7º DOMINGO TEMPO COMUM
19 de Fevereiro
de 2017
Evangelho - Mt 5,38-48
Mais
uma vez, Jesus nos aconselha, nos adverte, nos orienta com palavras duras! Amar
os nossos inimigos! Porém, o que Jesus nos fala é para o nosso próprio bem.
Pois responder a um enfrentamento a bala, usando armas iguais, por exemplo, é
arriscar a própria vida.
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"SEDE PERFEITOS COMO VOSSO PAI CELESTE É PERFEITO." -
Olivia Coutinho
7º DOMINGO
DO TEMPO COMUM
Dia 19 de Fevereiro de 2017
Evangelho de Mt 5, 38-48
Num mundo, onde impera o individualismo, a competitividade, as
pessoas vão perdendo o senso do amor, do
respeito, do perdão... E assim,
muitos, vão distanciando da sua verdadeira origem, descaracterizando a sua
imagem e semelhança de Deus.
Indiferentes aos apelos de Jesus, que vem nos trazer uma proposta
de vida Nova fundamentada no amor, muitas pessoas, voltadas
para si mesmo, acabam
perdendo de vista o maravilhoso horizonte da paz, do amor, da fé...
A palavra amor, talvez seja a palavra mais ouvida no mundo,
no entanto, é uma das menos vivida, tudo porque, o ser humano está
perdendo a cada dia, a referencia do amor, que é sua identidade de filho
e de filha de Deus.
O amor é a nossa primeira vocação, Deus nos criou por amor e
para o amor, portanto, é o amor de Deus, infundido em nossos corações,
que nos leva a amar, a amar não somente aqueles que nos ama, como
também, a aqueles que nos persegue!
Querer o bem do outro, independente do mal que ele tenha feito
contra nós, é amar do jeito de Jesus, é amar o outro, pelo simples fato de
sermos irmãos em Cristo, filhos do mesmo Pai!
Não são as diferentes formas de comportamento das pessoas, que vão
determinar as nossas atitudes para com elas, e sim, o amor de Deus infundido no
nosso coração, é este amor que nos leva a superar qualquer forma de
injustiça praticado contra nós!
Como filhos do
amor, seguidores de Jesus, temos que fazer a diferença no mundo, amar também
aqueles que não nos quer bem, se amarmos somente as pessoas que nos ama, que
diferença faremos?
O ponto central do evangelho que a liturgia de hoje coloca diante
de nós, é o amor, o amor sem fronteiras, o amor gratuito, que não impõe
condições!
O texto que nos é apresentado provoca-nos a um grande desafio:
"amar os nossos inimigos”! Como tornar isso possível, se humanamente
estamos sempre prontos para o revide? Jesus, nos ensina como quebrar
esta barreira do nosso ego, a pôr fim no círculo vicioso da
vingança, que é dar às ofensas que recebemos, uma resposta de amor, ou
seja: Jesus nos exorta a fazer o bem a quem nos fez o mal!
O amor divino é
a fonte que irriga o amor humano, no qual, encontramos o modelo de perfeição
que é Jesus, portanto, quem ama verdadeiramente, ama com o amor de Jesus,
abraçando neste amor, até mesmo o inimigo!
“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” Com estas
palavras, Jesus nos convida a ser santo!
Sabemos que o caminho da Santidade não é fácil, pois nele
está presente a cruz e o grande desafio de amar quem não nos ama! Os santos viveram isso, por isto, chegaram à perfeição!
Lembremo-nos: O amor é a presença de Deus em nós, e se Deus é
amor, quem vive em Deus vive no amor, está no caminho da santidade.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook
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Amai vossos inimigos,
fazei bem aos que vos odeiam
“A liturgia deste domingo nos convida a
amar a todos sem exceção, até mesmo os que nos querem mal. Assim nos
aproximaremos da santidade de Deus e seremos perfeitos como o Pai celeste.
Somos hoje chamados a pôr nossa glória em Cristo e fazer a diferença contra o
espírito de vingança e insensatez reinante na sociedade” (Liturgia Diária)
Dos versículos 38 a 42: “Tendes ouvido o
que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não
resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a
outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a
capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a
quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado”.
O padre Bantu disse que Jesus “nos leva
ao mandamento da caridade, não só para melhor compreendê-lo, mas também como
concretamente vivê-lo. O Senhor nos ordena a dar a todos, tudo o que eles nos
pedem: que todos sejam cumulados, por nossa generosidade, de tudo o que lhes
falta. Façamos de modo que eles não sofram nem de sede, nem de fome, nem da
falta de vestes. E então, seremos encontrados dignos dos bens que faltam a nós
mesmos e que pedimos a Deus, pois o costume de dar nos merecerá obtê-los”.
A Palavra diz: “Vede que ninguém pague
a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com
todos” (1Ts. 5,15)
“Quem ama, corre, voa; vive alegre, é
livre e nada o embaraça. Dá tudo a todos; e possui tudo em todas as coisas,
porque sobre todas descansa no único Sumo Bem, do qual manam e procedem todos
os bens” (Imitação de Cristo)
A Palavra diz: “Não pagueis a ninguém o
mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for
possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens” (Rm.
12,17-18)
Dos versículos 43 a 48: “Tendes ouvido o
que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos
digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos
[maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois
ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre
os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa
tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos
irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito”.
O Papa Emérito Bento XVI disse assim:
“Por que Jesus pede para amar os próprios inimigos, isto é, um amor que excede
as capacidades humanas? Na realidade, a proposta de Cristo é realista, pois
considera que no mundo existe demasiada violência, demasiada injustiça, e
portanto, não se pode superar esta situação exceto se lhe contrapuser um algo
mais de amor, um algo mais de bondade”.
São Cipriano de Cartago ensinou assim:
“À paternidade de Deus deve corresponder um comportamento de filhos de Deus,
para que Deus seja glorificado e louvado pela boa conduta do homem”.
A Palavra diz: “Tem o teu inimigo fome?
Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes
sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará” (Pr. 25,21-22)
A Palavra diz: “Não vos vingueis uns
aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A
mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor (Dt. 32,35). Se o teu
inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo
assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça (Pr. 25,21s). Não te
deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem” ( Rm 12,19-21)
“A comunidade cristã é convidada a
quebrar o círculo vicioso da violência por meio do amor e a construir a cultura
da paz” (Liturgia Diária).
O Catecismo (§ 2862) ensina que na
oração do Pai Nosso imploramos “para as nossas ofensas a misericórdia de Deus,
a qual não pode penetrar no nosso coração sem nós termos sido capazes de
perdoar aos nossos inimigos, a exemplo e com a ajuda de Cristo”.
O papa Francisco disse: “Não vos parece
que no nosso tempo temos necessidade de um suplemento de partilha fraterna e de
amor? Não vos parece que temos todos necessidade de um suplemento de caridade?
Não daquele que se contenta com uma ajuda ocasional que não nos compromete, não
nos põe em jogo, mas aquela caridade que compartilha, que faz seu o problema e
o sofrimento do irmão. Que saber adquire a vida quando nos deixamos inundar
pelo amor de Deus!”
Jane Amábile
1. Foi quase com naturalidade que os
noticiários dos últimos dias abriram, com a decisão do parlamento belga em
aprovar a eutanásia a exercer sobre crianças que tivessem grandes deficiências
e se se considerar estarem num grande sofrimento. Convidaram-se inúmeros
professores de medicina, de psicologia, de sociologia e até de ética, para
comentar tal acontecimento. A partir desta decisão parlamentar, na Bélgica,
pais com filhos em grande sofrimento podem pedir para eles a morte. É muito
estranha a lei que permite eliminar seres humanos portadores de deficiências e,
ainda por cima, sendo crianças. Os pais que são geradores da vida dos seus
filhos podem, tempos depois, eliminá-los porque se tornaram incômodos, causa de
muitos trabalhos e incalculáveis despesas. Este caso é o último exemplo da
civilização da morte. A sociedade atual parece não ter o mínimo respeito pela
vida humana.
• Nos anos 30 do século passado,
repetiram-se holocaustos, com a eliminação de judeus, só porque eram
diferentes.
• Em investigações científicas chegaram
a usar-se corpos de pessoas deficientes na perspectiva de fazer avançar a
ciência, para a cura de algumas doenças.
• Também eliminaram pessoas mais velhas
porque tinham perdido a saúde e eram agora um peso econômico e social para o estado.
• Nos finais do século XX começa a
generalizar-se a prática da “interrupção voluntária da gravidez”, nome
eufemístico dado ao aborto. Fizeram-se inúmeros referendos e leis para o tornar
aceite.
• Na viragem do milênio,
desenvolveram-se processos de legalização da eutanásia, com experiências
várias, que receberam um nome estranho de “suicídio medicamente assistido”.
• Há mesmo quem consiga “encapotar” a
eutanásia com a expressão “decisão antecipada da vontade” ou testamento vital.
Numa cultura da morte, assim assumida,
não é de estranhar que a morte tenha o primeiro lugar, diariamente, nos
telejornais. Já não são só as guerras ou os fenômenos naturais que trazem
notícias de morte para a comunidade humana. É a vontade dos parlamentos e dos
governos que, sem valores de referência, legalizam a morte a qualquer preço.
2. Os cristãos têm o dever de servir a
vida, contrariando a todo o custo os falsos sinais de modernidade com que
algumas ideologias levam a desprezar a vida humana. Não é um problema religioso
que está em questão: é um problema ético, profundamente humano, porque defende
a vida “desde a concepção até à morte natural”, promove a vida num
desenvolvimento sustentável. Servir a vida com o maior número de iniciativas,
amar a vida sempre.
• O início da vida é mais do que um
milagre da natureza, é maravilhoso amor de Deus. A união de dois gametas de 23
cromossomas cada um dá origem, nove meses depois, a uma criança com uma
organização biológica extraordinária e, simultaneamente, com uma capacidade de inteligência
e de vontade a desenvolver.
• Ao longo da vida redobram-se os
cuidados na educação para a saúde, no crescimento e desenvolvimento do corpo e
do espírito, na criação dos projectos que assim dão sentido à vida, na
orientação dos afetos e na concretização dos sonhos, inclusivamente na
aprendizagem da relação com Deus. É a vida no seu todo que importa acompanhar e
promover.
• No tempo do envelhecimento é preciso
compreender e aceitar as renúncias, os medos, as perdas e tanta outra coisa que
surpreende as pessoas na idade avançada. Mas, envelhecer também pode ser uma
arte, que leva a aproveitar as recordações, as experiências e os momentos já
vividos.
• Na proximidade do fim há a certeza de
que a vida não acaba, apenas se transforma. Então, todos os dias são tempo de
preparação para o grande encontro com Deus, depois de avaliar, em síntese, a
vida, tudo o que de bom ou menos bom foi feito. E, quando a morte chegar,
está-se preparado para a vida verdadeira que se foi construindo através dos
anos.
Em todas as idades é fundamental servir
a vida, dando-lhe o máximo de qualidade e aceitando os normais limites que
estão ligados ao ser humano.
3. Os cristãos são por natureza os
apóstolos da vida, pode dizer-se os facilitadores da vida. Devem ajudar todas
as pessoas a terem uma vida mais feliz. Na sua complexidade, a vida pode ser
sempre melhor. A vida é um composto de elementos, tendo em conta o físico, o
psicológico, o social, o cultural, o espiritual e até o religioso. É por isso
necessário garantir o apoio global a todos estes aspectos da vida humana quando
se serve a vida.
• Não basta cuidar fisicamente das
pessoas, garantir-lhe a saúde, a sustentação, o trabalho. É preciso muito mais.
• É insuficiente proporcionar
conhecimentos e relações sociais. Com grupos de intervenção, a pessoa sente-se
inserida na sociedade, está em atividade permanente e que lhe proporciona a
consciência de fazer parte de uma autêntica comunidade humana.
• Mas é necessário também valorizar a
vida de cada um nos aspectos espirituais e até de natureza religiosa. Só o
homem que toca o transcendente consegue ser feliz e fazer os outros felizes.
Quando se serve a vida é a vida global
que está em questão. É por isso que, para lá de todas as outras componentes a
dimensão da fé e mesmo da vida religiosa é campo indispensável a desenvolver
para a realização integral da pessoa humana em verdadeira felicidade.
4. Aqui, na Comunidade Paroquial,
tem-se o dever de promover a vida na sua totalidade. No campo da assistência a
pessoas com dificuldades, parece que chega garantir-lhes “a cama, a mesa e a
roupa lavada”. Mas não é assim. Aos que nos procuram para crescer na fé,
queremos proporcionar um tempo forte de catequese e de oração. A catequese
verdadeira é sempre iniciação ou reiniciação à vida cristã.
• Às crianças do Centro Social e até da
catequese, é fundamental o desenvolvimento integral da pessoa humana, sem
esquecer a dimensão espiritual e religiosa.
• Aos jovens dos grupos ou do Clube de
Jovens, para além dos tempos de lazer e de trabalhos de reflexão, a atenção
completa exige a formação integral da pessoa humana.
• Aos mais velhos do Centro de Dia ou
das missas e das liturgias, a resposta completa a todos os seus anseios é um
desafio permanente.
Servir a vida é proporcionar a
qualidade integral à vida de quantos nos rodeiam. Esta qualidade tem para lá da
dimensão material e de estatuto, a obrigação de desenvolver relações
interpessoais, espirituais e mesmo sobrenaturais (EV 23). O grande desafio é
este: que todos sejam servidores da vida e da vida com qualidade.
monsenhor Vitor
Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”
O desforço e a vingança estão
profundamente arreigados no coração humano. Um dos grandes progressos da
civilização foi a criação do direito. Os homens vêem registrados nas leis os
seus direitos e deveres fundamentais; em caso de ofensa ou prejuízo, queixam-se
ao poder e esperam que seja o poder a dar-lhes solução, em vez de passarem à
vindicta pessoal. Sem dúvida, queixar-se aos tribunais envolve muitas vezes não
apenas a vontade de que seja reposto o direito, mas a esperança de assistir ao
castigo do ofensor…
Precisamente, os livros santos do Povo
Judeu começam a ir mais longe: “Fala a toda a assembleia dos filhos de Israel e
diz-lhes: Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo! Não odieis um
irmão (…), não vos vingueis (…), não guardeis rancor aos membros do vosso povo,
amai o vosso próximo como a vós mesmos. Eu sou o Senhor!” (Lv. 19,1-18). Embora
se fale apenas dos irmãos, dos membros do mesmo povo, é já um avanço muito
importante. A justificação ultrapassa a linguagem corrente: “Porque Eu, o Senhor,
é santo!”.
Por palavra e pelo exemplo, Jesus leva
esta doutrina até ao seu limite. “Ouvistes que foi dito aos antigos: «Olho por
olho e dente por dente!» Pois eu digo-vos: não resistais ao mau. Mas, se alguém
te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. Se alguém te quiser
levar ao tribunal, para ficar com a tua veste, deixa-lhe a capa. (…) Amai os
vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do
vosso Pai que está nos céus. (…) Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa
podeis ter? Não fazem também assim os publicanos? (…). Sede, pois, perfeitos
como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt. 5,38-48).
Julgo que esta palavra não pode ser
entendida de maneira taxativa, julgo que importa entendê-la por dentro. Se eu
vir um homem forte a maltratar uma criança ou um adolescente, penso que tenho o
direito e a obrigação de intervir, mesmo que à força. Mas se situações destas
acontecem, e em certos lugares do mundo acontecem todos os dias, seria um erro
pensar que na vida é tudo assim. Em geral, passo o tempo é a defender as minhas
posses e privilégios. E aí, era bom que eu deixasse que esta palavra do
Evangelho me interpelasse: e seu tivesse a coragem de oferecer a outra face? E
se eu fosse capaz de perder também a túnica? Uma das coisas irritantes deste
mundo é a falta de lisura dos pobres. Precisam, mas mentem. Pedem, mas
estragam. Tentamos dar-lhes a mão para os tirar do poço, mas eles querem só
dinheiro para aquela sopa, ou para aquela dose de droga… Julgo que querer ajudar
os pobres é procurar que eles saltem a barreira, mas não é cairmos na
indignação virtuosa se eles não são capazes de saltar. Ou não querem, ou estão
simplesmente a enganar-se e a enganar-nos.
Na segunda Leitura (1Cor. 3,16-23)),
são Paulo convida-nos a mudar de “referencial”. O nosso projeto não pode
limitar-se ao desejo de construir uma Igreja bem arrumada, onde as grandes
questões estejam bem equacionadas e os pobres sejam assistidos. A Igreja, e
cada um de nós, somos templos de Deus, o Espírito Santo habita realmente em
nós. “Se dentre vós, alguém se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco,
para se tornar sábio. É que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus,
(…) o Senhor sabe que são fúteis os pensamentos dos sábios.” Precisamos do Espírito
de Deus para nos atrevermos às questões decisivas. E podemos fazê-lo na
confiança: “O mundo, a vida, a morte, o presente, ou o futuro, tudo é vosso!
Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.” O desforço e a vingança estão
profundamente arreigados no coração humano. Um dos grandes progressos da
civilização foi a criação do direito. Os homens vêem registrados nas leis os
seus direitos e deveres fundamentais; em caso de ofensa ou prejuízo, queixam-se
ao poder e esperam que seja o poder a dar-lhes solução, em vez de passarem à
vindita pessoal. Sem dúvida, queixar-se aos tribunais envolve muitas vezes não
apenas a vontade de que seja reposto o direito, mas a esperança de assistir ao
castigo do ofensor… Precisamente, os livros santos do Povo Judeu começam a ir
mais longe: “Fala a toda a assembleia dos filhos de Israel e diz-lhes: Sede
santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo! Não odieis um irmão (…), não
vos vingueis (…), não guardeis rancor aos membros do vosso povo, amai o vosso
próximo como a vós mesmos. Eu sou o Senhor!” (Lv. 19,1-18). Embora se fale
apenas dos irmãos, dos membros do mesmo povo, é já um avanço muito importante.
A justificação ultrapassa a linguagem corrente: “Porque Eu, o Senhor, é
santo!”.
Por palavra e pelo exemplo, Jesus leva
esta doutrina até ao seu limite. “Ouvistes que foi dito aos antigos: «Olho por
olho e dente por dente!» Pois eu digo-vos: não resistais ao mau. Mas, se alguém
te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. Se alguém te quiser
levar ao tribunal, para ficar com a tua veste, deixa-lhe a capa. (…) Amai os
vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do
vosso Pai que está nos céus. (…) Se amardes aqueles que vos amam, que
recompensa podeis ter? Não fazem também assim os publicanos? (…). Sede, pois,
perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt. 5,38-48).
Julgo que esta palavra não pode ser
entendida de maneira taxativa, julgo que importa entendê-la por dentro. Se eu
vir um homem forte a maltratar uma criança ou um adolescente, penso que tenho o
direito e a obrigação de intervir, mesmo que à força. Mas se situações destas
acontecem, e em certos lugares do mundo acontecem todos os dias, seria um erro
pensar que na vida é tudo assim. Em geral, passo o tempo é a defender as minhas
posses e privilégios. E aí, era bom que eu deixasse que esta palavra do
Evangelho me interpelasse: e seu tivesse a coragem de oferecer a outra face? E
se eu fosse capaz de perder também a túnica? Uma das coisas irritantes deste
mundo é a falta de lisura dos pobres. Precisam, mas mentem. Pedem, mas
estragam. Tentamos dar-lhes a mão para os tirar do poço, mas eles querem só
dinheiro para aquela sopa, ou para aquela dose de droga… Julgo que querer
ajudar os pobres é procurar que eles saltem a barreira, mas não é cairmos na
indignação virtuosa se eles não são capazes de saltar. Ou não querem, ou estão
simplesmente a enganar-se e a enganar-nos.
Na segunda Leitura (1Cor. 3,16-23)),
são Paulo convida-nos a mudar de “referencial”. O nosso projeto não pode
limitar-se ao desejo de construir uma Igreja bem arrumada, onde as grandes
questões estejam bem equacionadas e os pobres sejam assistidos. A Igreja, e
cada um de nós, somos templos de Deus, o Espírito Santo habita realmente em
nós. “Se dentre vós, alguém se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco,
para se tornar sábio. É que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus,
(…) o Senhor sabe que são fúteis os pensamentos dos sábios.” Precisamos do
Espírito de Deus para nos atrevermos às questões decisivas. E podemos fazê-lo
na confiança: “O mundo, a vida, a morte, o presente, ou o futuro, tudo é vosso!
Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.”
padre João Resina
Todos nós somos chamados por Deus à
santidade, isto é, a ser “perfeitos como o nosso Pai do céu é perfeito”. O
caminho para chegar à santidade não é outro do que o amor: amor a Deus e aos
irmãos, amor aos que sofrem, amor a si mesmo, à família, à natureza.
As leituras de hoje estão falando da
«santidade pelo amor». Veremos que a responsabilidade pelo próximo, a fuga da
vingança, o respeito à vida e à dignidade do outro, o amor ao próximo, em suma,
(1ª leitura) configuram o caminho a seguir para chegar até Deus e alcançar a
santidade. Isto porque, se for verdade que somos templos de Deus (2ª leitura),
como fundamentar a nossa convivência com o próximo se não for na base da
tolerância, do perdão e até mesmo do amor aos inimigos (evangelho) tal como o
Senhor nos convida a viver numa expressão suprema deste mandamento do amor:
“amai-vos uns aos outro como eu vos tenho amado”?
1ª leitura: Levítico
19, 1-2.17-18
Se lermos com atenção o capitulo 19 do
livro do Levítico, iremos perceber que é um conjunto de orientações espirituais
que ensinam a trilhar o caminho da santidade. Uma santidade fundamentada na responsabilidade
que temos para com o próximo. O caminho para chegar a Deus e alcançar esta
santidade começa pelo respeito à vida e à dignidade do outro. Este é o centro
da Lei e dos Profetas, o eixo que determina nossa verdadeira relação com Deus e
o elemento fundamental da fé. Só estando abertos ao outro é que poderemos
participar da promessa de salvação dada por Deus a seu povo.
A leitura revela, já no Antigo
Testamento, que Deus exige a santidade do seu povo assim como ele próprio é
santo. O segredo da santidade está no amor a Deus que se manifesta na
observância dos seus preceitos (na prática da justiça), se realiza no amor ao
próximo e tem, como resultado, um relacionamento interpessoal e comunitário que
torna realidade o mundo fraterno querido por Deus. A norma fundamental é: “Ame
o seu próximo como a si mesmo”. Daí que o ódio, o rancor e a vingança não tem
lugar entre aqueles que seguem o caminho de Deus.
2ª leitura:
1Corintios 3, 16-23
Paulo considera o ser humano como
templo de Deus e morada do Espírito. Com isto quer dizer que cada pessoa é
presença concreta de Deus na historia humana (“Não sabem que são templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vocês?”). Este templo é a comunidade de
Corinto ameaçada pela desunião e o perigo de ser destruída principalmente por
aqueles que anulavam a mensagem de Cristo crucificado a través de discursos
imbuídos da “sabedoria deste mundo (que) é loucura diante de Deus” e não
aceitavam a ideia de Jesus identificar-se com a fraqueza humana e
solidarizar-se com os marginalizados. Paulo condena durante esta atitude (“Se
alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá”).
Esta “teologia do templo”, por ele
elaborada, é importante na medida em que Paulo supera a idéia de que a presença
de Deus está limitada a uma construção ou templo material (a um “lugar”
específico de culto), e compreende que o verdadeiro templo onde Deus habita é o
ser humano sem distinção de raça ou cultura. Isto quer dizer que são as pessoas
o lugar verdadeiro onde devemos dar culto a Deus e é através do serviço
fraterno que prestamos a elas que expressamos a nossa fé, especialmente com
aquelas que, sendo santuários vivos de Deus, estão sendo profanadas pela
pobreza, a violência e a injustiça social.
Evangelho: Mateus
5,38-48
Continuando o evangelho do domingo
anterior, Mateus apresenta-nos mais alguns ensinamentos do Senhor em forma de
antíteses para facilitar a compreensão do modo como Jesus interpreta a lei de
Moises.
A primeira, sobre a vingança e o seu
avesso que é o perdão (vs. 38 a 42), cita o sistema de “vingança controlada”
aconselhada por Moises (“Olho por olho e dente por dente”) para moderar a lei
de “vingança sem limites” praticada pelos descendentes de Caim (“Por uma
ferida, eu matarei um homem, e por uma cicatriz matarei um jovem”- Gênesis,
4,23).
O “olho por olho”, porém, deixa o mundo
cego. Pagar a agressão com guerras faz do mundo um cemitério. Diante disto,
Jesus apresenta a única forma de superar a vingança ou até mesmo a «justa
punição» para cortar o círculo infernal da violência e eliminar o mal pela
raiz: “não se vinguem de quem fez o mal a vocês”. É a atitude da
“não-violência”, que consiste em resistir ao inimigo sem recorrer às mesmas
armas usadas por ele, mas comportando-se de uma forma que tem tudo para
confundi-lo e desarmá-lo (“deixe também o manto!”... caminhe mais dois
quilômetros com ele”) e acabar assim com o espiral de violência que não tem
fim.
A segunda antítese é a chave de ouro
que abre a porta da santidade (vs. 43 a 48) a qual é preciso ultrapassar para
entrar no Reino do Céu (“amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que
perseguem vocês!”). É o ideal mais elevado do comportamento moral do cristão.
Uma proposta sem limites tendo apenas por referência e por fronteira o modo de
agir do próprio Deus que “faz o sol nascer sobre maus e bons” e marca a
diferença entre nós e “os pagãos” que “amam somente àqueles que os amam”. Se
realmente fomos criados à imagem e semelhança de Deus, e somos seus filhos,
precisamos progredir para ser “perfeitos como é perfeito o... Pai” (Nenhum
profeta tinha falado assim antes de Jesus!).
Como escreve Sto. Tomás de Aquino, o
mandamento do amor é, de algum modo, inatingível porque nunca podemos dar conta
dele à perfeição, sempre pode-se amar mais, com maior dedicação, com maior
generosidade. Tudo indica, por tanto, que o caminho da perfeição não tem fim;
mas nem por isso devemos parar porque quanto mais elevado for o nosso ideal
tanto mais poderemos dar de nós mesmos e desenvolver as nossas capacidades.
PALAVRA DE DEUS NA
VIDA
O elemento fundamental do cristianismo
é o amor. O amor que Jesus propõe supera tudo porque não se limita a um grupo
especial de pessoas, às do meu grupo ou às da minha pátria ou àquelas que me
amam, mas chega até os inimigos, àqueles que pareceriam não merecer o meu amor
ou mereceriam até mesmo o meu desamor. É uma expressão do amor de Deus que é
infinito, que não distingue entre bons e maus.
Quando Jesus fala do amor ao inimigo,
porém, não está pedindo que alimentemos em nós sentimentos de afeto, simpatia
ou carinho para quem nos faz mal. O inimigo continua a ser alguém perigoso e
dificilmente poderão mudar os sentimentos do nosso coração. Amar o inimigo
significa, antes de mais nada, não desejar o mal para ele e renunciar ao prazer
de fazer com que ele pague o mal que nos fez. É renunciar à vingança e ao
desejo de vingança. O problema não é sentir-nos feridos e humilhados. O
problema é alimentar o ódio e o desejo de vingança.
Certamente temos o direito de
defender-nos e defender ou outros contra a injustiça, mas não podemos usar a
justiça como instrumento disfarçado de vingança. Usar as leis para fazer todo o
mal possível ao inimigo é reeditar o “olho por olho e dente por dente”, isso
sim, amparados na legalidade e na aceitação da sociedade.
Ser “perfeito como Deus é perfeito”,
significa viver uma experiência de amor sem limites, é tentar construir uma
sociedade diferente, não fundada na lei aparentemente justa do «olho por olho e
dente por dente», mas na verdadeira justiça alimentada pela misericórdia e a
solidariedade, valores estes já incluídos no Amor.
Tudo isto supera as nossas
possibilidades humanas. O amor aos inimigos só pode acontecer em nós pela graça
de Deus. Na prática, porém, perguntamo-nos: “Como amar àquele que não me ama?”.
A resposta pode ser encontrada noutra pergunta: “Como Deus pode me amar se não
mereço?”. Certamente, não por meus méritos, mas porque Ele me perdoa sem
condições.
O Senhor se atreve a pedir-me este
“amor impossível” aos inimigos porque Ele o praticou primeiro com aqueles que o
crucificaram (”Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” - Lucas 23,34).
Posso, até, fazer o bem àquele que me fez o mal, caso precise de mim. Devolver
o bem em troca do mal, além de salvar o outro, salva-nos de nós mesmos. Não
podemos esquecer que somos mais humanos quando perdoamos do que quando nos
vingamos.
O amor perfeito não pode ficar reduzido
apenas a um nível de reciprocidade (“se vocês amam somente aqueles que os
amam”). É preciso ir à prática do que o Senhor nos propõe: “rezem por aqueles
que perseguem vocês”, pelos que nos prejudicam e sabemos que não nos amam.
Podemos ter certeza absoluta de que não há maior força transformadora do
coração humano do que orar pelos inimigos. Só desta forma sublime será possível
quebrar a lógica do ódio e entrar na lógica do amor, em tudo semelhante ao amor
do Pai.
PENSANDO BEM...
+ O mal que eu recebo permanece foram
de mim..., mas, quando o devolvo, esse mal me inflige uma derrota como efeito
secundário da minha vingança. Ele penetra no meu coração e eu me torno tão mau
quanto o meu adversário. Desço ao mesmo nível dele. O caminho alternativo de
vitória que Jesus nos propõe é vencer o mal com o bem, responder ao ódio com o
amor.
+ Isto não quer dizer que devamos
entender ao pé da letra aquela frase: “Se alguém lhe dá um tapa na face
direita, ofereça também a esquerda”. Nem o próprio Cristo fez isto quando,
respondendo ao interrogatório pelo sumo sacerdote, um dos guardas deu-lhe uma
bofetada. Jesus não ofereceu a outra face, mas reclamou com dignidade daquela
violência, dizendo: «Se falei mal, mostre o que há de mal. Mas se falei bem,
por que você bate em mim? (João 18, 22-23). Protestar contra a prepotência é
uma reação válida. Qual o sentido, então destas palavras? Nada de oferecer a
outra face feito bobo, mas é bom lembrar que, quando a gente perdoa, sempre
está arriscado a receber “outro tapa”. Por isso é que se diz: “Perdoo, mas não
quero ele mais perto de mim” (não quero “oferecer a outra face”). O Senhor,
porém, nos diz com estas palavras que é preciso perdoar mesmo arriscando-se a
ser novamente ofendido.
+ Fiz questão de escolher a foto
publicada pelos jornais da época em que o beato João Paulo II, recuperado dos
seus ferimentos, foi procurar o seu agressor na cadeia para oferecer-lhe o seu
perdão. Mesmo sendo papa, não deve ter sido uma experiência muito fácil, como
ser humano, olhar nos olhos daquele que tentou assassiná-lo e que, pela
expressão na foto, mais parece surpreso do que arrependido. Tanto faz. O perdão
é dado a troco de nada, motivado unicamente pelo amor cristão que deve ser
oferecido não apenas para quem nos faz o bem, mas até mesmo para os nossos
inimigos. Este papa foi um modelo de santidade. Mas não nasceu assim. Ele se
fez passo a passo vivendo com fidelidade o Evangelho como qualquer cristão é chamado
a fazer.
padre Ciriaco
Madrigal
"Sejam
perfeitos como o vosso pai celeste é perfeito"
Domingo da santidade de Deus. Acolhemos
na Eucaristia, a Palavra do Senhor que nos convida a amar a todos, sem
discriminação de cor, gênero ou ideologia, somente assim seremos perfeitos como
o Pai celeste é perfeito. Vivendo numa sociedade marcada pela violência e pela
injustiça, o cristão é convidado a fazer a diferença.
Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que
se manifesta na luta de todas as pessoas e grupos que testemunham um amor e um
perdão sem limites para com todos e comprometem-se com a causa da justiça.
"Confiei, Senhor, na tua
misericórdia. Meu coração se alegra porque me salvas. Cantarei ao Senhor pelo
bem que me fez (Salmo 12,6).
Primeira leitura:
Levítico 19,1-2.17-18
O povo de Israel, no decorrer de sua
história, foi organizando coleções de mandamentos e de leis que lhe ajudassem a
viver a Aliança com Deus. O que vamos ouvir e contemplar na liturgia deste
domingo, é uma dessas coleções, chamada "Lei de Santidade",
procurando uma palavra de Deus para nós hoje.
O capítulo 19 faz parte da assim chamada
"Lei de Santidade", nome dado aos capítulos 17-26 do Levítico, porque
neles se repetem freqüentemente a fórmula: "Sede santos, porque eu, o
Senhor vosso Deus, sou santo", ou fórmulas semelhantes (cf. 19,2; 20,7). A
"Lei de Santidade", ao lado do Código da Aliança (Êxodo 20-23) e do
Código do Deuteronômio (12-26) constitui, não obstante alguns traços mais
recentes, um dos códigos mais antigos de Israel. Suas leis exigem que o povo de
Israel seja santo, isto é, saiba distinguir entre o sagrado e o profano e
observe as leis morais e do culto em vista de um relacionamento correto com a
santidade de Deus.
O texto lido hoje, além de do solene
exórdio (versículos 1-2), se insiste na prática da justiça e da caridade nas
relações sociais.
O termo "santo" para os povos
semitas significa o aspecto inacessível, transparente e supra-humano da
divindade. Diante de Deus o ser humano é profano e impuro (Isaias 6,3). Mas
Deus pode fazer a pessoa humana participar de sua santidade e consagrá-lo a si
(Jeremias 1,5). É nesta consagração que está interessada a "Lei de
Santidade".
Imitar a santidade de Deus tem como
exigências fundamentais em relação ao próximo (vs. 17-18): exclui o ódio e a
vingança, e exige que nos preocupemos com a vida moral do próximo (sua
santidade) a ponto de amá-lo como a nós mesmos. "Odiar" é violar o
princípio da solidariedade. Mas ser solidário com as pessoas exige a correção
fraterna. A omissão deste dever é um pecado contra a solidariedade (cf.
Ezequiel 3,18s; 33,8s) na vocação comum à santidade. "O próximo" a
que se referem os versículos 17-18 é antes de tudo o israelita. Mas no
versículo 34 são incluídos no mesmo conceito também os estrangeiros residentes
no pais, com a justificativa: "porque já fostes estrangeiros no Egito.
Assim, aos poucos vai se formando a noção universalista que o termo
adquire no Novo Testamento: próximo é qualquer pessoa humana com a qual eu me
relaciono; pode ser tanto samaritano ou um caído em desgraça (cf. Lucas
10,23-27), como até mesmo inimigo que explora e agride (cf. Mateus
5,38-48) e do amor ao próximo como a si mesmo, mesmo aos inimigos, nasce de
nossa comum origem em Deus e do mistério da Encarnação: "Tudo é vosso, mas
vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1 Coríntios 3,23). Cristo é o
ponto de encontro de Deus com as pessoas e das pessoas entre si.
Salmo responsorial - Salmo
102/103,1-4.8 e 10.12-13. O Salmo é um hino ao amor paternal de Deus. Os
versículos 1-2 começa em forma individual. O salmista agradece a Deus os
benefícios recebidos: primeiro, o perdão dos pecados (versículo 3); em segundo
lugar, de ter sido liberto do perigo da morte, de modo que sua vida parece
recomeçar, numa nova juventude. O salmo é um hino de louvor que bendiz a Deus
por todos os benefícios concedidos a uma pessoa e a todo o povo.
No versículo 8 rezamos a grande
definição do que é Deus: uma fórmula litúrgica que concentra muitas
experiências de conviver com Deus. Em sua atuação frente o pecado
das pessoas, Deus mostra principalmente sua misericórdia: a confissão humilde é
a grande apelação. O ápice do salmo é a ternura paternal de Deus.
O salmo canta a grandiosidade de Deus
que perdoa, cura, redime da cova, coroa com a vida de amor e compaixão, sacia,
faz justiça e defende todos os oprimidos. O nosso Deus é um Deus que faz
história com seu povo, perdoando e sendo compassivo. Jesus mesmo o louvou e
mostrou-o bondoso e compassivo também com os maus e injustos. Jesus ainda nos
ensinou a chamá-lo de Abba, paizinho.
A paternidade de Deus é, no Primeiro
Testamento, uma comparação, uma imagem sugestiva. Todavia, quando o Filho se
torna homem, nosso irmão, nos faz seus filhos e filhas de Deus. a
paternidade de Deus já não é uma simples imagem, mas a grande realidade da
nossa vida: chamamo-nos e somos filhos de Deus.
O rosto de Deus nesse salmo. É, mais
uma vez, o aliado fiel. Mesmo que as pessoas não lhe sejam fiéis e pequem, Ele
permanece fiel e perdoa. O salmo mostra, portanto, a fidelidade radical de Deus
ao seu povo. A imagem do pai é interessante: "Como um pai é compassivo com
seus filhos, o Senhor é compassivo com aqueles que O temem" (versículo
13). Compaixão é a mais preciosa qualidade de um pai. É também a maior
característica de Deus. É o aliado compassivo que caminha com seu povo
perdoando, pois foi Ele quem nos criou.
De Jesus se diz que "amou até o
fim", ou seja, até as últimas conseqüências (João 13,1). A compaixão é a
sua característica principal diante do sofrimento ou clamor das pessoas (Mateus
9,36; 14,14; 15,36; 20,34; Marcos 6,34; 8,2; Lucas 7,13). Jesus também perdoou
pecados, curou os doentes, ressuscitou mortos, saciou famintos, fez justiça e
defendeu todos os oprimidos.
Em Cristo, Jesus revela-se o amor do
Pai, sua compreensão das pessoas, sua misericórdia perpétua.
Cantando este salmo, peçamos que o
Espírito de Deus se uma ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos e
filhas de Deus.
Segunda leitura: 1
Coríntios 3,16-23
No trecho que hoje lemos, Paulo encerra
a exposição dos motivos doutrinários, iniciada em 1,18s, que o levam a condenar
a divisão as comunidade de Corinto em "partidários" de Paulo, de
Apolo. De Pedro e de Cristo (1 Coríntios 10-17). A divisão na comunidade mostra
que os cristãos de Corinto ainda não haviam assimilado os ensinamentos de Paulo
sobre a loucura da cruz (1 Coríntios 1,18s), na qual se revela a sabedoria de
Deus.
Paulo mostra a eles que não entenderam
a verdadeira função dos pregadores: A comunidade cristã é a lavoura de Deus na
qual tanto Paulo como Apolo trabalharam, mas que Deus faz crescer (1 Coríntios
3,5-9); é a edificação de Deus, para a qual Paulo lançou o único fundamento,
que é Cristo Jesus. O trabalho de outros pregadores só tem sentido se for
respeitado este fundamento original (1 Coríntios 3,9-15).
Não partidarismo, mas pertença completa
a Cristo e Deus. No começo de 1 Coríntios 3, Paulo descreve como se constrói a
Igreja Templo de Deus. a partir de 3,16, tira as conclusões: a presença do
Espírito de Deus torna santa a comunidade eclesial: abalar a comunidade é
demolir Deus (3,17). Mas também, onde deus está presente, não há lugar para
endeusar pessoas, instaurar culto de personalidades. Em Cristo, a Igreja recebe
a sabedoria de Deus, e torna-se realidade divina (3,16 cf. 1 Coríntios 6,19; 2
Coríntios 6,16; Efésios 2,20-22 cf. Jó 5,13; Salmo 94/95,11)
A leitura de hoje continua a polêmica
de Paulo com a sabedoria do mundo. Nas entrelinhas, aparece o ensejo desta
polêmica: a divisão que os critérios demasiadamente humanos (vanglória,
partidarismo, etc.) causaram na comunidade de Corinto. Tal divisão é bem o
contrário daquilo que o Evangelho ensina. Ora, reconhecendo o que o Evangelho
ensina é, no fundo, a única sabedoria que vale, quando se consideram todas as
conseqüências, devemos dizer com Paulo que os critérios humanos, que todo o
mundo acha tão importantes, são loucura diante de Deus. Poderíamos exercer aqui
nossa criatividade em procurar exemplos de atualidade. Deve haver aos montes
dentro da própria Igreja hoje: "Eu sou de tal movimento, de tal grupo, de
tal pastoral, de tal 'teologia', de tal boa tradição" - "Eu tenho a fé
esclarecida", etc. Paulo ironiza os Coríntios, dos quais uns diziam:
"eu sou de Paulo", ou "de Apolo" ou "de Cefas"
("Ainda bem que quase não batizei ninguém", observa ele, brincando; 1
Coríntios 1,14). E diz agora: "Todos nós, apóstolos, somos vossos; e não
só nós, toda a realidade da criação é vossa... mas vós sois de Cristo, e Cristo
de Deus" (1 Coríntios 3,21-23).
Somos de Cristo e de Deus. Por isso
devemos ser como eles. Isto, porém, não o conseguiremos por um vaidoso esforço
de nossa vontade, mas somente quando nos deixamos envolver no amor gratuito que
Deus nos testemunhou em Jesus Cristo, dado por nós até o fim.
Evangelho - Mateus
5,38-48
O Sermão da Montanha (Mateus 5,1-7,27)
constitui o primeiro dos cinco ciclos de discursos de Jesus no Evangelho de
Mateus. Após a mensagem das bem-aventuranças (5,1-12) e sal da terra e luz do
mundo (5,13-16), segue um longo desenvolvimento sobre a Justiça nova. O trecho
lido no domingo passado destacou três exemplos de superação da Lei Antiga,
caracterizando-se pela radicalização no quadro
- das relações entre irmãos (vs.
21-26);
- do comportamento do homem diante da
mulher (vs. 27-32);
- dos juramentos (vs. 33-37).
A estrutura da oposição de palavras
"ouvistes que foi dito aos antigos" / "eu porém vos digo"
já apareceu quatro vezes (vs. 21.27.31.33); abre agora mais dois
aperfeiçoamentos da Lei, lembrando-nos que o ensino se fazia oralmente:
- não vingar-se, mas ceder (vs. 38-42)
- amar até os seus inimigos (vs.
43-48).
Temos aqui o quarto exemplo de
superação da Justiça antiga. Difere dos outros porque Mateus não cita mais o
Decálogo (dez Mandamentos) mas sim Êxodo 21,23-25). Numa sociedade ainda pouco
organizada juridicamente, a vingança era uma questão de honra; encontramos
ainda este espírito na vendeta córsica ainda bem viva em várias regiões do
Brasil.
"Aquele que te fere a face
direita, oferece-lhe também a esquerda" (v. 39b). A face direita é a mais
nobre; o mais natural seria que o inimigo batesse com a mão direita na face
esquerda do adversário. O filósofo Sêneca já aconselhava de não replicar por
causa de uma bofetada; aconselhava a paciência como um modo de se mostrar
superior (De Ira, II,34,5). Jesus supera até Eclesiástico 28,1-7,
pedindo não só de "perdoar a injúria ao seu próximo" mas de
oferecer-lhe a outra face, quer dizer de estar disposto a agüentar outras
injúrias sem vingar-se!
"Se alguém fizer um processo para
tomar a tua túnica, deixe também o manto" (v. 40) Trata-se aqui de um caso
previsto pela Lei, a penhora da roupa pelo credor: "Toma a veste de quem
deu fiança por outro e retém-na em penhor pelos estranhos" (Provérbios
20,16). A túnica é a roupa de dentro, o manto é a roupa de cima. Temos então
uma progressão: pode-se ficar sem a túnica sem parecer despido mas não sem o
manto, isto é, a veste!
A segunda aplicação prática deve ser
ligada à quarta com (v. 42a) e à quinta (v. 42b) que falam também do dom e do
empréstimo.
"Se alguém te obrigar a andar um
quilômetro, caminha dois com ele" (v. 41). A milha é uma medida romana
equivalente a mais ou menos 1478 metros. Temos provavelmente uma
referencia às requisições impostas pelos militares ou funcionários romanos; foi
isto que aconteceu com Simão o Cirineu (Mateus 27,32).
"Dá a quem te pedir" (v.
42a). As duas últimas aplicações concretas divergem um pouco da intenção geral
do discurso. Não se trata mais de "resistir ao malvado" mas de ajudar
todo aquele que estiver precisando.
"E não vire as costas a quem te
pede emprestado" (v. 42b). Geralmente, o primeiro movimento é de recusar
um empréstimo a quem está pedindo. Para o Senhor, entretanto, a propriedade
privada não é um absoluto; tem seus limites e seus deveres. O credor até se
preparar a não receber seu dinheiro de volta.
"Amar até seus inimigos" (vs.
43-48). Esta seção constituiu o quinto exemplo de superação da Lei. Jesus
refere-se a Levítico 19,18: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo". A
segunda parte do mandamento, "odiarás teu inimigo" não se encontra
explicitamente no Primeiro Testamento mas só na Regra da Comunidade de Qumrâm:
a fim de amem os filhos da luz... e a fim de que odeiem todos os filhos das
trevas (1,9s; cf. 9,21)". Não devemos esquecer que "odiar", na
linguagem hebraica que desconhecia os comparativos, significa "amar
menos".
Quando Cristo fala de "amar os
inimigos" ele não quer deixar a mínima dúvida: o amor não pode se
restringir às pessoas do mesmo clã, aos patrícios, às pessoas espontaneamente
amáveis: "Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tereis? Os
cobradores de impostos não fazem a mesma coisa. E, se saudais somente
os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma
coisa? Jesus afirma que é preciso ir mais longe. O autêntico amor não tem
fronteira nem de raça, nem de religião, nem de preconceito, nem de classe
social. A misericórdia é a essência de Deus que nos perdoa.
O amor aos inimigos não tem nada que
ver com um amor romântico ou meramente sentimentalista. É um amor adulto
baseado antes de mais nada no respeito, no direito e na justiça para com o
outro. O cume do amor consiste em orar pelos que nos perseguem (v. 44b). É a
bem-aventurança dos pacíficos (Mateus 5,10-12) lembrando a dura realidade da
Igreja Primitiva. Este mandamento é tão importante que Jesus mostrou o exemplo
na Cruz (Lucas 23,34), O diácono Estevão agiu da mesma maneira (Atos 7,60).
Da Palavra celebrada
ao cotidiano da vida
Como ser perfeitos num mundo que beira
o caos da imperfeição?
Como ser santos num contexto que nos
ínsita a "chutar o pau da barraca", como conseqüência do desespero e
da falta de esperança, se consideramos a capacidade que o ser humano construiu
de violar o direito dos seus iguais, de lhes imputar dor e sofrimento, de lhes
causar o equivalente à morte: a impotência e a impossibilidade de se mover com
segurança e liberdade?
Mais do que nunca a vocação cristã
ganha espaço neste mundo. Porque é lá onde impera a desumanidade que a Igreja,
corajosamente, é convocada pra sinalizar a beleza de sermos humanos.
Perguntarmo-nos, portanto, a respeito
dos motivos de nossa esperança em continuar cristãos e cristãs, reunindo-nos
para celebrar, planejar e empreender um mundo novo. Habitar o coração do mundo
que se desintegra, torna-se sinônimo de habitar o coração de Deus pois é lá que
sua atenção se encontra.
Se observarmos nossa comunidade de fé,
as pessoas que convivem conosco, em que ritmo se encontra sua vida poderemos
perceber como estamos próximos ou como estamos distantes daqueles planos que
Deus usou para nos criar. Temos que ter muito cuidado, pois pode ser que
estejamos muito ocupados com o "mundo" de Deus, pois Ele está muito
ocupado com o nosso mundo... Inevitavelmente haverá um desencontro. Onde
estiver o amor de Deus, aí está sua Palavra, aí estará Cristo e aí estarão os
cristãos. E o amor de Deus está dedicado à sua criação, em especial, aos seres
humanos, portadores de sua perfeição.
Com os dois mandamentos de evitar
vinganças e o amor aos inimigos, Jesus propõe não a resignação ou a indiferença
diante da violência e da injustiça, mas uma resistência ativa, não violenta. O
que desarma o inimigo é o amor, não a passividade ou a indiferença. O Evangelho
de hoje retoma as bem-aventuranças dos que promovem a paz, recordando a nossa
vocação de construtores da paz.
Não podemos buscar esta meta sozinhos.
A comunidade cristã é o ambiente favorável que nos lembra constantemente esta
vocação. Cada um de nós é responsável por criar esse ambiente espiritual, no
qual não serve a lógica da competição e da luta pelo poder. Imitar a
integridade de Deus é justamente buscar qualidade interior e uma conduta de
vida capaz de modificar o lugar onde habitamos.
Na liturgia somos a assembléia dos que
foram santificados por Deus. Não porque sejamos pessoas boas, puras, perfeitas,
mas porque Deus, que é perfeito, nos agraciou e nos chama a imitá-lo na
santidade.
A Palavra se faz
celebração
Por que ir à Igreja aos domingos?
Timothy Radcliffe, em recente livro,
tenta responder a esta questão desafiadora para o nosso tempo. Mas é o arcebispo
de Cantuária, no prefácio da obra, quem dá a síntese: "a Igreja permite
que sejamos humanos de forma não encontrada em nenhum outro lugar". Ele vê
a celebração da Ação de Graças - a Eucaristia, como "a viagem ao coração
generoso de Jesus Cristo (que é) também a descoberta de quem somos e de quem
podemos vir a ser em Jesus".
A Liturgia deste domingo confirma esta
tese porque ela mesma nos situa no coração de Jesus, isto é, na Palavra que
Deus Nele nos comunica, porque o cerne da vida de Cristo não é outro senão a
Palavra de seu Pai que origina o Reino dos Céus. O Reino de Deus é o Reino de
seu Verbo, da comunicação de si mesmo, de sua plenitude não-acumulada, mas,
distribuída, porque transbordante, para a sua criação. Tal experiência do Verbo
da Vida, que nos resgata a dignidade e a beleza de sermos humanos plenamente e
assim se cumprir em nós a vontade de Deus, está manifestada no versículo da
aclamação ao Evangelho: "É perfeito o Amor de Deus em quem guarda sua
Palavra".
A celebração dominical nos recorda
aquela paciência, bondade e compaixão com as quais Deus ama os seres humanos e
os acompanha pelos caminhos da vida (cf. Salmo responsorial e Oração
Eucarística VI-A)
Realizar a Palavra de Deus
A assembléia dominical tem por
motivação fundamental dar corpo à vontade de Deus em suas palavras e ações (cf.
Oração do Dia). A experiência da salvação de que trata a Antífona de Entrada,
citando o Salmo 12,6 "Confiei em teu amor, tu me salvas e eu me alegro, ao
Senhor eu cantarei pelo bem que me tem feito!", se torna manifesta em cada
gesto de apreço e cuidado que os irmãos e irmãs dispensam uns aos outros,
tornando a festa celebrada ao redor da Mesa da Palavra de Deus e do Pão e Vinho
consagrados uma escola para a existência e labor cotidianos. Não sem razão, a Eucaristia
é sacramento da "iniciação". Ela, continuamente, nos liga à razão de
nosso ser, com vistas a nos tornar plenos (santos! Perfeitos!) não porque nos
isenta do pecado e da morte, mas porque nos situa para além deles, permite-nos
olhar adiante, com esperança e confiança. A celebração nos põe em dia com
aquele plano do qual Deus se utilizou para criar o mundo e nele, cada homem e
mulher.
Ligando a Palavra com
a ação eucarística
Nos reunimos para celebrar a Ação de
Graças que nos leva ao coração de Trindade. Na Oração do Dia que concluiu os
Ritos Iniciais, nos colocamos diante de Deus pedindo que Ele nos ajude a fazer
a Sua vontade com palavras e ações.
Somos semelhantes a Deus quando amamos
as pessoas sem interesse nenhum. A assembléia litúrgica é sacramento visível do
amor de Deus entre nós. É alimento de santidade e do compromisso com o amor e a
justiça.
Vivemos num mundo dividido, injusto,
violento, onde a vida cada vez mais é desfigurada. Mesmo assim somos chamados a
celebrar a Eucaristia como sinal de esperança no sentido de que, na força do
Cristo nossa Páscoa, as coisas poderão ser diferentes e novas. Sua morte e
ressurreição nos mostram isso tanto no Novo Testamento, como na vida cotidiana.
Se estivermos prontos a
"partilhar" o pão, podemos receber nossa parte de alimento; só se
estivermos prontos a perdoar podemos também ser perdoados pelo Pai Celeste. Não
podemos esquecer que a Eucaristia é para o perdão dos pecados (Mateus
26,26-28). Deus só aceita nossa Eucaristia se for sinal de nosso amor aberto a
todas as pessoas e a todo o mundo, sobretudo aos que nos são próximos e também
aqueles que não nos amam. Como Cristo se dá no sinal do pão e do vinho a todos
os que o buscam na esperança da salvação, também o cristão deve encontrar, na
Eucaristia, o modo como deve dar-se. Na Oração sobre as Oferendas podemos
sentir isso quando rezamos com o presidente: "Ao celebrar com reverência
vossos mistérios, nós vos suplicamos, ó Deus, que os dons oferecidos em vossa
honra sejam úteis à nossa salvação".
O Pão da Vida partido e repartido,
acompanhado pelo canto do Cordeiro de Deus, nos inspira o caminho da santidade
e da justiça e nos introduz a promover a paz, "bem-aventurados os que
promovem a paz". O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, tira o
pecado do nosso coração, quando comungamos desse pão partilhado e entregamos
nossa vida nos gestos de reconciliação, partilha, paz e prática da justiça. Na
Liturgia Maronita, na orara da distribuição do Corpo e Sangue de Cristo se diz
aos comungantes: "O Corpo e Sangue de Cristo penhor da vida eterna"
padre Benedito
Mazeti
1 – Quem julgas que
és? Estás a ameaçar-me? Livra-te, vou chamar o meu irmão mais velho! / E eu vou
chamar os meus amigos. / Eu trago os meus amigos e os meus irmãos, e todos
sabem que os meus irmãos são os mais fortes da escola! / Não tenho medo, trazes
os teus amigos e irmãos e eu trago o meu professor de Karaté…
Esta é uma pequena
estória semelhante a tantas outras. Em primeiro lugar, é uma contenda entre
crianças e também elas pouco a pouco deverão aprender que os problemas se
resolvem melhor, mais duradoiramente, a conversar. Por outro lado, meterem-se
adultos ao barulho, como pais, compreende-se e em algumas situações torna-se
imperioso, mas muitas vezes tem efeitos perversos, pois os filhos voltam a ser
amigos e os pais tornam-se inimigos para sempre. Porém, esta pequena estória
tem hoje um contexto diferente. Ao olharmos o nosso tempo, e apesar da evolução
cultural e social, continuam a repetir-se situações idênticas. E assim, por
vezes, a educação dos filhos: Chamou-te nomes? Chama também. Bateu-te? Bate-lhe
também. Tens medo? Leva uma colega mais velho contigo.
O meu vizinho deitou
um ramo do castanheiro para o meu quintal... E tu não fizeste nada? Claro que
fiz: voltei a deitar-lhe o ramo e o lixo que tinha do meu lado. E aprendeu a
lição? Achas? Aparou o castanheiro e deitou os ramos para o que é meu. E tu que
fizeste? Se fosse eu ou chamava a polícia ou ia lá a casa e só se não pudesse
senão partia-lhe as fuças. Não te preocupes, eu fiz melhor, cortei a lenha aos
bocados e tenho-a aproveitado para a lareira, bem jeito me faz. Além do mais,
já vai para duas semanas e se me vê recolhe-se em casa. Estou em crer que um
dia destes ainda me vai pedir para se aquecer em minha casa…
Há histórias
semelhantes que acabam no hospital, na cadeia e na morgue... Infelizmente
multiplicam-se situações destrutivas entre vizinhos e por vezes dentro das
famílias.
2 – Ao ver a
multidão, Jesus subiu para o monte. Os discípulos aproximam-se d'Ele. Jesus
sentou-se e começou a ensiná-los (Mt. 5,1-2). É desta forma que Mateus nos
introduz no Sermão da Montanha. Bem Aventuranças. Ser sal da terra e luz do
mundo. Plenitude da Lei de Moisés em dinâmica de perdão e de amor. Amor ao
inimigo em contraponto à lei de talião. Jesus refere-a aos antigos, mas na
atualidade continua a ter muitos seguidores: "Olho por olho e dente
por dente".
A violência, como
facilmente se pode verificar, gera violência, multiplicando-a. Os bons
propósitos das Nações Unidas (ONU) de impor a paz pelo exercício da força,
quando não é possível o diálogo, a diplomacia, os acordos de paz, tem abafado a
agressão fácil a países com menos recursos, mas gera novos ódios e desejos de
vingança. Países que evoluíram para democracias, cujo chão ainda respira sangue
e morte, continuam demasiado vulneráveis e ao mínimo podem vir ao de cima os
ódios e as vinganças.
Como víamos na semana
passada, Jesus não vem para anular a Lei mas para a levar à plenitude e, por
conseguinte, contrapõe: «Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau.
Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se
alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe
também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,
acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te
pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu
inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por
aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos.
Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa
os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de
extraordinário? Não o fazem também os pagãos?»
A referência é
Deus: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».Amar os outros
como a nós mesmos indica claramente o caminho. Mas nem sempre o amor-próprio ou
a auto-estima serão critérios saudáveis para cuidar dos outros. Jesus dá o
mote: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Sede misericordiosos como o
Vosso Pai é misericordioso.
3 – A primeira
leitura traz-nos o desafio de Deus, através de Moisés, a uma convivência sadia
entre pessoas e grupos: «Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos,
mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não
te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor». E de novo a referência a ter em
conta é o próprio Deus: «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou
santo».
Na mesma corrente, o
salmista mostra o quanto Deus nos ama e como age com benevolência para conosco,
para que também nós sejamos generosos no perdão e na caridade: «Ele perdoa
todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e
coroa-te de graça e misericórdia. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e
cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou
segundo as nossas culpas».
Se Deus age tão
misericordiosamente conosco, como não nos sentirmos impelidos a agir como Ele?
Se O amamos vamos querer agir em conformidade com a Sua vontade!
4 - Mas há mais. São
Paulo mostra-nos, novamente, o nosso bilhete de identidade: pertencemos a Deus,
somos criados à Sua imagem e semelhança, Ele assume-nos como filhos, como Sua
morada. A resposta ao amor de Deus, como Pai/Mãe, levar-nos-á a amar a Deus, no
compromisso com os outros, pois a todos Deus ama em perfeição. Amor com a amor
se paga (são João da Cruz). Se Deus nos habita, a nossa casa tem de transpirar
amor para O sentirmos em nós, para O revelarmos com a nossa vida.
Diz o
apóstolo: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus
habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o
templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém deve gloriar-se nos
homens. Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as
coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é
de Deus».
Se somos de Cristo,
há de ser Ele agir em nós e através de nós continuar a viver e a atuar no
mundo, nos outros.
padre Manuel Gonçalves
Sede perfeitos
1ª leitura (Levítico
19, 1-18)
O amor no judaísmo
não chegava ao inimigo
1. A primeira leitura deste domingo é
tirada do Levítico, um dos cinco livros que compõem o Pentateuco. Esta leitura
serve como introdução e, também, como pano de fundo necessário para o texto do
Evangelho. Lv. 19 é como uma espécie de decálogo ou código de santidade. Deste
capítulo poucas coisas se retiram entre as que realçam a exigência de Deus para
que sejamos santos. Mas, neste caso, o conceito de santidade não é qualquer
coisa que pareça inacessível ao homem, mas que, na leitura de hoje. se propõe
especificamente não Se vingar de ninguém dos que constituem a comunidade de
Israel, pois, nessa comunidade, é fixado o conceito de próximo, algo que se
pressente demasiado restrito para o que temos de ouvir das palavras de Jesus.
2. No entanto, temos de reconhecer que,
no âmbito religioso-cultural da época, este conceito contém, para Israel, um
contributo dignificador face a outros povos e outras culturas. O “amarás o teu
próximo como a ti mesmo” é, desde logo, um marco histórico e teológico, embora
se torne insignificante com o que Jesus pede. O Deus de Israel, o Deus criador
do mundo teria pedido algo mais determinante, não fosse o fato de os homens não
saberem interpretar adequadamente qual é a extensão do coração de Deus. Só
Jesus se atreverá a dar um passo muito mais decisivo e arriscado, ao
interpretar Deus como Pai que ama todos os seus filhos, mesmo que não sejam de
Israel.
2ª leitura (Coríntios
3,16-23)
Cristo e a comunidade
1. Na segunda leitura vamos concluir o
tema da sabedoria cristã face à sabedoria do mundo que temos vindo a propor
todos estes domingos. Agora, numa espécie de diatribe, Paulo quer dizer
qualquer coisa essencial à comunidade para que se aperceba, de uma vez por
todas, da importância de tudo o que disse nestes três capítulos. Com a imagem
do templo, do templo novo, do templo do Espírito, o Apóstolo quer enquadrar
reiteradamente outro princípio da sabedoria cristã: se alguém na comunidade, na
Igreja quer ser considerado sábio, que não se importe se o considerarem
imbecil. Porque os critérios da comunidade cristã devem ser distintos dos do
mundo. Os que mais valem, pois, não são os que triunfam no mundo, porque o
mundo constrói os seus triunfos no que fenece.
2. Por esta razão, volta a mencionar os
líderes pelos quais a comunidade se dividia (Paulo, Apolo, Cefas-Pedro). E, por
isso, para ele fica claro que todos os grandes e pequenos na comunidade devem
estar perante Cristo, Daí poderíamos inferir que os de Cristo não constituíam
um grupo aparte na comunidade. É Cristo, justamente, que unifica critérios, é
Ele que liberta as ideias de todo o personalismo da sabedoria deste mundo. E,
por isso, a comunidade cristã não deve ter personagens que deslumbrem ou
líderes que se apropriam para eles mesmos da verdade do Evangelho. Essa verdade
é de cada um, sejam os mais inteligentes ou tenham uma missão mais determinada.
Porque o “corpo” de Cristo dignifica todos aqueles que no mundo não tenham
dignidade alguma.
Evangelho (Mateus
5,38-48)
Perante a violência,
o amor aos inimigos.
1. O texto de Mateus 5,38-48 é, como já
dissemos, um prodigioso marco de luz e solidariedade para a humanidade. Ninguém
como Jesus se atreveu a falar dessa forma e a pôr a sua vida em jogo face ao
ódio do mundo e à vingança entre inimigos. É o mais típico e determinado de
Jesus de Nazaré; assim se reconhece em todos os contextos. As antíteses
veterotestamentárias, das quais sai a lei de Talião “olho por olho e dente por
dente”, não só se tornam obsoletas como também absolutamente anuladas com as
propostas de Jesus sobre o Reino. As palavras de Jesus sobre o amor aos
inimigos estão na base do texto de Lv. 19,18, a primeira leitura de hoje. É
verdade que no AT em rigor não se diz “detestarás ou odiarás o teu inimigo”.
Mas todos os que não são da comunidade de Israel não pertencem ao povo de Deus,
pouco faltava para um passo em direção a este tipo de relação de inimizade. Ou
seja, podem ser excluídos do amor, do bem israelita os que não são próximo, os
que não são dos nossos. Aqui Jesus procura pôr o dedo na ferida; tenta falar e
exigir que tenhamos os mesmos sentimentos de Deus, porque Ele não tem inimigos,
ninguém Lhe é estranho, a ninguém nega a chuva e o sol. Nas comunidades
culturais-religiosas, como a dos essênios de Qumrán mais que se justifica o
ódio aos que não pertencem à comunidade da luz. Esta atitude está refletida na
atitude de interpretação religiosa de um judaísmo bem constituído. Jesus,
portanto, com estas antíteses e, principalmente, com a última antítese quer
integrar-nos na “família de Deus, do Deus como Pai”, e n’Ele não há ódio algum.
Pela mesma razão, o amor aos inimigos é a concretização mais radical, por parte
de Jesus, do amor ao próximo. Não basta dizer que o próximo é aquele que pensa
como eu, que é dos meus; o próximo são todos os filhos de Deus e nenhum homem
ou mulher estão excluídos desse direito.
2. A quinta antítese confronta-nos com
a não-violência (5,38-42), tendo como frontispício a famosa lei de Talião:
“olho por olho, dente por dente”. As citações que estão na base desta
construção tão particular e heterogénea são Ex. 21,24, Lv. 24,20; Dt 19, 21 e o
texto, em termos gerais, é do documento Q (é assim que se reflecte em Lc.
6,27-36), embora os acrescentos de Mateus sejam realmente inconfundíveis (vv. 38-39.41).
O que se pede é tão extremo que muitos autores pensam que nos encontraríamos
perante afirmações de Jesus pelo “critério da não-semelhança”, quer dizer, que
não podem proceder nem do judaísmo nem da comunidade cristã, simplesmente
porque Jesus “vai sempre mais além” no que pensa e no que diz, do judaísmo e do
cristianismo primitivo: é mais audaz, mais profético e mais arriscado. Se a lei
de Talião tivesse sido como um protocolo para não se exceder no mal causado,
como quase toda a Tora, ficará “cumprido” sendo mais humano e mais radical do
que é pedido a um cristão ou a uma comunidade cristã. Na linguagem popular a
expressão “dar a outra face” já tem cariz de lenda para muitos. A bofetada na
direita quase fala de infâmia, de algo grave; da mesma maneira, o duo
túnica-capa e o tirar-para-dar é deixar alguém despido, sem proteção, sem
personalidade, sem ser o mesmo. Que pretendia Jesus com tudo isto? Muitos fazem
esta pergunta e não encontram resposta adequada. Mas a questão é mais simples
do que isso: trata-se de radicalizar a renúncia à violência… e tudo o mais
podemos considerá-lo como lenda. Toda a comunidade cristã deve sabê-lo e tê-lo
em conta, ainda que tenha passado por momentos críticos de perseguição (no caso
de Mateus podia ser assim) e de incompreensão. Estaríamos de acordo com o
comentário de U. Luz a este respeito: “estas afirmações de Jesus” procuram
causar estranheza, sacudir, protestar simbolicamente contra o círculo da
violência. Isso deve ser santo-e-senha dos seguidores de Jesus, porque Ele o
viveu pessoalmente e, desta maneira, uma comunidade cristã deve comportar-se
ideal e praticamente assim. É isto que Jesus quer que descubramos na nossa vida
e assim se mostra a categoria do Reino de Deus por Ele pregado. Assim se
explica o Credo cristão da recusa de toda a violência, a pena de morte, a
resposta à infâmia e à violência pelo mal que nos possam ter feito. O assunto
não de deixa espaço para qualquer resquício que justifique violência ou
vingança. Este é um dos aspectos mais específicos da verdade do Reino.
3.O amor aos inimigos (5,43-48) é a
sexta e última antítese dessa “plenitude” da lei e dos profetas que enquadra
todo o conjunto das antíteses. É o cumular de todas elas e o zénite da
radicalidade com que se pretende essa plenitude da parte de Deus, revelado por
Jesus. Assim o entende Mateus que segue, no entanto, o texto de Q (Lc. 6,27.
32-35) e ainda reformula Q (Lc. 6,36) no v.48 do nosso texto de hoje. Na
realidade, o “odiarás o teu inimigo” não o encontramos no AT, mas, tendo em conta
que aqueles que para o judaísmo não são do povo de Deus são pecadores,
entende-se que tenha sido formulada desta forma a exigência de contraste do
amor aos inimigos.
4. Estamos perante o que é a essência e
o paradigma do verdadeiramente cristão; não há nada mais grandioso, mais
específico e mais difícil de viver que amar a quem nos odeia, porque os
inimigos são os que nos odeiam. Todos os elementos formais ou linguísticos são
de categoria e de contraste: amar inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, bendizer
os que nos amaldiçoam, rezar pelos que nos maltratam. Mas devemos ter em
consideração que no meio destas oposições o ponto de referência é o “Pai do
céu” que é Deus. Esta antítese não pode ser entendida sem essa referência
capital. O exemplo do sol e da chuva é de uma criatividade sem igual, que
nenhum humanista, filósofo ou filantropo puderam imaginar. Temos de amar e
perdoar aos inimigos, porque “o Pai do céu” o dá a todos, isto é, não tem
inimigos. No caso de Mateus, devemos entender que a maior “justiça” que exige o
Sermão da Montanha encontra aqui toda a sua perfeição. É verdade que o
amor ou, pelo menos, a atitude do trato digno e justo ou afirmações filosóficas
ou filantrópicas. No entanto, devemos aceitar que o amor aos inimigos é decididamente
cristão e, por isso, devemos reconhecer que o amor aos inimigos é decididamente
cristão e, por isso, se entende que esta afirmação sai da boca de Jesus. Não
podia ser de outra forma. Mas não é o mesmo a aproximadas as encontramos em
outras religiões e, inclusive, em círculos filosóficos ou filantrópicos. No
entanto, temos de reconhecer que o amor aos inimigos é, decididamente cristão
e, por isso se entende que esta afirmação (logion) sai da boca de Jesus. Não
podia ser de outra maneira. Mas não é o mesmo que filia ou simpatia para todos
os homens, mesmo para os que nos são hostis. No mundo estóico registramos
certas aproximações. Mas o logion de Jesus vai mais, muito mais além. Não
devemos esquecer que se fala de amar (agapaó) que é muito mais intenso e definitivo.
5. Será possível chegar a esta
“justiça” tão perfeita? O que é dito em Mt. 5,48 para rematar as antíteses, é
uma proposta de imitação: “sede perfeitos como o vosso Pai do céu é perfeito”.
Sabemos que é esse o sentido que têm todo o sermão e as antíteses como
elementos determinantes. Se nos pede que imitemos a Deus e não deve ser de
outra maneira, ainda que nunca possamos ser como Deus, como o Pai. A “imitatio Dei”
é um prolongamento da moral religiosa em todo o seu sentido cultural da época e
foi quase sempre assim. Para Jesus, o modelo não pode ser outro senão o do
próprio Deus, mas aqui como Pai. Não obstante, a ideia, tal como a fórmula
Lucas 6,36 “sede compassivos” ou “misericordiosos” (oiktirnzones) parece mais
conforme com o que as palavras de Jesus podiam ser, mais em conformidade com o
próprio fato de tratar a Deus como Pai e não simplesmente como Deus. Que Deus
seja considerado perfeito é demasiado “jurídico” ou “legal”, mas que se
considere Deus Pai como fonte de compaixão e misericórdia e que devemos fazer e
sentir como Ele, é muito mais profundo e humano. Querer ser perfeito como Deus
é impossível, aceitar ser compassivo e misericordioso como o Pai é próprio dos
seguidores de Jesus. Neste sentido não devemos ter medo de ter Deus, Deus Pai
como modelo da nossa vida, da mesma maneira que o viveu Jesus.
6. Muito se falou da utopia do amor aos
inimigos como impossível. É verdade que é uma proposta “utópica”, porque está
fora do normal, do que a antropologia e a psicologia nos ditam e, inclusive,
nos impõem. Mas se mudarmos esta exigência utópica do cristianismo tudo cai por
terra. Se é uma utopia, trata-se de uma utopia irrenunciável que deve ser
praticada com todas as nossas forças, as que temos, as que sentimos… o resto
podemos deixá-lo nas mãos de Deus Pai que nos ajudará a mudar o coração.
fray Miguel de
Burgos Núñez
tradução de Maria
Madalena Carneiro
À sua semelhança
Moisés escreveu na Lei: Façamos o homem
à nossa imagem e semelhança (Gn. 1,26). Considerai, peço-vos, a importância destas
palavras. Deus, o todo-poderoso, o invisível, o incompreensível, o inestimável,
ao fazer o homem de barro, enobreceu-o com a imagem da sua própria grandeza. O
que há de comum entre o homem e Deus, entre o barro e o Espírito? Porque Deus é
espírito (Jo 4,24). É, portanto, um grande sinal de estima para o homem que
Deus o tenha dotado da imagem da sua eternidade e da semelhança com a sua
própria vida. A grandeza do homem é a sua semelhança com Deus, desde que ele a
conserve.
Enquanto a alma usar corretamente as
virtudes depositadas nela, será semelhante a Deus que colocou em nós, no
momento da criação, todas as virtudes e nos ensinou que tínhamos de Lhas
devolver. Pede-nos, antes de mais, para amarmos a Deus de todo o nosso coração,
de toda a nossa alma e de todas as nossas forças (Dt. 6,5), porque Ele nos
amou primeiro(1Jo 4,10) desde o começo, mesmo antes da nossa existência. Amar a
Deus é, pois, renovar em nós a sua imagem. Ora, ama a Deus aquele que guarda os
seus mandamentos.
Cabe-nos a nós refletir, reproduzir,
para o nosso Deus, nosso Pai, a imagem intacta da sua santidade, porque Ele é
santo e disse: Sede santos como Eu sou santo (Lv. 11,45); com amor, porque
Ele é amor e João disse:Deus é Amor (1Jo 4,8); com ternura e em verdade, porque
Deus é bom e verdadeiro. Não sejamos os pintores de uma imagem estranha. E para
que não apresentemos em nós a imagem do orgulho, deixemos Cristo pintar em nós
a sua imagem.
são Columbano
Marie-dominique
moliné, O.P.
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