4º DOMINGO DA QUARESMA
26 de Março de 2017
Cor: Roxo
Evangelho - Jo
9,1-41
O cego lavou-se e
voltou enxergando-José Salviano.
Naquele
tempo:
1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença.
2Os discípulos perguntaram a Jesus:
'Mestre, quem pecou para que nascesse cego:
ele ou os seus pais?'
3Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram,
mas isso serve para que as obras de Deus
se manifestem nele.
4É necessário que nós realizemos
as obras daquele que me enviou, enquanto é dia.
Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar.
5Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.'
6Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva
e colocou-a sobre os olhos do cego.
7E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé'
(que quer dizer: Enviado).
O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
8Os vizinhos e os que costumavam ver o cego
- pois ele era mendigo - diziam:
'Não é aquele que ficava pedindo esmola?'
9Uns diziam: 'Sim, é ele!'
Outros afirmavam:
'Não é ele, mas alguém parecido com ele.'
Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!'
10Então lhe perguntaram:
'Como é que se abriram os teus olhos?'
11Ele respondeu:
'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a
nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'.
Então fui, lavei-me e comecei a ver.'
12Perguntaram-lhe: 'Onde está ele?'
Respondeu: 'Não sei.'
13Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego.
14Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama
e aberto os olhos do cego.
15Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus
como tinha recuperado a vista.
Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre meus olhos,
fui lavar-me e agora vejo!'
16Disseram, então, alguns dos fariseus:
'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.'
Mas outros diziam:
'Como pode um pecador fazer tais sinais?'
17E havia divergência entre eles.
Perguntaram outra vez ao cego:
'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?'
Respondeu: 'É um profeta.'
18Então, os judeus não acreditaram
que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista.
Chamaram os pais dele
19e perguntaram-lhes:
'Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego?
Como é que ele agora está enxergando?'
20Os seus pais disseram:
'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego.
21Como agora está enxergando, isso não sabemos.
E quem lhe abriu os olhos também não sabemos.
Interrogai-o, ele é maior de idade,
ele pode falar por si mesmo.'
22Os seus pais disseram isso,
porque tinham medo das autoridades judaicas.
De fato, os judeus já tinham combinado
expulsar da comunidade
quem declarasse que Jesus era o Messias.
23Foi por isso que seus pais disseram:
'É maior de idade. Interrogai-o a ele.'
24Então, os judeus chamaram de novo
o homem que tinha sido cego.
Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus!
Nós sabemos que esse homem é um pecador.'
25Então ele respondeu:
'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego
e agora vejo.'
26Perguntaram-lhe então:
'Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?'
27Respondeu ele:
'Eu já vos disse, e não escutastes.
Por que quereis ouvir de novo?
Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?'
28Então insultaram-no, dizendo:
'Tu, sim, és discípulo dele!
Nós somos discípulos de Moisés.
29Nós sabemos que Deus falou a Moisés,
mas esse, não sabemos de onde é.'
30Respondeu-lhes o homem: 'Espantoso!
Vós não sabeis de onde ele é?
No entanto, ele abriu-me os olhos!
31Sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aquele que é piedoso
e que faz a sua vontade.
32Jamais se ouviu dizer
que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
33Se este homem não viesse de Deus,
não poderia fazer nada'.
34Os fariseus disseram-lhe:
'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?'
E expulsaram-no da comunidade.
35Jesus soube que o tinham expulsado.
Encontrando-o, perguntou-lhe:
'Acreditas no Filho do Homem?'
36Respondeu ele:
'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?'
37Jesus disse:
'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.'
Exclamou ele:
38'Eu creio, Senhor'!
E prostrou-se diante de Jesus.
39Então, Jesus disse:
'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento,
a fim de que os que não vêem, vejam,
e os que vêem se tornem cegos.'
40Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto
e lhe disseram:
'Porventura, também nós somos cegos?'
41Respondeu-lhes Jesus:
'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa;
mas como dizeis:
'Nós vemos', o vosso pecado permanece.'
Palavra da Salvação.(CNBB).
1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença.
2Os discípulos perguntaram a Jesus:
'Mestre, quem pecou para que nascesse cego:
ele ou os seus pais?'
3Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram,
mas isso serve para que as obras de Deus
se manifestem nele.
4É necessário que nós realizemos
as obras daquele que me enviou, enquanto é dia.
Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar.
5Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.'
6Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva
e colocou-a sobre os olhos do cego.
7E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé'
(que quer dizer: Enviado).
O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
8Os vizinhos e os que costumavam ver o cego
- pois ele era mendigo - diziam:
'Não é aquele que ficava pedindo esmola?'
9Uns diziam: 'Sim, é ele!'
Outros afirmavam:
'Não é ele, mas alguém parecido com ele.'
Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!'
10Então lhe perguntaram:
'Como é que se abriram os teus olhos?'
11Ele respondeu:
'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a
nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'.
Então fui, lavei-me e comecei a ver.'
12Perguntaram-lhe: 'Onde está ele?'
Respondeu: 'Não sei.'
13Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego.
14Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama
e aberto os olhos do cego.
15Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus
como tinha recuperado a vista.
Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre meus olhos,
fui lavar-me e agora vejo!'
16Disseram, então, alguns dos fariseus:
'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.'
Mas outros diziam:
'Como pode um pecador fazer tais sinais?'
17E havia divergência entre eles.
Perguntaram outra vez ao cego:
'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?'
Respondeu: 'É um profeta.'
18Então, os judeus não acreditaram
que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista.
Chamaram os pais dele
19e perguntaram-lhes:
'Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego?
Como é que ele agora está enxergando?'
20Os seus pais disseram:
'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego.
21Como agora está enxergando, isso não sabemos.
E quem lhe abriu os olhos também não sabemos.
Interrogai-o, ele é maior de idade,
ele pode falar por si mesmo.'
22Os seus pais disseram isso,
porque tinham medo das autoridades judaicas.
De fato, os judeus já tinham combinado
expulsar da comunidade
quem declarasse que Jesus era o Messias.
23Foi por isso que seus pais disseram:
'É maior de idade. Interrogai-o a ele.'
24Então, os judeus chamaram de novo
o homem que tinha sido cego.
Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus!
Nós sabemos que esse homem é um pecador.'
25Então ele respondeu:
'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego
e agora vejo.'
26Perguntaram-lhe então:
'Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?'
27Respondeu ele:
'Eu já vos disse, e não escutastes.
Por que quereis ouvir de novo?
Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?'
28Então insultaram-no, dizendo:
'Tu, sim, és discípulo dele!
Nós somos discípulos de Moisés.
29Nós sabemos que Deus falou a Moisés,
mas esse, não sabemos de onde é.'
30Respondeu-lhes o homem: 'Espantoso!
Vós não sabeis de onde ele é?
No entanto, ele abriu-me os olhos!
31Sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aquele que é piedoso
e que faz a sua vontade.
32Jamais se ouviu dizer
que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
33Se este homem não viesse de Deus,
não poderia fazer nada'.
34Os fariseus disseram-lhe:
'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?'
E expulsaram-no da comunidade.
35Jesus soube que o tinham expulsado.
Encontrando-o, perguntou-lhe:
'Acreditas no Filho do Homem?'
36Respondeu ele:
'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?'
37Jesus disse:
'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.'
Exclamou ele:
38'Eu creio, Senhor'!
E prostrou-se diante de Jesus.
39Então, Jesus disse:
'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento,
a fim de que os que não vêem, vejam,
e os que vêem se tornem cegos.'
40Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto
e lhe disseram:
'Porventura, também nós somos cegos?'
41Respondeu-lhes Jesus:
'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa;
mas como dizeis:
'Nós vemos', o vosso pecado permanece.'
Palavra da Salvação.(CNBB).
Quantos cegos que hoje estão necessitando de um
milagre para voltar a enxergar! Quantos que ficaram cegos espiritualmente, e
tentam as apalpadelas, buscar a sobrevivência, porém sem Deus, não conseguem
obter bons resultados, e caem nos buracos da estrada da vida!
