4º DOMINGO DA PÁSCOA
7 de Maio de 2017
Cor: Branco
Evangelho - Jo 10,1-10
Jesus disse que quem não entra pela
porta principal, mas sim pelos fundos, é ladrão e assaltante. Mas quem entra
pela porta principal, é o verdadeiro pastor, que tem a porta aberta pelo
porteiro. .Continuar lendo
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EU SOU A
PORTA. QUEM ENTRAR POR MIM SERÁ SALVO.” Olívia Coutinho
4º DOMINGO
DA PÁSCOA.
Dia 07 de
Maio de 2017
Evangelho de
Jo10, 1-10
Ainda
estamos vivendo as alegrias do tempo Pascal, um tempo propício para
fazermos um reencontro com as raízes da nossa fé, que se fundamenta na
ressurreição de Jesus! A partir deste encontro, é importante que façamos
uma avaliação da nossa caminhada de fé, confrontando o
nosso comportamento com a palavra de Deus e assim, poder ajustar o nosso
modo de viver com os valores do evangelho!
A ressurreição de Jesus marcou o início da sua presença definitiva
no meio de nós, portanto, este acontecimento não deve ser vivida somente
nestes dias em que a igreja nos oferece a oportunidade de mergulharmos neste
mistério através da riqueza da liturgia deste tempo, devemos viver a
ressurreição de Jesus todos os dias de nossa vida.
Como seguidores de Jesus, devemos dar testemunho da sua
ressurreição, não, com provas históricas, mas com as nossas ações do dia a
dia.
O evangelho que a liturgia deste quarto domingo da Páscoa nos
apresenta, nos desperta, sobre a importância da “escuta” da escuta atenta da
palavra de Deus, é a partir desta escuta, que vamos ajustando os nossos passos
nos passos de Jesus.
Como Bom Pastor, Jesus se apresenta como a única porta de entrada
para o coração do Pai! Sem passarmos por esta porta, ficamos como ovelhas
desprotegidas, vulneráveis aos
ataques dos lobos vorazes que estão por aí, a nos espreitar!
Querer passar
pela a experiência do coração misericordioso e acolhedor de Jesus para
chegar ao Pai, é conscientizar da nossa verdadeira origem e do
nosso destino: “Viemos do Pai e para o Pai retornaremos.
O Pai,
no seu infinito amor, nos entregou aos cuidados do Filho, o Bom Pastor, que nos
acolheu com o mesmo amor do Pai, nos colocando acima de sua própria vida!
Ao se colocar
como o Bom Pastor, Jesus deixa claro que Ele é um Pastor, totalmente
diferente dos que se dizem pastores, mas não tem compromisso com o seu
rebanho, não se importam com o bem viver de suas ovelhas! Ao contrário
destes “pastores,” Jesus não quer que nenhuma de suas ovelhas se perca, e, se
por ventura, alguma delas desviar do caminho, seduzida por estes falsos
pastores, Ele vai a sua procura, não desiste de esperar pelo seu retorno,
estará sempre de braços abertos para acolhê-la de volta, pois para Jesus, não
existe caminho sem volta e nem ponto final para uma historia de amor!
Escutar e
colocar em prática os ensinamentos de Jesus é ser uma ovelha fiel ao Bom Pastor! Fiéis ao Bom
Pastor, estaremos amparados, protegidos, contra os falsos pastores,
aqueles que tentam nos seduzir com proposta enganosas, portas largas que a
princípio podem nos parecer atrativas, mas que nos levam a morte e não a
vida!
A todos nós,
que confiamos em Jesus, fica o grande desafio: sermos perseverantes na fé em
meio as inverdades do mundo, não deixar
que a voz dos falsos pastores, sobreponha a voz do verdadeiro
Pastor que é Jesus.
Jesus é a
fonte de água viva que sacia nossa sede, a Luz que nos ilumina, o Pão que nos
sustenta, o Pastor que nos conduz, mediante a esta oferta de amor, do que mais
precisamos para sermos felizes?
Ao doar a vida pelas ovelhas que o Pai lhe confiara, Jesus deu a
maior prova de amor pela a humanidade! Diante a esta tão grande prova de
amor, perguntemo-nos: O que temos feito da nossa vida que custou a vida de
Jesus?
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Verdadeiro mérito. Qual pois
mérito (há) se pecando e esbofeteados, aguentais? Mas, se fazendo o bem e
padecendo, aguentais, isto (é) agradável para Deus (20).
Mérito, rumor, fama, glória,
louvor, aplauso que temos traduzido por mérito como mais inteligível e até mais
apropriado. Este vocábulo sai unicamente. Ele é um apax neste
versículo.
Esbofeteados é o particípio
passivo do presente do verbo kolafizö que significa
esbofetear, receber um tapa, bater com o punho, golpear. Também maltratar,
tratar com violência e desprezo. É o que aconteceu com Jesus segundo Mt. 26,67
e Mc. 14,65 na casa de Caifás, onde foi esbofeteado e cuspido pelos escudeiros
do Sumo Pontífice.
Aguentais do verbo ypomenö,
com o significado de permanecer, perseverar, não retroceder, aguentar,
resistir, suportar e tolerar, especialmente se são tratamentos e condutas
impróprias e vexames.
Agradável com o significado de
ser coisa agradável a Deus é uma das traduções, a mais seguida; mas também e
talvez com maior propriedade podemos traduzir por é uma mercê de Deus. A
natureza humana se revolta contra toda a injustiça; porém fazer todo o
contrário, suportar as injúrias injustas é um dom de Deus, como sugere o para
preposição de procedência, com genitivo, ou seja que procede de Deus. Ou seja,
traduziremos isto é um dom que de Deus procede.
Exemplo de Cristo. Pois para
isso fostes chamados, porque também Cristo padeceu por vós, a vós deixando um
exemplo para que sigais nos seus passos (21).
Fostes chamados aoristo do verbo
kaleö com o significado de chamar, convidar, que é uma vocação divina para
imitar o exemplo de Cristo como afirmará mais tarde. Do versículo anterior,
sabemos que são os planos divinos os que acompanham os sofrimentos injustos e
que dentro deles agora o apóstolo toma como exemplar a conduta de Cristo.
Padeceu aoristo de paschö, é o verbo usado por Jesus para indicar
os padecimentos a que seria submetido pelos juízes do Sinédrio (Mt. 16,21 e Mc.
8,31). O por vós é em grego yper ëmön [por nós]
segundo o grego da Nestlé. A Vulgata e o grego católico de Mark usam o nós,
como se Pedro se incluísse dentro dos remidos por Cristo. Do ponto de vista
lógico da frase o vós é o mais correto. Com esta afirmação Pedro supõe a morte
vicária de Cristo, pois o yper grego significa em favor de, por amor de, pelo
benefício de, no lugar de, em vez de como genitivo [no caso].Um exemplo: em
1Cor. 15,19 Paulo fala do caso em que os novos cristãos se batizavam ypernekrön [=
no lugar dos mortos]. Com isto Pedro reforça o dogma da morte vicária de
Cristo, que hoje alguns teólogos criticam como sendo metáfora, pois negam a
justiça divina ao exaltar em demasia a bondade de um Pai demasiado indulgente.
Citam a parábola do filho pródigo, mas esquecem outras passagens do evangelho
em que o fogo eterno é claramente afirmado para os que praticam a iniquidade,
com a mesma rejeição de quem separa os que estão à sua esquerda para o fogo
eterno preparado para o diabo e seus anjos (Mt. 7,23 e 25,41). Exemplo
com o significado de uma cópia escrita e logicamente um exemplo.
Sigais o verbo é usado por Marcos
quando diz que o Senhor cooperava com os pregadores do evangelho confirmando a
palavra com os sinais que se seguiram (Mc. 16,20).
Passos, pegada, pisada, passo
geralmente em plural, como vemos no latim. Evidentemente o apóstolo refere-se
aos sofrimentos dos primeiros cristãos, na época, perseguidos e caluniados em
cujas vicissitudes ele observa que estão seguindo os passos do seu senhor como
este já tinha profetizado (Lc. 21,12) de modo que o discípulo não seja
diferente de seu Mestre (Mt. 10,34-25).
Inocência de Cristo. O qual
pecado não fez, nem se encontrou engano na sua boca (22) O qual insultado, não
revidava o insulto, sofrendo não ameaçava, mas entregava-se ao que julga
justamente (23).
Pedro expõe agora a inocência de
Jesus com duas ideias: não cometeu pecado em obras e não houve mentira em sua
boca. Consequentemente foi um inocente, injustamente castigado com atrozes
tormentos e morte de cruz. Este é o exemplo que devem imitar seus discípulos e
seguidores.
Engano: propriamente isca,
tentação, engodo e daí astúcia, engano, falsidade, fraude, dolo. Pedro coincide
com Tiago que afirma: se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia sua
língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã (1Pd. 2,22). Pedro
apela ao exemplo de Cristo, especialmente durante o tempo de sua paixão. Jesus
não revidou aos insultos como vemos em Mt. 26,62-63, durante o julgamento na
casa de Caifás ou no pátio de Pilatos em Mt. 27,28-30 e no momento da crucifixão
os insultos narrados por Mateus em 27,39-44. Por isso, Jesus entregou sua causa
a Deus, o verdadeiro juiz que julga corretamente.
Cristo nos salvou por suas
chagas. O qual nossos pecados ele carregou no seu corpo sobre o madeiro
para que mortos aos pecados vivamos na justiça, o qual pela chaga fostes
curados (24).
Carregou: é o aoristo do verbo
anaferö com o significado de oferecer no altar, liderar, carregar, suster. Com
esta frase Pedro confirma o dito pela carta aos Hebreus 7,27: Não necessitou
diariamente, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia por seus próprios
pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez uma vez, oferecendo-se a si
mesmo. E em Hebreus 9,28: Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para
tirar os pecados de muitos. Porque como diz Paulo: Aquele que não conheceu
pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus
(2Cor. 5,21). Disso tudo, podemos deduzir que a morte de Cristo na cruz foi um
sacrifício expiatório, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por
nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Ef. 5,2). Pela chaga o
grego indica mancha roxa, contusão, vergão, vinco e pancada. Sem dúvida que
aqui Pedro une a flagelação ao suplício da cruz, podendo ser traduzida a passagem:
pelas suas feridas fomos curados. De modo que a maldição da cruz, como diz
Paulo, serviu para a bênção dos que outrora eram malditos; a morte para a vida
e as feridas para a saúde. Assim se cumpriu o que Paulo afirma: Deus escolheu a
loucura do mundo para a mais sábia solução de salvação e vida do pecador (ver
1Cor. 1,25).
O novo Pastor. Éreis, pois,
como ovelhas desgarradas, mas agora vos mudastes para o pastor e supervisor de
vossas almas (25).
De uma vida como sem esperança
nem futuro, agora remidos por Cristo pertencem os novos cristãos a um pastor
que é ao mesmo tempo supervisor [episcopos] que cuida amorosamente dessas almas
ou vidas que ele conseguiu por sua cruz e por seus sofrimentos. Pois demonstrou
que era o bom pastor que dá sua vida por suas ovelhas.
Evangelho
(Jo 10,1-10)
Jesus, a
porta do aprisco
Este é o domingo chamado do Bom
Pastor, festa que é comemorada em todos os três anos litúrgicos. Além de ser o
autêntico pastor, Jesus também se declara como a porta pela qual entra todo pastor
legítimo e, através da qual, o acompanhando, saem suas ovelhas. Porta, pastor e
ovelhas constituem termos de uma alegoria em que a voz do pastor é ouvida pelas
suas ovelhas e encontram os prados de modo que tenham vida abundante. Esta
alegoria do Bom Pastor é única do quarto evangelho que não encontra lugar
paralelo entre os sinóticos. Jesus falará em Mateus e Marcos, como viu as
multidões que eram como ovelhas sem pastor (Mt. 9,36 ) e afirmará que, ferido o
pastor, as ovelhas serão dispersadas (Mt. 26,31). São estas duas passagens as
que indiretamente declaram Jesus como pastor de Israel. Mas, é na perícope
atual, de uma beleza extraordinária, a que nos mostra, primeiro, Jesus como a
porta para indicar que qualquer outra maneira de entrar no aprisco é
sub-reptícia. Logo, na segunda parte, falará que ele é também o verdadeiro
pastor. Nesta primeira parte, vamos falar de Jesus como porta. Antes de entrar
na exegese do evangelho é oportuno e até necessário, observar as circunstâncias
nas quais essa alegoria foi proclamada por Jesus. Jesus estava em Jerusalém, no
templo, rodeado por fariseus que eram os mestres de Israel. Após a cura do cego
de nascença, Jesus disse uma frase que incomodou os fariseus: vim para os que
não veem vejam, e os que veem tornem-se cegos (9,39). Jesus então está
afirmando uma coisa inaudita: Ele é a porta por onde deve entrar quem se
considera pastor de Israel. Esta é a base do evangelho de hoje.
Uma afirmação inusitada. Amém,
amém, vos digo: quem não entra pela porta ao aprisco das ovelhas, mas pula por
outra parte , esse é ladrão e bandido (1).
Amém, amém: a palavra é de origem
hebraica, traduzida por verdadeiramente na totalidade dos casos, ou deixada no
original em outros. O Amém hebraico está relacionado com o verbo amam [crer ou
ser fiel], e significa certamente, ou verdadeiramente. A tradução literal é:
firmemente, fielmente, certamente, seguramente. Por isso, Deus mesmo é chamado
Amém por ser fiel e veraz (Is. 66,16).
1) No princípio de um discurso,
seria traduzido por com certeza.
2) No fim do mesmo, por assim
será. Entre os judeus: Era costume entre os judeus, retomado pelos cristãos,
que no fim de maldições solenes (Nm. 5,22), ou após orações e hinos de bênção e
louvor (1Cr. 16,36 e Sl. 41,14), ou, terminado um discurso ou juramento (Jr.
11,5), os assistentes respondessem Amém, como aceitando a substância do mesmo.
Em Jesus, testemunha fidedigna e veraz e Amém de Deus (2Cor. 1,19-20), o termo
equivale a uma afirmação solene e inquestionável. Ele emprega o amém na frase Amen lego Ymin antes
de uma afirmação solene e dogmática. Desta forma é usado 30 vezes em Mateus, 12
em Marcos e 7 em Lucas. Unicamente encontramos em Mateus o amém no fim, quando
após o Pai Nosso diz: Teu o reino, o Poder e a glória pelos séculos. Amém (6,13).
O seu uso ao início de uma afirmação é duplo em João: Amém , amém e aparece 24
vezes. Uma delas é esta de hoje. O Amém final repetido somente aparece duas
vezes nos salmos: 41,14 e 72,19. Fora disso aparece repetido em Nm. 5,22., com
o significado de genoito, genoito [seja, seja]
grego nos três casos. Em todos os casos, significa verdadeiramente, de fato,
como um assentimento ao afirmado anteriormente. Unicamente em Is. 65,16 o amém
significa verdadeiro, pois se fala do Deus do Amém, ou seja, o Deus da Verdade,
que cumpre sua palavra como traduz a vulgata: abençoar e jurar in Dio Amen. Na
Nova vulgata o texto será: Quicumque benedicit sibi in terra, benedicet
sibi in Deo Amem, et quicumque iurat in Deo in terra iurabit in Deo Amem.
Daí que o Amém tenha o sentido de
verdade, de compromisso com a palavra própria e que em João, ao ser repetitiva,
indica um superlativo, à semelhança de como aclamamos Santo, Santo, Santo é o
Senhor (Is. 6,3). No NT, entre os escritos apostólicos, o Amém tem o
significado de termo de oração ou de bênção, acrescentado para proclamar a
adesão ao mesmo com o sentido de assim seja ou desejamos, como no caso de Rm.
1,25 Criador que é bendito pelos séculos. Amém. No nosso caso, parece um
superlativo de verdadeiramente, ou o equivalente de com toda segurança e
garantia, eu posso afirmar. É, pois, uma asseveração solene de Jesus na qual
ele aposta, na verdade de que Ele é a Palavra de Deus.
O portão: Thyra é
a palavra usada pelo evangelista. A palavra pode indicar a porta da habitação de
uma casa, como em Mt. 6,6: Fecha a porta de tua habitação; a porta de um
sepulcro em Mt. 27,60; a porta de uma casa Mc. 2,2 onde Jesus morava; o portão
da cidade Mc. 1,33, assim como o portão de um aprisco Jo. 10,1.
Ovelhas: a palavra probaton no
seu sentido mais lato denotava todos os animais de quatro patas [especialmente
os domesticados] em oposição aos que nadavam ou rastejavam. Derivada a palavra
de pro-baino = ir adiante, nos rebanhos mistos, era o
gado miúdo [ovelhas e cabras] que por serem mais fracos que os outros animais
iam à frente, marcando o passo. Originariamente, a palavra se empregava no
plural, com o significado de rebanho ou manada. Mas depois, apareceu o emprego
no singular, com o significado de um membro da manada, uma ovellha. No AT, com
o plural probata significa-se metaforicamente o povo que está
sob o domínio do pastor. O essencial era a necessidade de proteção, que, sem o
pastor, fica disperso (Ez. 34,5). Javé providenciará para que seu rebanho não
seja disperso, nomeando pastores, tal como o rei messiânico (Jr. 23,1) ou sendo
ele mesmo o pastor de seu povo (Sl. 78,52 e Is. 40,11). No NT, probaton é
mais frequente em Mateus (11 vezes) e em João (17 vezes). Fica claro que os
contemporâneos de Jesus sabiam como a ovelha necessitava da proteção amorosa e
abnegada do pastor, e que, sem ele, fica indefesa (Mt. 9,36) e perdida (Mt.
10,6)Jesus, como autêntico pastor é enviado às ovelhas perdidas da casa de
Israel (Mt. 15,24). Em João probaton denota o povo eleito de
Cristo, os seus, os que conhecem sua voz, como vemos no evangelho de hoje,
formando um só rebanho e um só pastor (Jo. 10, 16), quando finalmente judeus e
cristãos fiquem reunidos numa só Igreja com um só Senhor. (Jo. 17,20-23). Com
respeito a este último versículo, creio que é mais apropriado esta nossa
interpretação que a de apelar aos gentios como ovelhas separadas. Aprisco: A
palavra aulêsignificava nos tempos clássicos um espaço aberto, sem
teto, mas cercado com um muro do qual formavam parte os currais; daí que, entre
os orientais, significasse especialmente o redil, isto é o curral onde estava
recolhido o gado de origem lanígero ou caprino. Em que consistia um redil? Como
temos dito, era um espaço fechado por um muro de pedra sobre o qual existia uma
sebe ou tapume de galhos espinhosos, que também podia ser uma cerca viva, para
que as feras como lobos e cães selvagens não pudessem pular dentro do curral. É
obardal espanhol, do qual eu tive perfeito conhecimento durante a
guerra civil, quando fui obrigado a morar na roça. Parece que existia o costume
do pastor dormir junto ao portão para ser despertado caso o ladrão quisesse
entrar pelo portão. Dentro do mesmo havia gado de diferentes donos e unicamente
os pastores, donos da porção correspondente de ovelhas, conhecidos pelo guardião
de turno, podiam entrar pelo portão. Quem não entra: O portão está sempre à
disposição dos donos das ovelhas, mas é lógico que os que não são pastores das
mesmas não têm permissão para entrar. Por isso entram pulando o muro. São os
que João chama de Kleptes e Lestes. As duas palavras têm
significados diferentes: Um Kléptes é um ladrão vulgar, um
fraudador, que não usa da violência, mas do engano e da astúcia; é o fur latino
[daí a palavra furto]. Já um Lestes é um arrombador que usa a violência e que podemos
traduzir por malfeitor, salteador, bandido, ou facínora. A vulgata traduz lestes por
latro [dela provém o ladrão]. Inicialmente latro era a
palavra usada para denominar o soldado que se apoderava dos bens inimigos, como
saqueador dos mesmos. E foi a palavra usada para descrever Barrabás segundo
João. Lestes era também o pirata. Os outros evangelistas falam de Barrabás,
como se fosse de um revoltoso. O importante da afirmação é que quem entra
pulando a cerca é um malfeitor que não busca o bem das ovelhas, mas pelo
contrário, o proveito próprio que delas pode obter.
O Pastor. Mas aquele que
entra através da porta é pastor das ovelhas (2). A este, o porteiro abre e as
ovelhas ouve (m) sua voz e as ovelhas próprias chama por nome e as saca (2).
Contrariamente à conduta
imprópria dos ladrões e assaltantes, o pastor do rebanho, neste caso das
ovelhas, sempre entra pela porta. Na realidade, oprobata grego é
usado principalmente para designar o gado menor, composto, na Palestina
da época, de ovelhas e cabras (Mt. 25,32). Como vemos, no grego usa-se o
singular para o verbo ouvir, talvez dando o significado de rebanho, no caso, e
poderíamos traduzir: o rebanho ouve a sua voz e chama pelo nome as ovelhas
próprias e as conduz para fora.
A conduta das ovelhas. E
quando fizer sair as próprias ovelhas, caminha diante delas e o rebanho o
segue, porque tem conhecido a sua voz (4). Mas a um estranho não seguiriam, mas
fugiriam dele porque não têm conhecido a voz de estranhos (5).
O dono das ovelhas ou o pastor
das mesmas é conhecido do porteiro e entra pelo portão. Nos versículos
seguintes (3,4 e 5 ) que podem ser um acréscimo do próprio evangelista como
explicação, Jesus fala da relação ovelha-pastor: as ovelhas conhecem sua voz;
ele as chama pelo seu nome e as conduz fora do aprisco. Logicamente, tudo isto
é o oposto da maneira de agir dos assaltantes: as ovelhas são forçadas ou
mortas e assim estas são as únicas maneiras de apoderarem-se delas. A um
estranho não acompanhariam, mas antes fugirão dele porque não reconheceram sua
voz (5).
Conclusão: esta narrativa
figurada disse-lhes Jesus. Mas eles não conheceram que realidades eram das
que lhes falava (6).
A tradução, querendo ser a mais
literal possível, resulta às vezes um pouco forçada. Narrativa figurada é uma
tradução do grego original que melhor poderíamos traduzir por metáfora e
que a Vulgata traduz por provérbio. De novo, paroimia é usada por João como
metáfora prolongada ou uma fala figurada: Estas coisas vos tenho dito falando
em palavras figuradas (16,25). Somente em 2Pd. 2,22, fala-se de adágio ou
provérbio: aconteceu com eles o que diz o provérbio: o cão voltou ao próprio
vômito. Porém os ouvintes, que eram os fariseus, não entenderam o significado
desta comparação metafórica. Assim este versículo é uma conclusão lógica do
evangelista, dadas as circunstâncias em que ele viveu o momento histórico que
relata. Era este um lance de tensão entre Jesus e os fariseus a quem, por não ver
na cura do cego de Siloé, além do fato material, a realidade transcendente do
autor, Jesus terá que chamar de cegos, apesar de se declararem videntes. Por
que não admitiam Jesus como o enviado do Pai? E Jesus responde com esta
alegoria. Eles, porém, não entenderam a realidade, oculta sob as palavras da
comparação. Daí a explicação estrita, dada pelo próprio autor da
alegoria, como veremos nos versículos seguintes.
De novo a afirmação. Disse-lhes,
então, de novo, Jesus: Amém, Amém vos digo que eu sou a porta das ovelhas (7). Todos
quantos vieram antes de mim são ladrões e bandidos; não os escutaram as ovelhas
(8).
É uma primeira declaração que
explica o porquê o povo de Israel, que era chamado de rebanho que Javé de
modo particular pastoreava [dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a
José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o
teu esplendor (Sl. 80,1)], tinha uma porta no redil e essa porta de entrada e
saída era Ele, Jesus. Pastor, em hebraico é ra’ah que é traduzido por poimën ao
grego e por pastor ao latim. Tanto no grego clássico quanto na bíblia,
emprega-se em sentido metafórico para indicar um líder, um governante, um
comandante. Platão fala dos chefes de uma polis como sendo cópias do divino
pastor. No Oriente antigo, pastor era o título de honra que se aplicava de
igual modo a soberanos e deuses. No verão seco, em terra sem água, não era
fácil achar novas pastagens e o pastor devia cuidar de modo incansável dos seus
animais indefesos. No AT Javé é o único Pastor do seu Povo. Esta ideia se
destaca nos salmos 23; 28,29 etc. E o povo é o único rebanho de Javé. Assim se
fala de que o rebanho de Israel é conduzido para o exílio (Jr. 13,17). Também,
entre outras passagens, podemos citar Isaías 40, 11 onde lemos: o Senhor Javé,
vosso Deus como um pastor apascenta ele o seu rebanho … No NT poimen aparece 9
vezes nos sinóticos e 6 vezes em João. Os contemporâneos de Jesus desprezavam o
pastor, mas foi esta, a metáfora que Jesus empregou para expressar o amor de Deus
para com os pecadores e para revelar a sua oposição à condenação destes por
parte dos fariseus (Lc. 15,4-6). E, nesta alegoria, Jesus se apresenta como
porta das ovelhas e como o autêntico pastor das mesmas. Estas podem ser
descritas como poimnh (Jo. 10,16) ou como a soma total das mesmas com a palavra
probata. Em ambos os casos, probata é a representação dos seus discípulos, os
que ouvem em obediência as suas palavras. Veremos o motivo por que Jesus se
identifica com a porta do aprisco já que o Pastor era Javé. A conclusão: Todos
os que vieram antes de Jesus, não eram os verdadeiros pastores. Porque não
entraram pela porta das ovelhas, já que Ele e só Ele era a porta. Isto quer
dizer que não existiu verdadeiro Messias antes de Jesus. Quem teve a audácia de
se declarar Messias antes de Jesus? No seu tempo houve revoltas contra os
romanos, anteriores a Cristo, como falsos profetas. Eram os que não entraram
pela porta que é Ele, Jesus, o Filho Encarnado. Ou seja, com esta frase não
suprime nem Moisés nem os profetas até João o Batista, pois dEle todos eles
falaram, mas todos os que rejeitaram seu nome [pessoa] como os fariseus ou, em
seu lugar, tomaram o ministério de serem os Ungidos e Messias, ou salvadores da
humanidade, como no caso dos Césares, de título Augusti, ou como Apolônio de
Triana, Mitra e Simão o mago, para não falarmos dos falsos messias judeus como
o caso de Herodes, o Magno (39 a 4 a.C. ), a quem os herodianos consideravam
como Messias, Judas Galileu (4 a 6 a.C.) sucessor de seu pai Ezequias morto
este por Herodes. Simão da Pereia (4 a.C.), Atronges, o pastor (4 a.C.), que
foi morto por Arquelau e finalmente Judas, o Galileu (6 a.C.). Podemos falar
inclusive do Batista, cujos discípulos, com o nome de mandeos ou mandeanos,
ainda sobrevivem em número de cem mil no norte do Iraque. Se não entraram
através da porta, que é Jesus, são falsos pastores. E definitivamente foram
causa de revoltas e matanças tanto pelo poder romano como pelos poderes fáticos
da Palestina da época. Cita-se Zc. 11,8: Eu destruirei os três pastores em um
só mês para indicar os líderes das três seitas religiosas no tempo de Jesus:
Fariseus, Saduceus e Essênios que foram suprimidas na guerra, de modo que já
não mais tiveram influência dentro do mundo judeu. Faltando na Vulgata o antes
de mim e em vários códices gregos, podemos incluir outros movimentos
messiânicos como os do profeta samaritano (36 d.C.) morto por Pilatos, o rei
Antipas (44 d.C.), Teudas, o Egípcio (45 d.C.), o profeta egípcio (58 d.C.) o
profeta anônimo (59 d.C.), Menahem filho de Judas o Galileu (66 d.C.), João de
Giscala (66-70 d.C.), Simão bar Giora (67-70 d.C.), Tito Vespasiano (67-81),
Jonatan o tecedor(73 d.C.). Lukuas (115 d.C.), e principalmente, de Bar Kokhba
(135 d.C.), o último dos messias nos tempos posteriores a Jesus. O rebanho que
não os escutou, significa que não o seguiram indefinidamente, de modo que seus
movimentos hoje estão completamente esquecidos. Todos eles levaram à morte seus
partidários. Só Jesus morreu pelos seus e disse ao ser preso: deixai que estes
se retirem (Jo. 18,8). Então de novo disse Jesus: Absolutamente vos digo: Eu
sou a porta das ovelhas (7). Que significa isto? Dos parágrafos anteriores, a
porta era principalmente a entrada por onde o verdadeiro pastor entra e recolhe
as ovelhas para levá-las ao pasto. Mas se Jesus era a verdadeira porta, quem
eram os outros que a si mesmos se intitularam como tais, até o momento em que
ele veio e se mostrou aos conterrâneos? Eram ladrões e facínoras. Por
isso, não foram escutados pelas ovelhas. Quem eram estes anteriores a Jesus?
Sem dúvida, os fariseus e os líderes do povo antes de Jesus. Santo Ignácio, o
bispo mártir de Antioquia afirma que Jesus é a porta do Pai por onde entram
Abraão, Isaac e Jacó, os profetas, os apóstolos e a Igreja (aos de Filadélfia
9,1).
NOTA: por serem pouco conhecidos,
vamos falar de Simão de Pereia (4 a.C.). Após a morte de Herodes, o Grande, um
escravo de seu séquito, de nome Simão, um gigante em estatura, colocou o
diadema real sobre sua cabeça e foi seguido por um número considerável de
adeptos. Pôs fogo no palácio de Jericó e em outras casas reais deixando que
fossem saqueados.
Gratus, o comandante da
infantaria de Herodes, uniu-se a alguns soldados romanos e, após derrotá-lo,
cortou-lhe a cabeça.
Atronges, o pastor (4 a.C.): após
a morte de Herodes, rebelou-se contra Arquelau.
Atronges, um pastor, mas de força
e estatura superior, com seus 4 irmãos também de grande porte físico, comandou
um grupo numeroso e colocou um diadema sobre sua cabeça. E foi chamado de rei.
Matou um grande número de romanos e soldados leais a Arquelau. Atacou uma
companhia de romanos em Emaús, que traziam grãos e armas para o exército. Matou
40 deles, entre eles Arius o centurião. Gratus, nosso conhecido, veio em
auxílio dos vencidos. Após dois anos de luta, mortos por luta e doença os 4
irmãos, Atronges se entregou sob a promessa de Arquelau de respeitar sua vida.
Judas filho de Ezequias (4 a.C.):
também após a morte de Herodes, e com um número considerável de partidários,
atacou Séforis, a capital do norte e tomou as armas e pilhou a cidade.
Provavelmente foi capturado pelo governador de Síria, Varo, famoso pela perda
das legiões na Germânia anos mais tarde, que semeou de cruzes o caminho até
Jerusalém.
Judas, o Galileu (6 d.C.): não
confundi-lo com o anterior, pois se passaram 10 anos entre os dois e as
circunstâncias foram totalmente diferentes. Sendo Arquelau deposto pelos
romanos o seu reino foi tomado, como província da Judeia, pelo governador
Copônio, que intentou novos impostos. Assim se formou uma rebelião sob a
liderança de Judas o Galileu, e quando o sumo sacerdote Joazar foi incapaz de
resolver a sublevação, interveio o governador adjacente da Síria, Públio
Sulpício Quirino, conhecido por Lucas em 2,2. Nosso Judas, da cidade de Gamala,
apoiou-se no critério do fariseu Zadok, para iniciar uma revolta que lutava contra
a escravidão, à qual conduziam os impostos, e afirmando que unicamente seu
Senhor era o Deus de Israel (ver o tributo ao César dos fariseus). Assim se
originou a quarta seita judaica, a dos zelotes. Nos Atos, Judas foi morto e
todos os que o seguiam foram dispersos (At. 5,37).
Como vemos é certíssima a
afirmação de Jesus de que todos eles eram ladrões e bandidos. Só serviram para
a morte de seus seguidores. No mundo moderno, aqueles que com a escusa da
injustiça se levantaram como líderes de uma nova ordem mundial levaram seus
seguidores à morte. Os nazistas foram responsáveis por 25 milhões de mortes, ao
passo que os mortos, nos vários Estados do socialismo real, não ficaram aquém
de 100 milhões, dentre os quais 20 milhões na Rússia e 65 milhões na China
(tomado de Carlos I. S. Azambuja, historiador).
Pelo que diz respeito aos anos
posteriores de Jesus, temos o caso de Teudas, discutível quanto a data, entre o
relato dos Atos e o relato de F. Josefo. Segundo Josefo entre o ano de 44 e o
46 d.C. causou certos distúrbios ao se proclamar Messias e reuniu um grande
número do povo à beira do Jordão, dizendo que dividiria as águas do rio.
Cuspius Fadus, o procurador, não permitiu mais alterações e enviou uma força de
cavaleiros que matou muitos e cortou a cabeça de Teudas, que foi carregada até
Jerusalém. O interessante do caso é que esse Teudas é citado por Gamaliel em At
5,36, mas que a data de sua atuação deve ser retraída ao ano 33, quando
Gamaliel fala diante do Sinédrio, no ano em que os apóstolos começavam a pregar
o evangelho e foram impedidos pelo supremo tribunal. Fado, efetivamente foi
procurador entre 44-66. Houve um erro de Lucas, ou o erro foi de F. Josefo,
tantas vezes inseguro pelas datas de sua História das Antiguidades Judaicas?
Cremos nesta última hipótese, já que o escrito de Lucas é muito mais próximo
dos fatos.
Eu sou a Porta. Eu sou a
porta. Através de mim, se alguém entrar, será salvo e entrará e sairá e
encontrará pastagem (9). O ladrão não vem senão para que roube e mate e perca;
eu vim para que tenham vida e sem medida tenham (10).
Jesus indica claramente que ele é
único, como porta, por onde devem entrar todos os pastores de Israel. Ou seja,
os reis ou dirigentes messiânicos de Israel, devem se ajustar ao único
verdadeiro que é ele, Jesus. Quem não entra, como os apóstolos, pela sua porta
não pode ser verdadeiro pastor. Porque os outros que não entram pela porta só
se servem das ovelhas para roubar, matar e assim se perdem. Na nota temos visto
como a realidade se conforma com as palavras de Jesus. Ele, pelo contrário,
veio para que as ovelhas possam viver e até melhor do que viviam dentro dos
limites dos antigos pastores de Israel. Por isso, na continuação, Jesus
explica seu papel de supremo e verdadeiro pastor. Mas isso ultrapassa os limites
do evangelho de hoje.
PISTAS
1) A afirmação de Jesus de ser a
porta do aprisco é de tal modo absoluta, que nos obriga a mantê-la como uma
verdade dogmática. Todo aquele, que não se compromete com Jesus e seus
ensinamentos, não pode ser verdadeiro pastor das ovelhas que constituem os
súditos do reino.
2) Essa porta é única, de modo
que qualquer outra porta moral ou dogmática será o mesmo que entrar no aprisco
por cima da cerca. E isso constitui os tais ladrões e facínoras, que servem
melhor aos seus interesses do que ao bem das ovelhas a eles encomendadas.
3) Quem são os tais?
Evidentemente aqueles que buscam o dinheiro como proveito de seus serviços, ou
a fama para serem louvados como tais líderes (Mc. 12,38-39), quando Jesus
afirma que seu serviço é dar a vida e para isso ele escolheu a própria
morte para que elas tenham vida (Jo. 10,15). Jesus aclarará como os chefes da
terra subjugam e dominam, mas aquele que quiser ser grande entre seus
discípulos deve servir a todos como fez ele mesmo (Mt. 20,25-28).
4) Não podemos esquecer que os
primeiros pastores são os próprios pais. Neste mundo em que o bem-estar e o
prazer substituem o amor e o serviço, é bom recordar as palavras de Jesus sobre
como apascentar as ovelhas, que no caso são os filhos. Por isso, o problema
deste Papa será o problema da família e da conservação da vida em todos os
aspectos.
padre Ignácio de
Nicolás Rodríguez
Amor de
predileção pelos sacerdotes
Estamos no mês mariano. Durante
este mês é importante que não nos esqueçamos de pedir à Mãe de Jesus que cuide
dos sacerdotes. Cada padre, desde que João foi confiado a Maria, é seu filho
predileto. Ela os ama de maneira muito especial.
O amor é necessariamente
desigual. Não se pode pedir a uma mãe que ame com a mesa intensidade tanto os
filhos que saíram das suas entranhas quanto aos estrangeiros que ela apenas
teria saudado alguma vez. Não se pode pedir a um marido que a todas as mulheres
por igual. Tampouco se pode exigir ao cristão amar a todos os seres humanos por
igual. A caridade é ordenada e, por isso mesmo, justamente desigual. É lógico
que amemos mais intensamente os nossos irmãos na fé, especialmente aqueles que
convivem conosco; é totalmente normal que amemos mais fortemente os nossos
familiares, especialmente os nossos pais; não há nada de estranho que amemos
mais os nossos amigos que os nossos inimigos, ainda que devamos amar também aos
inimigos.
Maria ama com predileção os
sacerdotes do seu filho porque Jesus os confiou a ela enquanto sofria na cruz
para a nossa salvação. Nossa Senhora não pôde esquecer jamais aquela cena. As
últimas vontades de um moribundo, especialmente quando esse moribundo é o Filho
de Deus, ficam gravadas na mente de uma maneira indelével. As últimas coisas
que um filho pede a uma mãe ficam presentes para sempre na memória materna. Com
Nossa Senhora não foi diferente: o desejo de Jesus permaneceu sempre presente
no seu coração e ela tem cuidado dos sacerdotes com amor de predileção até
hoje.
Gosto de pensar na figura de
João. É o típico rapaz valioso e de pouca idade que decide entregar-se de corpo
e alma a uma causa maior. João entregou tudo o que era seu aos cuidados de
Jesus. João era jovem, tinha um coração puro, era um rapaz vigoroso, um
jovenzinho de caráter forte, um coração grande e generoso. Eu não estou de
acordo quando se escuta por aí que o vocacionado ao sacerdócio tem que fazer
primeiro uma experiência de namoro antes de entrar no seminário. Aqueles que
tiveram uma experiência desse tipo não são melhores nem piores do que aqueles
que não a tiveram. No entanto, não posso deixar de elogiar a entrega total
daqueles que, sem dividir o coração em nenhum momento, se entregaram totalmente
a Cristo. Isso é maravilhoso!
Por outro lado, Jesus tem direito
de escolher os seus ministros tanto entre os que mantiveram uma vida
irrepreensível como o apóstolo João e o discípulo amado de Paulo, Timóteo; como
entre aqueles que foram grandes pecadores, como Pedro, Paulo, Agostinho, etc. A
todos esses o Senhor confiou a missão de ser pastores da sua grei.
No trecho do Evangelho de hoje, a
palavra “porta” aparece quatro vezes. Jesus é a porta! Ou seja, o acesso a
Deus, à felicidade, a uma vida verdadeiramente humana, é possível somente através
de Cristo. Outras vozes, outras portas, outros pastores não conduzem à vida em
abundância que só Jesus tem para dar-nos. Assim como Jesus é a porta das
ovelhas, o sacerdote –agindo na Pessoa de Cristo cabeça e em nome da Igreja–
também é porta.
Esse é um critério importante
para pastores e ovelhas. O sacerdote tem que ser pastor no Pastor. Ele não pode
pregar uma doutrina diferente da de Jesus. Se o padre pregasse algo diferente
do Evangelho, ele estaria fazendo ressoar uma voz que as ovelhas não seguiriam
porque elas não reconhecem nesse tipo de pregação a voz de Cristo, Pastor das
suas almas. Nós, os sacerdotes, somos instrumentos do único Pastor. Chamam-nos
pastores, e o somos, porque participamos no pastoreio de Jesus. Quando
anunciamos a Palavra e quando celebramos os Sacramentos não somos nós, é Cristo
em nós. Somos o mesmo Cristo, estamos identificados com ele. Que absurdo,
portanto, pregar algo diferente do Evangelho! Que contrassenso pregar uma
doutrina que não seja a doutrina católica, tanto em questões de fé quanto em
questões de moral.
Os fiéis de Cristo têm direito a
escutar a voz de Cristo através dos seus sacerdotes. Os ministros do Senhor
foram ordenados para isso. Os fiéis podem e devem exigir deles o Cristo. Os
demais cristãos não podem tolerar uma doutrina que não seja a do Divino Pastor
e a da sua Esposa, a Igreja, vinda da boca de um sacerdote. Se tal coisa se
desse, os fiéis deveriam, justamente, manifestar-se –mas com cuidado para não
faltar à caridade– e pedir o que eles desejam: Jesus Cristo, sua palavra santa,
os seus sacramentos.
padre
Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
Pastor- Ovelhas- Vocações
O quarto domingo da Páscoa é o domingo do Bom
Pastor. Depois de várias aparições de Cristo ressuscitado às mulheres, aos apóstolos,
aos discípulos, hoje Jesus se apresenta como o Bom Pastor! É um título de
Cristo muito familiar aos primeiros cristãos. A liturgia deste domingo
convida-nos a meditar na misericordiosa ternura de nosso Salvador, para que
reconheçamos os direitos que Ele adquiriu sobre cada um de nós com a sua morte.
No Evangelho (Jo 10,1-10) Jesus se apresenta como o Bom Pastor. É uma catequese
sobre a missão de Jesus: conduzir os homens às pastagens verdejantes e às
fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude. O Bom Pastor aparece numa
atitude de ternura com as ovelhas… Ele as conhece,as chama pelo nome, caminha
com elas e estas O seguem. Elas escutam a Sua voz, porque sabem que as conduz
com segurança. Em contraste com o pastor, aparece a figura dos ladrões e dos
bandidos. São todos os que se apresentam como Pastor, ou até falam em nome de
Cristo, mas procuram somente vantagens pessoais. Além do título de Bom Pastor,
Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das
ovelhas que é a Igreja. Ensina o Concílio Vaticano II:” A Igreja é o redil,
cuja única porta e necessário pastor é Cristo (LG. 6). No redil entram os
pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão de entrar pela porta que é
Cristo. “ Eu, pregava santo Agostinho, querendo chegar até vós, isto é, ao
vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por
outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não
nas vossas casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e
escutais-me ao falar d Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes
compradas com o Seu Sangue”. “… e as ovelhas O seguem, porque conhecem a sua
voz” (Jo 10,4). Ora, a Igreja é Cristo continuado! Diz são Josemaria Escrivá:
“Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos
sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos
conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro
infinito de ciência: a Palavra de Deus guardada pela Igreja; a graça de Cristo,
que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com
retidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a
Deus” (Cristo que passa, nº 34).
Jesus é a porta das ovelhas! Para as ovelhas
significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as ovelhas possam
encontrar as pastagens que dão vida. Para os cristãos, o Pastor por excelência
é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o rebanho de Deus… Portanto,
Cristo deve conduzir as nossas escolhas. Quem nos conduz? Qual é a voz que
escutamos? A voz da política, a voz da opinião pública, a voz do comodismo e da
instalação, a voz dos nossos privilégios, a voz do êxito e do triunfo a
qualquer custo, a voz da novela? A voz da televisão? Cristo é o nosso Pastor!
Ele Conhece as ovelhas e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma
relação muito pessoal. A existência humana é bem complexa para que se possa
vivê-la com segurança absoluta. Jesus, porém, oferece a quem O segue a direção
exata e a proteção eficaz para evitar os elementos que podem prejudicar.
Afirma o Sl. 22(23): “ Mesmo que eu passe pelo vale
tenebroso, nenhum mal eu temerei;estais comigo…”. O Divino Pastor é quem pode,
realmente, ajudar, salvar e conservar a vida. Ele afirmou: “Eu vim para que
todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Para distinguir a Voz
do Pastor é preciso três coisas: – Uma vida de oração intensa; um confronto
permanente com a Palavra de Deus e uma participação ativa nos sacramentos, onde
recebemos a vida, que o Pastor nos oferece. Nesse 48º Dia mundial de oração
pelas vocações, o papa enviou uma mensagem, com o tema: “Propor as vocações na
Igreja Local”: “É preciso que cada Igreja local se torne cada vez mais sensível
e atenta à pastoral vocacional, educando a nível familiar, paroquial e
associativo, sobre tudo os adolescentes e os jovens, para maturarem uma amizade
genuína e afetuosa com o Senhor, cultivada na oração pessoal e litúrgica… na
escuta atenta e frutuosa da Palavra de Deus… A capacidade de cultivar as
vocações é sinal característico da vitalidade de uma Igreja local”.
mons. José Maria Pereira
O ponto mais alto da Palavra de
Deus, para este domingo, encontra-se no texto do Santo Evangelho – São João 10,
9-10: «Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que
entra e sai doaprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para
roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a
tenham em abundância».
Primeira
leitura – Atos 2,14a.36–41
Temos hoje a continuação da
leitura do discurso de são Pedro no dia do Pentecostes. E continuaremos em
todos os domingos pascais a ter trechos dos Atos dos Apóstolos como 1ª leitura.
36 «Deus fez Senhor e Messias
esse Jesus». É evidente que Jesus não é feito Senhor, isto é, Deus e
Messias, só após a prova a que foi sujeito (a Sua Paixão e Morte), mediante a
Sua Ressurreição e glorificação. No plano divino, era a Ressurreição de Jesus
que devia manifestar plenamente a sua condição e poder divinos
e fazê-Lo entrar no gozo perfeito da glória que Lhe competia como
Pessoa divina e Messias (cf. Lc. 24,26). O verbo grego «epóiêsen» (fez)
parece ser a tradução do verbo hebraico «xamó»: «colocou-O como».
38 «O Batismo em nome de Jesus
Cristo». É chamado assim, «em nome de Jesus», para o distinguir de outros
batismos correntes na época, como o de João e o dos prosélitos. Chama-se «de
Jesus», não só por ter sido instituído por Jesus, mas também porque nos faz
pertencer a Cristo, incorporando-nos n’Ele (cf. Rm. 6,3; Gal. 3,27). Esta
expressão nada nos diz da fórmula ritual usada na administração do Sacramento,
que seria a trinitária, como que consta de Mt. 28,19, exigida para a
validade.
«Recebereis o dom do Espírito
Santo». Não se designam aqui os chamados «sete dons do Espírito Santo»,
mas sim o dom (que é) o Espírito Santo (trata-se de um «genitivo epexegético,
ou de aposição», como lhe chamam os gramáticos). Não é fácil de saber se o
texto se refere à recepção do Espírito Santo mediante o batismo, ou mediante a
imposição das mãos no Sacramento da Confirmação (cf. At. 8,17; 19,6).
39 «Quantos de longe». É uma
referência aos gentios (cf. At. 22,21; Ef. 2,13).
Segunda
leitura - 1 Pedro 2,20b–25
Os vv. 21b-25 formam um hino a
Cristo, muito belo, com uma alusão final ao cumprimento da profecia do Servo de
Yahwéh (4º canto: Is. 52,13 – 53,12) e ao Bom Pastor (cf. Jô 10,11-16;
21,15-19); também se pode ver uma alusão a Ez. 34,11-16, onde é o próprio Deus
que vem apascentar as suas ovelhas dispersas (alusão em que se pode ver
um deraxe cristológico, isto é, a aplicação a Jesus do que no A.
T. se diz de Yahwéh).
Os conselhos que aqui temos são
dirigidos particularmente aos escravos (cf. v. 18). Não sendo possível então
acabar com uma ordem social injusta, como era a escravatura, Pedro não desiste
de ajudar os escravos a santificarem-se na condição a que estão sujeitos,
imitando a Cristo – seguindo os seus passos – sofredor e obediente até à morte:
sendo inocente «sofreu por vós» (v. 21), suportou os nossos pecados… pelas suas
chagas fomos curados» (v. 24). Portanto, se os que são escravos forem tratados
de modo injusto, que se deixem de lamentações inúteis, mas suportem tudo como
Jesus, que «Se entregava Àquele que julga com justiça», que «não pagava com
injúrias» e «não respondia com ameaças» (v. 23). Esta exortação mantém
atualidade para nós, hoje, já que é frequente ter de «suportar sofrimentos por
fazer o bem» (v. 30). E «isto é uma graça aos olhos de Deus» (v. 20b).
Evangelho
– João 10,1–10
No capítulo 10 de João podem
ver-se duas parábolas, as únicas do IV Evangelho: a parábola do pastor e o
ladrão (1-6) e a do pastor e o mercenário (11-13), ambas explicadas por Jesus.
Neste ano, temos a primeira.
1-5 - Para uma reta compreensão
da parábola devem-se ter presentes os costumes pastoris da Palestina. Durante o
dia, os rebanhos dispersavam-se pelas poucas pastagens daquelas zonas pobres. À
noite, especialmente a partir da Primavera, eram recolhidos em recintos
descobertos, rodeados de uma sebe ou pequeno muro. Nesta cerca, que faz de
«aprisco», era frequente reunirem-se vários rebanhos, que ficavam a ser
vigiados de noite por algum guarda pago, um «mercenário», ao passo que os
pastores se albergavam em cabanas armadas nas proximidades. De manhã, cada
pastor vinha à porta do recinto chamar as suas próprias ovelhas, que já lhe
conheciam o grito habitual e que vão atrás dele para as pastagens. Quem não
entrar pela porta, mas saltar o muro, é «ladrão e salteador», e «não vem senão
para roubar, matar e destruir» (v. 10); não vem para apascentar o rebanho.
7-10 - O sentido da parábola
é claro e fica explicado pelo Senhor. Parte do dado de que o Povo de Deus é o
rebanho de Yahwéh (Ez 34). Aqueles que, sem mandato divino,
vieram antes de Jesus são «ladrões e salteadores» (v. 8), que cuidam só
dos interesses próprios, inimigos e rivais de Jesus, causando destruição no
rebanho (v. 10), ao passo que Jesus, e só Ele, que veio para dar a vida em
abundância (v. 10), é o autêntico Pastor. Jesus apresenta-se como a
«Porta» do redil, a porta por onde as ovelhas têm de passar para chegar à
salvação e ter a vida eterna, «a vida em abundância» (v. 10). No v.
7, de acordo com os vv. 1-2, Jesus aparece como a porta que dá acesso
ao aprisco, a sua Igreja; assim Jesus indica que só são
legítimos pastores, os que passam por Cristo, recebendo d’Ele o mandato; os demais pastores só trazem ruína
ao rebanho.
MENSAGEM
PARA O 45º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
«As
vocações a serviço da Igreja-Missão»
Aos apóstolos Jesus ressuscitado
confiou o mandato: «Ide, pois, fazei discípulos meus entre todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt. 28,19) e
assegurando: «Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo» (Mt.
28,20). A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros.
Se, graças aos sacramentos do batismo e da Confirmação, cada cristão é chamado
a testemunhar e a anunciar o Evangelho, a dimensão missionária é especialmente
e intimamente ligada à vocação sacerdotal. Na aliança com Israel, Deus confiou
a homens selecionados, chamados por Ele e enviados ao povo em seu nome, a missão
de serem profetas e sacerdotes. Assim fez, por exemplo, com Moisés: «E agora,
vai! – lhe disse Javé – Eu te envio ao Faraó [...] [...] quando
tiveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus sobre esta montanha». (Ex.
3,10.12). Igualmente acontece com os profetas.
2. As promessas feitas aos pais
se realizaram plenamente em Jesus Cristo. A este respeito, afirma o Concílio
Vaticano II: «Veio pois o Filho, enviado pelo Pai, que n’Ele nos escolheu antes
de criar o mundo, e nos predestinou para sermos filhos adotivos [...] Por isso,
Cristo para cumprir a vontade do Pai, inaugurou na terra o Reino dos Céus e
revelou-nos o seu mistério, realizando-o, com a própria obediência, a redenção»
(Const. Dogmática Lúmen Gentium, 3). Durante a pregação na
Galileia, na vida pública, Jesus escolheu os discípulos como
seus diretos colaboradores no ministério messiânico. Por exemplo, na
multiplicação dos pães, quando disse aos Apóstolos: «Dai-lhes vós mesmo de
comer» (Mt. 14,16), animando-os assim, a assumir o peso das necessidades das
multidões, às quais queria oferecer o alimento para saciar-lhes a fome, mas
também revelar o alimento «que dura para a vida eterna» (Jô 6,27). Movia-se de
compaixão pelo povo, porque, ao percorrer cidades e aldeias, via multidões
cansadas e abatidas, «como ovelhas sem pastor» (cf. Mt. 9,36). Do seu olhar de
amor brotava o convite aos discípulos: «Pedi ao Senhor da messe, que mande
operários para sua messe» (Mt. 9,38), enviando antes os Doze, com precisas
instruções, «às velhas perdidas da casa de Israel». Se nos detemos a meditar
esta página do Evangelho de Mateus, conhecida comumente como «discurso
missionário», observamos todos aqueles aspectos que caracterizam a atividade
missionária de uma comunidade cristã, que deseja ser fiel ao exemplo e ao ensinamento
de Jesus. Corresponder ao chamado do Senhor supõe enfrentar cada perigo com
prudência e simplicidade, e inclusive as perseguições, pois «um discípulo não é
mais que seu mestre, nem um servo mais que o seu patrão» (Mt. 10,24). Feitos
uma coisa só com o Mestre, os discípulos não ficam sós para anunciar o Reino
dos Céus, mas é o mesmo Jesus que age neles: «Quem vos acolhe, a mim acolhe; e
quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou» (Mt. 10,40). Além disso, como
verdadeiras testemunhas, «revestidos da força do alto» (Lc. 24,49), estes
pregam «a conversão e o perdão dos pecados» (Lc. 24,47) a todos os povos.
3. Precisamente por terem sido
enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de «apóstolos», chamados a
percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da
morte e ressurreição de Cristo. Escreve são Paulo aos cristãos de Corinto: «Nós
– isto é os Apóstolos – anunciamos Cristo crucificado» (1Cor. 1,23). Neste
processo de evangelização, o livro dos Atos dos Apóstolos considera também
muito importante o papel de outros discípulos, cuja vocação missionária surge
através circunstâncias providenciais, às vezes dolorosas, como a expulsão
da própria terra enquanto seguidores de Jesus (cf. 8,1-4). O Espírito Santo
permite transformar esta prova em ocasião de graça, fazendo com que o nome do
Senhor seja anunciado a outros povos, ampliando assim o círculo da comunidade
cristã. Trata-se de homens e de mulheres que, como escreve Lucas no livro dos
Atos, «arriscaram a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (15,26). O
primeiro entre todos, chamado pelo Senhor mesmo para ser um verdadeiro
Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior
missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual seja o nexo
entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido
autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela ao chamado
recebido diretamente pelo Senhor (cf. Rm. 1,1; Gal. 1,11-12.15-17).
4. O que «impeliu» os apóstolos
no início, e no decorrer dos tempos, foi sempre «o amor de Cristo» (cf.
2Cor. 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo,
muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros
discípulos. Observa o Concílio Vaticano II: «Embora todo discípulo de Cristo
incumba-se da obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades,
Cristo Senhor chama sempre dentre os discípulos os que ele quer para estarem
com ele e os enviarem a evangelizar os povos (cf. Mc. 3,13-15)» (Decreto Ad
gentes, 23). De fato, o amor de Cristo foi comunicado aos irmãos, com
exemplos e palavras - com toda a vida. «A vocação especial dos missionários ad vitam –
escreveu o meu venerável Predecessor João Paulo II - conserva toda a
sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que
sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e
corajosos» (Enc. Redemptoris missio, 66).
5. Entre as pessoas que se
dedicam totalmente a serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos
sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os
sacramentos, especialmente a eucaristia e a reconciliação, dedicados ao serviço
dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por
momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que
não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários
levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. As estatísticas testemunham que
o número dos batizados aumenta cada ano, graças à ação pastoral
destes sacerdotes, inteiramente consagrados à salvação dos irmãos. Neste
contexto, seja dado um especial reconhecimento «aos presbíteros fidei
donum que edificam a comunidade, com competência e generosa dedicação,
anunciando-lhe a palavra de Deus e repartindo o pão da vida, sem pouparem as
suas energias ao serviço da missão da Igreja. Por fim, é preciso agradecer a
Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer até ao sacrifício da vida
por servir a Cristo [...]. Trata-se de comoventes testemunhos que poderão
inspirar muitos jovens a seguirem por sua vez a Cristo e gastarem a sua vida
pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.» (Exortação ap. Sacramentum
caritatis, 26). Desta forma Jesus, através dos seus sacerdotes, se faz
presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.
6. Não são poucos os homens e as
mulheres que, desde sempre na Igreja, movidos pela ação do Espírito Santo,
escolheram de viver radicalmente o Evangelho, professando os votos de
castidade, pobreza e obediência. Esta multidão de religiosos e de religiosas,
pertencentes a numerosos Institutos de vida contemplativa e ativa, tem tido
«até agora uma parte importantíssima na evangelização do mundo» (Decreto Ad
gentes, 40). Com a oração perseverante e comunitária, os religiosos de vida
contemplativa intercedem incessantemente pela inteira humanidade; os de vida
ativa, com suas múltiplas formas de ação caritativa, levam a todos o
testemunho vivo do amor e da misericórdia de Deus. Diante destes apóstolos do
nosso tempo, o Servo de Deus Paulo VI, pôde dizer: «Graças à sua consagração
religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir
anunciar o Evangelho até as extremidades da terra. Eles são empreendedores, e o
seu apostolado é muitas vezes marcado por uma originalidade e por uma feição
própria, que forçosamente lhes granjeiam admiração. Depois, eles são generosos:
encontram-se com frequência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com
os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim,
verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito» (Exortação ap. i, 69).
7. Além disso, para que a Igreja
possa continuar a missão que lhe foi confiada por Cristo e não faltem os
evangelizadores que o mundo necessita, será oportuno que nas comunidades
cristãs, nunca falte uma constante educação na fé das crianças e dos adultos; é
necessário manter vivo nos fiéis um sentido ativo de
responsabilidade missionária e de participação solidária com os povos da terra.
O dom da fé chama todos os cristãos a cooperarem na evangelização. Esta
consciência seja alimentada através da pregação e da catequese, pela liturgia e
por uma constante formação na oração; seja incrementada com o exercício da
acolhida, da caridade, do acompanhamento espiritual, da reflexão e do
discernimento, como também com a elaboração de um plano de pastoral, do qual
faça parte integrante o cuidado das vocações.
8. Somente num terreno
espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio ministerial
e para a vida consagrada. De fato, as comunidades cristãs, que vivem
intensamente a dimensão missionária do mistério da Igreja, jamais serão levadas
a fechar-se em si mesmas. A missão, como testemunho do amor divino, se torna particularmente
eficaz quando é partilhada comunitariamente, «para que o mundo creia» (cf. Jo
17,21). A graça das vocações é o dom que a Igreja invoca diariamente ao
Espírito Santo. Desde o seu início a comunidade eclesial, recolhida em
torno à Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, d’Ela aprende a implorar do Senhor
o florescimento de novos apóstolos, que saibam viver no seu íntimo aquela fé e
aquele amor necessários para a missão.
9. Ao confiar esta reflexão a
todas as comunidades eclesiais para que a façam suas e, sobretudo, para
suscitar subsídios de oração, encorajo o empenho de todos que trabalham com fé
e generosidade ao serviço das vocações e, de coração, envio aos formadores, aos
catequistas e a todos, especialmente aos jovens na caminhada vocacional, uma especial
bênção (Papa Bento XVI, Vaticano, 3 de dezembro de 2007)
Adriano
Teixeira - Geraldo Morujão
A liturgia deste IV domingo da Páscoa é considerado
o “domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo,
um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado
como “Bom Pastor”. É, portanto, este o tema central que a Palavra de Deus põe
hoje à nossa reflexão.
O Evangelho apresenta Cristo como “o Pastor”, cuja
missão é libertar o rebanho de Deus do domínio da escravidão e levá-lo ao
encontro das pastagens verdejantes onde há vida em plenitude (ao contrário dos
falsos pastores, cujo objetivo é só aproveitar-se do rebanho em benefício
próprio). Jesus vai cumprir com amor essa missão, no respeito absoluto pela
identidade, individualidade e liberdade das ovelhas.
A segunda leitura apresenta-nos também Cristo como
“o Pastor” que guarda e conduz as suas ovelhas. O catequista que escreve este
texto insiste, sobretudo, em que os crentes devem seguir esse “Pastor”. No
contexto concreto em que a leitura nos coloca, seguir “o Pastor” é responder à
injustiça com o amor, ao mal com o bem.
A primeira leitura traça, de forma bastante
completa, o percurso que Cristo, “o Pastor”, desafia os homens a percorrer: é
preciso converter-se (isto é, deixar os esquemas de escravidão), ser batizado
(isto é, aderir a Jesus e segui-l’O) e receber o Espírito Santo (acolher no
coração a vida de Deus e deixar-se recriar, vivificar e transformar por ela).
Um só Pastor, uma comunidade de
iguais.
Chegamos ao IV domingo da Páscoa e nos toca o
Evangelho do Bom Pastor. Jesus diz de si mesmo que é o bom pastor, que conhece
às ovelhas por seu nome. Traduzido a nossa linguagem: Jesus é nosso pastor e
conhece-nos à cada um por nosso nome. Mais traduzido: nele temos nome, rosto,
identidade; nele nos reconhecemos como pessoas livres e responsáveis.
Mais ainda: ante Jesus reconhecemos-nos como filhos
de Deus. O Senhor ressuscitado converte-se em nosso irmão maior. Convoca-nos e
nos senta à mesa dos filhos, em torno do Pai, seu Abbá, o que nos criou e nos
cria, nos mantém na vida e nos abre a um futuro de Vida Plena, nos enche de
esperança e de sentido.
Assim o compreenderam, no Evangelho da semana
passada os dois de Emaús. Por isso mudaram de direção e de espírito. Da
decepção passaram ao entusiasmo e os que se afastavam de Jerusalém voltaram a
Jerusalém.
Só um pastor, só um Senhor
As palavras de Jesus têm-nos que fazer pensar duas
coisas. Em primeiro lugar, não há mais que um pastor. Jesus é o único pastor e
todos os demais somos membros de seu rebanho. Mas estes exemplos não devem ser
tomar ao pé da letra. Que sejamos parte do rebanho não quer dizer que sejamos
exatamente como as ovelhas (animais mais bem tontos, guiados pelos latidos dos
cães pastores e pela voz e as pedras do pastor, preocupados apenas remoer a
erva do campo pelos quais são levadas).
Se em Jesus nos reconhecemos como filhos, se em
Jesus nos reconhecemos como pessoas livres, então somos membros de uma
comunidade de homens e mulheres livres, voluntariamente irmãos e irmãs desde a
fé no Abbá de Jesus. Uma comunidade fraterna de iguais. Com um só Pastor e um
só Senhor: Jesus.
Todos somos pastores
Em segundo lugar, todos somos pastores de nossos
irmãos (na carta aos Hebreus se diz que todos somos sacerdotes, profetas e
reis!). Todos somos responsáveis uns pelos outros e pela comunidade. Se
fôssemos ovelhas, então não teríamos essa responsabilidade. Mas somos filhos,
somos pessoas adultas e responsáveis.
Por isso a fraternidade é mais que uma fonte de
direitos, origem de obrigações e deveres. O bem-estar e a felicidade de meus
irmãos e irmãs, de toda a humanidade, são de minha responsabilidade.
Meu próprio bem-estar e felicidade dependem de que
meus irmãos se sintam bem e sejam felizes. Assim é a família de Deus, assim é
como Deus nos quer. Esse foi o sonho de Jesus. Isso era o que queria dizer
quando falava do Reino.
Orar pelos “pastores”
Na comunidade cristã existem também os que têm uma
verdadeira responsabilidade: sacerdotes, bispos, cardeais, o Papa, mas também
agentes de pastoral, responsáveis de comunidades, catequistas, educadores...
Todos eles formam, e também nos formamos parte do mesmo rebanho. Somos
“ovelhas” como os demais. Fomos chamados a fazer um serviço.
Hoje imploramos a oração de nossos irmãos e irmãs
para que não usemos mal a responsabilidade que nos tem confiado, para que
sejamos para valer servidores, para que não nos sintamos superiores nem vejamos
aos demais como “ovelhas” no pior dos sentidos, para que trabalhemos sem
descanso pelo bem da comunidade e da cada um dos filhos e filhas de Deus, que
são todos os homens e mulheres deste mundo, para que todos se cheguem a
reconhecer em Jesus, o único pastor - não o esqueçamos -, como filhos de Deus,
como pessoas livres e responsáveis, chamadas a dar sua própria resposta ao
chamado de Deus.
Fernando Torres
«Eu vim para que tenham vida e a
tenham em abundância»
«Eis o que diz o Senhor: "Eis que Eu mesmo
cuidarei das minhas ovelhas"». […] Foi sem dúvida o que Ele fez, é o que
voltará a fazer: «Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas […] como o
pastor se preocupa com o seu rebanho» (Ez. 34,10-14). Os maus pastores não
tiveram cuidado nenhum, pois não resgataram as ovelhas com o seu sangue. «As
minhas ovelhas escutam a minha voz» (Jo. 10,27). «Reconduzi-las-ei de todas as
partes por onde tenha sido dispersas, num dia de nuvens e de trevas.
Arrancá-las-ei de entre os povos e as reunirei dos vários países, a fim de as
reconduzir à sua própria terra e as apascentar nos montes de Israel, nos vales
e em todos os lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas
pastagens; o seu pasto será nas montanhas elevadas de Israel» (cf Ez. 34,10-14)
Essas «montanhas de Israel» são os autores das
Sagradas Escrituras. Eis as pastagens onde precisais de vos alimentar, se
quereis fazê-lo em segurança (Sl 80,2-3). Saboreai tudo o que por lá
aprenderdes e rejeitai tudo o que lá não estiver. Não vos percais no ruído,
escutai a voz do pastor. Reuni-vos nas montanhas da Sagrada Escritura. Lá
encontrareis verdadeiras delícias para o vosso coração; não encontrareis nada
de venenoso, nem de perigoso: são pastagens ricas; […] «levá-las-ei ao longo
dos rios aos melhores lugares». Desses montes de que vos falamos escorrem os
rios da pregação do Evangelho, uma vez que a sua palavra «ressoou por toda a
terra» (Sl. 19,5) e que todos os lugares da terra oferecem às ovelhas pastagens
agradáveis e abundantes.
«Eu as apascentarei em boas pastagens» e aí será o
seu redil, isto é, será aí que elas repousarão, aí poderão dizer: «Bom é estar
aqui; é verdade, é muito claro, encontramos a verdade.» Elas repousarão na
glória de Deus, como no seu redil.
Santo Agostinho
No texto do evangelho de são João proposto para
este domingo, chamado domingo do Bom Pastor, estão entrelaçadas duas imagens: a
porta e o pastor.
Jesus serve-se de duas situações comuns no seu
tempo. A primeira situação refere-se ao recinto fechado no qual eram guardados
vários rebanhos durante a noite, com um dos pastores a vigiar, enquanto os
outros dormiam. De manhã, cada pastor ia buscar as suas ovelhas, chamando-as
pelo nome; cada rebanho seguia o seu pastor, porque estavam habituadas à sua
presença e à sua voz. Outra situação era o recinto junto de casa para um só
rebanho; este recinto era rodeado por muros de pedra e algumas plantas; a
«porta» era o próprio pastor que aí se colocava.
Jesus afirma: «Eu sou a Porta», evidentemente com
dois sentidos diversos: é a porta através da qual através da qual passa o
pastor e a porta através da qual passam as ovelhas.
No primeiro caso, Jesus afirma que quem quer ser
pastor das ovelhas deve estar em comunhão com ele, de contrário é um salteador.
No segundo diz-se que o único verdadeiro acesso à salvação é o próprio Jesus.
É preciso ter em conta que depois deste texto vem o
episódio do cego de nascença (c. 11), com o confronto com os guias de Israel
que decidiram expulsar da comunidade quem reconhece Jesus como Messias. Estes
sacerdotes e fariseus pretendem ser pastores de Israel e expulsam o cego
curado. Vê-se claramente que não se interessam com as ovelhas. A estes Jesus
chama cegos e guias cegos que estão convencidos que vêm muito bem. Perante
isto, Jesus reivindica ser a única porta de acesso à vida, à salvação.
Os verbos unidos a Bom Pastor fazem-nos perceber
qual é a sua missão: «abre», isto é, abriu a passagem para a vida nova fechada
pelo pecado e pela morte; «chama» a possuir a sua própria vida; «conduz», isto
é, está sempre conosco, alimenta-nos, ama-nos; «caminha à frente, indicando-nos
o caminho e mostrando-nos em si mesmo o cumprimento das suas promessas, uma das
quais a ressurreição.
A resposta dos féis (ovelhas) apresenta um
dinamismo de conversão bastante sublinhado pelos verbos «escutar», «conhecer» e
«seguir». Daqui nasce a resposta a um chamamento claro e inequívoco à «vida».
Só quem está atento à voz do Pastor, à sua Palavra, pode conhecê-lo, ou seja,
fazer uma expe-riência de comunhão com aquele que nos convida a fazer comunhão
com os outros, em atitude de serviço. E convida-nos a segui-lo, na mesma
atitude de entrega e serviço a caminho da Vida.
padre Franclim Pacheco
Jesus é o Bom Pastor
Jesus é o Bom Pastor que veio para que todos tenham
vida em abundância. O pastor era a imagem e o símbolo do líder. Jesus diz que
muitos se apresentavam como pastor, mas na realidade eram ladrões e
assaltantes. Hoje acontece a mesma coisa. Muitas pessoas se apresentam como
líderes, mas na realidade são ladrões e assaltantes, pois, em vez de servir,
buscam os seus próprios interesses. E, às vezes, têm uma fala tão mansa e fazem
uma propaganda tão inteligente, que conseguem enganar o povo.
Situando
1. O discurso sobre o Bom Pastor traz três
comparações ligadas entre si:
a) pastor e assaltante (Jo. 10,1-5);
b) comparação: Jesus é a porteira das ovelhas (Jo.
10,6-10);
c) comparação: Jesus não é simplesmente um pastor,
e sim o Bom Pastor
(Jo. 10,11-18).
2. Temos aqui outro exemplo de como foi escrito o
Evangelho de João.
O discurso de Jesus sobre o Bom Pastor (Jo 10,1-18)
é como um tijolo inserido numa parede já pronta. Com ele a parede ficou mais
forte e mais bonita. Imediatamente antes, em Jo 9,40-41, João falava da
cegueira dos fariseus. A conclusão natural desta discussão sobre a cegueira
está logo depois, em Jo 10,19-21. Ora, o discurso sobre o Bom Pastor foi
inserido aqui, porque, como veremos, ensina como tirar esse tipo de cegueira
dos fariseus.
Comentando
1. João 10,1-5: 1ª Imagem: entrar pela porteira e
não por outro lugar
Jesus inicia o discurso com a comparação da
porteira: “Quem não entra pela porteira, mas sobe por outro lugar, é ladrão e
assaltante! Quem entra pela porteira é o pastor das ovelhas!” Para entender
esta comparação, temos que lembrar o seguinte. Naquele tempo, os pastores
cuidavam do rebanho durante o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas
para um grande redil ou curral comunitário, bem protegido contra ladrões e
lobos. Todos os pastores de uma mesma região levavam para lá o seu rebanho. Um
porteiro tomava conta durante a noite. No dia seguinte, de manhã cedo, o pastor
chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. O pastor entrava e
chamava as ovelhas pelo nome. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor,
levantavam e saíam atrás dele para a pastagem. As ovelhas dos outros pastores
ouviam a voz, mas não se mexiam, pois era uma voz estranha para elas. De vez em
quando, aparecia o perigo de assalto. Ladrões entravam por um atalho ou
derrubavam a cerca do redil, feita de pedras amontoadas, para roubar as
ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois lá havia o guarda que tomava
conta.
2. João 10,6-10: 2ª Imagem: Jesus é a porteira
Os ouvintes, os fariseus (Jo. 9,40-41), não
entenderam o que significava “entrar.
pela porteira”. Jesus então explicou: “Eu sou a
porteira das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e
assaltantes.” De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente,
se referia a líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas que não respondiam
às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem do povo, e sim no
próprio bolso e nos próprios interesses. Enganavam o povo e o deixavam na pior.
Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para
discernir quem é pastor e quem é assaltante, é a defesa da vida das ovelhas.
Jesus pede para o povo tomar a iniciativa de não seguir o fulano que se
apresenta como pastor, mas não busca a vida do povo. É aqui que ele disse
aquela frase que até hoje cantamos: “Eu vim para que todos tenham vida, que
todos tenham vida plenamente!” Este é o critério.
3. João 10,11-15: 3ª Imagem: doar a vida pelas
ovelhas
Jesus muda a comparação. Antes, ele era a porteira
das ovelhas. Agora, diz que é o pastor. Todo mundo sabia o que era um pastor e
como ele vivia e trabalhava. Mas Jesus não é um pastor qualquer, e sim o Bom
Pastor! A imagem do bom pastor vem do AT. Dizendo que
é o Bom Pastor, Jesus se apresenta
como aquele que vem realizar as promessas
dos profetas e as esperanças do povo.
Há dois pontos em que ele insiste. Na defesa da vida das ovelhas: o bom
pastor dá a sua vida. No mútuo entendimento entre o pastor e as ovelhas: o
pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o pastor. Assim, para quem quer
vencer sua cegueira é importante conferir a própria opinião com a do povo. Era
isso que os fariseus não faziam. Eles desprezavam as ovelhas e chamavam-nas de
povo maldito e ignorante (Jo 7,49; 9,34). Jesus, ao contrário, dizia que no
povo há uma percepção infalível para saber quem era o bom pastor. Os fariseus
pensavam ter o olhar certo para discernir as coisas de Deus. Na realidade eram
cegos. O discurso sobre o Bom Pastor ensina duas regras de como tirar este tipo
de cegueira. 1) Prestar muita atenção na reação das ovelhas, pois elas
reconhecem a voz do pastor. 2) Prestar muita atenção na atitude daquele que se
diz pastor para ver se o interesse dele é a vida das ovelhas, sim ou não, e se
ele é capaz de dar a vida pelas ovelhas.
4. João 10,16-18: A meta aonde Jesus quer chegar:
um só rebanho e um só pastor
Jesus abre o horizonte e diz que tem outras ovelhas
que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a voz de Jesus, mas quando a
ouvirem, vão perceber que ele é o pastor e vão segui-lo. Aqui transparece a atitude
ecumênica das comunidades do Discípulo Amado, de que falamos na Introdução.
Alargando
A imagem do pastor na Bíblia
Na Palestina, a sobrevivência do povo dependia em
grande parte da criação de cabras e ovelhas. A imagem do pastor guiando suas
ovelhas para as pastagens era conhecida por todos, como hoje todos conhecem a
imagem do motorista de ônibus. Era normal usar a imagem do pastor para indicar
a função de quem governava e conduzia o povo. Os profetas criticavam os reis
por serem maus pastores que não cuidavam do seu rebanho e não o conduziam para
as pastagens (Jr. 2,8; 10,21; 23,1-2). Esta crítica dos maus pastores cresceu
na mesma medida em que, por culpa dos reis, o povo foi levado para o cativeiro
(Ez. 34,1-10; Zc. 11,4-17).
Diante da frustração sofrida com os desmandos dos
maus pastores, aparece a comparação com o verdadeiro pastor do povo, que é o
próprio Deus: “O Senhor é meu pastor nada me falta!” (Sl 23,1-6; Gn 48,15). Os
profetas esperam que, no futuro, Deus venha, ele mesmo, como pastor guiar o seu
rebanho (Is 40,11; Ez. 34,11-16). E esperam que, desta vez, o povo saiba
reconhecer a voz do seu pastor: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” (Sl. 95,7).
Esperam que Deus venha como Juiz que fará o julgamento entre as ovelhas do
rebanho (Ez. 34,17). Surgem o desejo e a esperança de que, um dia, Deus suscite
bons pastores e que o messias seja um bom pastor para o povo de Deus (Jr. 3,15;
23,4).
Jesus realiza esta esperança e se apresenta como o
Bom Pastor, diferente dos assaltantes que roubavam o povo. Ele se apresenta
também como o Juiz do povo que, no final, fará o julgamento como um pastor que
sabe separar as ovelhas dos cabritos (Mt 25,31-46). Em Jesus se realiza a
profecia de Zacarias que diz que o bom pastor será perseguido pelos maus
pastores, incomodados pela denúncia que ele faz: “Vão bater no pastor e as
ovelhas se dispersarão!” (Zc 13,7). No fim, Jesus é tudo: é a porteira, é o
pastor, é o cordeiro!
Mesters, Lopes e Orofino