, o perdão, o serviço, que são as
consequências práticas do nosso compromisso com a comunidade trinitária. É isso
que acontece? As nossas relações comunitárias refletem esse amor que é a marca
da “família de Deus”?
Evangelho: Jo
3,16-18v - AMBIENTE
O nosso texto pertence à secção
introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, o autor
apresenta Jesus e procura – através dos contribuição dos diversos personagens
que vão sucessivamente ocupando o centro do palco e declamando o seu texto –
dizer quem é Jesus.
Mais concretamente, o trecho que nos é
proposto faz parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado
Nicodemos (cf. Jo 3,1). Nicodemos foi visitar Jesus “de noite” (cf. Jo 3,2), o
que parece indicar que não se queria comprometer e arriscar a posição destacada
de que gozava na estrutura religiosa judaica. Membro do Sinédrio, Nicodemos
aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo
7,48-52); também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e
colocado no túmulo (cf. Jo 19,39).
A conversa entre Jesus e Nicodemos
apresenta três etapas ou fases.
Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos
reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que
isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai.
Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus
anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de
Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do
Espírito”.
Na terceira (cf. Jo 3,9-21), Jesus
descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai,
tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se
concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. O nosso texto pertence a esta
terceira parte.
MENSAGEM
Depois de explicar a Nicodemos que o
Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no
deserto (a referência evoca o episódio da caminhada pelo deserto em que os
hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam uma serpente de bronze levantada num
estandarte por Moisés e se curavam – cf. Nm. 21,8-9), a fim de que “todo aquele
que n’Ele acredita tenha vida definitiva” (Jo 3,14-15), Jesus explica como é que
a cruz se insere no projeto de Deus. A explicação vem em três passos…
O primeiro (v. 16) refere-se ao
significado último da cruz. Esse Homem que vai ser levantado na cruz veio ao
mundo, encarnou na nossa história humana, correu o risco de assumir a nossa
fragilidade, partilhou a nossa humanidade; e, como consequência de uma vida
gasta a lutar contra as forças das trevas e da morte que escravizavam os
homens, foi preso, torturado e morto numa cruz. A cruz é o último ato de uma
vida vivida no amor, na doação, na entrega.
Ora, esse Homem é o “Filho único” de
Deus. A expressão evoca, provavelmente, o “sacrifício de Isaac” (cf. Gn.
22,16): Deus comporta-Se como Abraão, que foi capaz de desprender-se do próprio
filho por amor (no caso de Abraão, amor a Deus; no caso de Deus, amor aos
homens)… A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus pelos homens.
O quadro dá-nos a dimensão do incomensurável amor de Deus por essa humanidade a
quem Ele quer oferecer a salvação.
Qual é o objetivo de Deus ao enviar o
seu Filho único ao encontro dos homens? É libertá-los do egoísmo, da
escravidão, da alienação, da morte, e dar-lhes a vida eterna. Com Jesus – o
Filho único que morreu na cruz – os homens aprendem que a vida definitiva está
na obediência aos planos do Pai e no dom da vida aos homens, por amor.
O segundo (v. 17) deixa claro que a
intenção de Deus, ao enviar ao mundo o seu Filho único, não era uma intenção
negativa. Jesus veio ao mundo porque o Pai ama os homens e quer salvá-los. O
Messias não veio com uma missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação.
Pelo contrário, Ele veio oferecer aos homens – a todos os homens – a vida
definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os
transforma em Homens Novos.
Reparemos neste fato notável: Deus não
enviou o seu Filho único ao encontro de homens perfeitos e santos; mas enviou o
seu Filho único ao encontro de homens pecadores, egoístas, auto-suficientes, a
fim de lhes apresentar uma nova proposta de vida… E foi o amor de Jesus – bem
como o Espírito que Jesus deixou – que transformou esses homens egoístas,
orgulhosos, auto-suficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.
O terceiro (v. 18) descreve as duas
atitudes que o homem pode tomar, diante da oferta de salvação que Jesus faz:
quem aceita a proposta de Jesus, adere a Ele, recebe o Espírito, vive no amor e
na doação, escolhe a vida definitiva; mas quem prefere continuar escravo de
esquemas de egoísmo e de auto-suficiência, auto-exclui-se da salvação. A
salvação ou a condenação não são, nesta perspectiva, um prêmio ou um castigo
que Deus dá ao homem pelo seu bom ou mau comportamento; mas são o resultado da
escolha livre do homem, face à oferta incondicional de salvação que Deus lhe
faz. A responsabilidade pela vida definitiva ou pela morte eterna não recai
assim sobre Deus, mas sobre o homem.
De acordo com a perspectiva de João,
também não existe um julgamento futuro, no final dos tempos, no qual Deus pesa
na sua balança os pecados dos homens, para ver se os há-de salvar ou condenar:
o juízo realiza-se aqui e agora e depende da atitude que o homem assume diante
da proposta de Jesus.
Em resumo: porque amava a humanidade,
Deus enviou o seu Filho único ao mundo com uma proposta de salvação. Essa
oferta nunca foi retirada; continua aberta e à espera de resposta. Diante da
oferta de Deus, o homem pode escolher a vida eterna, ou pode excluir-se da
salvação.
ATUALIZAÇÃO
• João é o evangelista abismado na
contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho,
o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena,
de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua
vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida
eterna… No dia em que celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, somos
convidados a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a
espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de
pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no
coração de Deus.
• O amor de Deus traduz-se na oferta ao
homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional,
absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade
e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de
Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é um caminho de
infelicidade, que gera sofrimento, morte, “inferno”. Quais são as manifestações
desta recusa da vida plena que eu observo, na vida das pessoas, nos
acontecimentos do mundo, e até na vida da Igreja?
• Nós, crentes, devíamos ser as
testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou
religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário. É isso que acontece?
Que contributo posso eu dar para que a minha comunidade – cristã ou religiosa –
seja sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?
• A celebração da solenidade da
Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha
charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que
é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como
há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é
negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas
diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é
negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina
de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na
nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade
de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a
nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o indizível, não consegue
definir o mistério de Deus.
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
O Deus de amor
O tempo pascal pôs-nos diante dos olhos
a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo veio cumprir a
obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e mantivéssemos o
que ele fundou, renovando-o constantemente, nesse mesmo Espírito. Assim, a
festa de hoje vem completar o tempo pascal, como uma espécie de síntese.
Síntese não intelectual (isso seria como a história, atribuída a santo
Agostinho, da criança que queria colocar o mar num pequeno poço na areia), mas
“misterial”, isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas
divinas. Se a oração do dia, hoje, implora pela perseverança na verdadeira fé,
não visa à fé meramente dogmática, mas à adesão ao mistério que se apresenta no
Pai, no Filho e no Espírito Santo. O cristão se caracteriza por não conhecer
outro Deus exceto aquele que é o Pai de Jesus Cristo e doador do Espírito que
animou Jesus e os seus, presente e atuante nas três “pessoas” que constituem
sua realidade divina, o “acontecer de Deus” em nossa vida, na história e no
universo.
Para compreender bem o espírito desta
liturgia, convém aproximar a primeira leitura do evangelho, como faremos a
seguir.
1ª leitura (Ex.
34,4b-6.8-9)
A primeira leitura é uma das páginas
mais impressionantes e, literalmente, “reveladoras” da Bíblia. Depois do
episódio do bezerro de ouro e da idolatria de Israel, Moisés pediu a Deus que
se mostrasse, para que ele, Moisés, pudesse continuar seu caminho contando com
sua presença (Gn. 33,12-23). Então, ao passar diante de Moisés, Deus revela seu
íntimo, apresentando-se como Deus misericordioso e fiel (34,1-7). Deus é
compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e fidelidade
(Ex. 34,6). Diante desse Deus, sentimos o peso do pecado, mas também o desejo
de ser seus (Ex 34,9). Assim, o “Deus do Antigo Testamento” não é um Deus
castigador, como muitas vezes se diz. Sua bondade ultrapassa de longe sua
“vingança” (cf. 34,7, infelizmente suprimido no texto litúrgico). O “castigo”
de Deus – o próprio mal que se vinga por suas consequências – tem fim, sua
misericórdia não. Não há oposição entre o Deus do Antigo Testamento e o do
Novo. É verdade que o Antigo Testamento não oferecia uma visão completa sobre
Deus; Moisés só pôde ver Deus de costas (Ex. 33,23), de modo que João tem razão
quando diz que ninguém jamais viu Deus, mas o Filho unigênito o deu a conhecer
(1,18), pois quem vê Jesus, vê Deus mesmo (14,9). Mas o Deus do Antigo
Testamento é o mesmo Deus do Novo. Deus é um só: o Deus de amor (1Jo 4,8.16).
Nós é que temos, às vezes, uma visão muito parcial dele. Em Cristo, ele se deu
a conhecer como aquele que ama o mundo até entregar por ele seu próprio Filho
(cf. o evangelho).
Evangelho (Jo
3,16-18)
O evangelho alude ao sacrifício de
Isaac. Abraão está disposto a sacrificar seu “filho unigênito” – sua única
chance de ter um herdeiro. Assim, Deus deu ao mundo seu Filho unigênito. A obra
de Cristo é o plano do amor do Pai para com o mundo. Quem o aceita na fé está
salvo. O Deus que em Jesus Cristo se manifesta (cf. Jo 1,18) é o Deus da “graça
e verdade” (cf. Jo 1,14.16-17), o que se pode traduzir também, conforme a
índole da língua hebraica, por “amor e fidelidade”, as qualidades de Deus
conforme a primeira leitura. Se na primeira leitura se falou da autorrevelação
do Deus misericordioso e fiel diante de Moisés, o evangelho evoca que o amor de
Deus se revela no dom de seu Filho único. O amor une Pai e Filho na mesma obra
salvadora (Jo 3,16). Jesus conhece o interior de Deus (Jo 3,11) e o mostra
(14,9). Deus se dá ao Filho e, diante disso, o mundo pode encontrar a salvação,
a superação de suas contradições e a soltura das cadeias em que se encontra –
em última análise, as cadeias do egoísmo. Assim, o ser humano é chamado a
aproximar-se da luz, mas há quem se agarre às suas próprias obras, que não
aguentam a luz do dia (Jo 3,19-21).
O mistério que nos envolve, hoje, é o
da unidade do Pai e do Filho, no seu amor para o mundo (compare Jo 3,16 com 1Jo
3,16). Essa unidade no amor para dentro e para fora, Agostinho a identificou
com o Espírito Santo, o Espírito de amor e de unidade que, faz oito dias,
celebramos em Pentecostes.
2ª leitura (2Cor.
13,11-13)
A segunda leitura concentra a atenção
sobre aquilo que a Trindade opera nos fiéis: a graça do Cristo, o amor de Deus
e a comunhão do Espírito Santo – tal como se repete numa das fórmulas de
saudação no início da celebração eucarística. O mistério de Cristo na Igreja só
se entende considerando a atuação das três pessoas divinas: o amor de Deus, que
se manifesta na graça (no dom) de Jesus Cristo e opera na comunhão do Espírito,
o qual anima a Igreja desde a ressurreição. O resultado é: alegria. Nesse final
da segunda carta aos Coríntios, Paulo condensa toda a sua teologia. O mistério
da Santíssima Trindade não está longe. Estamos envolvidos nele.
Daí ser bem adequada a saudação final,
pela qual Paulo deseja aos fiéis o Deus da paz e pede que se saúdem com o
“beijo santo” (o nosso “abraço da paz”) no nome das três pessoas divinas,
caracterizadas por ele como segue: o Filho, graça; o Pai, amor; o Espírito,
comunhão.
Amor e fidelidade
Uma pista para a atualização desta
mensagem: nosso povo simples é muito comunicativo; partilha a tal ponto seus
bens, pensamentos e sentimentos, que, às vezes, não faz diferença falar com
fulano ou com sicrano – falando com um, fala-se com o outro. Falar com o filho
da casa é a mesma coisa que falar com o pai: duas pessoas distintas, mas a
“causa” (“o negócio”) é a mesma. Assim acontece também com as três pessoas
divinas; que seja o Pai, o Filho ou o Espírito, a “causa” comum delas é sempre
o que elas são, seu próprio ser: amor e fidelidade.
Para muitas pessoas, também as cristãs,
a Santíssima Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver
três pessoas divinas em um só Deus? Parece que esse mistério nada tem que ver
com a vida delas. Se a Trindade fosse um problema matemático, deveríamos
procurar uma “solução”. Na realidade, não se trata de uma fórmula matemática,
mas de um resumo de duas certezas de nossa fé:
1) Deus é um só;
2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo
são Deus. Isso nos convida à “contemplação” do mistério de Deus. Pois um
mistério não é para o colocarmos dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça (e
a pessoa toda) nele...
Moisés (primeira leitura) invoca o nome
de Deus: “SENHOR, Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico em
amor e fidelidade...”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um
Deus que ama. Jesus (evangelho) revela em que consiste a manifestação maior do
amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho único, que quis morrer por
amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua carta,
João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou
entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos a vida por
ele” (1Jo 4,9).
Assim, tanto no Antigo Testamento como
no Novo, Deus é conhecido como “amor e fidelidade”. Essas são as qualidades que
se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade” de que fala Jo
1,14). Em Jesus, Deus se manifesta como comunhão de amor: o Pai, Jesus e o
Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por nós. Um
solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo 4,8), pois
ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.
Se Deus é comunidade de amor, também
nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho,
que deu sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os
com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a
“imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn. 1,26).
O conceito clássico do ser humano é ser
individualista. Mas isso não é cristão... Se Deus é comunidade, e nós também
devemos sê-lo, não realizamos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso
individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de
modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos
quais o povo se assemelha ao Deus Trindade: bondade, fidelidade, comunicação,
espírito comunitário etc.
Como pode haver três pessoas em um só
Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é
comunidade, e nós também devemos sê-lo.
padre Johan
Konings, sj
A festa de Deus
Hoje é a solenidade
do Deus que é Pai, Filho e Espírito. É festa da Trindade. “Com vosso Filho
único e o Espírito Santo, sois um só Deus e um só Senhor. Não uma única pessoa,
mas três pessoas num só Deus” (prefácio da Santíssima Trindade). Com todo respeito
nos abeiramos do insondável mistério de Deus. Hoje é a festa de Deus.
A primeira leitura de
hoje nos fala de uma “entrevista”, de um encontro de Moisés com o Senhor.
Moisés sobe a uma montanha. A montanha é lugar privilegiado para as teofanias,
para as manifestações de Deus. A nuvem anunciava a proximidade do Senhor. O
coração de Moisés experimenta confusão diante do Mistério. Moisés não encontra
palavras suficientemente fortes para exprimir a Deus o que se passa em seu
interior. Ele se sente agraciado. Confuso diante da grandeza do Senhor, Moisés
curvou-se até o chão, prostrou-se, em sinal de profunda adoração. Com esses
gestos marca nitidamente a diferença entre a criatura e seu Senhor. Ao mesmo
tempo pede que Ele acompanhe seu povo: “Senhor, se é verdade que gozo de
teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura,
perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”. Mais
tarde, com a revelação de Jesus, iríamos saber que esse Deus altíssimo vem morar
no interior de cada homem que o recebe. Não nos acompanha apenas, mas mora em
nossa intimidade. Paulo em sua carta proclamada hoje afirma: “A graça do
Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo
estejam com todos vós”. O Pai eternamente Pai, não gerado, eternamente gera o
Filho e o liame de amor entre o Pai e o Filho é o Espírito. O Verbo se fez
carne e habitou entre nós. O Pai e o Filho enviaram o Espírito que foi
derramado em nossos corações. Tiramos a sandália dos pés, como Moisés, porque
estamos diante do Insondável. Deus grande e belo, uno e trino, está conosco. Só
nos cabe adorá-lo no sacrário da habitação de nossa interioridade.
João lembra que o Pai
manda o Filho ao mundo para os homens possam viver e não venham a morrer.
Mandar, enviar... dois da Trindade são enviados. O Filho nasce de uma mulher e
santifica com sua presença a realidade humana desde o nascimento até à morte. É
a missão do Filho. Ele veio para mostrar até que ponto o Pai nos ama e para
levar de volta ao Pai essa humanidade visitada pela segunda pessoa da Trindade.
Há a missão do Espírito para esclarecer, revigorar, fortalecer, impregnar,
fazer arder.
Hoje é a festa de
Deus....Deus Pai, Filho e Espírito...
frei Almir Ribeiro Guimarães
O Deus de Amor
O tempo pascal nos colocou diante dos
olhos a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo veio
cumprir a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e
mantivéssemos o que ele fundou, renovando-o constantemente, neste mesmo
Espírito. Assim, a festa de hoje vem completar o tempo pascal, como uma espécie
de síntese. Síntese, porém, não intelectual (isso seria como a criança, de que
fala Agostinho, que queria colocar o mar um pocinho na areia), mas “misterial”,
isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas divinas.
Como ponto de partida podemos tomar o
evangelho, que, aludindo ao sacrifício de Isaac (“filho único”) por Abraão,
proclama que a obra de Cristo é o plano do amor do Pai para com o mundo. Quem a
aceita na fé, está salvo. O Deus que em Jesus Cristo se manifesta (cf. Jo 1,18)
é o Deus da “graça e verdade”(Jô 1,14.16s), o que se pode traduzir também,
conforme a índole da língua hebraica, por “amor e fidelidade”. A 1ª leitura nos
conforta com o texto mais característico do Antigo Testamento a falar nesse
sentido: Deus é compassivo e misericordioso, lento para cólera, rico em bondade
e fidelidade (Ex. 34,6). Diante deste Deus, sentimos o peso do pecado, mas
também o desejo de ser seu (Ex. 34,9).
Não há oposição entre o Deus do Antigo
Testamento e o do Novo. É verdade que o Antigo Testamento não oferecia uma
visão completa sobre Deus; Moisés só pôde ver Deus de costas (Ex. 33,23), de
modo que João tem razão quando diz que ninguém jamais viu Deus, mas o Filho
unigênito o deu a conhecer (1,18), pois, quem vê Jesus, vê Deus mesmo (14,9).
Mas o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo. Deus é um só: o Deus de
amor (1Jo 4,8.16). Nós é que temos, às vezes, visões muito parciais dele. Mas
em Cristo, ele se deu a conhecer como aquele que ama o mundo até entregar por ele
seu próprio filho (evangelho).
Assim, o mistério que nos envolve,
hoje, é o da unidade do Pai e do Filho, no seu amor para o mundo (compare Jo
3,16 com 1Jo 3,16). Esta unidade no amor para dentro e para fora, Agostinho a
identificou como Espírito Santo. O Espírito de Deus é de amor e unidade (cf.
Pentecostes).
Daí ser bem adequada a saudação final
de Paulo aos Coríntios (2ª leitura), desejando-lhes o Deus da paz e pedindo que
eles se saúdem com o “beijo santo” (o nosso “abraço da paz”), no nome das três
pessoas divinas, que ele caracteriza como segue: o Filho, graça; o Pai, amor; o
Espírito, comunhão (cf. a saudação inicial da missa).
O prefácio próprio traz as fórmulas
consagradas: três pessoas em um Deus, mesma natureza e igual majestade... A
teologia recorreu à distinção filosófica entre o ser como essência (natureza: o
que se é) e como subsistência (existência, pessoa: aquele que é), para
expressar o “mistério” que consiste em encontrarmo-nos com o Deus único, tanto
na obra do Cristo, quanto na criação e na história salvífica, como também ao
Espírito que age na Igreja e no mundo. A experiência de Deus se fez - sem
diminuição e sempre essencialmente a mesma - em Cristo e no Espírito que anima
a Igreja. Portanto, o mistério da SS. Trindade é outra coisa que um problema
especulativo; é um dado da experiência cristã. E, sobretudo, experiência de um
Deus amoroso.
Uma pista para a atualização desta
mensagem: nosso povo simples é muito comunicativo, partilha a tal ponto seus
bens, pensamentos e sentimentos que, às vezes, não faz diferença a gente falar
com fulano ou com sicrano: falando com um, fala-se com o outro. Falar com o
filho da casa é a mesma coisa que falar com o pai: duas pessoas distintas, mas
a “causa” (“o negócio”) é a mesma. Assim também as Pessoas divinas; e a “causa”
comum delas é seu próprio ser: amor e fidelidade.
Três pessoas em um
só Deus
Para muitas pessoas, inclusive cristãs,
a SS. Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver três
pessoas divinas em um só Deus? Parece que nada tem a ver com sua vida.
Se a Trindade fosse um problema
matemático, deveríamos procurar uma “solução”. Mas, na realidade, não se trata
de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé: 1)
Deus é um só; 2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à
“contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para a gente
colocá-lo dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça nele...
Na 1ª leitura, Moisés invoca o nome de
Deus: “O Senhor (Javé), Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico
em amor e fidelidade...”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um
Deus que ama. Segundo o evangelho, Jesus revela em que consiste a manifestação
maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho, que quis morrer
por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua
carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se
manifestou entre nós: Deus enviou o seu filho único ao mundo, para que tenhamos
a vida por ele” (1Jo 4,9)
Assim, tanto no Antigo Testamento como
no Novo, Deus é conhecido como sendo “amor e fidelidade”. Estas são as
qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade”
de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus aparece como comunhão de amor: o Pai,
Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por
nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo
4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.
Se Deus é comunidade de amor, também
nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho,
que deu sua vida por nós, nós também devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os
com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a
“imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn. 1,26).
O conceito clássico do homem é
individualista. Isso não é cristão... Se Deus é comunidade, e nós também
devemos sê-lo, não realizaremos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso
individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de
modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos
quais o povo se assemelha ao Deus-Trindade: bondade, fidelidade, comunicação,
espírito comunitário etc.
Como pode haver três pessoas em um só
Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é
comunidade, e nós também devemos sê-lo.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
Nenhum comentário:
Postar um comentário