O que podemos e devemos fazer por eles?
Anunciar-lhes Jesus fonte de Luz, Jesus que nos devolve a visão, através do
perdão do sacerdote! Também podemos e devemos rezar pelos nossos irmãos
perdidos na escuridão, perdidos nos caminhos escuros, perdidos na sua cegueira
pessoal!
Os judeus acreditavam que toda doença assim como
todo sofrimento, era causado pelos pecados de cada pessoa. Foi por isso
que os discípulos perguntaram quem foi que pecou, para que aquele pobre homem
nascesse cego. Jesus, homem e Deus, que tinha resposta para
tudo, respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve
para que as obras de Deus se manifestem nele". Ou seja,
para que através da cura que Ele iria efetuar, o mundo ficasse sabendo que foi
o Pai quem lhe enviou.
Prezados irmãos. O mundo está em trevas, estamos
cegos. Não queremos enxergar que a causa de tantos males é o nosso afastamento
de Deus, a nossa preguiça e vergonha de fazer o sinal da cruz quando passamos
em frente a um templo católico, preguiça de rezar, de falar de Deus, de nos
apresentar a sociedade como cristãos, de ir à missa, etc. O mundo vai mal por
que a nossa religiosidade vai mal. Sem a luz de Deus e, portanto, cegos, nos
debatemos procurando um caminho de salvação e continuamos no mesmo lugar,
perdidos na escuridão dos nossos pecados. As trevas que envolve a sociedade
hoje, é como uma nuvem projetada na atmosfera por um enorme vulcão, é fruto do
egoísmo, da mentira, da falta de oração, e da destruição da fé causada pelas
ilusões apresentadas pelo mundo atual.
O Evangelho deste domingo nos mostra como Jesus
curou o cego de nascença, e que podemos confiar no seu poder infinito.
Com o Evangelho deste domingo, aprendemos de Jesus que Ele não só pode curar
todo tipo de cegueira, como pode nos ajudar a superar a nossa cegueira, a qual
não nos deixa ver o verdadeiro valor das pessoas, assim como nos impede de ver
e corrigir os nossos defeitos.
A iniciativa da cura da nossa cegueira, parte do
próprio Jesus que quer a nossa salvação, a nossa libertação do pecado, do
egoísmo, dos vícios, etc. Compete a nós aceitar o seu chamado à conversão.
O cego de nascença era rejeitado pela sociedade
judaica que o considerava um homem castigado por Deus por causa dos seus
pecados. Ele também simboliza todos aqueles que estão longe dos caminhos de
Deus, longe da luz divina, e também representa o quanto estamos cegos diante da
realidade da nossa existência. O pai está cego e não vê a filha que está tendo
um namoro perigoso, o qual a deixará grávida, não vê o filho que está sendo
levado a ser um usuário de droga. Estamos cegos e não enxergamos que
somos vítimas de um sistema que alimenta a enxurrada, a avalanche do
pecado, da mentira da corrupção, da impunidade; estamos cegos e não enxergamos
que a verdadeira causa da violência, está no Estatuto do Menor.
Somos cegos em busca de uma luz que ilumine os nossos caminhos, os nossos
passos, pois estamos perdidos na escuridão dos nossos próprios pecados.
O objetivo da quaresma é fortalecer a nossa fé, é
convidar aqueles que se afastaram de Deus a voltar a praticar o Evangelho de
Jesus Cristo. O objetivo da Quaresma é recuperar a vida espiritual daqueles que
foram batizados e até fizeram a primeira comunhão, porém, foram vencidos
pelo pecado e hoje andam errantes, hipnotizados pelo delírio da embriaguez
química.
Passar das trevas para a luz, passar da cegueira
para a recuperação da visão, é passar da morte para a vida. Cristo veio para
que todos tenham vida em abundância. O que nos falta é aceitar a sua mão
estendida para nos levantar da lama do pecado.
Criticaram Jesus dizendo: "Esse homem
não vem de Deus, pois não guarda o sábado". No entanto,
outros disseram: "Como pode um pecador fazer tais sinais (milagres)?
".
Os judeus ficaram inconformados com o fato de Jesus
desrespeitou a lei do descanso do sábado e também ficaram
incomodados com o poder de Jesus de realizar tamanho milagre. Por isso
decidiram expulsar da cidade todo aquele que estivesse do lado de Jesus, ou
seja, todo aquele que divulgasse que Jesus era o Filho de Deus, o Messias. Eles
queriam de todo jeito, convencer a todos que Jesus era um pecador. O cego porém
respondeu:" 'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego
e agora vejo". Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus". Esta afirmação é para aqueles que hoje ainda duvidam da divindade de Jesus Cristo. Para aqueles que dizem que não existe nada além do que vemos e tocamos. Aqueles que a serviço de satanás, fazem os jovens crer que não existe um Deus e que não existe outra vida além dessa.
e agora vejo". Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus". Esta afirmação é para aqueles que hoje ainda duvidam da divindade de Jesus Cristo. Para aqueles que dizem que não existe nada além do que vemos e tocamos. Aqueles que a serviço de satanás, fazem os jovens crer que não existe um Deus e que não existe outra vida além dessa.
"'Eu vim a este mundo para exercer um
julgamento, a fim de que os que não vêem, vejam,e os que vêem se tornem
cegos." Estas foram as palavras que Jesus disse
depois ao cego aquele que Ele havia recuperado a sua visão. Jesus veio ao
mundo para curar a nossa cegueira espiritual, para que enxergássemos a verdade,
e a seguíssemos. Porém, essa verdade trazida ou dita pelo Filho de Deus, cegou
os injustos, fazendo-os cometer todo tipo de pecado sem sofrer mais nenhum
remorso. Essa é a pior cegueira que cobriu grande parte da humanidade,
semelhante a uma densa nuvem negra causadora de todo o mal da Terra.
Ao curar o cego, Jesus deu a luz a um homem que
sempre viveu nas trevas, por nunca ter enxergado. Que choque deve ter
experimentado aquele homem! Ele que deveria imaginar um mundo de uma forma, de
um jeito, de repente começa a ver um mundo nada igual ao que sempre imaginou.
Este mesmo Jesus nos tira das trevas e nos devolve a luz através do sacerdote
que nos absolve. Quando estamos em pecado, estamos em trevas, estamos na
escuridão. É como se fôssemos cegos! Ao receber o sacramento da absolvição,
voltamos a ver o mundo e os nossos irmãos com outros olhos. Em estado de
graça, vemos coisas e pessoas como Jesus as vê. Ao contrário, quando
estamos na escuridão do pecado, enxergamos a realidade de acordo com o nosso
egoísmo, de acordo com as tentações, de acordo com os ditames do mundo.
Meus irmãos. É necessário que nós
realizemos as obras daquele que nos enviou, para anunciar o seu Evangelho,
enquanto é dia. Por que quando vier a noite, quando envelhecemos, não podemos
mais catequizar, não podemos mais tirar o pano que cobre os olhos dos nossos
irmãos impedindo-os de ver a verdadeira verdade, impedindo-os de ver a luz
divina. Enquanto estamos com a luz de Deus, nós somos refletores da
sua luz e somos também luz do mundo. Portanto, o momento é agora. Não vamos
deixar para depois. Mãos a obra, meus irmãos! Vamos trabalhar enquanto é dia,
pois quando vier a noite ninguém poderá mais trabalhar...
Vamos iluminar o mundo com a verdade do Evangelho,
Vamos denunciar, vamos questionar, vamos mostrar as soluções vindas do alto,
para que o mundo saia das trevas e ande na luz de Deus e se salve!
Coragem! Isso é possível. Porque tudo é possível a
aquele que crer!
Coragem! Ainda é tempo.
Desejo-lhe
um santo domingo. José Salviano.
