.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

6º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano A

6º DOMINGO TEMPO COMUM

12 de Fevereiro de 2014

Evangelho - Mt 5,17-37




Prezados irmãos. Neste Evangelho, Jesus jogou pesado! Suas palavras são duras, porém, necessárias para a nossa salvação. Ou somos cristãos, ou não somos! A partir de hoje precisamos decidir que rumo tomamos em nossa vida tribulada, e recheada de descaminhos e muitos tropeços.      
·     Leia mais



==========================================
“NÃO PENSEIS QUE VIM ABOLIR A LEI...” Olivia Coutinho

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 12 de Fevereiro de 2017

Evangelho de  Mt5,17-37


O ponto fundamental de todos os ensinamentos de Jesus sempre foi o amor, Jesus era movido pelo o amor,  todas as suas ações se convergiam para o bem maior, que é a vida!
Não pode haver sintonia entre o homem e Deus sem a vivência do amor! O amor gera vida, nos une como irmãos, nos torna testemunhas vivas de Jesus no mundo! É o amor que nos possibilita viver a nossa humanidade de forma Divina!
No evangelho de hoje, Jesus nos ensina o caminho que devemos percorrer, se quisermos de fato, fazer parte do Reino dos Céus, que é o caminho do amor!
“Se a vossa justiça, não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus.” Mt5,20.
Ao contrário do que muitos daquela época pensavam, Jesus não veio abolir as leis, pelo contrário, Ele veio aprimorá-las! A interpretação que Ele faz dos mandamentos, torna explícita a intenção de Deus, que não somente quis nos deixar “mandamentos” e sim, nos oferecer, por meio de Jesus, diretrizes precisas para a nossa caminhada rumo a eternidade! 
É no pensamento que está a raiz de todo pecado, e Jesus veio nos ensinar como cortar este mal pela raiz, que é eliminar tudo que pode nos levar a tirar a vida do outro, o que fazemos não somente com armas, mas também com as nossas atitudes, principalmente, com a nossa indiferença, com a nossa omissão diante as injustiças. 
O antigo Testamento diz: “não matarás”, Jesus diz a mesma coisa, mudando apenas as palavras, ao invés de dizer: não matarás, Ele nos convidar a amar! “Amem-se uns aos outros." O amor é a arma que bloqueia toda ocasião de pecado, pois quem ama não mata, não escandaliza o outro, quem ama, perdoa, respeita, valoriza a família, enfim, quem só faz o bem!
O texto nos alerta sobre o perigo de nos deixar contaminar pela mentalidade farisaica ainda presente nos dias de hoje, até mesmo nas nossas comunidades cristãs.
O legalismo é um instrumento de alienação e de opressão que tem como objetivo desviar a atenção do povo. Enquanto o povo está voltado para o cumprimento de tantas regrinhas, de tantos preceitos, os seus líderes sentem-se livres para praticarem seus atos contrários ao projeto de Deus, um projeto, que tem como prioridade  a vida em toda sua dimensão!
As leis de organização social e religiosas, para Jesus, só têm validade,  se forem elaboradas em favor da vida e Jesus veio para promover a vida!
Em todos os seus ensinamentos, Jesus sempre deixou claro que a vida deve estar acima de toda e qualquer lei!
Ao nos deixar o mandamento do amor, Jesus enfatiza a importância de vivê-lo no nosso dia a dia! O mandamento do amor, não se trata de uma recomendação e muito menos de uma lei imposta por Ele, mas sim, de uma condição para que Ele possa estar em nós e nós Nele!
Quem ama, obedece todos os mandamentos e ensina o outro a cumpri-los, com o seu testemunho de vida! Estes, diz Jesus: serão considerados grandes no Reino dos céus! 
O mandamento do amor é um mandamento sempre novo, pois o amor é atual, o amor  nunca entra em decadência!
O reino de Deus não se espalha através de cumprimento de normas, o Reino de Deus se espalha pelo contagio do amor, pois o amor é “contagioso”, pega de um para o outro!
A nossa identidade, o que nos distingue como cristão, é a nossa vivencia no amor, onde não há amor, não há vida cristã!
O nosso amor pelo outro, deve ser um amor que responda ao amor que  Deus tem por nós!
Ora, se somos filhos do amor, amor devemos ser!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook




==========================================




A fidelidade à lei de Deus – melhor dizendo, à Torá ou instrução do Senhor – é um dos temas centrais do Antigo Testamento. O amor e a fidelidade à lei de Deus constituíam toda a justiça e santidade do povo de Israel.
A lei de Deus é boa e santa (Rm. 7,12). Por isso, a lei não foi abolida por Jesus, mas sim plenificada (Mt. 5,17). Plenificar significa que não basta cumprir a materialidade do mandamento, mas se perguntar pela intenção de Deus ao instituí-lo. Não é suficiente uma fidelidade externa, mas faz-se necessária uma fidelidade mais profunda, que empenhe mente e coração. Não basta somente uma conduta que todos possam ver, mas se requer reta intenção, que brote do mais profundo do coração e da mente, vista somente por Deus. Tal atitude é possível quando se é capaz de deixar-se penetrar pela sabedoria do evangelho, “misteriosa e oculta” (1Cor 2,7), sabedoria da cruz de Cristo. Isso é andar na lei do Senhor. Os atos meramente externos constituem um legalismo severamente criticado por Jesus.
Evangelho (Mt. 5,17-37)
Eu não vim abolir, mas cumprir a lei
Jesus continua o discurso do monte, afirmando que, se o modo de agir, ou seja, se a justiça dos discípulos não for mais exigente que a dos escribas e dos fariseus, eles não participarão da construção do Reino de Deus. É isto que mostra o evangelho na liturgia de hoje: o cristianismo é muito mais exigente que o judaísmo.
Com o termo “ouvistes” se quer contrapor o ensinamento de Jesus ao ensinamento dos escribas e fariseus. Isso não significa, como muitos pensam, uma substituição do Antigo pelo Novo Testamento. Não se trata do que foi “escrito”, mas do que foi “ouvido” como homilia feita pelos doutores da lei, os mestres do judaísmo. Trata-se da interpretação de Jesus contra a interpretação dos escribas e fariseus a respeito da Sagrada Escritura.
A novidade da interpretação que Jesus faz da Escritura está na explicitação da intenção de Deus ao dar os mandamentos. Não basta, por exemplo, não matar. Devem-se evitar as palavras de desamor, de desprezo, de ressentimento contra o próximo. Era essa a intenção de Deus ao dar o mandamento “não matarás”.
“Deixa tua oferta diante do altar” (v. 24). No dia da expiação (ou do perdão, cf. Lv 16), os judeus confessam os pecados cometidos contra Deus e pedem perdão durante 24 horas. Mas acreditam que os pecados contra o “próximo” devem ser perdoados por quem sofreu a ofensa, e não por Deus; por isso, primeiramente pedem perdão ao próximo, para depois se dirigirem a Deus. Jesus faz uma mudança em relação ao judaísmo, afirmando que não somente num dia especial, mas todos os dias, os cristãos devem pedir perdão ao seu próximo para depois dirigir-se a Deus.
A compreensão dos escribas a respeito do adultério era diferente no caso da culpa da mulher e da culpa do homem. Entendiam que a mulher cometia adultério até mesmo sozinha, no coração, quando era casada e desejava outro homem. Cometia adultério quando observava um homem para vê-lo passar ou quando se exibia para ser notada por ele. Se fosse flagrada numa dessas atitudes, poderia ser apedrejada sozinha, porque seu adultério não dependia do consentimento de um homem. Jesus põe homem e mulher em pé de igualdade. Seja homem seja mulher, cada um comete adultério no coração. A intenção de Jesus é preservar a família e o matrimônio, e não lançar um fardo pesado demais sobre nossos ombros.
Quanto ao juramento, muitas vezes os judeus juravam sem pensar e se obrigavam a agir mesmo se descobrissem ser a vontade de Deus diferente do que foi prometido por juramento. Mesmo assim, algumas pessoas preferiam fazer algo que desagradava a Deus a descumprir um juramento, pois amaldiçoavam a si mesmas quando juravam (cf. 1Rs. 19,1-2). Por isso, Jesus exorta a não jurar.
1ª leitura (Eclo. 15,16-21)
Fidelidade é fazer a vontade de Deus
Esse texto da primeira leitura destaca a liberdade de escolha, o livre-arbítrio do ser humano diante da vontade de Deus. O autor bíblico acentua a responsabilidade da pessoa quando ela decide se rebelar contra Deus.
Quem obedece à vontade de Deus, expressa principalmente na Escritura, tem qualidade de vida. Se todas as pessoas cumprissem os mandamentos de não roubar e não matar, entendidos em sentido amplo, incluindo injustiças e ofensas, a sociedade de hoje seria menos violenta.
Por isso, afirma o texto bíblico que a vida e a morte estão diante do ser humano, para que ele escolha o que deseja. A vontade de Deus gera vida em plenitude, o pecado gera morte. Tanto a vida quanto a morte, entendidas nesse sentido, são consequências das escolhas humanas.
O ser humano é livre e, por conseguinte, responsável pelas próprias ações. O mal que faz ao próximo não é culpa de Deus, pois “a ninguém Deus ordenou que fizesse o mal, a ninguém Deus deu licença de pecar” (v. 21). Deus nos deu o livre-arbítrio e a capacidade de fazer as escolhas certas.
2ª leitura (1Cor. 2,6-10)
Uma sabedoria que não é deste mundo
Paulo ensina os fiéis de Corinto a cultivar a sabedoria “misteriosa e oculta” revelada por Deus, que ultrapassa a sabedoria do mundo e dos poderosos.
A sabedoria de que Paulo fala é a cruz, na qual Cristo revela o Deus despojado. Na fragilidade de sua vida humana e totalmente ofertada ao Pai como dom de amor, Jesus desvenda aquilo que Deus “preparou desde toda a eternidade” para os seres humanos: o amor ao extremo. É, pois, na adesão à vida de Cristo que consiste a sabedoria divina, não reconhecida pelos poderosos, porque foge da lógica deste mundo. Somente aquele que se despoja da própria vida será capaz de reconhecer a sabedoria de Deus, que é Jesus Cristo crucificado.
PISTAS PARA REFLEXÃO
Durante muito tempo se entendeu que fazer a vontade de Deus significava cumprir apenas seus mandamentos de forma rigorosa. No entanto, essa concepção levou muitos a cair num legalismo exacerbado, o que gerou uma moral escravizadora. Ainda hoje muita gente sofre por causa de certos julgamentos pautados numa visão legalista da Escritura. Mas a proposta de Jesus sempre foi outra. Isso não significa um relaxamento na conduta do ser humano; ao contrário, a proposta de Jesus é exigente, porque mira o interior da pessoa, no qual foi escrita a vontade de Deus. Deus não quer seus filhos escravos, mas livres. E somente no exercício da liberdade o ser humano poderá ser verdadeiramente fiel aos mandamentos divinos.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade






Formando os discípulos
Hoje, se escuta falar muito em formação permanente. Não basta apenas ter terminado um período de estudos, uma escola técnica ou uma faculdade. Tudo muda. Tudo caminha. É preciso atualizar-se. Por isso se fala em reciclagem, formação continuada e permanente.  Algo parecido acontece com a questão da fé. Não é possível que, no quadro das transformações culturais em que vivemos, as pessoas possam sobreviver e subsistir com rudimentares noções do catecismo. O cristão para tornar-se discípulo precisa permanecer demoradamente aos pés do Mestre. Não se  trata apenas de seguir cursos, mas de deixar que neste momento de nossa vida pessoal e comunitária o Senhor nos fale e nos ensope da força do  evangelho.
O sermão da Montanha de Mateus pode ajudar-nos em nossa formação permanente.
Jesus veio abolir a Lei.  Ele não é um revolucionário pelo gosto de ser revolucionário. Não apaga ou despreza o passado, mesmo apontando para o futuro. Em sua pessoa hão de  realizar-se as profecias feitas pelos profetas. Jesus fala da obediência dos mandamentos menores  como a nos dizer que não temos o direito de transmitir aos outros nossas opiniões particulares a respeito de aspectos da fé, mas aquilo que deve ser transmitido. Santificamo-nos nas coisas pequenas e simples de todos os dias.
A santidade do discípulo não pode consistir na linha da realização do mínimo. Não basta apenas uma observância dos mandamentos para não  infligir a demarcação entre o certo e o errado.  Não é digno de condenação apenas aquele que mata. O que não tem carinho para com o próximo já está foram da esfera do discípulo fiel do Mestre. “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás. Quem matar será condenado pelo tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão ‘patife’, será condenado pelo tribunal;  quem chamar o irmão de ‘tolo’  será condenado ao fogo do inferno”. O discípulo é chamado a fazer o máximo e a manifestação generosidade com relação ao irmão.
Somos convidados a oferecer ao Senhor o sacrifício do louvor com mãos puras. Pensamos nas orações, nas liturgias e na missa. No momento em que estamos nos dirigindo para  o templo ou a capela e nos lembramos de desavenças será preciso largar ali, no corredor, a oferta e ir reconciliar-se  com o irmão.  Depois do abraço da paz refeita será possível retomar a oferta a ser levada.
Os casados fazem uma promessa de amor. Querem cumpri-la na fidelidade de todos os momentos. Esta será uma fidelidade criativa e que cresce ao longo do tempo. Evidentemente ela comporta o aspecto carnal. Mas a coisa começa antes, no jeito de olhar, no jeito do coração: “Todo aquele que olhar para um mulher com o desejo de possuí-la já cometeu adultério com ela no coração”. É sempre no coração que começa a fidelidade ou a infidelidade.
frei Almir Ribeiro Guimarães




A verdadeira justiça
Não basta observar leis para ser justo; é preciso observá-las de maneira pessoal, consciente daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem a que a lei visa. Isso se chama: agir conforme o espírito da lei. Vale para a lei civil e, muito mais ainda, quando se trata da lei de Deus: devemos observá-la conforme o Espírito de Deus. A letra da lei mata, o Espírito vivifica. Os nossos pais na fé, os antigos israelitas, veneravam a Lei (religiosa e civil ao mesmo tempo) como uma encarnação da sabedoria e do espírito de Deus. O salmo responsorial  de hoje, Sl. 119 [118], é um bom exemplo disto. A Lei era uma luz, um caminho, uma razão de justo orgulho perante os outros povos (cf. Dt. 4,7-8). Graças aos mandamentos esperavam o bem que Deus lhes propunha (não o fogo, mas a água; Eclo 15,17[16]; 1ª leitura).
Mas observar a lei pode também acontecer num outro espírito, que não é o de Deus. Havia os que observavam a Lei com espírito de barganha: “Vamos fazer exatamente o que lá está escrito, nem menos nem mais; então seremos justos, e Deus nos deverá conceder o paraíso!” Certos escribas e fariseus apoderaram-se da Lei para fazer dela um instrumento de dominação (Mt 23,2-4). Jesus pretende tirar a Lei das mãos dessa gente e restituí-la a Deus, isto é, deixá-la ser novamente expressão da vontade de Deus, de seu amor e fidelidade (cf. 1ª leitura). Jesus não é contra a Lei. Antes pelo contrário, ele quer restabelecê-la em toda a sua pureza. Não a quer abolir, mas dar-lhe sua perfeição: não o legalismo farisaico, mas o Espírito de Deus mesmo (Mt 5,17-20, evangelho).
Ora, restituir a Lei a Deus significa uma profunda conversão da nossa “justiça” (cf. Mt 5,20). Significa, no fundo, que nossa justiça, enquanto ela só vier de nós mesmos, nunca será suficiente para observar a Lei. Pois, entendida segundo o espírito do legislador, ninguém conseguirá jamais realizar tudo o que Deus quis sugerir através da Lei. “Não matarás”, cita Jesus, mas também não sufocarás psicologicamente teu irmão por desprezo e rixa. “Não adulterarás” (5,27), mas também não alimentarás cobiça por mulher alheia no teu coração. O divórcio (mais exatamente, o repúdio da esposa) entrou na lei de Moisés, mas não era da intenção de Deus (cf. Mt. 19,1ss); conforme o espírito de Deus não deve haver divórcio, pois, se o divórcio for alguma vez o mal menor, nunca será um bem … Mesmo jurar é uma aberração, se a gente considera bem, pois Deus quer que sempre se diga a verdade; por que então jurar (Mt. 5, 33-37)?
Com sua tremenda radicalidade na interpretação da Lei, Jesus derruba toda auto-suficiência. Diante de Deus, ninguém é sem pecado (cf. SI. 130[129],3). Mas isso não nos dispensa de tentar fazer o melhor que podemos. Os fariseus punham, através de sua casuística, a Lei em moldes humanos e, depois, se gabavam de a ter observado perfeitamente. Jesus mostra a dimensão infinita e inesgotável da vontade de Deus, da qual os mandamentos são uma expressão fraca. Pela radicalidade de Jesus tomamos consciência de ficarmos devendo; e é muito salutar essa consciência: é o começo de nossa salvação. Nunca estaremos em dia com Deus, mas, fazendo aquilo de que somos capazes, podemos contar com sua graça, pois ele é o nosso Pai. Essa certeza enquadra a liturgia de hoje (canto da entrada, oração do dia).
Na 2ª leitura continua a exposição de Paulo sobre a sabedoria do mundo e a de Deus. Esta “despistou” os poderosos do cosmo, fazendo com que o Filho de Deus viesse entre nós revestido de fragilidade. Se a sabedoria e o poder do mundo tivessem reconhecido o Deus despojado que é Cristo, não o teriam crucificado; teriam tratado de “cooptá-lo … “. Pode-se estabelecer um paralelo: a oposição entre o auto-suficiente legalismo farisaico e a “absurda” radicalidade do Sermão da Montanha por um lado, e a oposição entre a brilhante sabedoria grega e o absurdo da Cruz por outro. Em ambos os casos, Deus se mostra infinitamente superior aos critérios humanos. Só reconhecendo isso, temos chances de nos entendermos com ele.
Johan Konings "Liturgia dominical"





Jesus, no Evangelho de hoje, diz que não veio para destruir a Lei antiga, referindo-se aos dez mandamentos recebidos por Moisés, mas para ensinar a cumpri-las plenamente. O que Ele pretende é restaurar, aperfeiçoar as ordens estabelecidas ao povo de Israel.
O Primeiro Testamento prometia o Reino de Deus que traria bem-estar, prosperidade e felicidade para todos e o cumprimento fiel da Lei contida nas escrituras era a forma de se conquistar estas promessas.
Naquele tempo os escribas eram os doutores intelectuais, que se julgavam donos do saber e, portanto, aptos a interpretar as Escrituras para os outros, criticando os que a descumpriam segundo as suas próprias interpretações e incluindo Jesus nas suas críticas. Como pessoas esclarecidas, os escribas sabiam muito bem o que se devia fazer, mas não o faziam e nem sempre ensinavam aos outros o que Deus pedia, criando uma burocracia que escravizava e controlando duramente a população.
Jesus ensina que não veio abolir as leis, e sim ensinar como elas deveriam ser realmente compreendidas e praticadas, ensinando, dessa forma um novo jeito de viver a liberdade e a justiça, não simplesmente observando o teor burocrático e imperativo.
Para falar sobre a forma como isto se dá, Jesus retoma algumas exigências da lei, procurando esclarecer que as normas e regras devem servir de inspiração para a justiça e misericórdia, a fim de que o homem tenha vida e relações mais fraternas. Ele mostra que, para praticar a lei é necessário antes de qualquer coisa, compreendê-la, buscar nela o discernimento que faz enxergar profundamente as situações, possibilitando desta forma transformá-la em uma ação que liberta, tirando dela o conceito de escravidão.
Mateus apresenta no Evangelho alguns exemplos que evidenciam como a lei deve ser entendida. O ato de matar, por exemplo, começa pelo ressentimento e pela raiva. É preciso cortá-lo pela raiz, resolvendo dessa forma o ódio que pode levar às situações extremas.
Além deste discernimento capaz de ditar atos novos em situações de ofensa à lei, Jesus pede a verdade sempre. A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Jesus exige relacionamentos em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis, esta é condição para a prática da justiça e da misericórdia, capaz de conduzir o homem ao Reino prometido por Deus.
Os ensinamentos de Jesus levam o cristão a um novo jeito de se relacionar com Deus, não com atos de barganha, onde se faz aqui para ganhar ali, mas com espírito livre, que age por amor a Deus e ao próximo, seguindo as orientações de Jesus que diz que, se se cumprir o primeiro mandamento, os outros serão cumpridos por consequência.
O ponto de referência para as obras que conduzem ao Amor do Pai, é a própria Bíblia sintetizada nos mandamentos que nascem na prática de Jesus e de seus seguidores que são convocados à pratica da justiça que conduz à vida. A única forma de encontrar Deus e prestar-lhe culto é criar relações de justiça que geram fraternidade e vida para todos.
Pequeninos do Senhor






Eu, porém, vos digo ...
O elenco de antíteses, proclamadas por Jesus, tem um caráter polêmico, a começar pela introdução: "Vocês ouviram o que foi dito (por Deus) aos antigos". Ele se referia aos pais do povo hebreu mormente os que haviam recebido a Lei no Sinai e fizeram a primeira tentativa de explicá-la para o povo. Por conseguinte, Jesus não se referia aos rabinos de seu tempo e sim a quem recebera de Deus o encargo de transmitir sua Lei ao povo.
Este era o ensinamento questionado por Jesus. Ensinamento de origem divina, cuja autoridade era inquestionável. A ousadia do Mestre era patente!
A este ensinamento venerável e tradicional, Jesus pretendia contrapor outro mais radical, também em conformidade com o querer divino. E não algo puramente humano, sem transcendência. O ensinamento saído de sua boca, diferentemente daquele dos mestres antigos, estava em perfeita sintonia com Deus.
Jesus não se colocou na contramão do Deus do Antigo Testamento. Tendo-lhe sido dado todo poder, no Céu e na Terra, estava suficientemente autorizado para penetrar no âmago dos mandamentos do Decálogo e extrair um sentido muito mais radical do que até então se lhe atribuía. Seu ensinamento superava a materialidade da letra dos mandamentos, revelando o espírito neles subjacente. Neste nível profundo, Jesus revelava também o verdadeiro projeto de Deus para a humanidade.
padre Jaldemir Vitório





Uma fonte de bênção
Encontramos no texto deste domingo do livro do Eclesiástico (Eclo 15,16-17) ressonâncias de Dt. 30,15-20, situado no longo e último discurso de Moisés. Aí achamos as duas vias apresentadas pelo Senhor para a decisão de cada membro do povo de Deus (cf. tb. Eclo 15,16b.17b), e uma forte exortação a guardar os mandamentos do Senhor (Dt. 30,16.19b-20). É no cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus que está a vida e a felicidade. A influente tradição deuteronomista insiste que o cumprimento irrepreensível da Lei é uma fonte de bênção (cf. Dt. 28,1-14); sua rejeição, uma fonte de maldições (Dt. 28,15ss).
O evangelho deste domingo, situado no início do longo “sermão da montanha” (5–7), começa por eliminar um equívoco (v. 7a) que, certamente, perdurou por longo período e foi ocasião de disputas não somente entre Jesus e os seus contemporâneos, mas entre judeus e cristãos. O modo como Jesus interpretava e punha em prática a Lei de Moisés desconcertava a tal ponto que fazia com que seus contemporâneos e a geração posterior pensassem que ele desprezava e revogava a Lei de Moisés. As antíteses que se seguem (vv. 21-37) são o exemplo claro de que Jesus ultrapassa a letra da Lei, superando um rigorismo sufocante, considerado um fardo pesado que impedia de entrar na finalidade própria da Lei, dada por Deus ao seu povo para preservar o dom da vida e da liberdade. Parece que é exatamente isso que Jesus quer dizer ao afirmar que, para a comunidade que ele reúne, a justiça, isto é, o modo de proceder em conformidade com a vontade de Deus expressa na Lei, deve superar o rigorismo dos escribas e fariseus (cf. v. 20). É em Jesus que a Lei e os profetas alcançam o seu pleno cumprimento e sentido, pois apontam para ele. A expressão “Lei e os profetas” é um modo bíblico de designar a Escritura na sua totalidade. Esses dois termos estão intrinsecamente relacionados: a Lei é necessária para atestar e confirmar a veracidade da profecia; a profecia é necessária para interpretar e pôr corretamente em prática a Lei. Jesus não revoga a Lei de Moisés, mas, agora, na plenitude dos tempos, ela precisa ser interpretada à luz da revelação de Jesus Cristo (cf. Mt. 5,17; 7,12; 22,40). No centro dessa “nova justiça” estão o amor, o perdão e a reconciliação, a misericórdia, a unidade e o acolhimento, que incluem e integram a todos na comunhão com Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj






A liturgia de hoje garante-nos que Deus tem um projeto de salvação para que o homem possa chegar à vida plena e propõe-nos uma reflexão sobre a atitude que devemos assumir diante desse projeto.
Na segunda leitura, Paulo apresenta o projeto salvador de Deus (aquilo que ele chama “sabedoria de Deus” ou “o mistério”). É um projeto que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, as suas palavras, os seus gestos e, sobretudo, com a sua morte na cruz (pois aí, no dom total da vida, revelou-se aos homens a medida do amor de Deus e mostrou-se ao homem o caminho que leva à realização plena).
A primeira leitura recorda, no entanto, que o homem é livre de escolher entre a proposta de Deus (que conduz à vida e à felicidade) e a auto-suficiência do próprio homem (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para ajudar o homem que escolhe a vida, Deus propõe “mandamentos”: são os “sinais” com que Deus delimita o caminho que conduz à salvação.
O Evangelho completa a reflexão, propondo a atitude de base com que o homem deve abordar esse caminho balizado pelos “mandamentos”: não se trata apenas de cumprir regras externas, no respeito estrito pela letra da lei; mas trata-se de assumir uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas, que tenha, depois, correspondência em todos os passos da vida.
1º leitura: Sir. 15,16-21 (15-20) - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (designado na Bíblia católica com o nome de “Eclesiástico”) é um livro “sapiencial” – isto é, um livro cujo objetivo é apresentar indicações de caráter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei) dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria.
Estamos no início do séc. II a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre da Macedônia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egito) minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel. Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa cultura universal, que era a cultura helênica.
Jesus Ben Sira escreve para ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra, uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
Nos capítulos 14 e 15 do livro de Ben Sira, há uma reflexão sobre como encontrar a verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo.
MENSAGEM
O tema da opção entre dois caminhos – o caminho da vida e da felicidade e o caminho da morte e da desgraça – é um tema caro à teologia tradicional de Israel. Para os teólogos deuteronomistas, essa é a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de auto-suficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Jahwéh (mandamentos), ele constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. A questão está muito bem expressa em Dt. 30,15-20.
A reflexão sapiencial tradicional mantém-se na mesma linha. Os “sábios” de Israel já perceberam (inclusive a partir da experiência que a própria história da sua nação lhes forneceu) que, quando respeita as indicações de Deus (mandamentos), o Povo constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos se respeitam e têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Jahwéh e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, constrói egoísmo, exploração, divisão e, portanto, sofrimento, privações, morte. As grandes catástrofes nacionais (nomeadamente o exílio na Babilônia) resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.
Neste texto, Jesus Ben Sira pretende colocar os homens do seu tempo – sobretudo aqueles que oscilavam entre os valores da fé dos pais e os valores mais “in” da cultura dominante – diante da opção fundamental que a liberdade lhes oferece: a vida e a morte, a felicidade e a desgraça.
Um pormenor notável reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com o seu comando; mas o homem é um ser livre, que faz as suas escolhas (escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro) e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. Resta ao homem fazer as suas escolhas e construir o seu destino: ou com Deus, ou contra Deus; ou um destino de vida e felicidade, ou um destino de morte e de desgraça.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental que aqui nos é posta é esta: existem caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, do “politicamente correto”, aceitando que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
• Uma proposta leva à vida e à felicidade. Quem quiser ir por aí, tem de seguir os “sinais” (mandamentos) com que Deus delimita o caminho que leva à vida. Percorrer esse caminho implica, evidentemente, viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das suas propostas. Esforço-me por viver na escuta de Deus e por descobrir os “sinais” que Ele me deixa?
• A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles que escolhem o egoísmo, a auto-suficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente, este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao lado dos “sinais” de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções.
• Este texto levanta, também, a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e… deixa-nos escolher.
• Atenção: a morte e a desgraça nunca são um castigo de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos errados; mas é o resultado lógico de escolhas egoístas, que geram desequilíbrios e que destroem a paz, o equilíbrio, a harmonia do mundo, da família e de mim próprio.
2ª leitura: 1Cor. 2, 6-10 - AMBIENTE
Continuamos no ambiente da comunidade cristã de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que o ponto de partida para a reflexão de Paulo é a pretensão dos coríntios em equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. Paulo está consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz.
Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar – de forma mais desenvolvida – a “sabedoria de Deus”.
MENSAGEM
Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade (noutros textos, Paulo usa um outro conceito para falar da mesma coisa: “mystêrion” – cf. Rm. 16,25; Ef. 1,3-10; 3,3.4.9; Col. 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam”, no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve misterioso e oculto durante muitos séculos, e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo (antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”).
Na leitura que Paulo faz da história da salvação, as coisas são claras: Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao nosso encontro, fez aliança conosco, indicou-nos os caminhos da vida e da felicidade; e, na plenitude dos tempos, enviou ao nosso encontro o seu próprio Filho, que nos libertou do pecado, que nos inseriu numa dinâmica de amor e de doação da vida e que nos convocou à comunhão com Deus e com os irmãos. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• O projeto de salvação que Deus tem para os homens, e que resulta do seu imenso amor por nós, é um projeto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Os crentes são, em consequência deste dinamismo de esperança que o projeto de salvação de Deus introduz na nossa história, pessoas que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em direcção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.
• No entanto, Deus não força ninguém: a opção pelo caminho que conduz à vida plena, ao Homem Novo, é uma escolha livre que cada homem e cada mulher devem fazer. O que Deus faz é ladear o nosso caminho de “sinais” (mandamentos) que indicam como chegar a essa meta final de vida definitiva. Como é que eu percorro esse caminho: na atenção constante aos “sinais” de Deus, ou na auto-suficiência de quem quer ser o responsável único pela sua liberdade e não precisa de Deus para nada?
Evangelho: Mt. 5,17-37 - AMBIENTE
Terminado o preâmbulo do “sermão da montanha” (que vimos nos dois anteriores domingos), entramos no corpo do discurso. Recordamos aquilo que dissemos nos domingos anteriores: o discurso de Jesus “no cimo de um monte” transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a Lei; agora, é Jesus que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus essa nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”. Neste discurso (o primeiro dos cinco grandes discursos que Mateus apresenta), o evangelista agrupa um conjunto de “ditos” de Jesus e oferece à comunidade cristã um novo código ético, a nova Lei, que deve guiar os discípulos de Jesus na sua marcha pela história.
Para entendermos o “pano de fundo” do texto que nos é hoje proposto, convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs primitivas e, de forma especial, no ambiente da comunidade mateana: trata-se de uma comunidade com fortes raízes judaicas, na qual preponderam os cristãos que vêm do judaísmo. As questões que a comunidade põe, na década de oitenta (quando este Evangelho aparece), são: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
MENSAGEM
Mateus tenta conciliar as tendências e as respostas dos vários grupos que, no contexto da sua comunidade cristã, eram dadas a estas questões.
Na primeira parte do Evangelho que hoje nos é proposto (vs. 17-19), Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso encará-la, não como um conjunto de prescrições legais e externas, que obrigam o homem a proceder desta ou daquela forma rígida, no contexto desta ou daquela situação particular, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus (adesão que implica a totalidade do homem, e que está para além desta ou daquela situação concreta). Dito de outra forma: os fariseus (que eram a corrente dominante no judaísmo pós-destruição de Jerusalém) tinham caído na casuística da Lei e achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas; mas Mateus achava que a proposta libertadora de Jesus ia mais além e passava por assumir uma atitude interior de compromisso total com Deus e com as suas propostas.
Na segunda parte do texto que nos é proposto (vs. 20-37), Mateus refere quatro exemplos concretos desta nova forma de entender a Lei (na realidade, são seis os exemplos que aparecem no conjunto do texto mateano; mas o Evangelho de hoje só apresenta quatro).
O primeiro (vs. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex. 20,13; Dt. 5,17); mas, na perspectiva de Jesus (que não se resume ao cumprimento estrito da letra da Lei, mas exige uma nova atitude interior), o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão. Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos do “Reino” não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspectiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos.
O segundo (vs. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex. 20,14; Dt. 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema – ou seja, o próprio coração do homem… É no coração do homem que nascem os desejos de apropriação indevida daquilo que não lhe pertence; portanto, é a esse nível que é preciso realizar uma “conversão”. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes (bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de traduzir à letra) para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.
O terceiro (vs. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt. 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei tem de ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida.
O quarto (vs. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv. 19,12; Nm. 20,3; Dt. 23,22-24); mas, na perspectiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com o “Reino”. Para os que estão inseridos na dinâmica do “Reino”, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do “Reino”.
A questão essencial é, portanto, esta: para quem quer viver na dinâmica do “Reino”, não chega cumprir estrita e casuisticamente as regras da Lei; mas é preciso uma atitude interior inteiramente nova, um compromisso verdadeiro com Deus que envolva o homem todo e lhe transforme o coração.
ATUALIZAÇÃO
• Os discípulos de Jesus são convidados a viver na dinâmica do “Reino”, isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projeto de salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena.
• Cumprir um conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus. Os nossos comportamentos externos têm de resultar, não do medo ou do calculismo, mas de uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas. É isso que se passa na minha vida? Os “mandamentos” são, para mim, princípios sagrados que eu tenho de cumprir, mecanicamente, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que me ajudam a potenciar a minha relação com Deus e a não me desviar do caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para mim, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que eu fiz por Deus e pelo “Reino”?
• “Não matar”, é, segundo Jesus, evitar tudo aquilo que cause dano ao meu irmão. Tenho consciência de que posso “matar” com certas atitudes de egoísmo, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia e má língua que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Tenho consciência que brincar com a dignidade do meu irmão, ofendê-lo, inventar caminhos tortuosos para o desacreditar ou desmoralizar é um crime contra o irmão? Tenho consciência que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem necessita de um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, é assassinar a vida?
• Não podemos deixar, nunca, que as leis (mesmo que sejam leis muito “sagradas”) se transformem num absoluto ou que contribuam para escravizar o homem. As leis, os “mandamentos”, devem ser apenas “sinais” indicadores desse caminho que conduz à vida plena; mas o que é verdadeiramente importante, é o homem que caminha na história, com os seus defeitos e fracassos, em direção à felicidade e à vida definitiva.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

5º DOMINGO TEMPO COMUM-Ano A

5º DOMINGO TEMPO COMUM

Ano A
Dia 05 de fevereiro de 2017
Evangelho - Mt 5,13-16


Prezadas irmãs, prezados irmãos.  Neste Evangelho, Jesus nos compara com o tempero que se coloca na comida, ou seja, o sal. Todos sabemos, que uma comida totalmente sem sal, não tem gosto de nada. Um churrasco então, nem se fala! Continuar lendo

==============================
“VÓS SOIS O SAL DA TERRA. VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO!”- Olivia Coutinho.

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 05 de Fevereiro de 2017

Evangelho de Mt 5,13-16


Jesus nos convida  a fazermos a diferença no mundo, a priorizarmos os valores do Reino, nos quais devemos assentar a nossa vida!
Somos convidados a dar um sentido novo a nossa existência, a sermos protagonistas de uma historia de amor que nunca terá fim, e para sermos estes protagonistas, Jesus nos faz uma única exigência: a conversão do coração. 
A conversão nos abre à luz de Cristo, nos tira da escuridão, nos faz, não somente enxergar, como também, a desmascarar os projetos contrários à vida!
Se o mal está ganhando força no mundo, é sinal de que não estamos deixando aflorar, o bem plantado por Deus em nossos corações, que estamos ofuscando a Luz de Cristo com as luzes artificiais do mundo!
Não nascemos do acaso, somos frutos do amor de Deus plantados aqui na terra para produzir frutos, e só iremos produzir frutos de boa qualidade, se estivermos ligados a Jesus, Jesus é a seiva que nos liga ao Pai, Ele é a fonte de água viva que irriga todo o nosso ser, que nos transforma em fonte de luz no mundo!
Jesus veio mudar o rumo da nossa história, dar um sentido novo ao nosso existir, nos libertar de nossas  próprias prisões, Nele e com Ele, a nossa vida ganha brilho e sabor!
O evangelho  que a liturgia de hoje nos apresenta, nos convida a refletir sobre a importância de darmos testemunho de Jesus no mundo, deixando que a sua luz brilhe em nós!
“Vós sois o sal da terra e a luz do mundo.” Com esta afirmação, Jesus sintetiza o caráter da nossa missão nos oferecendo  diretrizes bastante precisas para a nossa caminhada missionária!
Através de pequenas metáforas, Jesus nos diz algo muito significativo, Ele nos chama à responsabilidade de continuadores do anuncio do Reino! “Vós sois o sal da terra.” Ser sal da terra, significa ser uma presença discreta, porem, essencial no meio em que vivemos! Como sabemos, o sal não aparece, mas ele  é imprescindível no nosso dia a dia, é o sal que dá o sabor ao nosso alimento! 
Como continuadores da presença de Jesus no mundo, precisamos dar sabor a vida do outro, mas com o cuidado de estarmos no ponto certo:  nem sem sal e nem salgado demais!
Quando nos omitimos diante às injustiças, ficando numa postura de meros espectadores dos acontecimentos, tornamos pessoas sem sal, ou seja, pessoas passivas, indiferentes, essa postura não agrada a Deus. Por outro lado, quando queremos impor os nossos pontos de vista, considerando-nos donos da verdade, desconsiderando a opinião do outro, tornamos pessoas salgadas demais, a ponto da nossa presença se tornar indesejável!
“Vós sois a luz do mundo.” Ser luz no mundo, é dar testemunho da verdade!
Se deixarmos de ser luz, a escuridão prevalecerá e o inimigo ganhará espaço para agir sem ser visto, enquanto que  diante da luz, o mal não tem vez, pois as claras, nada fica oculto.
Em muitas situações, ser luz, pode até implicar em grandes riscos, porém, o pior risco, é o de não aceitar o desafio de ser luz, o que pode nos condenar a pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!
“Vós sois o sal da terra.” Vós sois a luz do mundo!” Como vimos, Jesus não nos pede para ser sal da terra e nem para ser luz do mundo, Ele afirma que nós somos o sal e a luz do mundo!  Portanto, deixemo-nos temperar pelo sabor de Jesus e nos iluminar pela Luz do seu Espírito, dando continuidade a sua presença no mundo, dando sabor e sendo luz na vida do nosso irmão!
Será que a nossa presença está dando sabor de Jesus no meio em que vivemos? Ou será que estamos salgados demais, a ponto de afastar as pessoas de junto de nós?
Estamos irradiando a luz de Cristo que brilha em nós? Ou será que estamos sendo luz forte demais (aparecidos) ofuscando os olhos do outro?

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook

==============================
Vós sois o sal da terra
O Antigo Testamento apresenta as ações éticas em favor dos necessitados como portadoras de luz. “Se saciares os pobres, tua luz brilhará nas trevas” (Is. 58,10). Segundo o evangelho, os discípulos, à medida que souberem apropriar-se do espírito das bem-aventuranças, adquirirão aquela sabedoria sobrenatural que os torna sal da terra e luz do mundo (Mt. 5,13-14). As ações dos discípulos farão brilhar a luz de Deus, e não sua própria luz: “que, vendo vossas boas ações, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt. 5,16b). Modelo esplêndido de discípulo de Cristo, sal e luz do mundo, é o apóstolo Paulo. A eficácia de seu apostolado não está na “sublimidade de palavras ou de sabedoria” (1Cor. 2,1), mas na vida totalmente inspirada no evangelho e configurada a Cristo.
Evangelho (Mt. 5,13-16)
Vendo vossas boas obras, glorificarão a Deus
Terminado o discurso das bem-aventuranças, Jesus se refere ao papel de seus discípulos no mundo: ser sal e luz. Mas, para que isso seja possível, é necessário serem realmente pobres em espírito, mansos, misericordiosos, puros, pacíficos e alegres, apesar das perseguições.
Os cristãos são chamados a transformar o mundo insípido (sem sal), insensato (sem a sabedoria divina) e sombrio (sem a luz de Deus) em Reino de Deus, no qual esses valores têm a primazia. Contudo, há o reverso da medalha: se os cristãos não tiverem o espírito do evangelho, não servirão para a edificação do Reino.
Tendo a própria vida configurada à vida de Cristo, cada ação praticada no seguimento de Jesus se tornará como que um candelabro a iluminar “todos os que estão em casa”. Será como uma “cidade no alto do monte”, vista por todos os peregrinos cansados e atraindo-os para o conforto de uma hospedagem.
Quem segue o Cristo com autenticidade se torna portador de sua luz, pois deixa transparecer na própria conduta sua vida e sua mensagem e atrai todos para Deus.
1ª leitura (Is 58,7-10)
Teus atos de justiça irão à tua frente
Esse texto de Isaías trata do que agrada e desagrada a Deus. Especificamente, a vontade de Deus é que o amemos acima de todas as coisas e amemos o próximo como a nós mesmos. Esse é o resumo da Escritura. Os judeus já sabiam disso (Lc. 10,25-28).
O pecado consiste basicamente em não fazer a vontade de Deus resumida nesse princípio. Para reatar a amizade com Deus, o judeu oferecia sacrifícios, e, por meio da substituição da vida do ofertante pela vida do animal (a oferta), era mostrado de forma ritual o desejo do ser humano de entregar sua vida nas mãos de Deus.
Estando longe de Jerusalém, impossibilitados de ir ao templo, os judeus substituíam o ritual do sacrifício pelo jejum. O jejum e os demais ritos penitenciais eram sinais de sincero arrependimento e expressão de mudança radical de conduta (Jn. 3,8).
Contudo, esse texto de Isaías, dirigido aos judeus dispersos pelo mundo, reclama da prática do jejum quando outras pessoas estão sem roupa, enfermas, sem alimento, injustiçadas. A verdadeira ação que agrada a Deus não se limita a rituais, sejam quais forem; ao contrário, é necessário voltar-se para o “outro”. Só assim a glória de Deus resplandecerá no mundo.
2ª leitura (1Cor. 2,1-5)
O anúncio pelo testemunho
Paulo é o modelo de discípulo que, por meio do evangelho, se torna “sal e luz” no mundo. E o mundo que ele evangeliza – aqui especificamente a cidade de Corinto – é um ambiente onde os homens brilham por sua sabedoria e eloquência. No entanto, o projeto de Deus difere do projeto meramente humano, pois a sabedoria divina se revela nos que se deixam conduzir por ele, como é o caso de Paulo. Como ministro do evangelho, Paulo tem como base de sua pregação unicamente a força do Espírito, que o conduz segundo o plano divino. Plano esse revelado na “loucura da cruz de Cristo”, no qual apresenta o caminho de acesso a Deus. Esse caminho não é o do poder, do prestígio ou da sabedoria humana, o qual leva o ser humano a se gloriar de si mesmo. Mas é um caminho inovador, totalmente diferente daquele proposto pelo mundo. Um caminho de oferta total de si às mãos daquele que é fonte de vida: o Pai. Por isso, Paulo não necessita recorrer à sabedoria humana. Sua vida entregue a Cristo testemunha esse poder e essa sabedoria de Deus, fonte de salvação para os que creem.
Pistas para reflexão
Ser “sal da terra” é testemunhar no mundo a vida em Cristo por uma conduta reta, baseada no amor a Deus e ao próximo. Os rituais que realizamos devem constituir uma expressão dessa vida unida a Deus, testemunhada na prática dos valores do Reino. Nisto consiste a missão do cristão: temperar o mundo com o “sal” do Reino de Deus, para que os seres humanos saboreiem as coisas do alto e, com isso, busquem em Deus o alimento para a vida eterna. Sem isso, os ritos são vazios.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade




Salgar e iluminar
Continuamos a acompanhar nos domingos do tempo comum textos e trechos do Sermão da Montanha de Mateus. Hoje aparece o tema da iluminação do mundo e da “salgação” da terra. Jesus declara que os seus seguidores existem para iluminar o mundo e salgar a terra. Eis duas imagens ligadas à luz e a força. A luz existe para iluminar e o sal, para salgar, para dar gosto. Estas imagens são marcadas por um dinamismo. Os que se reúnem em torno de Jesus para ouvir sua palavra e se modelar por ela  são chamados a trabalhar em sua causa, salgando e iluminando.
Não se concebe uma vida cristã morna, sem luz e sem força. Não se concebe uma existência fecundada pela paixão, morte e ressurreição de Jesus inativa. Os poucos versículos do Sermão da Montanha proclamados neste domingo, nos colocam diante do tempo da irradiação.  Há muitos meios e modos de anunciar e proclamar a boa nova. Um dos primordiais é certamente através do exemplo, da vida.
Ora, os cristãos carregam neles  uma força especial. São tocados interiormente pela graça do Senhor e assim se tornam criaturas novas. Conviver com um verdadeiro discípulo consiste numa grande ventura. Mesmo com uma ou outra incoerência aqui e ali, o cristão transpira alegria: mergulha alegremente na oração, é marcado pela esperança, convive com os outros com cordialidade, não tem o rosto franzido, renova os ambientes com a capacidade de perdoar. Quando um cristão verdadeiro chega as pessoas compreendam que seguir  Cristo não é peso, mas alegria. O cristão salga a terra. Dá gosto. Passa sabor. Se um cristão perde a força, será como um sal estragado.  Daí a importância de que os cristãos sejam viçosos, sem serem espalhafatosos. Não se deve esquecer que essa força do cristão vem de Deus. A leitura de Paulo aos Coríntios feita também em nossa liturgia lembra: “A minha palavra e a minha pregação não tinham nada de discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”.
De outro lado está a imagem da luz. Cristo é a luz e a claridade do mundo. Ora, o Sermão da Montanha diz que os seguidores do Mestre iluminam o mundo. E é verdade. Trata-se sempre da ideia anteriormente desenvolvida.  Pelo exemplo, pela correção no agir, pela generosidade do perdão, pela  força na doença e na perseguição a comunidade dos discípulos de Jesus ilumina o mundo. Não são discursos, palestras que convencem.  O exemplo arrasta. Assim, o exemplo é luz. O mundo vendo o viver dos cristãos encontra Deus. “Brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” Vidas louvam a Deus a partir do exemplo.
Penso aqui de modo especial nos leigos e em sua missão.  Não devem eles, em primeiro lugar, se ocupar do culto, de tarefas  que mais cabem aos sacerdotes e religiosos. Os leigos não podem se clericalizar. Embora exercendo alguns ministérios ligados à catequese e animação da Palavra em comunidades, sua missão evangelizadora situa-se no meio da vida: na família, no trabalho, nos bairros, na política, no cuidado com os filhos, no apoio aos deserdados da vida, na convivência dialogante. Precisamente nestes aspectos os leigos cristãos são sal da terra e luz do mundo.
frei Almir Ribeiro Guimarães




Sal da terra e luz do mundo
No evangelho deste domingo continua o Sermão da Montanha conforme Mt, declarando que os que escutam (e aceitam) a palavra de Jesus Cristo são o sal da terra e a luz do mundo. Os verdadeiros discípulos de Cristo dão cor e sabor a este mundo. Mas, quando perdem estas qualidades, também não prestam mais para nada. Que significam essas imagens do sal e da luz?
A 1ª leitura oferece um exemplo daquilo que os ouvintes de Jesus, acostumados aos textos do Antigo Testamento (na sinagoga), ouviam ressoar nos seus ouvidos ao escutarem tais expressões: “Quando repartes teu pão com o faminto e concedes hospedagem ao pobre, então, tua luz surge como a aurora, tua justiça caminha diante de ti … Se expulsas de tua casa a opressão e sacias o oprimido, então surge tua luz nas trevas e tua escuridão resplandece como o pleno dia” (Is. 58,6a.7-10; cf. todo o cap. 58).
O que dá cor e sabor à vida não é, como muitos pensam, o prazer, a ostentação, o luxo; nem mesmo o progresso ou a erudição; nem mesmo a arte ou a filosofia. O que dá cor e sabor à vida é: ocupar-se com o que parece condenado à morte: o oprimido, o pobre. Para os sábios deste mundo, Jesus tem mau gosto! Para Jesus, dar cor e sabor à vida é ocupar-se com o fraco, o impotente, que aos olhos de Deus vale tanto (e mais) quanto o forte; o pequeno, que merece atenção maior, porque não sabe se defender. Uma boa mãe não dedica atenção maior aos filhos mais fracos? Dar cor e sabor à vida não é eliminar o que é fraco, mas abrir espaço para todos os seres queridos por Deus. Lembro-me de um fanático que queria destruir todas as árvores rasteiras para plantar só árvores de grande porte … Tem alguma semelhança com os que, em nome do progresso e da cultura, reduzem tudo ao mesmo denominador. Isso não é sal e luz, mas mania de grandeza e morte. Ser sal e luz significa: fazer viver o mínimo ser querido por Deus.
Mas ser sal e luz é também: não fugir em piedosos exercícios (como o jejum formalista, que Is 58 critica). Há almas românticas que querem ser uma vela que se consome na solidão do santuário, diante de Deus só. A luz não é feita para ser colocada debaixo do alqueire … A melhor maneira para se consumir em brilho diante de Deus é dar sua luz aos seus filhos.
Também Paulo, que ouvimos novamente na 1Cor. (1ª leitura), sabe que a cultura não é o verdadeiro brilho (2, I). Ele só quer saber da loucura da cruz. Contemplar a cruz é a condição para entender o sentido bíblico de ser sal e luz, como o explicamos acima. Pois Cristo nos fez realmente viver, mediante sua própria morte, pela força do Espírito que o fez surgir dos mortos.
Os cantos (salmo responsorial e aclamação ao evangelho) sublinham a imagem, frequente na Bíblia, da luz do mundo. Lembram-nos que Cristo mesmo é, por excelência, esta luz. Ser luz do mundo é imitá-Lo. Não é brilhar no sucesso que ofusca. É, qual uma luz indireta, iluminar pela graciosa bondade que recebemos de Deus as trevas em que vive nosso irmão, trevas de falta de sentido na vida, trevas de vício e pecado, trevas de uma estrutura opressora, e tantas outras … E para sermos luz devemos ter o senso crítico necessário para reconhecer as trevas. Ser luz não é andar como um “iluminado” neste mundo. É enfrentar as trevas. É testemunhar, pela própria vida, a luz que é Jesus Cristo.
Johan Konings "Liturgia dominical"




No Evangelho de hoje, que é uma continuação do Sermão da Montanha, Mateus alerta sobre a responsabilidade de cada cristão perante o mundo. Ela mostra Jesus falando para uma grande multidão reunida à sua volta, perto do mar, um lugar onde havia muito sal. Ele, então aproveita o ambiente para comparar o discípulo ao sal e à luz, e convoca todos aqueles que querem ser seus discípulos para serem “sal da terra” e “luz do mundo”. Todos são chamados a transformar o mundo muitas vezes sem graça e insensato por ser edificado na vaidade dos bens materiais, num outro mundo inspirado em sabedoria e valores eternos.
Jesus usou o sal como símbolo para explicar como deve ser a vida daqueles que se comprometem com os seus ensinamentos. A essas pessoas Ele disse que elas deveriam ser como o sal, e pediu para que cuidassem para não deixarem o sal perder o sabor, ou seja, Ele afirmou que o discípulo não pode perder a vontade de viver a verdade, a justiça e a fraternidade que são virtudes importantes para a transformação do mundo.
O sal dá sabor aos alimentos, tornando-os agradáveis ao paladar, e preserva também da corrupção. No tempo de Jesus as pedras de sal serviam para tornar o fogo mais forte, e significava preservação, mantendo a chama vital para a vida das pessoas mais forte. O sal servia também para selar o compromisso, o trato entre duas pessoas. No Antigo Testamento ele era utilizado nas oferendas a Deus significando o desejo de que estas se tornassem mais agradáveis.
A luz, primeira obra da criação, é símbolo de Deus, do seu Amor pelos homens e mulheres, da vida que Ele oferece; ao contrário das trevas que evocam a destruição, a desordem e a morte.
Mateus diz que aqueles que se comprometem com o projeto de Deus, assumindo a condição de discípulos de Jesus, são o sal e a luz do mundo. É Deus que fala e brilha através deles que são instrumentos para levar o anúncio do Reino ao mundo, mas é preciso manter a qualidade do sal e não esconder a luz.
Jesus deixa bem claro: “Que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu.”
Comparados ao sal, os amigos de Deus são alertados contra a omissão. E comparados à luz, são alertados contra a presunção e a idolatria. É justo que a prática da justiça seja divulgada, mas o louvor pertence unicamente a Deus, autor do projeto de vida e liberdade para todos.
A vida do cristão comprometido com as propostas de Jesus deverá ser, portanto, um sinal claro da presença do Espírito Santo no meio dos homens, como um farol onde é Deus quem brilha nele.
Pequeninos do Senhor



A serviço do mundo
Desde cedo, Jesus preocupou-se em evitar que o grupo de seus discípulos se transformasse numa espécie de seita, fechada e esotérica, como havia naquela época. Assim era a comunidade dos essênios, às margens do mar Morto, com um fanatismo tão radical, a ponto de se considerarem filhos da luz, relegando o resto da humanidade à condição de filhos das trevas.
A comunidade dos discípulos de Jesus, pelo contrário, fora orientada a ter uma atitude diferente: haveria de ser "sal da terra e luz do mundo". Sal e luz, segundo um autor muito antigo, eram as duas coisas imprescindíveis para qualquer ser humano sobreviver. Portanto, a presença dos discípulos, na história humana, seria semelhante à presença destes dois elementos indispensáveis: sal e luz.
O sal é imagem do que purifica, dá gosto, conserva. Dando testemunho do Evangelho pela prática das boas obras e levando outras pessoas a fazerem o mesmo, os discípulos estariam impedindo que a corrupção se apoderasse da humanidade e também ajudariam as pessoas a se manterem sintonizadas com o projeto de Deus.
De que maneira os discípulos haveriam de ser luz do mundo? Testemunhando a revelação de Deus, em Jesus Cristo, e transmitindo às pessoas essa luz divina, de forma a arrancá-las das trevas do erro e do egoísmo. Mais do que com palavras, será com o exemplo de vida que os discípulos levarão a humanidade a render glória ao Pai do céu.
padre Jaldemir Vitório




Hoje, no Evangelho, escutamos umas frases de Jesus que nos são velhas conhecidas, tão velhas, que riscam não significar muita coisa: “Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo” – diz-nos o Senhor! Pois bem, com unção e humildade, como se escutássemos pela primeira vez, escutemos, procuremos compreender e acolhamos essas afirmações, para encontrarmos nelas a Vida e vivermos de verdade!
“Vós sois o sal da terra!” O sal, na Escritura, aparece como o elemento que dá sabor, purifica e conserva, tornando perenes e duradouros os alimentos... Daí a expressão “aliança de sal”, isto é, “uma aliança perene aos olhos do Senhor” (Nm. 18,19). Por causa dessa pureza e perenidade, é que Israel deveria ajuntar o sal a toda oferta que fizesse ao Senhor Deus: “Salgarás toda a oblação que ofereceres, e não deixarás de pôr na tua oblação sal da aliança de teu Deus; a toda a oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus” (Lv. 2,13). Pois bem, irmãos caríssimos, vós sois o sal que dá sabor, pureza e conservação ao mundo diante de Deus! Sois a pitadinha de sal que torna o mundo uma oferenda agradável e aceitável ao Senhor! Sois tão pequenos, tão poucos, tão frágeis, tão impotentes, tão tolos! Lembrai-vos da leitura do Domingo passado: “Entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres... Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que o mundo considera sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para, assim, mostrar a inutilidade do que é considerado importante... É graças a ele que vós sois em Cristo..” (1Cor. 1,26-31). Sim, sois essa pitadinha de nada, esse tico desprezível de sal.. E, no entanto, sois o sabor, a purificação, a conservação da aliança entre Deus e o mundo! Sois, em Cristo Jesus, o povo sacerdotal! Por isso, a nós, o Senhor ordena: “Tende sal em vós mesmos” (Mc. 9,50); em outras palavras: uni-vos a mim, ao meu sacerdócio, à minha vida entregue ao Pai como amor que se entrega para a vida do mundo! Lembremo-nos do conselho de são Paulo: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: esse é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm. 12,1-2). Era este o significado daquela pitadinha de sal que o sacerdote colocou nos nossos lábios no momento do nosso batismo, quando nos tornamos membros do povo da aliança, povo sacerdotal. Colocando-nos o sal, ele recordou as palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra!” No entanto, não nos iludamos: somente seremos sal, se permanecermos unidos a Cristo! Sem ele, seremos insípidos, seremos como o mundo, sem sabor e para nada serviremos, “senão para sermos jogados fora e pisados pelos homens”.
“Vós sois a luz do mundo!” – Que afirmação impressionante! Um só é a luz: Aquele que disse de si próprio: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Como pode, então, dizer agora que nós somos luz? Escutemos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida!” (Jo 8,12). Eis: se em Cristo – e somente nele – somos sal da aliança selada na cruz, também somente na sua luz, seguindo seus passos, tornamo-nos luz. É isso que nos afirma o Apóstolo: “Outrora éreis treva! Agora, sois luz no Senhor! Andai como filhos da luz!” (Ef 5,8). Por nós mesmos não somos sal, mas insípidos; por nós mesmos não somos luz, mas trevas tenebrosas! Mas, em Cristo, damos sabor ao mundo e somos reflexos da luz do Senhor! Não somos luz, mas iluminados pela luz de Cristo, refletiremos a luz sobre o mundo tenebroso, como a lua que, sem ter luz própria, mas iluminada pela luz do sol, ilumina de modo belíssimo a noite escura...
Portanto tenhamos cuidado: somente seremos sal se nos deixarmos salgar pelo Senhor no cadinho da provação e da participação na sua cruz; somente seremos luz se nos deixarmos iluminar pela luz fulgurante que brota da sua cruz! Que o cristão não busque outro sal ou outra luz, a não ser o Cristo e Cristo na sua humildade, na sua pobreza, no seu serviço, na sua disponibilidade total em relação ao Pai: “Não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado!” Aquilo que passa da cruz do Senhor, que foge da cruz do Senhor, que procura outro caminho e outra lógica, que não a da cruz que conduz à ressurreição, não salga e não ilumina! Então, que brilhe a luz de Cristo em nossa vida e em nossas obras! Que o nosso modo de viver dê novo sabor a este mundo tão insosso pelo pecado – vede no carnaval: quanta treva, quanta insipidez, quanto velho gosto da velha podridão do velho pecado! Se no nosso modo de viver formos sal e luz, cumprir-se-á em nós a palavra do Profeta: “Então, brilhará tua luz como a aurora e a glória do Senhor te seguirá!”
Eis a nossa missão, eis a nossa vocação, eis a ordem que o Senhor nos dá! Agora, compete a nós! Como nos perguntava Paul Claudel, poeta francês, convertido a Cristo na metade do século XX: “Ó vós, cristãos, que tendes a luz, que fazeis com essa luz?” Ó irmãos, ó irmãs! “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus!” Que o Senhor no-lo conceda por sua graça.
dom Henrique Soares da Costa




A Palavra de Deus deste 5º domingo do tempo comum convida-nos a refletir sobre o compromisso cristão. Aqueles que foram interpelados pelo desafio do “Reino” não podem remeter-se a uma vida cômoda e instalada, nem refugiar-se numa religião ritual e feita de gestos vazios; mas têm de viver de tal forma comprometidos com a transformação do mundo que se tornem uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta no sentido desse mundo de plenitude que Deus prometeu aos homens – o mundo do “Reino”.
No Evangelho, Jesus exorta os seus discípulos a não se instalarem na mediocridade, no comodismo, no “deixa andar”; e pede-lhes que sejam o sal que dá sabor ao mundo e que testemunha a perenidade e a eternidade do projeto salvador de Deus; também os exorta a serem uma luz que aponta no sentido das realidades eternas, que vence a escuridão do sofrimento, do egoísmo, do medo e que conduz ao encontro de um “Reino” de liberdade e de esperança.
A primeira leitura apresenta as condições necessárias para “ser luz”: é uma “luz” que ilumina o mundo, não quem cumpre ritos religiosos estéreis e vazios, mas quem se compromete verdadeiramente com a justiça, com a paz, com a partilha, com a fraternidade. A verdadeira religião não se fundamenta numa relação “platônica” com Deus, mas num compromisso concreto que leva o homem a ser um sinal vivo do amor de Deus no meio dos seus irmãos.
A segunda leitura avisa que ser “luz” não é colocar a sua esperança de salvação em esquemas humanos de sabedoria, mas é identificar-se com Cristo e interiorizar a “loucura da cruz” que é dom da vida. Pode-se esperar uma revelação da salvação no escândalo de um Deus que morre na cruz? Sim. É na fragilidade e na debilidade que Deus Se manifesta: o exemplo de Paulo – um homem frágil e pouco brilhante – demonstra-o.
1ª leitura – Is. 58, 7-10 - AMBIENTE
Os capítulos 56 a 66 do livro de Isaías apresentam um conjunto heterodoxo de temas, de situações, de gêneros e de estilos; por isso, a maior parte dos estudiosos recentes atribuem estes textos, não a um autor, mas a uma pluralidade de autores – embora continuem a catalogar estes capítulos sob o nome genérico de “Trito-Isaías”.
Embora se discuta também a época em que estes textos apareceram (as opiniões vão desde o séc. VII ao séc. II a.C.), a maioria dos estudiosos costuma situar estes textos na época pós-exílica, provavelmente dos últimos decênios do séc. VI, ou nos primeiros anos do séc. V. a.C. Estamos em Jerusalém; os repatriados da Babilônia chegaram cheios de entusiasmo, mas depressa conheceram a desilusão… A cidade está destruída; o domínio persa continua a recordar ao povo de Jerusalém que não é livre nem tem nas próprias mãos a chave do seu futuro; e, acima de tudo, as belas promessas de reconstrução, de libertação, parecem ter-se desvanecido e a intervenção definitiva de Deus tarda em chegar.
Alguns autores recentes falam (a propósito desta época) de uma forte tensão entre dois grupos que procuram impor-se em Jerusalém: de um lado, o sacerdócio sadoquita (de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que voltou do exílio na Babilônia convencido de que tinha sido provado e perdoado das suas faltas, que está em boas relações com o império persa, que domina a política, que está disposto a fazer valer os seus direitos e privilégios e que define as coordenadas do culto oficial; do outro, o partido levítico, que se manteve em Jerusalém durante o exílio, que dominou o culto durante essa época e que tem uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do nosso texto pertencem, provavelmente, a este último grupo.
O capítulo 58 (a que pertence o texto que nos é proposto) apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e um convite a que o Povo respeite a santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).
No nosso texto, a palavra “jejum” (que, no contexto do capítulo, aparece sete vezes) é a palavra-chave.
MENSAGEM
O tema do “jejum” é um tema fundamental para a vivência judaica da fé e da relação com Deus (cf. Ex. 34,28; Lv. 16,29.31; Jz. 20,26; 2Sm. 12,16-17; 1Re. 21,27; Jon. 3,7; Dn. 9,3; Esd. 8,21; Est. 4,16). No Antigo Testamento, é um gesto religioso utilizado muito freqüentemente para traduzir a humildade diante de Deus, a dependência, o abandono, o amor. Implica a renúncia a si próprio, ao próprio egoísmo e auto-suficiência, para se voltar para o Senhor, para manifestar a entrega confiada nas mãos de Deus, para mostrar que se está disposto a acolher a ação e o dom de Jahwéh.
Ora, o nosso texto sugere que o Povo pratica certas formas de piedade sem ter em conta as suas exigências profundas. No que diz respeito ao jejum, o fato é que o Povo pratica esta forma de piedade de forma interesseira: para pôr Deus do seu lado, para Lhe agradar, para provocar em Deus uma resposta à medida dos desejos do homem. O jejum, visto dessa forma, não é um traduzir num gesto a humildade, a dependência, a entrega do homem face a Deus; mas é uma tentativa de pôr Deus do seu lado, de captar a sua benevolência, a fim de que Ele realize os interesses e os desejos egoístas do homem.
Deus desmascara a falsidade das atitudes do homem, que manifesta em gestos (jejum) a sua humildade, dependência e entrega mas depois não confirma (com a vida) essa atitude (provocam “rixas e contendas, dando murros sem piedade” – Is. 58,4).
Para Deus, a atitude de dependência, de humildade, de entrega, tem de se traduzir numa vida consentânea com as propostas de Deus. O culto tem de ter tradução em atitudes concretas.
Assim, o “jejum” autêntico (que manifesta a entrega do homem a Deus e a sua vontade de viver em relação com Ele, a sua aceitação e acolhimento de Deus) é aquele que se traduz em partilha com os pobres (vs. 7.10), na eliminação da opressão, da injustiça, da violência, dos gestos de ameaça (v. 9).
Para Deus, não é um culto formalista, rico de gestos estrondosos e de ritos solenes mas estéril e vazio quanto aos sentimentos, que faz do Povo de Deus a “luz” do mundo; o Povo de Judá será uma luz que anuncia Deus no mundo, se testemunhar o amor e a misericórdia em gestos concretos de libertação, de partilha, de amor e de paz. A relação com Deus (expressa nos gestos cultuais) só é verdadeira se se traduz em gestos que anunciem e testemunhem a misericórdia e o amor de Deus no meio dos outros homens.
ATUALIZAÇÃO
• A questão essencial é esta: como é que podemos ser uma luz que acende a esperança no mundo e aponta no sentido de uma nova terra, mais cheia de paz, de esperança, de felicidade? Esta leitura responde: não é com liturgias solenes ou com ritos litúrgicos espampanantes, muitas vezes estéreis e vazios; mas é com uma vida onde o amor a Deus se traduz no amor ao irmão e se manifesta em gestos de partilha, de fraternidade, de libertação.
• Atenção: não se diz aqui que os momentos de oração e de encontro pessoal com Deus sejam supérfluos, inúteis, desnecessários; o que se diz aqui é que os ritos em si nada significam, se não correspondem a uma vivência interior que se traduz em gestos concretos de compromisso com Deus e com os seus valores. A multiplicidade de ritos, de orações solenes, de celebrações, por si só nada vale, se não tem a devida correspondência na vida de relação com os irmãos.
• Sinto o imperativo de ser uma “luz” que se acende na noite do mundo e que dá testemunho do amor e da misericórdia de Deus? A minha fé e a minha relação com Deus têm tradução na luta pela libertação dos meus irmãos? O meu compromisso de crente leva-me a estar atento à partilha com os pobres, os débeis, os desfavorecidos? A minha vivência religiosa traduz-se no ser profeta do amor e servidor da reconciliação?
2ª leitura – 1Cor. 2, 1-5 - AMBIENTE
Já vimos, na passada semana, que um dos grandes problemas que a comunidade cristã de Corinto enfrentava tinha a ver com a propensão dos coríntios para a busca de uma sabedoria puramente humana, que os levava a apostar em pessoas (Pedro, Paulo, Cefas), em mestres humanos capazes de transportar os discípulos ao encontro da sua realização; mas, dessa forma, acabavam por esquecer Jesus Cristo e por passar ao lado da “sabedoria da cruz”.
Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”.
Como é que a salvação e a realização plena do homem podem, no entanto, manifestar-se nesse facto paradoxal de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um bandido?
Para que as coisas se tornem perfeitamente claras, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro (a segunda leitura do passado domingo), Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: apesar da pobreza, debilidade e fragilidade dos membros da comunidade, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo. No segundo (e que é a leitura que nos é aqui proposta), Paulo apresenta com humildade o seu próprio caso.
MENSAGEM
Paulo apresenta-se na dupla condição de evangelizador e de homem.
Como evangelizador (vs. 1-2), Paulo não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes; mas apresentou-se com toda a simplicidade para anunciar esse paradoxo de um Deus fraco, que morreu numa cruz rejeitado por todos. Apesar de tudo, em Corinto nasceu uma comunidade cristã cheia de força e de fé.
Como homem (vers. 3-5), Paulo apresentou-se em Corinto consciente da sua fraqueza, assustado e cheio de temor. Não foi, portanto, pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas “brilhantes” qualidade do pregador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição que os coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho.
Qual foi, então, a razão pela qual os coríntios aderiram à proposta de Jesus, apresentada humildemente por Paulo?
Porque a força de Deus se impõe, muito para além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está sempre presente e age no coração dos crentes, de forma a que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Após dois mil anos de Evangelho, a nossa civilização “cristã” ainda age como se a salvação do mundo e dos homens estivesse no poder das armas, na estabilidade da economia, no desenvolvimento sustentado, no controle do buraco do ozono, no pleno emprego, na paz social, na eliminação do terrorismo, na defesa da floresta amazônica, nas declarações de boas intenções feitas pelos senhores do mundo nos grandes areópagos internacionais… Mas Paulo diz, muito simplesmente, que a salvação está na “loucura da cruz” e que a vida em plenitude está no amor que se dá completamente. Quem tem razão: os nossos teóricos, formados pelas grandes universidades internacionais, ou o judeu Paulo, formado na universidade de Jesus?
• A força e a “sabedoria de Deus” manifestam-se, tantas vezes, na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza (como o exemplo de Paulo o comprova). Sendo assim, não nos parecem ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de brilho intelectual?
• Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem recordar sempre que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos.
Evangelho – Mt. 5,13-16 - AMBIENTE
Continuamos no contexto do “sermão da montanha” (cf. Mt. 5-7). Jesus está (na versão de Mateus) no cimo de um monte, a apresentar a nova Lei que deve reger a caminhada do novo Povo de Deus na história (já vimos, no passado domingo, que a indicação geográfica – no cimo de um monte – nos transporta à montanha do Sinai, onde Jahwéh se revelou ao seu Povo e lhe deu a sua Lei; aqui Jesus é, portanto, apresentado como o Deus que, no cimo de um monte, dá ao seu Povo os “mandamentos” da nova aliança).
Mateus agrupa, neste primeiro discurso, um conjunto de “ditos” de Jesus (provavelmente, pronunciados em contextos e ocasiões diversas), destinados a proporcionar à comunidade concreta a que o Evangelho se destinava, um conjunto de ensinamentos básicos para a vida cristã.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto reúne duas parábolas – a do sal e a da luz – destinadas a pôr em relevo o papel do novo Povo de Deus no mundo e a definir a missão daqueles que aceitam viver no espírito das bem-aventuranças. Depois de apresentar a nova Lei (“bem-aventuranças”), Jesus define a missão do novo Povo de Deus.
A primeira comparação é a do sal (v. 13). O sal é, em primeiro lugar, o elemento que se mistura na comida e que dá sabor aos alimentos (cf. Jb. 6,6). Também é um elemento que assegura a conservação dos alimentos e a sua incorruptibilidade. Simboliza, nesta linha, aquilo que é inalterável… No Antigo Testamento, o sal é usado para significar o valor durável de um contrato; nesse contexto, falar de uma “aliança de sal” (Nm. 18,19) é falar de um compromisso permanente, perene (cf. 2Cr. 13,5).
Dizer que os discípulos são “o sal” significa, portanto, que os discípulos são chamados a trazer ao mundo essa “qualquer coisa mais” que o mundo não tem e que dá sabor à vida dos homens; significa também que da fidelidade dos discípulos ao programa enunciado por Jesus (as “bem-aventuranças”) depende a perenidade da aliança entre Deus e os homens e a permanência do projeto salvador e libertador de Deus no mundo e na história.
A referência à perda do sabor (“se o sal perder o sabor… já não serve para nada”) destina-se a alertar os discípulos para a necessidade de um compromisso efetivo com o testemunho do “Reino”: se os discípulos de Jesus recusarem ser sal e se demitirem das suas responsabilidades, o mundo guiar-se-á por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do “Reino” que Jesus veio propor. Nesse caso, a vida dos discípulos terá sido inútil.
A segunda comparação é a da luz (vs. 14-16). Para a explicar, Jesus utiliza duas imagens.
A primeira imagem (a da cidade situada sobre um monte) leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da “luz” de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, alumiar todos os povos. A interpretação judaica de Is 60,3 aplicava a frase a Israel: o Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Jahwéh diante de todos os povos da terra. A segunda imagem (a da lâmpada colocada sobre o candelabro, a fim de alumiar todos os que estão em casa) repete e explicita a mensagem da primeira: os que aderem ao “Reino” devem ser uma luz que ilumina e desafia o mundo. É possível que haja ainda nestas imagens uma referência ao “Servo de Jahwéh” de Is. 42,6 e 49,6, apresentado como a “luz das nações”.
De qualquer forma, a verdade é que, na perspectiva de Jesus, essa presença da “luz” de Deus para alumiar as nações dar-se-á, doravante, nos discípulos, isto é, naqueles que aceitaram o apelo do “Reino” e aderiram à nova Lei (as “bem-aventuranças”) proposta por Jesus. Eles são a “nova Jerusalém”, ou o novo “Servo de Jahwéh” de onde a proposta libertadora de Deus irradia e a partir de onde ela transforma e ilumina a vida de todos os homens.
Estas duas imagens não pretendem, contudo, dizer que os discípulos de Jesus devam dar nas vistas, mostrar-se, escolher lugares de visibilidade de onde as massas os admirem e os aplaudam. Mas pretende dizer que a missão das testemunhas do “Reino” deve levá-las a dar testemunho, a questionar o mundo, a ser uma interpelação profética, a ser um reflexo da luz de Deus; e que não devem esconder-se, demitir-se da sua missão, fugir às suas responsabilidades.
Essas “boas obras” que os discípulos devem praticar, e que serão um testemunho do “Reino” para os homens, são, provavelmente, aquelas que Mateus apresenta na segunda parte das “bem-aventuranças” (cf. Mt. 5,7-11): a “misericórdia” (um coração capaz de compadecer-se, de amar, de perdoar, de se comover, de se deixar tocar pelos sofrimentos e angústias dos irmãos), a “pureza de coração” (a honestidade, a lealdade, a verdade, a verticalidade), a defesa intransigente da paz (a recusa da violência e da lei do mais forte a luta pela reconciliação) e da justiça. É desse labor dos discípulos que nascerá o mundo novo, o mundo do “Reino”.
A missão dos discípulos é, portanto, a de “dar sabor” ao mundo, garantir aos homens a perenidade da “aliança” e iluminar o mundo com a “luz” de Deus. Eles são as testemunhas dessa realidade nova que nasce da oferta da salvação e da vivência das “bem-aventuranças”. Neles tem de estar presente essa realidade nova, que Jesus chamava “Reino”.
ATUALIZAÇÃO
• A questão essencial que este trecho do Evangelho nos apresenta é esta: Deus propôs-nos um projeto de libertação e de salvação que conduzirá à inauguração de um mundo novo, de felicidade e de paz sem fim; e aqueles que aderiram a essa proposta têm de testemunhá-la diante do mundo e dos homens com palavras e com gestos concretos, a fim de que o “Reino” se torne uma realidade. Como é que me situo face a isto? Para mim, ser cristão é um compromisso sério, profético, exigente, que me obriga a testemunhar o “Reino”, mesmo em ambientes adversos, ou é um caminho “morno”, instalado, cômodo, de quem se sente em regra com Deus porque vai à missa ao domingo e cumpre alguns ritos que a Igreja sugere?
• Eu sou, dia a dia, o sal que dá o sabor, que traz uma mais valia de amor e de esperança à vida daqueles que caminham ao meu lado? Para aqueles com quem lido todos os dias, sou uma personagem insípida, incaracterística, instalada numa mediocridade cinzenta, ou sou uma nota de alegria, de entusiasmo, de otimismo, de esperança numa vida nova vivida ao jeito do Evangelho, ao jeito do “Reino”? No meio do egoísmo, do desespero, do sem sentido que caracteriza a vida de tantos dos meus irmãos, eu dou um testemunho de um mundo novo de amor e de esperança?
• Ser cristão é também ser uma luz acesa na noite do mundo, apontando os caminhos da vida, da liberdade, do amor, da fraternidade… Eu sou essa luz que aponta no sentido das coisas importantes, impedindo que a vida dos meus irmãos se gaste em frivolidades e bagatelas? Para os que vivem no sofrimento, na dúvida, no erro, para os que vivem de olhos no chão, eu sou a luz que aponta para o mais além e para a realidade libertadora do “Reino”?
• Atenção: eu não sou “a luz”, mas apenas um reflexo da “luz”… Quer dizer: as coisas bonitas que possam acontecer à minha volta não são o resultado do exercício das minhas brilhantes qualidades, mas o resultado da ação de Deus em mim. É Deus que é “a luz” e que, através da minha fragilidade, apresenta a sua proposta de libertação e de vida nova ao mundo. O discípulo não deve, pois, preocupar-se em atrair sobre si o olhar dos homens; mas deve preocupar-se em conduzir o olhar e o coração dos homens para Deus e para o “Reino”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho