NATAL
DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO –Ano A
MISSA DO DIA
25 de dezembro
Isaias 52, 7-10
Salmo 97/98, 3cd
Hebreus 1, 1-6
Evangelho João
1 , 1-18
O Menino Jesus, chegou como a Luz que vai clarear
as trevas, iluminar os nossos caminhos, para que não tropeçamos nas pedras e
não caímos nos buracos, e nos penhascos da caminhada terrestre.
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A Palavra de Deus
se fez carne
Se, nas celebrações anteriores, o
acento cai na humildade do Messias, na missa do dia é realçada sua eterna
grandeza. As duas missas anteriores revelam uma cristologia da “quenose”
(esvaziamento/despojamento), a do dia, uma cristologia da glória, do senhorio
do Cristo, antecipada na preexistência antes dos séculos. Eis a economia da
salvação: Jesus se despojou assumindo nossa condição humana para que nós
participássemos de sua glória de Filho de Deus (oração do dia; o mesmo tema é
lembrado diariamente na missa, ao misturar-se água ao vinho).
A liturgia expressa menos que a da
noite a misteriosa transparência do divino na condição humilde do menino de
Belém, mas proclama sua glória “sem véu”. “Teu Deus reina” soa agora o brado
que lembra a volta dos exilados (canto da entrada). “Cantai ao Senhor una canto
novo, pois ele fez maravilhas” (salmo responsorial).
O tema da manifestação da glória de
Deus é acentuado pelo tema da Palavra (2ª leitura, evangelho). A cristologia da
exaltação e da preexistência, em Hb e em Jo, está a serviço da manifestação de
Deus (cf. tb. “todos verão”, na 1ª leitura). Aos que discutiam se Jesus devia
ser contado entre os homens ou entre os anjos, o autor de Hb diz que ele supera
a todos (Hb. 1,4). O importante para nós sabermos é que Jesus mostra na sua
existência terrestre o que o Céu nos quer comunicar: ele é a Palavra que está
em Deus desde sempre - a Palavra definitiva, depois de tantas provisórias e
incompletas que chegaram até nós através dos profetas.
Essa cristologia da Palavra
preexistente é proclamada grandiosamente pelo prólogo do João (evangelho). “No
princípio” (cf. Gn. 1,1) era a Palavra (da criação, Gn 1,3 etc.), e esta
Palavra é aquele que veio ao mundo, o qual a recusou (Jo 1,5.9-11). Tornou-se
carne como a nossa, mortal como nós (Jo 1,14, cf. Hb 4,15), e exatamente nessa
condição mortal - dando sua vida em amor até o fim - manifestou-se a glória de
Deus em Jesus (Jo 1,14.16-18). Nessa carne manifestou-se o ser de Deus, que é
amor (cf. Jo 3,16; 1 Jo 4, 8-9). Assim, o Deus invisível em sua glória se deu a
conhecer (Jo 1,18). Tudo o que foi, é e será comunicação de Deus, Jesus o é,
desde o começo. Ele é Deus (1,1-3).
A cristologia da preexistência garante
que o que Jesus diz e faz, Deus é quem o diz e faz: “E o Pai que realiza em mim
sua obra” (Jo 14,10); “Quem me viu, tem visto o Pai” (14,9). Nesse pensamento
temos um eco de Pr. 8, 22-36 e de Eclo. 24, que proclamam a obra da sabedoria
de Deus no mundo. Não se trata de especulações sobre algum ser celestial que
como um astronauta extraterrestre faz uma visitinha à terra! A obra de Deus por
excelência, e na qual ele se mostra totalmente, é o que fez o homem verdadeiro
e histórico Jesus de Nazaré em nosso meio. Refletindo assim, podemos superar o
dualismo que coloca numa bem pequena parte de Jesus sua humanidade e valoriza
quase só a parte maior que seria sua divindade (preexistência, onisciência)...
O ser divino de Jesus não está à parte, mas está exatamente em seu ser carne. E
isso que Jo 1,14 exprime de modo insuperável: a Palavra nasceu (como) carne, e
nós contemplamos sua glória.
Sendo essa a dimensão cristológica
desta liturgia, não devemos negligenciar sua mensagem a respeito de nós mesmos:
pela encarnação do divino, nosso ser é divinizado (oração do dia) e chamado à
vida sem fim (oração final). Portanto, com Cristo devemos viver nossa
existência humana “assim como Deus a viveria”.
padre Johan Konings
"Liturgia dominical"
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Glória a Deus no mais
alto dos Céus. Nasceu o Salvador!
Neste momento de
alegria e confraternização entre as famílias, os cristãos celebram o nascimento
de Jesus.
Na Igreja, esta
celebração é realizada em três missas: a missa da noite de Natal conhecida pelo
nome de “missa do galo” – Luz nas trevas; a Missa da aurora – Transformados
pela Luz; e a missa do dia de Natal – A palavra de Deus se fez Carne.
Segundo o profeta
Miquéias, o Messias nasceria em Belém, uma pequena cidade da Judéia.
Maria já estava para
dar a luz a Jesus, quando o Imperador César Augusto, que governou Roma entre 30
a.C. e 14 d.C., ordenou que fosse feito um recenseamento. Seu decreto tem duas
finalidades: recrutar homens para o exército e garantir o pagamento correto dos
impostos nas regiões dominadas por Roma, isto é, arrecadar taxas sobre pessoas
livres e escravas, homens e mulheres.
José, por ser da
família de Davi, precisou se deslocar com Maria, sua esposa, de Nazaré na
Galiléia até a cidade de Belém na Judéia, pois conforme os costumes, cada um
devia se alistar com seus familiares na cidade de origem de seus antepassados.
Durante os dias em
que estavam em Belém, cumprindo as profecias, nasce Jesus em Belém, uma pequena
aldeia, e não em Jerusalém, a capital. Não nasce em um luxuoso quarto, por
falta de vagas nas hospedarias, mas sim em um estábulo, e é colocado em uma
manjedoura.
A Boa Nova do
nascimento do Salvador não é anunciada primeiramente aos poderosos, e sim aos
pastores, pessoas que por serem pobres e não terem condições de pagar impostos
eram marginalizadas.
Lucas ao descrever o
nascimento de Jesus, mostra o contraste: o Filho de Deus que era esperado cheio
de poder e glória por todo o povo hebreu, nasce o mais humilde dos humildes,
cercado de pobreza. E os primeiros a receberem a boa notícia de seu nascimento
são os mais simples entre os povos.
Um anjo do Senhor se
encarrega de comunicar a novidade à humanidade, e escolhe os pastores, pessoas
que não são bem vistas pela sociedade por não respeitarem as propriedades
alheias, invadindo-as com seus rebanhos.
O povo do Messias são
essas pessoas marginalizadas pela sociedade, e são eles que recebem a
comunicação da Boa Notícia e são encarregados de transmiti-las ao povo.
A salvação não vem de
Augusto ou de Roma, mas nasce de um povo sofrido, marginalizado, nasce o Rei
Pastor em Belém, na cidade de Davi.
A salvação de Deus
chegou para todos, mas o relato do nascimento de Jesus mostra que ela começa
pela periferia, pelos pobres, oprimidos e marginalizados a fim de lhes trazer a
paz, ensinando que a maior riqueza é a simplicidade e a grandeza do coração, a
generosidade das ações, a boa vontade e o amor ao próximo.
Natal é, portanto,
tempo especial para rever os sentimentos de fraternidade, união e partilha
fazendo nascer no coração o que realmente enriquece o cristão, “Amar como Jesus
amou”.
Pequeninos do Senhor
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“Um Menino nasceu para nós: um Filho
nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será chamado ‘Mensageiro do
Conselho de Deus’”. Estas palavras, lidas na leitura da missa da noite, dão bem
o sentido da presente celebração. Nasceu para nós um Menino; foi-nos dado um
Filho! Vamos encontrá-lo pobrezinho e frágil, deitado na manjedoura, alimentado
por uma Virgem Mãe, guardado por um pobre carpinteiro. Mas, quem é este Menino?
Quem é este Filho? Agora, com o sol já claro e alto, podemos enxergar melhor o
Mistério: meditemos bem sobre o que celebramos na noite de ontem para hoje, no
que professamos neste dia tão santo!
Este menininho, a Escritura nos diz que
ele é a Palavra eterna do Pai: esta Palavra “no princípio estava com Deus... e
a Palavra era Deus”. Esta Palavra, que dorme agora no presépio, depois de ter
mamado, é aquela Palavra poderosa pela qual tudo que existe foi feito, “e sem
ela nada se fez de tudo que foi feito”. Esta Palavra tão potente, feita tão
frágil, esta Palavra que sempre existiu e que nasceu na madrugada de hoje, esta
Palavra que é Deus, feita agora recém-nascido, é a própria Vida, e esta Vida é
a nossa luz, é a luz de toda humanidade. Fora dela, só há treva confusa e
densa! Sim, fora do Deus feito homem, do Emanuel, não há vida verdadeira! O
Autor da Carta aos Hebreus, na segunda leitura, diz que, após ter falado aos
nossos pais de tantos modos, Deus, agora, falou-nos pessoalmente no seu Filho,
“a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o
universo”; somente a ele, o Pai disse: “tu és o meu Filho, eu hoje te gerei!”
Por isso, somente eles nos dá o dom da vida do próprio Deus!
Eis o mistério da festa de hoje: nesta
criancinha nascida para nós, Deus visitou o seu povo, Deus entrou na
humanidade. Que mistério tão profundo: ele, sem deixar de ser Deus, tornou-se
homem verdadeiramente. Deus se humanizou! Veio desposar a nossa condição
humana, veio caminhar pelos nossos caminhos, veio experimentar a dor e a
alegria de viver humanamente: amou com um coração humano, sonhou sonhos
humanos, chorou lágrimas humanas, sentiu a angústia humana... Ele, Filho eterno
do Pai, tornou-se filho dos homens para salvar toda a humanidade, “tornou-se de
tal modo um de nós, que nós nos tornamos eternos!”
Ó criatura humana, por que temes com a
vinda do Senhor? Ele não veio para julgar ninguém. Não nasceu para condenar.
Por isso ele apareceu como criancinha e não como um rei potente; pode ser
encontrado na manjedoura, não no trono. Seu chorinho é doce, não afugenta
ninguém. Sua mãe enfeixou seus bracinhos frágeis: por que ainda temes? Ele não
veio armado para punir. Ele está aí franzino para ficar junto de nós e nos
libertar! Celebra, pois, a chegada do teu maior Amigo! Canta Aquele que foi
sempre, no sono e na vigília, esperado e ansiado, o guarda de Israel, o consolo
da humanidade, o alento do nosso coração. Ele chegou, finalmente! Chegou para
nunca mais nos deixar, porque desposou para sempre a nossa pobre humanidade!
São Jerônimo, com palavras cheias de ternura, medita sobre este mistério: “O
Cristo não encontra lugar no Santo dos Santos, onde o ouro, as pedras
preciosas, a seda e a prata reluziam: não, ele não nasce entre o ouro e as
riquezas, mas nasce num estábulo, na lama dos nossos pecados. Ele nasce num
estábulo para reerguer os que jazem no meio do estrume: ‘Ele retira o pobre do
estrume’. Que todos os pobres encontrem nisso consolo! Não havia outro lugar
para o nascimento do Senhor, a não ser um estábulo; um estábulo onde se achavam
amarrados bois e burros! Ah! Se me fosse dado ver este estábulo onde Deus
repousou! Na realidade, pensamos honrar o Cristo retirando o presépio de palha
e substituindo-o por um de prata... Para mim tem mais valor justamente o que
foi retirado: o paganismo merece prata e ouro. A fé cristã merece o estábulo de
palha. Pois bem! Ouvimos a criança choramingar no estábulo: adoremo-la, todos
nós, no dia de hoje. Ergamo-la em nossos braços, adoremos o Filho de Deus. Um
Deus poderoso, que por longo tempo, bradou alto dos céus e não salvou ninguém:
agora choramingou e salvou. A elevação jamais salva; o que salva é a humildade!
O Filho de Deus estava no céu, e não era adorado; desce à terra e passa a ser
adorado. Mantinha sob seu domínio o sol, a lua, os anjos, e não era adorado;
nasce na terra, homem, homem completo, integralmente homem, a fim de curar a
terra inteira. Tudo o que não assumisse de humano, também não salvaria...”
É este o mistério do Santo Natal!
Tenhamos o cuidado de não parar nas aparências, de não ficarmos somente na
meiga cena do Menino, com a Virgem e são José! Este Menino é o Emanuel, o
Deus-conosco! Este Menino veio como sinal de contradição, pois diante dele
ninguém pode ser indiferente: ou se o acolhe, ou se o rejeita: “A Palavra
estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não quis
conhece-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. Mas, a todos os
que a acolheram, deram a capacidade de se tornarem filhos de Deus...” Pois bem:
acolhamo-la, a Palavra que se fez Menino, Filho que nos foi dado! Se o
acolhermos de verdade, na pobreza do dia-a-dia, no esforço de uma vida santa,
então poderemos cantar com o salmista: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo,
porque ele fez prodígios! O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua
justiça. Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai
o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!”
Vamos todos! Sejamos testemunhas da
graça deste dia, da novidade desta festa. E cumpram-se em nós as palavras da
Escritura na leitura da missa de hoje: “Como são belos, sobre os montes, os pés
do mensageiro que anuncia a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação e diz
a Sião: o teu Deus reina! O Senhor consolou o seu povo! O Senhor desnudou seu
santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão dever a
salvação que vem do nosso Deus”. Sejamos mensageiros dessa paz, dessa boa nova,
sejamos testemunhas do Menino, irradiemos a graça do Santo Natal!
dom Henrique Soares
da Costa
SEGUNDA HOMILIA
“Um Menino nasceu para nós: um filho
nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será chamado ‘Mensageiro do
Conselho de Deus’” (Is. 9,6).
No noite de ontem, na madrugada deste
hoje, contemplamos como Igreja um mistério inaudito: um Menino nos nasceu,
pobre e frágil de uma Virgem Mãe. Quantos vieram a esta igreja foram inundados
pela paz desse Menino, descido do céu no meio da noite. Agora, passada a noite,
vencida a aurora, com o sol já alto, aproximemo-nos, inclinemo-nos para ver
melhor: Quem é Aquele que repousa nos braços da Virgem Maria?
Ele é o prometido aos nossos pais, ele
é o anunciado pelos profetas, ele é o esperado por Israel: “Muitas vezes e de
muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias,
que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro
de todas as coisas e pelo qual também criou o universo”. Atenção! Este Menino
não é simplesmente humano, não é uma pessoa qualquer: por ele o Pai criou o
universo! Escutai: “Ele é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser.
Ele sustenta o universo com o poder de sua palavra. Ele foi sentou-se à direita
da majestade divina, nas alturas”. Só a ele o Pai diz: “Tu és o meu Filho, eu
hoje te gerei!” Caríssimos, ele, esse Menino, não é um mensageiro de Deus, não
é um portador qualquer: Ele é a própria Palavra de Deus; aquela pela qual o Pai
criou tudo. Escutai, pasmos de admiração: "No princípio era a Palavra, e a
Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava com Deus.
Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito”.
Compreendei, sem sombra de dúvidas, sem rastro de hesitação: esse Menino é
Deus! Essa Palavra, esse Filho, esse Menino é a fonte de toda a vida do mundo,é
a fonte da nossa vida e o único que pode saciar o nosso coração. Ouvi ainda: é
sobre a Palavra! “Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens!” Ela, a
Palavra, o Verbo, veio para nos iluminar, veio assumir a nossa vida humana para
nos encher da sua vida divina; ele tomou o que é nosso – fraqueza, mortalidade,
fragilidade – para dar-nos o que é seu – força, imortalidade, vigor! Ele veio
para encher a nossa vida de graça e de verdade, num mundo que nos ameaça com
tantas desgraças e com uma vida ilusória e mentirosa...
Pois, que sejas bem-vindo, Santo
Menino! Que sejas bem-nascido, ó Santo Emanuel, Deus-conosco! Pensando em ti,
repetimos com unção as palavras de Santo Isaías profeta: “Como são belos
andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia
o bem e prega a salvação e diz a Sião, diz à Igreja: ‘Reina o teu Deus’! O
Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins
da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus”.
Mas, caríssimos, neste dia de tanta luz
e paz, a mesma Palavra de Deus que nos enche de doçura traz uma nota de treva,
traz já uma ponta de cruz. Ouvi com cuidado e sábio realismo: “A Palavra estava
no mundo – e o mundo foi feito por meio dela – mas o mundo não quis conhecê-la.
Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram!” É quase inacreditável, mas
ainda hoje – e sobretudo hoje! - estas palavras são tristemente verdadeiras! O
mundo aí fora não acolheu Aquele que nasceu para nós; o mundo continua envolto
em trevas; Maceió continua envolta em trevas! Basta que saiamos daqui e veremos
como a nossa paz será desmentida pela futilidade, pela decadência moral, pela
soberba prepotente de um mundo cheio de si e satisfeito com sua própria treva!
O mundo não o acolheu – que dura e cruel realidade! O mundo o perseguiu por
Herodes, o exilou na fuga para o Egito, o mundo o contestou nos escribas e
fariseus, o mundo o julgou e condenou como blasfemo em Caifás, como louco em
Herodes Antipas, o mundo lavou as mãos ante ele e o crucificou em Pilatos! O
mundo ainda hoje nele cospe com o aborto e o desprezo pela vida humana, o mundo
o flagela com o consumismo e a impiedade, o mundo o crucifica com a imoralidade
e a destruição da família... Que Mistério de piedade: Deus veio a nós, nasceu
para nós! Que Mistério de iniqüidade: o mundo o rejeitou, o mundo o desprezou,
o mundo o renegou, o mundo transformou o seu Natal numa festa de consumo porco
e desprezível!
Mas, nós, cristãos, temos a graça de
acolhê-lo, de contemplá-lo, de nele crer, de ouvir sua Palavra e comungar com
imensa alegria e gratidão seu Corpo e Sangue nascido, morto e ressuscitado por
nós! É verdade que o mundo não o acolheu, mas, ouvi: “A todos que o receberam,
deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus isto é, aos que acreditam
em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da
vontade do homem, mas de Deus mesmo!”São para nós estas palavras estupendas!
Por que nele cremos, porque o acolhemos, nascemos nas águas do batismo,
recebemos o seu Espírito Santo e fomos tornados filhos de Deus, filhos nele, o
Filho unigênito e bendito!
Eis, irmãos, quão grande é, por causa
dele, a nossa dignidade; quão grande nossa esperança, quão grande nossa
responsabilidade! Não reneguemos com o nosso modo de viver a realidade tão
grande que nos foi dada! E, como por nós mesmos, nada podemos, a não ser sermos
infiéis, terminemos essa meditação com a oração da segunda Missa da Solenidade
de hoje, a Missa que a Igreja celebrou na Aurora, quando o céu começava a
clarear: “Ó Deus onipotente, agora que a nova luz do vosso Verbo encarnado
invade o nosso coração, fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé em
nossas mentes!” Pedimos por Aquele que, nascido eternamente do vosso seio como
Deus, hoje nasceu, humano, da Virgem Maria, como o sol nasce da aurora. Ele,
que é Deus convosco pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares
da Costa
TERCEIRA HOMILIA
Mais uma vez, a volta do ano trouxe-nos
a santa celebração do Natal do Senhor nosso Jesus Cristo. Historicamente, o
natalício do Cristo nosso Deus ocorreu há dois mil anos atrás; no entanto, na
potência do Santo Espírito, o Natal acontece hoje misticamente, nos santos
mistérios que celebramos com piedade e unção. Cada um de nós que participa
desta celebração sagrada, conserve no coração esta certeza: nos gestos, nas
palavras, nos ritos da Santa Liturgia, a graça do santo Natal do Senhor faz-se
realmente presente e verdadeiramente inunda a nossa vida! Para nós, aqui
reunidos, o Natal é hoje, o Natal é agora!
Assim, podemos, cheios de admiração,
escutar o Evangelho que nos anuncia: “O Verbo se fez carne e habitou entre
nós!” Em outras palavras: o Filho eterno do Pai, Luz gerada da Luz, Deus
verdadeiro gerado eternamente do Deus verdadeiro, para salvar o mundo com a sua
piedosa vinda, hoje nasceu homem verdadeiro, homem entre os homens, de Maria, a
Virgem! Caríssimos, quem poderia imaginar tal mistério, tal surpresa de Deus,
nosso Senhor? A Liturgia oriental exclama, admirada: “Vinde, regozijemo-nos no
Senhor, explicando o mistério deste Dia. A Imagem idêntica do Pai, o Vestígio
de sua eternidade, toma forma de escravo, nascendo de uma mãe que não conheceu
o casamento, e sem mesmo sofrer mudança! O que ele era, permaneceu: Deus
verdadeiro; o que não era, ele assumiu: tendo-se feito homem por amor dos
homens” (Grandes Vésperas do Natal). Eis o mistério: o Menino que nos nasceu
para nós, o filho que nos foi dado, é Deus perfeito, é o Filho eterno, através
de quem e para quem tudo foi criado no céu e na terra. Ele não é uma pessoa
humana; é uma Pessoa divina, a segunda da Trindade. Este menininho é adorável:
dever receber toda nossa adoração, toda nossa louvor, todo nosso afeto. No
entanto, sendo Deus perfeito, hoje, ele saiu do seio da Sempre Virgem Maria,
como verdadeiro homem, homem perfeito, com um corpo igual ao nosso, com uma
alma igual à nossa, com uma vida para viver igual à nossa pobre existência!
Quanto amor, quanta bondade, quanta humildade!
Neste Deus hoje nascido da Virgem, a
nossa humanidade foi unida ao próprio Deus. Hoje a força do pecado começou a
ser quebrada, hoje a doença da nossa natureza humana, tão propensa ao pecado,
ganhou seu verdadeiro remédio, hoje, fazendo-se homem mortal, o Salvador nosso
veio trazer a medicina que cura a nossa morte! Bendita seja a sua gloriosa
vinda, o seu virginal nascimento! Adoremo-lo! Afirmemos com a Igreja, na sua
santa Liturgia: “Foi depositado num estábulo Aquele que contém o universo. Ele
descansa numa manjedoura e reina nos céus. É o Salvador dos séculos, o Rei dos
Anjos, Aquele mesmo que a Virgem amamentava (liturgia romana).
Por tudo isso, nunca percamos de vista
a graça que recebemos pelo dom da fé! Vivemos num mundo confuso, de mentiras,
de idolatrias, de confusão. O homem pensa poder fazer sozinho a sua vida,
encontrar do seu modo a felicidade, fazer de seu jeito a sua própria
existência. A Solenidade de hoje nos recorda que a humanidade precisa de um
Salvador – e esse Salvador é Jesus, nosso Senhor! Ele é a nossa única Verdade,
ele, o nosso único Caminho, ele, a verdadeira Vida! Não queremos outros
mestres, não admitiremos outros senhores, não buscaremos outras verdades. Mais
que nunca, nesta quadra tão difícil da história, quando o cristianismo e a
Igreja de Cristo são tão caluniados e perseguidos, tão denegridos pelos meios
de comunicação... hoje, quando ser cristão tem se tornado motivo de chacota e
mangação, queremos, uma vez mais, e com todas as nossas forças, proclamar nossa
total e incondicional adesão ao nosso Deus e Senhor Jesus Cristo! Por isso,
amados nos Senhor, o Filho de Deus fez-se homem: para que o homem possa ver e
ouvir claramente o que é ser homem, o que é viver de modo verdadeiramente
digno, livre, maduro e feliz! O mundo nos propõe uma liberdade torpe, fundada
nos caprichos, na loucura de fazer aquilo que se quer; o mundo nos tenta
convencer que cada um é a sua própria medida, é o dono de sua própria vida; o
mundo atual nos ensina a viver entregue às próprias paixões, aos próprios
desejos... Aí estão: famílias destruídas, filhos sem pais, um rio de abortos e
infelicidade, jovens sem esperança, uma sociedade sem valores nem critérios
verdadeiramente dignos do homem criado à imagem de Deus... Mas, outro é o
caminho que o Salvador hoje nascido nos aponta. Aprendamos com ele, o homem
perfeito; sigamo-lo sem medo, coloquemos aos seus pés a nossa vida e a nossa liberdade,
os nossos desejos e os nossos afetos. Deixemos que sua santa lei de amor e
graça inunde nosso coração, penetre nas nossas famílias, modele o nosso modo de
viver! Então, seremos realmente humanos, seremos realmente livres, seremos
realmente felizes!
Alegremo-nos pela hodierna solenidade!
“Que desapareça toda enfermidade: hoje, o Salvador apareceu. Não haja guerra,
cale-se a discórdia: hoje, a verdadeira paz desceu do céu. Desapareça toda
amargura: hoje por todo o universo os céus destilam mel. Fuja a morte, pois
hoje a vida nos é dada do céu... Hoje, os cegos recobram a vista, os surdos
ouvem, os coxos e os leprosos são curados, aqueles que estavam na tristeza
estão na alegria, os enfermos encontram a saúde, os mortos ressuscitam. Somente
o Diabo e seus demônios – e o mundo que os serve – tremem de cólera, pois sua
derrota é a restauração do gênero humano. Hoje, o Cristo nos apareceu como
Salvador” (Homilia de um Anônimo do século V).
Eis, pois, quantos motivos para nossa
alegria, quantos, para nosso júbilo! Que pessoalmente e em família, celebremos
de modo santo e devoto a Vinda do Nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, a
quem seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares
da Costa
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A liturgia deste dia
convida-nos a contemplar o amor de Deus, manifestado na encarnação de Jesus…
Ele é a “Palavra” que Se fez pessoa e veio habitar no meio de nós, a fim de nos
oferecer a vida em plenitude e nos elevar à dignidade de “filhos de Deus”.
A primeira leitura
anuncia a chegada do Deus libertador. Ele é o rei que traz a paz e a salvação,
proporcionando ao seu Povo uma era de felicidade sem fim. O profeta convida,
pois, a substituir a tristeza pela alegria, o desalento pela esperança.
A segunda leitura
apresenta, em traços largos, o plano salvador de Deus. Insiste, sobretudo, que
esse projeto alcança o seu ponto mais alto com o envio de Jesus, a “Palavra” de
Deus que os homens devem escutar e acolher.
O Evangelho
desenvolve o tema esboçado na segunda leitura e apresenta a “Palavra” viva de
Deus, tornada pessoa em Jesus. Sugere que a missão do Filho/”Palavra” é
completar a criação primeira, eliminando tudo aquilo que se opõe à vida e
criando condições para que nasça o Homem Novo, o homem da vida em plenitude, o
homem que vive uma relação filial com Deus.
1ª leitura: Is. 52,7-10 - AMBIENTE
Entre 586 e 539 a.C.,
o povo de Deus experimenta a dura prova do Exílio na Babilônia. À frustração
pela derrota e pela humilhação nacional, juntam-se as saudades de Jerusalém e o
desespero por saber a cidade de Deus – orgulho de todo o israelita – reduzida a
cinzas. Ao povo exilado, parece que Deus os abandonou definitivamente e que
desistiu de Judá (alguns perguntam mesmo se Jahwéh será o Deus libertador –
como anunciava a teologia de Israel – ou será um “bluff”, incapaz de proteger o
seu Povo e de salvar Judá). Rodeado de inimigos, perdido numa terra estranha,
ameaçado na sua identidade, sem perspectivas de futuro, com a fé abalada, Judá
está desolado e abandonado e não vê saída para a sua triste situação. Quando,
já na fase final do Exílio, as vitórias de Ciro, rei dos Persas, anunciam o fim
da Babilônia, os exilados começam a ver uma pequenina luz ao fundo do túnel;
mas, então, a libertação aparece-lhes como o resultado da ação de um rei
estrangeiro e não como resultado da ação libertadora de Jahwéh… Ora, isso
agrava mais ainda a crise de confiança em Jahwéh por parte dos exilados.
É neste contexto que
aparece o testemunho profético do Deutero-Isaías. A sua mensagem (cf. Is.
40-55) é uma mensagem de consolação e de esperança (os capítulos que recolhem a
palavra do Deutero-Isaías são, precisamente, conhecidos como “livro da
Consolação”); diz que a libertação está próxima e é obra de Jahwéh.
O nosso texto está
integrado na segunda parte do “livro da Consolação” (cf. Is. 40-55).
Aí, o profeta (que na
primeira parte – Is. 40-48 – havia, sobretudo, anunciado a libertação do
cativeiro e um “novo êxodo” do Povo de Deus, rumo à Terra Prometida) fala da
reconstrução e da restauração de Jerusalém. O profeta garante que Deus não Se
esqueceu da sua cidade em ruínas e vai voltar a fazer dela uma cidade bela e
cheia de vida, como uma noiva em dia de casamento. É neste ambiente que podemos
situar a primeira leitura de hoje.
MENSAGEM
Para revitalizar a
esperança dos exilados, o profeta põe-nos a contemplar um quadro, fictício mas
sugestivo quanto ao significado: à Jerusalém desolada e em ruínas, chega um
mensageiro com uma “boa notícia”. Qual é essa “boa notícia” que o mensageiro
traz? Ele anuncia “a paz” (“shalom”: paz, bem-estar, harmonia, felicidade),
proclama a “salvação” e promete o “reinado de Deus”. A questão é, portanto,
esta: Deus assume-se como “rei” de Judá… Ele não reinará à maneira desses reis
que conduziram o Povo por caminhos de egoísmo e de morte, de desgraça em
desgraça até à catástrofe final do Exílio; mas Jahwéh exercerá a realeza de
forma a proporcionar a “salvação” ao seu Povo – isto é, inaugurando uma era de
paz, de bem-estar, de felicidade sem fim.
Num desenvolvimento
muito bonito, o profeta/poeta põe as sentinelas da cidade (alertadas pelo
anúncio do “mensageiro”) a olhar na direção em que deve chegar o Senhor. De
repente, soa o grito das sentinelas… Não é, no entanto, um grito de alarme, mas
de alegria contagiante: elas vêem o próprio Jahwéh regressar ao encontro da sua
cidade. Com Deus, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, cheia
de alegria e de festa. O profeta/poeta convida as próprias pedras da cidade em
ruínas a cantar em coro, porque a libertação chegou. E a salvação que Deus
oferece à sua cidade e ao seu Povo será testemunhada por toda a terra, como se
o mundo estivesse de olhos postos na ação vitoriosa de Deus em favor de Judá.
ATUALIZAÇÃO
A alegria pela
libertação do cativeiro da Babilônia e pela “salvação” que Deus oferece ao seu
Povo anuncia essa outra libertação, plena e total, que Deus vai oferecer ao seu
Povo através de Jesus. É isso que celebramos hoje: o nascimento de Jesus
significa que a opressão terminou, que chegou a paz definitiva, que o “reinado
de Deus” alcançou a nossa história. Para que essa “boa notícia” se cumpra é, no
entanto, preciso acolher Jesus e aderir ao “Reino” que Ele veio propor.
A alegria contagiante
das sentinelas e os brados de contentamento das próprias pedras da cidade
convidam-nos a acolher com alegria e em festa o Deus que veio libertar-nos… Se
temos consciência da opressão que, dia a dia, nos rouba a vida e nos impede de
ser livres e felizes, certamente sentiremos um grande contentamento ao deparar
com essa proposta de liberdade que Jesus veio trazer. É essa alegria que nos
anima, neste dia em que celebramos a chegada libertadora de Jesus?
As sentinelas atentas
que, nas montanhas em redor de Jerusalém, identificam a chegada do Deus
libertador são um modelo para nós: convidam-nos a ler, atentamente, os sinais
da presença libertadora de Deus no mundo e a anunciar a todos os homens que
Deus aí está, para reinar sobre nós e para nos dar a salvação e a paz. Somos
sentinelas atentas que descobrem os sinais do Senhor nos caminhos da história e
anunciam o seu “reinado”, ou somos sentinelas negligentes
que não vigiam nem
alertam e que fazem com que o Deus libertador seja acolhido com indiferença
pelo povo da “cidade”?
2ª leitura: Hb. 1,1-6 - AMBIENTE
A carta aos Hebreus é
um escrito de autor anônimo e cujos destinatários, em concreto, desconhecemos
(o título “aos hebreus” provém das múltiplas referências ao Antigo Testamento e
ao ritual dos “sacrifícios” que a obra apresenta). É possível que se dirija a
uma comunidade cristã constituída majoritariamente por cristãos vindos do
judaísmo; mas nem isso é totalmente seguro, uma vez que o Antigo Testamento era
um patrimônio comum, assumido por todos os cristãos – quer os vindos do
judaísmo, quer os vindos do paganismo. Trata-se, em qualquer caso, de cristãos
em situação difícil, expostos a perseguições e que vivem num ambiente hostil à
fé… São, também, cristãos que facilmente se deixam vencer pelo desalento, que
perderam o fervor inicial e que cedem às seduções de doutrinas não muito
coerentes com a fé recebida dos apóstolos… O objetivo do autor é estimular a
vivência do compromisso cristão e levar os crentes a crescer na fé. Para isso,
expõe o mistério de Cristo (apresentado, sobretudo, como “o sacerdote” da Nova
Aliança) e recorda a fé tradicional da Igreja.
O texto que nos é
hoje proposto pertence ao prólogo do sermão. Nesse prólogo, o pregador
apresenta a visão global e as coordenadas fundamentais que ele vai, depois,
desenvolver ao longo da obra.
MENSAGEM
Temos aqui esboçadas,
em traços largos, as coordenadas fundamentais da história da salvação. Deus é o
protagonista dessa história…
O texto alude ao
projeto salvador de Deus. Esse projeto manifestou-se, numa primeira fase,
através dos porta-vozes de Deus – os profetas; eles transmitiram aos homens a
proposta salvadora e libertadora de Deus.
Veio, depois, uma
segunda etapa da história da salvação: “nestes dias que são os últimos”, Deus
manifestou-se através do próprio “Filho” – Jesus Cristo, o “menino de Belém”, a
Palavra plena, definitiva, perfeita, através da qual Deus vem ao nosso encontro
para nos “dizer” o caminho da salvação e da vida nova. O nosso texto reflete
então – sem contudo desenvolver uma lógica muito ordenada – sobre a relação de
Jesus com o Pai, com os homens e com os anjos (o que nos situa no ambiente de
uma comunidade que dava importância excessiva ao culto dos “anjos” e que lhes
concedia um papel preponderante na salvação do homem).
Como é que se define
a relação de Jesus com o Pai? Para o autor da carta aos Hebreus, Jesus, o
“Filho”, identifica-Se plenamente com o Pai. Ele é o esplendor da glória do Pai,
a imagem do ser do Pai, a reprodução exata e perfeita da substância do Pai:
desta forma, o autor da carta afirma que Jesus procede do Pai e é igual ao Pai.
N’Ele manifesta-se o
Pai; quem olha para Ele, encontra o Pai.
Definida a relação de
Jesus com Deus, o autor reflete sobre a relação de Jesus com o mundo… O Filho
está na origem do universo (e, portanto, também do homem); por isso, Ele tem um
senhorio pleno sobre toda a criação. Essa soberania expressa-se, inclusive, na
encarnação e redenção: Ele veio ao encontro do homem e purificou-o do pecado:
dessa forma, Ele completou a obra começada pela Palavra criadora, no início.
É como “o Senhor” –
que possui soberania sobre os homens e sobre o mundo, que cria e que salva –
que os homens o devem ver e acolher.
A igualdade
fundamental do “Filho” com o Pai fá-lo muito superior aos anjos: os anjos não
são “filhos”; mas Jesus é “o Filho” e o próprio Deus proclamou essa relação de
filiação plena, real, perfeita. Não são os anjos que salvam, mas sim “o Filho”.
Sendo a Palavra
última e definitiva de Deus, Ele deve ser escutado pelos homens como o caminho
mais seguro para chegar a essa vida nova que o Pai nos quer propor.
É tendo consciência
desse fato que devemos acolher o “menino de Belém”.
ATUALIZAÇÃO
Celebrar o nascimento
de Jesus é, em primeiro lugar, contemplar o amor de um Deus que nunca abandonou
os homens à sua sorte; por isso, rompeu as distâncias, encontrou forma de
dialogar com o homem e enviou o próprio Filho para conduzir o homem ao encontro
da vida definitiva, da salvação plena. No dia de Natal, nunca será demais
insistir nisto: o Deus em quem acreditamos é o Deus do amor e da relação, que
continua a nascer no mundo, a apostar nos homens, a querer dialogar com eles, e
que não desiste de propor aos homens – apesar da indiferença com que as suas
propostas são, às vezes, acolhidas – um caminho para chegar à felicidade plena.
Jesus Cristo é a
Palavra viva e definitiva de Deus, que revela aos homens o verdadeiro caminho
para chegar à salvação. Celebrar o seu nascimento é acolher essa Palavra viva
de Deus… “Escutar” essa Palavra é acolher o projeto que Jesus veio apresentar e
fazer dele a nossa referência, o critério fundamental que orienta as nossas
atitudes e as nossas opções. A Palavra viva de Deus (Jesus) é, de fato, a nossa
referência? O que Ele diz orienta e condiciona as minhas atitudes, os meus
valores, as minhas tomadas de posição? Os valores do Evangelho são os meus
valores? Vejo no Evangelho de Jesus a Palavra viva de Deus, a Palavra plena e
definitiva através da qual Deus me diz como chegar à salvação, à vida
definitiva?
Evangelho: Jo 1,1-18 - AMBIENTE
A Igreja primitiva
recorreu, com frequência, a hinos para celebrar, expressar e anunciar a sua fé.
O prólogo ao Evangelho segundo João (que hoje nos é proposto) é um desses
hinos.
Não é certo se este
hino foi composto por João, ou se o autor do quarto Evangelho usou um primitivo
hino cristão conhecido da comunidade joânica, adaptando-o de forma a que ele
servisse de prólogo à sua obra. O que é certo é que o hino cristológico que
chegou até nós expressa, em forma de confissão, a fé da comunidade joânica em
Cristo enquanto Palavra viva de Deus, a sua origem eterna, a sua procedência
divina, a sua influência no mundo e na história, possibilitando aos homens que
O acolhem e escutam tornar-se “filhos de Deus”. Essas grandes linhas,
enunciadas neste prólogo, vão depois ser desenvolvidas pelo evangelista ao
longo da sua obra.
MENSAGEM
O prólogo ao quarto
Evangelho começa com a expressão “no princípio”: dessa forma, João enlaça o seu
Evangelho com o relato da criação (cf. Gn. 1,1), oferecendo-nos assim, desde
logo, uma chave de interpretação para o seu escrito… Aquilo que ele vai narrar
sobre Jesus está em relação com a obra criadora de Deus: em Jesus vai acontecer
a definitiva intervenção criadora de Deus no sentido de dar vida ao homem e ao
mundo… A atividade de Jesus, enviado do Pai, consiste em fazer nascer um homem
novo; a sua ação coroa a obra criadora iniciada por Deus “no princípio”.
João apresenta, logo
a seguir, a “Palavra” (“Lógos”). A “Palavra” é – de acordo com o autor do
quarto Evangelho – uma realidade anterior ao céu e à terra, implicada já na
primeira criação. Esta “Palavra” apresenta-se com as características que o
“livro dos Provérbios” atribuía à “sabedoria”: pré-existência (cf. Prov.
8,22-24) e colaboração com Deus na obra da criação (cf. Prov. 8,24-30). No
entanto, essa “Palavra” não só estava junto de Deus e colaborava com Deus, mas
“era Deus”. Identifica-se totalmente com Deus, com o ser de Deus, com a obra
criadora de Deus. É como que o projeto íntimo de Deus, que se expressa e se
comunica como “Palavra”. Deus faz-Se inteligível através da “Palavra”. Essa
“Palavra” é geradora de vida para o homem e para o mundo, concretizando o
projeto de Deus.
Essa “Palavra” veio
ao encontro dos homens e fez-se “carne” (pessoa). João identifica claramente a
“Palavra” com Jesus, o “Filho único cheio de amor e de verdade”, que veio ao
encontro do homem. Nessa pessoa (Jesus), podemos contemplar o projeto ideal de
homem, o homem que nos é proposto como modelo, a meta final da criação de Deus.
Essa “Palavra”
“montou a sua tenda no meio de nós”. O verbo “skênéô” (“montar a tenda”) aqui utilizado
alude à “tenda do encontro” que, na caminhada pelo deserto, os israelitas
montavam no meio ou ao lado do acampamento e que era o local onde Deus residia
no meio do seu Povo (cf. Ex. 27,21; 28,43; 29,4…). Agora, a “tenda de Deus”, o
local onde Ele habita no meio dos homens, é o Homem/Jesus. Quem quiser
encontrar Deus e receber d’Ele vida em plenitude (“salvação”), é para Jesus que
se tem de voltar.
A função dessa
“Palavra” está ligada ao binômio “vida/luz”: comunicar ao homem a vida em
plenitude; ou, por outras palavras, trata-se de acender a luz que ilumina o
caminho do homem, possibilitando-lhe encontrar a vida verdadeira, a vida plena.
Jesus Cristo vai, no
entanto, deparar-se com a oposição à “vida/luz” que Ele traz. Ao longo do
Evangelho, João irá contando essa história do confronto da “vida/luz” com o
sistema injusto e opressor que pretende manter os homens prisioneiros do
egoísmo e do pecado (e que João identifica com a Lei. Os dirigentes judeus que
enfrentam Jesus e o condenam à morte são o rosto visível dessa Lei). Recusar a
“vida/luz” significa preferir continuar a caminhar nas trevas (que se
identificam com a mentira, a escravidão, a opressão), independentemente de
Deus; significa recusar chegar a ser homem pleno, livre, criação acabada e elevada
à sua máxima potencialidade.
Mas o acolhimento da
“Palavra” implica a participação na vida de Deus. João diz mesmo que acolher a
“Palavra” significa tornar-se “filho de Deus”. Começa, para quem acolhe a
“Palavra”/Jesus, uma nova relação entre o homem e Deus, aqui expressa em termos
de filiação: Deus dá vida em plenitude ao homem, oferecendo-lhe, assim, uma
qualidade de vida que potencia o seu ser e lhe permite crescer até à dimensão
do homem novo, do homem acabado e perfeito. Isto é uma “nova criação”, um novo
nascimento, que não provém da carne e do sangue, mas sim de Deus.
A encarnação de Jesus
significa, portanto, que Deus oferece à humanidade a vida em plenitude. Sempre
existiu no homem o anseio da vida plena, conforme o projeto original de Deus; mas,
na prática, esse anseio fica, muitas vezes, frustrado pelo domínio que o
egoísmo, a injustiça, a mentira (o pecado) exercem sobre o homem.
Toda a obra de Jesus
consistirá em capacitar o homem para a vida nova, para a vida plena, a fim de
que Ele possa realizar em si mesmo o projeto de Deus: a semelhança com o Pai.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho
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