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Os textos bíblicos deste domingo
refletem sobre a luz divina que se manifesta na história humana. Deus se revela
ao mundo de modo original e surpreendente. É soberano em suas decisões e não se
deixa levar pelas aparências. Nas pessoas pobres e frágeis, ele manifesta a
grandeza de seu amor. Escolhe Davi, um humilde pastor, para governar o seu povo
com justiça (I leitura). Deus envia seu Filho ao mundo como expressão máxima de
sua bondade. Jesus solidariza-se com as pessoas necessitadas e oferece-lhes
vida saudável e íntegra: cura a cegueira, liberta o ser humano de toda espécie
de opressão e ilumina o caminho dos que se encontram desorientados (evangelho).
O texto da carta aos Efésios incentiva a comunidade cristã a viver como filhos
da luz, renunciando às obras próprias das trevas e praticando cotidianamente a
bondade, a justiça e a verdade (II leitura). Deus é luz. Portanto, quem vive em
Deus se torna uma pessoa iluminada: é autêntica e livre, pois nada tem a
esconder ou do que se envergonhar.
1ª leitura (1Sm.
16,1b.6-7.10-13a)
Deus não leva em
conta as aparências
Na tradição bíblica, Davi é um dos
personagens mais lembrados pelo povo. Ao redor de seu nome criou-se verdadeiro
movimento. É a figura do governante “segundo o coração de Deus”, rei que segue
a justiça e não despreza os pobres. A primeira leitura deste quarto domingo da
Quaresma narra a eleição de Davi.
Samuel foi um dos últimos juízes de
Israel. Viveu a fase conflituosa de transição entre o tribalismo e a monarquia.
É um homem de Deus. Sofre muito quando o povo pede a mudança de regime (cf. 1Sm
8). Conforme o mandato divino, busca reconhecer, entre vários irmãos, qual
seria o escolhido para governar o povo. Após analisar os sete filhos de Jessé,
Samuel declara que nenhum deles havia sido chamado por Deus. O menor deles,
ausente por estar cuidando do rebanho, é o eleito. A unção é o meio pelo qual
se confere uma missão sagrada. É significativa a transmissão do cargo realizada
por Samuel. Tendo a função de juiz de Israel, transmite a Davi o que ele
próprio considera ser a vontade divina. O governo deve ser realizado sob a
autoridade de Deus.
A eleição de Davi é uma narrativa
popular que transmite importante conteúdo teológico e sociológico. Deus não se
deixa conduzir pelas aparências. Ele conhece o coração de cada pessoa e, por
isso, chama os que se encontram em último lugar para realizar o seu plano na
história. Como dirá Jesus: “Muitos dos primeiros serão últimos, e muitos dos
últimos, primeiros” (Mt 19,30). Sociologicamente, é um texto de denúncia ao
poder monárquico e de valorização dos caminhos alternativos que emergem com a
mobilização dos pequenos e marginalizados.
Evangelho (Jo 9,1-41)
Jesus é a luz do
mundo
O Evangelho de João aprofunda a
identidade de Jesus narrando sete sinais. Um deles é a cura de um cego de
nascença. Esse sinal reflete o debate existente nas comunidades joaninas entre
os cristãos e o grupo de judeus apegados ao legalismo religioso. Conforme
podemos perceber no texto, a cegueira era considerada um castigo divino, seja
pelos pecados da pessoa, seja pelos de seus antepassados. Um dos agravantes
muito sérios para o cego era o seu impedimento de ler a Sagrada Escritura e
estudar a Lei, sendo, por isso, considerado um ignorante da vontade de Deus.
Segundo o mesmo Evangelho de João,
Jesus veio “para que todos tenham vida, e vida em abundância” (10,10). Sua
prática não está atrelada à ideologia da pureza dos líderes religiosos
judaicos. Ele conhece suas intenções e seus interesses: “São cegos guiando
outros cegos” (Mt 15,14). Diante da pergunta sobre “quem pecou”, Jesus procura
“abrir os olhos” dos próprios discípulos, pois também eles estão contaminados
com a ideologia dos doutores da Lei. Em vez de achar um culpado, Jesus põe a
situação da cegueira em relação direta com o plano de Deus, que resgata a
dignidade do ser humano. As “obras de Deus” são realizadas agora por Jesus, a
Luz do mundo. Acontece em Jesus o que foi anunciado pelo profeta Isaías, quando
este se referiu ao “Servo de Javé” como “luz das nações” (Is 49,6).
Jesus, em caminhada, vê o cego de
nascença e toma a iniciativa de curá-lo. Ele o faz por meio da junção de dois
elementos: a terra e a saliva. Formam o barro, que lembra a criação do ser
humano, conforme descreve o livro do Gênesis: “Deus modelou o homem do barro”
(2,7). A ação de Jesus visa recriar a pessoa, oferecendo-lhe nova vida.
Conforme o pensamento da época, a saliva transmite a energia vital da pessoa.
Portanto, a energia divina de Jesus possibilita a cura.
A graça divina, porém, não exclui o
empenho humano. A cura e a libertação que Deus oferece não se dão de modo
mágico. O cego deverá seguir a palavra de Jesus e lavar-se na piscina de Siloé,
que significa “Enviado”. É convidado a aceitar livremente a luz que Jesus lhe
oferece. Seguir o caminho apontado por Jesus significa entrar no processo de
conquista de liberdade e autonomia. De fato, o cego recuperará a visão e também
a capacidade de pronunciar livremente as próprias palavras, já não oprimido
pelo legalismo dos fariseus e também já não dependente de seus pais,
representativos da tradição que buscava “segurar” sob sua guarda os filhos de
Israel. A conquista da visão verdadeira passa por processos de conflitos e
crises, pois mexe com as concepções dominantes. Uma pessoa livre, conduzida por
profundas convicções, torna-se ameaça para o poder constituído, pois este
procura impor “obrigações”, mantendo a consciência do povo alienada.
O cego de nascença, junto com a
recuperação da vista, recebe de Jesus o dom da fé e torna-se seu discípulo. No
relato de sua cura aparece, várias vezes, o verbo “nascer”. Demonstra íntima
ligação com o episódio do encontro de Nicodemos com Jesus, que lhe indica o
caminho do “novo nascimento”. Podemos, então, discernir em que consiste a
recuperação da verdadeira visão: é renascer, pela fé, acolhendo a Jesus e
deixando-se conduzir pela sua palavra: “Se permanecerdes na minha palavra,
sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará” (Jo 8,32). A tradição cristã vai interpretar o ato de lavar-se na
piscina de Siloé como o símbolo da regeneração cristã pelo batismo.
2ª leitura (Ef.
5,8-14)
Viver como filhos da
luz
São Paulo, em seus escritos, dedica-se
de modo muito especial à tarefa de aprofundar a vida nova que provém da fé em
Jesus Cristo. O texto da carta aos Efésios é reflexo dessa teologia paulina.
Demonstra a preocupação de manter a comunidade cristã no caminho do amor, “do
mesmo modo como Cristo amou e se entregou por nós a Deus” (5,1).
Existem dois caminhos: o das trevas e o
da luz. O caminho das trevas era bem conhecido pelos cristãos de Éfeso. Pelo
que se constata ao ler o texto, muitos deles, antes de sua adesão a Jesus
Cristo, experimentaram um modo de viver alicerçado no egoísmo, na avareza, na
fornicação e em outras coisas vergonhosas que expressam uma vida nas “trevas”.
O caminho da luz se manifesta por uma
vida em Cristo. Ele não só andou como filho da luz, mas revelou-se a Luz
verdadeira. Ele não somente assumiu atitudes de amor, mas é a essência do amor.
A pessoa unida a ele também é filha da luz: sabe discernir “o que é agradável
ao Senhor” e produz “frutos de bondade, justiça e verdade”. Quem se decide a
seguir Jesus não só rompe com as “obras infrutuosas das trevas”, como também exerce
a função profética de denúncia dessas obras. O que é mau e feito às ocultas
deve ser trazido à luz, a fim de que se torne manifesto ao público e seja
corrigido para o bem de todos. Quem segue Jesus jamais pode ser cúmplice da
maldade, da corrupção, da mentira…
Jesus nos fez participantes da sua
própria natureza divina. Portanto, tal como viveu Jesus – a Luz de Deus no
mundo –, também nós temos a graça de viver de tal modo, que a luz divina brilhe
no mundo por meio da inteireza do ser e da retidão do agir.
Pistas para reflexão
– Viver na luz de Deus é o tema central
das leituras deste domingo. Pelo relato da eleição de Davi, conforme o primeiro
livro de Samuel, Deus chama as pessoas não com base nas aparências. Ele não
segue o padrão dominante da sociedade. A unção de Davi aponta para o nosso
batismo. Fomos ungidos: revestidos de Cristo. Fomos eleitos por Deus, que
concede a cada um de nós uma missão segundo os diferentes dons. Deus quis
contar com Davi para que assumisse a missão de servir ao povo como um
governante justo. É uma indicação muito importante para quem assume cargos de
responsabilidade social. Deus conta conosco para levar adiante o seu plano de
amor e justiça no mundo. Ele é a Luz que brilha nas trevas. A salvação que ele
oferece à humanidade depende da resposta que damos ao seu chamado.
– Jesus é a Luz do mundo. Caminhou
neste mundo fazendo o bem, curando as pessoas e dissipando as trevas. A cura do
cego de nascença vai além do sentido físico. É libertação das influências das
ideologias dominantes. Somos cegos quando entramos no jogo da ambição de poder
e deixamos de servir humildemente o próximo; quando nos consideramos superiores
aos outros e quebramos a fraternidade; quando acumulamos para nós mesmos o que
Deus ofereceu para a vida de todos… Jesus curou o cego misturando a sua saliva
com a terra. A terra que Deus nos deu é sagrada, manifesta a sua bondade,
oferece recursos para uma vida saudável. Podemos ampliar esse sentido,
estabelecendo relações com o tema da CF: “Fraternidade e tráfico humano”.
– Viver como filhos da luz. Deus nos
concede a liberdade de escolha: caminhar na luz ou nas trevas. São bem
conhecidas as obras das trevas: corrupção, mentira, violência, hedonismo e tudo
o que prejudica o ser humano e a natureza. É tempo de revisão de vida e de
conversão: Deus nos oferece a oportunidade de sair das trevas para a luz. O
discípulo missionário de Jesus escolhe o caminho da verdade, da justiça e da
bondade; assume o risco de ser autêntico e se empenha na construção de outro
mundo possível.
Celso Loraschi
“O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”
Estamos no ano
liturgia que coloca no tempo da quaresma os grandes temas batismais que
marcaram o catecumenato dos primeiros séculos. Os que se preparam para a nova
vida, para morrer e renascer, recebem uma iluminação do alto. O cego de
nascença lavou-se e começou a enxergar. Os que são batizados lavaram sua vida e
passaram e enxergar a trilha da plenitude.
Na carta aos efésios,
proclamada na liturgia desse domingo, Paulo fala da luz: “Irmãos,
outrora, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.
E o fruto da luz chama-se bondade, justiça, verdade”.
Longa e riquíssima a
descrição da cura do cego de nascença, texto muito trabalhado pelo autor do
quarto evangelho.
Jesus se declara a
luz no meio das trevas. E realiza um gesto extremamente simples e mesmo
curioso: “Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os
olhos do cego”. Já se poderia ver aí qualquer coisa dos sinais do sacramentos.
O cego passa a enxergar depois de ter se lavado na piscina de Siloé. No
final do texto o que foi curado faz um ato de fé em Cristo. Encontrando o cego,
Jesus pergunta: “Acreditas no Filho do homem?’ Respondeu ele:‘Quem é,
Senhor, para que eu creia nele?” Jesus disse: ‘Tu estás vendo; é aquele que
está falando contigo’. Exclamou ele: “Eu creio, Senhor!”. E prostrou-se diante
de Jesus”. Num primeiro momento o cego tem as vistas do corpo curadas.
Depois os olhos do coração.
Entre os ouvintes de
Jesus há muitos que dizem enxergar e se revoltam com os gestos “iluminadores”
desse que se dizia a luz do mundo. Há pessoas que foram se tornando
insensíveis e mesmo vendo, chegam a não ver. “Eu vim a este mundo para exercer
um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam e os que vêem se tornem
cegos”.
O batismo é o grande
sacramento da iluminação. Cristo vivo e ressuscitado continua chamando
discípulos que mergulham em sua paixão,morte e ressurreição. Não se trata de um
rito qualquer, mas um mergulhar na vida nova de Cristo que é proposto para os
que se sentem fascinados por Cristo, pelo Evangelho e pelo Reino. E a luz da
Páscoa,simbolizada no círio pascal, ilumina casamento, vida familiar,
vida profissional, transformação do mundo, doença, a vida... Os discípulos de
Jesus.
No final do trecho de
Paulo aos efésios, retomando uma palavra do Antigo Testamento, escreve:
“Desperta, tu que dormes, levanta-te, dentro os mortos, e sobre ti Cristo
resplendecerá”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
A Luz do Cristo
Assim como o penúltimo domingo do
Advento é o domingo da alegria (gaudete), assim também o quarto domingo
quaresmal. O canto da entrada nos convida a associarmo-nos aos romeiros
judaicos que subiam em romaria a Jerusalém: laetare Jerusalém,
“alegra-te, Jerusalém, porque tua salvação superará tua tristeza”. O celebrante
usa paramentos cor de rosa (a origem é que este domingo coincide com a
tradicional festa das rosas, na Itália). O canto de entrada nos coloca na
companhia dos que jubilosos sobem a Jerusalém. Ficamos animados com a renovação
interior que a quaresma nos traz e que dá força para continuar o caminho.
O tema da alegria, presente também na
oração do dia e na oração sobre as oferendas, preside sobretudo à 2ª leitura e
ao evangelho (o qual era lido, antigamente, no dia dos escrutínios dos
catecúmenos que se preparavam para o batismo na noite pascal). A 2ª leitura
(“Cristo te iluminará”, Ef. 5,14) é um texto batismal, que nos faz entender
melhor o evangelho, igualmente batismal. Jesus é a luz do mundo (Jô 9,5) e abre
os olhos ao cego pelo banho no “Siloé, que significa: enviado” (9,7). Além de
ser uma alusão ao simbolismo batismal, o evangelho é também uma lição de fé: os
diálogos revelam sempre mais firme e decidida a fé do ex-cego, enquanto cresce
a má vontade dos fariseus. No fim, o homem é excluído da sinagoga – sorte de
muitos judeu-cristãos no fim do século I – mas, ao reencontrar Jesus, chega a
professar sua fé e a adorar Jesus, fazendo jus ao sinal que recebera (a
abertura dos olhos, sinal do batismo). E como está a nossa coerência batismal?
A alegria que a liturgia evoca é a luz
de Cristo, que iluminará os que vão receber o batismo na noite pascal. Receber
o banho no “enviado” para receber nova visão. O batismo, na Igreja antiga, era
chamado “iluminação”. O prefácio (próprio) explicita isso. A 1ª leitura
apresenta o tema da unção do rei Davi. Destacando a dignidade do rei e
sacerdote, nos lembra o Cristo-Ungido-Messias e, ao mesmo tempo, nossa unção
batismal em Cristo. Dentro dessa narrativa aparece outro tema que pode reter
nossa atenção: o homem vê a aparência, Deus vê o coração. Pensamento salutar no
tempo quaresmal. Nosso coração deve ser posto em dia para ser enxergado por
Deus (estamos na tradicional semana dos “escrutínios” preparatórios do
batismo). Para que a luz de Cristo nos ilumine é preciso termos o coração puro,
voltarmos à limpeza batismal. O salmo responsorial associa-se ao tema de
Davi-pastor.
A quaresma deve ser vista como tempo de
preparação à proclamação renovada de nossa fé batismal. Então, “Cristo nos
iluminará” (cf. 2ª leitura). A conversão quaresmal é renovação de nosso
batismo, oportunidade para assumi-lo conscientemente.
Johan Konings
"Liturgia dominical"
A liturgia de hoje
traz muitos ensinamentos de valores, começando pelo preconceito que existe na
sociedade, inclusive entre os próprios discípulos que acreditavam ser a
cegueira um castigo enviado por Deus.
O homem foi criado
para viver plena e verdadeiramente a digna condição humana. E, o cego de
nascença, principal personagem do evangelho de hoje, representa o povo oprimido
que não tem consciência de sua condição, e vive de forma desvirtuada do fim
para o qual foi criando.
Ao fazer o cego
enxergar, Jesus demonstra a missão para a qual foi enviado e que, também, é
compromisso de todo aquele que nele crê, abrir os olhos do mundo para as
verdades do Reino de Deus: a justiça, a partilha, a fraternidade.
Para realizar esse
milagre, Jesus não precisava usar instrumento algum, porém, ele faz barro que
simboliza a origem do homem, e dessa origem ele o traz de volta à luz. O
Evangelho mostra ainda a situação de opressão em que vivem os cristãos naquela
época. Para não ter o poder ameaçado, as autoridades recorrem a todos os
recursos disponíveis: primeiro tentam transformar o milagre em fraude,
questionando a verdadeira cegueira daquele homem e, ao perceberem que isso não
é possível, usam da lei de Moisés para dizer que não se trata de uma obra de
Deus, pois, o milagre se deu em um sábado, colocando dessa forma a observância
da lei à frente do bem da humanidade. Por fim, não tendo mais argumentos para
derrubar a graça de Deus presente naquele homem, usam da força de sua
autoridade para expulsá-lo do templo, no desejo de que vivesse à margem da
sociedade.
A cegueira lembra o
afastamento e o pecado; o lavar-se na piscina recorda a imersão na água,
fazendo uma referência ao batismo; e a luz simboliza a fé. Jesus é a água que
lava e purifica, e todos são convidados a se aproximar dessa fonte para
enxergar.
Curado por Jesus e
fortalecido pela fé, o cego enfrenta seus opressores e passa a fazer parte da
comunidade que anuncia a verdade, ajudando a abrir os olhos daqueles que ainda
permanecem na escuridão.
Pequeninos do Senhor.
Cegueira e visão
As duas posturas diante dos sinais
realizados por Jesus podem ser definidas como cegueira e visão. São a dos
fariseus e a do cego de nascença. O incidente em torno da cura do cego revelou
a cegueira dos fariseus e o alto grau de visão daquele que tinha sido curado.
Tudo se define em torno da capacidade de confessar Jesus como o Messias, diante
do testemunho de suas obras.
Os fariseus, aferrados aos seus
esquemas mentais, recusavam-se a admitir que realmente foi Jesus quem
restituíra a visão ao cego de nascença. Eles raciocinavam assim: as Escrituras
afirmam que o Messias, quando vier, haverá de curar os cegos. Como o milagre
tinha sido operado em dia de sábado e o Messias, no pensar deles, seria
fidelíssimo às leis religiosas do povo; e já suspeitando de Jesus, concluíram
que ele não se encaixava na categoria de Messias. Embora não encontrassem
explicação plausível para a cura do cego, não mudavam suas idéias a respeito de
Jesus. Eles pensavam que Jesus não podia ser de Deus, pois era um pecador.
O cego de nascença, porém, adquiriu
tanto a visão física quanto a visão da fé. Tendo sido procurado por Jesus, e
dando-se conta de tratar-se do Messias, prostrou-se diante dele, fazendo sua
confissão de fé: "Eu creio, Senhor!"
Só quem, de fato, "vê", pode
fazer a experiência de fé; não quem se deixa enganar por falsos esquemas
teológicos
padre Jaldemir
Vitório
A fé batismal é iluminação
Este texto do
evangelho de João pode ser caracterizado como uma catequese sobre a fé, num
contexto batismal. Temática, aliás, muito apropriada para o tempo da Quaresma,
pois, além de ser um itinerário penitencial, esse tempo de preparação para a
Páscoa do Senhor é um convite a aprofundarmos a nossa vocação cristã a partir
do Batismo. O texto, grosso modo, é a afirmação de que a fé que recebemos é
iluminação. É pela fé que chegamos a contemplar e professar a verdadeira
identidade de Jesus de Nazaré.
É preciso, antes de
tudo, ter presente essa afirmação que está no centro do trecho do livro de
Samuel: o Senhor não vê a aparência, mas o que está no coração (cf. 1Sm 16,7).
O Senhor não julga à maneira dos homens. Deus não se deixa levar pela
aparência. No contexto da Quaresma, e para além dela, somos convidados a
desejar ver para além das aparências, e considerar o coração, o que a pessoa
efetivamente é. Aí não há engano. O que transforma o nosso olhar e faz com que
seja semelhante ao olhar de Deus sobre cada pessoa é a fé, que é iluminação.
No centro do evangelho de hoje está a afirmação de Jesus: “Enquanto eu estou no mundo eu sou a Luz do mundo” (v. 5). O que interessa nesse relato do cego de nascença não é propriamente a sua cura, palavra, aliás, que não figura no texto, mas o seu itinerário de fé, itinerário ao fim do qual ele chega a professar que Jesus é o Senhor (v. 38). Quando foi expulso da sinagoga, imagem dos cristãos expulsos da sinagoga, era a fé em Jesus que o sustentava. O seu itinerário é um caminho de amadurecimento da fé, que o permitiu professar a fé ao modo de Tomé no final desse mesmo quarto evangelho (Jo 20,28). Tomé passa da dúvida e da tentação de querer chegar à fé por si mesmo a uma adesão incondicional à pessoa de Jesus Cristo. O Senhor professado pelo que antes era cego não é alguém distante, mas uma pessoa que fala com ele, que entra em diálogo com ele (cf. Jo 9,35-38), aquele que lhe abriu os olhos. A mesma luz que faz o cego ver, cega os que pensam ver. É Deus, e somente Ele, que faz com que a luz brilhe nas trevas. Que o Senhor nos conceda sempre a luz da fé e, por ela, mantenha acesa em nós a chama da esperança. Que Deus nos dê a todos a graça da coragem, da audácia, do testemunho que brota e é exigido da fé em Jesus Cristo.
No centro do evangelho de hoje está a afirmação de Jesus: “Enquanto eu estou no mundo eu sou a Luz do mundo” (v. 5). O que interessa nesse relato do cego de nascença não é propriamente a sua cura, palavra, aliás, que não figura no texto, mas o seu itinerário de fé, itinerário ao fim do qual ele chega a professar que Jesus é o Senhor (v. 38). Quando foi expulso da sinagoga, imagem dos cristãos expulsos da sinagoga, era a fé em Jesus que o sustentava. O seu itinerário é um caminho de amadurecimento da fé, que o permitiu professar a fé ao modo de Tomé no final desse mesmo quarto evangelho (Jo 20,28). Tomé passa da dúvida e da tentação de querer chegar à fé por si mesmo a uma adesão incondicional à pessoa de Jesus Cristo. O Senhor professado pelo que antes era cego não é alguém distante, mas uma pessoa que fala com ele, que entra em diálogo com ele (cf. Jo 9,35-38), aquele que lhe abriu os olhos. A mesma luz que faz o cego ver, cega os que pensam ver. É Deus, e somente Ele, que faz com que a luz brilhe nas trevas. Que o Senhor nos conceda sempre a luz da fé e, por ela, mantenha acesa em nós a chama da esperança. Que Deus nos dê a todos a graça da coragem, da audácia, do testemunho que brota e é exigido da fé em Jesus Cristo.
Carlos Alberto Contieri,sj
O Evangelho de hoje é mais uma
belíssima catequese batismal que nos prepara para a santa Páscoa. Não
esqueçamos que em muitas paróquias adultos estão terminando seus preparativos
para o Batismo.
No Domingo passado, no Evangelho da
Samaritana, vimos que Jesus é o Messias que dá a verdadeira água do Espírito
Santo, água que jorra para a vida eterna.
Neste hoje, “ao passar, Jesus viu um
homem cego de nascença”. Esse homem simboliza os judeus; pode simbolizar também
a humanidade toda. Os discípulos, apegados a uma crença popular antiga, tão
combatida por Jeremias e Ezequiel, pensavam que o cego estava pagando pelos
pecados seus ou dos seus antepassados. É a uma crença errada, semelhante à
superstição da reencarnação: “Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus
pais?” Não há resposta, não há explicação! Os segredos da vida pertencem a
Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o
mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está
conosco e nos fortalece: “Nem ele nem seus pais pecaram: isso serve para que as
obras de Deus se manifestem nele!” Até na dor e no sofrimento Deus está
presente quando somos abertos à sua presença. Pena que nosso mundo superficial
e incrédulo não compreenda isso... Se se abrisse para Jesus, o Inocente
crucificado e morto... Na sua luz, contemplamos a luz da vida: “Enquanto estou
no mundo, eu sou a luz do mundo!” Mas, o nosso mundo se fecha na sua
racionalidade cega e orgulhosa...
Jesus, cospe no chão e faz lama. A
saliva, para os judeus, continha o espírito; simboliza, então, como a água, o
dom do Espírito. Depois, Jesus ordena: “Vai lavar-te na piscina de Siloé!” É a
piscina do Enviado de Deus, do Messias, imagem da piscina do nosso Batismo, na
qual somos iluminados pelo Senhor que é luz do mundo! Por isso o homem vai e
retorna vendo. Eis o que é o cristão, o discípulo de Cristo: aquele que era
cego, foi lavado na piscina batismal e voltou vendo. Porque ele vê, os judeus o
expulsam da sinagoga, como o mundo também nos expulsa de sua amizade a apreço!
Não somos do mundo, como o Senhor nosso não é do mundo; ele nos separou do
mundo! Agora, curado da cegueira, aquele que foi iluminado pode ver Jesus; ver
com a fé, ver a realidade mais profunda, ver que ele é o Senhor, Filho de Deus:
“Acreditas no filho do Homem?’ ‘Quem é, Senhor para que eu creia nele?’ Jesus
disse: ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo!’” Para isso te
curei, para isso fiz-te enxergar! “’Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de
Jesus!”
Também nós fomos iluminados pelo Cristo
no Batismo. Para nós valem as palavras de São Paulo: “Outrora éreis treva, mas
agora sois luz no Senhor! Vivei como filhos da luz! Não vos associeis às
obras das trevas!” Eis, caros irmãos: iluminados por Cristo não podemos pensar
como o mundo, sentir como o mundo, agir como o mundo! Devemos viver na luz e
ser luz para o mundo! Mas, não é fácil; não basta querer! Sem a graça do
Senhor, nada conseguiremos, a não ser sermos infiéis! Por isso a necessidade
dos exercícios quaresmais; por isso a oração, a penitência e a caridade
fraterna, por isso a necessidade da confissão de nossos pecados! Não nos
esqueçamos: não poderemos zombar de Cristo: seremos julgados na sua luz: “Eu
vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam
e os que vêem se tornem cegos!” – Eu vim para revelar a luz aos humildes, aos
que se abrem à minha Palavra e à minha Presença, e vim revelar a cegueira do
mundo confiado na sua própria razão, na prepotência de seus próprios caminhos!
Porque este mundo diz que vê, que sabe, que está certo, seu pecado permanece!
Somente se abrir-se para a luz do Cristo, caminhará na luz e enxergará de
verdade!
E nós, caminhamos na luz ou
permanecemos nas trevas? Que o Senhor ilumine a nossa vida.
dom Henrique Soares
da Costa
As leituras deste domingo propõem-nos o
tema da “luz”. Definem a experiência cristã como “viver na luz”.
No Evangelho, Jesus apresenta-se como
“a luz do mundo”; a sua missão é libertar os homens das trevas do egoísmo, do
orgulho e da auto-suficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um
caminho de liberdade e de realização que conduz à vida plena. Da ação de Jesus
nasce, assim, o Homem Novo – isto é, o Homem elevado às suas máximas
potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus.
Na segunda leitura, Paulo propõe aos
cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (“trevas”) e que escolham a
“luz”. Em concreto, Paulo explica que viver na “luz” é praticar as obras de
Deus (a bondade, a justiça e a verdade).
A primeira leitura não se refere
diretamente ao tema da “luz” (o tema central na liturgia deste domingo). No
entanto, conta a escolha de David para rei de Israel e a sua unção: é um ótimo
pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia do nosso batismo e
que nos constituiu testemunhas da “luz” de Deus no mundo.
1ª leitura – 1Sam.
16,1b.6-7.10-13ª – AMBIENTE
Na segunda metade do séc. XI a.C., os
filisteus constituíam uma ameaça bastante séria para as tribos do Povo de Deus.
Instalados na orla costeira, os filisteus pressionavam cada vez mais os outros
grupos que habitavam a terra de Canaã, nomeadamente as tribos do Povo de Deus que
ocupavam as montanhas do interior do país. A necessidade de uma liderança única
e forte levou os anciãos das tribos a equacionar, pela primeira vez, a
possibilidade da união política das tribos sob a autoridade de um rei, à imagem
do que sucedia com os outros povos da zona.
A primeira experiência monárquica
aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do país.
Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho
Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus, por volta
do ano 1010 a.C.
Era preciso encontrar um outro “herói”,
capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las
vitoriosamente ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos –
tanto das tribos do norte, como das tribos do sul – recaiu, então, num jovem
chamado David.
David nasceu por volta de 1040 a.C., em
Belém de Judá, no sul do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de
forma a ser considerado uma solução para o problema da realeza?
O livro de Samuel apresenta três
tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta David como um
admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a
sua vitória sobre o gigante filisteu Golias (cf. 1 Sm 17). A segunda tradição
apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar
harpa (segundo esta tradição – bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia
reencontrar a calma e o bem estar quando David o acalmava com a sua música –
cf. 1 Sm 16,14-23. Aos poucos, o poeta/cantor David foi ganhando adeptos na
corte, tornando-se amigo de Jónatas, o filho de Saúl, e casando mesmo com
Mical, a filha do rei). Finalmente, a terceira tradição – a menos verificável
historicamente, mas a de maior importância teológica – apresenta a realeza de
David como uma escolha de Jahwéh. É esta terceira tradição que o nosso texto
nos apresenta.
MENSAGEM
O nosso relato apresenta-nos uma bem
elaborada reflexão sobre a eleição. O autor do texto pretende mostrar que a
lógica de Deus é bem diferente, neste capítulo, da lógica dos homens.
Antes de mais, David é apresentado como
o eleito de Jahwéh. É sempre Jahwéh que escolhe aqueles a quem quer confiar uma
missão. Nem a Samuel – o seu enviado – Jahwéh dá qualquer explicação. A eleição
não resulta da iniciativa do homem, mas sim da iniciativa e da vontade livre de
Deus.
Em segundo lugar, impressiona a lógica
da escolha de Deus. Samuel raciocina com a lógica dos homens e pretende ungir
como rei o filho mais velho de Jessé de Belém, impressionado pelo seu belo
aspecto e pela sua estatura; mas não é essa a escolha de Deus… Samuel percebe,
finalmente, que a escolha de Deus recai sobre David – o filho mais novo de
Jessé – um jovem anônimo e desconhecido que andava a guardar o rebanho do pai.
A história da eleição de David quer
sublinhar a lógica de Deus, que escolhe sem ter em conta os méritos, o aspecto
ou as qualidades humanas que costumam impressionar os homens. Pelo contrário,
Deus escolhe e chama, com frequência, os pequenos, os mais fracos, aqueles que
o mundo marginaliza e considera insignificantes; e é através deles que age no
mundo.
Fica, assim, claro que quem leva a cabo
a obra da salvação é Deus; os homens são apenas instrumentos, através dos quais
Deus realiza a sua obra no mundo.
ATUALIZAÇÃO
• Se olharmos para o mundo com olhos de
esperança, vemos muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a
miséria, o sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência… Não
há mal nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu
empenho e compromisso. No entanto, nós os crentes somos convidados a olhar mais
além e a ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de
compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a
construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para
colaborarem com Ele na salvação do mundo.
• A nossa leitura mostra, mais uma vez,
que Deus tem critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem
sempre coincide com a nossa. “Deus não vê como o homem; o homem olha às
aparências, o Senhor vê o coração” – diz o texto. É preciso entrar na lógica de
Deus e aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do
“curriculum” profissional ou acadêmico; é preciso aprender a ver com o coração
e a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem
insignificantes e sem pretensões… É preciso, sobretudo, aprender a respeitar a
dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas
importantes ou influentes. É isso que acontece nos “guichets” dos nossos
serviços públicos? É isso que acontece nas recepções das nossas igrejas? É isso
que acontece nas portarias das nossas casas religiosas?
2ª leitura – Ef
5,8-14 - AMBIENTE
A Carta aos Efésios é, provavelmente,
um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias Igrejas da Ásia
Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma? em Cesareia?). O seu
portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.
Alguns vêem nesta carta uma espécie de
síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo sente ter terminado a sua
missão apostólica na Ásia e não sabe exatamente o que o futuro próximo lhe
reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não sabe como
vai terminar o cativeiro).
O tema central da Carta aos Efésios é
aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projeto) salvador de
Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos aos homens,
revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos,
desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto faz
parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte da carta (cf.
Ef. 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas tradicionais da catequese
primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver para
assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef. 4,17-31), imitando Deus (cf.
Ef. 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef. 5,3-20).
MENSAGEM
A imagem da “luz” e das “trevas”, aqui
utilizada, é uma imagem que aparecia frequentemente na catequese primitiva,
como sugere o seu uso nos textos neo-testamentários, sobretudo em João e Paulo
(cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1 Jo 1,5-7; 2,9-11; Rom 2,19; 2 Cor 4,6; 1 Tess
5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para
definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se opõe a Deus (trevas).
Para Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores, no egoísmo e na auto-suficiência. Ao contrário, viver na “luz” é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a liberdade, tornar-se “filho de Deus”.
Para Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores, no egoísmo e na auto-suficiência. Ao contrário, viver na “luz” é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a liberdade, tornar-se “filho de Deus”.
Os cristãos são aqueles que escolheram
viver na “luz”. Paulo, dirigindo-se aos cristãos da parte ocidental da Ásia
Menor, exorta-os a viverem na órbita de Deus, como Homens Novos, e a praticarem
as obras correspondentes à opção que fizeram pela “luz”. Em concreto, Paulo
pede-lhes que as suas vidas sejam marcadas pela bondade, pela justiça e pela
verdade. A propósito, Paulo cita um velho hino cristão batismal, que convoca os
crentes para viverem na “luz” (v. 14).
Mais ainda: o cristão não é só chamado
a viver na “luz”; mas deve desmascarar as “trevas” e denunciar as obras e os
comportamentos daqueles que escolhem viver nas “trevas” do egoísmo, da mentira,
da escravidão e do pecado. O cristão não deve só escolher a luz, mas deve
também desmascarar as obras das “trevas”, de forma aberta e decidida.
ATUALIZAÇÃO
• “Luz” e “trevas” são, nesta passagem,
duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua
vida, as suas opções, os seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto,
é aquele que optou por “viver na luz”. Para mim, o que significa, em concreto,
“viver na luz”? O que é que isso, em termos práticos, implica? Quais são os
esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da
minha vida, a fim de que eu seja um testemunho da “luz”?
• Para Paulo, não chega “viver na luz”
e dar testemunho da “luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e
decidida – as “trevas” que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos. Na
minha perspectiva, quais são os gestos, comportamentos e atitudes que
contribuem para apagar a “luz” de Deus e para manter este mundo nas “trevas”?
Com que é que eu devo pactuar e o que é que eu devo denunciar?
• A expressão “desperta tu que dormes”,
citada por Paulo, convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços
cruzados diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos
contra-valores que enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de
manter uma atitude de vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa. Diante
dos contra-valores, qual a minha atitude: é a atitude comodista de quem deixa
correr as coisas porque não está para se chatear, ou é a atitude de quem se
sente realmente incomodado com a escuridão do mundo e pretende intervir para
que o mundo se construa de uma forma diferente?
Evangelho – Jo.
9,1-41 - AMBIENTE
Já vimos, na semana passada, que o
Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus,
enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Também vimos que, no chamado “Livro
dos Sinais” (cf. Jo. 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da
água (cf. Jo. 4,1-5,47), do pão (cf. Jo. 6,1-7,53), da luz (cf. Jo. 8,12-9,41),
do pastor (cf. Jo. 10,1-42) e da vida (cf. Jo. 11,1-56) – um conjunto de
catequeses sobre a ação criadora do Messias.
O nosso texto é, exatamente, a terceira
catequese (a da luz) do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da “luz”, o
autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. A catequese sobre
a “luz” é colocada no contexto da “Festa de Sukkot” (a festa das colheitas); um
dos ritos mais populares dessa festa era, exatamente, a iluminação dos quatro
grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém.
No centro do quadro aparece-nos (além
de Jesus) um cego. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade
palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas – pela teologia
oficial – como resultado do pecado (os rabbis da época chegavam a discutir de
onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era
o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido
pela criança no ventre da mãe).
Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.
Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.
MENSAGEM
O nosso texto não é uma reportagem
jornalística sobre a cura de um cego; mas é uma catequese, na qual se apresenta
Jesus como a “luz” que veio iluminar o caminho dos homens. O “cego” da nossa
história é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão,
privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à
plenitude da vida. A reflexão apresenta-se em vários quadros.
No primeiro quadro (vs. 2-5), Jesus
apresenta-se como “a luz do mundo”. Jesus e os discípulos estão diante de um
cego de nascença. De acordo com a teologia da época, o sofrimento era sempre
resultado do pecado; por isso, os discípulos estavam preocupados em saber se
foi o cego que pecou ou se foram os seus pais. Jesus desmonta esta perspectiva
e nega qualquer relação entre pecado e sofrimento. No entanto, a ocasião é
propícia para ir mais além; e Jesus aproveita-a para mostrar que a missão que o
Pai lhe confiou é ser “a luz do mundo” e encher de “luz” a vida dos que vivem
nas trevas.
No segundo quadro (vs. 6-7), Jesus
passa das palavras aos atos e prepara-se para dar a “luz” ao cego. Começa por
cuspir no chão, fazer lodo com a saliva e ungir com esse lodo os olhos do cego.
O gesto de fazer lodo reproduz, evidentemente, o gesto criador de Deus de Gn.
2,7 (quando Deus amassou o barro e modelou o homem). A saliva transmitia,
pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus, que
deu vida a Adão – cf. Gn. 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria
energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um
Homem Novo, animado pelo Espírito de Jesus.
No entanto, a cura não é imediata:
requer-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé” – diz-lhe
Jesus. A disponibilidade do cego em obedecer à ordem de Jesus é um elemento
essencial na cura e sublinha a sua adesão à proposta que Jesus lhe faz. A
referência ao banho na piscina do “enviado” (o autor deste texto tem o cuidado
de explicar que Siloé significa “enviado”) é, evidentemente, uma alusão à água
de Jesus (o enviado do Pai), essa água que torna os homens novos, livres das
trevas/escravidão. A comunidade joânica pretenderá, certamente, fazer aqui uma
catequese sobre o batismo: quem quiser sair das trevas para viver na luz, como
Homem Novo, tem de aceitar a água do batismo – isto é, tem de optar por Jesus e
acolher a proposta de vida que Ele oferece.
Depois, o autor do texto coloca em cena
várias personagens; essas personagens vão assumir representar vários papéis e
assumir atitudes diversas diante da cura do cego.
Os primeiros a ocupar a cena são os
vizinhos e conhecidos do cego (vs. 8-12). A imagem do cego, dependente e
inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos
a interrogar-se. Percebem que de Jesus vem o dom da vida em plenitude; talvez
anseiem pelo encontro com Jesus, mas não se atrevem a dar o passo definitivo
(ir ao encontro de Jesus) para ter acesso à “luz”. Representam aqueles que
percebem a novidade da proposta que Jesus traz, que sabem que essa proposta é
libertadora, mas que vivem na inércia, no comodismo e não estão dispostos a
sair do seu “cantinho”, do seu mundo limitado, para ir ao encontro da “luz”.
Um outro grupo que aparece em cena é o
dos fariseus (vs. 13-17). Eles sabem perfeitamente que Jesus oferece a “luz”;
mas recusam-na liminarmente. Para eles, interessa continuar com o esquema das
“trevas”. Representam aqueles que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas
não estão dispostos a acolhê-la. Sentem-se mais confortáveis nos seus esquemas
de escravidão e auto-suficiência e não estão dispostos a renunciar às “trevas”.
Mais: opõem-se decididamente à “luz” que Jesus oferece e não aceitam que alguém
queira sair da escravidão para a liberdade. Quando constatam que o homem curado
por Jesus não está disposto a voltar atrás e a regressar aos esquemas de
escravidão, expulsam-no da sinagoga: entre as “trevas” (que os dirigentes
querem manter) e a “luz” (que Jesus oferece), não pode haver compromisso.
Depois, aparecem em cena os pais do
cego (vs. 18-23). Eles limitam-se a constatar o acontecimento (o filho nasceu
cego e agora vê), mas evitam comprometer-se. Na sua atitude, transparece o medo
de quem é escravo e não tem coragem de passar das “trevas” para a “luz”. O texto
explica, inclusive, que eles “tinham medo de ser expulsos da sinagoga”. A
“sinagoga” designava o local do encontro da comunidade israelita; mas
designava, também, a própria comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da
“sinagoga” significava a excomunhão, o risco de ser declarado herege e
apóstata, de perder os pontos de referência comunitários, o cair na solidão, no
ridículo, no descrédito e na marginalidade. Preferem a segurança da ordem
estabelecida – embora injusta e opressora – do que os riscos da vida livre.
Representam todos aqueles que, por medo, preferem continuar na escravidão, não
provocar os dirigentes ou a opinião pública, do que correr o risco de aceitar a
proposta transformadora de Jesus.
Finalmente, reparemos no “percurso” que
o homem curado por Jesus faz. Antes de se encontrar com Jesus, é um homem
prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. Depois, encontra-se com Jesus
e recebe a “luz” (do encontro com Jesus resulta sempre uma proposta de vida
nova para o homem). O relato descreve – com simplicidade, mas também de uma
forma muito bela – a progressiva transformação que o homem vai sofrendo. Nos
momentos imediatos à cura, ele não tem ainda grandes certezas (quando lhe
perguntam por Jesus, responde: “não sei”; e quando lhe perguntam quem é Jesus,
ele responde: “é um profeta”); mas a “luz” que agora brilha na sua vida vai-o
amadurecendo progressivamente. Confrontado com os dirigentes e intimado a
renegar a “luz” e a liberdade recebidas, ele torna-se, em dado momento, o homem
das certezas, das convicções; argumenta com agilidade e inteligência, joga com
a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra o homem adulto, maduro,
livre, sem medo… É isso que a “luz” que Jesus oferece produz no homem.
Finalmente, o texto descreve o estádio final dessa caminhada progressiva: a
adesão plena a Jesus (vs. 35-38). Encontrando o ex-cego, Jesus convida-o a
aderir ao “Filho do Homem” (“acreditas no Filho do Homem?” - v. 35); a resposta
do ex-cego é a adesão total: “creio, Senhor” (v. 38). O título “Senhor”
(“kyrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus,
o Senhor glorioso. Diz, ainda, o texto, que o ex-cego se prostrou e adorou
Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o projeto de Homem Novo que Deus
apresenta aos homens, aderir a Ele e segui-l’O.
Neste percurso está simbolicamente
representado o “caminho” do catecúmeno. O primeiro passo é o encontro com
Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua adesão à “luz” e vai amadurecendo a
sua descoberta… Torna-se, progressivamente, um homem livre, sem medo,
confiante; e esse “caminho” desemboca na adesão total a Jesus, no
reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a história e que tem uma
proposta de vida para o homem… Depois disto, ao cristão nada mais interessa do
que seguir Jesus.
A missão de Jesus é aqui apresentada
como criação de um Homem Novo. Deus criou o homem para ser livre e feliz; mas o
egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, dominaram o coração do homem,
prenderam-no num esquema de “cegueira” e frustraram o projeto de Deus. A missão
de Jesus consistirá em destruir essa “cegueira”, libertar o homem e fazê-lo
viver na “luz”. Trata-se de uma nova criação… Assim, da ação de Jesus irá
nascer um Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, a
caminho da vida em plenitude.
ATUALIZAÇÃO
• Nós, os crentes, não podemos
fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à
nossa volta só há escuridão… No entanto, também não podemos esconder a cabeça
na areia e dizer que tudo está bem. Há, objetivamente, situações, instituições,
valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus
e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. O que é que, no nosso mundo,
gera escuridão, trevas, alienação, cegueira e morte? O que é que impede o homem
de ser livre e de se realizar plenamente, conforme previa o projeto de Deus?
• A catequese que João nos propõe hoje
garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz
libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e auto-suficiência que geram
“trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor. Aderir a
esta proposta é viver na “luz”. Como é que eu me situo face ao desafio que, em
Jesus, Deus me faz?
• O Evangelho deste domingo descreve
várias formas de responder negativamente à “luz” libertadora que Jesus oferece.
Há aqueles que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão
instalados na mentira e a “luz” de Jesus só os incomoda; há aqueles que têm
medo de enfrentar as “bocas”, as críticas, que se deixam manipular pela opinião
dominante, e que, por medo, preferem continuar escravos do que arriscar ser
livres; há aqueles que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, deixam
que o comodismo e a inércia os prendam numa vida de escravos… Eu identifico-me
com algum destes grupos?
• O cego que escolhe a “luz” e que
adere incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora é o modelo que
nos é proposto. A Palavra de Deus convida-nos, neste tempo de Quaresma, a um
processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que nos escraviza, nos
aliena, nos oprime – no fundo, tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de
Deus e que impede a nossa plena realização. Para que a celebração da
ressurreição – na manhã de Páscoa – signifique algo, é preciso realizarmos esta
caminhada quaresmal e renascermos, feitos Homens Novos, que vivem na “luz” e
que dão testemunho da “luz”. O que é que eu posso fazer para que isso aconteça?
• Receber a “luz” que Cristo oferece é,
também, acender a “luz” da esperança no mundo. O que é que eu faço para
eliminar as “trevas” que geram sofrimento, injustiça, mentira e alienação? A
“luz” de Cristo que os padrinhos me passaram no dia em que fui batizado brilha
em mim e ilumina o mundo?
P. Joaquim Garrido,
P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho